Capítulo Seis – Tempo

Aquela não era uma boa semana, definitivamente.

O único cliente que entrou na imobiliária na segunda-feira pela manhã ligou para cancelar a visita na segunda à tarde. A máquina de café expresso quebrou na terça-feira às nove da manhã, deixando um Frank intragável reclamar o resto do dia sobre como eletrodomésticos eram ineficientemente sensíveis e sobre como Charlotte era ineficientemente incapaz de comprar um café decente na cafeteria mais próxima. A quarta-feira amanheceu chuvosa, e o pé d'água que caiu ao meio-dia fez cair uma árvore no quarteirão de cima, derrubando a rede elétrica. Charlotte não foi trabalhar quinta-feira devido à gripe que pegou por causa da chuva que tomou indo pra casa, deixando Frank mais irritado – "POR QUE ninguém arrumou essa máquina AINDA?" – e quando o sol finalmente apareceu no horizonte na sexta-feira, Lily se pegou pretendendo fingir uma dor de estômago para não sair da cama.

No entanto, nada tirara James de sua cabeça; e enquanto num minuto ela se pegava pensando nos prós de ser amiga de James Potter, no minuto seguinte ela se perguntava se não estava sendo ingênua. Ou, como Dorcas diria, idiota.

[...]

Aquela não era uma boa semana, de jeito nenhum.

Mesmo tendo ido dormir feliz no domingo, depois de resolver a 'situação-Lily' pela manhã, o que fez com que James acordasse de ótimo humor na segunda-feira de manhã, a sexta-feira o encontrou com os cabelos em pé, querendo socar algo – ou alguém. Não que a segunda tenha sido de todo ruim. Pela manhã, Marlene lhe trouxe o roteiro – supostamente – final, que ele devorou junto com alguns pacotes de salgadinho de bacon. No entanto, todas as vezes que ele lia o nome da personagem de Emmeline – Anne – seu bom humor decaia um degrau; de tal forma, ele agradeceu quando de tarde, Fabian Prewett, seu treinador na academia, lhe deu algumas coisas para socar. James perdeu as contas de quantas vezes olhou para o celular na terça-feira, e cada toque do aparelho o fazia se perguntar quanto tempo Lily Evans precisava para pensar. Fabian o mandou para casa aos pontapés ao final do treino, exigindo que ele voltasse concentrado no dia seguinte. Quarta-feira era dia de ir para o estúdio conhecer alguns dos sets de filmagem, e ele agradeceu mentalmente aos céus pelo destino não ter cruzado o caminho dele com o de Emmeline em momento algum, mas depois pensou bem e agradeceu à Marlene. Sirius e Remus o arrastaram para jantar na quarta à noite depois que ele chegou do treino, e em seguida para um pub – influência de Sirius no segundo –, mas James anunciou que ia embora durante a terceira dose de uísque; já vira muitas ruivas que não eram Lily àquela noite. Ou pelo menos achava que vira. Quinta-feira trouxe prova de figurino, mas não um telefonema de Lily, e durante o jantar Sirius sugeriu que ele estava ficando obcecado.

Mas nada se comparava com a sexta-feira. Ele não tinha tido notícias de Lily – "QUANTO TEMPO essa mulher precisa?" – e a primeira notícia que teve no dia foi Marlene lembrando-o que ele tinha uma passagem de cena marcada. Com Emmeline.

[...]

O fim da tarde de sexta encontrava-se tão entediante quanto possível quando o telefone de Lily tocou e a assustou. Tão concentrada em jogar paciência em seu computador como ela estava, a ruiva demorou um instante para reconhecer a voz animada de sua própria mãe logo depois da saudação inicial.

— Lily, querida, trago ótimas notícias!

— Hunm, notícias? – ela perguntou confusa, recostando-se na cadeira da qual quase caíra dez segundos antes. Sua pergunta, no entanto, foi completamente ignorada por Violet Evans, que não tinha tempo a perder com interrupções desnecessárias e sequer parara de falar para ouvir a filha.

— Mas, é claro, você já saberia do que se trata se você frequentasse os almoços de sexta.

— Mamãe, eu não tenho tempo para almoçar todas as sextas com você e Petúnia. – Lily respondeu automaticamente, ao que sua mãe respondeu com um muxoxo.

— Você não tem mais tempo para sua velha mãe, não é mesmo? – variações abruptas de humor eram especialidade dela, a ruiva se pegou pensando.

Lily mordeu a língua para não dar a resposta malcriada que queria. Ela não precisava de horas semanais na presença de Petúnia, essa era a bem a verdade. E se sua mãe não estava disposta a entendê-la... bem, ela podia comparecer aos feriados, eventualmente.

— Achei que você tinha ótimas notícias, mamãe. – ela escolheu voltar a conversa ao rumo inicial, e ao olhar em volta, percebeu que tinha chamado a atenção de Alice com a última frase.

Petunia vai se casar! – a notícia foi dada com tanta rapidez e num tom de voz tão agudo que Lily achou que tinha entendido errado. Ela trocou o telefone de orelha, achando que talvez tivesse ficado surda da primeira, e repetiu pausadamente fazendo uma careta.

