Capitulo 6

Edward estava no chão, aparentemente inconsciente e a coisa com que ele vinha lutando estava em pé, olhando-o de cima, obviamente orgulhoso de si mesmo. Bella achou que ele havia morrido, mas viu-o tentar se levantar com dificuldade.

O homem abaixou-se lentamente, tomando o pescoço de Edward e apertando, da mesma maneira que ela o havia visto fazer quando a salvará, e como daquela vez, ela tinha que fazer alguma coisa.

Suas mãos tatearam rapidamente o chão ao seu redor, procurando por algo que ela pudesse usar como arma, ela alcançou uma viga de madeira, grande e pesada, que ela conseguiu erguer com um pouco de esforço.

Edward viu, pelo canto do olho, Bella se levantar e caminhar decididamente em direção a ele, e o pior com uma viga na mão, que acabaria, com certeza, machucando-a. Ele não tinha a mínima ideia do porque ela estava fazendo aquilo, mas ia acabar com todo o plano de "finja-se de fraco e o derrote pela confiança" dele.

Quando Bella levantou a viga acima da cabeça e manteve os olhos fixos na cabeça de seu agressor, ele soube o que ela pretendia e não tinha mais tempo para evitar. A viga cruzou o ar e acertou em cheio a cabeça do vampiro, era óbvio que ela havia usado toda a força que podia reunir e mesmo assim a única coisa a ser quebrada, foi a viga.

Bella arregalou os olhos para os restos da viga na sua mão e olhou de volta para o vampiro, ele estava se voltando lentamente na direção dela, ele ia atacá-la e Edward precisava impedir. Ele começou a levantar seu braço para arrancar, literalmente o braço daquele vampiro de cima dele, quando foi atirado para longe e caiu em meio a escombros.

Ele se levantou rápido e precisou tomar logo uma decisão, ou ele corria e jogava aquele vampiro para longe de Bella, ou corria e jogava Bella para longe do vampiro, a primeira opção pareceu menos perigosa, para todas as partes envolvidas.

Antes que o vampiro pudesse encostar um dedo na pele alva de Bella, Edward já estava arremessando-o pelo galpão, fazendo com que ele derrubasse a parede que ele havia atingido antes.

Bella estava totalmente assustada e paralisada, ele parará a centímetros dela e agora ambos se encaravam, ele estava prestes a desviar e voltar a correr em direção ao vampiro quando percebeu que o mesmo havia sumido.

Ele girou pelo galpão, olhando para todos os cantos sem dificuldade alguma para enxergar, mas não viu nada, além de paredes caídas e poeira por todo lugar. O vampiro, James como ele havia lido na mente dele, havia ido embora e a única coisa que restará era o silêncio da mente da humana.

Edward se preparou para seguir o rastro, mas ao ver a expressão no rosto de Isabella, desistiu. Ela estava completamente em choque, pálida e sem mover um músculo sequer, nem ao menos olhava para ele, apenas encarava o espaço vazio que, antes, era ocupado pelo vampiro.

— Isabella – ele sussurrou, perto dela, com receio de tocá-la e fazê-la sair correndo, gritando por socorro, por um médico, um padre, um exorcista, sabe-se lá o que ela podia fazer. – Isabella, se mexa, vamos... Pelo amor, mulher, pelo menos grite.

Ela piscou, e Edward segurou o impulso de sacudi-la forte e dizê-la que ela estava sendo estúpida. Mas, ele mal teve tempo, pois a expressão no rosto dela se transformou em horror e ela fez exatamente o que ele pediu, gritou.

— SAI DE PERTO DE MIM, SEU, SEU... SEU MONSTRO – quanto mais ela gritava, mais ela se afastava de Edward, enquanto ele permanecia parado, sem saber exatamente o que fazer.

Ele levantou as mãos, tentando acalmá-la.

— Isabella, calma, eu não vou te machucar... Respira.

— Calma? Como eu posso ter calma quando estou num lugar abandonado com um, com um... Mas que inferno, o que você é?

Ele não iria responder aquela pergunta, já tivera paciência demais e agora era hora de fazê-la esquecer tudo o que ela havia visto.

— Você vai esquecer-se de tudo que viu aqui – ele disse pausadamente, encarando-a e usando todo seu poder.

— O que? – ela perguntou histérica. – Você acha que pode me olhar com esses olhos verdes e me mandar e esquecer as imagens vão sumir da minha mente?

— Sinceramente? Acho – ele disse totalmente atordoado por perceber que não havia funcionado – Na verdade, era exatamente para isso ter acontecido.

