Capítulo Sete

Merlin acordou cedo no dia seguinte, desistindo de despertar a cada meia hora de um pesadelo onde era expulso do palácio pelos mais variados motivos. Por isso, quando seus criados entraram naquela manhã, ele já estava acordado há quase uma hora.

Os três pareciam tão empolgados e animados como na noite anterior e Merlin assumiu que a falta de apreensão significava que o Príncipe ainda não fizera nenhum anúncio e Merlin teria que descer para o café da manhã. Ele só esperava que o Príncipe não o humilhasse na frente de todos, afinal, ele não havia feito isso com o restante dos Selecionados enviados para casa. Ainda que nenhum deles tivesse agredido o Príncipe fisicamente.

Merlin não sabia bem como encarar a situação. Por um lado, o Príncipe Arthur o deixara fazer uma última refeição no palácio, mas Merlin não sabia se isso era uma coisa boa ou ruim, depois de pensar com calma nos acontecimentos da noite anterior. Merlin tentou se acalmar, pensando que, pelo menos, ele poderia se despedir de Gwen adequadamente.

Quando entrou na sala de jantar, seus olhos foram atraídos pelos cabelos loiros do Príncipe imediatamente e Merlin sentiu suas bochechas corarem quando os olhos azuis do outro se encontraram com os seus. Ele abaixou a cabeça, envergonhado em continuar encarando e se curvou em reverência, mas nem o Príncipe nem o Rei reconheceram sua presença.

"Bom dia, Sr. Emrys." Foi a Duquesa quem disse e Merlin devolveu o cumprimento, antes de caminhar em silêncio até seu lugar.

Merlin ignorou os outros Selecionados, decidido a tornar as coisas o menos constrangedoras possível para si mesmo, tomando seu café da manhã em silêncio e evitando olhar para a mesa da Família Real.

"Como foi?" Mithian perguntou discretamente, quando já estavam no meio de sua refeição.

Apenas isso foi o suficiente para atrair os olhos de todos os Selecionados. Merlin lançou um olhar em direção ao Príncipe, mas este não parecia ter notado a mudança repentina no ambiente – aparentemente ocupado em discutir algo com o pai.

"Não deve ter sido nada emocionante." Eira comentou, maldosamente. "Ou ele teria vindo se gabar para todos durante o jantar."

Muitos pareceram aliviados com o comentário dela, os sorrisinhos cínicos deixavam claro que estariam satisfeitos se aquilo fosse verdade.

"Talvez nem todos sejam inseguros como você." Merlin desdenhou. "Emocionante ou não, sou o único aqui que teve um encontro com o Príncipe, até agora. Acho que isso conta algo."

Merlin sentiu-se melhor ao ver o desgosto que tingiu o rosto de muitos que antes sorriam maldosamente. Ele olhou para a mesa da Família Real novamente, para constatar que os olhos do Príncipe estavam sobre ele novamente. O Príncipe não poderia ter ouvido o que Merlin dissera já que os Selecionados foram instruídos a falar o mais silenciosamente possível, mas o modo como ele o encarava era desconcertante.

"E como ele se comportou?" Sefa perguntou, chamando a atenção para si. Aparentemente os outros Selecionados também estavam curiosos.

"Hum…" Merlin procurou escolher as palavras o mais cuidadosamente possível. "Bem diferente do que eu esperava."

Alguns resmungaram ao redor de Merlin.

"Você faz isso de propósito?" Lamia torceu o lábio. "Porque, se faz, é bem desnecessário."

Merlin negou, desconfortável. Não queria provocar ninguém, mas não queria entrar em detalhes sobre seu encontro com o Príncipe.

"Majestade!" Alguém irrompeu no aposento, abrindo as portas da sala de jantar. "Rebeldes invadiram a propriedade."

Era de se esperar que todos os presentes exclamassem em espanto diante daquela notícia. A Família Real, entretanto, colocou-se de pé – todos os três com expressões de resolução, quase como se estivessem esperando por esse momento.

"Selecionados, para o fundo, agora!" Ordenou o Rei, caminhando com passadas determinadas até o homem que entrara no aposento. "Onde eles estão?"

"Ainda nos jardins." O homem anunciou. "Não há nenhum feiticeiro, aparentemente. Os guardas parecem ter controle da situação."

Os Selecionados tiveram que ser guiados apressadamente para o fundo do aposento pelos guardas pois ninguém parecia pronto para se mover, enquanto o Príncipe e a Duquesa moviam-se rapidamente, junto com os dois cavaleiros do Príncipe em direção às janelas. Merlin ficou no meio do salão, dividido entre seguir o guarda que tentava guiá-lo até o fundo e seguir o Príncipe.

"Devemos levar os Selecionados para um lugar mais seguro." Sir. Leon anunciou.

"Fiquem aqui." O Rei ordenou. "Tomem conta dos Selecionados. Arthur, Morgana, vocês vem comigo."

"Não vou deixá-los aqui." O Príncipe anunciou, como se aquilo não estivesse em discussão.

"Arthur, isso não é momento para ser impertinente." O Rei disse, irritado. "A vida deles não é importante como a sua."

Merlin notou como alguns dos Selecionados – os retardatários, como ele – se encolheram, diante daquelas palavras. Mas afinal, o que eles esperavam? Que o Rei fosse colocá-los na mesma posição do Príncipe? Os guardas trataram de se apressar em empurrá-los em direção ao fundo, mas o que segurava o braço de Merlin parecia meio perdido em sua tarefa. Quando Merlin olhou para os olhos dele, foi para constatar que ele parecia dopado. Merlin engoliu em seco, certo de que aquilo era obra de sua magia, devido a sua vontade de não ser guiado ao fundo.

O Príncipe, entretanto, parecia irredutível.

"Se quer agir como uma criança, ótimo!" Vociferou o Rei. "Mas não espere que eu concorde com isso."

"Sir. Leon, Sir. Percy, venham comigo." O Príncipe ordenou.

Os dois colocaram-se imediatamente ao lado do Príncipe, prontos para deixar o aposento.

"Arthur, não seja idiota." O Rei vociferou, segurando o Príncipe pelo cotovelo quando ele estava para sair.

"Rosvek, Geraint, escoltem meu pai até uma das câmaras secretas privadas e fiquem com ele." O Príncipe ordenou, então virou-se para o mordomo mais próximo, entregando-lhe uma arma. "Gwaine, acompanhe-os e me informe imediatamente se acontecer algo. Se os rebeldes conseguirem entrar no castelo, é melhor que o Rei não esteja junto com os demais."

"O que você pensa…" O Rei começou a dizer, mas foi cortado pela voz autoritária do Príncipe.

"Você ainda é o Rei, mas eu completei vinte três anos o que faz de mim o seu primeiro cavaleiro." O Príncipe sentenciou. "Essa decisão cabe a mim agora."

O Rei torceu o lábio, contrariado, mas o Príncipe parecia inabalado.

"Quando tudo isso acabar, estarei esperando por você no meu escritório, Príncipe Arthur. Creio que tenhamos algo a discutir."

O Príncipe pareceu vacilar durante alguns segundos, mas assentiu e deixou que Gwaine escoltasse o Rei para fora do aposento.

"Você não acha melhor designar Leon ou Percy para escoltarem o Rei?" A Duquesa pronunciou-se.

"Os dois cuidarão de você e dos Selecionados." O Príncipe sentenciou. "Além disso, Gwaine vai se certificar que Rosvek e Geraint cumpram as minhas ordens. Ele não se deixa abalar tão facilmente com as ameaças do meu pai."

"Não ficarei aqui esperando enquanto você arrisca seu pescoço lá fora, Arthur." Ela parecia irredutível.

"Se ela causar problemas, arrume um jeito de nocauteá-la." O Príncipe disse, virando-se para Sir. Leon.

"Ora, seu…" Morgana protestou, ao mesmo tempo que Leon exalava um "Alteza?"

Arthur já ia rumar para a porta quando Merlin deu dois passos à frente, se desvencilhando do aperto do guarda, que pareceu despertar de seu transe, voltando-se para Merlin parecendo meio aturdido com a cena a sua volta. Merlin só esperava que ninguém além do guarda reparasse que ele era o único Selecionado ainda no meio do aposento.

"Aonde você vai?"

O Príncipe encarou-o brevemente, antes de desviar o olhar.

"Ajudar os guardas a lidarem com os intrusos." O Príncipe disse seguramente.

"Mas você é o Príncipe." Merlin tentou chamar-lhe a razão. Odiava concordar com o Rei Uther, mas ele tinha razão em tentar proteger seu único herdeiro. "Tudo que os rebeldes querem é uma chance de colocarem as mãos em você!"

O Príncipe fuzilou-o com o olhar e Merlin teve que lutar para não se encolher diante daquilo.

"Posso ser o Príncipe, mas ainda sou um cavaleiro." Ele disse em tom áspero. "E é minha função proteger vocês."

Merlin engoliu em seco. O guarda responsável por ele finalmente recobrou controle da situação e o guiou até o fundo.

