Não tive que encarar as coisas sozinhas, afinal.
Nos dias que se seguiram, Carter e Blake, e até James Potter, se mostraram preocupados comigo. Eu não estava a fim de falar sobre os problemas com a família, ou sobre meu "sumiço", e eles respeitavam. Na verdade, eu não estava a fim de falar de nada.
E nem fazer nada.
Toda aquela disposição para travessuras e encrencas havia sumido. Todo meu bom humor também. Tudo o que eu fazia era ir à aula e fazer os deveres. De repente parecia que eu tinha voltado aos primeiros meses de aula, a diferença eram os olhares sempre atentos dos meus amigos que não saiam do meu lado.
James me parou uma tarde, querendo conversar sobre o Jardim, mas eu apenas disse que não podíamos falar sobre o assunto. Ele puxou outro então, o último jogo das Harpias de Hollyhead, meu time do coração. Milagrosamente, ele não ficou se vangloriando sobre como o time teve a maior temporada de vitórias enquanto sua mãe, Ginny Potter, estivera no time. Ele apenas manteve a conversa leve, e quando me dei conta, estava de fato rindo e me soltando pela primeira vez desde aquela conversa fatídica com minha prima.
Por alguma razão, me peguei contando a ele sobre aquele dia sobre tudo o que Andy tinha me dito. Algo que eu não tinha dito nem a Carter e Blake.
James me ouviu pacientemente, sem interromper ou demonstrar qualquer reação. Só quando eu terminei de contar tudo, com um suspiro, foi que ele se manifestou.
- Mas isso é horrível! – se indignou – Não acredito que uma família tão respeitada quanto a sua faria uma coisa dessas!
Eu balancei a cabeça, consternada.
- Não acredito mais nessa história de família. – declarei – É bobagem achar que alguém vai te amar não importa o que aconteça só por que vocês têm o mesmo sangue.
- Mesmo assim, são seus pais, pelo menos. – insistiu ele, as sobrancelhas franzidas – Quer dizer, um pai ama um filho acima de tudo, não é?
- Desde que as escolhas sejam as mesmas, acho que sim. – concordei – Mas se o filho age de maneira diferente, o pai tem que decidir apoiar ou não. Os meus não quiseram contrariar o resto da família, acho, então decidiram não em apoiar nessa.
James balançou a cabeça negativamente, como se quisesse dizer amis alguma coisa, mas manteve-se em silêncio. Eu podia perceber que ele estava tentando encontrar a coisa certa para me confortar, mas não deve ter achado, por que quando falou de novo, não era sobre as escolhas da minha família.
- E o que você vai fazer agora? – foi o que ele quis saber. Eu apenas dei de ombros – Você pode ficar na minha casa, se quiser. – ele ofereceu, com um sorriso tão gentil e sincero que eu quase aceitei na hora, mas claro que não podia.
- Obrigada, James, mas não. – eu sorri de volta, e acho que ele ficou surpreso por me ouvir chama-lo pelo primeiro nome. Eu respirei fundo e continuei – Preciso achar meu próprio caminho agora, sei lá, tentar provar para a minha família que eu não preciso deles. Só preciso pensar em como, exatamente.
Ele sorriu para mim, me encorajando.
Depois disso cada um seguiu o seu caminho. James ia ao campo de Quadribol tentar convencer algum aluno mais velho a "descolar" uma vassoura para ele, e eu precisava terminar meu dever de Transfiguração.
Meu primeiro objetivo era a biblioteca, mas percebi que não estava com vontade de ficar sozinha. Pela primeira vez em algum tempo, queria de fato a companhia dos meus amigos.
Segui para o Salão Comunal, então, pensando em como eu nunca poderia ter imaginado que logo James Potter, de todas as pessoas, me faria sentir bem novamente.
Blake e Carter estavam lá, acomodados nas melhores poltronas da sala, bem em frente à lareira de chamas esverdeadas, que lançava uma luz pálida nos garotos que conversavam animadamente com algumas segundanistas.
Aproximei-me sem que percebessem. As garotas pareciam fascinadas com o que quer que Blake estivesse dizendo, enquanto Carter apenas acrescentava algum detalhe aqui ou ali. Recostei-me na lareira e os observei, esperando até que me vissem. Não queria interromper a conversa.
Uma das garotas foi quem reparou em mim primeiro. Ela desviou o olha de Blake e pareceu espantada em me ver ali. Fazia sentido ela estar surpresa, eu não andava sendo muito social, e provavelmente a luz das chamas me deixava ainda mais pálida, quase como um fantasma.
Carter, sempre observador, percebeu que a garota não estava mais prestando atenção ao amigo e seguiu o olhar dela. Também ficou surpreso em me ver, talvez pela minha pose casual encostada na lareira ou a expressão (mais) suave em meu rosto. Ele abriu um sorriso, exibindo dentes muito brancos.
- Ju! – exclamou, a voz rouca empolgada, chamando a atenção de Blake, que parou no meio da frase e sorriu largamente para mim.
- Olha só quem resolveu dar as caras! – ele brincou, mas sua voz era controlada. Ele estava testando meu humor.
