ÚLTIMO DIA DE AIOROS

Por Vane

Esta fanfic integra o "Ciclo Saint Seiya".

"Saint Seiya" pertence a Masami Kurumada, Shueisha, Akita Shoten e Toei Animation.

CAPÍTULO 7


"Às vezes... às vezes... eu..."

Aioros lutou para não completar aquele pensamento. Tentou concentrar sua mente em outros assuntos, outras pessoas.

Contudo, não pode resistir a si mesmo. E concluiu:

"Às vezes tenho maus pressentimentos... sobre o Shura."

Fechou os olhos com força, como se isso pudesse ajudá-lo a esquecer aquele tema. Ergueu-se e sentou-se na borda da cama.

"Ainda posso ficar mais um pouco por aqui", ele constatou após consultar novamente o relógio sobre a mesa de cabeceira. "Mas acho que não é bom ficar assim, parado. Vou sair. Não preciso andar depressa. E caminhando pelo Santuário, eu posso me distrair com outras coisas e tirar essas ideias ruins da cabeça."

Satisfeito com sua decisão, Aioros retirou-se de seu quarto. Desceu as escadas que levavam ao andar térreo sorrindo e dizendo a si mesmo:

"Acho que eu confundo as coisas, só porque de vez em quando eu me lembro de alguns momentos ruins. Não são maus pressentimentos... são só más recordações."

oXo - oXo - oXo - oXo

Shura e Aioros chegaram à Casa de Capricórnio e encaminharam-se à sala onde costumeiramente conversavam. Embora no local houvesse um sofá, poltronas e cadeiras, nenhum dos dois jovens se sentou.

O guardião do templo fechou a porta, voltou-se para o amigo e disse sarcástico:

- Agora não há mais risco de acordarmos o Aioria. Pode iniciar o seu espetáculo.

- Obrigado - Aioros devolveu com igual sarcasmo. Depois, mais austero, ele começou: - Você deve imaginar o que é que está me incomodando, não é?

- Imagino - confirmou Shura, ainda com uma ponta de ironia. - É tudo por causa daquele garotinho enjoado. Só por causa do corte que eu dei nele e das perguntas que eu fiz na entrevista.

Cauteloso, Aioros mentiu:

- Principalmente por causa das perguntas. O ferimento eu sei que foi acidental.

- Não foi acidental. Eu o feri porque eu quis. Todos os que estavam lá perceberam isso.

Aioros tentou dar uma resposta imediata. Porém, sentiu uma trava formar-se em sua garganta, fruto do choque causado pela confissão espontânea de Shura. Este, por sua vez, julgou que a origem do visível espanto do cavaleiro de Sagitário fora a revelação em si.

Lutando para recobrar o autocontrole, Aioros deu-se conta de que poderia tirar proveito do próprio espanto para impedir que Shura suspeitasse de que ele já sabia de tudo. Quanto mais hesitasse em se manifestar, mais convincente sua suposta ignorância dos fatos pareceria. Assim, ganhou algum tempo para pensar no que deveria dizer.

Afinal decidiu comentar:

- Se todos perceberam isso, acho estranho que ninguém tenha me contado nada.

O que ele desejava era indagar se os discípulos haviam se calado por terem sofrido alguma ameaça, a fim de medir a reação de Shura. Mas sabia que tal pergunta seria arriscada, pois seu amigo poderia deduzir que os discípulos já haviam revelado tudo.

Não foi preciso que Aioros formulasse pergunta nenhuma, pois novamente Shura tomou a iniciativa de confessar:

- Não te contaram nada porque eu os ameacei.

Novamente o choque fez Aioros emudecer. Jamais imaginara que Shura admitiria o que fizera tão facilmente. Pensara que ele tentaria ocultar-lhe tudo.

Estudou a face do amigo e não viu ali nenhum traço de remorso. O tom de voz que Shura empregara ao fazer suas duas revelações também não deixara transparecer nada além de seriedade e alguma irritação. Isto fazia Aioros sentir-se ainda mais consternado.

Pouco a pouco, o assombro no olhar de Aioros deu lugar a uma indisfarçável condenação. Shura percebeu-o, e protestou secamente:

- Eu sabia que eu não seria compreendido. Sabia que você iria me julgar mal.

- É claro que você não pode esperar compreensão num caso como esse - Aioros rebateu enfático. - Você agrediu uma criança de sete anos de idade. E ainda fez ameaças a outras crianças.

- Não vai reclamar por eu ter ameaçado o Aldebaran também? - Shura inquiriu sardônico.

- Vou sim, porque ele pode ser mais velho, mas também não tem como se defender de um cavaleiro - Aioros respondeu em tom duro. - Essas suas atitudes foram lamentáveis. Totalmente gratuitas.

- Não foram gratuitas - argumentou Shura asperamente.

- Não? Então como é que você me explica o que fez? Não tem justificativa!

- Tenho sim: Marcel é um inútil, foi um inútil desde o começo e se não mudar logo, será um inútil para sempre - afirmou Shura, alteando um pouco a voz. - Ele anda tomando nosso tempo desnecessariamente. E esse pouco tempo que temos é valioso demais para ser desperdiçado com um menino que tem um desempenho muito abaixo dos demais. Lembre-se de que o nosso objetivo é formar cavaleiros para Athena, e não servir de babás para garotinhos que nunca terão utilidade nenhuma para nossa deusa. Neste santuário há que se manter um certo padrão. Se continuarmos investindo nos outros aprendizes, esse padrão será mantido ou até superado. Investir no Marcel não adianta, porque ele não tem se esforçado para atingir o nível dos colegas dele. Então eu tive que tomar uma atitude para ver se finalmente ele acordaria.

- É injusto comparar o Marcel aos demais. São histórias de vida muito diferentes. O pai da Valentina é um dos nossos e já tinha começado a treiná-la. Os pais do Afrodite todo mundo sabe que são devotos de Athena; eles devem ter planejado consagrar o filho deles à nossa deusa antes mesmo de ele nascer. Está na cara que os pais do Milo também são devotos e que vão se orgulhar de ter um cavaleiro na família. E o Aldebaran passou sete anos se preparando para vir para cá - enumerou Aioros. - O Marcel é o único caso atípico.

- Isso não é desculpa, Aioros. Nós ensinamos, ensinamos, ensinamos e ele não aprende! Isso é desesperador!

