CAPÍTULO VI

Esfregar paredes. Lavar janelas. Lustrar o chão. Rin concluiu que a sra. Kaede estava certa quando a advertiu que limpar os quartos do terceiro andar seria uma ta¬refa monótona. Os cômodos fechados não guardavam nenhum segredo, apenas pó. Mas pelo menos suas mãos se encontravam ocupadas e estava realizando algo de útil.

Em um dos quartos descobriu uma delicada escrivaninha de pau-rosa, com desenhos nas duas gavetas inferiores. A pin¬tura era muito incomum, com um brilho metálico que se refle¬tia nas cores vividas.

Ajoelhando-se no chão, correu o dedo sobre a frente móvel. Era obviamente uma peça de mobília projetada para o uso feminino, pequena e cheia de detalhes, com flores e um papagaio pintados em um dos lados. Com um trapo limpo, espanou o pó com cui¬dado. Então, deu asas à imaginação. Lembrou-se dos romances que amava ler, onde uma escrivaninha poderia esconder um com-partimento secreto. Uma risadinha escapou-lhe dos lábios. Havia cedido ante o desejo infantil e examinado cada quarto que limpou, sem, porém, ter descoberto nenhuma passagem secreta e nenhum túnel escuro recoberto de teias de aranha. Só paredes, janelas e pó. Mas o fato de imaginar que poderia descobrir algum esconde¬rijo ou tesouro tornara a tediosa tarefa mais suportável.

Voltando a atenção à escrivaninha, abriu a gaveta do centro. Com a respiração presa na garganta, esperou que o conteúdo lhe fosse revelado. Estava vazia.

Destemida, abriu uma gaveta de cada vez, apenas para en¬golir a decepção de não encontrar nada. Revirando os olhos às próprias idéias ridículas, continuou com a limpeza, trabalhan¬do metodicamente para deixar os quartos arrumados. Uma vez terminado o trabalho, fechou a janela e o trinco, e então se virou para deixar o aposento. Mais uma vez, a escrivaninha lhe cha¬mou a atenção, fazendo-a lembrar-se de um romance que havia lido tempos atrás. Um fundo falso de uma gaveta que continha documentos importante, protegidos dos olhos de espreitadores. É claro que sabia que a vida não era uma obra de ficção, mas não havia mal nenhum em dar uma última olhada.

Novamente examinou cada gaveta, dessa vez à procura de uma fenda escondida ou um som oco incomum, quando bateu os dedos de encontro à madeira. Nada. Desapontada pela au¬sência de qualquer descoberta significante, tentou devolver a última gaveta a sua posição inicial, mas não conseguiu empur¬rá-la até o fundo. Com a testa franzida, retirou-a e pousou-a no chão a seu lado. Então, inclinou a cabeça e espiou a abertura escura.

Lá, bem no fundo, havia um objeto retangular peque¬no. Rin o encarou com a excitação crescendo no peito. Esfregando a mão no avental, esticou o braço e o alcançou. Seus dedos se fecharam ao redor da coisa e ela puxou um livro fino de couro. Folheou-o e uma confusão de palavras passou apressada ante os seus olhos. A letra feminina indicava que a descoberta tratava-se do diário de uma mulher. Comprimindo o pequeno volume no bolso, ergueu-se e passou para o próximo quarto, pretendendo examinar seu prêmio quando tivesse um momento de folga.

Trabalhou duro durante algum tempo. Quando restava apenas o chão para lavar, fez uma pausa, com todos os sentidos em alerta. Talvez o desejo secreto de seu coração a tivesse feito pensar que não estava mais sozinha. Ela gelou. Seu coração acelerava num misto de temor e esperança.

Lentamente, se afastou da janela, com os nervos em cha¬mas e a respiração ofegante.

Não se enganara. Sesshoumaru se encontrava na entrada do quarto, apoiado no batente, com os braços e os pés cruzados. Tinha os cabelos escuros desalinhados e uma mecha roçava-lhe o ângulo rijo do maxilar.

Por um momento, Rin pensou tê-lo imaginado.

— Voltou mais cedo que o esperado, milorde.

O olhar insinuante do lorde deslizou sobre a sua face, seu corpo, deixando-a quente e corada a cada lugar que a tocava.

Movendo-se com graça e elegância, Sesshoumaru entrou no apo¬sento com suas botas polidas batendo no piso gasto. O som ecoou no quarto vazio. Os músculos salientes das coxas bem torneadas ondulavam sob o tecido das calças amarelas. Não se preocupou em retirar o casaco de corte reto, mas caminhou na direção dela, cheirando a sol e ar fresco.

Chegou tão perto que Rin pôde sentir o calor que ema¬nava daquele corpo viril e ver o desejo contido naqueles olhos verde-dourados.

— Milorde — murmurou, recuando um passo e esbarrando no balde.

De súbito, se recordou do estado desordenado de sua apa¬rência, das vestes manchadas e das mãos ásperas. Seu pé cutu¬cou a vassoura.

— Sesshoumaru — corrigiu ele com a voz rouca. — Diga meu nome.

— Sesshoumaru — sussurrou ela, lutando para tomar fôlego.

— Não pude ficar por mais tempo — disse ele, num tom con¬fuso, como se não pudesse compreender o motivo. Então, estican¬do o braço, afastou uma mecha solta dos cabelos dela. Embora, seu toque fosse suave, Rin percebeu uma impetuosidade naqueles olhos encantadores que acendeu faíscas pecaminosas, suscitando um forte desejo que serpenteou pelo seu corpo.

Santo Deus, Sesshoumaru Craven desabara sobre ela como uma tempestade, destruindo-lhe a compostura, pensou. E tudo que fez foi ficar de pé em frente a ela, fitando-a com aqueles olhos mara¬vilhosos que continham promessas de prazer sem fim.

