CAPITULO 6

Diante da escrivaninha no escritório de Sesshoumaru, Rin procurava coragem para re­velar o verdadeiro motivo de sua presença ali.

— Está ouvindo, Rin? — ralhou ele, interrompendo a explanação sobre a situação financeira da SSL — Isto é sério.

— Estou ouvindo, só não estou entendendo. — Deci­dindo pôr de lado as preocupações quanto ao que ele lhe dissera pelo telefone à noite, ela se concentrou nas in­formações expostas, mas teve pouco esclarecimento. — Como podemos estar em dificuldades financeiras? O úl­timo relatório que me deu diz exatamente o oposto.

Sesshoumaru baixou os olhos para os papéis espalhados sobre a mesa. Era estranho que não a encarasse. Nunca o vira agir assim antes.

— É a concorrência — revelou, por fim. — Sem Kohako para cuidar de nossos assuntos domésticos enquanto eu estava no exterior, ficamos com uma certa defasagem a alcançar.

Rin franziu ainda mais o cenho. Kohako nunca contri­buíra tanto com a empresa. Era especialista em vendas. Mesmo a essa área, dedicava o mínimo tempo aceitável. Por que a falta dele acarretaria tantas dificuldades, con­siderando o exército de vendedores e executivos de marketing com que contavam?

— Continuo não entendendo.

— Vou simplificar. Neste último ano, praticamente não realizamos vendas domésticas. Nesse período não conquistamos nenhum cliente importante. E alguns dos antigos compradores estão abandonando o navio. Precisa­mos recuperá-los, bem como fechar novos contratos.

Ela suspirou.

— O que quer que eu faça?

— Tenho sondado um cliente em potencial, Raven Sierra, dono de uma cadeia de cooperativas agrícolas. Já qua­se o convenci a testar um sistema de segurança seme­lhante ao Gem. Se ele aceitar um teste experimental e o aprovar, vai comprar o sistema para a casa e o escri­tório. Isso nos dará todo um novo nicho do mercado a explorar.

— Sierra tem tanta influência assim? — A confirmação de Sesshoumaru, Rin quis saber: — E meu papel será exatamente...?

— Mostrar a ele como é fácil operar Gem. Rin não se conteve e riu.

— Só pode estar brincando!

— Ele quer ter certeza de que a filha não terá pro­blemas com o sistema.

— Nesse caso, você devia estar tendo esta conversa com seu computador.

— Quantas vezes terei de dizer que...

— Eu sei, eu sei, que Gem é uma máquina e desem­penha funções para as quais foi programada.

— Exatamente.

— Sem raciocínio. Sem emoções. Apenas placas de cir­cuitos e chips de memória, certo, Sesshoumaru?

Ele contraiu os lábios.

— A exemplo de seu criador.

Rin paralisou-se ante o comentário, de repente lembrando-se da razão de sua visita: retomar a conversa telefônica que tinham tido à noite.

— Não foi o que eu quis dizer.

Sesshoumaru empurrou a cadeira para trás e levantou-se.

— Mas foi o que pensou.

Ela se enrijeceu, cautelosa.

— Por algum motivo, você está determinado a trans­formar este casamento numa união verdadeira, mas não vai conseguir. Tivemos uma única noite. Nada mais.

Ele caminhou até a janela e ficou de costas para ela.

— Uma noite espetacular.

— Sim, uma noite espetacular — concordou Rin, de­vastada pelas lembranças. — Mas não uma base sufi­ciente para um casamento. Tem de haver confiança e... compromisso emocional.

Sesshoumaru voltou-se.

— E Abigail? Ela não constitui base suficiente?

— Podia constituir, se as coisas tivessem sido diferentes.

— Especifique.

Ela balançou a cabeça.

— Está se ouvindo, Sesshoumaru? "Especifique." Não pode sim­plesmente gritar uma ordem e esperar que eu execute alguma função. Sou uma mulher.

Ele esboçou um sorriso.

— Acha que não sei disso?