- Acho que nós é que temos que nos empenhar mais e tentar nos adaptar às limitações dele - ponderou o cavaleiro de Sagitário. - Eu até havia dito algo assim quando tivemos aquela conversa na semana passada.

- Que conversa?

- Aquela, no sábado, quando você deduziu que os nossos alunos já deviam ter se conhecido em outras vidas. Eu comentei que nós andávamos deixando o Marcel de lado, que tínhamos que dar mais atenção a ele e...

- Foi exatamente o que eu resolvi fazer: dei bastante atenção a ele - Shura interrompeu-o, esboçando um sorriso cínico. - E você está aí, todo indignado, apesar de eu ter seguido sua sugestão.

Aioros fitou-o incrédulo.

- Não acredito que você está debochando de um assunto sério como esse... - ele disse, balançando a cabeça reprovadoramente. - Já esqueceu que você mesmo me disse naquele dia que enquanto Marcel não desse sinais de que poderia vir a se tornar um cavaleiro, seria melhor concentrarmos os nossos esforços nos outros aprendizes? Então você foi falso comigo? Será que desde aquele dia você já vinha planejando fazer algo contra Marcel, e apenas fingiu que não se importava com o desempenho dele porque não queria levantar suspeitas?

- O que aconteceu hoje não foi premeditado - Shura respondeu secamente, não mais sorrindo. - Eu só tive a ideia um pouco antes de colocá-la em prática. Mas eu confesso que no sábado eu menti sim para você. Menti em parte. Eu não estava tão tranquilo assim em relação à incompetência do Marcel. Isso me deu nos nervos desde que começamos a treiná-lo, e a minha irritação com ele não parava de crescer. Achei melhor guardar isso para mim porque sei bem como você é. Mesmo assim, naquele dia eu ainda não tinha atingido o meu limite. Foi por isso que eu fiz de conta que achava melhor deixar aquele garoto de lado. Eu estava tentando acreditar que valia a pena ter paciência com ele.

- Sempre vale a pena ter paciência com uma criança - Aioros rebateu. - E você nunca deveria ter mentido se o desempenho do Marcel te incomodava tanto. Devia ter sido sincero comigo. Eu falei que tínhamos que dar mais atenção a ele. Se você tivesse me apoiado ao invés de ser falso, nós já poderíamos ter começado a tentar alguma coisa nova, reforçar os exercícios dele, usar algum método diferente.

- Para quê? Duvido que isso adiantasse - Shura argumentou, dando de ombros.

- Você pode duvidar o quanto quiser, mas certeza você só poderia ter depois de fazer uma tentativa - Aioros enfatizou. - Ou melhor, várias tentativas. E isso não foi feito, porque você se precipitou e quis tirar conclusões definitivas sobre um menino cujo treinamento mal começou. Não tem como não perceber que essa sua atitude é errada. O certo seria deixar esse seu ceticismo de lado e se esforçar mais para ajudar o Marcel, ao invés de puni-lo por ele não ser como você gostaria que ele fosse. Eu acho que nós dois ainda podemos conseguir que ele acompanhe melhor o ritmo dos colegas. Temos tempo para isso. E se por um acaso não conseguirmos, aí sim nós vamos ensinando só o essencial a ele, e o deixamos meio de lado até que o pré-treinamento acabe e ele possa voltar para casa.

- O pai dele pode não querê-lo de volta - observou Shura, sem ocultar uma nuance venenosa em sua voz.

Aioros não respondeu. O comentário de Shura tocava num assunto preocupante. O que seria feito de Marcel ao final do pré-treinamento?

Shura não perdeu esta oportunidade de reverter a situação a seu favor:

- Está vendo, Aioros? Todo mundo está com raivinha de mim, mas eu é que estou fazendo o que é melhor para o Marcel. Se o pré-treinamento terminar e ele não estiver qualificado para obter um mestre definitivo, provavelmente ele nem terá para onde ir.

Airos porém não se deixou enganar:

- Quem o ouve dizer isso pensa mesmo que você está muito preocupado com o futuro dele... Não adianta, Shura. Sua atitude continua não tendo nenhuma justificativa.

- Só porque você não quer admitir.

- É você quem não quer admitir que está errado, Shura. Pelo amor de Athena, você não pode achar que é correto usar seu cosmo de cavaleiro de ouro contra uma criança! No fundo você deve saber que está errado, porque se sua consciência estivesse totalmente tranquila, você não teria ameaçado ninguém. Ao contrário: ou você teria deixado que me contassem tudo, ou você mesmo teria me contado.

- E o que foi que eu fiz? Eu não te contei tudo?

- Mas não contou logo que me encontrou. Você quis ganhar tempo, porque devia estar pensando num meio de justificar o injustificável.

- Você é que se recusa a aceitar a realidade - Shura devolveu áspero. Exaltado, ele disse: - A nossa vida é muito dura, Aioros. Os fracos não podem ser cavaleiros. E o Marcel é um fraco. Ele pode deixar de sê-lo se ele se empenhar e se nós exigirmos isso dele. Enquanto formos bonzinhos e compreensivos, ele nunca vai mudar. Ele nem tenta se espelhar no exemplo dos colegas dele. Fica o tempo todo com aquela cara de pobre coitado, querendo que todo mundo sinta peninha dele e que o proteja. E todo mundo morde a isca. Mas eu não! Comigo esses truques baratos não funcionam. Você, o Aldebaran e as crianças se deixam manipular facilmente pelo Marcel. Se as coisas continuarem assim, não vamos formar um cavaleiro, mas sim um manipulador profissional, que se aproveita da boa vontade dos outros para não ter que cumprir suas obrigações.

- Pare de delirar, Shura! Você está vendo nele uma maldade que só existe nessa sua imaginação!

- Não estou falando propriamente de maldade - defendeu-se Shura. - Falei em manipulação. Você há de convir que crianças costumam ser manipuladoras. É assim que elas conseguem que os adultos façam o que elas querem. Cabe a nós educá-las para que elas não cresçam pensando que essa é a forma certa de agir. E agora eu não estou falando só do Marcel. Também temos que tomar cuidado com as outras crianças, que são bem espertinhas e vivem tentando nos enganar para conseguir vantagens.

- Eu não acho que elas façam isso.

- Fazem sim, Aioros. Quer um exemplo? Durante os treinos elas se queixam de dores, fome e sede e cansaço. Mas na hora das brincadeiras, por "coincidência", isso nunca acontece. Se isso não é manipulação, então é o quê?

