Capitulo 7 - Estado Crítico
Era possível sentir um forte odor a lixívia e medicação nos corredores brancos e imaculados do Hospital de St. Mary localizado em Paddington, Londres.
O detetive Mark Kendrick entrou num quarto VIP para falar com o médico responsável, ao não ter como seguir a investigação. As pistas haviam esfriado e necessitava mesmo de uma nova direção para poder resolver aquele caso, por tal razão queria interrogar a vítima, mas desde que esta havia sido internada a medicação tinha-a mantido sempre inconsciente. Os médicos afirmavam que devido ao seu estado de saúde extremamente debilitado, esta não conseguiria enfrentar as dores com puros e simples analgésicos, pelo que deviam mantê-la sedada até que os ferimentos mais graves terminassem de cicatrizar o que poderia levar semanas e semanas, basicamente uma eternidade que da qual ele não se podia dar ao luxo de dispôr. Como tal, o detetive encarregado daquele caso ia pedir que acordassem a vítima para poder pelo menos tomar o seu depoimento.
Já haviam passado pouco mais de duas semanas desde que os técnicos analistas haviam terminado de coletar evidências da suite do hotel e alguns oficiais de uniforme tinham recolhido vários depoimentos entre os quais o de Gloria, a empregada que encontrara a vítima. O único que restava agora era mesmo falar diretamente com a vítima.
- Dr. Sutter, preciso falar consigo! - exclamou o detetive recém-promovido, um homem jovem de olhos e cabelos castanhos, barrando o médico na porta do quarto e impedindo-o de sair para ir levantar os resultados das novas análises que ordenara fazer com urgência.
- Detetive, se veio pedir outra vez para suspender a medicação do meu paciente a resposta é a mesma que dei na última vez que me veio importunar: Não!
- Mas Doutor…- começou a arguir o homem sendo rapidamente interrompido pelo médico, um homem já maduro na casa dos sessenta anos, mas bem conservado para a sua idade e de atitude séria e conservadora.
- Não vou parar com o tratamento só para você que consiga fazer carreira com este caso. Muito menos às custas da saúde e bem-estar do jovem Malfoy. Sei perfeitamente que este é o seu primeiro caso desde que se tornou detetive… e a primeira lição que deve aprender é que resolver o caso não vale de nada se for às custa da vida da vítima. Mortos não agradecem! - exclamou o homem com voz cortante e mirada que poderia matar até mesmo um morto, tal era a ferocidade.
- Essa nunca foi a minha intenção, Dr. Sutter – defendeu-se o detetive dando um passo em frente e parando em frente do médico.
- E para sua informação, mesmo que fosse, não serviria de nada. O paciente acabou de entrar em coma clínico. Agora volte aos seus donuts – disse o homem com tom sarcástico – Agora, deixe-me tratar do meu paciente, pois senão quiser passar de estar a investigar um caso de abuso e agressão sexual a um homicídio devo começar a mexer-me e você está no meu caminho Detetive – o médico empurrou o homem de cabelos castanhos sem delicadeza alguma e saiu fechando a porta na cara do detetive que ainda tentava segui-lo para poder persuadi-lo.
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Narcisa Malfoy estava que deitava fogo pelos olhos, literalmente, se tal fosse sequer possível. Alguém se tinha atrevido a magoar o seu precioso bebé. Fosse quem fosse agora não importava.
O importante agora era salvar o seu filho, pelo que primeiro de tudo tinha de tirá-lo daquele hospital muggle ou os médicos que o tentavam ajudar em vez disso iriam acabar por matar o seu pequeno com as suas medicações à base de substâncias químicas, fosse lá isso o que fosse. Tinha tentado conter-se para não mandar os médicos dar uma volta ao bilhar grande, mas já não podia. A medicação muggle que lhe haviam estado a administrar tinha acabado de o colocar num coma mágico e os médicos não faziam a mínima ideia de com o que é que estavam a lidar e muito menos de como tratá-lo. Draco era um sangue-puro, pelo que os compostos químicos que conformavam aqueles remédios eram puro veneno para ele. Senão o tirasse dali com a maior brevidade possível, os medicamentos que lhe estavam a injetar por intravenosa iam finar a vida da sua descendência, do seu amado e único filho. Narcisa não podia permitir que tal acontecesse…
O médico responsável pelo tratamento de Draco, tentou alertá-la sobre os riscos de suspender o tratamento no hospital e passar a realizá-lo em casa. Mas Narcisa fez ouvidos surdos a todas as contra-indicações e assinou um formulário, em como atestava que havia sido notificada e por tal facto o hospital não seria de forma alguma responsável das consequências que os seus atos pudessem repercutir na saúde e bem-estar do paciente após este ser retirado dos seus cuidados.