— Acho que não. Não sou Gem. Não pode apertar um botão ou programar certas funções para me transformar numa esposa modelo. Não sou uma máquina, Sesshoumaru. Quero mais.

— Diga-me o que quer. — O tom dele era de exigência, ainda que sob aparente calma. A frustração, mantinha sob controle, rígido controle. — Diga e será seu.

Rin fechou os olhos, refletindo. Ao chegar a uma con­clusão, deu uma risada vacilante.

— Sabe, estou tentando elaborar um argumento lógico, esforçando-me ao máximo para não me mostrar emocional, porque sei que isso não faz sentido para você. — Fitou-o nos olhos âmbar de aço. — Mas não consigo e o problema está em mim. Sou uma pessoa emocional, Sesshoumaru. Você programou Gem para avisá-lo quando eu me desvio.O que você parece não entender é que eu me desvio o tempo todo.

— Acha que não entendo?

— Pelo que sei, isso aconteceu só uma vez.

O semblante dele se endureceu. E os olhos... oh, os olhos dele fulguravam com mais emoção do que ela jamais imaginara possível!

Com poucos passos determinados, ele eliminou a dis­tância entre ambos.

— Sesshoumaru, não... — murmurou Rin, apertando as mãos nos braços da cadeira.

— Só uma vez? — replicou ele, inclinando-se e tomando-a nos braços. — Caso ainda não tenha percebido, mulher, estou me desviando neste exato momento. Estou me desviando de um jeito inacreditável. — Com a boca a um centímetro da dela, enterrou as mãos em sua vasta cabeleira. — Quero você, Rin. Quero você nos meus bra­ços. Quero você na minha cama. Mas, acima de tudo, quero você na minha vida.

Então, ele a beijou.

Desesperado e ávido, ele a consumia, sorvia, saboreava a essência rica e doce. E ela se via indefesa em seus braços. Ou melhor, não totalmente indefesa. Podia re­troceder quando quisesse. Só que não queria. Céus, não suportaria abandonar o Éden que ele criara. Nunca ex­perimentara nada igual com Kohako. Partilharam uma pai­xão, mas não nesse nível, ou altura, ou profundidade, ou grau. Tinham sido como crianças brincando de amor.

Não se comparava a essa força consumidora. A cada beijo, a cada mordiscada e toque de língua, Sesshoumaru provava que o que ambos sentiam ultrapassava a mera paixão. Impondo um compromisso, revelava uma súplica sob a exigência selvagem.

— O que quer de mim? — indagou Rin, perdida no beijo.

Ele não respondeu de imediato, mas era certo que ou­vira. Tomando-lhe o rosto, roçou os lábios por suas pálpebras. A seguir, saciou-se em sua boca uma última vez, num tributo às emoções que ela estava determinada a negar.

— Quero o que puder me dar — esclareceu ele, por fim. — Quero tudo, mas aceito as sobras.

Os olhos de Rin encheram-se de lágrimas.

— Será que não entende? Não sobrou nada!

— Dispõe de mais do que imagina. Só está com medo de confiar em mim. — Sesshoumaru posicionou as mãos junto aos seios dela e passou os polegares pelos mamilos di­latados. — Isto basta para você, Rin?

— Isso só prova que você me quer. — Ela sentiu uma lágrima escorrer pelo rosto afogueado. — Disso eu já sabia. Kohako também me quis. Por algum tempo. Meu erro foi confundir desejo com amor. Eu tinha dezessete anos e acreditava ter encontrado minha alma-gêmea. Dei a ele tudo o que havia dentro de mim. E ele foi tomando, tomando, até que não restasse nada. — Sufocou o choro. — Só então percebi que ele não me amava, nunca tinha me amado e jamais me amaria.

— Rin...

— Sabe quais foram as últimas palavras que ele me disse: "Bem, doçura, foi divertido, mas você sabia que não ia durar para sempre". E sorriu, esperando que eu encarasse o fato com bom humor. Como eu continuei sé­ria, ele me olhou condescendente e aconselhou: "Da pró­xima vez, encontre alguém que acredita no amor".

