Capítulo V
O som de risadas, trazido pelo vento, atraiu Edward para a janela. O pátio estava banhado em sol. A paisagem branca já havia se despedido para a chegada da nova estação. Mas não era exatamente a primavera a responsável pelo calor que o inundava. Isabella estava rindo em meio ao pessoal. Desde que assumira a administração de Shadowsend Keep, Edward estabelecera regras de convivência. O uso de cada local fora delimitado. O pátio servia agora também como campo de treinamento para seus homens.
Naquele momento, eles não estavam treinando com suas espadas. Não era o ruído metálico que o alcançava, mas o entusiasmo de suas vozes.
Bastava Isabella aparecer para eles para que esquecessem o dever e competissem por sua atenção. Como culpá-los se ele era a maior vítima de seu poder de sedução? A felicidade que Isabella estava encontrando ao ingressar naquele novo mundo pelos braços dele era o maior presente que ela poderia lhe dar. O que significavam alguns minutos de sua dedicação a homens que se entregavam de corpo e alma na defesa dos valores em que acreditavam? Seria demasiado egoísmo da parte dele reclamar Isabella apenas para si. Seus homens mereciam a distração inocente que ela representava. E Isabella tinha motivos para esse deslumbramento quando vivera quase toda sua vida como uma prisioneira. Às vezes, ele nem sequer conseguia acompanhar seu dinamismo. Tudo agora despertava seu interesse. Ela era incansável na perseguição de novidades.
Normalmente, não era permitido que as mulheres frequentassem locais de treinamento, mas quando a dama em questão se chamava Isabella Beaumont era aberta uma exceção.
Edward não conteve um sorriso à decepção dos homens com a chegada de Garrett que ordenou que voltassem à prática. No meio deles, Isabella começou a retornar à casa, seguida por uma afobada Renée que não parecia ter se adaptado ainda à rotina revitalizada de sua ama.
Ele se preparou para substituir a criada, mas antes que ela trouxesse Isabella de volta ao quarto, ele desistiu do projeto. Sua postura talvez fosse insensata, mas nos últimos dias a recusa de sua esposa em partilhar seus segredos o estava incomodando. Seus pensamentos a esse respeito estavam se tornando obsessivos. Seu orgulho masculino estava lhe cobrando um pesado tributo.
Esperou até que Isabella e Renée desaparecessem entre os muros que conduziam à cozinha, nos fundos, para se afastar da janela. Chegou a recuar um passo quando adivinhou uma forma escura à espreita. Com os sentidos aguçados para o perigo, Edward estreitou os olhos e descobriu um homem escondido entre os arbustos. Qual não foi sua surpresa ao reconhecer o pastor que os casara. Lembrava-se de Isabella lhe ter contado que ele era amigo de seu irmão.
Então ele não se enganara ao antipatizar com o homem à primeira vista. Embora Isabella ainda fosse praticamente uma estranha para ele, apesar de sua noiva, ele odiara o modo como o sujeito a fitava e a seguia com os olhos por onde quer que ela fosse. Não diria nada a ela sobre sua descoberta. Isabella ficaria aterrorizada se soubesse que o irmão mandara vigiá-la. Mas estava disposto a encontrar uma forma de impedir aquela invasão a sua privacidade.
Uma forte batida à porta o fez voltar ao presente. Colocou-se por trás da escrivaninha. Melhor fingir que estava ocupado com a lista de serviços a serem feitos do que ser surpreendido sonhando acordado com sua esposa.
Sir Edmond, um de seus homens, abriu a porta com dificuldade. Estava segurando uma ovelha que quase deixou escapar de tanto que o pobre animal esperneava.
Edward apoiou os cotovelos sobre o tampo da mesa e apertou os lábios para não rir. O jovem parecia constrangido, mas também orgulhoso de si mesmo ao trazer a oferenda.
— Pode me dizer por que me trouxe essa ovelha? — Edward franziu o rosto.
— Na verdade, ela não é para você.
Por que a declaração não o surpreendia? Edward suspirou. Fatos como aquele vinham se repetindo havia semanas. Por culpa de Garrett, é claro. Ao oferecer o buquê de ervas aromáticas, ele recebera um beijo no rosto em recompensa e dera início a uma competição entre os companheiros de quem conseguiria ganhar outros beijos de lady Isabella.
Até mesmo o velho Charlie se colocara entre os pretendentes. Sua oferenda fora uma pena de pato. Para oferecê-la, ele se ajoelhou galantemente. Os joelhos estalaram, o que provocou risos e chacotas.
Na defesa de Charlie, Isabella pediu que os homens se calassem e o proibiu de tornar a lhe render aquele tipo de homenagem, ajudando-o gentilmente a se levantar. O que houve a seguir não só emudeceu a plateia como encorajou os homens a usarem sua criatividade. Isabella abraçou Charlie como a um pai e apoiou a mão na curva de seu braço, pedindo que a guiasse até a despensa para que pudesse providenciar um inventário das provisões.
Vencidos os ciúmes, Edward se imaginara oferecendo o mimo no lugar de Charlie. Ele esperaria até que estivesse a sós com a esposa. Então a despiria e percorreria sua pele acetinada com a pena. Isabella suspiraria ao toque adivinhado na elevação dos seios, na concavidade do umbigo, na parte interna das coxas...
Ele precisou fechar os olhos e se forçar a respirar para apagar o quadro de sua mente. Teria sido impossível ocultar de sir Edmond seu estado de luxúria se o rapaz não estivesse tão distraído com os balidos da ovelha que lutava bravamente por recuperar sua liberdade.
No fundo, Edward estava com pena do novato. Cavaleiros não eram treinados para criar ovelhas e pastoreá-las.
— Então você não a trouxe para mim.
Vermelho como um pimentão, sir Edmond baixou a cabeça e confirmou o palpite.
— Eu pensei em oferecê-la a...
— Não é preciso que continue — Edward o interrompeu. — Você achou que poderia se fazer conhecer a Isabella, minha esposa, e talvez receber seus protestos de gratidão, caso conseguisse se aproximar dela com a desculpa de lhe dar um presente.
