Mirror

Come 'ere baby...

(Vem aqui, amor...)

You know you drive me up the wall

(Você me deixa subindo pelas paredes)

The way you make good on all the nasty tricks you pull

(Com seus joguinhos perversos)

Seems like we're makin' up more than we're makin' love

(Parece que estamos mais fingindo do que fazendo amor)

Flashback

Damien esperava do lado de fora da escola, havia faltado aula para fumar maconha com outros garotos no centro. Não que fosse algo de se espantar, não eram raras as vezes em que ele fazia aquilo. Não demorou muito para reconhecer os cabelos loiros bem arrumados de um garoto de 16 anos que ajeitava a mochila nas costas, provavelmente muito pesada pelos livros que vivia arrastando pra lá e pra cá.

Antes que Pip pudesse perceber que alguém esperava por ele, alguém o puxou pelo braço fazendo-o parar contra a muro na lateral da escola.

- Damien! - Ele suspirou aliviado. - Quer me matar de susto?

- Desculpe. - O moreno alto na verdade não sentia muito, apenas chegou mais perto e beijou o namorado. - Estava com saudades.

- Oi pra você também. - Pip retribuiu o beijo rápido e agora sentia as mãos de Damien passear por suas costas, colando seus corpos ainda mais. - Senti sua falta na aula.

- Estava no centro. - Damien respondeu, mas Pip já imaginava. - Se você fosse um namorado mais legal, começaria a fazer coisas comigo ao invés de ficar na escola.

- Meu Deus, Damien... - Pipi sorriu sentindo o outro beijar seu pescoço. - Pare com isso, estamos tecnicamente ainda na escola. - Mas Damien não estava ouvindo, ele continuava a trabalhar sua boca pelo pescoço de Phillip, quase no limite de deixar marcas. Ele beijava e mordia a orelha do loiro britânico e estava se empolgando demais. Pra ele, pouco importava se estavam no meio da rua, as três horas da tarde.

Era como se Phillip quisesse pedir pra ele parar, mas seu corpo o impedia de falar qualquer coisa. Quando Damien voltou a beijá-lo, ele não conseguia pensar em nada que não fosse a língua do outro, quente, úmida e com gosto de cigarro passeando por sua boca. Ele sentia a ereção de Damien roçar em sua barriga enquanto o moreno alto puxava seus cabelos pela nuca, bagunçando-os de um jeito que Pip não conseguia mais arrumar depois.

- Ei, Damien... - A voz de um garoto interrompeu os dois e Pip finalmente conseguiu fazer com que o ar entrasse em seus pulmões. Como se voltasse a ficar 'sóbrio'.

- O que é, porra? - Damien esbravejou por ser interrompido. Seus olhos fixos no garoto não muito mais velho que eles. - O que você quer? - Ele reforçou diante do silêncio momentâneo do outro que já estava prestes a se desculpar.

- Preciso do bagulho. - O garoto disse com um traço de medo nos olhos. - Toalha falou que eu poderia conseguir com você.

Damien saiu de perto de Pip e puxou o garoto pelo braço, colocando-o mais perto do muro onde ele e Phillip estavam, como se quisesse se esconder. Damien virou-se de costas para a avenida em frente à escola e tirou do bolso o que parecia ser uma trouxinha de plástico. Pip reconheceu na hora que se tratava de maconha. Ele fez um sinal com a mão para o que o garoto lhe desse primeiro o dinheiro e ele assim o fez. Quando Damien entregou o que o garoto queria, ele quase saiu correndo. Damien gostava quando as pessoas tinham medo dele.

- Damien, você precisa parar com isso. - Phillip foi categórico.

- Não vamos ter essa discussão de novo, Phillip. - Damien foi mais ainda.

- Eu me preocupo com o que pode acontecer com você, será que não entende? Vendendo droga em plena escola? - Pip dizia, mas Damien não parecia se abalar de jeito nenhum.

- Vem, vem comigo... - O moreno alto o segurou pela mão e o levou para dentro da escola de volta.