Sesshoumaru envolveu-a nos braços.

— Ele se foi, Rin. Não pode mais magoá-la.

— Mas ele falou certo — concluiu ela, a voz fria. — Talvez pela primeira e única vez na vida, ele falou certo. Na próxima vez que eu me comprometer, presumindo que confie o bastante para me comprometer, será com um homem capaz de me amar tanto quanto eu a ele. Não vou aceitar menos do que isso. Nunca mais.

— SENHOR TAISHO? — interrompeu Gem, como um vento frio anunciando a chegada do inverno.

— O que foi? — bronqueou ele.

— RECADO PRIORIDADE UM.

— Transmita.

A gravação de uma voz feminina encheu a sala:

— Jantar às seis na sexta-feira.

— FIM DO RECADO — declarou Gem. Rin umedeceu os lábios.

— Quem era?

Sesshoumaru retornara a seu lar gélido. Um frio de amargar eliminava o calor que ele desprendera segundos antes. Separando-se de Rin, foi de novo postar-se à janela.

— Era minha mãe.

Ela não pôde evitar o espanto.

— Sua mãe?

— Sim, eu tenho mãe. E pai. — Sesshoumaru deu um sorriso amargo. — Já sei. Sempre imaginou que eu era formado de fios e arames.

Ela ignorou o sarcasmo.

— Pensei que fossem falecidos. Nunca falou deles. Sesshoumaru deu de ombros.

— Não, não são falecidos. Não fisicamente.

— Não estou entendendo.

— Não importa. Creio que o convite se estende a todos nós. Eles devem querer conhecer minha mulher e minha filha.

— Eu adoraria conhecê-los também. Pena que não te­nham podido comparecer ao casamento. — Só então Rin cogitou: — Você os convidou, não?

Ele riu ante a pergunta, de um jeito tão amargurado que ela se amedrontou.

— O que você acha?

Rin lembrou-se de que ele aguardara um bom tempo à porta do gabinete do juiz, ansioso, olhando para os dois lados do corredor. Até perder a esperança.

De que seus pais chegassem?

— NÍVEL DE SEGURANÇA ALERTA UM EM ANDAMENTO. REBENTO FEMININO EMITINDO SOM AGUDO. POR FAVOR, RESPONDA IMEDIATAMENTE.

Rin grunhiu de impaciência.

— Gem, eu sei que Abigail está chorando. Ela está chorando porque estou trocando a fralda dela.

— EMISSÃO DE SOM PROGREDINDO HÁ UM PON­TO TRÊS MINUTOS. RECOMENDA-SE OFERECER NUTRIÇÃO IMEDIATA.

— Acabei de amamentar o bebê. Ela não está com fome.

Rin só não sabia por que se incomodava em discutir com aquela idiota mecânica. Aprendera havia muito que era um exercício vão.

— O SOM INDICA QUE SE EXIGE ATENÇÃO IMEDIATA. POR FAVOR, OFEREÇA AO REBENTO FEMININO NUTRIÇÃO SUFICIENTE PARA CANCELAR O ALERTA.

Rin olhou raivosa para o alto-falante mais próximo, inutilmente. Como enfrentar uma voz sem corpo? Sentiria algum alívio chutando o microprocessador?

— Abbey está recebendo a devida atenção, caso seus circuitos defeituosos não tenham percebido. Agora, can­cele o alarme.

— ERRO NÚMERO UM-ZERO-SETE — replicou Gem, emitindo um som agudo.

Em resposta, Abigail também aumentou o volume do choro.

— Veja só o que você fez! — ralhou Rin. — Ela não gosta desse seu bip.

Instantaneamente, uma estonteante sequência de sons derramou-se dos alto-falantes pelo quarto. Primeiro, a melodia em saxofone, depois, Mozart, em seguida, dez segundos de Wagner, seguido por uma mescla rápida de música pop. Uma vez que o bebê continuava berrando, Gem apelou para as gravações da voz da avó Izara, do assobio do avô Yoshida e dos cacarejos das titias tentando acalmá-la quando a visitavam.