O jovem tornou a assentir.
— Por que, então, você não aproveitou para entregar o presente diretamente a ela?
— Eu não consegui passar pelos outros — sir Edmond confessou.
Uma explosão de riso ameaçava vencer o prazer da provocação. Edward se levantou e fez menção de se dirigir para a porta.
— Gostaria que eu o levasse até ela?
O deslumbramento do rapaz se evidenciou em seu largo sorriso.
— Faria isso por mim?
Incapaz de continuar fingindo, Edward fez um gesto para que o rapaz se aproximasse.
— Venha comigo. Eu o levarei até minha esposa. Seria incapaz de impedi-la de receber uma homenagem. Há poucos instantes eu a vi rumando para a cozinha.
Os homens interromperam os exercícios ao vê-los passarem. Os balidos frenéticos da ovelha ajudaram sobremaneira a chamar a atenção sobre eles. Sir Edmond marchava com o queixo tão erguido, de vaidade e orgulho, que Edward receou que ele fosse tropeçar e cair. Da mesma forma que não culpara Garrett, nem Charlie, não podia responsabilizar seus outros homens por terem se rendido ao fascínio de Isabella.
Como ele. Principalmente ele.
Para compensar Isabella por ter sido obrigada a se separar das relíquias que a lembravam de um passado em que ainda possuía o dom da visão, ele estava fazendo constantes peregrinações à torre, transferindo aos poucos os objetos que lá haviam sido encerrados. Isabella empalidecera ao reconhecer o livro que tivera nas mãos, sob o olhar comovido de Edward, naquela noite. Proibiu-o de trazer outros objetos. Determinou que tudo permanecesse onde e como estava. Ele suplicara para que ela lhe contasse a razão desse sacrifício. Não conseguia entender o porquê de Isabella se negar o prazer de ter de volta coisas que eram suas. Mas a esposa se recusara a lhe abrir seu coração.
Ele resolveu prosseguir em seu intento. Faria uma surpresa a ela no momento oportuno. Não conseguia parar de pensar no desvelo com que Isabella tocara cada livro, cada superfície. Principalmente em seu impulso, ao esconder no bolso um peso de papel quando acreditara que o gesto passaria despercebido.
A falta de confiança de Isabella o machucara como um golpe. Mas na calada daquela noite, vendo-a dormir com a placidez de um anjo, ele a perdoara. Sua esposa tinha medo. Ele seria um infame se fizesse acordar os ecos do passado exigindo respostas que ela não estava em condições de oferecer.
Enfurecia-o que a insistência de Isabella de que os objetos permanecessem onde estavam se fundamentasse em medo. Que ela não acreditasse em sua capacidade de defendê-la contra as ameaças feitas pelo irmão. Se ao menos ela conversasse com ele!
Se Isabella lhe desse uma chance, ele afastaria todos os fantasmas que assombravam seus dias e suas noites. Por sua esposa, seria capaz de reduzir James a pó! Mas Isabella se recusava a lhe confidenciar seus segredos. Ela o queria perto de seu corpo, mas longe de seu coração... Apesar de tudo, Edward continuava buscando os pequenos tesouros que pretendia poder oferecer algum dia como símbolos de seu devotamento. Cada peça seria uma declaração silenciosa de que ele a protegeria até seu último suspiro contra qualquer mal que tentassem lhe fazer. Tinha esperança de que ela acabaria por entender seus propósitos e permitir que ele atravessasse as muralhas de que se revestira.
Isabella cavava a terra aquecida pelo sol da primavera. A impressão que tivera fora de que o último inverno duraria para sempre. Mas o vento estava mais brando e seu perfume tornava-se gradativamente mais doce.
Após anos e anos de solidão e isolamento, Isabella queria aproveitar cada minuto e glorificar a oportunidade de estar viva. Aprendera a agradecer pelas dádivas divinas em que até mesmo o perfume das flores e das ervas trazido pelo vento era um milagre. E ela queria fazer parte desse milagre, contribuindo de alguma maneira com a natureza. Apesar de suas limitações, queria ao menos plantar algumas sementes que mais tarde se transformariam em árvores e flores.
Queria aprender novas coisas. Estava decidida a tornar cada dia melhor do que o anterior. Não importava que Renée ficasse reclamando sobre jardinagem não ser tarefa para uma mulher realizar. O velho Carlisle era um ótimo professor e guiava suas mãos pacientemente. Além disso, Renée merecia uma folga depois de ter cuidado dela todos aqueles anos, sem dividir o peso dessa responsabilidade com ninguém.
Carlisle lhe destinara um canteiro para preparar. Ele a ensinara a revolver a terra para depois receber as sementes que ele recolhera no último outono. Isabella se sentia como se estivesse encontrando finalmente seu lugar no mundo. Não importava que tivesse dificuldades. Quem não as tinha de uma forma ou de outra? Ela descobrira ao tocar as mãos do velho criado, que seus dedos estavam deformados pela artrose e que isso não o impedia de trabalhar. Ela fora abençoada com a chegada de Edward. Ele era o mago que a trouxera do exílio para o convívio com os humanos.
O som de seu próprio riso a fez rir ainda mais. Que tolice! De onde tirara aquela ideia? Seu marido, um forte guerreiro, comparado a um manipulado dos elementos? Por outro lado, não era magia o que ele fazia com seu corpo, criando sensações que ela jamais imaginara existir?
Nunca fora tão feliz em sua vida. Chegava a ter medo dessa felicidade. Às vezes tinha a impressão de que era bom demais para ser verdade. Que o destino a estava tentando. Ou talvez fosse medo de que James estivesse por trás do que estava acontecendo e que de uma hora para outra tudo voltasse a ser como antes. Porque fora o irmão quem colocara Edward em seu caminho. E ele jamais tivera a intenção de lhe dar uma migalha que fosse de felicidade.