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O detetive Kendrick havia-se mantido em contacto com Narcisa Malfoy para que esta o avisasse no mesmo instante em que Draco abrisse os olhos, pois sem aquele médico chato poderia por fim proceder ao recolhimento do depoimento e assim resolver de uma vez por todas aquele caso.
A campainha tocou e Narcisa abriu a porta da entrada dando passo ao detetive.
- Disse ao telefone que o seu filho acordou.
- Sim, mas infelizmente ainda não reage, está em completo estado catatónico – respondeu a loira com uma grande tristeza no seu coração.
O homem deixou sair um bufo indignado quase impercetível ao ver o seu grande caso ir por água abaixo. Aquele era um caso de alto perfil e a agência do modelo estava a varrê-lo para debaixo do tapete, não querendo atrair a imprensa e obter assim uma má imagem publicitária. O detetive já perdera a conta a quantos advogados tinha tido o desprazer de conhecer nessas últimas semanas. Queria subir na carreira e ser respeitado pelo seu trabalho e não por ser filho de fulano tal. Acaso isso era crime? Todos desejavam ter uma grande carreira, mas por algum motivo até os seus colegas na esquadra lhe haviam chamado a atenção de que estava a ser demasiado pesado nesse caso e que deveria ter a mínima decência de compreender os sentimentos da família da vítima e não atazanar ainda mais os pobres coitados como o tinha estado a fazer até à data. Como se se tivesse sido o caso deles eles não estariam a tentar tudo por tudo para resolver o caso? Um bando de hipócritas… isso era o eles realmente eram…
Era verdade que tinha entrado na força policial porque era o que se esperava dele ao ser o seu pai o chefe da polícia, mas isso não significava que não possuía talento próprio. O único que precisava era de uma oportunidade para poder demonstrar as suas habilidades ao máximo e realmente tinha pensado que aquele era o caso perfeito. Ainda por cima era o seu primeiro caso, jackpot, apesar das reclamações de membros veteranos da força e era um caso de alto perfil, mas tudo caiu por terra quando os advogados começaram a chegar qual desfile de carnaval e ameaçaram processar a cidade e cada pessoa envolvida no caso se o incidente saísse a público e para terminar com a cereja em cima do bolo, o médico não lhe permitia entrevistar a vítima, não que fizesse diferença visto que agora esta estava acordada, mas em estado catatónico. Bom, não se podia ter tudo na vida, certo?!
O detetive entrou no quarto e tentou falar com o loiro, mas foi em vão, pelo que o homem saiu com ar derrotado e prometeu continuar a investigar.
Todas as semanas sem falta um oficial em uniforme era enviado à residência Malfoy para comprovar o estado de Draco… até que um dia simplesmente deixaram de aparecer… assim misteriosamente… quase de um dia para o outro…
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Narcisa tinha por fim podido focar-se em cuidar do seu filhinho e ajudá-lo a recuperar-se pouco a pouco.
Havia deitado todos os medicamentos fora, comprimidos e intravenosas, que o hospital lhe tinha impingido assim que a polícia deixou de aparecer. E iniciado o período de desintoxicação na esperança de que este melhorasse em breve. Ainda quando já estava desperto, o estado de catatónia não cessava por completo.
Foi só passadas umas poucas semanas que Draco mostrou os primeiros sinais de estar finalmente a recuperar a consciência. Piscava os olhos e comia por si mesmo, sem que Narcisa tivesse a necessidade de o auxiliar.
Quando finalmente esteve o suficientemente estável para que a loira de olhos doces e ternos pudesse colocá-lo a par do que o médico havia-lhe contado, Narcisa decidiu ter uma conversa séria, mas acima de tudo franca com o seu querido primogénito.
- Filho, o dr. Sutter, o médico que te atendeu, informou-me sobre o teu diagnóstico… - a mulher estava insegura sobre a melhor a forma de abordar o assunto, mas acima de tudo não estava segura de poder conter as suas próprias emoções controversas.
Não havia nada que desejasse mais no mundo do que acabar com o sofrimento do seu bebé e fazer o bastardo responsável arrepender-se do dia em que a sua senhora mãe sequer sonhara em trazê-lo àquele mundo para ser um fodido cabrão, palavras que obviamente nunca sairiam dos lábios de uma elegante e requintada Lady como o era Narcisa Malfoy.