— O que você é? – Foi tudo que ela disse, simples e direta. Edward não tinha mais opções, dizer que era o Batman e aquele que acabará de fugir era o Coringa, estava fora de cogitação.

— Bom, até onde eu sei, eu sou um... Vampiro, e tenho sido assim por alguns séculos.

Isabella definitivamente não estava pronta para ouvir aquilo, uma risada histérica escapou pelos seus lábios e se tornou totalmente incontrolável, ela não parava de rir enquanto Edward ficava mais atônito, ele esperava qualquer tipo de reação menos aquela.

— Você não pode estar falando sério – ela conseguiu dizer quando parou de rir, mas ao encarar Edward, ela viu total sinceridade nos olhos dele e o sorriso foi desaparecendo dos lábios dela – Oh, meu Deus, você está falando sério.

Todo o corpo de Isabella começou a tremer, ela virá como ele lutará e definitivamente ele não era humano, mas um vampiro era impossível.

— Acalme-se, eu não vou te machucar. – Edward tentou se aproximar com as mãos levantadas, tentando realmente acalmá-la, mas ela começou a gritar novamente quando ele se aproximou dela.

— Não... Se... Aproxime. – Ela conseguiu dizer em meio a toda tremedeira do corpo dela.

— Tudo bem, não irei me aproximar, mas... Quer por favor, se acalmar? – Edward disse as palavras entre os dentes, ele já havia implorado com essa humana duas vezes aquela noite, e começava a se questionar por que não a matava de uma vez.

— Como você espera que eu fique calma, quando estou num galpão abandonado com um... Vampiro.

— Pare de dar ênfase a esse fato, eu gosto disso tanto quanto você. E você pode ficar calma, já que por mais impressionante que isso pareça, eu não vou matá-la.

— Ah, então quer dizer que você sai por aí contando que é um vampiro e depois deixa as pessoas vivas? Você é mais esperto que isso.

— Ok, então – Edward disse, mais do que irritado – Vou te matar, fim desse drama todo.

— NÃO. – A humana gritou, e se afastou mais uma dúzia de passos de Edward – eu não vou contar para ninguém, quer dizer – ela riu histericamente de novo – quem iria acreditar em mim, não é?

Edward analisou suas opções, ele não podia apagar a mente dela, já que ficará claro que além de não a ouvir, seus poderes não tinham efeito nenhum sobre ela. Ele não tinha certeza quanto a habilidade dela de ficar calada, mas realmente, não queria matá-la, já se dera o trabalho de a salvar vezes demais para isso. Ele então se lembrou do interesse que viu na mente de James quando ele quase a atacara, e todo um plano se formou na mente dele.

— Escute – ele começou – não irei matá-la, mas acredite, Isabella se eu descobrir que você contou a alguém, quem quer seja, eu juro que acabo com você e com seu confidente. Entendeu?

Bella balançou a cabeça afirmativamente e com vontade, tudo o que ela queria era sair dali e se fechar em casa para sempre.

— Agora, vamos, vou te levar para casa. – Edward disse, se aproximando dela como se nada tivesse acontecido.

— Não... – ela respondeu rápido, se afastando mais um pouco – quer dizer, eu posso ir sozinha.

— O que? Ficou louca, aquilo que acabou de me atacar era um vampiro também, caso você não tenha notado.

— Eu notei, mas ele atacou você, não a mim.

— É, e você quebrou uma viga na cabeça dele, não eu. – Edward sorriu irônico ao ver o rosto dela empalidecer de medo quando ela se lembrou. – Agora, se a mademoiselle, me permitir, eu a acompanharei até em casa, mas não direi que isso é um prazer.

Bella bufou, e se afastou dele para buscar sua bolsa que ficará largada no chão e saiu andando sem esperá-lo, não importava se ele era um vampiro eu um demônio da Tanzânia, ele era o homem mais arrogante que ela já conhecera.

— Vamos ter que andar um pouco. Eu larguei minha moto longe quando comecei a perseguir James – Edward disse quando eles saíram do galpão, atravessaram a cerca e chegaram rua.

— Como é? Sem ofensas, mas eu não vou subir nua moto com você.

— Isabella, sem ofensas, mas você vai, eu não preciso mais esconder minha força de você.

Ela arregalou os olhos, nem por um segundo ela duvidará de que ele realmente fosse utilizar da força para colocá-la na moto, por isso, simplesmente caminhou em silêncio durante todo o trajeto até onde a moto estava.

