Capítulo 7 – Broken
Os olhos dourados estavam fixos no rosto de Rin, mas a mente de Sesshoumaru passava por um turbilhão. Finas lágrimas iam se formando acima dos cílios longos nos olhos castanhos conforme o silêncio se prolongava. Ele não sabia o que dizer. Tentou respirar fundo e engoliu com dificuldade, sentindo que sua garganta havia travado. Ela levou as mãos até a barriga, fechando os dedos acima da pele.
- Não, não, não... – Rin sussurrava, conforme o choro ficava mais evidente. O movimento frenético das mãos frágeis sobre o ventre deixavam Sesshoumaru ainda mais desnorteado.
- Quando você chegou aqui, constataram que não havia mais batimentos cardíacos. – Ele gaguejou, atrapalhando-se nas primeiras palavras. A voz estava tão baixa e falha que era quase impossível de ouvir.
- É mentira... – Ela gritou. O rosto antes pálido estava agora avermelhado e as veias do pescoço já apareciam sob a pele. – Me diz, por favor, que não é verdade.
- Eu sinto muito, Rin. – Sesshoumaru levantou-se da cadeira móvel, aproximando-se mais da mulher. Os olhos dourados estavam atônitos diante do desespero de Rin, que agora preenchia o quarto com soluços cortantes do contínuo choro.
- Por que, por que? – Os olhos castanhos se cerraram em uma expressão de dor, deixando que as grossas lágrimas escorregassem pelo rosto.
Sesshoumaru envolveu a mulher entre os braços, pousando a mão gélida sobre os cabelos castanhos. Não houve, entretanto, resposta. Rin continuava congelada na mesma expressão de dor. Ela não o abraçou de volta, deixando as mãos presas junto ao corpo.
- Mataram meu filho... – Rin sussurrou, respirando ruidosamente. – Mataram o meu filho. – Repetiu.
- Rin... – Sesshoumaru chamou, buscando os olhos castanhos. Encontrou um olhar furioso, seguido de um empurrão. A morena o afastou de si com tanta força que chegou a causar dor no braço fraturado.
- A CULPA É SUA! – Gritou, entre os dentes cerrados.
Os olhos dourados se arregalaram e uma expressão incrédula estampou o rosto de Sesshoumaru. Ele deu um passo pra trás, se afastando mais de Rin. Ela chorava entre ruidosos soluços e frases desconexas, com o rosto preso entre as duas mãos. O aparelho que media os sinais vitais da morena apitava de forma constante, deixando o youkai ainda mais zonzo. Não podia acreditar no que ouvira. Já havia sido acusado tantas outras vezes, mas a dor de ouvir da boca de sua mulher era enorme. Pensou, por um instante, que a reação não era pra si, mas assim que os olhos castanhos o fulminaram, Sesshoumaru soube que Rin o culpava. Sua mente martelava e o ar fugia dos seus pulmões, o deixando perdido.
Uma enfermeira e Sango entraram pela porta. A morena estancou logo na entrada, vendo a expressão assustada do irmão. Já a enfermeira partiu para Rin, administrando um calmante no acesso preso ao seu braço. O choro foi gradativamente diminuindo, conforme o remédio fazia efeito. Rin continuou a repetir frases desconexas até que adormeceu, deixando a sala silenciosa novamente. Sesshoumaru só ouvia seu próprio batimento cardíaco acelerado e sua mente ficou escura por um instante. O ferimento no ombro latejava e a umidade em sua camisa o fez perceber que provavelmente estava sangrando novamente. Seus olhos não sabiam mais para onde ir. Quando viu Rin adormecida, com o rosto ainda marcado pelas lágrimas e pela raiva, o choque passou e a dor veio com mais força. Sentia-se rasgado ao meio, de uma forma que talvez jamais sentira. Seu mundo havia caído.
- Sesshoumaru? – Sango chamou.
Ele dirigiu-se à porta, passando pela irmã. Caminhou pelo corredor até as escadas, percebendo que Sango o acompanhava à distância. Os gritos de sua mulher ecoavam na mente de Sesshoumaru, pulsando a dor em seu peito. Quase não podia mais se lembrar da doçura de Rin. Tudo que ocupava sua cabeça era aquela figura desesperada e raivosa, o acusando. Ele era culpado, afinal. Rin não teria passado por tudo aquilo se ele tivesse a protegido. Nada teria acontecido se ele tivesse ouvido seu pai. Rin estaria a salvo se nunca tivesse o conhecido.
