O Bardo e o Pardal

Capítulo 7

Quando finalmente anoiteceu, Ikki não estava, como de hábito, mal-humorado. Ele sabia que Lasho deveria chegar a qualquer momento, mas isso não o incomodava. Havia treinado bastante, de forma satisfatória, e ainda assim o dia tinha sido muito agradável. Era incrível como, na companhia de Hyoga, tudo parecia mais interessante e divertido. Já fazia muito tempo que Ikki não passava um dia tão alegre e risonho... E nada tiraria esse sorriso de seu rosto. Nem mesmo a presença de Lasho.

Assim, quando o jovem pajem apareceu, encontrou o moreno relaxado, sereno, feliz. Pensou que essa era a forma de Ikki provocá-lo, como se, desse modo, ele estivesse dizendo a Lasho que se achava tão superior a ele que sequer precisava se cansar treinando arduamente para não perder a posição de pupilo preferido de Muldovar. "Tudo bem", pensou o pajem. "Se ele está tão seguro de si, vamos ver como anda o rendimento dele".

Contudo, contrariando as expectativas de Lasho, Ikki mostrou-se muito bem em todas as avaliações propostas. O moreno demonstrou uma melhora tão grande em seu desempenho que chegou a preocupar o pajem de Muldovar. "Ah, então ele resolveu declarar guerra, não é isso? Pois bem. Ele pode ter melhorado bastante, mas também vou redobrar meus esforços! E logo irei ultrapassá-lo.", pensou Lasho.

Apesar do visível nervosismo de Lasho, que enxergava uma competição onde não havia, a semana ia passando tranqüilamente para Ikki e Hyoga, que não se incomodavam com a presença estressante do pajem. Os dois jovens, que se acostumaram a passar a maior parte de seu tempo na companhia um do outro, mal viam os dias passando, por estarem tão entretidos com tantas coisas. Quando Ikki estava treinando, Hyoga estava sempre ao seu lado, auxiliando-o; e quando o loiro executava as tarefas de casa, o moreno o ajudava, visto que seus treinos estavam sendo tão proveitosos que até lhe sobrava algum tempo para descanso, o qual ele preferia passar na companhia do outro. Assim, quando Hyoga ia cozinhar, Ikki o acompanhava e até aprendeu – com alguma dificuldade – a preparar alguns pratos. Cortar lenha, buscar água, dar comida para os animais eram também tarefas que costumavam realizar juntos.

Os únicos momentos do dia em que não passavam ao lado um do outro era quando Hyoga ficava com sua mãe. Havia esse acordo mudo entre eles, de que quando Hyoga fosse levar comida à boa senhora, ele iria sozinho. Quando, eventualmente, levava Natássia para um passeio pelo campo, também iam sozinhos. Ikki entendia aquilo como um momento de mãe e filho que deveria ser respeitado, por isso não questionava nada.

Mas a verdade era que, para Hyoga, a situação deveria permanecer dessa forma porque assim ele poderia afastar Ikki de seu passado. Aliás, esse era outro acordo silencioso que existia entre eles. Nenhum dos dois falava sobre seu passado.

Por isso, apesar de os dois rapazes passarem muito tempo juntos, conversavam basicamente sobre os treinos ou as tarefas da casa. Evitavam, mutuamente, entrar em um nível mais pessoal de conversa. E faziam isso porque ambos tinham algo a esconder.

Foi desse modo que essa semana passou tão velozmente que Ikki até se surpreendeu ao dar-se conta de que já era domingo. Concluiu, então, que dias felizes realmente passavam mais rápido...

Sendo domingo, Muldovar logo chegaria para avaliar seu desempenho e, embora isso ocorresse toda semana, dessa vez, o moreno se encontrava um tanto nervoso.

Ikki, com a ajuda de Hyoga, havia praticado e treinado bastante, com um empenho e uma rigorosidade como nunca tinha acontecido antes. E, justamente por ter se dedicado tanto, estava cheio de expectativas quanto à reação do seu padrinho diante do resultado que ele lhe mostraria agora. Desejava muito que o conde mudasse de opinião sobre ele. Afinal, bem ou mal, Muldovar era a única família que lhe restava e era mesmo muito importante para Ikki não decepcioná-lo.

Por isso, Ikki e Hyoga estavam ansiosos para que o conde pudesse ver como o desempenho de seu afilhado tivera uma considerável melhora. Lasho, por sua vez, que também vinha se esforçando e praticando tanto ou mais que Ikki, esperava com isso mostrar ao seu mestre um resultado superior. Foi diante desse quadro cheio de expectativas que Muldovar chegou.

- Muito bem. – falou o conde – Quero ver se evoluíram o bastante. Podemos começar, Ikki?

O moreno não gostou de ter sido chamado primeiro. Estava esperando que Hyoga aparecesse; queria que ele estivesse ali naquele momento. Aliás, estava achando estranha a ausência do loiro. Ikki sabia que Hyoga estava tão impaciente quanto ele para ver a reação de Muldovar ante sua grande melhora em relação à semana passada. Mas, desde que havia acordado, não vira nem sinal do rapaz por lá. Chegou a ir até o celeiro, imaginando que o outro tivesse dormido demais, porém encontrou apenas Natássia adormecida. Ficou preocupado e cogitou a idéia de ir atrás do loiro, mas foi nesse momento que Muldovar chegou:

- E então? O que tem para me mostrar? Vamos logo, Ikki; não tenho o dia inteiro. – disse o conde, de forma áspera.

O moreno, não vendo outra solução, resolveu fazer o que seu padrinho lhe pedia. Tentou mostrar como havia se aperfeiçoado no feitiço em que controlava a temperatura de alguns elementos, mas, para seu azar, não estava conseguindo executar o encantamento de maneira adequada. Talvez fosse o nervosismo ou a preocupação com o loiro; mas o fato é que ele não foi bem-sucedido.