E durante boa parte do caminho pelas ruas até sua casa, Bella hesitava em segurar-se em Edward como deveria. Seus pensamentos oscilavam entre as duas opções que tinha: abraçar o único apoio que tinha em meio às sacudidas da moto com toda sua força, levando em conta que o apoio era um vampiro que deixara claro que poderia esmagar seu crânio se ela fizesse qualquer coisa que o irritasse ou não abraçar o apoio que tinha e deixar com que o asfalto esmagasse a seu crânio.

Ela decidiu que ser assassinada por um vampiro parecia mais emocionante. Essa foi a única coisa positiva que conseguiu pensar em relação às duas opções. Assim sendo, ela se abraçou a Edward.

Esse abraço foi ainda mais estranho e incômodo que os anteriores para ela. Parecia que ela estava com seus braços em volta de uma estatura de mármore. Bella pensava que aquele homem nunca escondera nada que passava por sua cabeça, já que ele sempre falara tudo sem se importar se isso machucaria alguém. É claro que agora sabia que estava errada. Ele escondia muito, mas saber agora que até sua postura era uma parte da encenação a fez sentir uma pontada de pesar, mesmo sem ter motivos aparentes para isso.

Quando finalmente param em frente ao prédio de Bella, ela pulou da moto o mais rápido que pôde, o que ocasionou alguns tropeços. Ela esperava encontrar o costumeiro sorriso sarcástico no rosto de Edward quando se endireitou para devolver-lhe o capacete, mas dessa vez ele não parecia ter achado graça alguma. Sua expressão permanecia sóbria. Algo a mais para acrescentar a lista de motivos daquela noite que a faziam querer se trancar na segurança de seu apartamento.

Edward mal tinha posto as mãos no capacete para tirá-lo de suas mãos, e ela já o tinha soltado, planejando se virar e caminhar o mais rápido possível em direção à porta. E não passou disso, um plano, pois ele fez um movimento tão rápido com a mesma mão que segurava o capacete, tão rápido que ela quase não viu. Bella teve quase certeza de que ele poderia ter feito tal movimento sem que ela visse. Mas Edward tinha certeza de que se assim o tivesse feito, ela gritaria por não saber como sua mão acabou segurando a dela, impedindo-a de se afastar.

Bella olhou para os lados, para ter certeza que ninguém o tinha visto fazer aquilo. Mas era Los Angeles. Ninguém vê muita coisa, ela tinha concluído. Afinal, tinha vampiros a solta na cidade e ninguém suspeitava.

— Só queria ter certeza de que você se lembre de uma coisa. Eu vou saber se você contar qualquer coisa para alguém. – Ele disse com a voz calma, porém dura, com um quê de autoritarismo. – Agora entre em casa e fique lá.

Dizendo isso, Edward soltou sua mão, deixando claro que era isso que tinha a dizer que as conversas daquela noite estavam acabadas.

Bella nem sequer cogitou responder, simplesmente seguiu com seu plano interrompido: se virou e caminhou rapidamente até a porta de seu prédio, entrando sem olhar para trás, para a moto que acabara de arrancar lançando seu barulho estrondoso pela rua.

Ela só parou por um segundo, antes de entrar. Quando o pensamento do quanto aquela porta, aquele prédio, agora eram bem familiares para Edward, levando em conta as vezes que ele a levara para casa. Bem mais familiares do que ela gostaria agora.

Enquanto estava no elevador, que hoje parecia estar levando mais tempo que o normal para deixá-la em seu andar, ela tentou afastar esse pensamento. Mas só adiantou por curtos minutos.

Assim que ela entrou no apartamento e fechou a porta, inclusive passando a tranca que nunca usava, ela se deu conta do quanto aquilo parecia inútil. Aquela frágil porta, com sua estúpida tranca. Bella tivera a prova de que tanto Edward quanto o outro vampiro não teriam trabalho para passar por aquela porta. Seria como passar por uma porta de papelão.

Já se enfurecendo som seus próprios pensamentos negativos, Bella se encaminhou para um banho rápido. Alguma coisa a fazia sentir que devia continuar se mexendo, mudando de lugar. Parecia mais seguro do que sentar no sofá e ficar parada.

Ela finalmente foi se deitar, depois de quase meia hora perambulando pela casa, olhando por cima do ombro a cada 5 segundos. Mas os pensamentos continuavam a brotar em sua mente. Inúmeras possibilidades de como Edward ou o outro poderiam chegar até lá sem que ela ao menos percebesse.

Talvez eles pudessem escalar as paredes pelo lado de fora, quebrar a janela e entrar. Ou até mesmo entrarem pela entrada principal do prédio, estourando a porta, matando quem quer que aparecesse em seu caminho.