"Terá que conviver com a ciência de que você desgraça a vida de todos que toca". A voz de Takao povoou a mente do youkai e ele quase se perdeu. Já havia chego no estacionamento e começava a sentir os grossos pingos da chuva que caía naquele fim de tarde em Tóquio. Ouviu a voz de Hakudoushi e de Sango, que o chamavam.
- Sesshoumaru. – Hakudoushi pousou a mão sobre o ombro do amigo. – Você está bem? Sango me disse que você foi baleado.
O youkai manteve-se calado, encarando a rua movimentada. Os olhos estavam vazios.
- Sesshoumaru?
- Eu sou um assassino. – Sesshoumaru disse repentinamente, deixando Hakudoushi atônito.
- O quê?! Que bobagem é essa? – Colocou as duas mãos sobre os ombros do amigo, fazendo com que os olhos dourados encontrassem os seus lilases. – O que você está falando?
- Eu sou culpado. Rin me disse. – Repetiu.
O choque passou pelos olhos lilases e as mãos que prendiam os ombros de Sesshoumaru se afrouxaram. Hakudoushi quase pensou que havia ouvido mal, mas sua audição apurada não se enganou. Não podia imaginar, então, o quanto o amigo estava sofrendo com aquilo. Sabia que a morena era o porto seguro de Sesshoumaru, a principal força-motora do youkai.
- Foi um baque pra ela, mas você sabe que Rin confia na sua inocência. Ela jamais...
- Eu sou culpado. – Repetiu outra vez, afastando-se das mãos que o prendiam. – Eu não a protegi, eu permiti que matassem meu filho.
- Sesshoumaru, você fez tudo que poderia ser feito. Nós a encontramos.
- Kagura está morta por isso. Você sabe que só a mataram porque eu fui até lá. – As mãos geladas do youkai enterraram-se entre o cabelo prateado.
- Você não tinha intenção de matá-la. – Hakudoushi aproximou-se novamente.
- Tinha sim! – Sesshoumaru quase gritou, virando-se para ele. – Eu ia matá-la, eu ia matar a menina! Eu sou um assassino.
- Não foi você quem fez nada disso, pare de se culpar. – Hakudoushi empurrou o amigo contra o carro, segurando Sesshoumaru pela camisa. – Você sabe quem você é; não se perca.
- William conseguiu o que queria. Ele destruiu a minha família; destruiu a minha vida. – O youkai segurou as mãos de Hakudoushi, o afastando. Sesshoumaru continuou a caminhar sob a chuva, chegando até a vaga que guardava sua BMW. Hakudoushi decidiu não insistir; discutir com o amigo somente tocaria nas feridas abertas. No entanto, doía ver Sesshoumaru rendido daquela forma. Nunca o viu tão desarmado e entregue em toda sua vida. A frieza casual do youkai havia desaparecido e só restara dor. Mesmo que reconhecesse toda problemática causada pelas últimas ações do amigo, sabia que Sesshoumaru nunca quisera nada além de paz com sua família. Não entendia o que William queria ao destruir o youkai daquela forma e aquilo o deixava com raiva também. Aquele homem era o demônio. William era capaz de tudo.
Sesshoumaru andava pela penumbra da casa com passos pesados e lentos. Ultrapassou o corredor e entrou pelo quarto, que continuava o mesmo desde a noite em que Rin desaparecera. Ele não havia mexido em nada. A roupa que sua mulher tirou para colocar o vestido preto para o jantar ainda estava lá. O vestido azul marinho que havia a deixado tão bonita e que adornava com charme a barriga saliente ainda estava dobrado na ponta da cama. O cheiro dela estava tão intenso que o deixava atormentado. Algumas coisas estavam ainda espalhadas pela cama, como o pente que havia arrumado os longos cabelos morenos e o par de joias que ela usava antes de colocar as que Izayoi havia dado.