— Gem, desligue essa cacofonia imediatamente! — ordenou Rin. — Está na hora de Abbey dormir.

Os alto-falantes silenciaram. Um segundo depois, o telefone tocou. Com um suspiro cansado, Rin sacou o aparelho do bolso. Nas últimas quatro semanas, acostumara-se a carregá-lo pela casa, para não ter de correr para atender Sesshoumaru toda vez que Gem o avisava de outro desvio seu.

— Estamos com um problema — anunciou Sesshoumaru, sem preâmbulos. — Estou indo aí.

— Não há nenhum problema, eu juro. Não estou me desviando. Gem...

— Não tem nada a ver com Gem. Estamos com um problema na SSI.

Rin encaixou o telefone entre o ouvido e o ombro, enquanto embalava a filha.

— Que tipo de problema?

— Explico quando chegar aí. Sua mãe está comigo. Ela concordou em tomar conta de Abigail por algumas horas.

Rin sobressaltou-se.

— É tão sério?

— É.

— Está bem, vou trocar de roupa. Acabei de amamen­tar Abby e posso sair assim que você chegar. — Rin desligou o aparelho, guardou-o no bolso e acomodou o bebê no berço. — Deixe-a dormir, Gem. Nada de falatório, entendeu?

Assim que saiu do quarto, o sistema computadorizado começou a sussurrar:

— ERA UMA VEZ...

Balançando a cabeça, Rin foi para a cozinha escrever instruções para a mãe. Após informar o número do te­lefone celular de Sesshoumaru, acrescentou: "Se tiver algum pro­blema, diga a Gem que o rebento feminino está se des­viando da rotina normal, nível de segurança alerta um".

Assim que Sesshoumaru estacionou o carro junto ao meio-fio, Izara saltou, abraçou Rin e entrou na casa.

Assim que Rin sentou-se no banco, Sesshoumaru arrancou de novo para a via expressa.

— O que foi que aconteceu?

— Lembra-se da Toy Company?

— Claro, a fábrica de brinquedos de Kit e Stephen St. Clair. Iniciaram em Carlsbad, depois expandiram para Concord. Nós instalamos o sistema de segurança.

— Isso mesmo.

— O que houve?

— Parece que o sistema entrou em pane. Chamaram-nos para corrigir o defeito.

Rin paralisou-se.

— Que tipo de pane?

— O sistema trancou tudo. Kit e Stephen estão presos no escritório e não conseguem sair.

— Oh, não.

— Acontece que eles mantêm uma creche no local. Rin olhou-o.

— E as crianças?

— Não se sabe. Estão todos trancados do lado de fora, ou do lado de dentro.

— Que modelo eles compraram? Não consigo me lembrar.

— Uma unidade Gemini. E menos sofisticada do que Gem.

— Pode ser menos sofisticada, mas aposto como tem os mesmos defeitos.

Sesshoumaru bufou.

— Gem não tem nenhum defeito!

— Ah, não? Como explica que eu tenha tido de suportar aquele saxofone por duas semanas a fio?

— Quantas vezes terei de dizer? Gem é um computa­dor. Se fizer um pedido, a máquina obedece. Quer coisa mais fácil?

— Sé Gem é um computador, por que a chama de "ela"?

— Eu a antropomorfizei.

— Grande.

— Significa...

Com um gesto, Rin o fez calar-se.

— Nem quero saber. É intelectual demais para o meu gosto. E, para sua informação, já me cansei de fazer pedidos ao seu computador. Só que ela nunca obedece. Pode imaginar por quê?

Sesshoumaru endureceu o queixo.

— É só um capricho dela.

— Um capricho. É ciúme, isso sim!

— O quê?

— Isso mesmo que ouviu. Ela não ouve a ninguém além de você. Além do rebento feminino. Parece que se apegou a Abigail.

