CAPÍTULO 7 – O Julgamento de Sirius

O grupo permaneceu os dias seguintes reunido na mansão Greengrass, e houve muito que fazer. Relatos de vida e confissões íntimas alternavam-se com pesquisas esotéricas de magia avançada e reuniões de planejamento para elaboração de estratégias contra todo tipo de cenário que Voldemort pudesse causar.

Por recomendação de Susana, Harry contratou um advogado renomado para defender Sirius no julgamento. Malcolm Boot, pai de Terry, um dos garotos de Corvinal no mesmo ano que Harry, veio à mansão após prestar para Susana um juramento de confidencialidade padrão. Harry apresentou suas memórias mais importantes para o caso em sua penseira, convencendo Malcolm da inocência de seu padrinho.

As irmãs Carrow ficaram impressionadas com a ilha de Harry e vinham orientando Dobby e vários élfos de Hogwarts sobre os reparos necessários para tornar o local habitável rapidamente.

A análise das descobertas e ideias de Lily também avançava rapidamente, e já apresentava vários resultados úteis. Um deles era o método para enfeitiçar dois espelhos de modo que cada um servisse de transmissor e receptor de imagem e som para o outro, permitindo comunicação instantânea e totalmente segura. Outra descoberta fantástica era uma forma de proteger equipamentos eletrônicos da influência da magia por meio de uma fina camada de cristal sobre os circuitos, suficiente para impedir que a magia chegasse aos delicados componentes. Mas nem todas as ideias de Lily eram tão diretas e específicas. Ela também inventara novos conceitos capazes de criar áreas totalmente novas na magia.

Uma dessas grandes ideias era a de feitiços compostos. A grande maioria dos feitiços era do tipo mais simples possível, realizados por uma única pessoa em um único encantamento. Alguns profissionais, como duelistas e encantadores, haviam criado alguns conjuntos de feitiços para serem executados em uma sequência visando a criação de um resultado único complexo. A professora McGonagall havia mostrado para eles um desses conjuntos no ano anterior, quando ela conjurara um bloco de mármore, depois transfigurara esse bloco em uma estátua de um coelho e por fim animara a estátua a se mover como um coelho de verdade, tudo em uma sequência contínua de movimentos e encantações. Por fim, uma terceira forma de usar feitiços era a combinação de esforços de vários magos e bruxas usando um mesmo feitiço simultaneamente, para obter resultados que um deles sozinho não conseguiria. Isso era comum em construção mágica, por exemplo, quando era necessário levitar um grande bloco de pedra que rapidamente exauriria uma única pessoa devido seu enorme peso.

Lily fora muito além dessas três formas, criando, via intenso uso de Aritmância, alguns feitiços realmente poderosos e complexos a serem executados por várias pessoas ao mesmo tempo, cada uma delas podendo estar auxiliando outra no mesmo feitiço ou fazendo algo completamente diferente, mas igualmente importante para o resultado final. Era uma ideia relativamente simples, mas que havia escapado à sociedade mágica até então, e que criava o potencial de extrapolar em muito aquilo que era possível fazer com magia.

Enquanto a maioria do pessoal mágico escolhia uma área única para especialização e então dedicava toda sua vida a essa área única, Lily aparentemente havia sido genial em todas as áreas e muitas de suas melhores ideias combinavam resultados de diferentes áreas para obter resultados novos e inesperados. Um exemplo que animou muito a todos foi a forma como Lily desenvolvera, fazendo uso conjunto de runas, cristais, poções e feitiços, um método totalmente novo e muito mais rápido e eficiente de desenvolver Oclumência, anulando a necessidade de anos de treino árduo e entediante para conseguir resultados nem sempre satisfatórios.

Outro resultado de Lily era uma poção binária, ou seja, na verdade duas poções que quando combinadas tinham um efeito devastador: tão explosiva quanto dinamite e tão incendiária quanto napalm. Separadas, eram inofensivas, mas se você colocasse uma delas dentro de um vidro frágil mergulhado em um recipiente contendo a outra parte, assim que o vidro no interior quebrasse, como aconteceria se você jogasse o conjunto contra o inimigo como se fosse uma granada, o efeito seria devastador. Katie sugeriu testar essa combinação dentro de um Quaffle que ela pudesse disparar contra os Comensais na copa de Quadribol. Com a eficiência da menina como atacante em Quadribol, era uma ideia a considerar.

