Capítulo Sete
Running Into Dawn
Bronwyn entrou na cabana de Charlie e tirou a sacola de compras do ombro. Frequentemente ele caia na cama na manhã seguinte à uma semana de turnos noturnos e dormia sem tomar café da manhã. Já Bronwyn estava entediada. Ginny tinha voltado para casa àquela tarde. Seu pai estava em alguma conferência, e não queria cozinhar apenas para si mesma, e Charlie certamente estaria com fome quando acordasse. Colocou a sacola no balcão e acenou sua varinha na direção dela. Batatas e cenouras voaram até a pia. As lavou, antes de enfeitiçar uma pequena faca para tirar suas cascas e cortar as batatas em pequenos cubos. Enquanto elas ferviam no fogão, tirou as cascas das cenouras e as cortou em pedaços. Então, descascou e picou uma cebola, feliz por poder usar magia. As cebolas não apenas a faziam apertar os olhos até quase não conseguir ver e lágrimas correrem por seu rosto, como também deixavam um cheiro que não gostava em suas mãos. Quando conseguiu espetar um cubo de batata com o garfo sem nenhuma resistência, amassou as batatas, enquanto os bifes de cordeiro fritavam em uma frigideira. Pegou a gordura restante do cordeiro e a colocou em outra panela com um pouco de farinha para poder fazer molho, novamente grata por poder usar magia para que o empanado não ficasse duro, enquanto colocava os vegetais na mesma panela da carne. Ervilhas completaram a mistura, trazendo pontinhos verdes à cor da carne, cebola e cenoura. O purê de batata circulava a caçarola e ela misturou o molho à carne, espalhando-a sobre o purê. Bronwyn cobriu tudo com mais purê de batata, e colocou a pesada caçarola no forno. Torta de carne. Exatamente do jeito que Charlie gostava.
Um aceno casual de sua varinha limpou a cozinha, higienizando-a com a mesma meticulosidade que empregava à enfermaria. Sem mais nada a fazer até que a torta estivesse pronta e ela pudesse acordar Charlie, Bronwyn correu um dedo pela espiral dos cadernos de rascunho pretos que ele mantinha na estante. Tinha visto alguns dos desenhos dele antes. A maioria eram sua família e alguns dragões com que trabalhava na Romênia, e até mesmo uma paisagem da reserva, mas ele preferia desenhar pessoas. Tirou um caderno da estante e se acomodou no tapete gasto. O primeiro desenho era de Ginny. Era de um ano atrás. Ela estava sentada na grama, os braços ao redor das canelas, a bochecha descansada em seus joelhos, mechas de cabelo circulando seu rosto. Ela estava olhando para algo fora do desenho. Os pais dele no casamento de seu irmão mais velho, há dois anos, dançando como se não possuíssem nem uma preocupação. Seus irmãos mais novos, os gêmeos, quando garotos. Charlie podia se apresentar como alguém solitário, mas o amor que ele sentia por sua família era evidente nos detalhes dos desenhos. As pequenas mãos de Ginny, que conseguiam parecer fortes mesmo com o tamanho que tinham. A maneira como seu pai abraçava sua mão fortemente, mesmo depois de quase trinta anos de casamento. O brilho arteiro nos olhos de seus irmãos. Eram detalhes íntimos, ditados pelo desejo de pertencer.
Bronwyn colocou o caderno em seu lugar, e pegou o próximo. Esse fora preenchido por seu último ano na Romênia. Várias páginas tinham a imagem de uma mulher. Ela não era o que Bronwyn chamaria de bonita. Interessante, com certeza, mas não feia. Apenas normal. Ela parecia ser uma série de quadrados, ângulos e linhas retas. Seu cabelo era liso, cortado bem abaixo da linha do maxilar. Suas sobrancelhas eram retas e grossas, delineando olhos retangulares. Seus ombros eram largos, assim como seu torso. Era não era gorda, mas a coisa mais distante de ser leve. Ela estava nua e não parecia ter vergonha do fato. Fascinada, Bronwyn virou mais algumas páginas até encontrar outro desenho nu da mulher misteriosa. Nessa, ela estava deitada de lado e Charlie a tinha desenhado da cabeça aos pés. Charlie não tinha omitido nada, ou tentado deixá-la mais atraente do que ela era, mas Bronwyn não conseguia tirar os olhos da mulher. Mais uma vez, era íntimo e, apesar da nudez da mulher, não era nem remotamente pornográfico.
A porta do quarto se abriu, e Charlie apareceu na porta, aparentemente despreocupado com a presença de Bronwyn em sua cabana. Uma mão pousou na parte da frente de sua boxer, e ele se coçou, bocejando abertamente.