A cada tentativa de espantar esses pensamentos, novos apareciam, regados de manobras impossíveis para qualquer ser humano e pessoas inocentes caindo mortas pelos corredores.

Isso resultou na pior noite da vida de Bella. Ela nem podia tentar fingir que tudo não passou de um sonho, já que não conseguiu fechar os olhos sequer uma vez durante toda a noite. Mas a assim que a luz do Sol começou a entrar por sua janela, Bella se sentiu aliviada. Se tudo aquilo foi real, ela pensou, agora eles não eram mais uma ameaça. Se todas as lendas sobre vampiros eram reais, as limitações descritas nas tais lendas também deveriam ser. Eles não poderiam ameaçá-la de dia.

Com essa ideia tomando lugar de todas as outras ruins que transformaram sua noite em um inferno, Bella se levantou para começar a se preparar para o primeiro dia de trabalho, afinal, os ensaios com os dublês começariam naquela manhã. Após um banho relaxante, ela vestiu uma calça jeans confortável, uma blusa roxa simples e uma sapatilha, indo arrumar suas roupas de treino em seguida, colocando-as dentro da bolsa de academia. O encontro com os dublês seria em uma academia próxima aos estúdios da Produtora Entertainment.

Ela não tinha mais com que se preocupar. Até o cansaço parecia menor, o elevador parecia ter voltado a funcionar na velocidade de sempre e todo que o Sol iluminava parecia mais bonito que o normal.

Ele não conseguia acreditar que estava ali. Não podia acreditar em como estava sendo controlado pelo destino. Justo ele, que sempre fora dono de seus passos, e acreditava que ninguém lhe comandava a não ser ele próprio.

Lutava contra o peso de suas pálpebras que, por instinto, tentavam se fechar e contra a dormência que tomava conta de seu corpo. Mas ele já estava acostumado com tudo isso, toda essa sensação de que seu corpo estava fraco demais para continuar em pé. De fato, a sensação tinha melhorado com o passar dos séculos, mas agora parecia tão ruim quanto da primeira vez. E era culpa do cansaço mental devastador que impedia sua mente de funcionar com a rapidez costumeira. O cansaço que fazia todo o resto parecer tão...humano. Ele se sentia exatamente com um humano que não tivera a noite de sono necessária.

Pela segunda vez em dois dias, ele se sentia humano demais.

Edward estava ouvindo todos os barulhos que tomavam conta do prédio, por menores que fossem. Assim que mais passos caminhavam para fora do elevador e iam em direção à porta da frente, ele se focou neles, em seu dono. O silêncio nem precisou se tornar profundo para que ele percebesse. Foi só uma fração de segundo, e ela já sabia que era ela quem estava girando a maçaneta.

Ele a observou saindo, movimentos mais calmos e suaves do que ele pensou que ela estaria. E não gostou de toda aquela calma que ela ostentava. Não gostou de não saber se era só uma fachada ou se sua mente condizia com o exterior. Não gostou de ter que tentar adivinhar porque ela estava assim. Pôde vê-la respirar profundamente o ar matinal e isso não ajudou em nada com suas cogitações em relação ao real estado dela.

Edward não era um controlador à toa. Na verdade, todos os vampiros são assim, alguns mais, alguns menos, mas no fundo, todos são. É uma característica adquirida com o passar dos anos. Mesmo aqueles que não podem ler mentes como Edward, se valem de suas outras habilidades para antecipar os movimentos humanos. Depois de algum tempo de experiência, somado a previsibilidade da maioria dos humanos, era natural que eles soubessem exatamente o que aconteceria, quais reações os esperavam.

Mas todo esse controle tinha fugido de suas mãos nas últimas semanas, com um vampiro petulante cruzando seu caminho e uma humana que parecia atrair qualquer confusão que estivesse em um raio de 2 km.

Não. Todo controle não. Quase todo controle. Ele ainda podia controlar certas coisas, mesmo quando estava próximo àquele imã de problemas, que atendia pelo nome de Isabella.

Uma coisa realmente interessante que vampiros também aprendiam com o tempo era como se camuflar. Era uma série de pequenos detalhes que os faziam ser o centro das atenções ou não. Normalmente, recém-criados e nômades selvagens sempre chamam mais atenção, por não entenderem perfeitamente a era em que vivem e os humanos que fazem parte dela. Eles não sabiam que não podiam andar tão suavemente quanto seus poderes permitiam, como se estivesse flutuando, nem como gesticular no ritmo certo ou falar no tom mais adequado, entre outras coisas.