Pensando que a distância poderia cortar o elo que surgiu entre os dois, recuou alguns passos. Cada movimento de seus membros lhe acelerava a pulsação, acentuando-lhe a estranha angústia que ela mal compreendia.

Enquanto a fitava, a boca de Sesshoumaru se curvou em uma linha sensual. Ele sabia. Céus. Ele sabia o que sua mera pre¬sença lhe provocava.

— Venha cá — chamou o lorde num tom suave.

— Eu... — Rin tentou falar, mas o som que proferiu foi um grasnado rouco, tão estranho que a deixou atordoada.

Sesshoumaru estendeu-lhe a mão, um gesto simples que a atraiu com mais força do que qualquer frase bonita. Desejava se atirar naqueles braços e sentir a força sólida daquele ho¬mem envolvê-la. Viver durante um único segundo o sonho de ser amada por Sesshoumaru. Ele a queria. Disso tinha certeza. Da mesma maneira que tinha certeza que ele não lhe ofereceria mais nada.

— O que quer de mim? — perguntou, forçando as palavras a sair. Deveriam ter soado melancólicas, mas em vez disso, a pergunta pareceu um desafio. Mas era melhor dizer isso a ele do que deixar sua mente invocar-lhe pensamentos. Afinal, po¬deria estar errada.

— O que quero de você? — Sesshoumaru franziu o cenho e a fitou. Então, deixou escapar uma risada de auto-reprovação. — Quero o que não tenho o direito de querer. Quero vê-la nua em minha cama, com os cabelos soltos e esparramados em meu travesseiro. Ou apreciar sua pele sob suas meias pretas, en¬quanto as retiro lentamente e deslizo minha língua ao longo das suas coxas até a curva de seus quadris redondos.

Aquelas palavras eram escandalosas, terríveis. Maravilhosas! Ele não deveria falar com ela dessa maneira. Rin mordeu o lábio inferior e sacudiu a cabeça, confusa. Como ela não disse nada, Sesshoumaru continuou:

— Aquela noite na galeria de quadros, eu poderia tê-la possuído.

Sesshoumaru fez uma pausa, talvez esperando que ela o con¬tradissesse. Fechando os olhos, Rin desejou tampar os ou¬vidos, impedir a verdade daquelas palavras. Mas não ofereceu argumentos. Sim, ele poderia tê-la possuído naquela noite de encontro à parede de pedra, com o retrato da esposa morta os contemplando. Mesmo assim, se sentira escravizada apesar do medo e meio apaixonada pelo senhor de Manorbrier. Ele deu um passo à frente.

— Mas não tenho nenhuma intenção de forçá-la. O que que¬ro de você? Só o que estiver disposta a me dar.

— Não desejo lhe dar coisa alguma!

As palavras saíram apressadas. Eram uma tentativa la¬mentável de negar seus sentimentos, seu desejo irresistível por lorde Craven. Se não forçasse a mentira a sair depressa, não seria mais capaz de dizê-la.

Rin se afastou até suas costas baterem de encontro à superfície sólida da parede. Enterrando os dedos na textura grossa do tecido da saia, lembrou-se das advertências da mãe, ressoando em seus ouvidos desde quando era criança e pensou em Meg. O pai do bebê não vai reivindicá-lo. Os nobres nunca o fazem.

Era isso que queria? Ficar igual a Meg? Como a mãe? Grávida e sozinha? Poria em risco sua chance de mudar a vida de Hakudoushis, a oportunidade de amá-lo e fazer do menino um homem de bem.

Um gemido baixo de angústia lhe escapou da garganta. Sentia-se insegura, tonta.

Contemplando aquela perfeição chamada Sesshoumaru Craven, tentou ordenar os pensamentos. Ele não lhe oferecia nada. Nem casamento. Nem respeito. Nem casa e filhos. Mas lhe oferecia um pouco de prazer. Por alguns momentos, uma semana, um mês, poderia tê-lo. E quando acabasse, lhe restariam as recor¬dações. A idéia era uma tentação do tipo mais constrangedor.

— Por que eu? — perguntou, lutando para respirar. — Pode se divertir com uma moça da aldeia ou ir para Londres. Tenho certeza de que não encontraria dificuldade em satisfazer...

Incapaz de formar as palavras, parou de repente, para re¬fletir sobre o quadro sombrio que se formou com precisão em sua mente.

— Sim, eu poderia — concordou Sesshoumaru, aparentemente com pena dela. Permitindo-lhe a dignidade dê não expressar os pensamentos.

Por que eu? Por que eu? A pergunta reverberou entre os dois, sem resposta. Rin teve o súbito discernimento de que talvez Sesshoumaru não soubesse explicar a atração que sentiam um pelo outro. Sentia e pronto, da mesma maneira que ela.

— Não suportaria se o senhor me despedisse. Por Haku, que¬ro dizer. Gosto muito do menino, milorde. — Sua respiração saía em forma de suspiros breves que se acentuavam a cada frase que proferia.

Sesshoumaru não respondeu, apenas continuou a mantê-la ca¬tiva do seu olhar ardente, saqueando-lhe a alma com o desejo que ardia naqueles olhos verdes. Rin precisava tomar uma decisão sensata, embora parecesse quase impossível, com seu coração disparado dentro do peito e a mente repleta de ima¬gens dos dois se tocando.

— O modo como ofega quando sussurra meu nome me agra¬da — murmurou ele, dando um passo à frente.

Sesshoumaru cruzou a distância que os separava com passadas lentas. O olhar fixo no de Rin a fez imaginar que ele conhe¬cia seus segredos, seus pensamentos mais íntimos, os anseios, a confusão indescritível que a dominava.

— Tem noção do que acontece entre um homem e uma mulher? — A voz era cálida, derramando-se sobre ela como mel morno.

Incapaz de falar, Rin assentiu com a cabeça. Ninguém poderia crescer em uma área rural sem adquirir um pouco de conhecimento sobre procriação. Embora duvidasse que as re¬lações entre seres humanos fossem como as dos animais do curral, tinha uma idéia básica de como dois corpos se uniam um ao outro. E no tempo em que vivera com as tias, Annie, a criada do andar inferior, fora bastante prolixa sobre as ativida¬des noturnas das quais participara.

