Por volta das nove horas da manhã, Crocodile já estava chegando ao palácio. Surpreso, o rei Cobra mandou que preparassem alguma coisa enquanto ele esperava por Talia.

- Não é necessário tantas formalidades, Cobra... só vim buscá-la e ir embora. Não gostaria de incomodar o rei... – Crocodile sabia fingir uma falsa modéstia, mas realmente queria levar sua "criada" logo.

- Mas sequer pude avisá-la, Crocodile! Mas já estou indo trazer a moça... – disse o rei, dando ordens para uma criada que acordasse Talia.

Talia já estava acordada, apenas estava na janela de sua suíte, admirando o pátio do palácio. Era uma visão muito bela que, quem não a conhecesse, poderia acreditar que ela era a filha do rei. Vestia-se ricamente, assim como as outras dançarinas do rei. Estava com uma típica roupa das mulheres de Alabasta, com um fino véu branco cobrindo a cabeleira longa e negra como a noite. O vestido possuía uma cor bege, de um tom claro, e só deixava a mostra os braços delicados e torneados. Adornos de cor dourada como pulseiras, colares e brincos ainda incrementavam a beleza exótica de Talia. Tinha uma maquiagem leve no rosto, com o destaque nos olhos verdes artisticamente pintados. Parecia uma deusa egípcia.

- Jovem Talia! – chamava repetitivamente a criada, entrando sem bater.

- Sim, aqui estou. – ela saiu da janela, indo atendê-la.

- O rei chama para ter com ele!

- Já vou!

Talia seguiu a criada e foi até o rei, que provavelmente daria uma notícia importante. A moça quase travou nos passos quando viu quem estava acompanhando o rei.

- Venha Talia, venha! Tenho que falar algo importante! – dizia o rei, chamando-a.

- ...aqui estou. – disse a outra, fazendo a típica reverência ao rei.

O outro não pode deixar de sorrir discretamente ao ver tal princesa. Submissa, humilde e bela. Uma dançarina rara, que tinha todas as regalias naquele palácio, ser tão "pequena" diante de tudo aquilo.

- Não a queria deixar partir daqui, mas uma promessa terei que cumprir a este senhor aqui... que você já deve conhecer.

Talia olhou para Crocodile. Tão grande e tão poderoso. Sentiu um pouco de medo por estar diante dele. Por outro lado, o grande e poderoso homem pôs um dedo no queixo dela, por baixo, fazendo-a levantar aquele rosto mimoso e perfeito. Aqueles intensos olhos verdes...

- Não precisa ter vergonha diante de mim. – disse Crocodile, em um tom baixo e manso.

- Desculpe-me, Sir Crocodile. – disse ela da mesma forma que ele.

- Pois bem, Sir Crocodile ficou interessado em tê-la como uma criada para ajudá-lo, e sendo muito bondoso, permitirá que você continue sendo minha dançarina! Por isso, daqui em diante, passará a morar com ele. Seja uma boa criada, hein?!

Talia não conseguia falar. Mesmo sabendo que seria uma criada, não viu sua estranha alegria diminuir. Ele ficou interessado em tê-la como uma criada!

- Mas não abusarei dos serviços com você, Talia. Terá uma boa vida comigo, desde claro: - ele quis frisar bem – que seja obediente e humilde ao seu senhor!

Rei Cobra olhou Crocodile de lado por uns instantes, dando a entender que aquele "senhor" não seria sinal que ela fosse praticamente uma escrava. Crocodile sorriu e retornou a afirmar sua promessa.

- Só que, antes de ir... Talia, dê-me um abraço!

Sem entender direito o porquê daquele afeto do rei, foi até ele e o abraçou. O abraço dele foi paterno. Ele disse baixinho para ela.

- Hei de saber se estará bem ou não. E trate de nunca esconder do rei seu humor enquanto estiver longe daqui!

- Prometo, rei Cobra. – disse Talia, baixinho para ele também.

Crocodile cruzou os braços, esperando aquele afeto todo acabar, fingindo cordial paciência. Depois do abraço, Talia ainda teve privilégio de se despedir das dançarinas e dos outros criados e servos do rei. Queria se despedir de Rajar, mas este nem sempre se encontrava no palácio e Crocodile não esperaria um dia inteiro para ela se encontrar com o velho amigo. Com isso, Talia arrumou os pertences que tinha e seguiu Crocodile. Indo para o cassino dele.

...

A beleza do cassino Rain Dinners era única. Uma outra cidade de Alabasta. A riqueza e o luxo poderavam sobre aquele lugar e aquelas pessoas que moravam em torno. Nunca tinha visto tanta beleza e tanta riqueza. Talvez estivesse sonhando, e só confirmou que não devido a um tropeção que havia dado em uma pedra, por andar olhando desatenta ao chão.