-o0o-

"Vai ficar aí rindo ou vai ajudar seu pobre afilhado a sair do chão?" perguntou Harry irritado a seu padrinho após mais uma viagem conturbada pela rede flu. Sirius preferiu ficar rindo; Harry levantou-se sozinho e apresentou Malcolm Boot, que o seguira.

"Ei, de quem vocês compraram esse mausoléu, da família Addams?" perguntou Harry olhando para o lúgubre estado daquela sala. A iluminação era mínima, tudo cheirava a mofo e parecia ter séculos de idade, e os motivos de decoração um tanto góticos, para não dizer fúnebres. Infelizmente os dois adultos não tinham a mínima noção de qual seria essa família Addams.

"Essa casa sempre pertenceu aos Black, Harry. Percebe agora porque nunca gostei de minhas origens? Não foi à toa que fugi daqui com quinze anos para viver com seus avós" respondeu Sirius um pouco constrangido.

"Malcolm está seguro de que amanhã você será um homem livre novamente, Sirius, e poderá deixar essa casa para sempre, se quiser. Vou deixa-los para que preparem a estratégia, peço apenas que tenha em mente meu pedido" pediu Harry.

"Não se preocupe, Harry. Obter sua guarda será a única reparação que pedirei pelos anos que passei em Azkaban sem julgamento. Você não vai estar lá amanhã, mesmo?" respondeu Sirius.

"Se tudo correr bem Dumbledore não ficará sabendo de seu julgamento senão depois de concluído, mas ainda assim ele deve ter espalhado a notícia de meu desaparecimento entre seus amigos, e pode haver alguém lá que queira me reter por ordem dele. Isso é algo que quero evitar a todo custo. Mas não se preocupe, estarei acompanhando tudo como se estivesse lá através disso" comentou Harry, retirando de seu robe um espelho encantado.

"Você encontrou as notas de Lily sobre os espelhos dos Marotos?" perguntou Sirius, reconhecendo o que deveria ser aquele artefato.

"Encontrei anotações de minha mãe sobre tantas coisas! Nunca pensei que ela fosse tão inteligente!" respondeu Harry orgulhoso.

"Não estou a par de tudo o que ela fez, mas o que cheguei a ver era realmente fantástico. Pena que a maioria das vezes que ela tentava explicar algo eu ficava perdido após o primeiro minuto de teoria" disse Sirius, um olhar distante relembrando aqueles bons tempos.

-o0o-

Harry deixou seu padrinho e o advogado combinando a estratégia para o dia seguinte e foi até Gringotts, contratar alguns serviços especiais. O primeiro deles era a criação de uma cópia não protegida da biblioteca dos Potters. Harry decidiu que manteria os originais guardados em Gringotts por segurança, mas criaria uma cópia para ser transportada para a ilha quando pronta.

O segundo item na lista de Harry eram lâminas finas de cristal, para cobrir os circuitos eletrônicos dos equipamentos que ele queria poder utilizar em ambientes mágicos. Ninguém melhor que os duendes de Gringotts para esse tipo de trabalho. O item seguinte era uma extensa lista de ingredientes para poções, tanto para as medicinais que desejavam estocar quanto para estudar e testar as ideias de sua mãe. Como era uma compra grande, e alguns itens eram de venda restrita, Harry ofereceu aos duendes metade do desconto que conseguissem sobre a compra como comissão, sabendo que ainda assim obteria melhor negócio do que se tentasse barganhar diretamente com os fornecedores. Afinal, os duendes eram especialistas em negócios, enquanto que ele não tinha jeito nenhum para a função.

Depois de negociar a duplicação da biblioteca dos Carrows (as irmãs ficariam encarregadas de trazer os livros ao banco em lotes), Harry resolveu testar a sua sorte tentando descobrir o que mais os duendes poderiam obter para ele.

"Ironclaw, vocês por acaso teriam contatos com o mundo trouxa? Poderiam obter para mim alguns... itens especiais?"