Lasho, percebendo o que acontecia com seu adversário – pois era assim que encarava Ikki – sorriu satisfeito. O moreno não poderia ter escolhido momento pior para fracassar.

Muldovar, depois de dar a Ikki a chance de refazer o feitiço e tendo este fracassado novamente, olhou para Lasho e, demonstrando-se bastante contrariado, indicou com um gesto que agora era a vez do pajem mostrar o que tinha praticado ao longo da semana.

Lasho então mostrou que estivera praticando o feitiço da imobilidade e provou ao conde que se esforçara muito, pois conseguiu imobilizar, mesmo que por pouco tempo, alguns animais de pequeno porte.

- Está vendo, Ikki? – falou Muldovar – Se tivesse se esforçado como Lasho, poderia estar me mostrando algum resultado positivo, em vez de me fazer perder meu tempo. – a voz do conde era dura – Se continuar desse jeito, sem levar a sério tudo que lhe digo, teremos de conversar seriamente sobre seu treinamento. Talvez eu esteja sendo muito brando, talvez o ideal seja que eu aperte mais o ritmo dos treinos; quem sabe assim você...

Nesse momento, Ikki viu ao longe a figura de Hyoga despontar naquela manhã cinzenta e, tomado por uma sensação de alívio ao ver que este estava bem, dirigiu-se até ele, sem ao menos deixar que o conde terminasse o que tinha para dizer. Muldovar, percebendo isso, enfureceu-se e o chamou de volta, mas o afilhado parecia não ouvi-lo. Naquele momento, toda a sua atenção estava voltada para o jovem loiro, que caminhava devagar, com um olhar de tristeza que logo preocupou o moreno:

- Hyoga! Onde você estava? O que aconteceu? – perguntou Ikki, assim que se encontrou a uma distância que permitia que o outro o ouvisse.

- Eu... eu fui colher as ervas para fazer o chá da minha mãe... – respondeu Hyoga, com a voz fraca.

- E por que demorou tanto?

- Eu não consegui trazer as ervas Ikki. Elas estão destruídas...

- Destruídas? Como é possível...?

- Fez muito frio essa noite... É culpa minha; eu devia ter imaginado que algo assim aconteceria...

- Do que está falando, Hyoga? – indagou o moreno, já aflito.

- A geada dessa noite destruiu todas as ervas, Ikki. Tentei ver se era possível salvar alguma, mas... não sobrou nada... e eu não sei o que faço agora...

O moreno compreendeu o que tinha acontecido. E sentiu um aperto no peito ao ver aqueles olhos azuis tão vazios. Hyoga olhava em sua direção, mas era como se não visse nada. Não; isso não podia ficar assim.

Sem dizer qualquer palavra, Ikki começou a caminhar na direção do campo, o que deixou o conde estupefato. Este continuava a chamá-lo de volta, mas prosseguia sendo ignorado. Indignado com essa atitude, Muldovar se pôs a ir atrás dele, no que foi seguido pelo pajem que, apesar de não entender o que estava acontecendo, estava adorando ver o seu mestre perder a paciência com o afilhado. Hyoga, por sua vez, estava igualmente confuso diante da reação de Ikki e, por isso, também foi atrás do moreno.

Ao chegar ao campo, Ikki constatou que tudo o que Hyoga lhe dissera era a mais pura verdade. As ervas estavam recobertas por uma camada de gelo e, à primeira vista, a situação parecia mesmo perdida. Entretanto, o moreno não estava disposto a desistir assim tão fácil. Concentrou-se, fechou os olhos e respirou fundo.

Muldovar, que ia se aproximando de onde estava seu pupilo, parou ao perceber que este tomava a postura de um feiticeiro prestes a agir. Resolveu ver o que ia acontecer. Lasho, tão curioso quanto seu mestre, parou também e ficou a observar o que se passava.

Quando Hyoga alcançou os outros, deparou-se com uma cena fantástica. Como se fosse uma cortina de calor, um véu invisível ia passando por todo o campo e, por onde se alastrava, ia fazendo a camada de gelo sobre as ervas desaparecer. O campo, que se apresentava branco devido à geada, voltava, dessa maneira, à coloração verde, sob os olhos espantados dos três espectadores desse espetáculo grandioso.

Hyoga foi o primeiro a raciocinar. Correu até onde estava Ikki e, sem conseguir expressar sua gratidão em palavras, apenas sorria para o moreno. Seus olhos brilhavam vivamente e o moreno percebeu que havia conseguido atingir seu intento. Sorriu debilmente e ia dizer algo para o jovem loiro, mas nesse momento, como se suas forças houvessem desaparecido, acabou desfalecendo nos braços de Hyoga, que conseguiu ampará-lo antes que caísse no chão.

Quando Ikki finalmente despertou, encontrou sobre si aqueles olhos azuis repletos de preocupação. Descobriu então que também não gostava de ver aqueles olhos cheios de angústia; tinha claramente preferência pelos olhos vivos e brilhantes, tais quais os vira antes de perder os sentidos. Por esse motivo, tratou de levantar-se logo, a fim de fazer a preocupação do outro desaparecer.

- Não se levante tão rápido, Ikki. – apressou-se em dizer Hyoga, buscando evitar que o moreno saísse da cama.

- Não se preocupe; estou bem. – respondeu, mas agindo de forma a contrariar o que ele mesmo falava, já que se via um pouco tonto.

- Fique deitado mais um pouco, Ikki. Precisa recuperar as energias.

O jovem olhou na direção de onde vinha essa voz e encontrou seu padrinho, muito sério, encarando-o de forma estranha. Parecia que o estava analisando.

- Já estou recuperado.

- Não; não está. O feitiço que acabou de executar exige muito do corpo. E, pelo visto, o seu corpo não estava devidamente preparado para um feitiço dessa proporção. – e, aproximando-se mais da cama, prosseguiu – Não pode dar um passo maior que a perna, Ikki. Pode não ter tanta sorte da próxima vez.