"Sei que estão nervosos e com medo," O Príncipe se dirigiu aos Selecionados, que cochichavam e murmuravam entre si, soando cada vez mais assustados. "Mas essa situação será contida o mais rápido possível." Ele continuou, caminhando em direção à parede e pressionando uma sequência de códigos num aparelho próximo à janela mais próxima da porta. Imediatamente, persianas de metal desceram com um estalo metálico sobre as vidraças de vidro, deixando o aposento mais escuro.

"Alteza, deixe um de nós acompanhá-lo." Sir. Percy protestou. "Não há como os rebeldes entrarem aqui depois que a sala for selada, mesmo que consigam invadir o palácio."

"Não vou correr riscos, Percy." O Príncipe sentenciou. "Mesmo que nenhum feiticeiro tenha sido detectado ainda, não há como termos certeza de que não há nenhum entre eles. Fiquem os dois aqui, isso é uma ordem."

Os olhos do Príncipe voltaram-se para Merlin novamente e Merlin sentiu os pelos do braço eriçarem, antes que o Príncipe saísse da sala, cerrando as portas. Alguns segundos depois, um som agudo e metálico fez-se ouvir. Aparentemente eles estavam trancados lá dentro. Merlin notou então que alguns servos caminhavam pelo aposento, distribuindo água para os Selecionados.

"O que está acontecendo?" A voz de Gwen fez-se ouvir ao lado de Merlin e ele imediatamente virou-se para ela, confuso.

Merlin estava prestes a perguntar a que ela se referia quando se deu conta de que a maioria das conversas acontecera entre sussurros do outro lado da sala, exceto pelas breves palavras do Príncipe para tentar acalmar os Selecionados. Não era como se alguém mais ali dentro tivesse audição magicamente aguçada quando menos se esperava.

"Não faço ideia." Merlin fingiu decepção.

Ele olhou para os lados, analisando os Selecionados, até deparar-se com os olhos de Mordred sobre si e Merlin franziu o cenho quando o garoto sorriu para ele.

Merlin sabia que os rebeldes estavam contra A Seleção, afinal, ele havia sido informado que teriam que tomar cuidado a respeito de sua segurança, durante a visita de Cedric à sua casa. Mas jamais imaginara que os rebeldes fossem ousados o suficiente para invadir o palácio.

A Duquesa andava pelo salão, confortando os Selecionados. Sir. Leon e Sir. Percy postavam-se rigidamente um de cada lado da mesa da Família Real, enquanto os Selecionados se encolhiam atrás dela como uma espécie de escudo.

Sefa, Sophia e Beatrice choravam; Mab parecia estar em choque e Rose e Drea estavam com o olhar perdido. Cathryn, por sua vez, estava desmaiada no colo de Myror, enquanto este acariciava os cabelos dela, distraidamente, conversando com Julius Borden.

A Duquesa parecia bastante calma em sua tarefa, assim como os servos e os cavaleiros e Merlin se perguntou a quantos ataques eles teriam sobrevivido até então. Merlin sabia que não era a primeira nem segunda vez que o castelo era atacado, mas não imaginava que aquilo fosse algo tão recorrente que se tornasse uma coisa natural.

O Príncipe Arthur também parecia bem decidido ao sair da sala de jantar. Isso significava que ele já teria se colocado naquele tipo de perigo em outras ocasiões? Isso significava que ele tinha controle da situação? Ou Merlin deveria se preocupar com a segurança dele?

Teve que fechar os olhos com força, tentando se concentrar, tentando procurar a presença do Príncipe pelo castelo. Mas sua magia parecia não querer obedecê-lo de forma alguma, dando-lhe pequenos choques pelo corpo em resposta.

Acalme-se, jovem mago. A voz do dragão fez-se ouvir em sua mente.

Kilgharrah? Merlin ofegou, dentro de sua própria cabeça.

Não é momento para entrar em pânico. O Dragão sussurrou em resposta, como se acalmasse um bebê.

Ele está bem? Ele está seguro? Merlin desesperou-se. Sequer passou pela sua cabeça questionar o fato de estar engajado em uma conversa mental com um dragão aprisionado algumas dezenas de metros abaixo dos seus pés.

O destino dele ainda não foi cumprido, jovem mago.

Merlin abriu os olhos, ofegante, mas quando fechou-os novamente, não conseguiu entrar em conexão com o dragão novamente, muito menos encontrar o Príncipe Arthur.

Merlin voltou sua atenção para os Selecionados então, tentando ocupar sua mente. Vivian e Eira conversavam, parecendo à vontade, copiando a postura da Duquesa, mas Merlin sabia que estavam mais nervosas do que gostariam de admitir. Mesmo assim, comparadas ao restante, elas eram a que mais se assemelhavam à Duquesa, naquele momento. Sem sombra de dúvidas, as duas escondiam muito bem suas emoções. A Própria Gwen não parava de chorar ao seu lado.

"Enxugue o rosto e endireite a postura." Merlin instruiu, quando a Duquesa se aproximou deles.

"O quê?" Gwen gemeu.

"Confie em mim." Merlin suplicou.

Gwen secou o rosto no vestido e endireitou a coluna, tocando o rosto, provavelmente checando a maquiagem. Então voltou-se para Merlin em busca de aprovação. Merlin só conseguiu assentir, antes que a Duquesa os alcançasse.

"Vocês estão bem?" A Duquesa perguntou, sentando-se a frente deles, como fizera com os grupos anteriores. Elena, que estava ao lado de Gwen, voltou sua atenção para a Duquesa também.

"Estava surtando um pouco, mas Merlin conseguiu me acalmar."

Merlin gemeu internamente. Estava tentando fazê-la parecer forte diante daquela situação de crise e ela falava aquilo?

"Não seja exagerada, Gwen." Merlin franziu os lábios, como se desdenhasse do comentário dela. "Eu estava muito mais aflito que você. Se alguém acalmou alguém aqui, foi você."

Merlin encarou-a como se dissesse concorde comigo.

"Acho que acabamos ajudando um ao outro a se acalmar, como no avião." Ela sorriu e Merlin acompanhou, imaginando que aquilo seria o máximo que conseguiria dela.

"Parece que vocês se tornaram amigos, afinal." A Duquesa sorriu, com carinho.

"Não tem como alguém não ser conquistado pela Gwen." Merlin sentiu-se grato por conseguir voltar a atenção da Duquesa para as qualidades da amiga. "Não é mesmo, Elena?"

Elena nunca havia conversado com Merlin diretamente e não sabia se a mulher levaria numa boa elogiar outro Selecionado dessa maneira, na primeira vez que conversavam com a Duquesa, mas preferia acreditar que Gwen a houvesse conquistado também.

"Ah, com certeza!" Elena concordou, sorridente. Ela provavelmente deveria estar feliz de ter sido incluída na conversa. "Gwen é uma garota adorável e Merlin é tão amável e humilde. É claro que os dois se tornariam amigos. Seria de se estranhar se eles não fossem."

Merlin e Gwen sorriram um para o outro, enquanto a Duquesa sorria para Elena, como se concordasse.

"Realmente, muito humilde." Ela assentiu. "Não é todo mundo que desperdiçaria um pedido para o Príncipe com os próprios criados, caso tivesse a chance."

"Não foi nenhum desperdício." Merlin deu de ombros, acanhado.

"Se fosse eu, teria pedido para ele me levar para cavalgar. Eu adoro cavalos." Elena disse, sorrindo.

"Arthur também gosta." A Duquesa ofereceu. "Vou sugerir que ele faça isso quando te convidar para um encontro."

Merlin remexeu-se, desconfortável. Por um momento esquecera que o Príncipe provavelmente teria encontros com todos os outros Selecionados.

"E você, Gwen, o que teria pedido?" A Duquesa voltou-se para Gwen. "Eu posso te chamar de Gwen, certo?"

"C-Claro." Gwen gaguejou e Merlin segurou sua mão, a fim de emprestar-lhe confiança. "Acho que teria pedido que meu irmão pudesse me visitar aqui no palácio. Faz tanto tempo que não o vejo." Ela respondeu, depois de pensar por um tempo. "Ele trabalha aqui na cidade."

"Isso eu não sei se poderei arranjar." A Duquesa disse em tom de desculpas. "Mas não custa nada tentar."

Os três sorriram para a Duquesa e ela levantou-se logo depois.

"Gostaria que nossa primeira conversa tivesse sido em melhores termos, mas fico feliz de tê-los conhecido mesmo assim. E não se preocupem, logo estará tudo resolvido." Ela disse de forma meiga, mas Merlin achou que podia ver um toque de incerteza em sua postura, agora que prestava mais atenção. Talvez no fundo ela também estivesse preocupada, só não deixava transparecer tão facilmente.

Afinal, o Príncipe estava lá fora e isso significava que ele, assim como os guardas e sabe-se lá quantos funcionários, não estavam em segurança. Ele se levantou e caminhou atrás da Duquesa, enquanto ela caminhava até o próximo grupo de Selecionados.

"Duquesa…" Merlin chamou, baixinho.

"Por favor, Merlin, não precisa tanta formalidade." Ela pediu, virando-se para ele. "Me chame apenas de Morgana quando estivermos a sós."