— Petunia vai se casar? – a informação ainda lhe era meio estranha, e dizê-la em voz alta não alterava muita coisa.

— Sim! – sua mãe parecia decididamente animada, enquanto Lily ainda se encontrava absolutamente confusa.

— Com o Dursley? – Lily pode ouvir as rodinhas da cadeira de Alice se aproximando.

— Com quem mais, Lily? – a mãe dela debochou, e ela precisou de alguns segundos para entender o que realmente estava acontecendo.

— Uau. – foi toda a resposta que ela conseguiu dar, e assim que as palavras saíram de sua boca, ela sabia que eram as palavras erradas, na entonação errada, para o momento errado.

— Bom, tente demonstrar mais emoção pela sua própria irmã quando a vir, pelo menos. – Violet respondeu, o tom de voz inconfundivelmente desgostoso.

— Mamãe... – Lily suspirou. Ela não tinha o que acrescentar, no entanto, e nenhuma palavra foi trocada na ligação por longos dez segundos. Lily se remexeu incomodada.

— E nós teremos o jantar de noivado muito em breve, uma vez que Petunia está decidida a se casar o quanto antes. – aparentemente, a mãe havia resolvido deixar para outra hora, e continuara como se a ligação tivesse ocorrido maravilhosamente bem até então.

É claro que ela está. Lily pensou, segurando-se para não verbalizar as palavras. Tão somente um cochicho sobre isso e sua mãe começaria o sermão que estava guardando.

— É realmente uma ótima notícia, mamãe. – ela suspirou, e olhando para Alice ela pode ver a amiga rolar os olhos – Para onde devo mandar o presente?

— Não seja boba, Lily. Estaremos esperando por você.

Você estará.

— Mande-me as informações assim que as tiver então, e eu estarei lá.

— Mandarei. Beijos, querida.

— Beijos, mamãe.

Ela devolveu o telefone ao gancho sentindo certa letargia apoderar-se de si. Num mundo perfeito, Petunia teria corrido para contar-lhe as notícias em primeira mão, Lily seria a madrinha e elas escolheriam absolutamente tudo juntas, do jeito que faziam em suas brincadeiras de criança. O mundo não era perfeito, no entanto, e Lily duvidava que fosse convidada por pura e espontânea vontade da noiva.

— Então... Petunia e o Dursley, uh? – Alice comentou, e Lily virou-se lentamente na direção da amiga, concordando com um aceno da cabeça.

Subitamente, ela desligou o computador e pegando sua bolsa, levantou-se.

— Eu tenho que ir, falo com você mais tarde. – foi tudo o que ela falou, antes de sair da sala deixando uma Alice confusa para trás.

[...]

— E as filmagens começam na terça-feira. Já coloquei as cenas na ordem de gravação de acordo com o cronograma. – Marlene completou as informações que vinha passando para James nos últimos minutos, entregando-lhe um grande bloco de folhas. Ele apenas resmungou em resposta enquanto o pegava. – O que há de errado com você? – ela perguntou, o olhar observador analisando-o.

Anoitecia e os dois encontravam-se no banco de trás do carro dirigido por Ben, voltando para casa do estúdio, e a resposta de James para tudo que Marlene lhe dissera desde que ele havia entrado no carro era a mesma: um resmungo.

— Nada. – ele respondeu por fim, ao que ela lhe respondeu levantando uma sobrancelha. – Eu só preciso de um banho e uma boa noite de sono, Lene.

— É por causa dela, não é? – O pensamento de James viajou imediatamente para Lily, e ele já tinha um 'Não estou obcecado por ela' preparado, quando Marlene continuou. – Eu sei que pode ser difícil olhar pra ela todos os dias, mas você vai ter que superar isso, James. Você é um ótimo ator, no mínimo, então vamos todos apenas esperar que você continue bom o suficiente para atuar com Emmeline mesmo com as câmeras desligadas. Você sabe, pelo menos como colegas.

Ok, então talvez ele estivesse um pouco obcecado por Lily Evans.

A resposta mal educada que James pretendia dar sobre Emmeline, no entanto, foi interrompida por Ben.

— Sr. Potter. Tem alguém na porta da frente da casa.

Eles tinham acabado de virar a esquina do quarteirão da casa de James e de fato, à distância, era possível distinguir uma silhueta parada. No escuro e à distância, no entanto, não era possível saber a quem ela pertencia. James franziu a testa, curioso. Pouquíssimas pessoas tinham seu endereço. Quem raios poderia estar parado à sua porta?

— Devo passar direto? – Ben voltou a falar, enquanto eles se aproximavam. James chegou levemente para mais perto da janela, enquanto Marlene murmurou o nome dele, apreensiva.

— Não – ele respondeu, sem saber se estava ficando louco – É a Lily.

[...]

Lily observou o carro de James parar na frente da casa dele, e ela empilhou os dois copos que trazia em uma mesma mão enquanto trocava o peso do corpo de um pé para o outro, levemente nervosa. Agora que ele finalmente estava ali, ela se perguntou o porquê de tê-los trazido. É claro, teria sido muito melhor se ele tivesse aberto a porta dez minutos atrás quando ela batera, e não agora. Por que mesmo que ela esperara?