— Eu a programei para monitorar o bebê.

— Jura? Determinou que conversasse com Abbey também?

— O que quer dizer?

— Sem ser requisitada, ela tentou acalmar o bebê, do mesmo jeito bobo que os adultos costumam fazer.

— Deve ser um defeito no modulador de voz.

— Vai me convencer que isso explica também a imi­tação de personagens de histórias em quadrinhos, bem como a execução de músicas que ela acha que ajudam o bebê a dormir. E os contos de fadas que começa a contar. Ah, lembra-se do alarme de três minutos que estabeleceu?

— Se Abigail chorar por mais de três minutos, Gem a avisa, certo?

— Deveria ser assim. Mas Gem achou...

— Gem não acha nada — resmungou Sesshoumaru.

— Perdão, vou reformular. Gem chegou à conclusão lógica e não-emocional de que três minutos são um tempo longo demais para deixar o rebento feminino chorar.

Ele franziu o cenho.

— Ela está avisando antes?

— O alarme soa no instante em que Abbey inspira para dar o primeiro berro. Não vou me espantar se Gem passar a me avisar que acha que Abigail vai começar a chorar.

Sesshoumaru suspirou.

— Vou dar uma olhada nisso.

— Otimo.

Entraram no estacionamento, pondo fim à discussão. Os funcionários da loja de brinquedos se aglomeravam diante da porta frontal, bloqueada pelo sistema de se­gurança. Um homem alto e magro destacou-se ao vê-los.

— Ei, Taisho! Ainda bem que chegou.

Tratava-se do chefe do setor de Pesquisa e Desenvol­vimento da fábrica.

— Oi, Todd — cumprimentou Sesshoumaru. — O que foi que houve?

— Quase nada. Parece que o computador enlouqueceu. Uma vez assisti a um filme em que o sistema de segu­rança tranca humanos inocentes num prédio e então co­meça a matá-los, um por um.

Sesshoumaru ergueu o sobrolho.

— Isso é inconcebível.

— Será? — murmurou Rin.

Sesshoumaru achegou-se ao painel de controle junto à porta frontal.

— Sistema cancelado. Taisho zero-zero-um. Relatar situação.

— BOM DIA, SENHOR TAISHO — respondeu uma voz semelhante à de Gem. — UM MOMENTO PARA RELATÓRIO DE SITUAÇÃO. SEGURANÇA ALERTA UM. TRAVAMENTO TOTAL EM PROGRESSO.

— Cancelar nível de segurança alerta um.

— CÓDIGO DE AUTORIZAÇÃO?

— Taisho zero-zero-um.

— AUTORIZAÇÃO RECUSADA. ERRO NÚMERO DOIS-DEZENOVE. TENHA UM BOM DIA, SENHOR TAISHO.

Rin não pôde conter o riso.

Sesshoumaru olhava pasmo para o painel.

— Como assim, "autorização recusada"?

— Não falei? — vangloriou-se Rin.

Sesshoumaru olhou-a raivoso e voltou a estudar o painel.

— Aqui é Taisho, código de autorização zero-zero-um. Recalibre.

— AUTORIZAÇÃO NEGADA.

— Não pode recusar minha autorização, seu monte de ferro...

— NEGADA! NEGADA! NEGADA!

Sesshoumaru conteve o impulso de chutar o painel.

— Rin, vá buscar meu celular no carro. Ela ergueu o sobrolho.

— Como uma esposa obediente?

Sesshoumaru experimentou então a sensação mais curiosa de toda sua vida. Começando na base da espinha, um for­migamento percorreu-lhe toda a medula até chegar ao crânio, pelo qual se espalhou. Rin deu um passo atrás, temerosa.

— Estou a ponto de explodir — avisou ele.

Os funcionários da empresa formavam um semicírculo a certa distância deles.

— Quer que vá buscar seu celular? — indagou Rin.

— Por favor. — Sesshoumaru aguardou com falta de paciência. Ao ter o aparelho nas mãos, contatou Gem. — Ligue para a Toy Company. Autorize acesso pela porta dos fun­dos. Taisho zero-zero-um.

