CAPÍTULO VII


~ Athenodora ~


Em meus sonhos apenas surgia o rosto de Caius Volturi. Meu corpo adormecido apenas chamava por Caius. Com os cobertores sobre meu corpo, mas o frio da noite batendo em meu rosto. Como se fossem suas mãos sobre ele. Estava demasiado frio naquela noite. Minhas pálpebras cerradas franziram-se. Estava muito frio! E um vento gelado batia contra meu rosto. Talvez tenha deixado a janela aberta. Abri os olhos e olhei a janela. Eles abriram-se, surpresos. A janela estava aberta. E sentado nela estava Caius Volturi fitando-me com seus olhos negros. Ergui meu tronco da cama, olhando-o nos olhos. Era como se minhas preces tenham sido ouvidas!

- Caius…

Ele desceu da janela e caminhou para mim. Sentou-se a meu lado e sua mão tapada com luva de cabedal preto tocou meus lábios com cuidado e carinho. Agora seus olhos tinham um estranho brilho. Eu olhava-o com tanta paixão. E em meu peito meu coração batia forte por ele. Não o conhecia, sequer. Mas era ele o amor da minha vida, tinha a certeza disso. E o meu destino era estar junto dele.

- Como me posso sentir deste modo, se tudo o que sei sobre ti é o teu nome? – questionei-o.

- Pois o mesmo sinto eu. – respondeu-me.

As minhas mãos pegaram na dele e retirei-lhe a luva de cabedal, deixando-a cair sobre os lençóis da minha cama. Ele pareceu preocupado e hesitante em deixar eu lhe tocar a pele. Era fria. Muito fria. E sua carne era tão pálida e dura. Seus lábios pousaram na mão dele e enchia-a de pequenos e devotos beijos. Ele cerrou as pálpebras e suspirou longamente. A minha mão subiu-lhe ao rosto e sentiu-o estremecer ao meu toque quente.

- É isto um sonho?

- Sonhamos juntos, então. – proferiu Caius – E que continuaremos sonhando.

Sorri-lhe. E foi a primeira vez que vi um sorriso nos lábios de Caius Volturi. Queria eu continuar a sonhar junta com ele. Que sonhássemos até ao fim dos nossos dias!

- Beijai-me, Caius.

Ele olhou-me com uma expressão um tanto sofrida.

- Não posso. – confessou ele, erguendo-se da cama.

Olhei-o surpresa e desapontada.

- Não me amas, pois não? – suspirei – Não apareceste esta noite. Desculpai-me se foi por meu atraso que partiste.

- Não há desculpas. – cessou Caius – Houve um contratempo.

Olhei-o tristemente.

- Claro que vos amo. – confessou ele - Como poderei pensar tal coisa?

- Porque não me beijais?

- Porque não posso. – uma expressão sofrida surgiu-lhe ao rosto - Posso não aguentar; não sei se tenho forças suficientes.

Olhei-o sem compreender.

- Sem o vosso amor não existo. – confessei-lhe – Foi ele me salvou naquela praia. Preciso de vós a meu lado. Para sempre.

Caius olhou-me como se as minhas palavras não fossem uma metáfora. "Para sempre". A ele soava-lhe verdadeiro.

- Para sempre; vós direis.

- Para toda a eternidade. – jurei – Eu vos irei amar.

- Tenhais consciência do que falais? – questionou-me. – Como podeis amar-me?

Ergui-me da cama e caminhei para ele. Minha mão tocou-lhe o manto de veludo negro e seus olhos negros fitaram os meus.

- Como poderei não vos amar? – corrigi.

- Não fazeis ideia de quem sou ou do que sou, Athenodora. – avisou Caius.

- Quem sois vós?

- Sou Caius Volturi. – respondeu-me – Um dos três líderes dos Volturi, a família mais poderosa do meu mundo.

Um grito ecoou pela casa. Assustei-me e olhei a porta. Era a voz de Fioralba. Gritava o meu nome e o de Giovanni, pelas escadas. Caius subiu para a janela sem qualquer dificuldade, ajoelhou-se e beijou meus lábios com suavidade. Eram frios e duros, mas incrivelmente macios. Cerrei minhas pálpebras durante aquele segundo que podia durar a eternidade. Abri os olhos e ele já se tinha ido. Todo o ar foi devolvido aos meus pulmões quando abri meus olhos.