- O que está cozinhando? – resmungou, atravessando a sala para se sentar ao lado de Bronwyn no tapete.
- Torta de carne.
- Brilhante. – Charlie olhou ao redor da sala de estar. – Onde está Ginny?
- Suponho que em casa. Ou no apartamento de Harry se ele aceitou o pedido de desculpas.
- Quando ela foi?
- Por volta das três horas. Eu a levei até King's Cross.
Charlie pareceu aliviado.
- Oh. Bom. Eu podia jurar que ela entrou no quarto e falou algo sobre isso. Pensei que estava sonhando. Quase entrei em pânico quando ela não estava aqui.
Bronwyn olhou para o caderno mais uma vez.
- Quem é essa? – perguntou.
Charlie esfregou uma mão pelo rosto, apertando os olhos para o desenho.
- Masha.
- Masha?
- Marya Nikolayneva Tvardovskya. Masha. Ela era de um vilarejo da Sibéria.
- Ela era... Sua... Namorada?
- Não. – Charlie pegou o caderno de Bronwyn e o folheou. – Como foi que Bill chamou...? Amizade colorida? Sim.
- Então, você dormia com ela?
- Às vezes. – Charlie admitiu sinceramente. – Estávamos confortáveis um com o outro, e ela sabia que eu não a amava, e ela não me amava.
- Como sabe? – Bronwyn desafiou. – Ela podia estar louca por você.
Charlie riu.
- Não Masha. Ela não era sentimental por nada. Nem ninguém. Ela foi mal tratada quando criança, então ela não formava fortes ligações com as pessoas. Ela disse que foi encontrada por um soldado em uma estação de trem quando era bebê. Ele a levou para um orfanato. Ela ficou lá até ir para Durmstrang. Ela sempre se manteve afastada das pessoas. E eu passei minha vida toda cercado por uma família enorme, ou pelos outros alunos de Hogwarts. Eu gostava que ela não exigisse nada de mim. E estava tudo bem. Até que eu vi o que Bill tinha com Fleur. – Charlie fechou o caderno e o colocou de volta na prateleira. – Vamos comer, sim? Estou morrendo de fome. – ele se levantou e cambaleou até seu quarto. – Só deixe eu colocar uma calça ou qualquer coisa assim.
Tomada por um impulso que não queria questionar, Bronwyn se levantou e dedilhou os botões de cima da blusa de algodão que estava usando. Charlie voltou a entrar na sala de estar, fechando o zíper de seu jeans velho, e Bronwyn deliberadamente abriu o primeiro botão.
- Me desenhe. - implorou suavemente. Outros dois botões foram abertos, e Bronwyn conseguiu passar a roupa frouxa pela cabeça. Charlie colocou as mãos nos bolsos, parado no meio do tapete, olhando para seus pés descalços. Bronwyn soltou sua blusa e levou uma mão até suas costas, abrindo o sutiã com um movimento dos dedos. Balançou os ombros para que o sutiã caísse, pousando sobre sua blusa. - Me desenhe. - Charlie engoliu em seco e olhou para cima, olhos azuis escuros cheios de indecisão. Bronwyn abriu o próprio jeans e os abaixou, junto de sua calcinha, pelo quadril com um movimento fluído. - Charlie... Eu quero que você me desenhe...
Charlie soltou o ar com estremecer, e tirou a varinha do bolso de trás. Fagulhas vermelhas saíram da ponta e ele amaldiçoou levemente, antes de balançá-la na direção da cozinha.
- Não quero que o jantar queime. – outro balançar de varinha trouxe seu lápis e seu caderno de desenho até sua mão. – Erm. Apenas... – Charlie olhou loucamente ao redor. Pegou a mão dela. – Vem... – a guiou até o quarto, e indicou a cama bagunçada. – Deite-se... – cruzou os tornozelos de Bronwyn, antes de descruzá-los, seu toque subitamente impessoal. – Não... Isso não vai funcionar. – Charlie colocou um joelho de lado, de modo que a sola do pé dela descansasse contra o tornozelo oposto, antes de erguer o braço esquerdo dela para circular a cabeça, e espalmou a mão direita na barriga. – Abra um pouco os dedos. – murmurou, cutucando a mão direita dela. Arrastou a cadeira do canto do quarto até a lateral da cama e se sentou. – Vire um pouco a cabeça para esse lado. – pediu. – Mais. Sua bochecha tem que encostar no seu braço... Sim, assim. Feche os olhos. – Charlie se recostou e deixou seus olhos correrem por Bronwyn uma última vez. – E relaxe... Apenas... Fique mole... Como se estivesse dormindo...