Sesshoumaru se aproximou ainda mais; o cheiro delicioso e o calor do corpo másculo eram como poderosas iscas. Rin teve tempo suficiente para fugir, negar o desejo que corria em suas veias com uma intensidade quase dolorosa. Embora a mente a advertisse que sua escolha era uma loucura, não fez a menor questão de escapar, permanecendo imóvel, com as costas pres¬sionadas contra a parede sólida.

Seu corpo o desejava. Ela o desejava.

Ofegou quando Sesshoumaru apoiou uma das mãos na parede, um pouco acima do seu ombro esquerdo. Virando a cabeça, olhou para aqueles dedos fortes e então voltou a encará-lo.

— Não quero ser uma moça sensata — sussurrou com o coração batendo numa deliciosa expectativa. Sentia-se feliz por ele a ter procurado.

Um som indistinto escapou da garganta de Sesshoumaru, meio gemido, meio riso. Era difícil descrevê-lo, mas despertou em Rin uma onda de desejo que lhe invadiu o corpo com a vio¬lência de uma tempestade. Um desejo que só aquele homem poderia acalmar. Rin agradeceu a Deus por poder ter a pa¬rede para sustentá-la, caso contrário teria derretido em uma poça sem ossos aos pés dele. O som de suas respirações se con¬fundia, deixando-a aturdida.

Mais uma vez, ela mordeu o lábio, fazendo-o interpretar o gesto como um convite. Curvando-se para a frente, Sesshoumaru deslizou a ponta da língua, acariciando-lhe a carne macia dos lábios. Rin gemeu aturdida pelo contato. Quando sua boca abriu, ele a invadiu sem encontrar obstáculos. A língua quente deslizou pára dentro, só um pouco, apenas o suficiente para dei¬xá-la prová-lo. E, então, mais fundo. Lábios, língua e dentes.

Sesshoumaru apoiou-se nos braços estendidos, mantendo o corpo afastado do dela, tocando-a apenas com a boca. Não era o bas¬tante. Seus mamilos túrgidos se projetaram de encontro ao te¬cido do corpete. Incapaz de resistir por mais tempo, arqueou o torso, querendo mais, querendo senti-lo de maneira completa.

Rin deixou escapar um gemido de prazer quando o peso do corpo másculo pressionou o dela, moldando-a às suas formas viris. Era uma sensação luxuriante, estranha e muito excitante.

Zonza de desejo, tentou respirar através de suas bocas uni¬das. O sabor e o toque daquele homem a penetraram junto com o beijo infinito e delicioso. Com um gemido baixo, Sesshoumaru mo¬veu-se, esfregando o corpo com movimentos sinuosos contra o dela, ao mesmo tempo em que sua língua possessiva penetra¬va-a, explorando-lhe a boca e fazendo-a ofegar.

Rin respondeu à masculinidade que ele exalava, prendendo-lhe o lábio inferior entre os dentes, mordendo, chupando, descendo as mãos de modo provocante, até tocar-lhe as curvas rijas das nádegas.

Encrespando os dedos ao redor daqueles músculos desen¬volvidos, atraiu-o mais para si. Então, movendo-se por um ins¬tinto cego, esfregou-se lentamente de um lado para outro, seus quadris estavam colados e o calor da palpitação úmida do seu desejo pulsava em suas entranhas. Era como se equilibrar na extremidade de um precipício, se desse um único passo cairia. Mas não tinha a mínima idéia de que modo deveria pisar, como poderia aliviar aquela pressão que crescia dentro de si, igual a vapor dentro de uma panela de comida tampada. Estava en¬trando em estado de ebulição...

— Oh, por favor. Eu... eu preciso...

Afastando-se, Sesshoumaru a fitou e pousou os dedos sobre seus lábios, cortando o que ela ia dizer.

— Você me quer — sussurrou ela, meio sedutora, meio inocente.

— Sim. — A voz soou grave e rouca, extremamente mas¬culina.

Um último vestígio de bom senso a fez falar:

— Honrará sua palavra... não me afastando de Haku quando terminarmos? Quando tudo tiver acabado?

Ao ouvir aquela pergunta, algo mudou nos olhos de Sesshoumaru. O desejo que antes refletiam enfraqueceu, dando lugar a uma tonalidade fria de verde. Rin prendeu o fôlego, aflita, sen¬tindo a súbita mudança, ao ouvi-lo exalar um suspiro profundo e se afastar.

— Não! — Toda a sua decepção concentrou-se naquela pala¬vra, a decepção era terrível e esmagadora enquanto ele se afas¬tava ainda mais. Tinha adorado o gosto do beijo dele, o modo como seus lábios e língua a acariciaram, os beliscões suaves e as mordidas lentas. Mais. Queria mais.

— Shh... — Sesshoumaru acariciou-lhe os cabelos e curvando-se para a frente beijou-a na testa. Rin ziguezagueou o corpo, querendo sentir o calor da pélvis dele de encontro a sua mais uma vez. Estivera tão próximo, tão próximo de... de algo des¬conhecido que teria acontecido se ele posicionasse os quadris de volta onde estiveram, se a beijasse como fizera momentos antes.

— Menina gulosa — murmurou ele, como se lhe adivinhasse os pensamentos. Ou talvez ela tivesse sussurrado seu desejo.

Perdido. O momento estava perdido. Poderia sentir isso. Desejou poder voltar no tempo e apagar o que quer que fosse que tivesse dito que o fez mudar daquela maneira.

— Fui o primeiro homem a beijá-la? — perguntou ele, er¬guendo uma sobrancelha com um ar inquiridor. Havia algo no seu tom de voz. Embora não estivesse sorrindo, parecia estar se divertindo às suas custas, pensou Rin.