Eu apenas dei de ombros, me sentando no braço da poltrona de Carter, o único que não tinha uma segundanista empoleirada. Isso foi indicação o suficiente de que eu estava de bom humor o suficiente para pelo menos lhes fazer companhia, e Blake logo dispensou, o mais gentilmente possível, as garotas.
Elas eram só sorriso e risadinhas ao deixarem meus amigos em paz, liberando uma poltrona ao lado de Blake, a qual eu logo me apossei.
- Mas que hienas. – comentei, despreocupada, enquanto tirava o livro de Transfiguração da bolsa. De canto de olho, percebi os garotos trocarem olhares significativos, como eles sempre faziam, como se estivessem tendo uma conversa secreta apenas ao olharem um para o outro.
Comecei a ler algumas anotações que eu fizera durante a aula enquanto os meninos apenas me observavam.
- Então... – começou Blake, se inclinando para mim – Você está legal?
Puxei um pergaminho, tinteiro e pena da bolsa e apoiei na mesinha de centro.
- Acho que sim.
Mais silêncio. Eles me olharam por alguns instantes, enquanto eu começava a escrever a redação sobre os Princípios Básicos da Transfiguração de Organismos Simples.
- Ju, a gente conversou com a sua prima. – isso chamou minha atenção, fazendo a pena deslizar pelo pergaminho quando eu erguia a cabeça numa velocidade que eu não acreditava ser possível – Não fique brava com a gente. – Blake fez um gesto de rendição ao ver minha cara espantada – Nós só estávamos preocupados com você. – ele deu um sorriso e eu revirei os olhos, sabendo que não poderia ficar brava diante daqueles dentes incrivelmente brancos.
- O que vocês falaram com ela? – eu perguntei, aflita. Por alguma razão, não queria que eles soubessem que minha família me rejeitara de novo. Não ia aguentar os olhares de pena mais uma vez.
- Fomos saber o que tinha acontecido naquele dia para você ficar tão abalada. – disse Blake, como se fosse óbvio.
- Por que você não nos contou? – Carter se manifestou, o sorriso de antes desaparecido e o olhar sério – Pode confiar na gente, sabe. – ele soou magoado, mas pareceu que não era isso que queria dizer, pois quando percebeu as palavras que saíram de sua boca, balançou a cabeça levemente – O que eu quero dizer é que podíamos ter te ajudado a enfrentar isso. Não precisava passar por essa situação sozinha. – por algum motivo, as bochechas normalmente muito pálidas de Carter tomaram uma coloração rosada, mas ele não desviou o olhar de mim.
Eu não sabia o que dizer. Estava arrasada de novo. Não sei por que pareceu tão fácil falar sobre isso com James Potter e com meus melhores (talvez únicos) amigos parecia extremamente humilhante.
Blake passou o braço pelos meus ombros encolhidos e o sorriso sempre presente me acalmou um pouco.
- Sinceramente, não sei como você não pensou nisso antes. – disse ele, e continuou quando viu minha expressão confusa – Sem ofensa, mas seus parentes parecem muito idiotas, você faz bem em se afastar deles. Mais alguns anos e vai saber o que você poderia se tornar. – ele arregalou os olhos castanhos – Alguma esnobe com alto cargo no Ministério, olhando para todos por cima, sem nunca sorrir ou se divertir... – ele fez uma pausa, olhando dramaticamente para o horizonte. Era tão ridículo que eu não pude deixar de rir.
Carter revirou os olhos e deu um soco de leve no ombro do amigo.
- Pergunta idiota: como você está? – quis saber.
Eu suspirei e tirei o braço de Blake dos meus ombros. Ele ainda olhava para o nada e o braço estava começando a pesar.
- Superando, acho. – respondi por fim – Tentando saber o que fazer a seguir.
- Você já tem algum plano? – ele perguntou, parecendo meio ansioso. Achei estranho, mas não disse nada. Ele estava preocupado comigo, afinal.
- Na verdade não. – admiti – Tudo o que eu sei é que eu tenho uma herança de um tio-avô aí que vai me manter por algum tempo. Não sei se é o suficiente para pagar a escola e alguma acomodação nas férias, mas é alguma coisa pelo menos.
- Uma herança de um tio-avô aí? – Blake saiu do seu auto-induzido transe e ergueu uma sobrancelha para mim – Como assim uma herança?
- Eu sei lá. – encolhi os ombros – Nem conheci o velho, ou talvez tenha conhecido quando era um bebê, mas mesmo assim ele me deixou a grana quando morreu. – um pensamento me ocorreu de repente – Engraçado, parece que ele sabia que eu ia precisar ter meu próprio dinheiro...
- Bom, de qualquer maneira, ainda tem um tempinho para você decidir o que fazer. – disse Blake, animadamente – E a gente te ajuda a achar algum lugar legal. E se precisar, você pode sempre ficar com a gente, né?
Carter concordou com a cabeça, um enorme sorriso no rosto e os olhos azuis iluminados. Eu sorri de volta e me levantei da poltrona, me postando entre os dois de modo que conseguisse passar meus braços pelos ombros deles e apertá-los em um abraço.
N/A: Daqui para frente talvez eu demore um pouco mais para atualizar pq estou viajando, mas vou tentar escrever e postar assim que tiver algum tempo!