- Vou tentar. – Bronwyn soltou o ar e se acomodou na cama de Charlie, inalando a mistura de cheiro de Charlie, o sabão de lavar roupa e o cheiro fraco, mas inconfundível e amargo dos feitiços contra fogo que ele colocava em todas as roupas que usava. Seus olhos se fecharam e ela sentiu os dedos ásperos dele ajeitarem algumas mechas de seu cabelo e gentilmente roçarem em sua bochecha, antes de se afastarem, sendo substituídos pelo som da ponta do lápis correndo pela superfície áspera do papel. Remexeu-se um pouco depois de vários minutos.
- Não se mexa. – Charlie disse asperamente.
- Minha bunda está ficando dormente. – Bronwyn murmurou.
- Uma pena. – Charlie esticou uma mão e colocou uma mecha de cabelo no lugar. – Só mais um pouco. – prometeu, soando vago. Estava perdido em moldar linhas e sombras a algo que lembrava Bronwyn, já meio excitado. Nunca desenhara alguém que pudesse amar da maneira que seus pais se amavam. Cada movimento de seu lápis o excitava ainda mais. A maneira que o cabelo dela era encaracolado. Ombros magros e um torso estreito até a cintura, que abruptamente se abrira em quadris largos, coxas, panturrilhas e, finalmente, seus pés longos com dedos longos. Seios que mal enchiam suas mãos. Sobrancelhas sobre olhos largos, bochechas proeminentes, com uma leve curva para formar o queixo, que salvava seu rosto de ser pontudo. O lábio superior, o inferior grosso. Usou a ponta do dedão para suavizar as sombras entre os seios e coxas, antes de usar o dedinho para amenizar a linha do maxilar. Assinou e datou o canto direito, antes de acenar a varinha na direção do papel, murmurando um feitiço que impediria que o grafite borrasse. – Pronto.
- Posso ver?
Charlie hesitou, antes de passar o caderno para Bronwyn. Ela estudou o desenho com o cenho franzido.
- Não parece comigo. – disse simplesmente. Charlie a tinha desenhado do jeito que o tinha feito com Masha, sem alterações. Mas havia algo no desenho que não a deixava desviar os olhos.
- Parece, sim. – Charlie ofereceu. – É o jeito que eu te vejo, pelo menos.
Bronwyn suspirou e fechou o caderno.
- Pelo menos, você não quis me desenhar de costas. – resmungou. – Você precisaria de mais papel para poder desenhar minha bunda. – olhou por cima do ombro com zombaria. – Mais como uma bunda e meia.
- Gosto da sua bunda. – Charlie se juntou a Bronwyn na cama, puxando a camiseta pela cabeça.
- Não está com fome? O jantar vai estragar se nós não...
- Que se dane o jantar. – a cabeça de Charlie se abaixar e se aninhou na curva de seus seios. – O jantar pode esperar...
-x-
Hermione enlaçou a mão de Ron com a própria, enquanto caminhavam pelas calmas ruas de Oxford. Os calos criados por uma vassoura estavam sumindo das mãos dele, mas novos estavam se formando em seu dedo médio direito e dedão pelo uso excessivo de uma pena. Ela tinha um parecido em sua própria mão. As cutículas dele estavam laranjas, e nenhuma quantidade de lavagem ou de feitiços fazia a cor sumir. Era algo que teria que esperar sumir sozinho, ele tinha lhe dito com um dar de ombros resignado.
- Você parece cansado. – comentou.
- Férias de verão. – ele respondeu, abafando um bocejo. – É sempre mais corrido do que quando o semestre escolar começa. Pelo menos, é o que George me disse.
Hermione o olhou, culpada. Tinha usado a última semana para não fazer nada. Dormira até tarde, lera livros Trouxas por prazer, até mesmo assistira algumas partidas de futebol, enquanto seu pai tentava, mais uma vez, lhe explicar as regras.
- Você precisa de ajuda? Só começo no Ministério no início de Agosto.
- Nah. Temos David e Sasha. Eles são bons em manter a frente arrumada.
- Posso ajuda nos fundos.
- Nós damos conta, Hermione. – Ron disse rudemente. – Desculpe. – adicionou, vendo-a abaixar um pouco a cabeça. – Não é você. – respirou fundo e parou de andar. – O quanto você queria morar no apartamento em cima da loja? – perguntou ansiosamente. – Eu sei que falamos sobre isso no natal.
- O quanto você quer morar lá? – retorquiu.
Ron a levou até um ponto de ônibus vazio e se sentou no banco. Estava começando a chover. Ficou em silêncio por um momento, observando a garoa ficar cada vez mais forte até que ele conseguisse ver a água batendo contra o asfalto.