Sabendo que seria incapaz de falar, apenas assentiu com a cabeça.

— Pareceu-me bastante experiente para uma moça inocente. — Agora o riso era de escárnio. — Você me mataria na cama, Rin Parrish. Eu acabaria morrendo de esgotamento, suspeito. E muito provavelmente adoraria.

Rin fez uma carranca ao ouvir aquelas palavras, não captando seu significado. Por fim, o ritmo de seu coração redu¬ziu a uma velocidade menos acelerada e sua respiração quase poderia ser descrita como normal. Umedecendo os lábios len¬tamente, apreciou o contanto da língua úmida contra a pele morna, o gosto dele ainda estava lá.

— Não entendi.

— Eu sei. — Sesshoumaru acariciou-lhe a linha do maxilar. — Acho que sou um homem afortunado por tê-la descoberto. E um bobo por não tirar proveito de minha boa sorte.

O quê? O que eu fiz de errado? Rin lutou contra o desejo de alcançá-lo e puxá-lo para si. Num minuto ele a estava tocan¬do, beijando esfregando o corpo contra o dela, até fazê-la pen¬sar que ficaria louca de tanto prazer e no próximo se afastava.

— Por quê? — sussurrou ela.

A expressão de Sesshoumaru se alterou, uma mudança sutil que o transformou de amante em patrão distante.

— Não posso lhe oferecer nada além de um flerte sem im¬portância. Merece muito mais e sou incapaz de lhe dar. Quando me perguntou se eu honraria minha palavra... fez-me lembrar que merece ser tratada com respeito. — Ele franziu a testa, desviou o olhar e então voltou a fitá-la. — É uma mulher de integridade rara, Rin. Merece mais consideração.

Então, foram as palavras dela que o fizeram parar? Uma parte de si estava orgulhosa por tê-la salvado da desgraça, da ruína, de cometer o mesmo engano terrível que a mãe cometera. Mas, oh, seu corpo doía com a decepção do fei¬tiço quebrado.

Recuando um passo, Sesshoumaru se curvou e recobrou a vas¬soura que ela deixara cair. Em seguida, cruzou o quarto para erguer o balde de água suja. Rin observou suas estranhas ações, sentindo-se desolada e confusa. Ele estava certo, Ela me¬recia mais e ficou horrorizada por, nem que fosse por apenas alguns breves momentos, ter considerado a possibilidade de aceitar menos.

Sesshoumaru se virou de frente para encará-la com um olhar cheio de pesar.

— Lembra-se, quando eu lhe disse que não era um homem gentil?

— Sim.

— E estou a ponto de fazer algo desse tipo.

— Do que está falando? — perguntou ela, embora já sou¬besse.

— Eu quero você, Rin Parrish. — As palavras foram pro¬nunciadas num tom baixo e rouco, fazendo-a fremir de desejo. Ela olhou para baixo, incapaz de fitá-lo nos olhos. — Quero tirar suas roupas, tocar suas pernas, sua cintura, seus seios. Penetrar minha língua em sua boca e o meu corpo bem fundo no seu.

— Eu...

O quê? O que poderia dizer? Ela havia pensado em beijá-lo, em pressionar o corpo de encontro ao dele, correr as mãos por aqueles músculos desenvolvidos. Porém, através da segurança do tecido das roupas. Não pensou nada, além disso, embora se sentisse tentada. E quando ele lhe perguntou se ela sabia o que se passava entre um homem e uma mulher, respondera que sim. Não era mentira, mas não pensara no seu significado. Para ela. Para ele. Santo Deus. Meu corpo bem fundo no seu. Isso a fez sentir-se corada, confusa, experimentando ao mesmo tempo uma estranha excitação e uma imediata aversão.

Sesshoumaru exalou um suspiro profundo e lento.

— Vou me abster de aceitar o precioso tesouro que está me oferecendo.

Rin voltou a encará-lo e percebeu que ele a fitava com um brilho afiado no olhar. Então, sua expressão suavizou e as próximas palavras foram proferidas num tom de surpresa.

— Porque acho que estou gostando de você, Rin. No verdadeiro sentido da palavra. E além do mais, eu a admiro. Estranho, dizer essas palavras. — Ele sacudiu a cabeça. — Admiro sua coragem, seu coração honesto e verdadeiro.

Sesshoumaru a admirava e ela podia sentir a nota de increduli¬dade que permeava sua voz. Os pensamentos do lorde o pega¬ram de surpresa.

— Não desejo lhe fazer mal algum — continuou ele. — Está sendo salva pela minha excessiva consideração. — Um sorri¬so pesaroso curvou-lhe os lábios. — E me amaldiçôo por isso. — Ele exalou o ar lentamente. — Vou levar estas coisas de volta à copa.

Virando-se, Sesshoumaru ergueu os utensílios de limpeza que havia reunido e deixou o quarto, abandonando-a só e confusa. Retirou-se do aposento como qualquer criada, espirrando água suja nas botas polidas e tudo para escapar dela. Está sendo salva pela minha excessiva consideração.

Na tarde do dia seguinte, Rin fez uma pausa para reu¬nir coragem e ajustar a aparência do lado de fora da bibliote¬ca de lorde Craven. Estava receosa de ficar a sós com o patrão. Ainda se sentia atormentada pelas lembranças ardentes do toque, do beijo e da pressão do corpo musculoso daquele ho¬mem de encontro ao seu. Quando a sra. Kaede lhe pediu para levar uma mensagem à biblioteca, esforçou-se para não dizer à criada que a entregasse ela mesma. Mas Hakudoushis estava aju¬dando Yura a assar um bolo, deixando-a sem uma razão viável para recusar o pedido.