Obviamente não havia mais alunos por lá, apenas o pessoal responsável pela limpeza da escola. Os dois atravessaram o corredor de salas de aula até o fim, onde uma enorme porta levava para o clube de artes, onde os alunos preparavam apresentações, teatros e onde também aconteceria o baile da escola em alguns meses.

Haviam camarins nos bastidores e, apesar de escuro e um pouco bagunçado, era possível encontrar o caminho até a salas onde os alunos trocavam de roupa, faziam maquiagem e até alguns ensaios antes de entrar no palco principal. Durante todo o caminho, Pip perguntava para onde Damien o estava levando, mas o garoto nada dizia, apenas ria enquanto andava rápido arrastando o loiro.

Quando chegaram finalmente onde Damien queria, um quarto escuro para troca de roupas. Ele tentou ascender a luz, mas estava queimada. A escuridão não era cega, mas ainda assim a penumbra fez Pip tropeçar em alguma coisa no chão, mas ele apenas riu e Damien então parou, ficando de frente pra ele.

Era estranho para ele explicar mas os olhos de Damien praticamente brilhavam, mesmo que não houvesse luz, mesmo que apenas a fresta da porta parcialmente aberta fosse a única iluminação dentro do pequeno quarto. O jeito que Damien olhava pra ele era definitivamente um jeito completamente novo, não só vindo do namorado, mas com certeza vindo de qualquer pessoa. Ninguém jamais havia olhado daquela forma para Pip, nunca. Daquele jeito como se ele fosse a única pessoa no mundo, a mais importante, o mais ímpar dos seres humanos. Era como se Damien, daquele jeito torto dele, estivesse dizendo que seu mundo estava ali, bem à sua frente.

Antes que pudesse organizar seus pensamentos, sentiu novamente Damien o beijando de uma maneira tão agressiva e tão terna ao mesmo tempo que teve a certeza que precisava do quanto amava aquele garoto e jamais seria capaz de amar outra pessoa daquele jeito.

As mãos de Damien estavam frias e Pip sentiu as costas arrepiarem quando o moreno jogou sua mochila num canto e rapidamente tirou seu casaco e sua camiseta branca. Damien parou de beijá-lo e olhou para ele com a mesma intensidade de antes.

- Eu quero que você seja meu. - Damien disse num sussurro. - De todas as formas, porque você é a única coisa que eu tenho na vida, Phillip. Você é a única pessoa que me aceita e me ama apesar do que eu sou. Você nunca mais será de mais ninguém. - Ele segurou Pip circulando um braço pela cintura e com a outra mão em seu rosto, certificando-se de que Phillip o olhava nos olhos.

- Eu te amo muito, Damien. - Phip respondeu de uma maneira quase inaudível. Sabia o que estava prestes a acontecer e, apesar do medo e da insegurança, ele tinha certeza que aquilo era certo simplesmente porque era a pessoa certa.

Ele tirou a camiseta preta de uma banda de punk qualquer que Damien usava, já bastante desbotada. Olhou para a cintura do moreno alto quando Damien apenas o assistia tirar seu cinto e desabotoar tuas calça. Phillip não estava excitado simplesmente pela situação, mas o fato de conseguir deixar Damien daquele jeito – com o pau duro feito uma rocha – também contribuía para que ele sustentasse uma ereção como aquela.

Phillip tirou as próprias calças com a ajuda do namorado que agora ajoelhava-se em sua frente olhando para o membro de Phillip apontando pra ele. Ele passou as mãos pelas coxas do britânico e teve certeza que não levaria mais que alguns segundos para Phillip gozar se ele realmente quisesse fazer aquilo acontecer rapidamente. Mas não, não era o que ele queria. Aquela espécie de 'tortura' que Pip sentia já que Damien estava demorando tanto para tocá-lo deixava o moreno ainda mais excitado.