- Eu realmente quero ir morar sozinho. – admitiu. – E não quero aparatar ou usar a lareira em bases regulares. Acho que vou acabar me estrunchando ou vou terminar em, sei lá... Yorkshire. George me paga bem. Mais do que tínhamos concordado em fevereiro. É bastante generoso. E eu dei uma olhada em apartamento em Londres, mesmo nas partes mais precárias, e eu gastaria todo meu ouro no apartamento. E o Beco Diagonal é... Bem, alguém tem de morrer para conseguir um apartamento lá. – se escorou no encosto, apoiando a cabeça na parede do ponto. – Às vezes, Harry realmente consegue tudo fácil. – murmurou.
- Ron, você não pensa isso! – Hermione murmurou suavemente.
- Eu sei. – Ron disse envergonhadamente. – Olhe para o que ele precisou perder, mas caramba, Hermione, ele não precisa se preocupar com o pagamento ao senhorio. Quando ele estava arrumando suas coisas, ele me disse que conseguiria comprar vassouras para todos os times de Quadribol de Hogwarts e que não faria diferença em sua conta em Gringotes. – olhou timidamente para Hermione. – Mas é tolo sentir ciúmes disso, não é? – Hermione balançou a cabeça. Dinheiro era um tópico delicado para Ron, dado quão pouco a família dele tivera quando ele era mais novo. – Eu nunca quero herdar esse dinheiro todo da maneira que Harry herdou. – Ron adicionou, um pouco na defensiva. – George não quer me deixar ficar no apartamento sobre a loja. – disse simplesmente. – Katie disse que ia me ajudar a convencê-lo, mas ele não vai ceder tão cedo.
- Oh. Entendo. – Hermione dedilhou as sardas das costas da mão tensa de Ron. Indignação irradiava dele, quase uma aura visível; se alguém acreditasse em tal coisa, isso é. – Pensei em ficar um tempo com meus pais. – confessou.
- Ainda se sentindo culpada por tê-los mandado para Austrália? – Ron perguntou.
- Um pouco. – Hermione se encostou em Ron e ele passou um braço ao redor de seus ombros. – O que Harry está fazendo, - começou. – morando sozinho...? – mais sentiu do que viu o assentir de cabeça de Ron. – Eu não quero fazer isso, ainda. – admitiu. – Sinto muito... – murmurou.
Ron suspirou.
- Não tem por que se preocupar com isso agora. – disse finalmente. – Vou continuar procurando por algo... – se ergueu, levando Hermione consigo. – Vou te levar para casa, eh?
Hermione permaneceu parada.
- Ron? – chamou, puxando sua mão.
Ele olhou por sobre o ombro.
- Sim?
- Isso não tem nada a ver com você. – explicou. – Nós crescemos tão rápido. Rápido demais. E eu senti falta de ter minha mãe ficando em cima de mim. – Hermione deu um passou na direção dele. – Parece completamente ridículo quando dito em voz alta.
Ron balançou a cabeça.
- Eu entendo isso, mulher. – disse gentilmente. – Se eu não conseguir encontrar outro lugar, antes de George alugar o apartamento, nós conversamos novamente e vemos aonde estamos, certo?
- E se eu ainda não quiser morar com você?
- Então, eu vou morar lá sozinho. – Ron bufou. – Eu sei me cuidar, sabe. Até consigo lavar minhas calças. – resmungou.
- Você sabe lavar roupa?
- Sempre o tom de surpresa com você. – Ron resmungou. – Sim. Roniquinho sabe lavar suas calças e meias. E, na maior parte do tempo, elas não saem manchadas ou com cores diferentes.
- Na maior parte do tempo?
- Lembra minha boxer do Chudley Cannons?
- Sim...
- Não são mais tão laranjas. Meio que uma cor de lama, na verdade. E minhas meias brancas ficaram rosas.
- Você as jogou fora?
- É claro que não! – respondeu perplexo. – As meias ainda estão boas. E mamãe me mostrou como arrumar. Ainda estão meio rosadas, mas não está tão ruim. – tirou um pequeno guarda chuva do bolso. Era do tamanho da palma de sua mão, mas quando pressionou o botão púrpura, o guarda chuva ficou com um diâmetro de quase um metro. – Protótipo da loja. – disse orgulhosamente quando viu a expressão surpresa de Hermione. – Trabalhei nisso com George. Tem um feitiço impermeável, também. Impede que seus pés fiquem molhados.
- É brilhante.
Ron não corou, mas as pontas de suas orelhas ficaram rosadas.
- Obrigado. – saiu do abrigo do ponto de ônibus para a chuva forte. – Queria saber como Ginny se saiu em seu teste. – refletiu, segurando o guarda chuva sobre ambos.
- Ela já deve ter voltado. A não ser...
- A não ser o quê?
- A não ser que ela tenha decidido continuar com Charlie até o treino começar.