O moreno calou-se e baixou a cabeça. Depois de tanto treinar e se esforçar, lá estava ele, tendo de ouvir um sermão mais uma vez, da mesma forma que há uma semana. Será que não conseguiria nunca reverter essa situação?

- ... De qualquer forma, estou orgulhoso. Não imaginava que guardasse tanto poder dentro de você.

Ikki levantou os olhos, surpreso. Não podia acreditar no que acabava de ouvir; seu padrinho o havia... elogiado?

- Estou satisfeito em perceber que não estava errado em apostar em você. Eu sabia que, cedo ou tarde, um grande poder se manifestaria em você.

Lasho, que ouvia a tudo isso calado, sentia a inveja tomar conta de seu ser. Ikki havia, de fato, dado um grande passo. O feitiço que acabara de executar demonstrava que existia uma grande distância de poder entre eles. E o pajem não estava conseguindo admitir isso para si mesmo ainda.

- Por isso, vamos começar uma nova etapa de treinos. Podemos, finalmente, avançar. Mas não hoje; hoje você deve descansar. Já me provou o suficiente. Você começará amanhã. Já pode usar o Livro Vermelho.

- O... o Livro Vermelho? – perguntou Lasho, um pouco nervoso.

- Sim. – respondeu o conde, sem se voltar para o pajem – Ikki já está preparado para essa evolução.- e, dirigindo-se ao afilhado – A partir de amanhã, comece a estudar os primeiros capítulos do Livro Vermelho. Lá, você aprenderá a controlar melhor o seu corpo, de modo que ele consiga suportar as exigências de feitiços como o que acaba de fazer.

-Sim, mestre. E... obrigado pelo reconhecimento. – disse Ikki, ainda não conseguindo acreditar que ouvia tais palavras do seu padrinho.

- Você fez por merecer. Bem, Lasho... vamos embora. Hoje, Ikki deve descansar.

Depois de ver o conde e seu pajem deixarem a cabana, Hyoga finalmente se acercou de Ikki e, com os olhos brilhando de contentamento e com um sorriso luminoso, perguntou:

- "Livro Vermelho"? Isso parece importante...

- E é mesmo. – respondeu o moreno, com um singelo sorriso – São basicamente 3 os livros de magia que um aprendiz de feitiçaria deve estudar, se quiser ser um grande mago algum dia. O primeiro, que é o Livro Azul, era o que vínhamos estudando. Eu estava nele há dois anos e não conseguia passar adiante. Sei o quanto meu padrinho estava já ansioso para me ver avançar um nível, até porque ele costumava dizer que eu não deveria ficar mais que um ano no Livro Azul... Entretanto, eu não conseguia corresponder às expectativas dele.

- Mas isso agora é passado! – sorriu o loiro – Você conseguiu, Ikki! Superou as expectativas do seu padrinho!

- "Nós" conseguimos, Hyoga. Eu não teria chegado até aqui se não fosse a sua ajuda.

- Claro que chegaria! O que você fez ali no campo foi único, não treinamos nada parecido com aquilo...

- Em grandiosidade, talvez não; mas só fui capaz de executar aquele feitiço graças ao que vínhamos treinando. Não percebe que, no fundo, foi só um feitiço de controle de temperatura, como o que treinamos, mas em maiores proporções?

- Mesmo?

- Sim. Veja só: quando eu cheguei ao campo e me deparei com aquela situação, parecia-me que ela estava mesmo no estado em que você me havia descrito. Mas resolvi descobrir a fundo se era isso mesmo; então busquei me concentrar, minha respiração se harmonizou com o ambiente... Só assim consegui perceber que as plantas ainda não haviam morrido. O frio as estava matando, a morte estava bastante próxima, mas elas ainda possuíam um fio de vida. Se fosse possível salvá-las, tinha de agir logo. Foi o que fiz. Treinamos muito como controlar a temperatura de seres que estivessem próximos a mim e estávamos nos saindo bem, não é? Eu simplesmente tentei realizar o mesmo feitiço, mas em uma proporção bem maior. Não sabia se funcionaria; ainda bem que deu certo...

- É, mas você se arriscou muito, Ikki... – falou Hyoga, um pouco mais sério.

- Valeu a pena. – respondeu o moreno, fechando os olhos e sentindo o cansaço pesar sobre seu corpo.

Hyoga observou o outro cerrar os olhos e parecer que adormecia. Sorriu e falou, mais para si mesmo, pois o outro já parecia estar inconsciente:

- Muito obrigado, Ikki. Nem sei como lhe agradecer... – e suspirou, para, em seguida, levantar-se da cadeira em que estava sentado e deixar o quarto do moreno.

Assim que o loiro saiu, Ikki abriu os olhos e, com um olhar carinhoso na direção da porta, falou em voz baixa:

- Eu é que agradeço, Hyoga... – e sorriu.


Alguns meses depois...


- Mas que droga! – falou o loiro, bastante nervoso.

- Não deu certo? – perguntou o moreno, algo preocupado.

- Não. – respondeu o loiro, jogando com raiva a pequena caixa com terra no chão, demonstrando sua revolta. Em seguida, sem dizer uma palavra, saiu dali, deixando um entristecido Ikki para trás.