Ele puxou uma cadeira e fez Pip sentar-se, tinha certeza que ele mal conseguia aguentar ficar em pé. Estava ofegante e começando a suar, um desespero bom que ele jamais pensou que alguém fosse capaz de lhe proporcionar. Quando sentou na cadeira, sentiu a boca de Damien percorrer sua virilha, aquela língua atrevida dele passeava lentamente pelos testículos de Pip enquanto ele agarrava seu membro com uma das mãos ouvindo Phillip segurar um gemido quase sofrido, quase implorando para Damien simplesmente fazer ele gozar.

Mas não, Damien estava se divertindo demais com aquela situação para deixar que acabasse tão cedo.

- Damien, por que está demorando tanto? - Ele dizia com a voz baixa, como se estivesse fazendo um grande esforço.

- Porque é pra ver se você nunca mais vai esquecer de que eu sou a única pessoa capaz de fazer isso com você. - O tom de voz da resposta de Damien Thorn foi não somente excitante, mas manipulador.

Ele deu uma última olhada para o rosto de Pip, viu a testa dele brilhar de suor e seus olhos eram quase negros devido a sua pupila dilatada pela escuridão. Ele percebeu que o loiro estava com os lábios um pouco maiores do que eram normalmente, teve certeza que o beijou de forma muito agressiva. Ele sabia que não poderia demorar porque Phillip gozaria facilmente, mas mesmo assim não iria perder a oportunidade de chupá-lo, de engolir seu pau com tanta voracidade que a cada movimento podia sentir os testículos dele baterem em seu queixo.

Notou que o loiro fazia um esforço grande para não gemer muito alto e não chamar atenção de quem quer que estivesse na escola aquele dia. Mas Pip tinha acabado de descobrir a melhor função que Damien poderia dar a própria boca. Ele estava com receio de olhar pra baixo e simplesmente gozar em menos de dez segundos ao ver Damien naquela posição, lhe dando aquele prazer absurdo, chupando e babando em seu pau duro, de joelhos no chão.

Nada antes tinha sido tão prazeroso para Pip do que sentir aquilo e, mais do que tudo, ver aquilo.

Nem que ele realmente tentasse ou talvez fosse mais experiente, ele conseguiria segurar aquilo. Se pudesse descrever, talvez ele dissesse que gozou tão forte que era como se sua alma tivesse deixado seu corpo por alguns milésimos de segundo. Não que fosse um problema, mas ele nem conseguiu colocar as palavras em ordem para avisar Damien que iria gozar.

Ficou com receio de que talvez ele não tivesse gostado, mas Damien não somente engolia e lambia seu pau, como também sorria de uma maneira prepotente, como se deixasse claro que a única pessoa capaz de proporcionar um prazer daquele tamanho era ele e mais ninguém.

That kind lovin'

(Esse tipo de amor)

Turns a man to a slave

(Transforma um homem num escravo)

That kind lovin'

(Esse tipo de amor)

Sends a man right to his grave

(Manda um homem direto para sua sepultura)

- Damien, eu... - Pip não conseguia se mexer. Todo seu corpo estava relaxado e entorpecido.

- Vem aqui. - Damien levantou-se e o puxou da cadeira sem muito cuidado. Virou Philip de costas pra ele mandando que se apoiasse na cadeira.

- Você sabe que eu nunca fiz isso, Damien... - E Phillip, apesar daquela confiança cega e nada saudável em Damien, estava com medo.

- A única coisa que eu quero ouvir é você dizendo que está gostando. - Damien dizia num sussurro débil no ouvido do outro. - Eu quero só que me diga que não devo parar, que é pra eu te foder com mais força... - Damien dizia enquanto passava uma das mãos entre as nádegas do loiro, introduzindo devagar um de seus dedos dentro do outro, que posicionava um dos joelhos em cima da cadeira. - Porque é exatamente o que você vai querer.

Apesar de Damien estar sendo o mais paciente que conseguia naquele momento – porque sabia que não era nem de longe uma coisa fácil ou indolor – ele sabia que não teria outra forma de fazer aquilo e, quando começou a ouvir os gemidos do outro, soube que ele estava sentindo dor. Era inevitável, pelo menos na primeira vez era impossível. Especialmente porque não estavam usando lubrificante.