Através da porta parcialmente aberta, ela o avistou. Sesshoumaru caminhava como uma fera enjaulada. Doze passos para um lado. Doze para o outro. Parando ao lado da escrivani¬nha, contemplou um copo de conhaque sobre o tampo, próximo à extremidade. Depois de um momento, pegou a bebida, tomou-a de um único gole e se dirigiu à janela. Rin o julgou pensativo, desconsolado. Seria por sua causa? Aquela melancolia teria algo a ver com o que se passara entre os dois?

Utilizando as reservas de sua compostura e munindo-se de coragem, bateu à porta.

— Entre. — Sesshoumaru voltou-se e caminhou até a escrivaninha.

— Sinto muito interrompê-lo, milorde. A sra. Kaede pediu-me que lhe trouxesse uma mensagem.

Rin permaneceu parada à entrada, sentindo-se insegu¬ra. Tinha os nervos destruídos e as emoções ainda não recupe¬radas da avassaladora paixão que sentira na tarde do dia an¬terior. Então, esforçou-se para encará-lo. A expressão do lorde aparentava ser fria e desprovida de emoção. Como bom perito que era em mascarar seus pensamentos.

— Haku está ajudando Yura a assar um bolo — disse ela. então hesitou, desejando simplesmente se virar e correr dali, porque sabia que teria de confrontá-lo, confrontar os próprios anseios e ignorá-los se desejasse continuar em Manorbrier. — A sra. Kaede pediu que eu viesse.

— Sim, você já disse isso. — Ele contemplou o copo de co¬nhaque vazio, como se só agora se desse conta de sua existência ou esperasse que talvez lhe proporcionasse um meio de fuga. Com cuidado deliberado, pousou-o sobre o tampo da escriva¬ninha, então voltou a fitá-la. — A sra. Kaede mencionou algo sobre Bosherton?

— Ninguém morto. Ninguém doente. Está é a mensagem que ela lhe enviou.

Comprimindo os lábios, Rin franziu a testa, confusa a res¬peito do significado de tal comunicação misteriosa, bem como pela sua inexatidão. Sesshoumaru Craven assentiu com a cabeça.

— Mas a mensagem não faz sentido. Meg me disse que a mãe sofre de tuberculose. Por certo teria que figurar entre os doentes.

Rin desviou o olhar, incapaz de encará-lo, seus pensa¬mentos se concentraram na lembrança da gravidez da criada e na pergunta sem resposta de quem era o pai. Então, pensou nos beijos de Sesshoumaru, aqueles beijos adoráveis, impetuosos e seu coração se contraiu ante a possibilidade de que ele tivesse beijado a jovem do mesmo modo.

— A mãe de Meg está morrendo — murmurou Sesshoumaru. Voltando a fitá-lo, encontrou-o cabisbaixo, com as mãos enfiadas nos bolsos, como se não pudesse enfrentá-la. Ou como se fosse sucumbir à paixão selvagem e desesperada se ten-tasse. Rin sentiu as faces queimando, todos os seus pen¬samentos levavam-na de volta ao mesmo assunto que tanto desejava evitar. Lorde Craven, seus beijos, seu cheiro, seu to¬que adorável...

Olhe para mim, pensou. Erga o olhar e me aqueça até as profundezas de minha alma.

— Yura disse que tintura de açafrão pode ajudar — dispa¬rou ela interrompendo o crescente silêncio. Tinha o olhar fixo no lábio inferior do lorde, na sombra escura de sua mandíbula, na coluna forte de seu pescoço. Sacudiu a cabeça desesperada para dispersar aqueles pensamentos tentadores.

— A mulher precisa de algo mais poderoso do que tintura de açafrão se quiser durar até o final do ano. — As palavras foram proferidas com genuíno pesar.

— Você não pode ajudá-la?

Ao ouvir a pergunta expressa com tanta suavidade, Sesshoumaru ergueu o olhar para encontrar o dela. Rin percebeu a triste¬za e a falta de esperança que os nublava.

— Não, não posso. Tentei determinar o agente causador de sua doença. Mas a mãe de Meg não concordou com isso. — Ele meneou a cabeça. — Queira ou não, ela me acha um lunático.

— Não! Por certo ela sabia que estava tentando ajudá-la... Sesshoumaru a fitou com um olhar sardônico.

— É isso que os aldeões pensam a meu respeito. O lorde louco de Manorbrier que se fecha em uma torre com cadáve¬res, que viaja para a aldeia na escuridão da noite para colher sangue que não flui mais de um corpo que jamais voltará a se mover. Pago bem aos enlutados que circulam ao redor como galinhas ansiosas, cacarejando e gemendo enquanto realizo meu estranho trabalho. O dinheiro do sangue assegura que nenhum deles permaneça no quarto enquanto pratico minhas artes macabras.

Rin deduzira um pouco de tudo que acabara de ouvir, através das palavras de Meg durante a conversa das duas na copa. Mas Sesshoumaru pintara uma cena satânica, deixando-a com um sentimento horrivelmente incômodo, como se tivesse certeza de que era essa a intenção do patrão. Descrevia-se de um modo que só podia ser interpretado como um espírito ma¬ligno, um demônio, uma besta terrível com intenções obscuras e insanas.

— Mas por que os deixa pensar assim? Por que os encoraja? — Rin não entendia por que Sesshoumaru alimentava tais sus¬peitas absurdas. Não entendia por que ele não se defendia. De repente, recordou-se das próprias suspeitas e medos e a falta de explicação por parte dele, até mesmo para ela. A constata¬ção a afligiu. Embora entendesse o motivo. Sesshoumaru queria as¬segurar uma distância entre ambos, uma barreira de proteção que ela não pudesse ultrapassar.

Então, era essa a sua resposta? Ele usava seu estranho comportamento como uma proteção e as histórias assustado¬ras como um pára-choque para manter as pessoas afastadas?

Sesshoumaru deu um passo na direção dela.

— Pensam que sou um desequilibrado, contudo meu dinheiro compra a cooperação dessa gente. Muitas vezes, esse dinheiro evi¬ta que uma família inteira passe fome. Desespero sempre prova ser um excelente motivador e desse modo posso fazer o que eu quero. É melhor que tenham medo de mim. Não quero que me vejam como um salvador ou um herói que pode livrá-los do abraço frio da morte.