O inverno estava se aproximando e, com isso, crescia a ameaça ao campo com as ervas das quais a vida de Natássia dependia. Desde a geada que dera a Ikki a oportunidade de provar a Muldovar que possuía um poder muito maior que o esperado, Hyoga havia empregado seus esforços em tentar descobrir um meio para evitar que as ervas se perdessem por causa do frio. Ikki tentara ajudar, dizendo que poderia cuidar da situação da mesma forma que fizera quando da geada, mas o loiro mostrou a ele que seria difícil alcançar o mesmo resultado, porque dessa vez, não seria apenas uma fina camada de gelo que iria recobrir as ervas e, sim, uma grossa camada de neve. Ademais, para que o feitiço de Ikki surtisse efeito, como da outra vez, as plantas teriam de estar vivas para que ele as pudesse salvar e, nesse caso, após uma nevasca, seria difícil alguma delas sobreviver. Não; nesse caso, não poderiam contar com a magia para resolver essa situação. Por isso, Hyoga vinha buscando um meio de replantar as ervas em outro local, para que pudessem ficar protegidas do frio e da neve. Contudo, essas plantinhas eram tão frágeis que o loiro via todas as suas tentativas serem frustradas e isso vinha irritando-o profundamente.

Ikki também se chateava por não ser capaz de fazer qualquer coisa para ajudar o amigo nessa empreitada. Sentia que devia tanto a ele, mas não conseguia compensá-lo por tudo que recebia. Queria dar algo em troca, queria ser capaz de oferecer o que ele mais desejava, mas era em vão. Até buscava ajudar Hyoga em suas tentativas de replantar as ervas, mas era inútil. E sentia-se verdadeiramente mal por isso. Até porque, em contrapartida, a vida de Ikki melhorara muito de uns tempos para cá. Desde que o conde presenciara a força do poder de Ikki, ele passara a tratá-lo muito melhor. Lasho, por sua vez, estava tão ressentido que evitava trocar com o moreno mais palavras que o necessário, gastando seu tempo, sempre que vinha visitá-lo à noite, em treinar arduamente para poder também sair do Livro Azul e iniciar o Vermelho. Tudo isso contribuía para que a vida de Ikki estivesse boa, mas ele só poderia se considerar feliz se Hyoga também estivesse e aí estava o grande problema. Com o inverno se aproximando cada vez mais, o loiro ia ficando mais impaciente, nervoso e o pior: estava até mesmo evitando a companhia de Ikki, passando a maior parte do tempo com sua mãe.

Em um domingo, enquanto Muldovar avaliava o rendimento de seu pupilo, Ikki não estava se mostrando tão bem como de hábito. Estava disperso, não conseguia se concentrar. O conde, percebendo que havia algo de errado, quis saber o que estava acontecendo:

- Estou preocupado com Hyoga. – respondeu o moreno – O inverno está a cada dia mais próximo e ele não consegue encontrar um meio de proteger as ervas do frio. E o pior é que parece que a nevasca que se aproxima será uma das mais terríveis dos últimos tempos.

- Sei... – respondeu o conde, pensativo – Então... acho que não terá outro jeito. Ele terá de partir.

- Partir? – perguntou Ikki, a voz carregada de uma emoção que ele não queria ter demonstrado – Mas... partir por quê?

- Existe um outro lugar onde ele poderá encontrar essas ervas. Elas não existem apenas aqui. Mas, como esse lugar fica muito longe e as ervas não podem ser armazenadas, por não durarem muito depois de arrancadas do solo, ele deverá partir e encontrar um outro local perto dessas ervas para morar. É triste; mas, pelo visto, o destino desse jovem é errar por diversas paragens, sempre dependendo de onde encontrar as tais ervas.

Ikki engoliu em seco. Não havia cogitado essa possibilidade. Não conseguia sequer imaginar como seriam as coisas se Hyoga fosse embora.

- E, realmente, é uma pena. Gostei do tempo em que esse rapaz ficou por aqui. Ele ajudou muito você. Percebi que ficaram muito amigos, e creio que essa amizade lhe foi positiva, Ikki. Você cresceu muito nesses últimos meses. Felizmente, o progresso que você vem alcançando não depende mais dessa amizade. Você já é capaz de caminhar por conta própria. Então, mesmo que esse jovem tenha de partir, sei que você ficará bem.

O moreno olhou para o conde sem palavras. Não concebia essa idéia; não queria aceitá-la, não queria admiti-la, mas... o que poderia dizer?

- Você está um pouco cansado agora. – disse Muldovar, entendendo que Ikki estava um pouco mal diante disso tudo – Vamos fazer uma pausa. Mais tarde, vou avaliar como está a sua prática de manejo da espada.

- Sim, padrinho. – respondeu Ikki, mecanicamente.

- Aproveite e vá contar as boas novas a seu amigo. Ele ficará feliz em saber que há uma solução para seus problemas.

Ikki sabia que tinha de falar sobre o que descobrira a respeito das ervas para Hyoga. Mas também sabia que, no momento em que falasse a respeito para o amigo, o fato de que o loiro deveria partir se tornaria mais concreto. Assim, preferiu pegar sua espada e, afastando-se da cabana, resolveu treinar um pouco, sozinho, buscando fugir dos confusos pensamentos de sua cabeça – e, dessa forma, adiando o momento de dar a tal notícia a Hyoga.

Contudo, justo quando desejava ficar só, Hyoga apareceu, sorrindo-lhe:

- Treinando por conta própria?

Ikki não soube o que dizer. Ao ter o rapaz loiro diante de si, sentia a obrigação de lhe contar sobre a existência de outras ervas, mas não queria fazê-lo agora. Entretanto, sabia que tinha de falar logo a respeito. E, não conseguindo se decidir sobre o que fazer, permaneceu calado.

Como o moreno não respondia nada, Hyoga, continuou, dizendo:

- Olha, me desculpe... Eu sei que ando muito nervoso nos últimos dias, mas não tem nada a ver com você. Estou com raiva de mim mesmo e da minha incapacidade de resolver esse problema com as ervas. Fico preocupado porque a vida da minha mãe depende disso e eu... – suspirou – Enfim. Isso não é culpa sua; então me desculpe se dei a impressão de que não estou mais disposto a ajudá-lo. Por isso, precisando da minha ajuda, por favor, não hesite em me procurar, está bem? – e, tendo dito isso, sacou a espada de sua bainha e completou – Vamos lá. Eu treino com você. Sei que não gosta de treinar com sua espada sozinho... – e sorriu.

