Capítulo 6 – A Queda

Na segunda-feira de manhã, quando Ron saiu para se encaminhar à sua escola, ele não se surpreendeu por não encontrar Hermione na esquina de seu quarteirão. Via somente sua rua ali, vazia, escura pelo horário.

Nos últimos anos, muitas coisas mudaram. Muitas famílias construíram casas, ou decidiram por morar lá definitivamente. As ruas foram asfaltadas e havia até praças e monumentos.

Rony ia observando a todos estes em seu doloroso caminho para a escola. Era Outono, e ele não poderia deixar de reclamar da temperatura que fazia naquela manhã.

"Vai ser pior ainda no Inverno", pensou consigo, numa estranha tentativa de consolo.

Foi então que viu, ao longe, um vulto de cabelos volumosos e castanhos. Sentiu um leve sorriso adornar-lhe a face quando constatou quem era: Hermione.

- Hermione! HERMIONE! – ele gritou, correndo na direção da garota, que parecia ignorá-lo.

Ela continuou andando vagarosamente, cabisbaixa. Não parecia muito aberta para pedidos de desculpas, mas o ruivo não desistiria tão fácil.

- Hermione! – ele a alcançou ofegante, agarrando-a bruscamente pelo braço – Hermione, ouça-me, por favor!

Nada. Continuava andando, indiferente.

- Olha, sobre ontem, eu... Não houve nada entre eu e a Luna, tá? Você pode perguntar para ela. Eu sei que a cena parecia meio estranha, mas...

- Mas o quê? Você vai querer me convencer que não é como os outros, que não tem nada no meio das pernas? É isso?

Ele ficou aliviado em ouvir a voz da amiga. Engoliu seco.

- Ah, bem... Não é assim também, Mione. Veja...

- Não há nada para ver, Ron – ela se virou e sorriu cínica – Aproveite.

E, com isso, desvencilhando-se da mão do amigo, ela saiu caminhando a passos largos.

- Espera, eu... Mione!

- Chega – falou a garota, com a voz chorosa.

Ela tinha um dos punhos fechados enquanto caminhava, deixando o amigo para trás, totalmente perdido.

Chegando na escola, ele mal teve tempo de cumprimentar Luna. Correu para sua sala, onde achou seu assento, ao lado de Mione, ocupado por nada menos que Blaise, o moreno com quem havia discutido na noite passada. Este o presenteou com um maldito sorriso amarelo.

- 'Dia, Weasley. Quer sentar? – fez um gesto insinuando que Rony teria de sentar em seu colo.

O ruivo sentiu os cabelos da nuca arrepiarem de raiva. Mas a feição desgostosa de Mione ao lado do Slytherin fez com que ele se controlasse novamente. Sentou-se ao lado de outro aluno da sala, com quem não falava muito. Não tinha muita escolha.

O dia decorreu sem grandes alterações nesse quadro, até que se deu a hora do intervalo, onde Rony pensou ter chance de conversar com a amiga, talvez lhe pagar um café para acalmar os ânimos, oferecer-se para varrer as folhas que caíam aos montes por conta da estação em que estavam, ou qualquer outro favor significativo que a amiga estipulasse.

Mas não a encontrou em lugar algum. Sua irmã decidira faltar, então só lhe restou procurar Luna. Ainda guardava um pouco de constrangimento para com os acontecimentos da noite anterior, mas tentara não pensar muito naquilo.

Ele sabia que, se pensasse, boa coisa não resultaria. Logo chegaria a um ponto de sua imaginação que, por mais saudável que seja aos adolescentes, não queria utilizar para com Luna. Não com ela, sua doce musa de folhas secas e douradas.

Optou por voltar à sala de aula, ver se conseguia assimilar a matéria que tivera de ligações químicas. Nunca fizera isso sem Mione, mas era o jeito. Por hora.

Enquanto isso, no banheiro feminino, uma garota loira ajeitava os cabelos ensebados em uma presilha fruta-cor, em formato de tomate.

Era Luna quem repousara uma de suas castanholas na pia do banheiro. Dando os toques finais nos cabelos, ficou satisfeita com a forma como a presilha reluzia em sua cabeça. Parecia hipnotizada pela cor, pelo formato, pelos poderes que aquilo poderia conter.

Foi quando Hermione entrou.

A princípio, não havia visto Luna ali, e foi entrando naturalmente, rumo à cabina mais próxima. Ao reparar na última pia da bancada do banheiro, porém, notou nos cabelos palha que já conhecia há tempos – e odiava há horas.

- Luna...

A mais nova sorriu para Hermione.

- Olá, Hermione – estendeu a mão, que segurava outra presilha igual à que usava no cabelo – Você quer uma também?

A garota de cabelos castanhos olhou com um ar incrédulo para o gesto da loira. Como podia uma menina tão nova ser tão cínica? Ou seria sádica o termo mais apropriado para descrevê-la?

- Como... Como você pode! – fechou a cara – O Rony, eu...

- Você tem irmãos, Hermione? – Luna fixou os olhos nos de Hermione, como se quisesse fazer uma criança dar-lhe atenção.

-... Não. Mas... Como assim?! Que pergunta foi essa?!

- Imagino que ter irmãos seja como dividir um pouco de você em cada um deles.

Hermione parecia abismada pelo que estava ouvindo. Talvez Luna fosse louca mesmo.

- Não tente desviar do assunto...

- Porque somos todos esculpidos cuidadosamente por nossos pais. Imagino que um artista que tente esculpir mais de uma escultura acabe deixando rebarbas de uma noutra, ou mesmo que haja semelhanças notáveis entre ambas. Não acha?

- Aonde você quer chegar?

- Às vezes eu queria saber se tenho algum irmão por aí – ela olhava dispersa, mas com um tom de voz levemente alegre – Além das estrelas, claro. E você, você já achou seus irmãos perdidos por aí?

A mais velha permaneceu introspectiva por um momento, delineando com os olhos a garota loira que agora estava frente a frente consigo. Mas era tão... Claro. Era mais que óbvio que Luna fizera aquilo considerando Rony um irmão. Por mais "no mundo da Lua" que fosse, ela era muito ingênua. Hermione sabia muito bem disso.

Tanto sabia que começou a se sentir extremamente culpada por todo aquele escarcéu e rancor para com a menina. Abraçou Luna com carinho.

- Você acredita muito nas coisas e nas pessoas, sabia? – falou, com um tom materno.

A loira não abraçara Hermione. Ao contrário, tocara esta somente com a ponta dos dedos, não fazendo questão de todos aqueles protocolos delicados que a amiga lhe dedicara. Mesmo assim, esbanjava uma alegria contagiante, como se tivesse acabado de ganhar em alguma argumentação.

- Acho que é você quem não vê além do que te falam.

Hermione sorriu. Teria muito tempo para revogar as declarações da loira. Agora, só queria saber de se redimir com a mesma...