O youkai sentou-se na cama, passando a mão sobre os itens ali espalhados. Tomou o vestido azul marinho nas mãos, aspirando o perfume que ele continha. Um flash de Rin deitada sobre a cama da ultrassonografia tomou o fôlego dele por um instante, fazendo com que os dedos grossos se prendessem contra o tecido delicado do vestido. Soltou a peça e levantou-se em um impulso, tropeçando em algumas sacolas soltas no chão. Olhou o invólucro colorido e teve certeza do que havia ali. Agachou e ateve-se a abrir a sacola de papel. Tons claros de azul e branco saltaram aos apurados olhos e logo ele tirou dali uma pequena roupa infantil. A delicadeza do tecido e o cheiro adocicado o deixaram ainda mais destruído. Sua mulher já havia tido o cuidado de comprar as primeiras peças para o filho.
Colocou tudo dentro da sacola novamente, partindo para o armário. Começou a separar algumas roupas de Rin em uma pequena mala, para levar para o hospital. A grossa chuva ainda caía lá fora, iluminando o quarto com relâmpagos. Sua mente ainda fervilhada, ainda mais perturbada pelo cheiro nas roupas de Rin. Ainda sentia remorso pela acusação, mas não conseguia sentir raiva de sua mulher. Ela tinha todas as razões do mundo para culpá-lo.
Alguns dias se passaram e Rin já podia, finalmente, ir para casa. Desde o primeiro dia em que esteve no quarto, ela pouco viu Sesshoumaru. Ele aparecia ocasionalmente, apenas para levar algumas roupas e outros itens que ela costumava usar. Sango dizia que ele estava ocupado com o processo, mas Rin sabia exatamente o motivo daquela ausência. Ela estava se sentindo culpada por ter feito aquilo com o youkai, mas a dor e o ressentimento por ter passado tudo que passou nos últimos dias não a deixavam sentir arrependimento. Estava tão confusa com tudo que ouvira na noite de seu sequestro, que quase não podia se lembrar do Sesshoumaru que conheceu.
Queria esquecer, o tempo todo, da perda de seu filho, mas a dor não a abandonava um segundo sequer. Não conseguia comer ou dormir direito, o que retardou um pouco sua saída do hospital. Longos dez dias haviam se passado, mas parecia uma eternidade. Rin se sentia em um pesadelo sem fim, desamparada e sem forças para acordar. Seus pais haviam decidido ficar em Tóquio e Takao insistia em levá-la para Nagoya. A vontade de voltar para sua verdadeira casa a deixavam tentada a aceitar a proposta do pai, mas sabia que estaria sendo covarde se fugisse de sua realidade com Sesshoumaru. Ele ainda tinha muitos problemas a enfrentar, eles ainda eram casados e ela tinha que se manter forte.
Não sabia como o faria. Aquela criança a havia mantido viva naquela dolorosa noite e agora Rin se sentia frágil de novo. Tudo havia se tornado uma bagunça sem fim. Seu peito se comprimia só de pensar em voltar para a casa de Sesshoumaru. Encontrar todas as coisas no mesmo lugar e, pior, todos os sentimentos ainda perdidos. Não sabia se haveria reparação para toda dor.
Duas batidas na porta a despertaram daquele pensamento e ela se ajeitou na cama, ainda presa pela tipoia e pelo colete de contenção que ainda assegurava a recuperação das costelas quebradas. O médico entrou pela porta, seguida de Sango e Kagome. A mulher de InuYasha havia sido papel importante nos últimos dias, ajudando na recuperação de Rin. Kagome havia sido gentil, respeitando o espaço que a morena precisava para organizar minimamente seus sentimentos.
As duas sorriram, segurando uma muda de roupas entre as mãos.
- Bom, Taisho Rin, acredito que não há mais motivos para que você fique no hospital. – Ele sorriu, a olhando. – Você está se recuperando gradativamente, acredito que a companhia de sua família te fará melhor do que a internação. Apenas não se esqueça das recomendações e volte para fazer o acompanhamento das fraturas.