Edward sabia fazer tudo isso como poucos. Podia passar despercebido como um simples mortal todos os dias, se assim quisesse. Um homem extremamente bonito, era o que geralmente passava pela cabeça das pessoas que o notavam. Podia dosar com perfeição a quantidade de atenção que atrairia.

Quando Isabella trancou a porta de seu prédio, ele percebeu que ela sequer olharia para os lados antes de seguir seu caminho. Naquele momento, ele queria ser notado. No mesmo segundo, ele se endireitou, ainda com o joelho dobrado, o pé apoiado na moto; cruzou os braços, levantou o queixo. Mais uma vez, lá estava a postura impecável que lhe todas as aulas de etiqueta e poderes de seus tempos mortais somadas à experiência da imortalidade lhe permitiam ostentar.

Metade das pessoas, que estavam naquele trecho da calçada naquele exato momento, virou a cabeça para olhá-lo. Isabella foi uma delas.

Assim que seus olhos localizaram aquela figura parada com a costumeira postura perfeita e arrogante que ela tanto detestava, toda a calma e serenidade que tomavam o rosto dela se foram. Edward sorriu de lado diante disso. Era só externo. Sua mente não estava tão calma quanto sua expressão demonstrava segundos atrás. Afinal, se nem ele não conseguia digerir tão rápido o que acontecera na noite passada, era duvidoso que uma humana conseguisse.

Bella estacou. Toda sua mente entrou em curto, ficando completamente em branco, sem um único pensamento. Seu corpo travou da mesma forma, ela não conseguia realizar o menor movimento. Quando seus olhos começaram a lacrimejar e suas pálpebras foram obrigadas a se mexer, pareceu que essa simples ação a despertou. Parcialmente.

Ela ainda não conseguia movimentar nada importante, como as pernas, que seriam de grande valia para correr de volta para a segurança de seu apartamento. Mas sua mente estava voltando ao funcionamento normal, e um aviso de perigo urrava dentro dela.

A prova de que a parte das lendas que fala sobre as fraquezas dos vampiros estava completamente errada estava ali na sua frente, encostado naquela moto imensa, parecendo tão deslumbrante que é claro que não podia ser humano. Com uma camisa de um azul vibrante e calças de jeans preto.

Bella achava que ele não podia ficar mais bonito do que era, mas ele podia. E ficava. No Sol.

Ela olhou para cima, esperando que o Sol não estivesse de fato lá. Que tivesse sido substituído por uma luz artificial gigante. O Sol não podia estar. Não com Edward ali. Um dos dois tinha que ter deixado de existir. Mas o Sol estava lá. Brilhante e quente. Zombando dela e de toda sua certa de que estava segura.

Edward percebera que o choque dela, sem precisar ler sua mente para saber do pânico que se apossou de sua mente. O sentimento era tão grande que transbordava por aqueles intensos olhos castanhos.

Depois de alguns segundos sem nenhuma reação motora dela, como fugir, que era exatamente o que ele esperava, Edward percebeu que ela não se mexeria, então resolveu tomar a iniciativa e ir até ela.

A cada passo que ele dava, os olhos dela se arregalavam mais. Ele estava mesmo ali. Andando com leveza e aquela postura irritantemente invejável. Bella sabia que devia correr, mas agora, além do choque ter se apoderado de todo o seu corpo, os olhos de Edward também pareciam exercer um grande poder sobre ela que a impedia de se mexer.

— Bom dia. – ele disse calmamente, quando chegou próximo o suficiente.

Bella se perguntava como ele conseguia. Como conseguia agir como se tudo estivesse na mais perfeita normalidade. Ela não podia acreditar que a noite passada não o afetara nem um pouco. Talvez afetasse, mas ele não tinha que se preocupar tanto assim com sua integridade física, não é mesmo? A noite passada provara que ele seria morto tão facilmente.

Edward deu alguns segundos para que Bella respondesse, se quisesse. Ela não o fez e ele não se importou nem um pouco.

— Certo. Vamos ser sinceros. Eu não estou realmente disposto para toda a encenação hoje, então suba na moto.

O fundo autoritário no tom de voz dele, fez com que Bella despertasse por completo. Ele ser um vampiro não lhe dava o direito de mandar nela. Claro, ela o obedecera no dia anterior, mas era uma situação complemente diferente. Ele sentira o perigo em sua voz, sentira que, por alguma razão, ele estava tentando livrá-la daquela situação toda. Agora não, agora ele estava só sendo arrogante. E ela tinha algo a seu favor. Pessoas. Dezenas de pessoas passavam pela rua naquele exato momento e ela tinha certeza que ele não a machucaria com tantas testemunhas ao redor. Ele não conseguiria matar todo mundo. Pelo menos ela esperava que não.