Merlin duvidava que fosse capaz de fazer aquilo, mas acenou em concordância.

"O Príncipe? Ele…?" Merlin não sabia como colocar suas preocupações em palavras.

Morgana alcançou as mãos de Merlin num gesto tranquilizador.

"Entendo sua preocupação, Merlin, mas ele é perfeitamente capaz de lidar com a situação." Ela sorriu, demonstrando mais confiança. "Ele é ótimo em situações de crise. Se alguém pode lidar com isso, esse alguém é o Príncipe Arthur."

"Certo." Merlin corou, sem saber o porquê. "E você?" Ele não conseguiu se segurar. "O que pediria numa aposta com o Príncipe." Esclareceu, quando a Duquesa franziu o cenho.

"Ah!" Ela abriu um amplo sorriso. "Um duelo de espadas."

"O quê?" Merlin arregalou os olhos e sorriu ao mesmo tempo, admirado.

"Ele foge de duelar comigo desde que completou treze anos e conseguiu ganhar de mim pela primeira vez." Ela suspirou. "Acho que tem medo de perder. Acho que isso iria ferir a masculinidade dele."

"Você sabe duelar com espadas?" Merlin perguntou, surpreso.

"É claro." A Duquesa pareceu muito orgulhosa daquilo. "Mas não conte a ele que eu disse que já ganhei dele em duelos. Ele me mataria."

Merlin tranquilizou-a, mesmo que achasse desnecessário. Provavelmente a próxima vez que se encontrasse com o Príncipe, ele o mandaria para casa, de qualquer forma. Merlin voltou para o lado de Gwen amuado, lembrando-se que o Príncipe ainda estava chateado com ele.

Não havia relógios na sala, mas Merlin suspeitava que passara-se aproximadamente uma hora para que viessem dizê-los que a situação fora controlada e que eles estavam liberados. Merlin queria perguntar a alguém se o Príncipe estava bem, mas seguiu os demais Selecionados em direção aos quartos, como foram instruídos. Deveriam almoçar todos em seus próprios quartos e permanecer lá até segunda ordem.

O quarto estava estranhamente vazio quando Merlin chegou. Merlin sentou-se na beirada da cama e encarou o armário por longos minutos, sem saber quanto tempo se passara ao certo, perguntando-se se seria uma atitude muito idiota sair do quarto para procurar por seus criados.

Quando duas batidas soaram à porta, Merlin colocou-se de pé rapidamente, esperando encontrar Gili se desculpando pelo atraso, mas deparou-se com o Príncipe parado à porta do quarto e não pôde se segurar, abraçando-o com força.

O Príncipe gemeu e suspirou e Merlin afastou-se quando percebeu que o loiro parecia estar com dor.

"Você está ferido?" Merlin perguntou, afoito.

"Apenas bati minhas costas." O Príncipe concedeu, parecendo querer acalmá-lo. "Posso entrar?"

"Claro." Merlin deu um passo para o lado e indicou-lhe o interior do aposento.

O Príncipe sentou-se na poltrona próxima à sacada e Merlin na cadeira em frente à penteadeira. Os dois evitavam os olhos um do outro, num silêncio desconfortável.

"Tudo bem com você?" O Príncipe finalmente perguntou, depois de quase um minuto de silêncio.

"Comigo?" Merlin soltou o ar pelo nariz, incapaz de conter o sarcasmo, mesmo com todo o nervosismo. "Foi você quem saiu para enfrentar os rebeldes. Eu fiquei preso junto com os outros, lembra?"

"Apenas responda à pergunta, Merlin." Arthur fez um gesto impaciente.

"Sim." Merlin assegurou, derrotado.

O Príncipe franziu o cenho.

"Você não parece estar bem."

"Aconteceu algo com meus criados?" Merlin perguntou, manifestando sua maior preocupação, agora que sabia que o Príncipe estava a salvo.

"Seus criados?" Ele perguntou com um tom de voz confuso.

"Sim, meus criados." Merlin disse, impaciente.

"Por que se importa tanto com eles, afinal." O Príncipe soou irritado.

"Eu os vejo todos os dias. Eles cuidam de mim e são boas pessoas." Merlin disse, como se desafiasse o Príncipe a discordar. "Por que não me importaria com eles?"

O Príncipe encarou Merlin por alguns instantes, como se procurasse algo mais, mas pareceu satisfeito com o que encontrou, pois seu semblante se suavizou.

"Eles devem estar escondidos. Também têm onde se refugiar, caso algo assim aconteça."

Merlin lembrou-se da passagem atrás do seu guarda-roupas – o Príncipe deveria estar se referindo a isso. Ainda assim, não estava convencido.

"Eles devem estar escondidos? Você não tem certeza?"

"Os rebeldes nem chegaram a entrar no palácio." O Príncipe completou, carrancudo. "Além disso, nossos criados são treinados para momentos de crise como esse e alguns guardas são designados para garantir que todos estejam a salvo. O sistema de alarme foi destruído durante a última invasão, mas estamos fazendo o possível para consertá-lo o mais rápido possível." Seu rosto se suavizou, então. "Tenho certeza de que seus criados estão bem. Caso contrário, eu teria sido avisado"

Merlin suspirou, aliviado.

"E os guardas e outros funcionários?" Merlin voltou a se preocupar. "E os rebeldes?"

"Ninguém está gravemente ferido." O Príncipe assegurou. "E os rebeldes fugiram quando os soldados do exército estavam para chegar. Provavelmente perceberam que seriam presos se ficassem. Foi apenas uma troca de tiros a longa distância. Eles também jogaram comida estragada nos muros do palácio." O Príncipe parecia enojado ao dizer aquilo. "O exército está vistoriando a propriedade e o entorno, mas por enquanto estamos seguros."

Merlin não conseguia dar a devida atenção àquilo. Troca de tiros? O Príncipe poderia ter sido baleado? Ele olhou para o chão, tentando aplacar o redemoinho de emoções em seu peito.

"Merlin." O Príncipe chamou.

Merlin levantou o rosto, sentindo um frio na barriga repentino.

"Arthur…" Merlin sussurrou.

O Príncipe empertigou-se na poltrona, surpreso de ser tratado com tanta familiaridade.

"Me desculpe." Merlin apressou-se em dizer. "Eu não deveria…"

"Não." Arthur sorriu. "Eu gostei. Quase ninguém me chama assim."

Merlin engoliu em seco e desviou o olhar novamente.

"Sobre a noite passada, sinto muito por ter te agredido."

A expressão do Príncipe se fechou novamente.

"Por que você fez aquilo?" Ele perguntou, magoado. "Não é como se eu tivesse feito algo para merecer sua desconfiança!"

"Eu sei!" Merlin justificou-se. "Eu entrei em pânico!"

"Por quê?" Arthur insistiu.

Merlin baixou os olhos para as próprias mãos.

"É só que quando foram nos preparar para a viagem, disseram que eu jamais poderia rejeitar você. Não importa o que me pedisse. Em nenhuma hipótese."

O Príncipe colocou-se de pé, parecendo furioso.

"O quê?"

"Desculpe." Merlin encolheu-se na cadeira, assustado com a intensidade da reação.

Até o dia anterior, Merlin achava que Arthur tinha ciência daquilo, mesmo que a ordem não tivesse partido diretamente dele. Agora, tinha suas dúvidas. O Príncipe realmente não fizera nada para merecer sua desconfiança e sua indignação somente fazia atestar a favor do seu caráter.

Arthur inspirou e expirou fundo algumas vezes, as narinas dilatadas, antes de esconder o rosto atrás de uma das mãos, aparentemente envergonhado.

"Sou eu quem deveria pedir desculpas." Ele disse, ainda com a mão sobre o rosto. "Eu jamais…"

"Eu sei." Merlin apressou-se em assegurar. "Agora eu sei!" Ele insistiu. "Pelo que ele me disse, parecia que você não mediria esforços para fazer alguns avanços. Quer dizer… você tem vinte e três anos, dispensou todos os guardas e cinegrafistas… eu fiquei com medo."

"Gwaine ainda estava lá, Merlin." O Príncipe ainda soava magoado. "Além disso, estávamos em público."

"Desculpe." Merlin pediu, novamente.

Arthur balançou a cabeça, parecendo humilhado e incrédulo com a situação.

"Disseram isso a todos?" Ele perguntou de repente, arregalando os olhos.

"Não sei." Merlin admitiu.

"Qual era o nome do funcionário?" O Príncipe exigiu.

"O que você fará?" Merlin remexeu-se, desconfortável. Não queria que ninguém fosse demitido por sua culpa.

"Isso cabe a mim decidir." Arthur continuou, inabalado. Quando Merlin permaneceu em silêncio ele prosseguiu. "Não importa, tenho outros meios de descobrir."

O Príncipe parecia mais calmo quando voltou a sentar-se na poltrona, o silêncio desconfortável retornou ao quarto, no entanto, e Merlin remexeu-se na cadeira. Arthur sorriu sarcástico para si mesmo, algum tempo depois, meneando a cabeça.