Ela apenas acenou positivamente, respirando fundo. O médico ainda assinou o prontuário e a entregou uma lista de recomendações, além das guias dos exames que ela teria que fazer nos próximos dias. Rin seguiu para o banheiro, trocando a roupa do hospital por um vestido estampado. Assim que se viu despida, ela encarou o próprio tronco, passando a mão pela barriga. Não havia quase sinal algum da gravidez. Pelo contrário, ela havia emagrecido alguns quilos, deixando os ossos aparentes. Seu rosto não estava corado como sempre e ela aparentava um cansaço sem fim. Os hematomas ainda não haviam desaparecido totalmente, embora os pontos já tivessem sido retirados. Havia restado uma cicatriz acima da sobrancelha e a sombra dos hematomas na maçã do rosto e no nariz. O rosto estava voltando ao normal, mas ela não se reconhecia.
- Vamos? – Kagome chamou, recolhendo as últimas coisas de Rin.
Acenou brevemente, seguindo pra fora do banheiro. Os pés se arrastavam pelo chão, criando passos pesados pelo cômodo. Rin respirou fundo, fechando os olhos por um instante. Kagome segurou seu braço, dando apoio para que ela continuasse. As duas se olharam e Kagome abriu um fino sorriso. Continuaram, de braços dados, até a porta do quarto. Sango estava logo atrás, carregando as coisas de Rin em um carrinho de bagagem do hospital.
Assim que Rin abriu a porta, viu Sesshoumaru recostado à parede do corredor, logo à frente. Ele encarava fixamente a parede branca, com os braços soltos ao lado do corpo. Os olhos dourados a alcançaram, mas continuaram estáveis. Ele apenas se moveu na direção delas, mas passou por Rin. Sesshoumaru tomou o carrinho de bagagens em mãos e seguiu pelo corredor, em silêncio. Sango, que agora caminhava ao lado dele, ainda tentava conversar com o irmão, mas não havia resposta. Ele permaneceu calado, com um semblante duro e o olhar fixo nos passos pesados de Rin. Seu coração estava a mil, embalado pela sensação sufocante de não ter perspectiva alguma. Sesshoumaru quase não falou com a mulher. Passou os dias e noites no corredor, logo atrás da porta do quarto dela. Queria estar ali, mas não queria vê-la. Ele se sentia envergonhado, frustrado e com raiva. Não podia encarar Rin naquele estado de espírito porque isso só pioraria as coisas.
Continuaram até a recepção, onde Sesshoumaru entregou os papéis da alta de Rin. Assim que checados, foram liberados para sair. Caminharam juntos até o estacionamento. Enquanto ele colocava as coisas de Rin no carro, ela ficou com Sango e Kagome.
- Obrigada por tudo que fizeram por mim. - Rin disse, soltando-se de Kagome.
- Se você precisar de qualquer coisa, me ligue. - Sango pediu, abraçando-a por um instante. Assim que se soltou, ela foi em direção a Sesshoumaru.
Rin segurou a mão de Kagome, virando-se para olhá-la. - Foi muito bom poder contar com você.
- Vamos ficar em Tóquio por mais alguns dias, não se preocupe. - Kagome respirou fundo, apertando a mão dela.
- Gosto de Sango como uma irmã, mas não consigo conversar com ela sobre tudo que aconteceu. Tenho medo de magoá-la e de magoá-lo também. - Os olhos castanhos alcançaram Sesshoumaru, que fugia da conversa de Sango.
- Posso imaginar. De qualquer forma, estou aqui, ok? - Sorriu, puxando-a para um abraço.
- Obrigada, Kagome. - Respirou fundo, abraçando-a brevemente. Ouviu o som do porta-malas da BMW sendo fechado e soltou-se dela, caminhando em direção ao carro. Sesshoumaru abriu a porta do passageiro e esperou que Rin entrasse, fechando em seguida.
- Sesshoumaru. - Sango chamou, fazendo-o parar por um instante. - Por favor, não perca a cabeça. É tudo que peço. - Ela beijou a bochecha do irmão e afastou-se, voltando para o lado de Kagome. Sesshoumaru deu as costas e entrou no carro, dando a partida.