As mãos de Isabella tremeram em contato com a terra, apesar do dia ensolarado. Seu ódio pelo irmão foi maior do que nunca. Não adiantava tentar fugir porque ele estava permanentemente à espreita de qualquer oportunidade para destruí-la. Talvez a presença de Edward significasse apenas isso. Um novo movimento no jogo de James.
Para sair do abismo de escuridão em que se precipitara com aqueles pensamentos sórdidos, Isabella sacudiu energicamente a cabeça e voltou a se concentrar no plantio das sementes. Aguçou os ouvidos para os sons da primavera, para o canto dos passarinhos atarefados com a construção de ninhos, para o zumbido das abelhas à procura do néctar das flores, para um balido...
— Você está vendo alguma ovelha por perto, Carlisle? Ela comerá todas as sementes, se a deixarmos aqui.
— Sim, milady. Sir Edmond está vindo para cá com uma nos braços.
Surpresa, Isabella aguardou que o rapaz se aproximasse. Mas foi a voz de Edward que ela ouviu.
— Não era minha intenção interromper seu trabalho, minha pequena, mas sir Edmond quer lhe dar um presente.
— Um presente? Uma ovelha, você quis dizer?
— Eu penso que é um cordeiro — sir Edmond esclareceu. — Mas não tenho certeza.
Carlisle deu um sorriso.
— O animal é definitivamente um cordeiro.
Sir Edmond enrubesceu aos olhares que flagrou entre o chefe e o velho criado. Os dois estavam caçoando dele. Arrependeu-se de sua ousadia. Seu desejo era que um buraco abrisse a seus pés.
— Não ligue para eles, Edmond. — A observação de lady Isabella o fez mudar de ideia . Para vê-la sorrir daquele jeito, qualquer sacrifício valeria a pena. — Você acha que o cordeiro poderá se assustar se eu tocá-lo?
O rapaz quase tropeçou em si mesmo para colocar o cordeiro ao alcance dela. Edward suspirou. Outro de seus homens havia sido dominado pelo fascínio de sua esposa, como marinheiros por uma sereia.
Também o cordeiro se deixou dominar. Ao sentir o toque suave em sua cabeça, o pequeno animal parou de espernear e de balir.
— Oh, ele não é um encanto? — Isabella pareceu deslumbrada com a experiência. — Posso segurá-lo?
— Claro que sim!— Ainda mais orgulhoso de seu feito, Edmond colocou o pequeno animal nos braços de Isabella e ele, como se soubesse instintivamente que teria uma nova dona, fechou os olhinhos e dormiu.
Incapaz de resistir à pureza da cena, Edward enlaçou Isabella pelo ombro e adorou que ela se aconchegasse a ele, apesar do cuidado para não deixar o cordeiro cair.
— Parece que você seduz tanto os homens como os animais com seu charme — ele disse baixinho.
Ela sorriu.
— Posso levá-lo para casa? Tenho certeza de que saberei cuidar dele, com um pouco de ajuda.
— Mas, Isabella...
— Eu prometo que você nem sequer se lembrará que ele existe. Um cordeiro, afinal, não deve ser muito diferente de um cão para criar.
— Cães são espertos. Além disso, eu nunca ouvi falar em um cordeiro de estimação.
Ele sabia que estaria lutando por uma causa perdida desde antes de Isabella pegar o cordeiro no colo. Na verdade, ele adivinhou que ela se apaixonaria pelo pequeno animal desde que Edmond lhe contara que pretendia dá-lo de presente a Isabella.
— Está bem. Mas você terá de encontrar um lugar para abrigá-lo. Não há condições de ficar com ele em nosso quarto.
O sermão foi interrompido pelo grito de prazer que ela deu e pelo modo como o abraçou e beijou. Ele quis retribuir o beijo. O cordeiro o impediu.
Constrangido por ter sido obrigado a se afastar da esposa por um animal assustado, Edward se sentiu aliviado por Carlisle ter deixado as sementes caírem e se espalharem por toda a parte. Notou, nesse instante, que Edmond olhava para Isabella com expectativa.
— O rapaz parece uma criança que lhe roubaram o doce — Edward cochichou. — Acho que ele está pensando que eu roubei seu direito a uma recompensa.
Isabella se reprovou pela indelicadeza para com o jovem e se apressou a corrigir seu erro, beijando-o nas faces.
— Eu adorei seu presente, sir Edmond. Quero lhe agradecer a gentileza.
— Não é preciso me agradecer, milady. Agora, peço que me desculpe porque tenho de voltar ao trabalho. — E com o gesto mais cavalheiresco que Edward já o vira fazer, ele se curvou sobre a mão de Isabella, levou-a à altura da fronte e se afastou. Edward o seguiu com os olhos e o viu dar um pulo e erguer um braço em sinal de vitória, antes de desaparecer atrás da casa.
— Como você faz isso? — Edward perguntou, a cabeça se movendo de um lado para outro.
— Como eu faço o quê? — Isabella quis saber, distraída em acalmar o cordeiro que, de repente, parecia ansioso para escapar de seus braços. E antes que Edward pudesse explicar a que se referira, ela pediu que ele a ajudasse a levá-lo para casa porque o pobre animal deveria estar com fome.
— Era o que eu estava pensando — Carlisle concordou. — Acho que uma visita à cozinha fará bem à criatura. Lá poderão encontrar algo para ele comer e improvisar um lugar aquecido para ele dormir.
A ruga de preocupação desapareceu da testa de Isabella.
— Sua ideia foi brilhante.
Para justificar sua inexperiência no trato com o cordeiro, Edward encolheu os ombros.
— Sou um guerreiro, não um fazendeiro.
— Como atual senhor destas terras, seria recomendável que aprendesse a atuar também nesse sentido — Carlisle tornou a se manifestar com a sabedoria adquirida após uma longa existência.
Para surpresa de Edward, Isabella colocou o cordeiro nos braços dele.
— Você poderia cuidar dele por mim? Preciso terminar meu canteiro. Carlisle está certo. Você não pode continuar sendo apenas um guerreiro. Deve aprender a conduzir as pessoas que vivem sob sua proteção também em tempos de paz. Pequenos animais normalmente fazem parte da vida dessas pessoas.