- Podes falar comigo, meu tesouro – ergueu a mão e acariciou levemente a bochecha pálida e suave do menor -. A mamã está aqui para te apoiar. Não importa o que aconteceu, o importante é que sobreviveste… vamos superar isto… e vais ser ainda melhor do que antes, pois és um sobrevivente, meu pequeno.
As emoções venceram a decisão férrea da mulher no momento em que vislumbrou a primeira de várias lágrimas que desceram pela face de Draco. Narcisa abraçou o filho com todo o carinho que só uma mãe tem e ambos choraram longos minutos juntos por tudo o que haviam atravessado durante os últimos anos e todo o sofrimento que os havia atingido em ambos os mundos.
Narcisa separa-se apenas o suficiente para recostar a cabeça do jovem de cabelos loiros no seu peito e juntou todos os pequenos e ténues resquícios de forças que lhe restavam, para contar a notícia que ela sabia que certamente destruiria um pouquinho mais da já frágil e delicada alma do seu amado rebento.
- Draco, os médicos fizeram vários exames e análises enquanto estavas inconsciente e houve algo que eles ao serem muggles não compreenderam e atribuíram a uma troca de exames entre diferentes pacientes – a loira respirou fundo -. Os exames indicavam uma gravidez pouco antes de entrares em coma, mas ao iniciarem os tratamentos muggles causaram-te um aborto – a mulher sentiu as lágrimas que caíam sobre a sua fina blusa de seda -. Lamento, Draco, mas não já não consigo sentir a magia do feto… - concluiu a mulher passando a mão fantasmagoricamente em frente do abdómen do menor e soltando uma leve onda de energia mágica na espera de que esta fosse absorvida pelo bebé como aconteceria se a gravidez tivesse seguido adiante.
O corpo do jovem de olhos prateados e cabelos de raios de luar convulsionava pelo pranto que o acometia.
Draco entre lágrimas e soluços falou pela primeira vez em longas semanas. O loiro contou tudo à sua progenitora, desde o momento em que tentou encontrar um emprego e acabou a trabalhar para a agência até ao abusos sexuais, tendo sido o último deles às mãos Ronald Weasley.
Narcisa tentava manter a compostura para não ir atrás do filho da sua muito senhora mãe que havia feito aquilo ao seu pequeno filhinho. A mulher abraçava Draco com todas as suas forças e acariciava os seus sedosos cabelos, envolvendo-o protetoramente com a sua magia.
- Um bebé? - perguntou Draco com apenas um fiozinho de voz ao que a sua mãe assentiu com pesar, enquanto este assumia uma posição fetal e se aconchegava no peito da loira – Um… um fi-filho – murmurou o loiro com um soluço e descendo o rosto com pesar e deixando as lágrimas correrem livremente manchando o fino tecido da blusa de Narcisa.
- Sim, querido. Tenho a certeza de que um dia sem dúvida serás o grande pai que eu sei que estás destinado a ser, esta simplesmente ainda não era hora.
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Narcisa tinha-se dirigido à esquadra para poder falar com o detetive Mark Kendrick, quando se apercebeu que este não parecia ter a mínima ideia de quem ela era. O mesmo se repetiu quando tentou conversar com alguns dos polícias uniformizados que haviam estado na sua casa em contadas vezes. Nenhum deles parecia saber de que caso ela falava ou quem ela ou seu filho eram. Ninguém se recordava dos pesares que o seu pequeno havia enfrentado.
Como último recurso, tentou o hospital, mas nem o dr. Sutter ou as enfermeiras que atenderam o Draco a reconheceram. O mesmo se passava com a testemunha que havia encontrado o seu filho na suite do hotel rodeado do seu próprio sangue e sem reação alguma.
Narcisa concluiu que era bastante óbvio que todos aqueles muggles haviam sido vítimas do feitiço obliviate. E só havia uma pessoa em toda o planeta Terra que se poderia beneficiar desta repentina falta de memória e reconhecimento por parte daqueles muggles e essa era Ron Weasley, o motivo pelo qual o seu filho chorava à noite e acordava aos gritos por culpa dos pesadelos que preenchiam cada canto recôndito dos seus sonhos, impedindo-o de dormir pacificamente uma boa noite de sono reparador que ele tão desesperadamente necessitava.