Dessa forma, os dois rapazes treinaram, como de costume, só que, dessa vez, em silêncio. Houve então um momento em que esse silêncio se fez tão desconfortável entre eles, que Hyoga interrompeu a prática e disse:

- Escute, o que está havendo aqui, afinal? Está zangado comigo, é isso?

- Não, não! É claro que não. – apressou-se em responder o moreno.

- Então o que foi? Por que está agindo tão estranho?

Percebendo que não poderia mais evitar esse assunto, resolveu ir direto ao ponto:

- É que... eu tive uma conversa com Muldovar hoje.

Hyoga olhava atentamente para Ikki, já com alguma preocupação. Sabia como as coisas que o padrinho de Ikki falava às vezes o afetavam demais.

- Falei sobre o seu problema, de não encontrar um meio de proteger as ervas do frio e... ele me apontou uma solução.

Ao ouvir essas palavras, o semblante de Hyoga rapidamente se transformou e a preocupação deu lugar a um bonito e esperançoso sorriso. Ikki não deixou de perceber isso e entendeu que não tinha o direito de ser tão egoísta. Então, falou, esforçando-se para parecer alguém que realmente tinha uma boa notícia para dar:

- Ele me contou que você pode encontrar muitas dessas ervas em outro lugar, bastante distante daqui. E isso é uma coisa boa... Afinal, lá o inverno não deverá ser tão rigoroso quanto aqui e as ervas não sofrerão nenhum mal. Mas, para que tudo dê certo, você deverá partir o quanto antes para essas terras, pois elas ficam a muitas léguas de onde estamos. – Ikki falava de forma a parecer que estava mesmo contente pelo amigo, mas essa tarefa lhe era mais custosa do que poderia imaginar.

Hyoga, por sua vez, logo desmanchou o sorriso que estava estampado em seu rosto. Baixou os olhos e ficou pensativo.

- E então? Isso é bom... não? – perguntou o moreno, tentando sustentar um sorriso que lhe era mais doloroso de suportar do que os efeitos dos feitiços mais difíceis que executava.

- Sim, claro... – respondeu Hyoga, de forma vaga – E... o que você pensa disso? – perguntou, encarando o moreno.

Ikki surpreendeu-se com a pergunta; não esperava por isso. Como assim, o que ele pensava? Por acaso, isso interessava? Seus pensamentos eram egoístas e ele sabia que não tinha o direito de agir assim com Hyoga. Então... não sabia o que dizer.

- E então? O que acha? – pressionou o loiro.

- Eu... acho que isso é uma boa notícia, afinal é a solução para os seus problemas. – respondeu Ikki que, sob pressão, não conseguiu pensar em uma resposta melhor e simplesmente repetiu as últimas palavras de seu padrinho.

- Ah, sim. Claro. – falou Hyoga, por fim. Colocou então sua espada de volta à bainha e começou a caminhar para sair dali.

- Aonde você vai? – perguntou Ikki.

- Preparar minhas coisas. Devo partir com minha mãe o quanto antes, não é mesmo? – disse Hyoga, voltando um olhar triste para Ikki.

- Ei, calma! Também não precisa se apressar! - correu a dizer o moreno - Quero dizer, ninguém está expulsando você daqui.

- Sim; mas pelo visto, também não há ninguém querendo que eu fique.

- Como assim?

- Nada, Ikki. Esquece. Já vou indo.

- Espere aí! – falou o moreno, alcançando o outro e segurando-o pelo braço – O que há com você? Nos últimos tempos, esteve desesperado por achar que perderia em definitivo as ervas que salvam a vida de sua mãe e, agora que descobre uma saída, age dessa forma, como quem não gostou do que ouviu?

- Não é isso, Ikki! É só que... Ah, esquece! Me deixa em paz, está bem? – replicou o loiro, desvencilhando-se do outro e andando rápido para se afastar dali.

- Se quer saber, eu não gostei nada dessa solução, está bem? – gritou o moreno, por causa da distância que os separava e também porque colocar essa sua angústia para fora fez com que o que ele tinha para dizer explodisse e não simplesmente surgisse naturalmente em meio à conversa.

Fosse pelo modo como a frase fora pronunciada, repleta de sentimento; fosse pelo conteúdo em si... o fato é que ao ouvir tais palavras vindas de Ikki, Hyoga parou no mesmo instante e voltou-se para encará-lo, em uma interrogação muda.

- Eu não gostei nem um pouco disso, Hyoga... – falou o moreno, aproximando-se mais de onde estava o outro, agora com uma voz mais terna – Eu... não quero que você vá embora.

O jovem loiro continuava calado, mas seus olhos não interrogavam mais nada. Seu olhar derramava sobre Ikki um fluido envolvente, buscando absorver cada palavra pronunciada pelo moreno.

- Eu... não consigo imaginar como posso ficar aqui sem... você. – disse Ikki, por fim.

Hyoga sorriu para Ikki com os olhos. Parecia mais leve, como se tivesse ouvido exatamente aquilo que desejava. Então, em um gesto impulsivo, colocou sua mão sobre o ombro do moreno, atraindo de volta sua atenção, pois o moreno estava um tanto desconcertado diante do que acabara de dizer e evitava os olhos azuis do loiro.

- Então... Vem comigo?

A pergunta não parecera real. Ikki ouviu aquelas palavras surgirem docemente dos lábios de Hyoga, mas não podia acreditar. A forma como ele falou, a voz terna, o sorriso encantador... um sentimento forte começava a dominar o jovem de cabelos azulados, e ele não sabia como reagir. Então, em vez de uma resposta, apenas repetiu a pergunta feita a ele:

- Ir com você? Como...?