- Você está bem, Talia? – Sir Crocodile, vendo o pequeno acidente dela.

- Er... sim, claro! – disse Talia, sem jeito.

- Por trás daqui é minha casa. Logo, será a sua também. Não tenho uma casa só para criados, já que vivi tanto tempo sem um.

- Não tem importância, Sir Crocodile. Qualquer lugar que me mandar dormir, eu vou!

O homem sorriu, vendo toda aquela disciplina e humildade. A nova vida que tinha ganhado no palácio não a deixou orgulhosa, como sempre acontecia as outras. Aquela dançarina loira e experiente lhe dava nos nervos. Uma veterana luxuriosa que não sabia seu devido lugar. Ao entrarem na casa dele, Talia se surpreendeu com o lugar luxuoso e ao mesmo tempo barroco que era lá. Era um ambiente agradável, porém um pouco sombrio.

- O... senhor vai querer alguma coisa? – disse Talia, já disposta a começar suas tarefas como uma criada desde então.

- Sim, aliás, quero duas coisas: a primeira, não me chame de "senhor". Aqui, entre nós, pode me chamar simplesmente de "Crocodile". Quando estiver com algum convidado, "Sir Crocodile". E lá fora, o mesmo quando tenho convidados. E a segunda coisa: Você só irá fazer apenas o que eu quiser, ou seja, servicinhos extras não serão necessários, certo?

- Sim, se... Crocodile.

- Isso, aprendeu rápido! – ele bateu levemente na cabeça dela, como um típico cafuné que se faz em animais domésticos. – Agora, vou mostrar toda minha área aqui, e depois, poderá tomar um banho e tirar essas roupas. Vou providenciar novas roupas para você!

- Não... não é necessário. Com o pouco que tenho, já dá para me vestir! – disse a jovem dançarina, modesta.

- Sabe bem que ainda é uma dançarina do rei... e minha também! E terá praticamente a mesma vida que tinha no palácio... – falava enquanto mexia em uma mecha dos cabelos dela. – só que... será minha serva, para tudo o que eu pedir...

Talia ficou um pouco envergonhada em vê-lo tão "íntimo", e se afastou um pouco. Ele percebeu a inocência e, provavelmente, a virgindade dela. Sorriu ao ver aquela timidez toda. Logo foi mostrando sua moradia completa. Tinha três quartos enormes, dois confortáveis banheiros e uma varanda que dava vista para a grande pirâmide que era o cassino. Aquilo tudo era a área de Rain Dinners. O salão enorme, uma cozinha agradável aos olhos e aos outros sentidos, uma sala de estudos, onde Crocodile passava a maior parte do tempo quando estava sozinho ou ocupado com os negócios da Baroque Works.

- Vou esperar na sala, enquanto você se troca. Ah, antes que esqueça: sabe cozinhar?

- Bem... só o básico.

- Irá aprender culinária digna de ser a dona de minha cozinha! – disse enquanto acendia um charuto.

Talia ouvia tudo que ele disse. No fundo, não estava muito animada em saber que seria uma típica empregada doméstica, mas sabia que poderia ser uma grande oportunidade par ela. Ela achava que, agradando Crocodile, iria agradar ao rei. E que deveria ser obediente em tudo. Ganhou um dos três quartos só para ela. Naquele dia em que chegou, Talia não precisou fazer nada. E ainda pode conhecer o cassino e ser apresentada a Nico Robin. Ambas trocaram olhares confusos. Talia estava admirada em ver aquela mulher que sempre estava com Crocodile, e que inspirava confiança e poder depois dele. Robin já não olhava Talia com o mesmo olhar de admiração, e sim de certa preocupação. Crocodile ainda encomendou algumas roupas boas e até caras para Talia, e ela jantou no restaurante do cassino. Tão bem tratada daquele jeito, parecia ser uma filha ou até mesmo uma esposa. Tudo aquilo era definitivamente um sonho real.

Ela ganhou um dos três quartos só para si. E ainda teve permissão para ligar para o rei para falar que estava tudo bem. Enquanto esperava o sono em sua cama, Talia chorava. Não de tristeza, mas de tanta felicidade que não cabia no peito. Lembrou-se da mãe, da pobre mãe, e as lágrimas foram mais intensas. Justo ele, Sir Crocodile, tinha que escolhê-la para ser sua criada pessoal? Ela nunca imaginou que o veria pessoalmente, quanto mais conquistar a confiança dele. Nos dias em que se passaram, naquela mesma semana, Crocodile contratou cozinheiras e costureiras para que ensinassem Talia a arte de cozinhar e costurar. Enquanto ele estava fora a negócios, ela estava muito bem cuidada. Ela não saía de casa sem antes esperar a permissão dele, embora naqueles dias de aprendizagem ela ficou totalmente reclusa.