Edward olhou, aturdido, para o velho jardineiro. O homem abaixou imediatamente a cabeça e se pôs a mexer com a terra. Ainda mais pasmo, Edward notou que o cordeiro estava tentando comer os cordões de sua túnica.
— Você o ganhou, Isabella! Não é justo que eu tenha de alimentá-lo! — Edward tornou a protestar. Mas um beijo, como de costume, o fez se render.
— Leite e cama quente — sugeriu Isabella. — Não é isso, Carlisle?
— Sim, milady.
Para compensar seu prejuízo, Edward roubou um beijo de sua esposa antes de seguir para a cozinha. Não esperava que ela fosse se aproximar de seu ouvido e pedir que ele viesse buscá-la em uma hora para conversarem a sós.
Como resistir? Ele se afastou depressa, depois de avisá-la que não se atrasasse porque ele não lhe daria nem sequer um minuto além daquele prazo.
O cordeiro olhou-o como se quisesse descobrir o motivo daquela súbita excitação. Edward se viu fazendo algo que jamais imaginara ser capaz: falar com um animal.
— Parece que eu também ganharei uma recompensa por sua causa.
Isabella sorriu ao distinguir o assovio de Edward sendo trazido pela brisa e voltou a se ocupar com a terra.
— Milady me permite uma observação?
— Sim, Carlisle, é claro.
— E um bom homem esse seu marido.
— Você acha? — Isabella fez de conta que não se importava com a resposta.
— Não, milady, eu não acho. Eu tenho certeza.
Até conhecer Edward, Isabella não teria acreditado na opinião do velho jardineiro, nem de Renée, nem em sua própria intuição. Não quando homens como James pareciam estar em controle de tudo. Ela se pôs a rezar, naquele momento, para que seu esposo nunca a decepcionasse. Precisava que ele fosse realmente o que aparentava ser.
Estaria desafiando o céu ao pedir tanto?
Isabella recebeu a notícia de que o mensageiro havia chegado como se já o estivesse esperando. Porque em nenhum momento ela acreditou que James tivesse decidido deixá-la em paz. Durante todo aquele tempo ele estivera apenas espalhando seu veneno, gota a gota, de longe, certo de que a falta de notícias acabaria por nutrir o coração dela com o alento da esperança. Não que o tempo tivesse sido o único responsável por essa alegria fugaz. Edward e seus homens haviam trazido uma nova luz a sua casa.
Sob a orientação de Edward, as pessoas que viviam em Shadowsend Keep aprenderam a trabalhar e a se relacionarem com respeito.
Dava para ouvir o murmúrio das mulheres, naquela noite, costurando, bordando e trocando confidências junto ao fogo, no salão principal, enquanto os homens se ocupavam em limpar armas e utensílios de madeira, couro ou metal, também conversando. A mistura das vozes mais graves dos homens e mais agudas das mulheres também contribuíam para a harmonia geral do ambiente. Nenhum som podia ser mais bonito para Isabella. Não conseguia entender como pudera viver tanto tempo isolada.
Um sorriso brilhava em seu semblante enquanto aguardava que Edward movesse a próxima peça sobre o tabuleiro em cima da mesa. A seus pés, o cordeirinho dormia.
— Você está se preparando para me dar o xeque-mate, não está? — Edward resmungou.
— Lógico que estou — Isabella respondeu em tom de provocação.
— Eu não teria tanta certeza, pequena — Edward recomendou. — Até ensiná-la a jogar xadrez, eu raramente perdia uma partida. A não ser, o que eu desconfio ser verdade, que você já soubesse jogar xadrez embora não tivesse me informado a respeito quando eu a desafiei a me vencer.
Isabella teve o desplante de baixar a cabeça.
— Por mais tentada que eu esteja a negar suas palavras, e permitir que se iluda com o fato de ter sido derrotado por uma principiante, minha dignidade me obriga a confessar que eu já jogava xadrez com meu pai quando era uma criança. Mas, se lhe serve de consolo, fazia muitos anos que eu não chegava perto de um tabuleiro.
— Não serve — Edward resmungou. — Não é o fato de eu perder que me incomoda, mas a sua incrível esperteza e capacidade de memória. Basta eu lhe dizer qual foi o movimento que fiz para você planejar a próxima jogada sem titubear. Francamente, isso não me parece normal.
Isabella se inclinou por cima da mesa e disse em tom conspirador.
— Pode não ser normal, mas é real.
O riso dela fez com que várias cabeças se virassem. Até mesmo o cordeiro olhou para a dona e para os humanos com algum interesse, antes de retomar seu sono interrompido.
Edward continuava empenhado em encontrar uma saída para escapar ao bloqueio que Isabella lhe armara. Recostado na cadeira de espaldar alto, ele examinava detidamente as peças e suas posições. Decidiu-se por mover o rei e passou a vez à esposa. Em poucos segundos, ela contra-atacou e abandonou a expressão pensativa por um sorriso de vitória.
— Xeque!
A partida ainda não estava terminada, Edward falou consigo mesmo. Mas por mais que sua mente teimasse em encontrar um jeito de salvar seu rei, sabia que acabaria tendo de entregá-lo.
Não era possível. Por mais que se esforçasse não conseguia entender qual o movimento que fizera para que ela estivesse a ponto de lhe dar o xeque-mate.
Nem sequer a aproximação de um de seus homens conseguiu que ele afastasse os olhos do tabuleiro. O que ele lhe disse ao ouvido, porém, o fez levantar com tanto ímpeto que a cadeira tombou para trás, acordando mais uma vez o cordeiro, que dessa vez baliu em protesto.
— Peço que me dê licença por um momento, pequena. Tenho um assunto a resolver.
— Fugindo para escapar da derrota, senhor meu marido? — Isabella caçoou com um sorriso de fingida inocência.