- Vamos embora daqui, Ikki. Para que ficar? Você já me disse muitas vezes que não tem qualquer interesse no futuro que seu padrinho planeja para você. Então, por que não vamos embora? Você já provou ao conde que é capaz de ser um grande feiticeiro, se quiser. Já mostrou, a ele e ao Lasho, que pode satisfazer a quaisquer expectativas. Mas para que fazer tudo isso se não é isso que quer da sua vida?

- Não, Hyoga... As coisas não funcionam assim. – respondeu Ikki, buscando ser racional.

- Por que não? – impacientou-se Hyoga.

- Não posso ir embora assim. Não posso decepcionar meu padrinho. Devo muito a ele e...

- Ikki, eu já conheço essa história e ela não me é nem um pouco convincente. Sei que ele ajudou você depois que seus pais morreram, mas não é por isso que você deve reconhecimento eterno a ele. Você tem sua própria vida e deve buscar ser feliz porque...

- Não, Hyoga. Você não entende... – interrompeu-o Ikki, mas com delicadeza – Eu preciso ficar e fazer tudo o que o conde me pede porque ele me auxiliou em momento difíceis, é verdade, mas... não é só isso.

Hyoga entendeu, pelo tom de voz de Ikki, que realmente havia algo mais ali. E se perguntou se o moreno lhe contaria o que era. Afinal, nunca antes tinham conversado sobre o passado deles...

- Meus pais eram pessoas muito boas, Hyoga. Sei que, quando me conheceu, você me achou detestável, mas a culpa não era deles. Minha mãe sempre me ensinou a ser educado, polido; meu pai sempre me passou bons valores...

O rapaz loiro compreendia que aquele era um importante momento para Ikki. O moreno estava se abrindo e Hyoga imaginava que isso não era nada fácil para ele, pois percebia claramente o quanto as lembranças que estavam vindo à tona eram difíceis de serem recordadas. Sentou-se então sobre um tronco de árvore e fez um gesto para que o outro o acompanhasse. Assim, depois de mais acomodados, o moreno prosseguiu com sua narração:

- No entanto, eu não fui um bom filho. Eles sempre quiseram o melhor para mim, buscaram meios para me oferecer tudo do bom e do melhor. E foi o que fizeram. Afinal, não é todo dia que um casal de aldeões consegue fazer de um conde o padrinho para seu filho.

- E... como eles conseguiram isso?

- Meus pais me contaram que, antes de eu nascer, eles sempre iam até o conde Muldovar, pedindo-lhe ajuda para conseguir um filho. Parece que foi graças ao auxílio do conde, que se sensibilizou com a persistência de meus pais, que eu nasci. Meu padrinho é um homem muito sábio, tem conhecimento sobre muitas coisas e isso deve ter ajudado meus pais de alguma forma...

- Sim, claro. – respondeu Hyoga, lembrando-se de que também ele fora beneficiado pelos conhecimentos do conde.

- Meus pais ficaram tão felizes e agradecidos que convidaram o conde para ser meu padrinho. E ele aceitou. A partir daí, o conde se empenhou em me dar uma educação refinada, para ter um futuro melhor que o de meus pais.

- Entendo...

- Mas eu nunca quis isso. Era feliz ao meu modo, nunca me interessei pelo mundo dos grandes salões da nobreza... Eu tinha outros sonhos para mim.

Era a primeira vez que Ikki mencionava ter algum sonho. Ao ouvir essas palavras do moreno, Hyoga tratou de atentar ainda mais para o que ele viria a dizer agora:

- Eu gostava de cantar. Tinha uma amiga minha, a Esmeralda, que me ajudava nas minhas pequenas fugas até a vila, onde eu cantava para as pessoas e, às vezes, até ganhava algum dinheiro em troca. Mas não fazia isso pelos cobres que eventualmente recebia; fazia por prazer.

- É um bonito sonho. – acrescentou o loiro.

- Não; não é. – e a voz de Ikki tornou-se sombria nesse momento – Esse meu sonho ridículo acabou com tudo o que havia de mais importante em minha vida. Esse meu sonho maldito e egoísta... matou meus pais.

- Como assim?

- Houve um dia em que meus pais, que conheciam bem o meu sonho, tiveram uma conversa séria com Muldovar. Explicaram a ele que eu não desejava tudo aquilo que ele me oferecia. E meu padrinho, ao modo dele, compreendeu e até me liberou desse compromisso. Inclusive, deu-me dinheiro para comprar um alaúde novo, já que o antigo não prestava mais. Na noite desse dia, eu estava tão feliz... Fui até à vila com Esmeralda comprar meu alaúde e acabamos ficando por lá, em uma taverna, na qual cantei boa parte da noite, divertindo-me como nunca. Ao voltar, no entanto... encontrei a cabana de meus pais em chamas.

O rosto de Hyoga assumiu uma expressão de espanto. Sabia que os pais de Ikki tinham falecido, mas não imaginava que tivesse sido de forma tão violenta.

- O conde Muldovar apareceu para ajudar... vários de seus criados tiveram de agir rápido para controlar o fogo. E, quando conseguiram entrar na cabana, encontraram meus pais, lado a lado... e... mortos.

A voz de Ikki saiu tão fraca que Hyoga quase não foi capaz de ouvir essa última palavra. Lágrimas furtivas brilhavam no canto daqueles olhos azuis tão escuros.

- Foi minha culpa. Na vila, alguns homens não estavam gostando de minhas aparições por lá. Parece que algumas garotas haviam gostado de minhas músicas, não sei ao certo. Só sei que estava chamando atenção de um modo que incomodou algumas pessoas. E é provável que esses homens tenham colocado fogo na cabana de meus pais, como forma de aviso, vingança, sei lá. E então... meu padrinho se prontificou a cuidar de mim. Deu-me tudo de que eu precisava, trouxe-me para morar mais perto dele.E, quando me perguntou se eu gostaria de seguir seus passos, para um dia substituí-lo, acabei aceitando a oferta. Não por me interessar verdadeiramente por isso, mas porque eu sentia que devia a ele. E eu vi como era importante para ele que eu aceitasse. Assim, ele começou a me ensinar a arte da feitiçaria, pois até então, meus treinos eram mais voltados a combates, armados ou não...