A porta atrás de mim abriu-se em urgência. Olhei para trás, sobressaltada. Fioralba vinha com o rosto manchado de lágrimas. Juntamente com Giovanni e seu pai. Todos choravam. Fioralba correu a abraçar-me. Quando me contou da notícia entre prantos chorosos foi um choque. Eloisa tinha sido assassinada.

*

O funeral decorreu no dia seguinte na igreja de Volterra. Não estivam muitas pessoas presentes, Eloisa não era uma pessoa muito sociável ou bem querida entre a população. Havia pessoas maldosas que vinham falar entre dentes a dizer que corria o rumor que ela era na verdade prostituta e que estava grávida do filho de alguém importante na cidade e que foi assassinada por isso. Contudo, nada era a verdade. Disseram os médicos que ela foi assassinada com uma faca no pescoço. Mas não havia cicatriz disso. Apenas dois furos no pescoço. Eu não gostava de funerais. Estávamos agora no cemitério, onde o corpo de Eloisa iria ser enterrado.

Fioralba estava inconsolável. Sua última conversa com a filha tinha sido uma discussão. E a dor de perder um filho deve ser temível. Não imagino caso fosse eu a fazer o funeral de uma filha minha. Caminhei para longe, tentando abstrair-me da situação terrível onde me encontrava. Mas apesar de toda a tristeza, o meu egoísmo falava mais alto. E apenas desejava o meu próximo encontro com Caius Volturi.


~ Caius ~


Estava na biblioteca do palácio dos Volturi. As palavras de Athenodora, suas juras de amor eterno, repetiam-se na minha mente vezes e vezes sem conta. Tinha de me livrar de minhas noivas e tornar Athenodora a minha única e eterna esposa. Ela era a única digna de meu amor e de me acompanhar na eternidade. Ela era bela, não era uma mulher comum, era inteligente. E me amava acima de todo. Mas desconhecida quem na realidade eu sou. O que eu sou. Se soubesse ela do poder que eu detenho, iria ela amar-me? Se soubesse que eu sou um monstro cujo alimento é sangue humano, iria amar-me?

- Boa tarde, irmão. – cumprimentou-me Aro, abrindo as portas da biblioteca.

- Esqueço-me eu que é tarde.

- Não nos esquecemos todos? – sorriu Aro, sentando-se a meu lado – Quando a eternidade nos pesa as costas e quando não podemos receber a luz do sol. Bem, sinto que algo te preocupa faz alguns dias. Marcus falou-me que sente um sentimento diferente em ti; e que isso o deixou muito surpreso.

Olhei-o. Conversas nas minhas costas, pelo que vejo.

- Mostra-me.

Ele estendeu sua mão para mim e com os olhos fez sinal para eu lhe tocar. Ainda hesitei. Mas se a minha decisão de Athenodora se tornar minha esposa fosse avante, Aro e Marcus iriam ter conhecimento. Coloquei minha mão sobre a de Aro. Ele soltou um suspiro de admiração. Não demorou muito até ele se actualizar de tudo.

- Hmm, interessante. – comentou Aro – O meu irmão ama!

- Que achas dela? – questionei-o.

- É uma bela peça, sim. – confirmou Aro – Dará uma vampira muito interessante.

- Vampira? – repeti.

- Óbvio. – vincou Aro – Como esperas que ela se torne tua esposa sem a transformares primeiro? Ou ainda não tinhas pensado nesse pormenor?

De facto, ainda não. Transformar Athenodora era algo impensável. Podia matá-la ao faze-lo e depois todos os meus maiores receios se irão tornar realidade.

- Nunca te pensei tão inseguro, meu irmão. – observou Aro. – Toma a decisão certa; que certamente tomarás.

- Que acontecesse a Valquíria, Demonia e Guinevere?

- Que desejas que lhes aconteça? – propôs Aro.

Pensei no destino das minhas três noivas por instantes.

- Precisas de mais noivas? – questionei-o.

- Aquelas três não.

Libertei uma pequena gargalhada de sarcasmo.

- São demasiado indisciplinadas. – observei – E irão importunar Athenodora. Executa-as.

- Como desejares, meu irmão. – sorriu Aro, fechando as portas da biblioteca.

Athenodora, meu amor, como poderei eu passar-te a maldição de ser um vampiro?


CONTINUA...