- Hmmm. – Ron resmungou. – Acho que vamos descobrir no domingo, então.
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Ginny virou e encontrou algo estranho em sua cama. Só que não era sua cama estreita d'A Toca, e o algo era Harry, esparramado sobre o cobertor, e enrolado em uma colcha. Ginny não reconheceu como uma das coisas que ele tinha levado para o apartamento quando se mudara, mas tinha todos os traços de ter sido costurado por Molly. Tinha sido costurado em vários tons de verde — desde o pálido tom de verde acinzentado até o profundo tom de verde da Floresta Proibida. Molly sempre gostara de Harry em vermelho ou verde. Afastou o cabelo do rosto e franziu o cenho. Isso era estranho. Quando tinha ido se deitar na noite anterior, seu cabelo estivera cuidadosamente trançado. Virou a cabeça sobre o travesseiro, e notou o elástico pendurado nos dedos de Harry. Quando que ele fez isso?, Ginny se perguntou, tirando uma mecha de seu cabelo de sob a mão frouxa dele. Furtivamente, afastou a ponta da colcha. O último ano trouxera várias mudanças nele. As sombras que circulavam seus olhos estavam desaparecendo. Seu rosto estava mais cheio, e não mais tão fundo. Até mesmo a cicatriz, que se destacava em sua testa, estava mais leve e menor. E ele dormia. Os leves movimentos de seus olhos sob as pálpebras lhe diziam que ele estava sonhando com algo, mas continuava a dormir pacificamente, com nenhum sinal visível de pesadelo.
O alarme começou a tocar suavemente, antes de ficar mais forte. Ginny tentou alcançar o relógio do outro lado de Harry, mas ele fez uma careta e esticou a mão cegamente, batendo-a sobre o relógio, silenciando o barulho irritante. Ele abriu os olhos lentamente e sorriu, quase como um Amasso com um canário.
- 'Dia. – ele murmurou roucamente.
- Bom dia.
Harry beijou a ponta de seu nariz, antes de remexer um pouco, se soltando da colcha. Para a surpresa de Ginny, ele pegou um par de short de futebol e uma camiseta em sua cômoda.
- Alguns dos Aurores gostam de correr um pouco pela manhã. – contou. – Ajuda a ficar em forma. – foi apenas depois de ter tirado sua camiseta e estar prestes a tirar a calça do pijama, que ele percebeu que teria que se trocar no banheiro. Não achava que Ginny apreciaria ter de encarar a nudez dele logo cedo na manhã. Além do mais, a boxer branca que estava segurado em uma mão não era sua primeira escolha de roupas intimas, mas ela mantinha todas as coisas onde eram supostas a estar. A primeira vez que ele tinha ido correr com os outros Aurores, tinha usado suas boxers costumeiras, e suas partes tinham ido de um lado para o outro de uma maneira bastante dolorosa. Depois disso, passara a usar roupas que mantinha tudo no lugar.
Ginny se sentou, afastando o cabelo do rosto.
- Posso ir?
- Por quê?
- Jogares de Quadribol precisam ficar em forma também, bobão. – falou, jogando o cabelo. Levantou-se da cama, fuçando na cesta de roupa lavada pelas roupas que Charlie tinha lhe dado alguns dias antes e foi para o banheiro. – Me dê cinco minutos! – pediu.
- Certo... – Harry respondeu em confusão. O que acabou de acontecer? Dando de ombros, tirou a calça do pijama, e colocou a boxer, cuidadosamente as arrumando; e a si mesmo. Vestiu o shorts de futebol branco e as meias, antes de vestir os tênis, e passar uma camiseta limpa por sobre a cabeça. Ginny saiu do banheiro, usando sua calça e top de corrida. Pegou o elástico no travesseiro e prendeu o cabelo em um rabo de cavalo alto.
- Vamos. – Ginny disse, se equilibrando em um pé, enquanto colocava uma meia em um pé, e então o outro.
- Você não é muito fofa a essa hora da manhã. – Harry observou.
Ginny congelou com um tênis pendurado em uma mão.
- Como é?
- Muito alegre. – Harry resmungou, indo até o banheiro para escovar os dentes.
- Então, o que te fez começar a correr pela manhã? – Ginny perguntou, enquanto terminava de colocar os tênis.
Harry parou na porta do banheiro, a escova de dentes na boca.
- Eles me convidaram naquele encontro na casa de Peter, mês passado. – murmurou por entre a espuma. Cuspiu na pia. – Supus que não poderia machucar fazer um social. – adicionou, antes de colocar a mão sob a torneira e enxaguar a boca. – Ajuda a relaxar.
- Relaxar?
Harry colocou a varinha no bolso que tinha feito no short e gesticulou para Ginny segui-lo para fora do apartamento.