"Que foi?" Merlin perguntou.

"Não acredito que levei uma joelhada por algo que nem é culpa minha." Ele ainda parecia magoado, porém menos irritado.

"Eu acertei sua coxa." Merlin protestou.

"Claro." Arthur zombou. "Um homem não precisa de tanto tempo para se recuperar de uma joelhada na coxa." Ele argumentou.

Merlin teve que pressionar os lábios para não rir.

"Cristo! Você está achando graça disso." Arthur disse, entre revoltado e divertido.

"Desculpe." Merlin pediu novamente, escondendo um sorriso por trás da mão. "Por rir e pela joelhada."

O Príncipe acompanhou-o com um sorriso e Merlin agradeceu por ser perdoado assim tão facilmente, ele não sabia se aceitaria tão bem a situação caso alguém tivesse pensado aquilo dele.

"Já falou com os outros Selecionados?" Merlin perguntou, querendo urgentemente mudar de assunto.

"Alguns." Ele admitiu, parecendo derrotado. "Mas confesso que não tenho a menor ideia do que dizer a eles."

"Apenas converse com eles, como está fazendo comigo." Merlin sugeriu.

"Creio que não seja tão fácil com os outros." Arthur encarou-o e Merlin engoliu em seco. "Duas já me perguntaram se eu as deixaria ir embora amanhã."

"Pensei que não tínhamos permissão para fazer isso." Merlin disse, surpreso.

"Não manterei ninguém aqui contra a própria vontade." Merlin pôde sentir novamente uma sugestão de mágoa na voz do Príncipe. "Já disse que não quero me casar com alguém que não queira estar ao meu lado."

"Talvez elas mudem de ideia." Merlin tentou passar confiança.

"Talvez." Arthur concordou, não parecendo muito confiante nas próprias palavras. "E você? Está suficientemente assustado para sair?" Ele tentou soar brincalhão, mas Merlin notou a apreensão em sua voz.

"Para ser sincero, achei que me mandaria embora depois do café da manhã." Ele admitiu.

"Eu jamais faria isso." O Príncipe assegurou. "Estava irritado com você e confesso que um tanto ofendido, mas eu te fiz uma promessa e não costumo faltar com minha palavra."

"Eu não julgaria você por isso depois do que fiz." Merlin abaixou a cabeça, envergonhado.

"Mas agora entendo porque você fez o que fez." Arthur admitiu. "E apesar de me irritar que você imaginasse que eu sequer… enfim, o que quero dizer, é que desejo que fique."

Ele sorriu, inseguro, e Merlin devolveu o sorriso.

"Mas você não respondeu." Ele disse, inclinando-se para frente e colocando as mãos sobre os joelhos – Merlin percebeu que Arthur fazia aquilo quando se sentia inseguro, se inclinava em direção a pessoa, como que pressionando-a a dizer o que ele queria. Ele esticou um pouco as costas, fazendo uma leve careta e suspirando ao fechar os olhos. "Vai ficar?" Completou, quando abriu os olhos.

Merlin analisou a situação. A ideia era tentadora. Em casa, ele não estaria em risco de ser atacado por rebeldes – ou melhor, teria menos risco – e também não estaria praticando magia no palácio, onde qualquer um poderia vê-lo. Os outros Selecionados dificilmente se importavam com Merlin, com exceção de Gwen, é claro, e as roupas que era obrigado a vestir simplesmente o faziam se sentir desconfortável. Mas Merlin sabia que deveria permanecer, por sua mãe e Will, sem contar o fato que ele sentiria muita falta da comida.

Em contrapartida, o Príncipe Arthur parecia meio perdido e Merlin tinha prometido ajudá-lo. Talvez pudesse até influenciar a escolha da futura rainha, no final das contas.

"Enquanto você não me enxotar, vou ficando por aqui, Arthur." Merlin gracejou.

O Príncipe sorriu, parecendo aliviado. Seus olhos brilhavam de excitação.

"Fico feliz. Se você fosse embora, eu provavelmente ficaria perdido nessa competição."

"Não exagere." Merlin girou os olhos, divertido.

"Não é exagero." O Príncipe sorriu, sincero.

Merlin devolveu o sorriso, acanhado, brincando com o encosto da cadeira em que estava sentado.

"Merlin, poderia me fazer um favor?" O Príncipe pediu de repente e Merlin assentiu. "Para todos os efeitos, passamos muito tempo juntos ontem. Se alguém perguntar, você poderia explicar que eu não… que jamais…"

Merlin sentiu-se culpado então, por não esclarecer aos demais Selecionados àquela manhã que Arthur fora um cavalheiro, quando lhe perguntaram como ele havia se comportado. Mas tratou de fazer uma nota mental para deixar isso claro na próxima oportunidade que tivesse.

"Claro." Merlin assegurou. "E sinto muito mesmo pelo que aconteceu."

"Eu já disse que quem lhe deve desculpas sou eu." O Príncipe disse, como se não aceitasse discussões sobre aquilo novamente. "De qualquer forma, deveria saber que se um dos Selecionados fosse desobedecer uma ordem, seria você."

Os dois trocaram sorrisos e o Príncipe levantou, caminhando até a sacada e abrindo as portas.

"Como você fez isso?" Merlin disse, colocando-se de pé.

"O quê?" Arthur parecia confuso, ao virar-se para encarar Merlin, já na sacada.

"Como abriu as portas?" Merlin perguntou, afoito, quando encontrou-se com o Príncipe do lado de fora. "Elas estavam trancadas."

"Com isto." O Príncipe sacudiu uma chave presa a um pequeno cordão dourado trançado. "Pedi a chave da sacada antes do nosso encontro ontem." Ele coçou o pescoço, evitando os olhos de Merlin. "Achei que poderia te entregar, já que você se sente sufocado dentro do palácio."

"Arthur, isso…" Merlin tentou encontrar as palavras adequadas, mas agradecer não parecia o suficiente, não depois da noite anterior.

"Só peço que não as deixe abertas o tempo todo." O Príncipe advertiu. "Jamais me perdoaria se você fosse um alvo dos rebeldes."

"Quem são eles, afinal?" Merlin perguntou, curioso.

"Os rebeldes?" Arthur arqueou uma sobrancelha. "Por que deseja saber?"

"Porque eu gostaria de saber o que as pessoas que me atacaram querem." Merlin cruzou os braços frente ao peito. "Não é exigir demais uma explicação, é?"

O Príncipe meneou a cabeça, parecendo cansado, antes de apoiar os cotovelos sobre o parapeito e suspirar.

"Por mais que queira, não posso responder a todas as suas perguntas." O Príncipe parecia cansado ao dizer aquilo. "Não ainda."

"Tudo bem." Merlin suspirou dramaticamente.

O Príncipe bufou, antes de morder o lábio.

"Você não pode comentar com ninguém o que vou te dizer." Ele disse em tom rígido, virando-se para Merlin e corrigindo sua postura, parecendo contrariado consigo mesmo.

"Eu juro." Merlin disse, oferecendo o dedo mínimo para Arthur, que franziu o cenho.

Merlin girou os olhos antes de pegar a mão direita do Príncipe e soltar o dedo mínimo do punho fechado, enlaçando com seu próprio.

"O que isso deveria significar?" O Príncipe arqueou uma sobrancelha, parecendo divertido.

"Cristo." Merlin gemeu. "Tenho muito a te ensinar para você se tornar um ser humano normal."

"Ei!" Arthur soou afrontado. Provavelmente ninguém lhe dissera algo do tipo antes.

"Isso significa que estamos fazendo uma promessa, um compromisso inquebrável." Merlin sentiu sua mão formigar.

"Só porque estamos com nossos dedos juntos?" O Príncipe arqueou uma sobrancelha, cético. Mas logo franziu o cenho, encarando os olhos de Merlin com atenção.

"Óbvio que não." Merlin girou os olhos. "É apenas um gesto para simbolizar meu comprometimento."

Arthur continuava com o cenho franzido, mas agora voltara a arquear a sobrancelha ao mesmo tempo e torcia os lábios, como se tentasse decifrar algo. Merlin riu com gosto, diante da careta não intencional que o Príncipe estava fazendo e o semblante de Arthur suavizou levemente. Merlin notou que Arthur tentava não rir também, ao voltar a se apoiar no parapeito.

"Depende de qual grupo de rebeldes você queira saber." Ele explicou, parecendo mais calmo.

"Quer dizer que há mais de um grupo." Merlin meio perguntou, meio afirmou.

Merlin sentiu os braços ficarem dormentes. Droga! Esse não é o momento para deixar minhamagia se rebelar. Se o Príncipe percebesse que ele tinha magia, estaria perdido.

"Você está seguro aqui." Arthur assegurou, interpretando a reação de Merlin como medo, provavelmente. "Não deixarei que nada aconteça a nenhum de vocês." Mas Merlin não queria aquilo também. Não queria que ninguém se colocasse em perigo, muito menos Arthur.

"Quantos grupos existem?" Merlin perguntou, a fim de distrair o Príncipe.