Seguiram, em total silêncio, até a mansão em que moravam. Rin sentia seu coração bater com força e o medo de entrar por aquela porta novamente a deixava aflita. Quando entrou na sala, ouvindo a porta bater atrás de si, lembrou do dia em que descobriu que estava grávida. Lembrava perfeitamente como a sensação de aflição foi embora, assim que tomou conta que Sesshoumaru estaria com ela, não importaria o que acontecesse. Seu coração jamais imaginara que tudo acabaria assim. Antes que pudesse perceber, seus olhos já estavam inundados novamente. Doía muito viver tudo aquilo e ela começava a pensar que seria muito difícil continuar ali.
Sesshoumaru parou logo atrás dela, colocando as malas no chão. Ele deu um passo à frente, mas não chegou a tocá-la.
- Eu vou vender a casa. – Anunciou, vendo que ela havia o olhado por cima dos ombros. – Em algumas semanas, teremos outro lugar para morar.
Rin esboçou o melhor sorriso que pôde e acenou. Ele estava fazendo o melhor para que ela se sentisse bem novamente, Rin pensou. Mas não era somente a casa, nem a sensação de estar ali novamente. Era tudo que estava mal resolvido no coração de Rin e também no de Sesshoumaru.
Ele pegou as malas dela e subiu as escadas, deixando Rin na sala. Ela olhou em volta, percebendo que nem tudo estava no lugar em que ela deixou. Sua bolsa não estava mais em cima da mesa da sala, nem os envelopes com os últimos exames do seu pré-natal ou as sacolas das últimas compras que fez pela internet. Ok, agora estava ficando ligeiramente desconfortável. Sesshoumaru tirou tudo dali como se ela fosse simplesmente esquecer que as coisas estavam lá? Como se fosse esquecer tudo que aconteceu antes? Rin respirou fundo e tentou manter-se calma. Sentou-se no sofá e ajeitou o braço na tipoia, sentindo uma dor aguda ao fazer um simples movimento. Tinha que pensar, agora, em sua total recuperação. Sango e, principalmente, Kagome a haviam ajudado a fazer todas as tarefas de rotina nos últimos dias. A partir de agora, ela teria de contar com Sesshoumaru. Com tudo que havia acontecido e com a presidência da empresa em risco, ele se afastou do cargo. Estava de férias por tempo ilimitado. Ninguém assumiria a presidência neste meio tempo, mas InuTaisho voltaria a tomar conta de alguns assuntos da empresa que eram parte da rotina de trabalho de Sesshoumaru. Rin não podia imaginar como ele estava desconfortável diante disso. Por outro lado, ele teria mais tempo ao lado dela. E ela não sabia até que ponto isso era bom.
Seus pensamentos foram interrompidos pelos passos dele na escada. Ela levantou o olhar, encontrando os olhos âmbares. Sesshoumaru estava destruído. A expressão cansada e a dureza no olhar dele denunciavam todos seus problemas.
- Você está bem? - Rin perguntou.
Ele apenas acenou positivamente, continuando o caminho até a cozinha.
- Contratei alguém para me ajudar com seus cuidados. Ela chega ainda nesta semana. - Anunciou, do outro cômodo.
- Oh... - Ela soltou uma expressão surpresa. - Obrigada.
- Vou preparar algo para você comer - Comentou, em seguida.
- Quer ajuda? - Ela se ofereceu, torcendo as sobrancelhas. Sesshoumaru não era bem do tipo que sabia cozinhar.
- Não. - Prontamente ele negou. - Se quiser tomar um banho enquanto isso...
- Ok. - Respondeu, mesmo sem muita certeza. Não sabia se conseguiria fazer aquilo sem a ajuda de alguém, mas não queria que Sesshoumaru a ajudasse. Não sabia exatamente o porquê, mas pensar naquilo a deixava desconfortável. Talvez porque não quisesse que ele visse as cicatrizes e hematomas que ainda marcavam seu corpo. Ou talvez...