"Sim, temos nossos contatos. Podemos conseguir praticamente qualquer tipo de item, pelo preço certo e a razão certa, se o item for de uso restrito" respondeu o duende, um olhar avaliador sobre o menino, curioso com o rumo que a conversa estava tomando.

"Vocês dispõem de algo similar a uma penseira?" perguntou Harry, achando que seria melhor fornecer alguma informação antes de prosseguir naquela direção.

Ironclaw pegou do comunicador em sua mesa e passou algumas ordens em sua língua para a pessoa do outro lado do instrumento. Logo um ajudante trazia e deixava sobre a mesa do seu gerente de conta uma penseira muito semelhante à usada pelos humanos.

Harry não perdeu tempo e depositou ali sua memória de seu confronto com Quirrelmort ao final de seu primeiro ano em Hogwarts, explicando a relação deles com a tentativa de roubo ocorrida em Gringotts no seu décimo-primeiro aniversário.

"Hum, curioso. Fico grato que tenha compartilhado essa memória comigo. Pena que tenha esperado tanto tempo para fazê-lo" comentou o duende, deixando claro que se sentia magoado por algo tão importante só estar sendo revelado agora. Harry achou melhor apaziguar um pouco o duende antes de prosseguir.

"Sinto muito, Ironclaw. Entenda que, até começar a estudar em Hogwarts, estive preso no mundo trouxa, sem saber da existência do mundo mágico. E, até recentemente, muitas coisas que eu deveria ter aprendido sobre o mundo mágico me foram negadas, ainda não sei em que extensão propositadamente ou por mero descuido."

"Sim, sim, de fato uma lástima" concordou Ironclaw, para alívio de Harry. "Parece que finalmente você se decidiu por sanar essa deficiência, pelo quão ativo tem estado este mês, não é?"

"Felizmente fiz algumas amizades genuínas recentemente que me tem ajudado muito, a sua inclusive" disse Harry, obtendo um raro sorriso do duende por ter se referido a ele como um amigo. "Pelo que pode ver nessa memória, minha fama é imerecida. Voldemort ainda está por aí, se bem que sem um corpo físico no momento. Mas isso significa que ele eventualmente voltará e reiniciará a guerra. Por um bom tempo ainda eu não terei condições de enfrentar a ele ou seus seguidores magicamente. Tenho uma pequena ilha bem escondida, que pode me dar alguma segurança, mas estava pensando em também obter algumas armas dos trouxas para completar minhas defesas..."

"Bem pensado, Harry. Você percebeu suas deficiências e está buscando formas de minimizá-las. Gosto disso! Por tradição, duendes tem uma nítida preferência por lâminas e escudos, mas cá entre nós, eu sou parcial com relação a esse brinquedinho" comentou Ironclaw, retirando do interior de seu paletó o maior revolver que Harry jamais vira.

"Uau! Isso mais parece um canhão de mão que um revólver!" comentou ele, estupefato.

"Isso é o que os trouxas chamam de um 44 Magnum, Harry. Tão poderoso que é preciso uma de nossas couraças duplas para deter a bala, uma simples não aguentaria. E nossas couraças são as melhores, posso lhe garantir isso com certeza, elas suportam um 'reducto' a queima-roupa! O mais poderoso dos magos com o mais resistente escudo mágico conseguirá evitar uma única bala antes de ver seu escudo se desfazer. Contra o escudo de um mago comum... tadinho do mago!"

"Não acho que eu ou minhas amigas teríamos condições de usar uma arma como essa, mas eu sei que há uma grande variedade de armas trouxas, e talvez algumas sejam úteis para nós."

Ironclaw ponderou por alguns momentos, e por fim perguntou: "Harry, por acaso haveria mais informações que você possui e de que não estamos informados, seja sobre Voldemort, seja sobre algum outro assunto que possa nos afetar de alguma forma?"

Harry usou então a penseira para mostrar a Ironclaw sua luta contra o basilisco e a destruição do diário. Isso tinha um propósito duplo, iniciar a negociação da carcaça do basilisco e introduzir os horcruxes como razão da sobrevivência de Voldemort.