- Isso é um comportamento normal de criança. É claro que todas preferem brincar a treinar! - ressaltou Aioros. E depois acrescentou: - Todas, menos o Marcel que você critica tanto. Eu nunca o ouço reclamar de nada.

- Como é que vai ouvir, se ele fala naquele tom baixinho?

- Ah, Shura, deixe de ser besta, que você sabe muito bem que não foi isso o que eu quis dizer. Você continua me devendo uma explicação plausível para a sua atitude. Se é que essa explicação existe - Aioros desafiou.

- Já me expliquei. Não tenho culpa se você hoje quer bancar o surdo.

Aioros tentou argumentar, mas Shura o interrompeu. Seu semblante, que até ali estivera endurecido, passou a exibir a mesma perplexidade que agora era perceptível em seu tom de voz:

- O treinamento dessas crianças tem me causado um desgaste muito maior do que eu esperava - ele falou, desviando o olhar de seu interlocutor momentaneamente. - Eu nunca imaginei que isso seria tão difícil assim. Todo dia eu digo a mim mesmo que "amanhã as coisas serão melhores", "amanhã vou tentar um método diferente", "amanhã vou conseguir fazer com que eles me deem ouvidos", "amanhã vou encontrar um meio de fazer com que se comportem direito". Mas esses amanhãs nunca chegam. Os mesmos problemas de baixo rendimento no caso do Marcel e indisciplina no caso dos demais continuam se repetindo, e por mais que eu me esforce, a impressão que eu tenho é que ninguém está levando nada a sério e que eu estou fazendo papel de palhaço. Não tem como uma pessoa não se irritar com isso, Aioros - ele disse, voltando a fitá-lo. - Eu tentei guardar a minha irritação dentro de mim, até chegar a um ponto em que eu não pude mais...

Agora foi a vez de Aioros interrompê-lo:

- Isso não é desculpa, Shura, pelo amor de Athena! Você é um cavaleiro; mais do que ninguém, você precisa saber se controlar. Se não souber fazer isso, ainda vai acabar causando uma desgraça. Se queria extravasar a sua irritação, você devia ter ido socar umas pedras ou algo do tipo. Numa criança é que você não podia fazer isso de jeito nenhum!

O semblante de Shura voltou a endurecer.

- Não estamos falando de uma criança qualquer, e sim de um menino que estava mesmo precisando de uma sacudida para sair daquela apatia insuportável dele.

- Vai insistir em jogar a culpa nele, Shura? - Aioros disse, já cansado. Sacudiu a cabeça lentamente e acrescentou: - Acho que nós dois estamos andando em círculos aqui.

Ignorando a constatação dele, Shura disse:

- Compare-o ao Aioria. Aliás, compare qualquer uma das outras crianças ao seu irmão. Ele sempre entendeu as responsabilidades dele desde pequeno, nunca fugiu dos seus deveres, nunca usou a idade como desculpa para nada, sempre foi aplicado, esforçado e obediente. É um menino bastante sossegado, exatamente como o Marcel, que você quer tanto defender. Mas a grande diferença é que o seu irmão não se escora na aparência de bom menino para escapar das cobranças. Foi por isso que ele se tornou um aprendiz exemplar.

- Muito obrigado por usar o meu irmão para desviar do verdadeiro problema! - Aioros disse, esboçando um sorriso sarcástico.

Shura ergueu a mão num gesto de advertência.

- Sem ironias, por favor. Não estou usando seu irmão e nem estou tentando desviar nada. Só dei um exemplo que tem tudo a ver com o assunto que estamos discutindo. Apesar da sua má vontade, eu ainda quero te ajudar a entender as minhas atitudes e a minha irritação.

- Você já reparou que não faz nem vinte dias que nós começamos a treinar aquelas crianças? Se você se sente tão nervoso e desgastado assim depois de tão pouco tempo, eu acho que o problema não está no comportamento dos nossos aprendizes, mas sim no seu despreparo. Aliás, no seu despreparo e no seu descontrole - Aioros rebateu em tom duro. No entanto, logo em seguida seu rosto assumiu uma expressão preocupada enquanto ele prosseguia: - Você tem que aprender a lidar melhor com as contrariedades, Shura. Por que você não conversou comigo? Se tivesse desabafado ao invés de guardar tudo para si mesmo, talvez não tivesse chegado tão longe, e além disso, eu poderia ter tentado ajudar você.

- Eu já disse que sabia que você iria me julgar mal. - Shura olhou Aioros de alto a baixo e acrescentou: - Sei que você gosta de bancar o guardião da moral e da ética, e era por isso que eu preferiria não ter que discutir esse tipo de assunto com você. Não pense que com um simples "desabafo", como você disse, eu mudaria de opinião. Você acha que é só uma pessoa conversar com a outra e pronto, tudo se resolve num passe de mágica?

- Não. Só quis dizer que isso teria ajudado.

- Teria me ajudado a pensar igualzinho a você? É isso o que você quer, não é? - Shura indagou em tom acusador.

- Em nenhum momento eu disse que a minha intenção teria sido essa. Eu só quis dizer que se você tivesse desabafado comigo há mais tempo sobre essa sua irritação, você poderia ter conseguido dar vazão a esse sentimento sem precisar tomar nenhuma atitude mais drástica.

- Você acha que isso tudo é só uma questão de sentimentos que passam depois de uma simples conversa? Então você entendeu tudo errado. - Shura inclinou-se um pouco mais à frente. - Não se trata apenas de sentimentos momentâneos, mas sim de convicções, Aioros. Convicções! Sei que você tem as suas e muitas vezes acha que as dos outros estão erradas. Então por que eu não tenho o direito de pensar assim também? Por que sou eu quem tem de achar que as minhas convicções é que estão erradas?

- Porque os efeitos delas sobre a sua maneira de agir são ruins - Aioros retorquiu prontamente. - Nem estou falando apenas do que você fez hoje, porque mesmo que aquilo nunca tivesse acontecido, já existem outras provas de que as suas teses não fazem o menor sentido na prática. - Aioros fez gestos de enumeração enquanto dizia: - Você pode ter todas as convicções que você quiser sobre como um aprendiz deve se comportar, sobre como ele deve ser treinado, sobre como ele deve ser preparado para o futuro... sobre tudo mesmo. - Agora apontando o dedo indicador na direção de Shura, ele completou: - Mas também é importante pensar nos resultados disso tudo. E até agora, o único resultado que você conseguiu foi ganhar a antipatia das crianças.