Damien continuava acostumando Pip com a invasão usando dois dedos, quando então juntou a calça do chão e, em sua carteira, achou uma camisinha. Não demorou muito para colocar e Pip não evitou pensar que Damien definitivamente já havia feito aquilo antes.

Ele colocou-se de volta atrás do outro, segurando-o com uma mão pelo quadril e a outra, passeando pelos cabelos de Pip como se tentasse acalmá-lo. Quando ele estava começando a ficar mais relaxado, Damien passou a se colocar dentro dele aos poucos. Ele sabia que Phillip não conseguiria evitar os gemidos de protesto, mas não tinha mesmo outro jeito de fazer aquilo. Quando estava completamente dentro dele, puxou de leve seus cabelos e aproximou a boca da orelha de Pip, passando a mão dos cabelos dele para o pescoço.

- Eu sei que dói. - Ele dizia sentindo o coração do outro bater tão rápido que sentiu que precisava acalmá-lo antes de continuar. - Mas se você ficar tranquilo, vai doer menos. Eu não vou mentir pra você e dizer que a primeira vez vai ser fácil, mas é só no começo. - Ele se aproximava ainda mais, mas não se movia, apenas permanecia dentro do outro para que ele se acostumasse. Estava conversando para distraí-lo. - Preciso que relaxe seu corpo e que confie em mim. - Ele dizia mas Phillip continuava com os músculos travados. - Respira, Phillip... - Ele dizia porque sabia que se tinha uma coisa que Pip fazia era obedecê-lo.

E Pip assim o fez. Respirou fundo duas vezes sentindo Damien beijar seu pescoço. Damien estava excitado não somente pela situação, mas também porque podia sentir a respiração e os batimentos do loiro enquanto segurava seu pescoço. Era uma sensação indescritível o fato de ter tanto controle sob uma pessoa como o que ele estava tendo agora. Sentia seu próprio pau pulsar dentro dele, como se pedisse para ser bombeado. Apertou o quadril do outro como se testasse e então ficou parado mais uma vez, voltando a sussurrar no ouvido do outro.

- Eu vou deixar você começar. - Damien dizia como se desse instruções. - Vem, fode o meu pau.

Aos poucos Pip começou um movimento de vai-e-vem um pouco desajeitado, ainda sentia dor, mas era melhor que ele começasse, pois poderia dar o tom do ritmo que queria que aquilo acontecesse. Phillip já na primeira vez que o fez, quase fez o membro de Damien sair por completo, e então voltou a senti-lo dentro de si. Duas vezes. E ele sentia que Damien estava novamente sendo paciente e deixando o outro no controle por um momento até que tivesse liberdade para fazer ele mesmo.

Depois de alguns minutos, Phillip realmente já entendia do que Damien estava falando: era realmente indescritível o que ele estava sentindo. E Damien percebeu, foi então que ele passou a aumentar o número e a velocidade das estocadas, segurando o namorado com as duas mãos no quadril. O puxava e empurrava-se para dentro agora se dando ao luxo de pensar somente em si mesmo e no quanto aquilo o satisfazia.

Ele não conseguia se concentrar exatamente no que Phillip dizia, mas ouvia a voz dele pedindo mais e dizendo tudo aquilo que ele realmente queria ouvir. E, naquele momento, no momento em que gozou dentro do outro, sabia que Pip não estava dizendo aquilo só para agradá-lo, mas sim, porque era algo que ele realmente queria.

Damien fez um certo esforço para continuar de pé, mas sentia suas pernas perderem o equilíbrio. Ele apoiou seu corpo em Pip antes de sair completamente de dentro dele. Suas costas estavam suadas e sua nuca também, alguns fios dourados dos cabelos de Pip também estavam molhados.

- Damien... - Philip perguntou ao ver que o outro pareceu ter desmaiado. - Você está bem?