— Não, uma atitude como essa seria indigna de um guerreiro. Talvez possa considerá-la como uma retirada estratégica. Façamos o seguinte: por que não arruma as peças enquanto eu tomo algumas providências? Você me deve uma revanche. Fique certa de que da próxima vez eu não a deixarei ganhar!
— Que arrogância! — Isabella exclamou. — Você não me deixou ganhar. Eu o venci por meu próprio mérito!
Edward se afastou ao som das risadas de Isabella. Sem que ninguém visse, ele riu também. Não se importara realmente que sua esposa o tivesse vencido. Ele seria capaz de qualquer coisa para vê-la feliz.
Isabella ficou ouvindo os passos de Edward até que eles desaparecessem, abafados pela distância e pelos murmúrios dos presentes. Suas mãos começaram, então, a se mover sobre o tabuleiro, devolvendo cada peça à posição original.
Sua mente aproveitou esses instantes para alçar voo. O mundo que Edward lhe apresentara era repleto de novidades. Quando ela poderia ter imaginado que um simples jogo de xadrez fosse lhe proporcionar tanto bem-estar? Sentiu a alegria borbulhar em seu peito ao segurar o rei e recordar a surpresa de Edward ao se ver na iminência da derrota.
Ela não saberia explicar porque escondera de Edward que dominava a técnica do xadrez no momento que ele sugerira jogarem uma partida. Malícia? Ou apenas uma maneira de prolongar sua permanência ao lado dele até que as instruções fossem dadas? De qualquer maneira, não se arrependia de sua malandragem. Sua pequena fraude servira para reforçar sua admiração por Edward. Enternecia seu coração que ele fosse capaz de tratá-la com infinita paciência. Seu corpo o queria, desde o primeiro instante, pelas sensações indescritíveis que ele lhe proporcionava. Mas sua alma relutante e sofrida precisara de mais tempo para ceder. Agora estava preparada para aceitá-lo também nos recônditos de sua alma. Porque Edward tornara-se tão importante em sua vida como o ar que respirava.
Nas primeiras duas partidas, ela precisara se conter de modo a não se trair, todas as vezes que Edward parava as jogadas para fazer comentários, incapaz de tirar alguma vantagem do fato de ela não enxergar o tabuleiro. A preocupação dele interferia com sua concentração. Em compensação ela se deleitava ao ouvi-lo, sempre que ele tentava acalmá-la por sua fingida dificuldade no entendimento das regras.
Ao devolver a última peça para seu devido quadrado, Isabella prolongou o toque. Edward amarrara uma fita estreita ao redor de cada peça branca de modo que ela não tivesse dificuldade em identificá-la. Tanta consideração. No entanto, ela não tivera pudor em enganá-lo. Se estivesse no lugar dele, talvez não aceitasse com tanta facilidade ser usada em uma brincadeira como aquela.
Edward deveria ser o melhor homem do mundo. Ele era, sem dúvida, o melhor que ela conhecera.
— Venha comigo!
O chamado, vindo do nada, a fez estremecer. Edward estava sério e tenso. Ela percebeu isso pelo modo como ele a segurou pela mão, sem cerimônia, e a fez levantar da cadeira. O carneirinho, acordado de súbito, reclamou e fugiu para perto da lareira onde Charlie o aconchegou, com o cenho franzido pelo estranho comportamento de seu amo.
Sem chance de perguntar o que poderia ter acontecido, Isabella o seguiu aos tropeções e acabou se chocando contra as costas do marido quando ele parou sem avisá-la.
— Ei-la! Agora você pode transmitir a mensagem pessoalmente, como foi ordenado a fazer. Mas se continuar na minha frente depois de dizê-la, juro que farei com que se arrependa.
Sem entender o que estava se passando, Isabella se viu obrigada a esperar que a situação se esclarecesse. Sentiu que o sangue sumia de suas faces ao testemunhar o restante da conversa.
— Eu recebi ordens expressas para que a mensagem fosse transmitida a lady Isabella e a ninguém mais.
A voz era de um jovem. Isabella estranhou. Tinha certeza de nunca tê-la ouvido antes.
— Como eu me recuso a deixar minha esposa a sós com um desconhecido, ou você diz o que quer, ou pode voltar para o lugar de onde veio e devolver a mensagem ao mandatário.
Edward parecia outro homem. A agressividade com que estava tratando o rapaz a surpreendeu.
— O que está havendo, Edward? — ela perguntou, confusa.
Por causa da pressa com que Edward a levara ao encontro, ela não tivera como se localizar na propriedade. Estava completamente perdida.
— Peço que me desculpe pequena. Eu me deixei levar pela raiva. Seu irmão parece ter esquecido que você agora é uma mulher casada e que ele não pode esconder nada de mim.
O paraíso de Isabella foi abalado pela simples menção a James. A paz que ela ousara sentir lhe fora mais uma vez roubada. Seu irmão resolvera surgir das sombras para atormentá-la como tantas vezes antes e como continuaria a fazer até a morte de um deles. Não deveria ter se iludido. James jamais se permitiria esquecê-la. Solteira ou casada, ela continuaria à mercê dos pesadelos que ele provocava.
— O que meu irmão mandou me dizer? — perguntou depois de respirar profundamente para afastar uma súbita sensação de desmaio.
O jovem pigarreou.
— Peço que me desculpe, mas seu nobre irmão insistiu para que milady estivesse sozinha quando eu lhe trans...
— Ele pode insistir quanto quiser, mas esta propriedade é minha, e eu tenho todo o direito de saber o que se passa sob meu teto.
— Faça-o por mim — Isabella murmurou.
— Em absoluto! — Edward recusou, enfático.
— Será melhor para nós, se você me escutar — Isabella explicou, súplice.
Algo aconteceu naquele instante que fez Edward empalidecer. A esperança de um futuro feliz parecia ter abandonado Isabella. Ele não podia imaginar que o motivo não se limitava à ameaça feita pelo irmão, mas que ela voltara a suspeitar de que ele fizesse parte do plano de James para destruí-la até seu total aniquilamento.
Um longo minuto passou até que ela o ouviu suspirar.
— Está bem. Ficarei esperando do lado de fora.