Rin respirou fundo, esfregando os olhos com a mão livre da tipoia. Queria afastar aqueles pensamentos perturbadores antes de ter calma suficiente para ter uma opinião mais acertada sobre tudo aquilo. Levantou-se, subindo as escadas vagarosamente. Degrau por degrau, ela venceu aqueles poucos metros e chegou ao corredor, entrando no quarto. Assim que abriu a porta, lembrou-se das primeiras peças do enxoval do filho que estavam em uma sacola, ao lado da cama. Seu coração disparou, mas quando seus olhos alcançaram o chão vazio, ela congelou. Sesshoumaru também havia tirado aquilo de lá. Respirou vagarosamente outra vez e seguiu para o armário. Tirou um pijama de algodão do fundo da gaveta – um que não usava há muito tempo – e um lingerie confortável. Nem se atentou em saber se suas roupas de gestante estavam lá, porque se aborreceria mais. Entrou no banheiro, fechou a porta e encarou o chuveiro e a banheira. Acabou optando pelo primeiro, pela praticidade. As mãos finas desfizeram os nós do vestido estampado, tirando a peça pela cabeça com dificuldade. Aproveitou o movimento e tirou também a tipoia. Quando o primeiro choque da onda de dor a atingiu, ela grunhiu, cerrando os dentes.
Respirou fundo e continuou, envolvendo o gesso do braço com um invólucro plástico, para evitar que molhasse. Soltou a trava do colete imobilizador que prendia as costelas e deixou que ele caísse no chão. Continuou com o esforço até que estivesse totalmente nua, quando ligou o chuveiro. Proibiu-se mentalmente de olhar para o espelho, não querendo enxergar a figura franzina e pálida refletida. Sua última memória de si mesma no espelho era de um rosto corado e uma barriga arredondada. Era essa que queria guardar.
Entrou no box, sentindo pressão por todo o corpo. Respirava devagar, tentado amenizar a dor no peito causada pela costela fraturada. Deixou que os primeiros pingos de água quente alcançassem suas costas, então suspirou, tentando relaxar. Estendeu a mão para alcançar o sabonete, pegando-o entre os dedos com firmeza. Fechou os olhos por um instante e, então, sem nem perceber como, escorregou e caiu sentada sobre o azulejo. Um grito estridente saiu de sua garganta e ela tentou contê-lo, trancando os dentes. Grunhiu outra vez, tentando controlar a respiração acelerada. A dor aguda se espalhava pelo seu corpo e vinha em ondas, deixando-a totalmente perdida.
Esticou o braço, tentando alcançar qualquer coisa que a ajudasse a levantar. Antes mesmo que pudesse se mexer novamente, a porta do banheiro se abriu e Sesshoumaru estava lá. Os olhos dourados encontraram-na no canto do box, sentada, com as duas pernas esticadas e as mãos estendidas na direção da torneira para levantar-se. Ele ia se aproximar, mas Rin rapidamente recolheu os braços, cobrindo os seios e a região íntima. O olhar dela alcançou o chão e, embora ela ainda respirasse com intensidade, afastando as gotas d'água que caíam no seu rosto, Rin tentou se acalmar.
- Está tudo bem. – Disse, sem olhá-lo.
- Eu vou te ajudar. – Ele respondeu, avançando.
- Não, tudo bem. Eu preciso aprender a fazer isso sozinha. – Ela encolheu-se mais ainda, tentando cobrir o corpo como fosse possível.
- Você não precisa...
- Sesshoumaru, por favor, você pode sair? – Rin pediu, com a voz entrecortada. Ela finalmente o olhou, deixando transbordar o desconforto de tê-lo ali. Ele travou as mandíbulas, confuso. Ela estava agindo como se ele fosse um completo estranho. A maneira com que se encolhia entre os azulejos, quase como se tivesse medo ou vergonha, o causou ainda mais dor. Não insistiria mais, embora estivesse sentindo pena de vê-la ali, totalmente frágil. Recolheu o colete imobilizador dela, que estava no chão, e o colocou em cima da bancada da pia. Deu as costas e saiu. Não conseguiu, no entanto, se afastar muito. Assim como fizera no hospital, ficou no cômodo ao lado, assegurando-se que ela ficaria bem.
Quando ele deu as costas, Rin estendeu a mão em direção à torneira mais uma vez. Ela esticava os dedos da mão livre e tentava apoiar a mão engessada no chão para criar algum impulso. A dor, a esta altura, estava quase a partindo no meio.
