PARTE VI – SLOW AND STEADY
Gregory acordou ao som de God Save the Queen. Ele achou que talvez ainda estivesse dentro de seu sonho – um maravilhoso sonho envolvendo Mycroft e uma jacuzzi. Ele piscou, notando pela claridade que era cedo, muito cedo. E ele continuava ouvindo a música, mesmo estando acordado. Então, para sua surpresa maior, a música foi interrompida pela voz que ele esperara duas semanas para ouvir.
- Mycroft Holmes. – a voz era baixa e cuidadosa, como se temesse acordá-lo. Greg continuou virado para a porta do quarto, fingindo dormir. Será que ele estava alucinando? Talvez a enfermeira houvesse errado a dosagem dos analgésicos? – Sim, Anthea, estou no hospital. Passe em casa e pegue uma troca de roupa para mim, por favor. Sim, depois vamos direto para o escritório. Estou aguardando. – Greg conteve a respiração, tentando não se mexer. – Bom dia, meu querido. Eu vejo que você já está acordado. – a voz continuava baixa, mas repleta de um calor e um carinho que fizeram as entranhas de Greg dissolverem-se, e ele virou-se com um sorriso enorme no rosto. – Sentiu minha falta?
- Seu maldito bastardo. É claro que eu senti sua falta! – Greg mexeu em um pequeno botão, e colocou a cama em uma posição sentada – Agora será que você pode trazer seu traseiro governamental até aqui e me cumprimentar adequadamente? – Mycroft soltou uma risada suave, e sentou-se na borda da cama. Ele passou a mão no rosto áspero de Gregory, o polegar traçando o contorno dos lábios, enquanto seus olhos mergulhavam nas profundezas mornas do olhar do policial. Só então ele inclinou-se e tocou nos lábios de Gregory com os seus, sentindo toda a tensão terrível que tomara sua vida nas últimas semanas dissolver-se como mágica. Greg ergueu a mão direita e agarrou-o pela nuca, aprofundando o beijo, invadindo a boca de Mycroft com uma língua ávida e saudosa. Mycroft deixou sua mão deslizar numa carícia demorada ao longo do pescoço de Greg, descendo em direção ao peito, evitando cuidadosamente a bandagem no ombro, até alcançar a mão que pendia da tipóia, e envolver cuidadosamente os dedos com os seus. Eles romperam o beijo em busca de ar, e Greg recostou-se nos travesseiros, sorrindo, enquanto Mycroft se inclinava para beijar-lhe as pontas dos dedos. – Imagino que o fato de acordar às... – Greg relanceou o olhar para o relógio na parede – cinco da manhã e encontrar você aqui significa que o mundo não vai mais explodir em um holocausto nuclear? – ele brincou, mas viu a expressão do político endurecer em uma máscara impenetrável que lhe dava calafrios (do tipo errado) – É só uma piada, My, eu realmente entendo o sentido de confidencialidade do seu trabalho. – ele deu seu sorriso torto e maroto, que sempre derretia Mycroft. – Só é divertido provocar você. – Mycroft estreitou os olhos, os lábios curvando-se em um sorriso mínimo.
- Não acho que você esteja em condições de me provocar, Gregory. – ele praticamente ronronou o nome do outro, e Greg sentiu seu corpo reagir imediatamente, de uma maneira muito pouco adequada para um ambiente hospitalar.
- Bastardo. – ele rosnou, e Mycroft deu uma risada breve.
- Mas você adora. – os olhos castanhos se suavizaram, enquanto o inspetor inclinava a cabeça e sorria levemente.
- Adoro mesmo. – um tom rosado tomou o rosto pálido e aristocrático do político, que desviou o olhar, com um sorriso tímido que fazia Greg querer pular da cama e beijá-lo até que toda a insegurança de Mycroft desaparecesse. O político pigarreou para firmar a voz.
- Então, você quer que eu traga algo de casa para você? Roupas, alguns livros, quem sabe? – a entonação que Mycroft sempre colocava inconscientemente ao dizer a palavra "casa" lhe fazia sorrir todas as vezes.
- Ah, por favor! Finalmente posso me livrar dessas malditas camisolas, eu não aguentava mais. Não sei... – ele correu a mão pelo cabelo e esfregou a barba por fazer. – meu barbeador, pra começar. Não quero deixar seu rosto em carne viva cada vez que você aparecer aqui. – Mycroft riu e assentiu. – Shampoo, desodorante, essas coisas. Algumas calças de abrigo e camisetas, uns dois ou três pijamas. Roupa íntima, claro. Não quero as enfermeiras vendo nada que não seja da conta delas por acidente. – ele carranqueou e Mycroft soltou outra risada. – E os livros que estão na cabeceira da cama. Isso deve me ocupar pelas próximas duas ou três semanas em que eu ainda vou ficar de castigo por aqui. – Mycroft assentiu e ergueu-se da cama, espreguiçando-se e fazendo uma careta ao ouvir os estalos vindos de sua coluna.