Até mesmo o mensageiro estremeceu ao impacto da porta ao ser batida. Isabella cogitou, nesse instante, se não errara ao exigir que a ordem de James fosse cumprida. Se ela tivesse permitido que Edward permanecesse a seu lado, talvez seu irmão pudesse começar a enxergar que ela agora tinha alguém empenhado em protegê-la.
— Diga o que tem a dizer — Isabella pediu com um fio de voz, em vez disso.
Após alguns segundos, o jovem leu:
Querida irmãzinha,
Minhas saudações a você. Estou certo de que esta a encontrará bem. Notícias sobre seu feliz casamento chegaram a meus ouvidos. Como pode imaginar, tive imenso prazer em recebê-las. Também fui informado de que seu marido é digno de você. Excelente. Eu detestaria saber que você está sendo maltratada pelo açougueiro do rei. Especialmente porque fui eu que o escolhi para desposá-la. Não se esqueça de que estou sempre a seu lado, embora não possa me ver. Aliás, estou muito mais perto de você do que possa pensar.
Seu irmão devotado,
James
Terminada a leitura, Isabella ouviu o mensageiro tornar a enrolar o papel.
— Ele também me pediu que lhe entregasse isto para que se lembre dos que já foram e que passe a usá-lo junto ao corpo.
Isabella hesitou antes de estender a mão para que o mensageiro lhe entregasse a encomenda. Já esperava que fosse uma joia pela recomendação de usá-lo em seu corpo. Assim mesmo, a sensação do metal em contato com a palma da mão lhe causou um calafrio.
— Devo aguardar uma resposta para levar a meu senhor? — o mensageiro indagou, enquanto providenciava a entrega também do pergaminho. A negativa de Isabella, ele fez uma mesura, embora ela não pudesse percebê-la, e se despediu.
Ela permaneceu onde estava à mercê dos pensamentos que giravam ao seu redor como se fossem dardos. As palavras de James a amedrontavam. Sua mensagem fora clara. Principalmente a que escrevera nas entrelinhas. Que ele contava com espiões em Shadowsend Keep ela já sabia. O mais terrível fora ter suas suspeitas confirmadas de que Edward não era o que parecia.
Atingida pelos dardos, Isabella sentiu o veneno se espalhar por todo seu ser. Por mais que quisesse resistir às investidas do irmão, o poder dele era inexorável.
James era mais forte. Por mais que ela se odiasse por se submeter a sua autoridade, não conseguia mover nem sequer um dedo para impedir que a dominação se perpetuasse. Como naquele momento em que se desprezava por ter afastado Edward de si e por estar criando empecilhos para a realização de seu sonho de amor.
O problema era simples e abominável em sua simplicidade. O medo de James a consumia. Ela podia antecipar seus passos, mas não se preparava para detê-lo e não se dava a oportunidade de tentar vencê-lo. Mesmo a felicidade, entrevista em seu casamento, fora uma ilusão.
Essa era a explicação da supremacia de James. Ele conhecia seus inimigos melhor do que eles próprios. Explorava suas fraquezas e atacava-os nesses pontos sem dó nem piedade.
A indignação e a revolta a fizeram apertar as mãos com tanta força que as pedras do anel ficaram gravadas em sua pele, marcando-a com a dura realidade. Tocou-as cautelosamente e, imediatamente, se lembrou. Eram as esmeraldas e os rubis que sua mãe usava. O anel continha uma inscrição: Amor sem medida.
Um sorriso triste aflorou a seus lábios apesar da dor contundente que se alojara em seu peito. Amor sem medida, o lema de sua família.
Lágrimas de saudade marejaram seus olhos. Era estranho que James lhe tivesse oferecido aquele presente. Ele só poderia significar um lembrete, uma nova ameaça.
Seu irmão sabia que ela identificaria a joia mesmo sem vê-la e quais as memórias que o anel invocaria. Tempos de alegria, de saúde, de amor. Deixou escapar uma risada sarcástica seguida de um soluço. Porque era exatamente assim que era sua vida. De um amor sem medida.
Lembrava-se das inúmeras vezes em que se sentara no colo de sua mãe e pedira para ver o anel. E depois para que a mãe a deixasse segurá-lo. As duas, então, se dirigiam para a janela e a mãe ficava observando, sorridente, a filha que brincava com os reflexos coloridos que os raios do sol produziam ao incidirem sobre as pedras. Após alguns minutos, Isabella suplicava, invariavelmente, para que a mãe lhe permitisse usar o anel. A resposta era sempre a mesma e também o abraço que a acompanhava.
—Ele ainda é largo demais para você, querida. No dia que suas mãos forem tão grandes quanto as minhas, eu prometo que o darei a você.
— Mas, mamãe, eu cresci desde a última vez que experimentei o anel. Veja como minhas mãos estão grandes!
As mãos eram exibidas. A mãe fingia examiná-las atentamente e depois colocava as dela contra as da filha.
— Elas ainda não estão suficientemente grandes, querida. Até que o anel sirva em seu dedo, eu o usarei comigo de modo que não se perca.
A mãe fora fiel em sua promessa. O anel estava em seu dedo naquele dia em que saiu para cavalgar com o marido para nunca mais retornar.
Isabella jamais esqueceria o quanto se esforçara por convencê-los a darem um passeio. Fazia meses que seus pais não se afastavam de seu lado para não deixá-la sozinha na escuridão que a tragara. Tivera de insistir muito até que a mãe a ouvisse.
— Divirtam-se! — Isabella dissera no último instante, depois de beijar os pais e apertar as mãos de sua mãe e sentir a forma do anel em sua pele. — Eu estou bem. Não há com o que se preocupar. Há muita gente aqui para cuidar de mim. Além disso, será apenas por uma tarde.
Mentira. Ela não estava bem e detestaria ter de ficar sozinha. E o que deveria ter sido apenas uma tarde, prolongou-se pelo resto de sua vida.