"Alguns." Ele disse, de maneira evasiva. "Mas apenas três são organizados. Os que nos atacaram hoje faziam parte de um grupo denominado 'Saqueadores'. Eles são os que estão mais próximos da capital e são liderados por Tristan, um Oito que conseguiu vários simpatizantes nos últimos anos."

"E o que eles querem?" Merlin atreveu-se a perguntar, quando percebeu que o Príncipe não daria mais informações, caso não o fizesse.

"Por que você tem que ser tão curioso?" Arthur soou frustrado.

"Vamos! Me diga! De amigo para amigo!" Merlin apelou, quando percebeu que Arthur não cederia.

"Eles são contra a monarquia." Arthur pareceu irritado ao admitir isso. "Acreditam que minha família não tem mais direitos de estar à frente das decisões de toda a nação que qualquer outra pessoa, independente do nascimento."

"Então eles não retrocederão, a menos que consigam tirar vocês do poder?" Merlin engoliu em seco, não querendo imaginar o que isso poderia significar para Arthur. Se um grupo queria tirar os Pendragon do poder, isso significava que eles queriam matá-los?

"Eles vivem em situação precária, entre as divisas de East Anglia e South East. As únicas coisas que existem lá são ruínas agora e dizem que o ar é tóxico. Eles roubam comida, roupas e outras coisas, por isso os chamamos de Saqueadores. Ninguém sabe exatamente como sobrevivem nestas condições. Suspeito que vivam migrando, na verdade, mas essa é uma teoria que ninguém parece dar ouvidos." O Príncipe suspirou e Merlin teve que se segurar para não colocar uma mão sobre seu ombro. Jamais imaginara que Arthur vivia sobre tanta pressão, até então. "Eles não costumam ferir ninguém e seus ataques são modestos." Arthur continuou a dizer, como que perdido em pensamentos. "Ultimamente o líder tem mandado mensagens, exigindo a dissolução das castas."

Merlin ofegou e o Príncipe voltou-se para ele.

"Aposto que você concorda com eles." Arthur soou amargo, quando voltou a encarar o jardim.

"E o que vocês farão?" Merlin ignorou o tom de voz de Arthur.

"Meu pai acredita que deveríamos atacá-los com todas as nossas forças e eliminar esse foco de rebelião." O tom de voz do Príncipe deixava claro que ele não concordava com aquilo, mas Merlin achava que Arthur jamais admitiria isso em voz alta.

"O que você acredita?" Merlin atreveu-se a perguntar, alguns instantes depois.

"Por que quer saber?" Arthur parecia cansado novamente.

"Por que sua opinião importa para mim." Merlin deu de ombros.

"Não posso deixar isso acontecer." Arthur voltou sua atenção para Merlin, como que mesmerizado pelas palavras. "Existem mulheres e crianças lá. Pessoas que fugiram de suas cidades porque não tinham mais a quem recorrer. Não deveríamos puni-los porque não fomos capazes de protegê-los."

Merlin sentiu um calor espalhar-se pelo peito, tocado pelas palavras do Príncipe.

"Tenho conseguido impedir que isso aconteça até agora, com o apoio de alguns conselheiros." Arthur voltou a dizer. "Meu argumento é que estaríamos vulneráveis a ataques dos grupos de feiticeiros se concentrarmos tantos esforços nos Saqueadores."

"Feiticeiros?" Merlin engoliu em seco, apreensivo.

"Sim. Os outros dois grupos." O príncipe assentiu, como se não quisesse discutir aquilo.

"O que faz deles diferentes, além de serem feiticeiros." Merlin reuniu toda coragem em si para perguntar aquilo.

"Eles são mais… letais." O Príncipe concedeu, mesmo que relutante.

Merlin estremeceu, não querendo aceitar aquilo. Não seria de admirar que as leis contra a prática de magia fossem tão rígidas, se aquilo fosse verdade.

"Letais?" Merlin perguntou, não querendo admitir a derrota.

"Bem… o grupo de Alvarr é diferente." O Príncipe pareceu cansado, novamente. "Eles estão muito longe de nós. São o maior grupo. Eles são druidas e vivem na floresta negra, ao sul. Meu pai já comandou várias tropas em expedição por lá, mas ninguém consegue encontrá-los. Acho que usam magia para impedirem que cheguemos perto demais."

"Se o grupo deles é tão grande, porque não atacam vocês?" Merlin pegou-se questionando.

"Eu não sei, sinceramente." Arthur meneou a cabeça e Merlin percebeu que o loiro estava exausto, não apenas cansado. "Acho que são pacifistas."

"Feiticeiros pacifistas?" Merlin teve que lutar contra a esperança que brotava em seu peito para não soar tão eufórico quanto se sentia. "Você realmente acredita nisso?"

"Eu sei. É idiota." O Príncipe desviou os olhos de Merlin. "Mas acho que nem todo feiticeiro é mau por natureza. Se ao menos eles entendessem que a magia corrompe e negassem essas práticas."

Merlin sentiu seu estômago despencar e afastou-se um passo do Príncipe.

"Tenho medo do que possa acontecer se eles se tornarem como o grupo das Sacerdotisas." Arthur continuou, aparentemente alheio ao tumulto interno de Merlin.

"Sacerdotisas." Merlin lutou para conseguir sussurrar.

"As Sacerdotisas da antiga religião." Arthur soou sombrio. "Nem todos os seguidores são mulheres, mas eles se autodenominam assim porque a líder acredita que somente as mulheres podem alcançar a espiritualidade máxima na religião deles, conquistando um poder acima dos outros feiticeiros comuns e se tornando Sacerdotisas dos deuses."

Merlin franziu o cenho diante daquelas palavras. Quem diria que poderia aprender mais sobre magia com Arthur Pendragon, dentre todas as pessoas.

"Eu não deveria ter te contado isso." Arthur disse como se só então percebesse o que fizera.

"Não se preocupe." Merlin pediu. "Não contarei a ninguém, prometo."

O Príncipe encarou-o por alguns instantes, antes de assentir.

"Nimueh, a líder das Sacerdotisas, comanda ataques apenas duas vezes por ano." Arthur rangeu os dentes. "Todos tentam evitar que eu saiba as estatísticas, mas não sou idiota: quando eles atacam, pessoas morrem." Merlin ofegou, o que atraiu os olhos do Príncipe. "Para nossa sorte, são o menor dos grupos e não se atrevem a virem em pessoa."

Merlin franziu o cenho, confuso.

"Eles tem outras maneiras de atingirem o objetivo." Arthur engoliu em seco, parecendo assustado pela primeira vez desde que começara a explicar as coisas para Merlin. "Enfeitiçam outras pessoas, pessoas inocentes, para nos atacarem no lugar de vir por si mesmos, como os covardes que são. Quando essas pessoas não morrem, acordam dias depois, sem lembranças dos últimos meses. Gaius, o médico da corte, já confirmou que é uma espécie de poção que eles fazem para controlá-los, detectou rastros dela na corrente sanguínea de todos eles." Ele parou por um segundo, antes de continuar. "Certa vez, as Sacerdotisas colocaram uma besta numa das nascentes de água que abastecem a capital e pessoas adoeceram e morreram durante semanas até que descobríssemos a causa." Merlin notou como Arthur parecia culpado ao dizer aquilo. "Outra vez, substituíram um cálice de ouro, presente do Lord Bayard, por uma réplica envenenada e isso quase causou uma guerra com a Mércia."

"Como eles conseguiram fazer isso?" Merlin arregalou os olhos.

"Não sei." Arthur deu de ombros. "Mas se Gaius não tivesse descoberto o antídoto, eu provavelmente estaria morto. Você poderia imaginar a confusão…"

"Você?" Merlin ofegou.

"Sim." O Príncipe franziu o cenho. "O presente era pra mim."

Merlin engoliu em seco. Quantas vezes a vida do Príncipe já estivera em risco, afinal? Quantas vezes ele fora alvo de atentados como aquele sem que as pessoas lá fora sequer imaginassem o que se passava?

"Não entendi ainda. O que eles querem?"

"Nos derrubar." Ele disse simplesmente, após respirar fundo. "Os Saqueadores apenas fazem protestos e os Druidas preferem evitar confrontos com Camelot. Mas as Sacerdotisas não descansarão enquanto não tomarem o trono. Nimueh proclama para seus seguidores que apenas uma Sacerdotisa dos deuses deveria se sentar no trono de Camelot e governar a nação. Ela quer a volta da antiga religião e o trono de Camelot."

Merlin achava que entendia agora: Nimueh queria a volta da magia e a saída da Família Real do Poder; Tristan queria a queda do sistema de castas e também acabar com a monarquia, mas talvez estivesse aberto a negociações; e Alvarr parecia querer paz, apenas. Merlin suspirou, percebendo que tudo aquilo era bem mais confuso do que parecia para um leigo.

"Você vai encontrar uma saída." Merlin colocou uma mão sobre o braço do Príncipe, quando percebeu que Arthur olhava perdido para o céu, apoiado sobre o parapeito.

"De repente você parece ter fé na minha capacidade de liderar a nação?" Arthur brincou, parecendo encabulado.