Alguns dias depois, Crocodile trouxe em sua casa seu braço direito na Baroque Works. Talia foi até Crocodile e pediu se poderia servir algo, bem discretamente, pois só faria apenas o que ele permitisse.

- Miss All Sunday, gostaria de beber alguma coisa? – perguntou Crocodile a Robin.

- Hmm... talvez um vinho.

- Pode nos trazer vinho, Talia? – pediu Crocodile gentilmente.

- Sim, Sir Crocodile. – retirando-se até a cozinha.

Os dois ficaram na sala conversando, enquanto Talia arrumava duas taças e uma garrafa de vinho. Ela serviu os dois e ia se retirando, mas Crocodile a impediu.

- Venha aqui, Talia. Fique conosco.

- E... eu tenho algumas coisas para fazer lá dentro... – Talia estava um pouco envergonhada ali, entre os dois.

- Deixa para depois, quero um momento com você aqui!

Talia o obedeceu. Ficou em pé ao lado dele, mas teve que sentar quando ele bateu levemente no assento ao seu lado.

- Então, All Sunday. Quer dizer que todos os agentes da organização estão prontos?

- Sim, Sir Crocodile. E... não há problemas em outros ouvir essa conversa?

- Não há, não. Além do mais, ela é minha criada aqui. Está a meu serviço e, se precisar, poderemos contar com ela um dia para nossos planos.

Talia ouvia tudo silenciosa, apenas curiosa por dentro. Por que Crocodile era tão aberto com ela? O que ele esperava realmente dela?

- Certo, então. Amanhã, você irá convocar os agentes principais?

- Não, All Sunday. Isso ainda tem tempo... antes quero que passe minhas instruções para os Millions.

- OK.

Depois de acertarem as coisas, Nico Robin saiu. Já sozinho com Talia, aproximou-se mais dela, sentando-se novamente ao seu lado.

- Sabe, Talia... todo esse país aqui terá um novo rei em breve!

- Por que?

- ...porque a hora do poder já está precisando mudar. Mas que isso fique entre nós, ouviu bem? – falou em um tom levemente ameaçador.

- Sim sem... er, Crocodile.

Ele sorriu e continuou.

- Nosso amado rei Cobra não está lidando bem com o controle do governo. Mas não vou desamparar o povo.

Talia sorriu dessa vez, vendo o "idealista" shichibukai na sua frente.

- Concorda que nosso governo precisa mudar?

Ela temeu no que responder. Não queria nem de longe ferir a moral do rei e nem de Crocodile.

- Er... não entendo nada de política, governo... somente de dança e agora serviços domésticos. – disse, abaixando a cabeça.

- Ah, vocês mulheres! E o pior, é que aprecio justamente as que são bem originais que nem você, Talia: devotas do lar e dos cuidados para com ele!

- Realmente... fui criada assim pela minha mãe, para ser dona do lar.

- Entendo... mas, mudando um pouco o assunto, preciso saber mais de você.

- E o que gostaria da saber de mim? Direi tudo, senhor...

Crocodile fez uma careta para ela, de forma brincalhona, quando a ouviu chamar de senhor. Ela se corrigiu novamente ao falar apenas "Crocodile".

- Você é uma mulher pura?

Talia abriu os olhos verdes com certo pudor. Sabia bem o que significava aquele pudor.

- Er... por que... essa pergunta?

- Disse que diria tudo sobre você... até lamento por essa pergunta tão...obscena, mas é preciso. Tenho algumas regras a respeito disso.

- Er... sim, sou. Eu... nunca tive relacionamento antes... também, nunca tive tempo para amar alguém, eu trabalho desde criança para ajudar minha mãe que era viúva.

Ele ouvia coçando o queixo. Talia sabia que a única pessoa que já se apaixonara uma vez... era justamente aquele homem com que estava conversando no momento. E por uns instantes, a pequena chama do seu amor havia acendido com tal pergunta. Mas não se permitia mais nem um pingo de paixões juvenis. Agora, era uma serva de confiança dele, apenas faria o que ele mandasse. E ele não era homem para essas coisas.

- Aconselho que continue assim. Não costumo tolerar que minhas aliadas tenham desses tipos de relacionamentos. Enquanto estiver trabalhando para mim, trate apenas de dedicar-se a mim e as minhas ordens. Pelo visto, já não tem mais família... e continue assim, por enquanto. Vai atrapalhar muito seu desempenho!

- Sim, Crocodile. – disse ela, baixando a cabeça novamente.

- Só apenas permito que se dedique a mim. Por isso que a quero exclusivamente.

As bochechas da moça ardiam. Ela achava aquele diálogo tão confuso, não sabia onde ele queria chegar. Ele era uma mistura de frieza com gentileza. Quais eram realmente as intenções dele com ela? Em algumas palavras que ele dizia, as intenções não eram apenas de tê-la como uma simples criada...