— Mas... — Rin tropeçou na pergunta.

A confusão enrolava-lhe a língua. Baixando o olhar, estudou a trama rebuscada do tapete que recobria o chão de madeira polido. Não entendia aquele homem ou suas motivações. Era extremamente atraente, nobre e rico. No entanto, aparentava estar magoado, ferido. Rin desejou acabar com aquela dor em seus olhos, mas como curar uma ferida que não podia ver ou classificar?

Uma corrente de ar se deslocou, despertando-a para a presença dele atrás de si. Erguendo a cabeça, encarou-o e, de re¬pente, o entendeu muito bem, porque viu desejo refletido na¬queles olhos verdes. Ousado. Ardente.

— Rin... — murmurou ele, deslizando a ponta do polegar ao longo da face delicada. — Tão tentadora, tão inocentemente sensual em suas reações. Esfregou-se em mim como um gati¬nho que quer ser acariciado.

Mortificada, ela não foi capaz de responder. Não havia como negar, como defender-se contra a verdade nua e crua daquela declaração. As palavras do lorde a envergonharam, deixando-a ruborizada. Estava de pé, congelada, deleitando-se com o contato da mão máscula em sua face, mesmo sabendo que deveria se afastar. Nada de bom poderia advir daquela louca paixão.

— Você é a preceptora do meu filho, é minha empregada, está sob minha proteção. Que tipo de homem tiraria proveito de tal situação?

A pergunta a fez pensar novamente em Meg, na disposição prática e no ventre estufado da jovem. Ela o encarou, tentando enxergar-lhe a alma.

— Você já se aproveitou?

Sesshoumaru piscou, franzindo o cenho. Então, afastou a mão do rosto dela e deixou o braço pender ao longo do corpo.

— Se alguma vez tirei proveito da minha posição? — Ele deu uma risada estrangulada. — Ontem, carreguei a vassoura e o balde de água suja para a copa como um criado comum para evitar a tentação de permanecer no mesmo quarto com você, de concluir o que havia começado. — Os lábios dele se curvaram num sorriso confuso. — Acho que nunca estive na copa em toda a minha vida.

Aquilo era resposta?, desejou saber Rin. O homem ja¬mais dizia um simples "sim" ou "não"?

Contudo, o nó em seu coração aliviara um pouco.

Caminhando até a janela, Sesshoumaru Craven abriu a cortina e fitou o jardim inundado pelo brilho morno do sol de fim de tarde.

— Não posso lhe oferecer nada — falou em voz baixa. — E isso não mudará.

Não podia lhe oferecer nada, mas pelo menos lhe oferecera a verdade, abstendo-se de dar voz a mentiras e bonitas promes¬sas que não tinha intenção de cumprir.

— Para lhe oferecer algo além de uma relação ilícita, teria de lhe oferecer meu coração em uma travessa para ser quebra¬do e traído. — Ele se virou e a fitou, estreitando o olhar. — O que não pretendo fazer uma segunda vez.

Uma segunda vez.

— Delia... — sussurrou Rin, atordoada por ele estar lhe revelando tantos detalhes de sua vida. Jamais imaginara tal coisa. De repente, recordou-se da raiva e da dor que vira em seus olhos aquela noite na galeria. Mais uma vez, as dúvidas assolaram-lhe a mente e ela desejou saber a dimensão do poder que a esposa morta tinha sobre Sesshoumaru. Ela não era apenas um mero fantasma. Era uma parede sólida, fria, dura, inflexí¬vel em torno do coração dele.

Respirando fundo, Rin caminhou em direção à porta, desesperada para fugir daquele lugar, dos sonhos e desejos que nunca poderiam se realizar. Dera apenas alguns pas¬sos, quando se deparou com a constituição robusta da sra. Kaede parada à entrada. Há quanto tempo a criada estaria ali parada, escutando-os? Sua fisionomia fechada, não for¬necia pistas.

Com um crescente sentimento de cautela, desejou saber por que a criada lhe pedira para entregar a mensagem e depois viera pessoalmente à biblioteca.

— Sra. Kaede. — O vento agitou as cortinas, e o som das bo¬tas de lorde Craven ecoou no recinto, quando ele se afastou da janela. Rin sentiu sua aproximação. — Há uma epidemia de varíola em Derrymore. A mãe de Sally Gibbons mora lá. Tem certeza que não há nenhum doente em Bosherton?

— Sim, milorde. Perguntei a Meg esta manhã. A menina disse que estão todos bem. Até mesmo a mãe dela parece estar um pouco melhor. Saiu no sábado para tomar um pouco de sol. Embora no dia anterior estivesse bem debi¬litada. Tossiu sangue suficiente para inundar um lenço. Tuberculose é uma doença terrível. — A sra. Kaede incli¬nou os lábios para um lado e então deixou escapar um sus¬piro breve.

Rin se dirigiu à porta, esperando escapulir sem ser vista. Queria ficar só com seus pensamentos confusos. Então, no úl¬timo instante, lançou um relance cauteloso por sobre o ombro e viu Sesshoumaru fitando-a com uma expressão enigmática. Ao al¬cançar o corredor, ela enfiou a mão no bolso do vestido.

Oh, Deus! As chaves dos quartos do andar superior. Prometera devolvê-las à sra. Kaede, mas a tarefa lhe escapara da men¬te. Retrocedendo alguns passos, parou do lado de fora da porta aberta. Esperaria por uma pausa na conversa dos dois, antes de anunciar sua presença,

— Mais alguma coisa? — perguntou Sesshoumaru.

— Sim, milorde, há mais uma coisa. — A criada abaixou a voz. — Ela o conheceu. Os dois conversaram.

— É mesmo? — O tom do lorde soou frio e afiado. — Aqui? Ele entrou em Manorbrier na minha ausência?