- E daí? Não estou inscrito em nenhum concurso de popularidade - Shura rebateu, dando de ombros. - Eu não me importo com a opinião de ninguém, a não ser Athena.

Tão logo Shura terminou aquela frase, Aioros se sentiu como se tivesse conseguido enxergar a saída de um labirinto após muito procurá-la. Sua voz soou triunfal quando ele disse:

- Ah, agora você chegou onde eu queria.

Shura franziu o cenho. Aioros prosseguiu:

- Se a única opinião que você acha importante é a de Athena, se nenhuma opinião de nenhuma outra pessoa nesse mundo te afeta, então vamos fazer um teste. Faça de conta que Athena já reencarnou e está crescida o bastante para entender bem as coisas. Tente se imaginar olhando nos olhos dela, contando a ela tudo o que você fez hoje e apresentando as suas justificativas. E o mais importante: tente imaginar o que ela pensaria da sua atitude e como ela reagiria a tudo.

Shura fez menção de responder uma, duas vezes. Mas nenhuma frase boa o bastante lhe vinha à mente.

- Boa noite - Aioros disse desafiador. Sem esperar por uma resposta, ele se retirou da sala.

oXo - oXo - oXo – oXo

Naquela noite, Aioros rolou em sua cama por um longo tempo. Às vezes ele conseguia se manter imóvel e esvaziar sua mente por alguns minutos, tentando relaxar. Mas logo ele voltava a se agitar.

Seus batimentos cardíacos se aceleravam a cada vez que ele relembrava sua discussão com Shura. Já pensara mil vezes no que deveria ou não ter-lhe dito. Concluíra que tudo o que havia falado empalidecera ante o teste que propusera ao amigo pouco antes de deixar a Casa de Capricórnio. Aquele fora o aspecto mais positivo da noite. Mas não o único.

Aioros surpreendeu-se ao constatar que nem ele e nem Shura haviam mencionado Saga em momento algum. Considerando-se que a altercação deles naquela noite girara em torno das visões diferentes que eles tinham sobre a conduta adequada aos cavaleiros de Athena, era espantoso que ambos tivessem deixado de aludir aos seus desentendimentos do passado. Afinal, os personagens envolvidos eram diferentes, mas as divergências ainda eram essencialmente as mesmas. Aioros experimentou um misto de alívio e gratidão por ver que um tema tão delicado não fora incluído naquela discussão. Se o nome de Saga tivesse sido trazido à tona, fosse por Shura ou por ele mesmo, as trocas de acusações entre eles poderiam ter sido muito mais ásperas, talvez a ponto de provocar um abalo definitivo na amizade dos dois. Não era isso o que Aioros desejava.

Ele sentia que havia cometido um erro grave em relação a Saga. Não podia repeti-lo agora com Shura. Ao invés de deixar o amigo entregue aos próprios enganos, Aioros queria fazer o que estivesse ao seu alcance para ajudá-lo a se corrigir. Fora inevitável que sua primeira tentativa resultasse numa discussão, e talvez outras discussões se seguissem àquela, mas ele estava determinado a evitar que as coisas saíssem de controle. Usaria toda a sua paciência, tentaria ter conversas mais diplomáticas com Shura e trataria de incentivá-lo a refletir mais cuidadosamente sobre seus atos. Faria o que fosse preciso, dentro dos limites da sensatez, para que nenhum dos dois se esquecesse de que eles eram amigos acima de tudo. Esgotaria todas as possibilidades amigáveis antes de tomar uma medida mais drástica.

A medida mais drástica em questão seria diferente da que ele tinha tomado em relação a Saga. Se com o outro cavaleiro ele simplesmente havia deixado de falar, para Shura ele tinha planos distintos...

Sabia que Saga havia contado ao Mestre Shion tudo sobre o aprisionamento e subsequente desaparecimento de Kanon. Sabia também que o antigo Patriarca tinha absolvido Saga porque julgara sua atitude compreensível. Aioros jamais havia mudado sua opinião sobre aquele assunto, mas mesmo a contragosto ele compreendia o porquê de o Mestre Shion encarar os fatos de uma forma diferente. Tratava-se de um ex-cavaleiro nascido numa época em que as pessoas eram mais severas e a vida era mais dura. Ademais, como Mestre do Santuário, cabia-lhe zelar para que não houvesse traidores entre os servos de Athena. Era fácil entender por que ele não puniria um cavaleiro que condenasse à morte um conspirador, ainda que houvesse vínculos familiares entre os dois. Talvez aos olhos do Mestre Shion aquele fator tivesse tornado a atitude de Saga ainda mais corajosa.

Por mais que aqueles acontecimentos entristecessem e indignassem Aioros, ainda lhe restava um consolo: a vítima do desvario de Saga fora Kanon, um homem adulto, saudável e inteligente, o tipo que não poderia alegar inocência ou ignorância. Já Marcel era apenas um menino de sete anos de idade. Não havia comparação. Era impossível negar a gravidade dos atos de Shura e a sua covardia. Não existiam quaisquer atenuantes neste caso. Por isso, se o seu amigo continuasse irredutível, a Aioros não restaria outra alternativa senão denunciá-lo ao atual Mestre do Santuário.

Ele não queria ter de chegar a esse ponto. Preferia esperar que Shura se arrependesse e melhorasse sua conduta. Mas se isso não ocorresse, então Shura mereceria sim ser punido. Restava saber se o Mestre Ares concordaria com isso... Aquele homem era estranho e instável. Em tese, um de seus deveres era monitorar as atividades dos cavaleiros, principalmente os de ouro, que eram os mais próximos dele hierarquicamente. No entanto, conseguir uma mera audiência de cinco minutos com ele era uma tarefa ingrata, tamanha a sua má vontade em atender aqueles que o procuravam; enviar-lhe relatórios e petições era quase uma futilidade, uma vez que ele raramente dava sinais de tê-los lido. Quando ele afinal atendia alguém ou respondia a alguma correspondência, era comum que se mostrasse rude e impaciente. Em certas ocasiões, ele chegava mesmo a tomar decisões que não pareciam fazer sentido.