"Horcruxes são as mais nefastas criações dos humanos. Sequer sabemos se funcionariam conosco, pois acredito que um duende jamais tentaria tamanha vilania. Quem ousasse tentar seria punido da forma mais radical possível, começando com a expulsão do infrator de seu clã e de sua nação com a completa extinção de todos os registros sobre sua existência, algo que para um de nós seria muito pior do que a morte" comentou Ironclaw ao saber dos horcruxes de Voldemort.

"Vocês por acaso saberiam como eliminar o fragmento de alma sem destruir o recipiente?" perguntou Harry esperançoso de encontrar com os duendes a resposta que os inomináveis estavam tendo dificuldades em conseguir.

"Infelizmente não. Muitas peças egípcias de valor precisaram ser destruídas por esse motivo. Realmente uma pena!"

"Sim, uma pena" comentou Harry, tentando esconder sua decepção. "E sobre as armas trouxas?" perguntou então ele, voltando a conversa para um assunto mais produtivo. "Acha que vocês poderiam conseguir para nós algumas peças realmente poderosas?"

"Podemos conseguir qualquer coisa que esteja disponível no mercado negro, Harry" garantiu Ironclaw. "Uma bomba nuclear ou um caça supersônico de última geração estão fora de questão, mas a maioria das armas pessoais e alguns canhões e sistemas de mísseis de menor alcance e potência são possíveis. Você comentou que seu grupo tem algumas limitações, não é? Garotas de sua idade, sem a força ou a experiência necessária para usar certos equipamentos? Talvez o ideal seja você fazer uma lista do que deseja. Eu então verificarei se posso atendê-lo com os itens solicitados ou algum similar."

-o0o-

Quando Harry retornou para a mansão Greengrass ele realmente tentou sair do flu sobre seus pés, e não sua bunda. Infelizmente ele nunca descobriu se seus esforços teriam sido bem sucedidos. Tão logo ele tentou firmar um pé para fora da lareira, ele foi atacado por um míssil loiro falando mais rápido do que seu pobre cérebro estava em condições de acompanhar.

"Harry! Bicicleta é a maior invenção da humanidade desde os pudins! Eu adorei! Você vai comprar uma para mim também, não vai? Por favor..."

Aquele 'por favor' foi dito de uma forma chorosa e arrastada, e parecia ter umas 12 sílabas. E os olhinhos azuis que estavam focados nos seus a apenas duas polegadas de distância brilhavam com tamanha felicidade que ele seria capaz de dar a própria vida para que eles assim continuassem. Aos poucos ele foi se inteirando de sua situação. Ele estava deitado no chão, recém saído da lareira. Deitada sobre ele e esperando sua resposta estava Luna. Cercando-os, um crescente aglomerado de meninas olhava a cena com expectativa. Ele podia apostar que, respondendo afirmativamente a Luna, receberia uma fila de outros pedidos. Derrotado antes mesmo de começar a lutar, ele se rendeu da forma mais digna que pôde.

"Dafne e Tori ficaram com catálogos da loja onde eu as comprei. Aquelas de vocês que quiserem, selecionem o modelo de sua preferência e quaisquer opcionais que desejem e eu farei a encomenda."

-o0o-

Após uma série de esfuziantes agradecimentos, Harry descobriu que a maioria das meninas havia passado a maior parte do dia concentradas em entender a posição de Dumbledore. Com todos os outros personagens do mundo mágico, era claro e fácil perceber o que queriam, mas com o velho reitor de Hogwarts suas ações não pareciam corresponder adequadamente nem à sua fama nem ao seu discurso.

"Eu, Tracy e Maebh fomos ao Ministério levantar alguns dados, que vamos agora resumir para vocês. Alvo Wulfric Dumbledore, e sim, inicialmente seu nome era assim apenas, foi contratado como professor de Alquimia, matéria então optativa para alunos dos últimos três anos, em 1926. Em 1935, com a morte de Paul Parkinson, então professor de Transfiguração e sub-reitor de Hogwarts, Alvo conseguiu que o então reitor, Armando Dippett, o colocasse nas funções do falecido, extinguindo o curso de Alquimia, junto com os cursos também optativos de Proteções Mágicas, Encantamentos e Política no Mundo Mágico" começou Lilith. "Achamos estranho que Dumbledore não só tivesse aceito como também fora o propositor para a retirada de Alquimia, um campo onde ficou tão famoso, do currículo de Hogwarts. Então, apenas por curiosidade, checamos o currículo de 1926 contra o atual. As mudanças são drásticas, e pior, incompreensíveis. OWLs eram aplicados no quarto ano, ao invés do quinto ano como agora. Herbologia e Astronomia eram optativas, enquanto que Rituais, Runas e Aritmância eram obrigatórias, assim como Sociedade Trouxa para os criados na sociedade mágica, e Sociedade Mágica para os criados na sociedade trouxa. Maebh, os números, por favor."