"Você foi criado para exercer essa função. Seria muita incompetência sua não ser capaz de encontrar uma solução." Merlin devolveu no mesmo tom brincalhão.

"Ora, seu…!" O Príncipe pestanejou, entre afrontado e divertido.

Os dois sorriram juntos e Merlin se deu conta de que se Arthur fosse apenas Arthur Pendragon e não o Príncipe Arthur, futuro Rei de Camelot, ele seria o tipo de pessoa que Merlin gostaria de ter como vizinho, o garoto da casa ao lado, com quem poderia fazer amizade e se apaixonar, como qualquer outro. Tão rápido quanto aquele pensamento veio, Merlin tratou de afastá-lo, receoso de onde aquele tipo de divagação poderia levá-lo.

Quando encarou o Príncipe, foi para constatar que ele havia se aproximado um passo de Merlin e o encarava com dúvida. Merlin engoliu em seco e estava pronto para se afastar, quando duas batidas fizeram-se ouvir à porta.

"Entre." Merlin disse, sem conseguir tirar os olhos do Príncipe.

"Alteza!" A voz de Gili fez com que Merlin desviasse os olhos na direção de seus criados, que estavam espremidos sob o umbral da porta, no meio de uma reverência, aparentemente sem saber se entravam ou se fechavam a porta. "Desculpe-nos. Não sabíamos que estava aqui."

Merlin correu até eles, abraçando cada um, notando que Daegal tremia levemente, mas não teve tempo para perguntar nada, pois Arthur limpou a garganta, às suas costas. Quando virou-se, foi para se deparar com o rosto sério do Príncipe.

"Acho que vou deixar que aproveite sua refeição em paz, Sr. Emrys." Ele disse em tom formal.

"Eu te acompanho até o lado de fora, Alteza." Merlin gaguejou, ignorando os criados, que faziam reverências novamente. Arthur, entretanto, parecia nem notar a comoção que os três provocavam ao entrar no quarto. "Tem certeza que não deseja almoçar comigo?" Merlin ofereceu, quando fechou a porta atrás de si.

O Príncipe pareceu emocionado com o convite, seu rosto abrindo-se num enorme sorriso.

"Por mais que deseje, temo que deva checar se os demais Selecionados estão precisando de algo." Ele disse, mas o sorriso ainda riscava seu rosto de um lado a outro.

"Ah, sim." Merlin disse, sorrindo de volta. Não queria soar decepcionado, apesar de estar. "Imagino que ainda terá um longo dia pela frente, ouvindo reclamações e choramingos."

"Alguma sugestão de alguém que não esteja nessas condições, parceiro?"

Merlin fingiu pensar por um momento, embora já soubesse quem indicaria. Gwen já estava bem mais calma, quando saíram da sala de jantar e algum tempo em seu quarto deveria tê-la acalmado mais ainda. Com sorte, sua refeição deveria estar chegando em seu quarto naquele momento e seria rude da parte do Príncipe negar acompanhá-la no almoço, caso ela tivesse o bom senso de convidá-lo.

"Já falou com Gwen? Guinevere, a morena de cabelos cacheados." Merlin ofereceu, quando uma leve ruga formou-se na testa do Príncipe. "Ela é um doce, muito meiga e adora filmes. Se não souber o que conversar, apenas pergunte qual o filme preferido dela e esteja pronto para ouvi-la falar por horas sobre A coragem de um jovem coração apaixonado, Alteza."

Merlin sorriu, mas o Príncipe não acompanhou-o, seu cenho franzido.

"Que foi?" Merlin estranhou.

"Prefiro quando me chama de Arthur." Ele disse, fitando os olhos de Merlin quase como se aquilo fosse uma ordem.

"Você vai deixar todos os Selecionados falarem assim com você?" Merlin arqueou uma sobrancelha. "As pessoas não acharão estranho?"

"Estamos a sós." Arthur pareceu decidido sobre o assunto. "Na frente do meu pai e dos demais, peço que se refira a mim da maneira adequada."

"Ok." Merlin deu de ombros, julgando o pedido pertinente. "Mas quando pedir isso para os outros, seja mais suave nas palavras, eles podem ficar magoados."

"Não se preocupe, não planejo conceder liberdades aos outros ainda." O Príncipe pareceu irritado.

"Por quê?" Merlin arqueou uma sobrancelha.

"Por que eles não são meus amigos."

"Mas podem ser mais do que isso um dia." Merlin desafiou.

"Cristo." Arthur colocou a mão direita sobre os olhos, massageando as têmporas com o dedo médio e o polegar. "Você é impossível." Ele completou, parecendo frustrado e deu as costas, não esperando por uma resposta.

"Ei!" Merlin puxou o braço dele e Arthur se encolheu em claro desconforto. "Desculpe, esqueci que você está machucado."

O Príncipe limitou-se a encará-lo, reprimindo uma careta de dor.

"Você não deveria ir até Gaius ver isso?" Merlin sugeriu.

"Eu passei lá antes de vir conversar com vocês." Ele disse, evasivo. "Os analgésicos que ele me deu não devem ter feito efeito ainda."

"Como você se machucou, afinal de contas?" Merlin perguntou, confuso. "Não estavam apenas trocando tiros a distância?"

"Eu… caí." Arthur disse, e Merlin duvidou que aquilo fosse verdade, pelo modo como ele evitava o olhar de Merlin. Mas talvez ele estivesse apenas com vergonha de ter se machucado daquela maneira, portanto Merlin não insistiu.

"Se quer que eu te chame de Arthur, então pare de me chamar de Sr. Emrys. Já pedi disso." Merlin mudou de assunto, notando o desconforto do outro.

"Quando foi que eu te chamei assim?" Arthur parecia confuso.

"Agora há pouco." Merlin indicou a porta do seu quarto, balançando o polegar por sobre o ombro.

"Seus criados estavam lá." Arthur disse, exasperado.

"Bem… você é meu amigo, não deveria se preocupar em se manter tão formal, já que seu título permite que me chame como desejar." Merlin cruzou os braços frente ao peito, como quem não dava alternativa.

"Certo." Arthur suspirou, parecendo ao mesmo tempo satisfeito e contrariado. "Mas não posso fazê-lo na frente do meu pai." Ele completou em tom de desculpas.

"Tudo bem." Merlin deu de ombros novamente. "Não precisa falar comigo na frente do seu pai, de qualquer forma. Não preciso da atenção do Rei sobre mim."

"Por quê?" Arthur franziu o cenho.

"Ele me dá medo." Merlin conteve um calafrio ao dizer aquilo.

Arthur escondeu um sorriso atrás de um dos punhos e Merlin estava pronto para mandá-lo parar de ser um idiota, quando o Príncipe se manifestou, ainda sorrindo.

"Ele também me dá medo, às vezes." Arthur disse, em tom sincero. "Mas você acaba se acostumando."

"Duvido que isso aconteça algum dia." Merlin fez uma careta, ciente de que o tipo de medo que Arthur poderia ter do pai era completamente diferente do seu.

Arthur deu uma risadinha e pegou a mão de Merlin, depositando um beijo no dorso, como na primeira vez que se encontraram e Merlin sentiu as bochechas esquentarem.

"Vou deixar que você aproveite sua refeição, Merlin." Ele disse, encarando Merlin com intensidade. "Espero nos vermos amanhã."

Merlin abriu a boca algumas vezes e gaguejou, mas não conseguiu dizer nada e Arthur afastou-se em direção ao corredor que levava ao quarto de Gwen. Merlin permaneceu ali por alguns minutos, mordendo o lábio inferior e perguntando-se se havia perdido algo, antes de menear a cabeça e entrar em seu quarto.

Os pensamentos confusos foram expulsos imediatamente da cabeça de Merlin. Gili e Kara estavam agachados ao lado de Daegal que parecia tremer dos pés a cabeça. Seu rosto estava vermelho e lágrimas rolavam por suas bochechas.

"Acalme-se Daegal, tenho certeza que o Príncipe não percebeu." Gili dizia em voz baixa enquanto acariciava os cabelos desgrenhados de Daegal.

"Já passou. Ninguém se feriu. Você está seguro." Murmurava Kara, segurando a mão tensa do garoto entre as dela.

Merlin ficou chocado demais para dizer algo, sentindo-se um intruso em seu próprio quarto. Já estava saindo de fininho, decidido a esperar no corredor, quando Daegal levantou os olhos, encontrando seu olhar.

"P-p-perdão, senhor, p-perdão." Ele gaguejou, colocando-se de pé, Kara e Gili acompanhando seu movimento como que levados por ele.

Merlin franziu o cenho ao notar a apreensão no rosto dos três.

"Você está bem?" Merlin perguntou antes de fechar a porta para que ninguém pudesse ouvi-los.

Daegal tentou dizer algo, mas não conseguiu juntar as palavras. As lágrimas e os tremores tomavam conta de seu corpo.

"Ele ficará bem, senhor." Gili garantiu. "Leva algumas horas, mas ele sempre acaba se acalmando depois que tudo volta ao normal. Se continuar neste estado, podemos levá-lo para a ala hospitalar."