— E por que eu subiria na moto com você? – Isabella perguntou.

A atitude fez com que Edward bufasse e levasse uma das mãos aos cabelos cor de bronze, bagunçando-os.

— Porque eu vou te levar para onde quer que você esteja indo.

— Eu não preciso que você me leve. Na verdade, eu preciso que você fique bem longe de mim.

— E eu adoraria atender a esse seu pedido, Isabella, acredite. Mas já que você resolveu atrapalhar todos os meus planos, eu preciso ficar de olho em você. Nunca se sabe qual atitude impensada você vai tomar a seguir.

— Como é que é? Eu resolvi atrapalhar seus planos? Você acha mesmo que eu escolhi estar nessa confusão toda? Olha, eu gosto dessa situação tanto quanto você. E se por "atitude impensada" você se refere a contar o que aconteceu ontem à noite, eu já disse, não vou contar a ninguém. Talvez você seja surdo ou algo do tipo.

— Não, eu não surdo. Escuto melhor do que você pode imaginar, então não aumente o tom de voz comigo.

Bella nem reparou que, a cada palavra que dizia, sua voz tinha subido, por isso, boa parte das pessoas que já eram atraídas por aquele homem deslumbrante parado na frente dela, agora também olhavam, alguma abafando risos ou olhando incrédulas.

É claro. Ela acabara de praticamente berrar sobre algo que deveria ficar em segredo sobre a noite passada. Ninguém ali estava imaginando que ela se referia a presenciar uma luta entre vampiros. Não, definitivamente ninguém pensaria nisso.

Edward percebera que a atenção dela havia sido desviada pelas reações dos pedestres que ouviram seu pequeno discurso exaltado. Ele não se importava nem um pouco com os pensamentos que vinham claramente para ele. O fato deles não virem com tanta força, devido à proximidade da mente silenciosa de Isabella também ajudava.

Para não dizer que os pensamentos não lhe provocavam reação alguma, eles o faziam rir. Não só por seu conteúdo previsível, mas pela forma que os meros olhares donos desses pensamentos afetavam Isabella. Ela parecia realmente incomodada.

Isso o divertia e ele bem que estava precisando de um pouco de diversão depois de todo o estresse que tinha passado. E nada mais justo do que contar com a ajuda de Isabella para isso.

Ele pigarreou alto, para chamar a atenção dela e de quem mais estivesse perto o suficiente e armou seu melhor sorriso sacana.

— Sabe, Isabella, você está fazendo parecer que a noite de ontem foi a maior catástrofe na sua vida, e eu tenho certeza que não foi. – Ele usava um tom de voz bem mais alto que o normal, como se estivesse fazendo um discurso para umas dezenas de pessoas. De certa forma, ele estava. – Afinal para mim, foi extremamente proveitosa, então acho impossível que para você tenha sido tão ruim.

Bella estava olhando-o estupefata. Ela não podia acreditar que ele realmente estava fazendo isso. Ele com certeza tinha percebido o que as pessoas estavam pensando da pequena cena que ela armou e estava lá armando uma maior. Era um costume de vampiros querer chamarem atenção? Ela achava que eles gostavam de passar despercebidos!

As pessoas estavam parando para ouvir, pelo amor de Deus! E Edward parecia imensamente satisfeito com isso.

— Agora, amor, será que você pode subir na moto, para que possamos levar essa discussão para outro lugar? Na verdade, eu não gostaria mais de discutir, mas se você precisa disso.

"Filho da mãe! Então era isso que ele queria! ", Isabella percebeu. Ele queria causar-lhe o máximo de vergonha possível para que ela não tivesse opção para fugir, a não ser subir naquela bendita moto com ele.

Mas não. Não seria assim tão fácil.

— Quer saber? – A voz dela soava tão alta quanto a dele. – Eu não vou subir nessa porcaria que está acabando com a camada de ozônio, está bem? Suba nela você e suma daqui!

Ela não esperou que ele respondesse, simplesmente se virou e saiu andando a passos largos, tentando ignorar a expressão de choque de algumas mulheres, que não deviam ter nada para fazer da vida e tinham parado para ver a "briga de casal".

Bella não tinha dado nem três passos e Edward já estava ao seu lado, parecendo genuinamente confuso.

— Desculpe, mas "porcaria que está acabando com a camada de ozônio"? – Ele perguntou já se utilizando de seu tom de voz costumeiro: baixo e calmo.