Ikki respirou fundo. Contar toda essa história era como ter de revivê-la.

- Faz dois anos que isso aconteceu. Desde então, eu me isolei do mundo. Nunca saio daqui; nunca me afasto muito da cabana. É uma punição que eu mesmo me impus. Com a morte de meus pais, descobri como posso prejudicar as pessoas. Resolvi então me afastar delas. Nem mesmo Esmeralda soube o que aconteceu comigo, ou do meu paradeiro. Achei melhor assim. Aliás, durante dois anos, achei que estava bem assim. Até você... aparecer.

Nesse momento, os olhos de Ikki fitaram Hyoga intensamente. O loiro ficou sem ação ao se ver tão envolvido por aquele olhar tão denso...

- Você me trouxe uma felicidade que eu achava que não seria capaz de sentir novamente. Eu... nem sei explicar o que aconteceu... mas com você aqui, a vida parecia voltar a fazer sentido... e sua presença aqui fez tudo parecer melhor e, às vezes, eu era até capaz de esquecer todo esse meu passado...

Hyoga sorriu com doçura ao ouvir essas palavras de Ikki. O moreno fora capaz de dizer a ele muito mais do que ele precisava ouvir.

- Mas... eu não posso ir com você, Hyoga. Eu desgracei a vida de meus pais, pondo fim a ela de forma trágica. Eu... não tenho direito de ser feliz. Entende agora por que eu não posso partir? Por mais que eu desejasse isso, eu não poderia... eu...

- Ikki. – cortou Hyoga – Eu até entendo melhor o que você sente em relação às suas obrigações com seu padrinho, mas, ainda assim... não concordo com essa sua atitude.

O moreno o olhou com tristeza. O loiro continuou:

- Olha, eu... – e suspirou – Já que você confiou em mim para contar sua história... creio que posso fazer o mesmo.

O olhar de Ikki ganhou então ares de curiosidade. Sempre sentiu muita vontade de saber mais sobre o amigo, mas nunca tivera coragem de perguntar. Respeitava a privacidade do outro.

- Sei que você sempre estranhou alguns de meus modos. Você não consegue disfarçar tão bem o que pensa, sabia?

Ikki sorriu. Ele sabia que não era bom em manter aparências.

- Sei que, para um andarilho como eu, tenho modos bastante refinados, conhecimentos acerca de diversos assuntos que um simples camponês deveria desconhecer. Mas acontece que eu nunca fui um simples viajante. Eu vim de uma família nobre, Ikki.

Essa informação, apesar de desconhecida do moreno, não foi exatamente uma surpresa. Hyoga sempre se mostrara muito culto; sabia ler, possuía uma educação refinada... Além disso, era excelente no arco-e-flecha e no manejo da espada, demonstrando em sua prática não apenas eficácia, como também elegância em cada um de seus movimentos. Todos esses indicadores apontavam para uma ascendência nobre.

- Mas então... o que foi que aconteceu para...

- ... que eu me tornasse o que sou hoje? – completou Hyoga – Bem... há oito anos, eu também perdi meu pai. Ele era um duque e era um homem muito bom. Infelizmente, a vida decidiu arrancá-lo dos braços de sua esposa e de seu filho cedo demais. Uma gripe, vinda repentinamente, tirou-o de nós tão rápido quanto surgiu. E assim, devido ao trabalho de alguns invejosos, vimo-nos, de repente, sem nossas posses. Perdemos tudo muito rápido. – o loiro parou um pouco e riu levemente, como se zombando de si mesmo – Eu tinha 10 anos, tive dificuldades em entender tudo o que se passava. Meu pai era um homem bom e querido do povo, mas isso despertava inveja em muitas pessoas que, assim que tiveram a oportunidade, deram um jeito de arrancar tudo de mim e de minha mãe, tão logo viram meu pai falecer. Minha mãe não pôde fazer muito, por ser mulher e por ter uma saúde bastante frágil. O pior é que, logo após a morte de meu pai, o estado dela complicou-se muito e as coisas iam acontecendo de tal forma que eu logo percebi que, se não fizesse nada, minha mãe também morreria.

Ikki olhava preocupado para Hyoga, ao perceber a angústia crescente em sua voz.

- Então, um lorde, conhecido de meu pai, ofereceu-nos ajuda. Ele nos daria o suficiente para nosso sustento, mas eu teria de trabalhar para ele.

- Trabalhar para ele? Como assim?

- Bem... era comum, nesses grandes salões de nobreza, os homens nobres serem servidos por garotos. Éramos servos, mas servos mais refinados, por assim dizer. Além de servi-los, também devíamos entreter nossos senhores. Assim, dançávamos, cantávamos, líamos histórias para esses homens. Às vezes, quando muitos senhores nobres se reuniam, boa parte de sua diversão era ver seus pequenos e prendados servos lutando com espadas, fazendo pequenas competições de arco-e-flecha, entre outras coisas.

Ikki sentiu alguma revolta ao ouvir essa história. Não achava justo que esses homens roubassem a infância dessas crianças obrigando-as a trabalhar para satisfazerem seus caprichos.

- Por isso, - continuou Hyoga – eu continuei tendo acesso a uma educação bastante refinada. Meu senhor era um homem exigente e eu era seu servo preferido. Eu era o que melhor cozinhava, o que contava as melhores histórias, o que melhor cantava...

- Você cantava?

- Ah, sim. Cantava. O passatempo predileto dele era me ouvir cantar. E foi numa dessas vezes que minha vida mudou radicalmente...