Havia dias em que sua atitude se transformava por completo e ele se mostrava a pessoa mais gentil e solícita que se poderia imaginar, mas a quantidade de pessoas que o procurava nessas ocasiões era compreensivelmente enorme. Assim, o Mestre nunca conseguia atender a todos antes de mergulhar em um novo período de aspereza e indiferença. Ninguém entendia direito as suas atitudes. Nunca se sabia o que esperar dele.

Aioros temia que uma possível denúncia sua contra Shura fosse ignorada. Ou que o Mestre Ares se voltasse contra o denunciante ao invés de castigar o denunciado. Ou ainda, que ele aplicasse a Shura uma punição desproporcional. Assim, ele tinha ainda mais motivos para insistir em seu objetivo de trazer o amigo à razão, ao invés de buscar soluções mais radicais. E se nada desse certo, talvez fosse melhor substituir a denúncia por um pedido formal para que todos os aprendizes temporários ficassem exclusivamente sob sua responsabilidade. Isso, claro, desde que Aioros conseguisse flagrar o Mestre num de seus raros bons dias. Do contrário, ele se arriscaria a ter uma surpresa desagradável, como por exemplo, ver ninguém menos do que o próprio Shura receber a guarda exclusiva dos discípulos. Não seria a primeira extravagância a ser cometida pelo atual Patriarca.

"Espero que Athena ilumine o Mestre e o acalme um pouco!", Aioros desejou. "E o Shura também."

Exausto de tanto rolar na cama, mas sem conseguir parar por muito tempo, ele decidiu passar os minutos seguintes rezando. Assim ao menos conseguiria se aquietar um pouco e preencheria seu tempo com algo útil.

Visualizando em sua mente uma das estátuas de Athena que decoravam o Santuário, como ele gostava de fazer durante suas preces, Aioros agradeceu à deusa por tê-lo inspirado ao final da discussão com Shura. Sentia que aquela sugestão para que o amigo tentasse imaginar a opinião dela sobre os recentes acontecimentos não havia sido mérito seu, mas sim um presente divino, e fez questão de expressar seu reconhecimento por isso. Pediu perdão por todos e quaisquer erros que ele pudesse ter cometido contra seus amigos e seus aprendizes. Com fervor, rogou a Athena que lhe mostrasse um meio de solucionar os problemas que o afligiam, e que ela abrisse os olhos de Shura e o reconduzisse ao bom caminho que todo cavaleiro deveria trilhar.

Minutos após terminar sua oração, Aioros percebeu que enfim começava a sucumbir ao sono.

oXo - oXo - oXo - oXo

Aioros e Aioria estavam na cozinha da Casa de Sagitário fazendo o desjejum, quando Shura, trajando uma túnica simples no lugar do uniforme que ele normalmente usaria em dias de treino, adentrou o recinto.

Os dois irmãos responderam constrangidos ao seco "bom dia" do recém-chegado. Sob circunstâncias normais, Aioros teria imediatamente convidado Shura a se sentar à mesa, ou o próprio teria tomado a iniciativa de participar da refeição. Todavia, agora Shura apenas permanecia de pé, estático, e um igualmente estático Aioros se perguntava o que fazer ou dizer.

Aioria por sua vez olhava de um para o outro, em suspense. Sabendo o que Shura fizera na véspera, ele se sentia desconfortável em sua presença. Ao mesmo tempo, lembrava-se das instruções para fingir que nada sabia, e por isso achou estranho que agora Aioros não se comportasse como se tudo estivesse bem. Será que seu irmão não percebia que agindo daquele jeito estranho ele poderia fazer com que Shura suspeitasse de algo? Ou será que ele havia desistido do plano de simular ignorância? E por que Shura parecia tão abatido? Será que ele estava passando mal?

Os pensamentos do menino foram interrompidos por Aioros, que lhe pediu gentilmente:

- Aioria, você pode nos dar licença? Daqui a pouco você volta e termina o seu café, está bem?

- Não precisa sair, Aioria - Shura interpôs com voz firme. Fixando seu olhar em Aioros e valendo-se de um tom que não dava margem a discussões, ele disse: - Isso vai ser bem rápido. Só vim dizer que quero que você se encarregue sozinho dos treinamentos de todos, pelo menos durante os próximos dias. Depois que eu tiver tomado uma decisão definitiva, voltaremos a conversar. Agora vocês podem continuar o seu café da manhã.

Boquiabertos, os irmãos observaram Shura enquanto este deixava a cozinha com passos rápidos.

- O que foi que deu nele, Aioros? - Aioria perguntou momentos depois. - Você viu como ele tava esquisito? Viu aquelas olheiras?

Aioros pensou em contar a ele uma versão resumida da discussão que tivera com Shura à noite. Mas quando já entreabria os lábios, pronto para começar a falar, deteve-se. Talvez devesse se aconselhar com Aldebaran antes de relatar a uma criança uma discussão sobre assuntos tão delicados. Ademais, não queria correr o risco de induzir seu irmão a ver Shura como um inimigo. Apesar de tudo, seu amigo sempre tratara sua família muito bem e parecia ter uma estima sincera por Aioria.

Assim, Aioros limitou-se a dizer:

- Vi sim... Mas é melhor nós terminarmos logo de comer, não é? Senão podemos nos atrasar, e aí os seus amiguinhos vão ficar chateados.

oXo - oXo - oXo - oXo

Afrodite, Milo e Valentina gritaram de alegria quando Aioros anunciou que o início da primeira sessão de treinos seria adiado em meia hora e que eles poderiam passar esse tempo brincando. Mas Aioria não estava nem um pouco alegre, posto que novamente seu irmão pediu-lhe que tomasse conta das demais crianças.

- E o Shura? Cadê ele? - Milo perguntou.

- Milo, deixa esse chato pra lá e vamos logo embora antes que ele apareça e não deixe a gente brincar - Valentina disse em tom de alerta, enquanto já agarrava Marcel pelo braço.

- Não se preocupe, Valentina. Shura não virá hoje - Aioros explicou.

A notícia motivou novos gritos de alegria. Após proferir um sonoro "graças a Athena!", Valentina deu um beijo estalado na bochecha de Marcel. Este arregalou os olhos, mas depois esboçou um sorriso acanhado.

- Como é que se chama mesmo aquela música que tocam nos casamentos? - Milo perguntou zombeteiro.