"Claro." Merlin disse, imediatamente, mas Daegal pareceu tremer com mais intensidade com isso, tentando em vão segurar as lágrimas que escorriam pelo rosto.

"Ele não quer ter que ir à ala hospitalar." Kara esclareceu num sussurro, quando notou a dúvida no rosto de Merlin. "Se eles julgam que não servimos como criados, acabam nos escondendo na lavanderia ou na cozinha. E Daegal gosta tanto daqui."

Merlin se perguntava se ela achava que estava sendo discreta, afinal, estavam todos ao redor de Daegal, poderiam falar o mais baixo possível, o garoto ainda seria capaz de ouvir tudo que diziam.

"P-p-por favor, senhor… e-eu posso… sei q-que…" Daegal começou a se lamuriar novamente.

"Por que ele está assim?" Merlin questionou, aflito. "Ele parecia bem, até alguns minutos atrás."

"Viu, Daegal? Nem o Sr. Emrys percebeu." Ela insistiu. "O Príncipe também não notou, eu prometo."

Mas isso não pareceu acalmá-lo.

"Ninguém vai denunciá-lo, Daegal." Merlin garantiu, tentando remediar a situação, depois se dirigiu aos outros dois: "Kara, vá até a enfermaria e peça ao Dr. Gaius um calmante. Diga que ainda não me recuperei do susto do ataque e desejo algo para dormir." Ele esclareceu, ao notar os olhos arregalados de Daegal.

Kara saiu apressada para fora do quarto e Merlin voltou sua atenção para Gili.

"Gili, me ajude a tirar essas roupas suadas dele e dar um banho. Depois podemos encontrar algo mais confortável no meu guarda-roupas e colocá-lo na cama."

Merlin notou o queixo de Gili cair, mas ignorou aquilo, colocando um braço ao redor da cintura de Daegal e indicando com o olhar que Gili fizesse o mesmo. Tirar as roupas do garoto no banheiro não fora uma tarefa fácil, pois quando ele parava de tremer, começava a soluçar dizendo que Merlin não deveria estar fazendo aquilo. Ao final, tanto Merlin quanto Gili estavam ensopados.

Quando retornaram ao quarto, Kara esperava pacientemente, em pé ao lado da cama. Merlin convenceu Daegal a tomar o remédio e os três colocaram-se a trocar as roupas do garoto, o tempo todo Gili e Kara trocando olhares estranhos entre si. Deu mais trabalho para colocá-lo debaixo das cobertas, mas quando Merlin ameaçou dizer ao próprio Príncipe que Daegal não estava obedecendo suas ordens, o adolescente cedeu, deslizando para o conforto da cama. Logo, os tremores pareceram se aliviar e ele mantinha os olhos fixos no dossel da cama, até que começou a oscilar as pálpebras, alguns minutos depois.

Kara sentou-se à beira da cama e começou a cantar baixinho uma música que Merlin não conhecia, como se ninasse Daegal. Merlin puxou Gili para a sacada, longe dos ouvidos de Daegal.

"O que aconteceu?" Merlin perguntou, afoito. "Arthur me garantiu que ninguém havia entrado no palácio."

Gili piscou, parecendo surpreso com as palavras de Merlin e Merlin arregalou os olhos, percebendo como se referira ao Príncipe.

"O Príncipe Arthur me disse que os rebeldes não haviam entrado no palácio." Ele se corrigiu, mas ainda queria saber se Arthur havia mentido ou não.

"Não, senhor. Não se preocupe." Gili assegurou. "Daegal fica assim toda vez que os rebeldes vêm. Às vezes, apenas falar neles faz com que comece a tremer. Ele…"

Gili abaixou a cabeça, olhando para os próprios sapatos brilhosos, tentando decidir se deveria ou não continuar. Merlin não queria se intrometer, mas gostaria de entender. Quem sabe assim poderia ajudar mais.

"Eu ordeno que me diga, Gili." Merlin disse, tentando soar o mais próximo do tom formal do Príncipe Arthur.

Gili respirou fundo.

"A maioria de nós nasceu aqui." Ele começou a dizer, depois de limpar a garganta. "Eu sou filho de um mordomo e uma cozinheira. Mas alguns vêm de fora. Como é o caso de Daegal e Kara. Ela veio do sul, era uma órfã e batalhou muito para chegar aqui e conseguir uma vaga no castelo. Parecia decidida a chegar ao topo e o topo para um Seis é aqui, no palácio, mesmo que seja como um criado."

Merlin acenou em concordância, entendendo o que ele queria dizer.

"Daegal…" Gili fez uma pausa. "Daegal, foi vendido ao palácio."

"Vendido?" Merlin guinchou. "Como assim? Não há escravos em Camelot. É contra a lei."

"Oficialmente, sim. Mas isso não quer dizer nada para algumas pessoas." Gili disse, pesaroso. "A família de Daegal precisava de dinheiro para a cirurgia da mãe e ele e o pai ofereceram seus serviços para uma família Três. Mas a mãe dele nunca melhorou e eles não conseguiram pagar a dívida. Daegal e o pai serviram a família por anos. Pelo que sei, a vida deles não era muito melhor do que a de animais em estábulos. Mas o filho da família se afeiçoou a Daegal e, às vezes, o amor não distingue as castas, mas a distância entre um Seis e um Três é muito grande. Quando a mãe do rapaz descobriu sobre os dois, vendeu Daegal e o pai para o palácio. Eu me lembro de quando chegou aqui, há dois anos. Ele chorou por vários dias."

Merlin olhou para Daegal, perguntando-se se ele ainda amava o tal rapaz. A história de amor dele não se distanciava tanto da de Will, duas pessoas que se amavam e não podiam ficar juntas por causa de suas castas. Mas Merlin podia notar a grande diferença, Will havia tomado sua decisão, enquanto Daegal fora separado da pessoa que amava sem poder ter escolha naquilo.

"O pai dele trabalha no estábulo. Não é forte nem rápido, mas tem uma dedicação incrível. E Daegal se tornou um criado. Sei que parece uma tolice para você, mas ele se sente muito honrado em ser um criado no palácio."

"Não é tolice." Merlin assegurou. "Eu entendo. Sei exatamente como é."

Merlin notou como Gili o olhou com respeito e compreensão mútua. Talvez fosse difícil para o criado enxergasse isso, mas Merlin faria questão de lembrá-los que ele não era diferente dos três.

"Somos a linha de frente, considerados suficientemente aptos, inteligentes e bonitos para sermos vistos por qualquer visitante. Levamos nosso trabalho muito a sério porque, se fizermos alguma besteira, acabamos na cozinha, onde as mãos ficam ocupadas o tempo todo, ou na lavanderia, onde a quantidade de trabalho de um dia pode te levar a exaustão. Podemos acabar nos jardins ou recolhendo lenha e ainda podemos ser realocados no esquadrão da noite, tendo que manter os corredores, salões e banheiros em ordem sem sermos vistos pelos demais." Gili suspirou. "Ser criado não é sempre fácil."

"Eu sei." Merlin ofegou, segurando as mãos de Gili, esperando que ele pudesse sentir os calos nas mãos do próprio Merlin. "Eu sei. Já lavei muito prato e limpei muito banheiro para ajudar minha mãe com o aluguel."

"Me desculpe." Gili disse, envergonhado. "Às vezes é fácil esquecer que você não é Um por nascimento."

Merlin franziu o cenho. Não poderia discordar mais daquilo. Mas ao mesmo tempo, sentia-se bem burro. Para ele, um Seis era apenas um Seis, mas no palácio, parecia que existiam subdivisões na miséria e nenhum deles queria estar na base da pirâmide.

"Logo depois que ele chegou, fomos atacados no meio da noite. Rebeldes tomaram os uniformes dos guardas e todos ficaram confusos. Ninguém sabia quem atacar e quem defender, perdemos muitos guardas e alguns funcionários naquele dia." Merlin engoliu em seco, imaginando qual grupo de rebeldes fora o responsável por esse ataque em particular. "Um deles capturou Daegal, os rebeldes desse dia eram diferentes, como se fossem animais…" Gili abaixou os olhos por um minuto e pronunciou as seguintes palavras num tom tão baixo que Merlin teve que se inclinar para ouvir. "Não vi pessoalmente, mas Daegal contou que o homem era imundo. Disse que lambia o rosto dele…"

"Não!" Merlin pediu e percebeu que lágrimas escorriam pelo seu rosto.

Como alguém poderia ter feito isso com Daegal? O doce e gentil Daegal que sempre parecia animado em atender cada pedido de Merlin. Seu estômago deu voltas ameaçando devolver o café da manhã. Gili parecia tão enojado quanto ele.

"Sinto muito." Gili parecia apologético. "Não queria que o senhor tivesse ouvido isso, mas não queria que pensasse menos de Daegal por ele não aguentar a pressão."

"Vocês cuidam de mim. Se preocupam comigo. Mesmo que eu seja apenas um Seis, como vocês." Merlin pressionou ainda mais as mãos de Gili.

"O senhor é um Três, Sr. Emrys." Gili protestou.