Maebh pegou um pergaminho de dentro de um bolso de seu robe e começou a expor sua parte: "Para OWLs, tínhamos então nove matérias obrigatórias e oito optativas, contra as sete obrigatórias e cinco optativas atuais. Para os NEWTs, a situação é ainda pior: antes os alunos eram requeridos a escolher um mínimo de sete entre vinte e duas opções; hoje eles podem se contentar com apenas três dentre um total de doze disponíveis. Vejam que não se trata apenas de uma redução no número de disciplinas fornecidas, mas do que se exige dos alunos também. A matéria coberta em nossos OWLs continua a mesma de 1926, exceto que agora dividida em cinco ao invés de quatro anos, e com outra configuração de matérias obrigatórias, favorecendo disciplinas mais fáceis e menos úteis que anteriormente. Com os NEWTs a situação se torna ridícula: o que nos ensinam hoje em dois anos é metade do que se ensinava em cada disciplina em 1926 em três anos, e com muito menos opções e menos matérias exigidas."

Aproveitando uma pausa, Bridget aproveitou para comentar: "Curioso que Hogwarts ensinava Rituais na época de meus avós e hoje eu seria presa se lesse um livro sobre o assunto em público!"

"E você sabe quem foi o principal motivador dessa proibição?" perguntou Tracy com um sorriso malicioso.

"Dumbledore?!" perguntou Bridget confusa e, recebendo aceno afirmativo da colega, completou: "Isso está ficando cada vez mais estranho! Onde esse velho gagá quer levar nossa sociedade?"

"Oh, deixe que eu e Lisa contemos nossa parte, por favor!" pediu Hannah. Lisa e Hannah moravam em Godric's Hollow, o local onde Harry e sua família viviam quando atacados por Voldemort. Por coincidência, Dumbledore também vivera lá em sua infância, e ainda lá vivia a famosa historiadora Bathilda Bagshot, avó materna de Lisa e a grande influência a levar a menina a gostar tanto de história da magia. E Lisa já sabia exatamente que perguntas usar com a avó para uma frutífera entrevista sobre o passado de Dumbledore e seus pequenos segredos comprometedores.

Depois de uma visita de duas horas e meia com a velha historiadora, Lisa e Luna retornaram com material suficiente para destruir a reputação do velho mago que tanto poder acumulara no mundo mágico. O grupo ficou estarrecido ao tomar conhecimento da extensão do relacionamento entre Dumbledore e Grindelwald, mas as fotos que as duas copiaram e trouxeram para o grupo, com os dois abraçados ou passeando de mãos dadas, não deixavam dúvidas.

"Enquanto isso é bom material para fofocas, não é o mais importante que descobrimos. Dumbledore e Grindelwald compartilharam mais do que uma cama, compartilharam também ideias e objetivos. Eles estavam chocados com a quantidade de coisas que achavam estar errada no mundo e, com a ingenuidade e idealismo dos jovens, quiseram juntar esforços para sanar o mundo" explicou Hannah.

"O que eles aceitaram como base foi a ideia do filósofo Jeremy Bentham de que 'é a maior felicidade para o maior número de pessoas que é a medida para o certo e errado'. Essa é a origem do 'Bem Maior' que Dumbledore vive citando em suas falas" explicou Lisa. "O problema que veio a afastar os dois jovens conspiradores é que eles não conseguiram entrar em acordo sobre quem seriam essas 'pessoas' cuja maior felicidade deveria ser buscada. Para Grindelwald seriam apenas as pessoas mágicas, enquanto Dumbledore queria incluir toda a espécie humana."