- Oh, Deus, eu não tenho mais idade para dormir em cadeiras e poltronas. Vou pedir que alguém traga suas coisas o mais cedo possível, meu querido. – Gregory franziu a testa, e Mycroft olhou-o, a cabeça inclinada – Qual o problema? – Gregory pareceu constrangido por um instante, antes de murmurar, olhando para o próprio colo.
- Eu gostaria que você trouxesse... – Mycroft arqueou a sobrancelha. Gregory elaborou – Sei que é uma bobagem sentimental, mas não nos vemos há duas semanas, e eu ficaria mais feliz se você arrumasse as coisas que eu vou precisar, ao invés da sua assistente ou outro empregado qualquer.
- Gregory... – a voz de Mycroft não era mais que um sussurro, enquanto ele se aproximava novamente da cama. Ele tomou o queixo de Gregory e forçou-o a encará-lo – Eu só estava pensando na praticidade e comodidade em ter suas coisas aqui o mais breve possível. Perdoe-me por não considerar o aspecto emocional que isso poderia ter para você. – ele inclinou-se e beijou a fronte do policial – Se você não se importa de esperar, assim que eu tiver um intervalo entre hoje e amanhã, eu trago as suas coisas. – Gregory parecia levemente constrangido, mas satisfeito. Uma batida leve na porta interrompeu-os, e Mycroft endireitou-se. – Entre, Anthea. – a assistente entrou, um porta-terno em uma mão e seu inseparável Blackberry na outra.
- Bom dia, Detetive-Inspetor, senhor. O senhor tem quinze minutos para ficar pronto. – ela entregou-lhe o porta-terno, do qual também pendia uma grande sacola preta de papel. Mycroft tomou as coisas em suas mãos, murmurando um "Obrigado, minha cara", e entrou no banheiro conjugado ao quarto. Greg olhou para Anthea e fez menção de falar, mas foi cortado – O café da manhã estará no escritório, e eu vou me certificar de que ele coma apropriadamente. – ela falou, sem erguer os olhos do telefone.
- Obrigado, Anthea. Agora, aproveitando que ele está no banho, confesse: ele comeu direito nessas duas semanas? Ou dormiu? – Anthea hesitou, mas suspirou em derrota.
- É claro que não. Tomou bules e bules de café e chá, às vezes eu conseguia força-lo a comer um sanduíche; houve uns dois jantares com autoridades, mas comida coreana não é exatamente a favorita dele. E quanto a dormir... você conhece ele tão bem quanto eu. Alguns cochilos de uma ou duas horas foi o máximo que ele conseguiu. – Gregory respirou fundo, sentindo um misto de irritação e preocupação. Esses malditos Holmes e sua completa desconsideração quanto às necessidades básicas do corpo!
- Enquanto eu estiver preso neste bendito hospital, ele não vai se cuidar decentemente, eu sei. Mas por favor, Anthea, cuide ao menos pra que ele coma algo mais substancial do que chá e muffins durante o dia. – ele deu um sorriso malvado, levantando as sobrancelhas. – Se você fizer isso, eu consigo umas fotos antigas da Sally de uniforme. – os olhos azuis de Anthea desgrudaram da tela do celular e encararam Greg por uma fração de segundo.
- Feito.
Alguns minutos depois, Mycroft saiu do banheiro, e Greg sentiu a boca ressecar ao enxerga-lo. O cabelo avermelhado estava úmido do banho, perfeitamente penteado. Ele envergava um terno preto risca-de-giz, com uma camisa num pálido tom de azul e gravata púrpura; usava o prendedor de gravata que ganhara de Greg, e era possível ver a corrente dourada do relógio de bolso pendendo do colete. O cheiro amadeirado da colônia que ele sempre usava foi como um golpe nos sentidos de Greg; ele só conseguiu ficar parado, encarando Mycroft, a boca entreaberta, enquanto seu cérebro tentava acompanhar a ideia de que aquele homem – aquele brilhante, aristocrático, poderoso, belo homem – abrira um espaço em sua vida para ele. Mycroft ergueu uma sobrancelha bem desenhada diante da expressão perplexa de Greg.
- Está tudo bem, Gregory? – a voz polida e levemente divertida arrancou o policial do transe, e ele deu uma risada constrangida.
- Eu só estava pensando em como eu sou, parafraseando John, um "bastardo sortudo". – o olhar de Mycroft suavizou-se, e ele aproximou-se da cama para beijar Gregory.
- Então somos dois.
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- Esta mala não é minha. – Gregory afirmou, na manhã seguinte, ao ver Mycroft entrar no quarto do hospital arrastando atrás de si uma mala azul brilhante, onde era possível ver as iniciais GJL bordadas a um canto. – Eu nem mesmo tenho malas. Apenas bolsas de viagem. – Mycroft sorriu enquanto deixava a mala ao pé da cama e se inclinava para beijar Greg. – Huum, bom dia, My. – o policial murmurou, satisfeito.