— Exatamente. – Bella respondeu, sem parar de andar e sem olhar para ele.

— Agora a culpa pelos males do mundo é minha?

— Isso mesmo.

Edward soltou um riso sarcástico e abafado.

— Eu provavelmente sou um dos seres nesse mundo que menos quer que ele acabe e com certeza minha parcela de culpa pela destruição da camada de ozônio é bem pequena.

— Ah, você acha? – Isabella rebateu. – Você tem ideia do tamanho do estrago que essa sua moto causa?

— Não, e não me importa. Mas sabe quem são os culpados por eu precisar de uma moto? Vocês. – Ele sentenciou. Bella sabia exatamente a quem ele se referia. Humanos. E antes mesmo que ela pudesse perguntar como humanos eram culpados por ele ter sido obrigado a comprar uma moto, ele continuou. – Vocês evoluíram, construíram suas grandes cidades cheias de asfalto, mas o mais importante é que perderam boa parte do juízo. Sim, porque se vocês ainda sentissem a dose certa de medo por nós, eu poderia andar por aí como sempre andei, do meu jeito sem ser incomodado. O certo seria vocês saírem de perto e se esconderem na ilusória segurança de suas casas. Mas não. Agora é bem provável que alguém me dê um tiro se descobrir o que eu sou. Ou quebre uma viga na minha cabeça.

A última frase veio acompanhada de uma sobrancelha levantada e uma grande dose de sarcasmo.

Aquela quantidade de informação fez com que boa parte da raiva que Isabella sentia por ele pelo pequeno escândalo na frente de seu prédio se evaporasse. Além disso, ela não resistia à uma saudável discussão sobre princípios, e parecia que esse era o rumo que a conversa estava tomando.

Os humanos evoluíram e isso o obrigou a ser mais discreto. Era um bom argumento. Mas não bom o suficiente.

— Mesmo assim, você ainda podia pegar um ônibus. Ou o metrô.

— Fora de cogitação. – Ele respondeu como se Bella tivesse sugerido a coisa mais absurda do planeta.

Bella riu sarcasticamente.

— Claro. – Ela desistiu diante da arrogância dele e resolveu abordar outro assunto que a intrigava. - Afinal, acontece alguma coisa se você levar um tiro?

Dessa vez, ansiosa por uma resposta, ela diminuiu o ritmo de seus passos e olhando para Edward pela primeira vez desde que começara a andar.

Ele, por sua vez, acompanhou a diminuição de ritmo e devolveu-lhe o olhar.

Um sorriso surgiu no rosto dele, encantando Isabella. Parecia um sorriso genuíno, que lhe transmitia esperança. Ela teve certeza que ele lhe responderia com veracidade agora.

— Sabe, isso... – então, lentamente o sorriso calmo foi se transformando no conhecido, detestado e sarcástico sorriso torto. – Não é da sua conta. Mas você deve ter deduzido que uma viga não dá muito resultado.

— Será que você pode parar de relembrar esse fato?

— Ótimo. Pare de falar mal da minha moto. – Ele retrucou, voltando a levantar a cabeça e olhar para frente.

Bella reprimiu qualquer som que tentasse sair por sua boca. Cerrou os punhos, tentando se acalmar. Nunca, em toda sua vida, alguém tivera tanto poder de irritá-la quanto a pessoa que estava andando ao seu lado agora. Nem Mike Newton era tão irritante.

Mike ao menos se importava com algo além de si mesmo, ao contrário de Edward que era a encarnação perfeita do egoísmo. Provavelmente ele não faria nada além de correr para se salvar e se mudar para um lugar seguro e cheio de novas vítimas se houvesse uma explosão nuclear. Explosão...Bella se sobressaltou com o pensamento, que trouxe de volta à tona a primeira coisa que passou por sua cabeça quando saiu de casa e o viu parado na rua.

— Ei, espere um pouco. – Ela disse alto, estacando no meio da calçada. – Você está andando no Sol!

— Você também. – Ele disse calmamente. - Parabéns!

Ela realmente queria socá-lo. Causar algum dano àquele rosto magnificamente delineado, como se tivesse sido esculpido em mármore. Mas Bella sabia que isso só lhe traria mais frustração. Não que não fosse saborear o momento, mas sabia que se uma viga de madeira tinha sido reduzida a pó na noite passada, sua mão chegaria bem perto disso. E isto tiraria todo o prazer de causar dano àquele ser irritado, afinal, no fim das contas, ele provavelmente não sofreia dano algum.