- Estou. - Foi a resposta do outro que aos poucos pareceu voltar a si. Tinha acabado de se dar conta que precisava livrar-se de uma camisinha usada e estava em plena escola. O problema é que ele não poderia se importar menos. - E você?

- Estou. - Pip livrou-se da cadeira e, por mais cômico e trágico que fosse, até um pouco humilhante, ele riu e Damien não entendeu.

- O que foi? - O moreno alto perguntou quando encontrou um pedaço de papel qualquer, enrolou a camisinha e jogou no lixo.

- Estou cansado. - Pip dizia rindo quando o namorado voltava a se aproximar. - Mas não posso me sentar. - Os dois riram baixinho juntos e Damien o abraçou. Não estavam sequer com pressa de vestirem-se.

That kind lovin'
(Esse tipo de amor)

Makes me wanna pull
(Me faz querer abaixar)

Down the shade, yeah

(As cortinas, sim)

That kinda lovin'

(Esse tipo de amor)

Yeah, now I'm never, never, never, never gonna be the same

(Sim, agora eu nunca, nunca, nunca, nunca mais serei o mesmo)

Fim do flashback

A escuridão da floresta poderia facilmente esconder qualquer um e Damien Thorn sabia daquilo, talvez era um dos motivos pelo qual ele escolheu encontrar-se com Phillip lá. Eles haviam chegado e, depois de muita conversa para convencer Cartman, ele e Butters esperavam um pouco mais afastados de onde Pip encontraria Damien. Em frente à mata, havia sido feito um pequeno parque, com bancos e alguns brinquedos para crianças.

Os dois esperavam sentados no banco: não da maneira convencional, mas sentados sobre o encostos do banco e com os pés onde supostamente deveriam estar sentados. O banco ficava embaixo de uma árvore e Cartman só sentou-se depois que Butters insistiu, pois ele estava o deixando nervoso andando de um lado para outro.

Eles tentavam procurar Pip para segui-lo apenas com o olhar, mas era impossível ver qualquer coisa passando daquelas árvores.

Phillip olhou ao redor e entrava ainda mais naquela mata escura a fim de procurar quem deveria encontrar. Ele estava com as duas mãos nos bolsos do casaco e usava o capuz, escondendo-se quase que completamente. Ele pensou em chamar por Damien mas estava receoso, talvez o moreno alto tinha visto Cartman e Butters e tinha ido embora. Ele olhou para os lados mas não via sinal de viva alma.

Quando tirou o capuz percebeu um brilho de metal se aproximar dele, saindo de trás de uma das arvores. O brilha vinha de uma corrente que Damien tinha pendurada na calça, a lua refletia dando a impressão de que havia luz naquela escuridão. O que parecia ser algo até bonito, dava um tom horripilante quando se podia escutar o barulho metálico daquilo, dando a impressão de que eram correntes de ferro, já que o andar de Damien era pesado e pretensioso.

Ele viu Phillip com aquele olhar fazendo-o lembrar de um coelho assustado no meio daquela floresta. Ele manteve uma certa distância encostando-se em uma árvore.

- Estou aqui, Damien, o que quer comigo? - Phillip começou ao ver que Damien parecia não estar disposto a dizer muito, quando simplesmente ascendeu um cigarro e o encarou.

- Desculpe se o assustei ontem. - Damien disse depois de um silêncio relativamente longo. Ele baforou a fumaça para longe e aproximou-se de Pip, que não respondeu. - Você sabe que tenho problemas com ciúmes.

- Você tem problemas com muitas coisas, Damien. - Pip começou mais como num impulso do que algo pensado. Damien franziu o cenho.

- E então? Já terminou aquele seu namoro ridículo com aquela bichinha do Clyde? - Damien recomeçou a Pip voltou a ficar com medo. Damien se aproximou do ouvido de Phillip e disse com desejo na voz. - Duvido que ele te come melhor do que eu.

- Não Damien. - Pip sentiu um arrepio lhe correr a espinha, mas sabia que se mentisse iria ser pior. - Não terminei com ele. Eu amo Clyde e quero ficar com ele.