— Não, ele não veio aqui. A srta. Okawahavia saído para um passeio e o encontrou por acaso.

O som do seu nome a fez ficar alerta. Que estranho. Eles estavam falando dela! E depois de um momento, percebeu que ambos discutiam seu encontro com o dr. Smythe.

— Não há nada de acidental nisso, disso pode ter certeza. Não da parte dele. Como ele soube que ela sairia naquele dia?

— Ela saiu diariamente.

— A senhora a deixou vagar por aí? Por que ninguém a estava acompanhando?

— Não podia mantê-la presa no quarto, milorde. Ela é uma mulher adulta. Havia pouco com que se ocupar em sua ausên¬cia. Acho que a moça estava entediada.

— Sra. Kaede, está me acusando pelo tédio da preceptora?

— Não, milorde. Simplesmente estou lhe dizendo que ela adquiriu o hábito de caminhar e o senhor não deu nenhuma ordem para manter um cão de guarda atrás dela.

— Pensei que o tornozelo ferido a mantivesse perto de casa. Deveria ter imaginado que a nossa senhorita Okawanão se conformaria com uma vida de lazer.

Um breve silêncio se seguiu. Rin encostou as costas na parede, enquanto se martirizava sobre a impropriedade de ou¬vir uma conversa às escondidas. Não tivera essa intenção, pre¬tendia apenas devolver a chave, mas estava curiosa para saber como eles ficaram a par do seu encontro com o dr. Smythe. Não escondera o fato, mas também não viu necessidade de comen¬tá-lo com alguém.

— Está trabalhando para mim há bastante tempo, sra. Kaede. Sua língua está muito afiada e seus modos desrespei¬tosos. — A nota de humor sutil no tom de voz do lorde suavi¬zava suas palavras. Rin se recordou da noite em que ele se referiu a Cecilia e a Hortense, imitando-as com irreverência e precisão.

— Alguém precisa lembrá-lo de que é apenas humano.

— Sei o que sou, sra. Kaede. Não há necessidade de me lembrar.

— Milorde...

— Diga a Myouga para me avisar se há sinais de varíola. Preciso ser informado imediatamente. Quero recolher o sangue do morto. E se for sangue de um moribundo, melhor ainda.

Havia se passado menos de uma hora desde que Rin es¬cutara aquela estranha conversa entre a sra. Kaede e lorde Craven. O diálogo ainda não fazia sentido algum. Enfiando a mão no bolso da saia, ela fechou os dedos ao redor das cha¬ves dos quartos do andar superior. As pontas frias de metal pressionaram sua pele. Era um bom motivo para procurar a criada.

Fechando os olhos, reforçou sua resolução, antes de bater de leve na porta dos aposentos da sra. Kaede.

— Sim? — A voz da mulher soou impaciente.

— Sra. Kaede? Posso lhe falar um instante?

A porta se abriu e a criada a fitou através da reduzida aber¬tura. Os olhos cinza se estreitaram com uma irritabilidade indisfarçada.

— Estou fazendo a contabilidade doméstica, srta. Parrish, O que deseja? — Quando a porta se abriu mais alguns centí¬metros, um cheiro suave inundou o corredor. Cheiro de limões frescos, pensou Rin, franzindo a testa. Havia algo de fami¬liar naquele cheiro, algo de estranho.

— Gostaria de lhe falar por um momento, se for possível.

— Só por um momento. — Com má vontade, a criada se afastou, permitindo que ela entrasse.

Rin deu alguns passos, estudando o ambiente e o achan¬do bastante inesperado. Imaginara um quarto pardo e cinzen¬to, não diferente da própria mulher. Mas em vez disso, se depa¬rou com um cômodo luminoso, pintado de amarelo-creme, com cortinas de uma cor um pouco mais escura, que adornavam as janelas.

A sra. Kaede contornou uma mesa redonda pequena com duas cadeiras de espaldar alto e sentou-se em uma delas. Embora a segunda estivesse vazia, não a ofereceu a Rin.

— Bem? O que deseja? — perguntou, tamborilando os dedos sobre um livro.

— Vim devolver as chaves dos quartos do terceiro andar.

O tamborilar cessou abruptamente. Os dedos da sra. Kaede congelaram sobre a capa de couro duro, encrespando-se como garras afiadas.

— Dê aqui, então.

Puxando as chaves do bolso, Rin se aproximou. O cheiro estranho que sentira antes, agora parecia mais forte. Limão. Misturado com alguma outra substância.

Sua respiração ficou presa na garganta. Conhecia aquele cheiro medicinal, recordava-se muito bem do odor que a rodeara quando ficara presa no depósito de gelo. Era o cheiro de portas fechadas, de maldade e más intenções.

— Não achou nenhum segredo lá, não é? — A sra. Kaede esfregou o ombro mutilado através do tecido do vestido e o aro¬ma pungente tornou-se mais forte, cercando Rin como um redemoinho espesso, o que fez uma leve náusea agitar-lhe o estômago.

Por um momento pensou que a criada se referisse ao depó¬sito de gelo, reconhecendo o que fizera abertamente. Mas, não, a mulher referia-se aos quartos do terceiro andar.

— Não achei nada além de pó e sujeira.

O olhar de Rin se fixou na mão da sra. Kaede, que massageava o ombro com movimentos circulares, enquanto o chei¬ro de limão aumentava. Teria sido a criada que a prendera no depósito de gelo, com a intenção de fazê-la cair? Será que lorde Craven sabia e essa era a razão para aquela estranha conversa que escutara? As perguntas lhe assolavam a mente.

Ansiosa por sair dali, pousou a chave sobre a mesa e se dirigiu à porta, apressada. Então ouviu o farfalhar das saias pretas da sra. Kaede e o rangido lânguido da cadeira, en¬quanto a mulher trocava de posição. Com a mão descansando sobre a maçaneta de metal, Rin falou por sobre o ombro, impelida por uma necessidade inexplicável de saber quem era o seu inimigo.