"Mas esse princípio é tão contestável!" reclamou Su Li. "Na China tivemos um filósofo chamado Xun Kuang uns três séculos antes de Cristo cujo principal dito era 'A natureza humana é má; e o Bem só pode ser obtido por atividade intencional'. O problema com a filosofia dele, assim como com a de Bentham, é que todas as coisas nesse mundo estão conectadas umas com as outras de tantas formas imprevisíveis e inusitadas que você só consegue avaliar todas as consequências de uma ação muito tempo depois de executá-la, e não antes, como necessita os sistemas deles. Um antepassado meu até criou uma pequena estória para exemplificar isso."

"Bem, conte-nos então essa estória" pediu Morag, recebendo apoio da maioria.

"Oh Céus!" enrubesceu a tímida chinesinha, mas resignou-se e começou: "É a estória do pequeno fazendeiro Chang Li. Um dia seu filho voltou para casa com um lindo alazão selvagem que ele havia capturado enquanto pastoreava. Os vizinhos logo fizeram fila e cumprimentavam Chang Li pelo belo animal, dizendo que o cavalo certamente era motivo de grande felicidade. Li limitou-se a responder de forma neutra, dizendo 'Pode ser que sim, mas pode ser que não'. No dia seguinte seu filho tentou domar o maravilhoso cavalo, mas recebeu um coice que quebrou-lhe um braço, impedindo-o de trabalhar por um tempo. Os vizinhos fizeram fila para visitar o filho do velho Li, dizendo ao velho 'Que tragédia!'. Li limitava-se a responder 'Pode ser que sim, mas pode ser que não'. Dois dias depois oficiais do imperador vieram convocar os jovens para lutar na guerra contra os mongóis, que ameaçavam a fronteira do norte. O filho de Li foi o único jovem a ser dispensado, devido a seu braço quebrado..."

"Já sei!" interrompeu a pequena Beatrice, "Os vizinhos vieram dizer 'Que sorte' e Li só respondia com 'Pode ser que sim, mas pode ser que não'."

"Pois é" respondeu Su enrubescendo ainda mais. "A estória contínua por muitas outras venturas e desventuras, mas acho que todos já puderam entender a essência..."

"Espere um pouco, parece haver algo muito importante aqui" pediu Trisha. "A posição de Grindelwald é simples, como ele mesmo mostrou. Ele queria uma sociedade estratificada, com os magos puros-sangues no topo, seguidos pelos meio-sangue, os nascido-trouxas e por fim a massa de trouxas como escravos. Mas como poderia ser essa sociedade que Dumbledore desejava? Se ele pregava o bem maior incluindo os trouxas, a sociedade teria que ser igualitária, mas o domínio de magia cria uma diferença que torna essa igualdade impossível. Eu não entendo..."

"A não ser que..." começou Katie, parando no meio da frase assustada, até exclamar um sonoro "Oh não! Não pode ser!"

"O que não pode ser, Katie" perguntou Mandy, mas Katie estava tão abalada com a ideia que tivera que foi Luna quem acabou respondendo.

"A não ser que a sociedade mágica venha a se extinguir, e veja quão perto estamos disso!" declarou a loirinha. "Harry mostrou seus cálculos de quantos alunos caberiam em Hogwarts, mas parece que a cada década são menos e menos a iniciar seus estudos."

"Os trouxas estão cada vez se tornando melhores na arte de matar, e de espionar uns aos outros. Com seus satélites artificiais, câmaras de monitoramento e outros equipamentos eletrônicos, pode ser que os governos já saibam da existência do mundo mágico, mas estejam guardando isso como segredo de Estado, não divulgando para a população" comentou Harry.

"E Dumbledore, permitindo as guerras entre seres mágicos se perpetuarem, e diminuindo drasticamente o nível de ensino, está ativamente colaborando para nossa extinção pelos trouxas" afirmou Fay, revoltada.

"Mas... não faz sentido!" protestou Mandy, confusa. "Dumbledore é um mago... e estaria nos traindo?"

"Se ele realmente defende o Bem Maior, e se realmente inclui os trouxas aí..." comentou Dafne com tristeza.