- É a "Marcha Nupcial". Mas isso é coisa de civil - Afrodite respondeu. Voltando-se para Aioros e Aldebaran, que estavam lado a lado observando tudo, ele perguntou: - Que música que se toca quando os cavaleiros e as amazonas se casam?

Aldebaran preparava-se para desestimular a continuidade daquela conversa, mas não teve tempo de dizer nada porque Aioros estava levando tudo a sério:

- Eu não sei... Nunca fui a um casamento aqui no Santuário - ele disse pensativo.

- Nunca? Por quê? - Milo quis saber.

- A minha mãe não deixava, hehehe! Ela dizia que era para eu não ficar com ideias na cabeça - Aioros respondeu, sorrindo descontraído. - Minha mãe achava que um cavaleiro não deveria se casar.

Aldebaran quis usar aquela última frase como uma brecha para também desencorajar seus colegas a pensar em casamentos. Porém, desta vez foi Afrodite quem não o deixou falar:

- Mas ela não era casada com o seu pai?

- Sim, mas eles não eram cavaleiros. Eram espiões - Aioros explicou.

- Que nem o meu pai - Valentina acrescentou.

Ainda insatisfeito, Afrodite insistiu em seus questionamentos:

- Mas a sua mãe já morreu, né? Você nunca foi num casamento nem depois disso?

- Não...

Dessa vez foi Valentina quem quis saber:

- Por que não? Você tem medo que ela venha te assombrar se você for desobediente?

Antes que a conversa se estendesse ainda mais, Aldebaran interpôs:

- Crianças, por que vocês não esquecem um pouco esses assuntos e vão brincar?

Após mais gritos de alegria, o grupo conduzido pelo desanimado Aioria finalmente caminhou em direção à saída do campo de treinamento.

Milo se voltou para Valentina e comentou:

- Valentina, só agora eu reparei numa coisa.

- No quê?

- É que dessa vez, quando eu falei naqueles negócios de casamento, você nem tentou me bater. - Dando cotoveladas de leve nela, num gesto cúmplice, ele completou: - Vocês resolveram assumir o noivado, né?

Marcel se encolheu como de costume. Valentina deu um beliscão em Milo.

- Mas eles não podem ficar noivos ainda. Tem muito pouco tempo que eles se conhecem - Afrodite, com ares de grande sábio, advertiu. - Meus pais namoraram por quatro anos antes de noivar, e só depois de mais um ano é que eles casaram.

- O meu pai uma vez falou que ele e a minha mãe se casaram depois de três anos de namoro - Aioria comentou.

- Vocês dois querem parar de dar ideias pra esse bobo aí? - Valentina protestou e apontou para Milo, embora ela continuasse segurando firmemente o braço esquerdo de Marcel.

Enquanto isso, vendo que as crianças já estavam longe o suficiente, Aldebaran perguntou a Aioros:

- O que houve com Shura?

Aioros contou-lhe tudo sobre a discussão da véspera e a rápida passagem de Shura pela Casa de Sagitário uma hora o seu relato, ele se apressou em pedir o conselho de que necessitava:

- Aldebaran, você acha que devemos contar às crianças que Shura confessou tudo? Eu ainda não disse isso nem ao Aioria. Como ele não sabe da discussão de ontem à noite, eu acho que ele ficou confuso com aquela cena no café da manhã... Mesmo assim, antes de chegarmos aqui eu pedi a ele para não contá-la às outras crianças sem a minha permissão.

- Fez bem, Aioros. Mas eu ainda não sei direito o que é melhor dizer a elas - Aldebaran apoiou o queixo no punho cerrado. - Eu acho que alguma coisa nós temos que contar a elas, mas não tudo. Por exemplo, devemos explicar que Shura não deverá participar dos treinos durante os próximos dias, porque não adianta esconder algo assim. Elas mesmas vão fazer todo tipo de especulação se não receberem nenhuma notícia concreta. Já a discussão... eu não sei. Tenho minhas dúvidas. Existe um perigo muito grande de as crianças ficarem ainda mais ressentidas contra Shura se não tomarmos cuidado, e por mais errado que ele esteja, não acho bom incentivar a discórdia. Ao contrário: eu torço por uma reconciliação geral.

- Eu também.

- Acho que o melhor que nós podemos fazer é explicar às crianças que você e Shura conversaram e que ele confessou tudo. Mas é importante deixar bem claro que você não traiu a promessa de não contar a ele que nós já o tínhamos delatado, e que a confissão dele foi totalmente espontânea - Aldebaran ressaltou. - Depois podemos dizer que Shura está refletindo sobre tudo o que aconteceu, até porque eu acredito que esse seja o motivo de ele ter dado uma pausa nos treinos. E então devemos pedir que elas continuem respeitando aquele acordo de ontem para todos nós fingirmos que nunca conversamos sobre o que aconteceu, enquanto você tenta resolver esse problema com o Shura. Aliás, devemos incluir nesse acordo tudo o que for dito hoje também, para evitar que as crianças façam comentários inconvenientes se Shura decidir aparecer sem avisar. Elas podem reclamar e até achar que queremos acobertá-lo, mas nós temos que tranquilizá-las e esclarecer que estamos sim do lado delas. Se conseguirmos transmitir bastante segurança às crianças, depois poderemos prepará-las para que elas perdoem Shura.

- Você já o perdoou?

Com um sorriso franco, Aldebaran admitiu:

- Não. Mas eu quero e vou perdoá-lo. Não confio em pessoas rancorosas. Se eu me tornar uma delas, acho que também não merecerei a confiança de Athena.

Aioros sentiu seu respeito pelo discípulo se fortalecer ainda mais naquele momento.

oXo - oXo - oXo - oXo

O que Athena acharia de toda aquela situação? Por três dias, Shura repetiu aquela pergunta para si mesmo incontáveis vezes.

Em diversos momentos ele tentava se convencer de que já tinha encontrado uma resposta, e de que esta lhe era favorável: se Athena já tivesse retornado à Terra e ele pudesse ter uma conversa franca com ela, certamente ela o compreenderia e apoiaria suas atitudes. Ela o elogiaria por se preocupar verdadeiramente com a formação de bons cavaleiros que fossem dignos de integrar seu exército. Ela o cumprimentaria por incentivar os aprendizes a se tornar pessoas fortes.

E claro, ela o perdoaria pelos excessos cometidos contra Marcel... certo?

Por que ele não conseguia deixar de pensar que a resposta que mais o favorecia era também a que parecia mais artificial?