— É eu estou, mas você não deveria estar. Você é um vampiro, deveria explodir, virar cinzas ou derreter que nem manteiga, sei lá.

— Você pode parar de falar o que eu sou em voz alta, por favor? Alguém pode achar que você é louca, ou pior, acreditar. – Disse Edward em voz baixa, se aproximando do rosto dela, ficando tão próximo que Bella conseguia sentir o hálito doce dele batendo direto em seu rosto – E sim, eu realmente deveria explodir, mas sou velho demais para que um simples sol da manhã me assuste.

Bella piscou, tentando voltar à realidade e parar de prestar atenção em como ele estava próximo e o quanto ela gostava daquilo.

— Velho? O que você dizer com velho? – Ela perguntou ainda incomodada com a proximidade dele.

— Ora, vai me dizer que não sabe a definição de velho?

— É claro que sei, estúpido! – Bell desviou dele e continuou andando enquanto falava – O que eu quero dizer, é o quão velho você é?

— Bom, eu não acho que você vai querer saber, – ele disse já ao seu lado, alcançando-a sem nenhum esforço – sabe, isso poderia destruir suas fantasias sexuais, que por acaso, eu sei que você tem.

Bella franziu a sobrancelha irritada, bufou e desviou do corpo dele voltando a caminhar rápido sem dizer nenhuma palavra e mais uma vez ele a alcançou sem, aparentemente, se mexer.

— Vou levar seu silêncio como uma confirmação. – Ele disse com um sorriso aberto, demonstrando toda a arrogância que ele conseguia expressar. – Mas, afinal, qual é a graça de caminhar?

Bella respirou fundo, enterrando todos os xingamentos que ela queria pronunciar bem no fundo de sua mente, e respondendo-o com o máximo de frieza que conseguia reunir.

— A graça de sentir todo o seu corpo trabalhando e ficando mais saudável a cada passo, a graça de sentir-se bem consigo mesma e sentir seu corpo retribuir isso... Ah e o mais importante, saber que você está contribuindo para a conservação do planeta.

— Ficar suando como um porco, e cansada contribuem para a conservação do planeta? – Perguntou o vampiro com um tom sarcástico.

— A partir do momento que eu deixo de emitir CO², sim, isso contribui. – Ela disse confiante, deixado um sorriso aparecer no canto da boca – acho que, sendo você alguém que vai ficar bastante tempo nesse planeta, deveria se preocupar mais com o mal que você faz andando naquela coisa.

Edward soltou uma gargalhada alta e harmoniosa, fazendo Bella pensar que quando ele ria genuinamente, e não para irritá-la, todo o rosto dele ganhava uma beleza extra, o que sem dúvida ela achava impossível.

— Acredite, eu me preocupo com o planeta, mas já ouviu o ditado "Uma andorinha só não faz verão"? Não importa o quanto eu faça, para cada tentativa minha de salvar o planeta, um milhão de mortais fazem algo para acabar com ele, então não me culpe por desistir.

— Você é, definitivamente, a criatura mais desiludida que eu conheço! – Ela disse, recebendo dele, um olhar inquisidor, fazendo-a olhar para a calçada enquanto se explicava, do contrário, poderia acabar tropeçando, nos próprios pés, devido a intensidade do olhar do vampiro – Quero dizer, só porque os humanos desistem, isso não quer dizer que você também possa, afinal, nosso prazo de validade não é tão grande.

— Está me dizendo que os humanos desistem de cuidar do planeta, simplesmente porque não iram permanecer muito tempo aqui?

— Exato. – Bella disse confiante.

— Essa teoria é completamente estúpida, Isabella – ele disse, risonho, olhando para a mulher totalmente confusa ao seu lado – Veja bem, eu tenho visto muitas gerações de humanos, vivendo nas mais diferentes épocas, e em todas elas, há uma preocupação com o futuro. Não importa se estão preocupados se terão gado suficiente naquelas terras ou se conseguirão se livrar da peste, humanos se preocupam com o futuro, a diferença é que eles não sabem planejar o futuro.

Bella piscou com força, absorvendo cada palavra que ele havia dito e odiando o fato de ele ter completa razão, ela assistia enquanto um sorriso vitorioso brotava no rosto dele e mais ódio ela tinha.

— Ok, você tem razão, mas isso não é motivo para andar naquela coisa e desistir completamente do planeta, Edward.

— Eu não desisti do planeta, Isabella, apenas estou aproveitando melhor o que essa geração pode me dar. – Ele terminou a frase piscando para ela, de uma forma nada inocente, o que a fez corar e prestar atenção no caminho.