"A profecia! Ela faz sentido com Dumbledore!" comentou Astória subitamente, conseguindo a atenção de todos. "Eu... estive pensando... Não, é sério! Ouça e veja se faz sentido. Essa profecia, essa parte do sétimo mês e tal... isso determina que é de Potter que ela fala... Mas quanto a seu inimigo, bom, não é assim tão seguro que seja Voldemort, não acha? Por exemplo, ela indica que esse inimigo marcou Potter como um igual. De início pensamos na cicatriz de Potter como sendo a marca, mas ela não marca Harry exatamente como um igual não é? Pense um pouco sobre Dumbledore: ele é famoso em todo o mundo mágico por ter vencido um Senhor das Trevas, Grindelwald. E ele marcou Potter como um igual: é por causa das declarações dele que Potter ficou famoso em todo o mundo mágico por ter vencido um Senhor das Trevas, Voldemort. Dumbledore podia ter deixado tudo quieto, ou ter dito à todos que Harry também morrera, ou que foi um de seus pais quem liquidou Voldemort, mas não, ele colocou todo esse peso nos ombros de um garotinho de pouco mais de um ano de idade, realmente marcando Harry como seu igual."

O comentário de Astória matou a reunião. Em pequenos grupos de dois ou três eles se retiraram para a noite, e o dia especial que se seguiria, com o julgamento de Rabicho e Sirius, conversando baixinho sobre quem realmente seria e o que realmente queria aquela incógnita que era Dumbledore.

-o0o-

Finalmente chegara o dia do julgamento de Rabicho e Sirius Black. Por segurança, Harry acabou aceitando o conselho de ficar na mansão Greengrass. Susana iria com Hannah e Maebh levando um espelho encantando e os demais acompanhariam os julgamentos da mansão, pelo imenso espelho da sala de danças, encantado para receber a transmissão. Se a presença de Harry fosse necessária como testemunha, ele poderia rapidamente chegar lá pela rede flu, mas a intenção era evitar sua participação pelo receio de que Dumbledore ou algum de seus correligionários estivesse por lá e tentasse deter o garoto.

O período de preparação até o julgamento fora árduo para madame Bones. Começara com uma estranha carta de sua sobrinha Susana, pedindo um encontro com urgência. Bastou um rápido feitiço revelador para assegurar à severa senhora Bones que de fato o rato apresentado pela jovem acompanhante de sua sobrinha era de fato um animago não-registrado. Rever em casa as memórias de Astória Greengrass e Harry Potter sobre o confronto com Sirius Black e a revelação de que Pedro Pettigrew ainda vivia fora um choque.

Confirmando que Sirius Black de fato não recebera um julgamento, ou sequer um simples interrogatório, traçou os próximos passos de ação, mas a dificuldade de manter tudo em segredo foi enorme. No fim, ela acabou resolvendo manter Pettigrew preso na mansão Bones, longe de toda a corrupção ministerial, revelando o fato apenas a Alastor Moody, a única pessoa que ela podia confiar com total certeza em uma situação como aquela. Era um risco para ela adotar esse procedimento, totalmente fora do padrão, mas ela podia perceber que havia muito em jogo naquele caso. Por segurança, enquanto Pettigrew estivesse na mansão, ela concordou que Susana ficasse com as irmãs Greengrass. A convocação do Wizengamot para o julgamento trouxe outra preocupação: ela teve que mais uma vez contrariar os procedimentos padrões e negar a alguns membros daquele corpo pedidos de vistas aos processos antes da exposição em plenário. Por sorte, nenhum dos solicitantes forçou a situação, aceitando as desculpas dela de que o segredo era fundamental para garantir a segurança de todos os envolvidos.

Os trabalhos foram iniciados com a apresentação do ainda vivo Pedro Pettigrew, para espanto da audiência. Madame Bones tomou a promotoria e, três gotas de veritaserum e algumas perguntas e respostas depois, Pedro Pettigrew via sua Ordem de Merlin caçada e sua carcaça condenada a desaparecer através do véu da morte. Sendo um meio-sangue, e responsável pelo encarceramento errôneo do chefe de uma das mais conceituadas famílias mágicas da Grã-Bretanha, sua punição foi a mais severa possível, numa tentativa do Wizengamot de se reconciliar com o próximo Lorde Black. Face ao resultado do julgamento e as revelações apresentadas, a ordem para execução imediata de Sirius Black foi revogada.