Quando Shura se permitia cogitar a possibilidade de que Athena reprovasse seus atos, ele sentia sua respiração tornar-se mais difícil. No entanto, ao mesmo tempo, uma parte de sua mente parecia querer se aquietar. Como se somente aquela hipótese pudesse aproximar sua consciência da verdade...

Não! Aquilo não era a verdade. Não podia ser. Shura era o cavaleiro mais leal a Athena. Se não o fosse, não teria jamais conseguido desenvolver a técnica Excalibur. Segundo a tradição, somente um homem valoroso seria capaz de criar um golpe que evocasse a espada com que a própria Athena um dia presenteara o cavaleiro em quem mais confiava. Shura personificava tal tradição na era atual. Era possível até que ele fosse aquele mesmo cavaleiro reencarnado. Sendo assim, a razão estava do seu lado. Tinha que estar. Athena certamente reconheceria que ele havia agido bem.

Certamente?

Não seria pretensioso de sua parte pensar daquela maneira? Com que direito ele se permitia ter certezas sobre as opiniões de Athena? Aquilo bem poderia parecer uma blasfêmia.

Mas Shura nunca blasfemaria contra sua deusa! Nunca faria nada que a desrespeitasse. Ele apenas intuía que, depois de ouvir todo o seu relato, ela haveria de concordar com ele. Porque Athena era justa e ele estava certo; logo, ela teria que admitir que...

Não, ela não teria que admitir absolutamente nada. E Shura se envergonhava de si mesmo a cada vez que aqueles tipos de pensamento cruzavam sua mente. Era como se ele estivesse tentando controlar e determinar as opiniões de Athena, algo que ninguém tinha o direito de fazer, nem mesmo hipoteticamente. Pois não eram as opiniões de sua deusa que tinham que se moldar às necessidades dele, e sim o contrário.

No entanto, ele ainda gostaria de se convencer de que todos os seus atos já estavam moldados à vontade de Athena. E que por isso mesmo, ela os apoiaria. Assim, ele não precisaria ter receio de lhe explicar os acontecimentos recentes.

Shura a olharia nos olhos, conforme sugerido por Aioros, e não descreveria somente o que havia feito diante de várias testemunhas. Também revelaria o que havia acontecido enquanto ele carregava Marcel até o posto médico: as ameaças que visavam convencer o garoto a parar de choramingar e tremer; o ápice de sua impaciência, quando ele atirara Marcel ao chão e mandara-o procurar um médico sozinho; a subsequente crise histérica do menino, que gritara por socorro até que Shura o deixasse inconsciente com uma leve aplicação de cosmo-energia; o almoço, já depois de Marcel ter sido atendido, quando Shura o intimidara a fim de assegurar o seu silêncio, e o criticara por sua fraqueza e lentidão; o regresso, durante o qual ele ignorara as dificuldades do menino para caminhar, recusando-se a carregá-lo novamente.

Sim, ele seria capaz de dizer tudo aquilo a Athena olhando em seus olhos. Ele não teria outra alternativa afinal. Não conseguir encarar sua deusa durante tal relato seria o mesmo que... uma admissão de culpa.

Mas não, Shura não tivera culpa de nada! Ele só tinha se exasperado porque queria ajudar Marcel a entender qual era a conduta correta para um futuro cavaleiro. Portanto, a culpa havia sido do garoto. Athena entenderia tudo. Ainda que ela lhe dissesse que ele havia se excedido, ela o brindaria com seu perdão porque era uma deusa afável e generosa para com aqueles que a honravam. Shura sabia que não tinha o que temer.

E no entanto, ele já não conseguia deixar de pensar que estava mentindo para si mesmo.

Maldito Aioros! Era ele o verdadeiro culpado pelo estado de nervos em que Shura se encontrava agora. Mas o que se poderia esperar de uma pessoa que só sabia julgar os próprios amigos da pior forma possível? O tratamento que ele dispensara a Saga após a correta atitude deste para com Kanon havia sido um alerta. Shura fora estúpido por não ter se afastado definitivamente de Aioros já a partir daquela época. Não valia a pena manter uma amizade como aquela. Estava decidido: ele iria cortar relações com Aioros. Desta forma, metade de seus problemas atuais seria resolvida.

Depois disso, Shura só precisaria encontrar um meio de cortar relações com sua própria consciência...

oXo - oXo - oXo - oXo

Aldebaran empenhava-se em ajudar Milo a corrigir a postura durante o exercício que o menino realizava, quando sua atenção foi desviada pelo que lhe pareceu ser uma exclamação de dor abafada. Voltando-se para trás, ele viu Aioros sentado num dos bancos do campo de treinamento e esfregando o olho direito, enquanto Valentina se afastava sorridente. Ele instruiu Milo a continuar seu exercício e depois caminhou em direção ao cavaleiro.

- É o que eu estou pensando, Aioros?

- Sim. Esse demônio de cabelos verdes me acertou de novo - Aioros respondeu bem-humorado.

Aldebaran pensou novamente em ter uma conversa com seu mestre sobre aquela excessiva leniência. Não queria que Valentina fosse castigada, mas apenas advertida para que não pensasse que podia desrespeitar os mais velhos. Embora ele mesmo conversasse bastante com ela no alojamento, achava importante que o próprio Aioros se impusesse um pouco mais também. Todavia, continuava hesitando em abordar aquele assunto. Se em tempos normais Aldebaran já temia dar a impressão de querer se sobrepor aos próprios mestres, agora que só havia um deles parecia-lhe necessário ser ainda mais cauteloso. Aioros estava um pouco perdido e vinha se apoiando demais em seu auxílio para conduzir os treinos. Aldebaran não queria que ninguém pensasse que ele pretendia se aproveitar daquela situação para ignorar a autoridade do cavaleiro.

Não havia dúvidas sobre a competência e as boas intenções de Aioros. Porém, sua capacidade de organização deixava a desejar. Ademais, ele obviamente não era um líder nato. Nos últimos três dias, Aldebaran vinha se esforçando para ajudá-lo a reformular toda a rotina de treinamento, redistribuir tarefas e modificar métodos de ensino. Os dois haviam chegado a sacrificar uma parte do domingo, o dia de folga, a fim de adiantar aquele processo de replanejamento. Naquela terça-feira as coisas pareciam mais tranquilas do que na véspera e no sábado; aparentemente, as crianças começavam a se adaptar melhor às mudanças. O problema de Aldebaran era que ele mesmo praticamente não vinha treinando desde o afastamento de Shura, uma vez que Aioros pedia-lhe constantemente que supervisionasse os exercícios dos demais aprendizes.