— A senhora está sentindo cheiro de limão?

— É o meu ungüento. Yura consegue a receita com o mé¬dico da aldeia e faz a mistura para mim todas as semanas. Banha de ganso derretida com suco de raiz-forte, mostarda e terebintina. E acrescenta cascas de limão com o suco apenas para atenuar o cheiro. Uso isso para o meu braço. O que perdi.

Do médico da aldeia? Ela estaria se referindo ao dr. Smythe?

— Ainda dói? — perguntou Rin, com uma pontada de pesar no coração.

A criada riu, melancólica.

— Não como quando aconteceu. Levou menos de dois minu¬tos. Mas foram os dois minutos mais longos de toda a minha vida. Às vezes, acordo no meio da noite e acho que ele ainda está lá. Tento alcançar a água ao lado de minha cama. E posso sentir meus dedos se fecharem ao redor do copo.

— Que coisa horrível!

— Horrível? Talvez. Mas era isto ou uma mortalha e uma sepultura fria. Então ele o amputou. Implorei e gritei, mas não havia nenhum outro modo de me salvar. Meu marido estava morto. E o meu braço carbonizado.

— Santo Deus!

— Era de se esperar que qualquer um esquecesse, depois de sete longos anos. Mas há noites em que a dor é tão intensa como se tivesse acontecido ontem. E hoje, bem, hoje estou feliz com o ungüento de Yura.

— Contou isso a lorde Craven? Talvez ele tenha algum remédio...

— Ele foi o primeiro a cuidar do meu braço.

Rin contraiu os lábios com os olhos marejados de lágrimas.

— Lorde Craven amputou seu braço — sussurrou ela.

— E pagou um preço caro por isso. Quis poupar meu so¬frimento e trabalhou mais rápido que o bater das asas de um beija-flor, assim me contaram. Mas sua mão foi atingida pela lâmina e acabou perdendo parte de um dedo. Mas isso não o de¬teve. Continuou o trabalho e só quando tudo estava terminado cuidou do próprio ferimento.

A visão de Rin nublou ao mesmo tempo que a bílis amarga subiu-lhe à garganta. O quarto girou e balançou ao seu redor.

— Não desmaie por minha causa, moça. Não disponho de sais de cheiro. — A sra. Kaede bateu-lhe de leve na face.

— Não, claro que não. Nunca desmaiei em toda a minha vida. A criada a encarou por um longo momento.

— Queimei-me em um incêndio. Meu marido morreu devido à fumaça. Só agradeço a Deus que ele não tenha vivido o bastante para se queimar. Meu braço estava carbonizado, mais preto que carvão.

— Que coisa horrível! — sussurrou Rin, colocando a mão sobre a da sra. Kaede, na intenção de lhe oferecer um pouco de conforto. Pobre mulher. Ser queimada em um incêndio e per¬der o marido naquela mesma noite... — Então foi por isso que na noite em que cheguei a Manorbrier, a senhora me advertiu para nunca deixar uma vela acesa sozinha. E a maior parte da casa estava às escuras. Agora as coisas começam a fazer sentido.

— Hum. É mesmo? — A criada ergueu-se e caminhou até a lareira. Então, pegou um porta-retrato da cornija e contemplou a fotografia por um longo momento. Em seguida, caminhou até Rin e o passou às mãos dela. — Meu marido. — Havia uma riqueza de emoções enterrada naquelas duas simples palavras. O casamento da sra. Kaede tinha sido um casamento por amor, percebeu surpresa. — Ele o enterrou sob as roseiras.

— Como? — Rin tomou fôlego, desorientada pela decla¬ração desencontrada da criada.

— Não suportaria pensar que meu braço foi jogado no lixo. E amo rosas.

— Seu braço está enterrado sob as roseiras?

Rin espiou os canteiros através da janela, assustada. Caminhava quase diariamente ao lado daqueles arbustos. Jamais os veria da mesma maneira.

— Não aqui. Sob as minhas roseiras. Eu tinha um pequeno chalé nos arredores de Londres. O marido de minha filha o re¬construiu depois do incêndio. Agora ela vive lá com ele.

Rin sempre imaginara que a sra. Kaede era uma alma perdida, só no mundo.

— Já trabalhava para lorde Craven antes do incêndio?

— Não. Nunca tinha ouvido falar sobre ele antes daquele dia. Mas foi sua oferta de emprego que me manteve sã. Deu um novo propósito à minha vida quando eu não tinha mais nenhum. Minha filha já estava casada nessa época. Seu marido é um homem decente, mas não gosta da minha companhia. Bem isso é tudo.

— E Myouga? E Yura? O lorde também deu um novo propó¬sito à vida deles quando eles não tinham mais nenhum?

— Sim.

— Onde estão as cicatrizes de Yura? — perguntou Rin.

— No coração. O filho dela morreu.

— Oh... que horror! — Rin sentiu o gosto salgado das lágrimas que lhe escorreram pelo rosto. Pobre Yura.

— Ele morreu e ela quis partir com ele, tentou partir com ele, achando que nenhuma criança deveria ser separada dos pais. Bem, agora chega de conversa — murmurou a sra. Kaede, abrindo o diário mais uma vez.

Rin caminhou em direção à porta, sentindo-se mais confusa do que quando chegara. A conversa com a criada esclarecera alguns pontos e suscitara outros tantos em suas dúvidas e preocupações.


OI Mina

Espero que estejam gostando.

Gostaria de dizer que esse livro nao é meu mais que estou adaptando para vcs.

Quero que perdoem qualquer erro gramatico e confesso que portugues nao é o meu forte.

Vou viajar hoje, porem continuarei ponstando a fic em 2 em 2 dias.

E agaradeço a todas as Reviews todas elas estam sendo resposdidas la mesmo.

Agradeço a todos.

Kissus