— AUTORIZAÇÃO SECUNDÁRIA?

— Código de autorização, controle a todo custo. Não tenha piedade, Gem.

— UM MOMENTO. TENTANDO INTEGRAÇÃO.

— NEGADO! — gritou Gemini uma última vez, e emudeceu.

— TENTATIVA BEM-SUCEDIDA — anunciou Gem.

— Prossiga! — incentivou Rin.
Sesshoumaru sorriu sagaz.

— Destrave a porta frontal e acesse o sistema de alto-falantes interno. Comando de voz de Taisho somente.

— SIM, SENHOR TAISHO.

A porta frontal destrancou-se, e Sesshoumaru olhou para Todd.

— Gostaria que permanecesse junto à porta e não dei­xasse ninguém entrar, está bem?

— Entendido, chefe. Claro como alumínio transparen­te — O homem piscou para Rin. — Como diziam na Jornada nas Estrelas.

Sesshoumaru pegou uma pedra e passou a jogá-la de uma mão para a outra.

— Pronta? — indagou a Rin.

— Depende do que pretende fazer com isso.

Ele se curvou e encaixou a pedra entre a porta e o batente.

— Todd, não deixe ninguém tocar neste calço. Vamos ver quantas pessoas estão lá dentro e voltamos já. —Olhou para Rin. — Damas na frente, senhora Taisho.

Dentro do prédio, passaram pela recepção vazia e to­maram o corredor principal. Não encontraram ninguém em nenhuma das salas daquela ala.

— Gem, está no sistema de alto-falantes interno?

— AFIRMATIVO, SENHOR TAISHO. Sesshoumaru guardou o celular no bolso.

— Relatar situação.

— A UNIDADE GEMINI ENCONTRA-SE PARALISADA. TRAVAMENTO ELETRICO NOS ANDARES DOIS A CINCO. ELEVADOR INOPERANTE. BLOQUEIO EM TODOS OS ANDARES. ATIVIDADE MECÂNICA NO QUARTO ANDAR. MÍNIMAS MANIFESTAÇÕES DE VIDA NOS ANDARES TRÊS A CINCO.

— Ligue a força, Gem. Em seguida, proceda ao desbloqueio.

— ENTENDIDO.

— Onde fica a creche? — indagou Rin. — Acho que é Prioridade.

— Gem?

— QUINTO ANDAR. SEÇÃO NOROESTE. SALA QUINHENTOS E TRINTA E OITO.

— Acho que vamos ter de subir pela escada. — Sesshoumaru olhou preocupado para Rin. Nas últimas quatro sema­nas, ela perdera quase todo o excesso de peso adquirido durante a gravidez, mas ainda não estava plenamente recuperada do parto. — Está em condições?

Ela deu aquele sorriso que nunca falhava em maravilhá-lo.

— Claro que sim, não se preocupe.

— Então, vamos. Gem, pode destrancar a porta da escadaria?

— AFIRMATIVO.

Sesshoumaru tomou a frente, pronto a enfrentar problemas inesperados. Apesar da urgência, subia devagar, respei­tando o estado delicado de Rin.

— Já ocorreu uma pane semelhante noutro sistema, lembra-se? — comentou, a voz ecoando entre as paredes de cimento.

— O de Kilburn — especificou ela. — Foram as três horas mais longas ,da minha vida.

Pois Sesshoumaru gostaria que tivessem se prolongado ainda mais.

— Ficarmos trancados naquele armário não teria sido tão ruim se tivéssemos algo para beber.

— E um banheiro — completou Rin. — Gem aprontou mesmo naquele dia.

Chegando ao terceiro andar, ele parou para descansarem.

— Pois foi nesse dia que aprendi a carregar o celular comigo aonde quer que fosse.

Rin recostou-se na parede ao lado dele, ofegando levemente.

— O que deu errado daquela vez?