Damien rangiu os dentes e Pip percebeu que seu maxilar ficou rígido como se ele estivesse mordendo algo com força. Ele fez um movimento com a mão que segurava o cigarro, tirando alguns fios de cabelo bagunçados do rosto de Phillip. Ele chegou ainda mais perto e tragou o cigarro mais uma vez.

- Realmente acha que consegue me enganar? - Damien dizia, tentando se acalmar, mas com raiva de ter ouvido aquilo. - Você não ama o Clyde. Você pode pensar que o ama, porque estava sozinho, vulnerável sem mim pra te proteger. - Ele virou o rosto para jogar a fumaça do cigarro para longe. - A única pessoa na sua vida que você ama de verdade, sou eu Phillip. - Damien sorriu de canto, não porque era maníaco e egocêntrico o suficiente para crer naquilo, mas porque sentia que, só pelo fato de Phillip ter feito o que ele pediu, significava alguma coisa.

- Damien, por favor, não me machuque. - Ele disse ao perceber que Damien o estava encurralando. Bateu as costas de leve em uma árvore e foi então que percebeu que não teria pra onde ir.

- Te machucar? - Damien abaixou-se alguns centímetros para ficar na mesma altura que Pip. - Sabe que eu nunca faria isso. - O moreno disse dando mais uma tragada no cigarro. - Eu posso, e vou, - ele frisou – te matar se eu quiser. Mas machucar... Não. - Ele chegou a sorrir quando terminou a frase. - Sabe que sou louco por você, Pip. E se você não for meu, não vai ser de mais ninguém. - Damien continuou como se aquilo fosse um assunto normal. - Você sempre foi meu, sempre vai ser... Seu lugar é ao meu lado e, sei o quanto isso soa clichê, mas você sabe muito bem que não uso esse tipo de coisa para fazer metáforas ou dar exemplos. Você pertence a mim, Phillip.

- Não sou sua propriedade, Damien. - Phillip tirava uma coragem que não sabia de onde viria. - Pare de me tratar assim. Você é realmente... - Ele fez uma pausa para se corrigir. - Foi muito importante pra mim, mas não posso esquecer que, quando teve a oportunidade, você não me escolheu.

Damien agora entendia que apenas lidava com um Phillip magoado, ressentido. Percebeu enfim que Clyde era a última de suas preocupações. Ele passou a ver o problema com outros olhos. Pip não amava Clyde.

- Pip... - Damien retomou parte da pouca razão que tinha e baixou os olhos. Jogou meio cigarro no chão e pisou em cima. - Eu sempre escolheria você.

- E onde você estava nos últimos 3 anos, Damien? - Pip aproveitou a deixa da guarda baixa do outro. - Como pode me pedir para deixar Clyde quando quem estava lá por mim era ele e não você. - Phillip era quem rangia os dentes agora.

- Cala a boca. - Damien disse voltando a encurrala-lo na árvore. Agora o fazia de fora indiscriminada, sem disfarçar que o estava prendendo. - Cala a boca, Phillip. Não fala desse viado pra mim desse jeito, como se ele fosse melhor do que eu pra você porque ele não é. - Damien tinha uma certeza interna muito grande daquilo.

Phillip, mesmo que de forma inconsciente ou por medo, obedeceu. Ficou calado e Damien viu que lágrimas começavam a se formar nos olhos cor de gelo de Phillip. Era a única coisa que mexia com seu emocional: quando aqueles olhos ficavam vermelhos de choro por algo que ele disse ou fez.

Talvez, mesmo dentro da loucura que vivia Damien Thorn, Phillip Pirrup era a única pessoa capaz de atingi-lo daquela forma, fazer com que ele questionasse tudo que fazia. Para o resto do mundo, Damien estava pouco, mas bem pouco mesmo, se lixando.