Talvez este sim fosse um tópico sobre o qual ele devesse expor abertamente suas objeções. Não de imediato porém. Ele queria aguardar mais alguns dias, na esperança de que Aioros percebesse por si mesmo que o vinha negligenciando. Se nada se alterasse, Aldebaran não teria outra escolha senão gentilmente lembrar ao seu mestre de que um discípulo mais velho continuava a ser um discípulo, e não um professor substituto.

- Como você acha que eles estão se saindo, Aldebaran? O que você está achando do treino de hoje? - Aioros perguntou, fazendo um aceno de cabeça em direção às crianças.

Refreando o seu desejo de advertir o cavaleiro quanto aos equívocos que vinha cometendo como mestre, Aldebaran reassumiu o seu papel de supervisor improvisado e pôs-se a estudar os seus colegas. Naquele momento, cada criança estava num ponto diferente do campo, realizando diferentes exercícios individuais. Valentina agia como se nada tivesse feito e parecia totalmente concentrada em seus próprios movimentos. Afrodite se movia com habilidade e confiança, sem apresentar sinais de cansaço. Milo parecia estar se aperfeiçoando, embora sua postura continuasse errada. Aioria estava praticamente imóvel, pois sua tarefa naquele momento consistia em treinar somente a vibração de seu cosmo. Marcel fazia um exercício leve e simples, para que não tivesse que realizar movimentos bruscos.

Esboçando um sorriso, Aldebaran finalmente respondeu:

- Por enquanto, está tudo bem.

Ele achou irônico que Shura aparecesse na entrada do campo segundos após aquela frase ter sido proferida.


Capítulo concluído em 26 de junho de 2012.

NOTAS GIGANTES: Finalmente voltei. Tantas coisas aconteceram nesses últimos três anos... Mas enfim, o que passou, passou.

Este novo capítulo é dedicado a três leitoras: Aquarius-Chann, que tem apoiado minhas fics lealmente há muito tempo, e a quem por isso mesmo eu sempre serei profundamente grata; Haina Aquarius-sama, quem há alguns meses me enviou um comentário incrivelmente lisonjeiro, fazendo-me sorrir até hoje todas as vezes em que eu o releio; e principalmente Andréia Kennen, a quem eu chamo carinhosamente de "noiva" e cuja insistência para que eu retomasse esta fic foi um incentivo de extrema importância para mim. Muito obrigada a vocês três!

Naturalmente, não posso deixar de também agradecer à Anita, à Érika e a todos os demais leitores desta fic. Independentemente de vocês comentarem ou não, sou grata a todos por lerem esta história.

Uma das coisas que fiz durante esta longa pausa foi reavaliar minha forma de escrever, baseando-me em tudo o que aprendi ao longo desse período. Li muito, conheci outras pessoas e outros lugares, passei por novas experiências... Depois de tudo isso, fiquei insatisfeita ao reler meus escritos antigos e dei-me conta de que várias coisas precisam mudar. Comecei a implementar algumas mudanças já neste novo capítulo, porque sinto que eu realmente devia isso a mim mesma, mas admito que talvez as alterações no meu estilo e nos meus métodos não sejam perceptíveis a ninguém mais. Seja como for, continuo empenhada em me aprimorar e oferecer aos meus estimados leitores uma opção de leitura aceitável, sempre levando em conta também as minhas próprias preferências, é claro. Agradeço desde já a sua paciência e compreensão enquanto eu me adapto a essa nova fase na minha escrita.

Devo dizer que um dos erros mais grave que cometi não apenas nesta fic, mas no "Ciclo Saint Seiya" como um todo, foi o descuido com o planejamento. Como os leitores mais antigos sabem, o Ciclo está prestes a completar dez anos de existência. Naturalmente, quando eu era dez anos mais nova, eu tinha ideias que me pareciam boas à época, mas que agora eu encaro de forma mais realista. Ademais, depois de tantos anos, acabei me esquecendo dos motivos pelos quais eu tomei certas decisões, e isso também me atrapalha hoje em dia. Por exemplo: eu sei que eu tinha cá minhas razões para atribuir a certos personagens as idades que eles têm no Ciclo (independentemente do fato de as idades canônicas definidas pelo Kurumada serem quase todas estapafúrdias), mas agora eu simplesmente não consigo me lembrar delas. Vejam vocês o que acontece a uma escritora quando ela tem o péssimo hábito de tentar memorizar ideias ao invés de anotá-las...

O resultado dos problemas que citei acima é que agora preciso realizar uma série de correções e ajustes nas fics do Ciclo. Ou pelo menos, nas duas que estão em andamento, ou seja, "Último Dia de Aioros" e "Inimigo Inesperado de Athena". Porém, não irei reescrever capítulos já publicados. Como eu disse mais acima, o que passou, passou. Por isso, ao invés de alterar o que já foi escrito, prefiro consertar os enredos por meio de um trabalho mais cuidadoso nos futuros capítulos. Provavelmente isto me levará a antecipar temas e cenas que eu só pretendia incluir no Ciclo mais adiante.

Outra medida que pretendo tomar é somente publicar novas fics longas depois que eu já as tiver concluído. A primeira história à qual deverei aplicar esta minha nova regra será uma fic que também integrará o meu "Ciclo Saint Seiya". Ela ainda não tem título, mas posso adiantar que ela girará em torno das reações do Hyoga e do Camus à suposta morte de Isaac na época em que os três viviam na Sibéria. (Viu, Aquarius-Chann? Não me esqueci dessa fic!)

As minhas fics já em andamento não será afetadas por essa nova medida e continuarão sendo atualizadas aos poucos. A propósito, o oitavo capítulo de "Último Dia de Aioros" deverá sair no máximo até o final de setembro de 2012, mês em que a história completará dez anos de existência. Sim, eu sei que sou uma escritora absurdamente vagarosa...

Para maiores informações sobre sites onde minhas fics podem ser encontradas, datas de lançamento de futuros capítulos, eventos para escritores e outras coisas do gênero, visitem meu perfil.

Muito obrigada a todos vocês que me leem, que comentam minhas histórias e que as adicionam aos seus favoritos e alertas! Até breve!