Nada dera errado. Tudo ocorrera exatamente conforme o programado. Não se orgulhava de ter montado aquela armadilha, mas Kohako já estava fora de cena então e não resistira à tentação.

— Acho que foi só...

— Uma falha no sistema?

— E, uma falha no sistema. — Sesshoumaru se deu ao luxo de um sorriso. — Mas o incidente rendeu algo bom.

— Mesmo? — A vulnerabilidade ficou patente nas pro­fundezas dos olhos escuros de Rin. — O quê?

Ela não o enganava, apesar do tom descontraído. Lembrava-se de tudo tão bem quanto ele. Enquanto aguar­davam o salvamento, haviam conversado, descobrindo mais um sobre o outro naquelas poucas horas do que nos vários anos de contato superficial. Sentada a seu lado no chão, ela recostara a cabeça na parede e, ao adormecer, escorregara para junto dele. Ele a envolvera com o braço e mantivera acomodada contra o ombro, até que ela despertou.

O prazer do contato continuava vivo na memória, após um ano. Naqueles breves segundos de torpor em que os sonhos se chocam com a realidade, uma aguda e agridoce consciência florescera entre ambos. Desconfiava de que fora a primeira vez em que ela o vira como homem. Mas não a última.

Definitivamente, não a última.

— Ora, passamos três horas inteiras no mesmo ambiente sem discutir — esclareceu ele, por fim, engan­chando um cacho do cabelo dela atrás da orelha.

Embaraçada, Rin observou o próximo lance de de­graus a enfrentar.

— Imagine o que teria acontecido se tivéssemos brigado.Talvez até nos houvessem resgatado com mais urgência.

Sesshoumaru alcançou-a no quarto andar. Ao olhar para os degraus que conduziam ao quinto, estacou e alarmou:

— Espere!

Rin assustou-se quando ele a agarrou pela cintura e protegeu atrás das costas.

— O que foi?

— Uma tarântula.

Só então Rin viu o monstro de um metro de compri­mento bloqueando a passagem. Ao mesmo tempo que balançava o corpo, abria e fechava a boca cheia de dentes pontudos, deixando escapar uma substância pegajosa das pinças negras.

— É só um brinquedo, Sesshoumaru.

— Eu sei, mas não sabemos o que está programado para fazer, nem o que é aquela gosma. Gem?

Nenhuma resposta.

—Acho que ela não capta sons aqui — opinou Rin.
— Vamos fazer uma pausa, então.

Sesshoumaru abriu a porta e adentrou o quarto andar. A visão não foi mais tranquilizadora. Um batalhão de tarântulas e guardas mecânicos patrulhavam a área.

—Qual o problema, Gem? Por que as luzes continuam apagadas?

— DIFICULDADES, SENHOR TAISHO. SOLICITO DESLIGAR MANUALMENTE A CONEXÃO DO COM­PUTADOR LOCALIZADA NO SETOR DE PESQUISA E DESENVOLVIMENTO NO QUARTO ANDAR.

— É de lá que vêm os problemas?

— AFIRMATIVO.

Rin tocou-lhe o braço e apontou para uma porta de madeira no outro extremo do corredor.

—Acho que é ali, Sesshoumaru.

— Vamos lá.

Numa corrida louca, ele foi empurrando as tarântulas mecânicas no meio do caminho e arremessou-se contra a porta em questão, arrombando-a. Viu-se dentro do es­critório, sentindo o ombro dolorido. Quando Rin colidiu com suas costas, segurou-a antes que caísse.

—Não acredito — murmurou, embasbacado.


MINHAS DESCULPAS LEITORES!!

NÃO PODEREI FAZER COMENTARIOS HOJE!!

MAS ESTOU AMANDO VOCES CADA DIA QUE PASSA!!

REVIEWS OTIMAS!!

DEIXEI VOCES NA MELHOR PARTE NAO FOI??

MUAHAHAHAHA

SENDO MA

PROMETO POSTAR AMANHA!!

BEIJOS LINDOS E LINDAS!!