- Você precisa entender, Pip... - Damien começou pausadamente, tentando não ser agressivo, tentando se controlar. Mas a vontade que tinha era de colocar Pip dentro do seu carro e levá-lo para longe, para um lugar onde ele, apenas ele, teria acesso ao loiro. Queria colocar Pip dentro de uma caixa onde apenas ele, Damien, pudesse olhar pra ele. - Que eu sou a pessoa certa pra você. - Apesar dos sentimentos de Damien serem reais, sua obsessão era doentia.

- Não importa como eu me sinta, não consigo mais confiar em você. Vou sempre sentir medo que vá me abandonar de novo. - Pip não poderia estar sendo mais sincero, enquanto secava a primeira e única lágrima que caiu. - Preciso, peço por favor, Damien... - Ele dizia buscando os olhos do velho Damien que namorava quando eram adolescentes. - Imploro para que me deixe em paz.

Damien respirou fundo e deu um passo para trás, percebeu que então Phillip pode respirar novamente.

- Desculpe, Phillip. - Damien franziu o cenho e olhou diretamente nos olhos de Pip. - Sabe que não tenho problemas em fazer o que você me pede, mas isso... - Ele olhou de longe e viu a sombra de Cartman e Butters. - Eu não posso fazer. Você vai voltar pra mim, querendo você ou não. - Ele disse e andou de volta pelo mesmo caminho que tinha vindo.

Pip respirou fundo e sentia simplesmente triste. A verdade é que, pela primeira vez em anos, ele percebeu que Damien, daquele jeito completamente louco e de uma maneira nada saudável, ainda mexia com ele seriamente. Por outro lado, pensava em Clyde, em toda gratidão, em todo carinho, em todos os momentos incríveis que tiveram juntos, em tudo que Clyde fez por ele, lhe deu uma vida nova, novas perspectivas... Que tipo de vida ele teria com Damien?

Não, não podia fazer aquilo, era ridículo. Não tinha como Damien competir com Clyde, Pip não era mais adolescente pra tomar decisões baseadas apenas em emoções e medo. Ele admitia internamente que não sentia por Clyde o que um dia sentiu por Damien, por outro lado sabia que aquilo que viveu com Damien era uma aventura adolescente e que jamais daria certo numa vida adulta. Ele precisava ser racional, especialmente sabendo que, apesar de Damien ser apaixonado por ele, daquela maneira que só ele entendia, Thorn era um homem perigoso que já tinha provado muitas vezes que não sabia ter qualquer tipo de responsabilidade e maturidade.

Don't ever leave me

(Nunca me deixe)

Say you'll always be there

(Diga que sempre estará lá)

All I ever wanted

(Tudo que eu sempre quis)

Was for you

(Era que você)

To know that I care

(Soubesse que me importo)

- Pip está demorando. - Cartman andava de um lado para outro, impaciente, encarando a parte da floresta pela qual Phillip tinha entrado.

- Senta nessa porra de banco, Cartman, você está me irritando. - Butters meio que explodiu ao dizer. Sentou-se mais para o canto oferecendo espaço para o amigo.

- Foda-se você, Butters. - Cartman disse no mesmo tom, mostrando o dedo do meio para o loiro de moicano sentado de frente pra ele.

- Crianção. - Butters murmurou para si mesmo respirando fundo. Cartman fingiu que não ouviu.

- O que acha que estão conversando? - Cartman agora parou de andar, coçou a cabeça, estava nervoso. Pôs as duas mãos no bolso do jeans azul claro e esperou uma resposta de um Butters que parecia despreocupado.

- Acredito que eles têm muito para conversar. - O garoto disse bocejando em seguida. - A história deles é longa e foi cortada pela metade. Muitas pontas soltas.

- História... - Cartman debochou. - Esse escroto desse Damien nunca deveria ter saído da cadeia.

- Por que? - Butters disse cruzando os braços devido ao frio. - Houve investigação, ele foi preso, se considerou culpado durante o julgamento, cumpriu pena... De acordo com nossos sistema, ele tem direito a liberdade condicional. A parada funcionou pra ele. - Butters quase filosofava a respeito. - Não tem porque ele ser rechaçado agora, entendo a hostilidade das pessoas, mas quanto ao sistema... O sistema funcionou. - Ele concluiu e Cartman olhava pra ele com clara desaprovação.