James desceu do carro, seguido por McKinnon, e Lily segurou-se para não fazer uma careta de desgosto. Ainda não gostava dela, mesmo depois de Sirius afirmar que ela era 'a garota dele'. A morena passou por ela e lhe cumprimentou com um aceno de cabeça antes de abrir a porta e entrar na casa. Quando Lily voltou seu olhar para James, ele ainda estava a vários passos de distância, andando lentamente na direção dela, o semblante sério e as mãos nos bolsos das calças, e ela teve que segurar um suspiro. Ele continuava tão bonito quanto ela se lembrava.

— Lily Evans. – ele lhe cumprimentou, e seu nome pareceu flutuar da boca dele até os ouvidos dela. Merda.

— James Potter. – ela respondeu, um sorriso nervoso lhe surgindo dos lábios. Por que estava nervosa mesmo? Ela poderia se socar. – Eu trouxe café, mas suponho que já esteja frio. – completou em tom de desculpas.

— Você não está aqui há muito tempo, espero. – ele falou, passando a mão direita pelos cabelos, os olhos fixos nos dela.

— Não muito. – ela praticamente murmurou.

— Ótimo. – ele falou, passando por ela para abrir a porta. – Venha comigo – completou, pegando os copos da mão dela e indicando o interior da casa com a cabeça. Com apenas um sorriso em resposta, ela o seguiu.

James a guiou até a cozinha, onde contornou o balcão para colocar os dois copos em cima da pia. Então se apoiou no balcão com os antebraços, cruzando as mãos, e indicou para Lily que se sentasse num dos banquinhos que circundavam o lado oposto do móvel. Ela sentou-se sob o olhar atento de James, que não deu nenhuma indicação de falar o que quer que fosse. Bom, ela tinha ido até lá, não é mesmo? Tinha ensaiado um discurso, que não curiosamente envolvia as bebidas que ela trouxera e agora se demonstrava inútil.

— Os móveis novos se encaixaram perfeitamente na casa. – ela comentou, desviando os olhos dos dele e remexendo-se desconfortável depois de um momento em silêncio, no qual James apenas lhe encarara fixa e pacientemente sem mover um músculo. Ela podia sentir suas bochechas queimarem sob o olhar dele. Quem era essa Lily Evans e o que fizera consigo?

— Eu tive uma ótima decoradora. – ele respondeu simplesmente, e um sorriso escapou dos lábios de Lily.

— Ouvi boatos. – foi sua resposta imediata; ela continuou não o encarando, pseudo desviando sua atenção para as mãos cruzadas sobre os joelhos.

— A que devo a honra de sua presença, Lily? – James perguntou por fim, depois de um momento de silêncio. Lily levantou os olhos de volta para ele, tentando encontrar as palavras certas. Observou-o apoiado no balcão com os antebraços. Foi então que ela percebeu: ela não precisava de um grande e inspirador discurso.

— Eu aceito – quando as palavras saíram de sua boca, ela inexplicavelmente sentiu-se mais... leve? – Sua proposta – ela continuou – de sermos amigos. – ela saboreou a palavra por um momento. No fundo de sua mente, no entanto, ela sabia que não era o que ela realmente queria. Mas era o que ela tinha por agora, e ela se agarraria a essa oportunidade.

O sorriso com o qual James lhe respondeu lançou borboletas por seu estômago, fazendo com que ela se perguntasse em que enrascada tinha se metido.

— Nesse caso, amiga – ele começou a falar, mudando a entonação da voz ao pronunciar o novo título e fazendo com que ela risse brevemente – eu vou assumir que você ainda não jantou. Pizza?

— Quanto mais queijo, melhor.

— Perfeito – James concordou, puxando o celular do bolso.

— Mas eu decididamente não quero atrapalhar. – ela completou após hesitar por um momento, observando-o procurar o número da pizzaria na agenda.

— Atrapalhar? – ele perguntou, a expressão confusa, levantando os olhos do celular para ela.

— Bom... é difícil de acreditar que você não tenha nada pra fazer numa sexta-feira à noite.

— Nada que envolva sair de casa, não. – Lily levantou uma sobrancelha, ao que ele deu de ombros, rindo. – Eu pretendia começar a decorar minhas falas da semana – ele esclareceu – Você pode me ajudar com isso, se não achar muito entediante. Sirius deve aparecer por aqui depois do show, em todo caso, a caminho da casa da piscina.

— Casa da piscina? – ela perguntou, a resposta para sua própria pergunta lhe atingindo assim que ela terminou de falar. – Oh. McKinnon.

James lhe respondeu com um aceno de cabeça, o celular já na orelha.

— Alô. Qual a pizza com mais queijo que vocês tem?


N.A.: Hey, nem demorei tanto dessa vez! Capítulo um pouco menor hoje, mas espero que tenham gostado.

LaahB Sempre bom saber que você está acompanhando! Muito obrigada, espero que continue gostando. Bjs