Os corpos só foram localizados dois dias depois do acidente. Eles tinham sido atirados em uma valeta ao longo do riacho, provavelmente por bandidos, pois nenhum objeto de valor que carregavam foi encontrado. Nem o anel. Isabella não se importou. Sua perda era grande demais para lamentar a falta de algo material. Permaneceu em silêncio durante o velório, concentrando suas forças em segurar-lhes as mãos frias e rígidas. Não derramara nem sequer uma lágrima. Ela as havia esgotado de tanto chorar pela perda de seus olhos no acidente ocorrido meses antes.
A amargura a deixara como que entorpecida durante o funeral, mas a dor e o desespero reclamaram vazão em pouco tempo. Nos momentos de desespero, a imagem do anel voltou a assaltá-la. Como um símbolo e um lembrete do amor de sua mãe, ela o queria ter em seu dedo. Mas ele estava perdido para sempre, assim como os pais que, inadvertidamente, ela mandara para a morte.
Isabella voltou ao presente com um sobressalto. As pedras frias estavam lhe contando que seu próprio irmão fora o assassino de seus pais. Ou aquele anel teria se perdido em mãos e terras desconhecidas. O fato de James tê-lo conservado durante todos aqueles anos era uma prova irrefutável de que ele não estava em Londres, para onde o pai o banira desde que constatara sua culpa pela tragédia que roubara a visão da filha caçula, mas nos arredores. Apenas jamais ocorrera ao pai que o filho primogênito retornaria após sua morte para tomar posse dos bens que a lei lhe garantia.
Se James fosse inocente, ele nunca saberia que o anel não estava no dedo de sua mãe quando seu corpo fora encontrado em uma vala, ao lado do corpo do marido, dois dias depois que eles saíram montados em seus cavalos. A cruel realidade matara a última centelha de esperança a que ela tentara se agarrar durante todos aqueles anos de escuridão de que ainda poderia restar uma chance de encontrar paz em sua vida.
Porque não havia mais nada a esperar. Não quando o assassino de seus pais acabava de dar a carta que encerrava o jogo com a derrota esmagadora. Ao lhe enviar aquele anel, James lhe entregara não somente a evidência de seu feito mais tenebroso, mas também uma declaração de que ela nada poderia fazer contra ele.
Uma náusea intensa a invadiu e a obrigou a cruzar os braços sobre o estômago. Por um instante, sentiu ímpetos de atirar o anel longe. Em vez disso, abriu os dedos, deixou que a joia repousasse em sua palma e depois a levou até o coração, decidida a guardá-la e a protegê-la, como James esperava que fizesse. Porque o anel seria um lembrete constante da morte que a espreitava.
Um suor frio se espalhou pelas costas de Isabella. Ela precisou cerrar os dentes para deter o grito que subiu por sua garganta. Seu controle foi perfeito, contudo, ao ouvir Edward chamar seu nome.
— Você está bem?
Ela endireitou os ombros instantaneamente como se um fio invisível a puxasse para cima e colocou o anel no dedo, sem questionar o instinto que a levara a esconder a verdade de seu outro inimigo. Edward Beaumont, o açougueiro do rei.
— Estou — respondeu com um sorriso tão falso quanto a preocupação que ele vinha demonstrando desde sua chegada. — Por que não estaria? Você achou realmente que aquele jovem mensageiro poderia me causar algum dano?
— O que seu irmão queria? — Edward perguntou, como se não tivesse ouvido a observação.
Ele queria deitar por terra qualquer esperança que ainda poderia me restar de que você era quem se dizia ser, Isabella pensou cinicamente, e fez um movimento de descaso com os ombros.
— Nada de importante. Surpreendeu-me, na verdade, que ele tivesse se privado da ajuda de um de seus lacaios para mandá-lo até aqui só para se certificar de que eu estivesse bem de saúde a lado de meu esposo.
Os passos cadenciados de Edward de um lado para o outro despertaram uma ponta de inveja em Isabella. Oxalá pudesse reagir de outra forma. Talvez gastando as energias acumuladas por todo seu corpo em movimentos enérgicos. Mas ela parecia ter se transformado em pedra. Estava se sentindo sufocar por sua absoluta inércia.
— Maldito seja ele! — Edward praguejou, apertando o braço de Isabella tão inesperadamente que ela se encolheu. — James não significa nada para nós. Você entendeu? Ele não manda em você nem em mim. Acredite quando lhe digo que não deve temê-lo.
Em vez de tranqüilizá-la, o modo como Edward se comportou a deixou ainda mais aterrorizada. Edward vencera. Ele maculara até mesmo seu casamento. Seu futuro estava perdido como sempre estivera. Seu corpo estremecia dominado pela revolta. Ela não queria que Edward a tocasse. Por que, então, sentia vontade de implorar pelo calor daquelas mãos fortes outra vez em sua pele depois que ele se afastou magoado com sua patente rejeição?
O silêncio que se estendeu entre ambos foi tão intenso que Isabella o entendeu como uma ponte construída como por um passe de mágica e que seria impossível de transpor, mesmo que ela quisesse voltar atrás em sua decisão.
— Obviamente, você não me revelou todo o conteúdo da mensagem — Edward declarou com plena e verdadeira convicção. — Talvez eu deva ler o texto por mim mesmo ou tentar alcançar o mensageiro para que ele me conte o que você me ocultou.
Isabella negou com veemência.
— Não se dê a esse trabalho. Não há nada que possa lhe interessar.
O silêncio de Edward foi mais eloquente do que qualquer resposta que ele pudesse ter dado. Ele não acreditara no discurso mentiroso. Isabella sabia que deveria insistir sobre ter dito a verdade, mas as forças lhe faltaram. Que Edward lesse a mensagem de uma vez por todas! Isso não mudaria nada. O sopro que lhe restituíra a alegria de viver lhe fora retirado e sem ele ela voltaria a mergulhar na escuridão das sombras.
— Faça o que lhe aprouver. Eu vou me retirar para meus aposentos.
— Eu terei com você assim que terminar de tomar as providências para a noite. Pedirei que Renée suba para ajudá-la.