- O cara é maluco, Butters! Ele ameaça as pessoas, a personalidade dele é de um completo maníaco sociopata. Ele tem essa fixação em ser superior e querer que as pessoas tenham medo dele. Isso sem falar nas atrocidades que ele aprontou na escola e durante o ensino médio...

- Até onde isso me interessa, Cartman, essa descrição caberia perfeitamente em você. - Butters disse e Eric cerrou os olhos com raiva. O loiro, no entanto, rendeu-se ao riso.

- Vai se foder, Butters, seu cuzão. - Cartman quase gritou mas Butters continuou rindo. - Qual é o seu problema?

- Eu não tenho problema nenhum, Eric. - Butters levantou-se do banco onde estava. - Mas você certamente tem vários.

- Ah é mesmo? - Eric chegou mais perto dele. Era até engraçado ver a cena, já que Butters tinha crescido mais e era um pouco mais alto que Cartman, fazendo com que o jogador de basquete se tornasse menos ameaçador agora.

- É. - Butters respondeu impaciente, passou uma das mãos pelo rosto. - Pra começar, esse seu jeito de tratar a situação toda entre o Pip e o Clyde. - Butters continuava gesticulando com os braços. - Se os dois são seus amigos, não pode tomar partido e ter esse tipo de aproximação de um cara como Pip. Ele já passou por muita coisa na vida, coisas que você nunca se importou em saber quais eram e, agora, você está de quatro pelo Clyde e, só porque ele está jogando no Denver Broncos, acha que tem que ficar do lado dele e resolver os problemas pra ele. O que você quer, Eric? - Cartman estava um pouco transtornado ao ouvir aquilo tudo. - Ingressos para os jogos de Clyde? Desfilar no tapete vermelho da fama ao lado dele? Quer ser best friend de uma celebridade? Até nessas horas você realmente só consegue pensar em si mesmo. - Ao concluir, o loiro bufou. Engoliu a seco e estava esperando uma reação de Cartman, mas talvez ele só conseguisse mesmo alguns palavrões e xingamentos.

Mas Eric não disse nada. Ficou calado por alguns segundos como se procurasse uma resposta para aquilo tudo. O problema é que ele nem sabia por onde começar.

- Eu só estou tentando ajudar. - Cartman respondeu perdendo-se em seu próprio raciocínio e Butters mal conseguia acreditar que realmente havia conseguido tocar num ponto que talvez ninguém antes tivesse conseguido.

- Não, não está! - Butters respondeu sentindo-se mais seguro agora. - Você mais ajuda quando não ajuda! Você enche a boca para falar isso ou aquilo do Damien, mas ele pelo menos aceita a natureza dele. Você não, Eric, você tenta convencer a si mesmo e a todos que só está fazendo "pelo bem de todos"... - Ele foi irônico. - Quando na verdade você está mais atrapalhando que ajudando. Se eu não tivesse chegado agora a pouco para conversar com Pip, o que teria acontecido? Você tem problema em canalizar as coisas. Por isso até hoje não consegue admitir para si ou para o Kyle que é completamente apaixonado por ele.

Cartman arregalou os olhos e sentia-se como se estivesse nu em frente ao público.

Mas antes que ele pudesse pensar em qualquer resposta, a sombra de Pip movia-se na direção deles com pressa. Butters andou ao encontro dele e Cartman, talvez pela primeira vez na sua vida, sentia-se acuado ao tentar se aproximar e atrapalhar. Era engraçado pensar que quem o faria olhar no espelho daquela forma era justamente o cara que mais tratou injustamente desde o momento que conheceu.

So hold on the ones who really care

(Então fique com aqueles que realmente se importam)
In the end they'll be the only ones there

(No fim, eles serão os únicos lá)
When you get old and start losing your hair

(Quando você envelhecer e começar a perder cabelo)
Can you tell me who will still care

(Diga-me, quem ainda estará lá?)