- Estresse do trabalho... E outros estresses... Você sabe.
- Você não tem idéia. – Ginny retorquiu.
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Eles se aproximaram de um grupo de Aurores, conversando suavemente na névoa da manhã.
- Isso aqui é um clube do bolinha ou uma garota pode participar? – Ginny perguntou, colocando um pé sobre o banco para se alongar.
- Tem certeza de que pode nos acompanhar, guria? – perguntou um homem da idade de Arthur.
- Eu acabei de assinar oficialmente com as Harpies. – Ginny ofereceu.
- Oh, mesmo? – ele retorquiu ceticamente. – Qual posição?
- Você vai ter de ler o jornal de hoje e descobrir. – respondeu cuidadosamente.
Peter Wilson, o supervisor de Harry, riu.
- Você é a caçula de Arthur Weasley, não é?
- Sim.
- Bem, você não pode ser pior que Harry, no primeiro dia que ele correu com a gente. – Peter disse.
- Oh, não... – Harry murmurou em horror, cobrindo o rosto com as mãos.
Peter sorriu afetadamente.
- O coitado agüentou por trinta metros. Nunca o vi tão vermelho, no ano em que o conheço. Achei que ele ia desmaiar depois de mais trinta metros. Estava mancando tanto nos últimos trinta metros, que ficamos com pena e o aparatamos para casa. – Peter deu um tapinha nas costas de Harry. – É claro que ninguém nunca disse ao garoto que ele precisava usar algo mais justo ou Willy e seus dois compadres não ficariam satisfeitos.
Ginny escondeu um sorriso com a mão. Harry estava quase da cor de um tomate. Ele parecia esperar que a terra se abrisse sob seus pés o engolisse.
- Tenho corrido cinco ou seis dias por semana desde o final de março. – ela falou. – Acho que dou conta.
- Vamos indo. – um dos Aurores chamou. – Quanto mais cedo fizermos isso, mais cedo posso voltar para a patroa.
- Deixou ela dormir até mais tarde essa manhã, Garry?
Garry deu um último puxão em seus cadarços e se ajeitou.
- Erm. É. Claro.
- Ela provavelmente disse para ele deixar de ser um bundão preguiçoso e a deixar em paz. – outro Auror provocou.
- Anda logo. – Garry bufou, começando a correr.
Os outros o seguiram. Ginny ficou atrás do grupo, bem atrás de Harry. Sutilmente, quatro Aurores formaram um perímetro ao redor de Harry. A sobrancelha de Ginny se ergueu levemente e ela inclinou a cabeça na direção dele, antes de olhar para Peter, correndo ao seu lado.
- Hábitos antigos são difíceis de morrer, guria. – ele murmurou. – Ainda há alguns que dariam tudo para pular no garoto.
- Você acha que ele não percebe o que vocês estão fazendo? – Ginny zombou.
- Ele sabe. Observe.
Harry fez uma careta e diminuiu o ritmo deliberadamente até que estivesse um pouco atrás de Ginny. Peter continuou a correr ao lado dela por vários passos, ou foi o que pareceu. Ele se movia um centímetro por vez, até estar do lado de Harry. Alguns outros diminuíram o passo para cercá-lo mais uma vez.
- Voldemort está morto há um ano, sabe. – Harry reclamou. – E o resto do pessoal dele foi capturado. E os Malfoys não saíram de sua casa há semanas.
- Não dá pra ser cuidadoso demais. – Peter o lembrou.
- Eu tenho corrido com vocês por quase dois meses. – Harry afirmou. – Você não acha que se alguém quisesse me atacar, já não teriam feito isso?
Peter bufou.
- Não se esqueça que Olho-Tonto foi meu professor.
- Constante vigilância! – Ginny se intrometeu.
- Exatamente. – Peter concordou. Ele sorriu para Harry. – Eu gosto dela.
- Podemos parar de falar e correr? – Harry ofegou. Ginny pensou ter visto a sombra de um sorriso no rosto dele. Apenas esperava poder encontrar esse nível de camaradagem com as Harpies.
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Percy carregou uma bandeja de madeira até o quarto de seu apartamento. Ele a colocou sobre a cômoda e observou a figura que estava espalhada em sua cama. O longo cabelo de Penny estava espalhado sobre o travesseiro e ao redor de seus ombros. Pegou uma das xícaras de chá da bandeja e a passou por sob o nariz dela.
- Penny...
- É melhor que passe das oito da manhã. – ela resmungou, espiando por entre suas mechas.
- Erm... – Percy olhou culposamente para o relógio. Era oito horas. – Não é antes das oito. – tentou.