Isabella acenou de forma a dispensá-lo do oferecimento. Estava arrasada. Não queria ter ninguém a seu lado. Nem mesmo a fiel Renée.
— Não será preciso. Tenho certeza de que conseguirei me orientar sozinha.
Edward estreitou os olhos ao ver Isabella se afastar tateando pelas paredes. Quando tornou a falar, sua voz soou rouca e estranha a seus próprios ouvidos.
— Não importa. O que quer que seu irmão tenha dito ou feito, não importa. Ele não tem mais nenhum poder sobre você. Nem sobre mim. Não mais.
Isabella concordou com um gesto de cabeça em sinal de obediência, mas seu coração sabia que Edward estava mentindo. As mãos de James continuavam apertando seu pescoço, impedindo-a de respirar. E ele não a soltaria até que ela desse seu último suspiro. Longe ou perto, tanto fazia.
Na manhã seguinte, ao se levantar, Isabella sentiu uma forte náusea. Abraçou-se na tentativa de controlar o mal-estar. Mas em vez de melhorar, uma súbita tontura a fez voltar para a cama. No entanto, antes que a alcançasse, suas pernas cederam sob seu peso.
Ao cair, Isabella se deitou de lado e rezou para que as paredes parassem de girar e que ela conseguisse buscar o conforto de seu leito. Ainda estava escuro quando ouviu Edward sair do quarto. Não tivesse permanecido insone a noite toda, ela talvez não tivesse notado sua presença. Ele havia entrado um longo tempo depois de ela ter se recolhido. Ouvira-o se despir e depois tornar a se vestir, sem fazer nenhum ruído que pudesse acordá-la. Só depois de ouvi-lo sair e fechar a porta, ela se permitiu buscar um merecido descanso, embora temesse, no fundo, até mesmo o sono por causa dos pesadelos.
Agora, o sono trazia um novo agravante. Podia dominá-la e vencê-la em sua fraqueza. O que ela mais temia era procurar refúgio irrefletidamente nos braços de Edward. Esse era um recurso a que não mais poderia recorrer.
Poderia ter se passado uma hora, ou um século, até que Isabella conseguisse se levantar e chegar ao final daquele dia. De alguma forma, ela sobrevivera. Sobreviera a dor, ao medo, à fria cordialidade que parecia ter descido entre ela e Edward como uma cortina de neve.
Era de seu conhecimento que a responsável pelo erguimento daqueles muros invisíveis que os separavam era ela própria. De qualquer modo, Edward não fizera nenhum movimento que demonstrasse sua intenção de escalá-los. Ele simplesmente se escondera atrás deles como um predador à espera do momento oportuno de atacar.
A ceia transcorreu em um clima de abominável gentileza e cortesia. O riso e o conforto pareciam ter sido roubados de todos que habitavam Shadowsend Keep. O perigo parecia espreitar em cada fresta.
A impressão de Isabella era que ela estava morrendo um pouco a cada dia. E a cada noite. Embora Edward continuasse dormindo ao lado dela, a distância de seus corpos parecia se estender até o fim do mundo. Ela estava sozinha, como James queria que ficasse, e ele deveria estar exultante com o fato porque seus mensageiros estavam chegando e partindo com frequência cada vez maior.
A segunda mensagem lhe fora entregue menos de vinte e quatro horas após a primeira. Edward conduzira o portador a seus aposentos, em vez de pedir para que ela descesse. Surpreendera-a tentando engolir uma fatia de pão, apesar dos protestos de seu estômago, e insistira em ficar. Como o outro, o novo mensageiro também se recusou a permitir que ele ouvisse o que tinha a dizer.
— Não depende de mim, milorde. Estou apenas cumprindo ordens — o homem, um senhor de cabelos grisalhos, se desculpou, ofendido com a atitude beligerante de Edward.
Isabella pediu que Edward os deixasse a sós. Um sorriso triste acompanhou suas palavras e foi seguido de um suspiro à batida da porta. Onde fora parar o Edward que a ensinara a se abrir para o mundo e para o amor? Ou ele nunca existira, como afirmava James, porque seu casamento fora uma farsa desde o momento em que fora concebido?
A voz do mensageiro a sacudiu do torpor que a invadira ao se elevar pelo ambiente.
Minha querida irmã,
Espero que tenha apreciado o pequeno presente que lhe mandei Ao lhe entregar a joia eu me senti exultante por ter conseguido cumprir quase totalmente a promessa que lhe fiz há tantos anos atrás no alto daquela torre. Você se lembra daquele lugar e daquela ocasião, não se lembra, irmãzinha querida?
Eu estava cogitando lhe dizer estas palavras em pessoa, mas decidi aguardar mais um pouco para lhe fazer uma visita, de modo que Edward tenha mais algum tempo para completar sua missão. Ele a está servindo como deseja, minha querida? Eu penso nele como se também fosse um presente meu para você. Tenho planos para vocês, como bem sabe, e detestaria que me desapontassem. Não se esqueça de que sou amigo do rei, o que não poderia ser mais conveniente para mim.
Fique certa de que estou mais perto de você do que pode imaginar. Estou tão perto, aliás, que vou lhe dar uma pista para que tente adivinhar quão próximo eu me encontro: estou tão perto quanto o ar que acabou de respirar.
Seu irmão que tão bem a quer.
Ansiosa por ficar sozinha com seu desespero, Isabella se apressou a dispensar o portador da desgraça. James deveria estar se vangloriando do último trunfo alcançado. Seu escárnio estava claro nas vozes anônimas de seus mensageiros. O pior era saber que não podia fazer nada para detê-lo. Que embora ela tivesse vencido todas as batalhas nos últimos meses, sua derrocada era iminente. Não podia afirmar que aquele resultado já não era esperado. Sempre soubera que seu casamento era uma ilusão. Que James a fizera descobrir o amor só para poder destruí-la no que mais passaria a prezar: sua vida com Edward.
A dor em seu coração era tão forte quanto a dor que atravessara seus olhos naquele dia distante em que rolara do alto da torre.