- Vamos lá... – Sussurrou, entre uma respiração e outra. Quando estava quase lá, o braço engessado perdeu firmeza e ela caiu novamente, voltando à estaca zero. Embora estivesse, com todas as forças, tentando conter a dor, um grito abafado fugiu entre seus dentes, ecoando pelo banheiro inteiro. Sesshoumaru fechou os olhos, recostando a cabeça no armário de madeira. A aflição estava quase o obrigando a ignorar o desconforto dela e a entrar novamente no banheiro. Alguns instantes depois, ela voltou a esticar o em direção à torneira, tentando tomar um impulso melhor com as pernas. Depois de um longo instante de dor e de um cortante grunhido, ela alcançou a torneira, puxando-a para levantar-se. Assim que de pé, encostou-se na parede de azulejo, começando a ter a vista invadida por pontos pretos. Esfregou os olhos e desligou o chuveiro, saindo com pressa dali. Sentou-se sobre a tampa fechada da privada para tomar um fôlego, sentindo a água escorrer por seu corpo, causando calafrios. A frustração finalmente a rendeu e ela começou a chorar, irritada por não conseguir, ao menos, tomar banho sozinha. E, principalmente, por ter expulsado Sesshoumaru dali. Alguma coisa havia mudado em seu peito e ela não sabia ao menos dizer o quê.
Rin estava deitada no centro da enorme cama de casal, encarando a parede fria. Assim que conseguiu, finalmente, vencer a tarefa dolorosa de vestir-se, ela se jogou no colchão macio, sentindo-se fraca. Viu-se sozinha no quarto, mas ouviu os passos de Sesshoumaru no corredor. Ele havia ficado ali, esperando que ela saísse do banheiro.
Ela suspirou, cansada. Fechou os olhos por um instante e então abriu novamente, virando-se para olhar o criado mudo. Ali, convidativamente, estava o controle da TV do quarto. Tomou o pequeno aparelho entre os dedos e apontou para a tela, ligando-a em um instante. Talvez assistir TV a distraísse por algum tempo, evitando que todos os pensamentos dolorosos voltassem à sua mente. No entanto, assim que a tela da TV se acendeu, o coração dela parou por um longo instante. No rodapé, a manchete: "Indícios apontam que Taisho Sesshoumaru é o assassino de Shinto Kagura".
- Uma fonte da polícia de Tóquio afirmou, com exclusividade, que Taisho Sesshoumaru compareceu à delegacia há duas semanas para prestar esclarecimentos sobre a morte da artista plástica Shinto Kagura. No inquérito, o empresário é apontado como o principal suspeito, já que esteve na casa de Kagura na noite de sua morte. Sesshoumaru também é investigado pela morte de sua ex-mulher, Sarah... – Os olhos castanhos estavam estáticos e Rin tinha uma das mãos frente à boca, abismada. O som da TV foi cortado pelo barulho da porta se abrindo. Sesshoumaru parou ali, com o prato de sopa que tinha em mãos, olhando pra ela. O horror estampado nas feições delicadas o assustaram e ele imediatamente olhou para a TV, lendo a mesma manchete que ela lera. Os pulsos se trancaram em duas pedras e ele amaldiçoou centenas de vezes aquele noticiário. Rin, a esta altura, estava de joelhos sobre a cama, ainda com a mesma expressão aterrorizada, mas olhando pra ele, agora.
- É verdade? Você matou essa mulher? – Ela perguntou, quase em um sussurro.
Oi gente!
Eu sei, eu sei. Pra variar, fiquei uma eternidade sem postar. Desculpem! A novidade é que, neste meio tempo, eu me mudei de casa e virei tia! hahaha estes são os fatores culpados pela minha ausência. Estou numa super correria para organizar minha nova casa, além do trabalho e das tarefas de tia babona. A boa notícia é que eu estou de férias e devo atualizar com mais frequência. Não me matem ou desistam da Fanfic, por favor!
No geral, agora chegamos à parte tensa de verdade. O relacionamento de Rin e Sesshoumaru já estava arranhado suficiente e agora ela descobriu a história da morte da Kagura do pior jeito possível! Como é que ela vai entender e como ele vai se explicar?
Espero que gostem do capítulo e que, se possível, deixem comentários, sugestões, críticas e o que mais quiserem! Fico muito feliz com o feedback de vocês ;)
Um feliz ano novo a todos, que 2014 chegue muito bem e que todos os desejos de vocês se realizem!
Beijos