Penny se sentou e arrumou os travesseiros contra a cabeceira da cama, examinando Percy. Todos os fios de cabelo estavam no lugar, seu pijama estava tão amassado quanto no momento em que os vestira. A gola não estava nem um pouco torta. Até mesmo o chinelo parecia ser novo.
- Sábados foram feitos para dormir até mais tarde, sabe. – resmungou, aceitando o chá.
Percy colocou as mãos em seu roupão cuidadosamente bem fechado.
- Eu dormi até sete e meia. – contou. – Isso é bem tarde para mim. – se virou para a cômoda e pegou a bandeja, segurando-a cuidadosamente, enquanto se sentava ao lado dela na cama.
Penny estudou a bandeja de café da manhã.
- Você me faz sentir uma preguiçosa. – afirmou.
- Você tente morar com minha mãe. – Percy disse, cobrindo uma torrada com geléia de morango. – Ela faz um cadáver se sentir preguiçoso. – mastigou a torrada por um momento, sentindo um pequeno calombo em seu bolso. – O que você vai fazer na semana, depois de terça-feira?
- Trabalhar, até onde eu sei.
- Pode tirar alguns dias de folga?
- Por que eu preciso de alguns dias de folga?
Percy tirou uma pequena caixa do bolso.
- A não ser que você não se importe com a lua de mel... – falou, oferecendo a caixinha para ela.
Penny a aceitou e colocou sua xícara na bandeja, cuidadosamente abrindo a caixinha de veludo negro. Uma aliança estava aninhada no interior. Um diamante arredondado estava acomodado entre dois menores, o aro de ouro branco, brilhando sob a luz do candelabro ao lado da cama.
- Oh. Eu...
- Penny, você não me abandonou, mesmo quando todos os outros o fizeram. Eu não gostei de quem eu era sem você, e eu quero passar o resto de minha vida com você. – quando Penny não respondeu, seus olhos fixos na aliança, sem piscar. – A maioria de suas roupas já está aqui. Pode também trazer o resto das suas coisas.
- Oh, Percy... – as pontas dos dedos de Penny cobriram sua boca. – É adorável.
- Bem?
Penny tirou a aliança da caixinha e o colocou em seu dedo. Emoldurou o rosto de Percy em sua mão, e gentilmente o beijou em resposta.
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Harry usou a gola da camiseta para secar o suor sobre seu lábio.
- Você é boa. – disse a Ginny.
- Obrigada. – respondeu arrogantemente. – Eu achei que Gwenog estava maluca quando ela me disse que eu tinha que começar a fazer isso, mas me ajudou quando estava nos testes. – Ginny disse com rancor. Passaram por uma padaria e cheirou o ar apreciativamente. – Estou morrendo de fome.
Harry analisou as roupas de Ginny.
- Não estou com dinheiro. – começou. – E não tenho certeza de onde você poderia guardar o dinheiro aí... Mas posso voltar e comprar alguns desses pães.
Ginny deu um último olhar de desejo para as comidas, e continuou andando na direção do beco deserto de onde poderiam aparatar.
- Eu disse que estou morrendo de fome, não faminta. Quero comida de verdade.
- Posso fazer isso. – Harry disse, passando os braços ao redor da cintura dela. – Ovos, bacon, salsichas, tomates grelhados, cogumelos, e torradas?
- Leu minha mente. – Ginny ficou na ponta dos pés. – Graças a Deus eu só como assim aos finais de semana. Teria que usar um toldo se comesse assim todos os dias. – roçou a boca contra a de Harry, as mãos descansando em seu quadril. Lentamente, as correu pelo quadril dele, encontrando-se na base de sua coluna, as pontas dos dedos roçando a curva do traseiro dele.
A respiração de Harry falhou e ele se afastou levemente.
- Pare. – mandou. – Vou acabar estrunchando nós dois se você continuar fazendo isso...
- Não iríamos querer que isso acontecesse. – Ginny murmurou. Moveu suas mãos, de modo que pudessem se entrelaçar no meio das costas dele. – Vamos.
Harry gemeu levemente, e tirou a varinha do bolso do shorts. Casa... pensou, imaginando o patamar no topo da escada em frente ao seu apartamento. Hmmm. Casa... Ginny em minha cama essa manhã... Pare de pensar na Ginny em sua cama! Merlin, quão pervertido você pode ser?
- Erm, Harry?
- Sim?
- Você está bem?
- Sim. Apenas... Me dê um minuto... – Harry respirou fundo e se forçou a imaginar o patamar, mantendo os pensamentos longe sua cama bagunçada, que certamente teria os traços da fragrância de Ginny. Apertou os olhos e se concentrou mais do que nunca antes de aparatar. Quando a sensação sufocante sumiu, cuidadosamente abriu os olhos e quase caiu em alívio quando viu que tinham conseguido aparecer no patamar. – Você está bem? – perguntou quietamente.