Para um julgamento, o de Sirius Black transcorreu de forma excepcionalmente rápida e tranquila. Após o julgamento de Pettigrew, poucas dúvidas restavam a esclarecer. No entanto, uma pergunta aparentemente inócua de madame Bones acabou realçando um ponto obscuro na 'história oficial' daquele célebre Halloween: "Sirius Black, poderia nos contar por que decidiu partir à caça de Pedro Pettigrew ao invés de cuidar da proteção de seu afilhado, que deveria ser sua obrigação principal no momento?"

"Eu tentei. Assim que cheguei ao lar dos Potters, encontrei a porta destruída e o corpo de James na sala. Subi imediatamente para o andar superior, onde encontrei o berçário destruído, Lily também morta ao chão, e Hagrid, o guarda-caças e guardião das chaves de Hogwarts, recolhendo o pequeno Harry de seu berço. Eu expliquei a Hagrid que eu era o padrinho de Harry, e que o levaria comigo para cuidar dele. Hagrid negou-me acesso ao menino, dizendo que Dumbledore lhe dera ordens explícitas sobre onde levar o pequeno Harry, e já havia decidido quem cuidaria dele daí em diante..."

Foi nesse ponto que Sirius parou sua narrativa, sua face assumindo uma expressão de surpresa. Por fim ele exclamou: "Ei! Como é que Dumbledore sabia que James e Lily haviam morrido mas Harry não?!"

-o0o-

Minutos depois Sirius Black era um homem livre e feliz, e declarava à imprensa que sua primeira tarefa seria reatar relacionamento com seu afilhado, Harry Potter, cuja guarda ele solicitou ser revertida para ele. O Wizengamot, em rápida deliberação, tirou de Dumbledore a guarda do Menino-Que-Sobrevivera revertendo-a para Sirius sob condição de que ele apresentasse atestados do Hospital Mágico assegurando sua aptidão para exercer a função.

As meninas presentes ao julgamento convidaram Sirius, Malcolm e Remus para almoçarem na mansão Greengrass com Harry. Pressionado por Harry e as meninas ainda presentes na mansão, Sirius utilizou a ajuda de Malcolm para obter, preencher e protocolar toda a documentação ainda naquele mesmo dia, não sem antes zombar muito sobre a situação de Harry como único garoto em uma casa cheia de meninas. Harry, finalmente cansado de tantas insinuações, pois um fim à alegria de seu padrinho prometendo que, se ele se comportasse, um dia o ensinaria a ser realmente apreciado pelo sexo oposto e que ele então não precisaria mais sentir tanta inveja.

-o0o-

O dia seguinte foi gasto colocando Sirius e Remus a par dos acontecimentos e dos planos do grupo. Os dois adultos não gostaram nem um pouco da ideia das crianças atacarem os Comensais na copa de Quadribol. Eles acharam o plano ótimo, apenas temiam pelo perigo a que elas iriam se expor. Quanto ao resto, prometeram colaborar no que pudessem, mas pediram algum tempo para considerar o ataque e propor algumas modificações no plano caso conseguissem pensar em algo para torna-lo mais seguro.

Enquanto isso, O Pasquim publicava um longo artigo sobre os julgamentos de Pettigrew e Sirius, e uma entrevista exclusiva com Harry Potter. Ambos agradeciam e elogiavam o governo pela rápida e decisiva ação em corrigir um sério erro da administração anterior. O 'apoio' ao governo não era gratuito: fora pensado como uma forma de proteção contra a possibilidade de Dumbledore ou Malfoy quererem contestar a guarda de Harry, mostrando como o menino-que-sobrevivera e seu padrinho estavam felizes juntos e sutilmente colocando o Ministro da Magia como benfeitor e protetor daquela situação.

O grupo logo pôde comprovar o acerto daquela medida. Ainda naquele mesmo dia, eles descobriram que Dumbledore já fora informado sobre os julgamentos do dia anterior, e não estava nem um pouco feliz com os resultados.