- Bom dia, meu querido. – ele colocou a bagagem sobre uma cadeira ao lado de um pequeno gaveteiro e começou a guardar as roupas e itens de toalete que trouxera para Gregory, rápida e organizadamente. – Eu tomei a liberdade de comprar um conjunto apropriado de malas para você.
- Mycroft... – Gregory suspirou, chateado. – Eu não gosto que você fique comprando coisas para mim a toda hora. – Mycroft virou-se, um sorriso mínimo brincando nos lábios finos.
- E de onde veio a ideia de que eu não vou lhe cobrar nenhuma... compensação pelo incômodo? – Greg sentiu o corpo reagir ao tom de voz rouco e murmurado de Mycroft, e tentou evitar o sorriso que tomava seus próprios lábios.
- Nós vamos retomar essa conversa no minuto em que eu receber alta. – ele afirmou, apontando para Mycroft.
- Promessas, promessas... – o político murmurou, ajeitando os livros na mesa de cabeceira. – De qualquer jeito, você não vai ter alta por pelo menos mais duas semanas. – Greg gemeu e jogou-se contra os travesseiros, puxando a colcha até que cobrisse sua cabeça.
- Não me lembre disso. Eu odeio hospitais. Odeio ficar internado. Odeio, odeio, odeio!
- Então você deveria evitar tiros. – Greg destapou a cabeça e carranqueou.
- Haha. Você é hilário, Mycroft. – ele observou o político, enquanto ele se acomodava elegantemente na poltrona, cruzando as longas pernas. – Estou falando sério, não importa quantos romances eu leia, quantos canais a cabo eu tenha a disposição ou quantas visitas eu receba, vão ser duas semanas infernais. Tudo que eu queria era dormir na minha própria cama. Na nossa cama. Enroscado em você, de preferência. – Greg nunca ia se cansar do rubor leve que tomava o rosto de Mycroft quando ele lhe fazia algum elogio ou pequeno galanteio. – Eu falo sério. Mesmo que você trabalhe todos os dias da minha licença e só consiga voltar pra casa durante três horas por noite para cochilar, ainda assim eu vou ficar feliz. Três horas inteirinhas de você só pra mim... mal posso esperar. – ele deu aquele seu sorriso infantil, e Mycroft não resistiu e espelhou-o.
- Na verdade, Gregory... eu tomei a liberdade de fazer alguns arranjos para as duas semanas de licença que você vai ter antes de voltar para a Yard...
- Para dois meses de trabalho burocrático, preso atrás de uma mesa. – ele interrompeu bufando – Malditos regulamentos. – Mycroft franziu a testa e respondeu secamente.
- Você teve o baço removido e colocou uma placa de titânio no quadril, Gregory. Dificilmente eles o colocarão pra correr atrás de serial killers no momento em que você pisar no seu escritório. De qualquer jeito, como eu dizia, fiz alguns arranjos. Ao invés de ficarmos no nosso flat em Londres, vamos para uma de minhas residências seguras, em Surrey.
- Surrey?
- Sim, imaginei que um tempo afastado de todo o barulho e correria de Londres ia nos fazer bem. Nessas duas semanas, eu vou trabalhar exclusivamente em casa. Claro, vou passar a maior parte do tempo no escritório, ao telefone e em videoconferências, mas vou poder vê-lo sempre que eu tiver alguns segundos para respirar. – ele sorriu, esperando a reação de Gregory, que foi exatamente a que ele esperava: estender o braço e puxá-lo pela gravata para um beijo duro. Ele sorriu ao romper o beijo e acariciar o rosto do policial – Eu já mencionei que há uma varanda adorável nos fundos com um balanço, muita privacidade, e de onde se tem uma vista maravilhosa do pôr-do-sol? – ele ronronou, e viu as pupilas de Gregory dilatarem-se, captando exatamente o que ele queria dizer. – Então, meu querido, é bom você fazer tudo o que os médicos mandarem para sair deste hospital na data prevista.
- E então você é meu por duas semanas inteirinhas... – Gregory acariciou a nuca de Mycroft exatamente no ponto mais sensível, fazendo o político arrepiar-se inteiro.
- O máximo que o Governo me permitir, pelo menos.
- Ah, mas o Governo pode tirar alguns intervalos de dez minutos ao longo do dia... – ele ergueu as sobrancelhas, e Mycroft olhou-o com falso desdém.
- Dez minutos, Gregory? Quantos anos você acha que eu tenho, dezesseis?
- Não, My... é que eu sou muito bom.
Desnecessário dizer que, naquela tarde, Mycroft Holmes não conseguiu trabalhar muito bem.