- Nunca estive melhor. – Ginny respondeu, as sobrancelhas se juntando brevemente. – Você?
- Apenas surpreso que não estrunchei um de nós...
- Talvez eu devesse ter feito a aparatação. – Ginny provocou.
- Não pode. – Harry disse apenas. – Enfeiticei para que apenas eu pudesse aparatar no patamar. – afastou uma mecha de cabelo do rosto de Ginny e se inclinou para beijá-la propriamente, procurando cegamente pela maçaneta atrás deles. Ginny o estava distraindo, tendo levado suas mãos para sob a camisa dele. Mãos que escorregavam sobre sua pele suada. Frustrando com a sua falta de habilidade em abrir a porta, Harry acenou sua varinha na direção da peça de madeira, que abriu. Começou a andar, ainda beijando Ginny, antes de fechar a porta com o pé assim que entraram. A boca de Ginny se separou da sua pelo tempo necessário para sua camisa passar por sua cabeça. Delicadamente, ela lambeu a curva de seu pescoço, sentindo o gosto salgado de seu suor. Ela o sentiu erguê-la nos braços, enquanto a colocava sobre o balcão da cozinha. O contraste da superfície gelada contra seu corpo quente a fez ofegar ruidosamente. Deliberadamente, passou as pernas ao redor do quadril de Harry, prendendo-se nele; a excitação dele se fazendo bastante clara. As boxers dele nunca tinham permitido que ela o sentisse dessa maneira, e o tecido fino do short de futebol era uma barreira ridícula entre eles. As mãos de Harry deslizaram de sua cintura até a parte de baixo de seus seios, as costas das mãos dele roçando-os. Seus mamilos endureceram em resposta e Ginny gemeu contra o pescoço dele.
Sem nenhum aviso, Harry se afastou, girando sobre os calcanhares. Ele abriu a porta da geladeira, o peito se mexendo no ritmo de sua respiração.
- Vá se lavar. – ele disse rudemente, apertando a porta da geladeira com tanta força, que os nós de seus dedos estavam esbranquiçados.
Ginny se encolheu levemente. Respirou fundo, por um lado grata que Harry tivera controle o bastante para parar as coisas, antes que os dois fizessem algo de que se arrependeriam, e por outro lado desapontada que eles tivessem parado. Deslizou para fora do balcão e foi até o banheiro, tirando suas roupas úmidas. Entrou na banheira e abriu o registro, sem esperar que a água esquentasse. Ginny rapidamente lavou o cabelo e sua mão ficou parada a poucos centímetros de seu sabonete, antes de pegar o sabonete com cheiro de sândalo que Harry usava. Ignorou a toalha de rosto pendurada na borda da banheira e esfregou o sabonete nas mãos até conseguir bastante espuma, e correu as mãos por seu corpo. Passar a maior parte de uma hora correndo atrás de Harry, observando o movimento do traseiro dele enquanto ele corria a deixou com a cabeça um pouco mais do que leve. Tirar a camisa dele fizera uma dor se apresentar entre suas coxas. Não era a primeira vez que se sentira assim. Tinha sentido desse modo quando beijara Michael ou Dean, mas era como comparar uma gota de água à um rio agitado.
Terminou seu banho e fechou o registro, enrolando o cabelo em uma toalha, enquanto enrolava outra ao redor do corpo. Ginny pegou suas roupas com uma mão e se forçou a andar lentamente até o quarto de Harry, onde suas roupas estavam. Vestiu-se rapidamente e soltou a cabelo, para secar. Saiu do quarto e parou no meio de um passo. Harry tinha entrado no banheiro para se lavar. A porta estava entreaberta e ele estava de costas para o espelho. Ele puxou o short e a boxer pelas pernas, deixando-os cair no chão. Ginny sentiu as bochechas corarem e rapidamente deu as costas para a visão do traseiro de Harry.
Olhar para o corpo nu dele não ia ajudar o café da manhã ficar pronto mais rápido. E ela estava com fome. Ficaria com a comida por agora.
Continua...
N/T: Obrigada pelos comentários no capítulo anterior. (:
A tradução do título é algo como "correndo para o amanhecer" (sou só eu, ou isso não faz sentido?).
Escolha dessa semana: dia 31/08 ou 07/09?
Em outra nota, estive pensando em começar a dar alguns "sneak peek" das fics por vir, na meu twitter. Ou seja, postar uma frase ou duas de fics que ainda não foram postadas lá no twitter, para deixar vocês na vontade e... Enfim, vocês entenderam! :D
Comentem suas opiniões, ou me mandem mensagens privadas aqui ou falem comigo no twitter.
Mais uma vez obrigada e até a próxima!