"Ok, nova regra." Merlin balançou a cabeça, para afastar as lágrimas que teimavam em cair pelo rosto. "Quero que os três me chamem de Merlin. Isso é uma ordem."

"Não podemos." Gili pareceu assustado. "O que os outros pensariam de você?"

"Vocês recebem ordens de mim, não dos outros." Merlin insistiu. "Além do mais, sempre estamos no quarto. Ninguém além de mim se importa como me chamam aqui e quero que vocês me chamem de Merlin."

"Boa sorte em convencer Kara a fazer isso." Gili suspirou, aparentemente admitindo sua derrota.

Merlin sorriu com aquilo e Gili seguiu-o.

"O que quero dizer é que neste palácio, vocês três são as pessoas que mais admiro." Ele disse. Não cederia sobre isso e precisava que Gili entendesse. "O que aconteceu com o rebelde?" Merlin perguntou, incerto se realmente queria saber a resposta.

"Gwaine, um dos mordomos, passou pelo corredor no meio do tumulto e conseguiu ouvir Daegal gritar." Gili disse. "O Príncipe Arthur parece confiar nele nessas ocasiões e ele sempre está armado quando algo do tipo acontece. Ele atirou no rebelde e carregou Daegal até um lugar seguro. Mas o corpo dele ficou coberto de sangue."

Merlin não podia imaginar o pequeno Daegal passando por aquilo, não era de se estranhar que reagisse daquela forma.

"Uma vez ele me disse que tentou pensar no rapaz que era apaixonada o tempo todo. Pensou que se fizesse isso seria mais fácil."

Merlin colocou uma mão sobre a boca, sentindo um peso sobre o peito e virando-se para debruçar-se sobre o parapeito, deixando as lágrimas rolarem soltas. Não queria que Daegal o visse chorando daquela maneira, caso ainda estivesse consciente.

"Os machucados foram tratados pelo médico do palácio, mas um Seis não pode cuidar dos traumas da mente. Eu e Kara somos os únicos que sabem do que aconteceu além de Gwaine e tentamos ajudá-lo da melhor forma possível para que ninguém perceba seus deslizes." Merlin fez uma nota mental para ser mais amigável com Gwaine a próxima vez que o visse. "Hoje Daegal é uma pilha de nervos, mas faz o possível para esconder. Principalmente por causa do pai, que tem orgulho de saber que o filho é bom o suficiente para ser um criado. Na maior parte do tempo é fácil mantê-lo calmo, mas sempre que os rebeldes chegam ele pensa que será pior. Que dessa vez vão pegá-lo, feri-lo, matá-lo. Ele está tentando, senhor, mas não sei por quanto tempo vai aguentar."

"Eles ainda são escravos?" Merlin perguntou, por fim. Merlin não queria acreditar que Arthur concordasse com aquilo, mas não era como se o Príncipe pudesse fazer algo se fosse uma decisão do Rei. Talvez Arthur nem soubesse de tudo aquilo.

"Não, não. O Rei não permitiria isso." Gili apressou-se em negar. "Até ano passado eu era um mordomo e durante uma das refeições, o Rei disse ao Príncipe que era melhor ter a lealdade dos funcionários do que dominá-los."

Merlin torceu os lábios diante daquilo, mas assentiu e voltou os olhos para Daegal, deitado na cama. Ele tinha fechado os olhos e adormecido, pelo que Merlin sentiu-se grato.

Kara e Gili insistiram em buscar outra refeição para Merlin, quando eles voltaram para o quarto, fechando as portas da sacada, mas Merlin retrucou, dizendo que não era necessário. Não seria a primeira vez que comeria comida fria, afinal. Merlin passou boa parte da tarde lendo enquanto Kara e Gili limpavam coisas que não estavam sujas. Os três passaram todo tempo em silêncio, quietos enquanto Daegal se recuperava.

Internamente, Merlin prometia a si mesmo que se dependesse dele, Daegal jamais passaria por aquilo de novo e faria tudo ao seu alcance para melhorar a situação dele, mesmo que fosse preciso ir ele mesmo até o Dr Gaius e pedir por ajuda. Mesmo que tivesse que pedir aquilo para Arthur.

Perto da hora do jantar, alguém bateu à porta e Merlin abriu uma fresta para deparar-se com os grandes olhos de Gwen. Merlin esgueirou-se para fora da melhor forma que pôde, sem abrir a porta totalmente, pois Daegal ainda estava dormindo na cama.

Merlin andou de braços dados com ela e, apesar de ter se mantido firme durante todo o dia, a tensão acumulada não pôde deixar de cobrar seu preço: ele estava exausto. Era bom ter Gwen para espairecer.

"Ele deixou você dar folga aos seus criados mesmo depois de perder?" Ela perguntou, parecendo encantada.

Merlin tinha começado a falar sobre Arthur logo que teve a chance, porque estava ansioso para saber detalhes da conversa que Gwen tivera com o Príncipe. Aparentemente, eles não haviam evoluído tanto quanto Merlin desejara, pois para ela ele ainda era o Príncipe Arthur.

"Sim, ele foi muito generoso." Merlin assentiu, quando eles começaram a descer as escadas.

"Acho que o Príncipe é charmoso e sabe ganhar."

"Sabe mesmo." Merlin concordou, lutando contra um sorriso travesso. "E consegue ser ainda mais gracioso quando descobre a dura realidade do que ganhou." Como uma joelhada nas joias reais, ele acrescentou mentalmente.

"O que você disse?" Gwen franziu o cenho.

"Nada." Merlin não queria explicar o que tinha acontecido. "Sobre o que conversaram hoje?"

"Bem…" Ela começou, parecendo tímida. "Ele me perguntou se eu queria vê-lo essa semana."

"Gwen!" Merlin exclamou, exultante. "Isso é ótimo."

"Quieto." Ela repreendeu, olhando por cima do ombro, conferindo se alguém estava descendo as escadas atrás deles. "Estou tentando não alimentar esperanças." Os dois permaneceram em silêncio até chegarem ao final das escadas. "Quem estou querendo enganar? Estou tão empolgada que mal posso parar em pé." Ela explodiu. "Espero que ele não demore muito para me fazer o convite."

"Tenho certeza que logo ele virá atrás de você." Merlin tranquilizou-a. "Quer dizer, assim que terminar de administrar o país."

"Mal posso acreditar!" Ela suspirou, depois de se recuperar de um acesso de risos. "Quer dizer, eu sabia que ele era bonito, mas não tinha ideia de como poderia se comportar. Tive medo que fosse… pomposo ou coisa parecida."

"Eu também." Merlin confessou. "Mas na verdade ele é…" Ele procurou por uma palavra para definir Arthur Pendragon, mas aquilo era mais difícil do que imaginara. Na maior parte do tempo, o Príncipe era realmente pomposo, mas não de um jeito irritante como Merlin pensara. Era mais algo que ele parecia não conseguir controlar. Sem dúvidas se comportava como um Príncipe, mas quando estavam sozinhos era tão… tão… "Normal." Merlin sussurrou a palavra, mas não sabia se Gwen ouvira, pois naquele momento alcançaram o corredor da sala de jantar e Eira e Sophia estavam a alguns passos de distância apenas.

Merlin e Gwen se encararam e entraram logo atrás das duas na sala de jantar, numa concordância tácita de que retornariam àquele assunto num momento mais adequado.

A primeira coisa que viu, quando adentrou a sala, foram os olhos de Arthur. Aparentemente, ele estivera encarando as portas da sala de jantar, provavelmente verificando se algum dos Selecionados não desceria para o jantar. Quando viu Merlin, no entanto, seu lábio curvou-se ligeiramente no canto direito e o estômago de Merlin revirou-se de maneira incômoda.

Merlin não sabia se o Arthur idealizado por Gwen correspondia ao real, mas acreditava que ela pudesse amá-lo por quem ele era. Afinal, haviam se passado apenas três dias e Merlin já descobrira motivos mais do que suficientes para admirar o Príncipe.

Enquanto caminhava para o seu assento, torcendo para que Gwen também fosse o tipo de mulher que Arthur procurava, Merlin notou que os outros Selecionados não estavam mais o encarando como desde que o Príncipe o convidara para um encontro. Provavelmente, uma segunda conversa a sós, agora que já haviam sido apresentados, fora o suficiente para acalmar a maioria.

Merlin tentou reparar em como Arthur olhava para os Selecionados e se havia alguém que atraía sua atenção em especial, mas o Príncipe cochichava algo para Sir. Leon, que hoje estava sentado ao seu lado na mesa, aproveitando a refeição. Os dois pareciam bem concentrados e Merlin se perguntava se aquilo era devido ao recente ataque.

Ele já ia voltar sua atenção para sua própria refeição, quando captou o olhar do Rei Uther. O homem o encarava com claro desagrado e Merlin engoliu em seco. Um leve semicerrar de seus olhos foi o suficiente para que seu estômago revirasse novamente, de um modo totalmente diferente do provocado pelo filho. Naquele momento, Merlin repensou se continuar ali até a Elite era mesmo uma boa decisão.