- Por quê? – perguntou o moreno, um pouco temeroso do que estava por vir.

- Há dois anos, houve uma vez em que um duque, vindo de outro reino, fora convidado para um banquete na casa do meu senhor. E, no meio da ceia, como era de costume, o lorde mandou me chamar para que eu cantasse e assim pudesse entreter seus convidados. Eu já estava acostumado com isso; minha vida não era das melhores, mas sempre soube que podia ser pior. Querendo ou não, era graças ao lorde que minha mãe conseguia receber algum cuidado de que sua saúde tão frágil necessitava. Então, eu aceitava bem o meu destino e era, de certa forma, grato pelo que o lorde fazia por mim.

- Ele não fazia nada por você; ele apenas o explorava! – falou Ikki, indignado.

- Eu sei, mas... havia coisa pior do que me explorar da forma como ele fazia. – e respirou fundo para dar continuidade ao que diria – Então, como já estava acostumado, fui até o salão onde já me aguardavam e cantei algumas das peças que eram do gosto do lorde. Terminada a minha tarefa, voltei para a cozinha para buscar alguns pratos e servir o meu senhor...

Ikki não gostava da forma como Hyoga ainda se referia a esse tal lorde. Percebia que era até mesmo inconsciente, mas, mesmo depois de tanto tempo, o loiro parecia ainda não conseguir se libertar da forma subserviente como o tratava, ao se referir a ele.

- ... e, quando regressei ao salão, e comecei a servir meu senhor, colocando vinho em sua taça, ouvi aquele duque perguntar qual era o meu preço. O lorde riu e disse que eu não tinha preço, que não estava à disposição, por ser um de seus preferidos, mas... o duque insistiu. Começou a falar valores em voz alta. E os valores foram crescendo a tal ponto que, quando dei por mim, tinha sido vendido.

- Vendido...!

- É... pelo visto, eu tinha um preço, sim. Custei caro, pelo que pude ficar sabendo. E assim... tive de seguir com esse duque. Fiquei meio chocado, nunca esperei que isso fosse acontecer, mas eu havia aberto mão de minha liberdade a partir do momento em que tinha aceitado trocá-la por dinheiro e cuidados para minha mãe.

- Hyoga, se... se não quiser continuar, podemos parar por aqui... – falou Ikki, percebendo que algumas lágrimas começavam a escorrer pelo rosto do loiro.

- Não. Eu vou terminar. – disse, limpando as lágrimas com o dorso das mãos – Eu segui com esse duque até o reino em que ele morava e minha mãe pôde ir junto. Ao menos isso me consolava. No entanto, minha vida começou a mudar mesmo quando chegamos ao paço em que esse duque vivia. Em vez de permitir que eu dividisse um quarto com minha mãe, ele exigiu que eu tivesse minha própria alcova. Não pude reclamar e fui obrigado a aceitar essa imposição, da qual só fui descobrir o verdadeiro motivo mais tarde...

Ikki engoliu em seco. Imaginava o que estava por vir.

- Em minha primeira semana por lá, estive me adaptando ao novo ambiente... e quase não tive tempo para ver minha mãe. Mas, sempre que perguntava, asseguravam-me de que ela estava bem e recebendo todos os cuidados de que precisava. Como, com meu antigo senhor, era exatamente o que acontecia, mesmo quando eu não estava por perto, acreditei que ela estava sendo bem tratada. Então, em um sábado, durante um festim promovido pelo duque para me apresentar à corte, cantei, dancei e servi a ele da melhor forma que podia. Entretanto, naquela noite, quando eu já havia me retirado para dormir, ele irrompeu em minha alcova, visivelmente ébrio, e dizia que vinha me castigar por não ter me comportado bem durante o banquete. Ele... aquele homem asqueroso... ele avançou para cima de mim e me agarrou à força. Ele era grande; eu estava assustado, então ele tinha alguma vantagem. O peso de seu corpo sobre o meu me imobilizava e o desespero já tomava conta de mim. Foi com algum esforço que consegui alcançar um jarro com água, que estava ao lado da minha cama, e o quebrei na cabeça dele. Não o matei, mas o homem ficou inconsciente. Aproveitei para sair dali o mais rápido possível. Fui atrás de minha mãe e encontrei-a em um pequeno e sujo quarto, sem comer, sem qualquer cuidado. Não tive dúvidas; peguei-a em meus braços e fugimos dali. Quando finalmente amanheceu, estávamos longe. E... eu venho fugindo desde então.

Ao término dessa narrativa, fez-se um silêncio entre os dois. Hyoga contara todos esses eventos de forma rápida, frenética, como se precisasse falar tudo aquilo para se livrar de um grande peso. Por isso, Ikki não o interrompeu. Percebera a necessidade do outro em se abrir. Mas, agora que o loiro terminara seu relato, o moreno não sabia o que falar. O que poderia ele dizer?

- Não aconteceu nada, sabe? – começou a falar novamente Hyoga, cortando o silêncio, e sustentando um olhar para o vazio – Consegui quebrar o jarro na cabeça dele antes que ele pudesse fazer qualquer coisa, de fato. Mas... foi humilhante. Tanto que, depois, eu passei por situações muito difíceis com minha mãe, chegando às vezes a passar fome, mas eu nunca me arrependi de ter partido. Não queria mais ser humilhado daquela forma. E minha mãe, que nunca soube ao certo o que aconteceu – pois eu apenas disse a ela que meus serviços não tinham sido do agrado do duque e, por isso, fomos mandados embora – jamais reclamou de coisa alguma. Mas eu a via sofrer pelo estado em que nos encontrávamos, e ela foi ficando cada vez mais doente... O dinheiro que eu ganhava servindo mesas em tavernas, cuidando de cavalos ou consertando carroças nunca era o suficiente e ela ia padecendo dessa moléstia cada vez mais... Viajei por muitos lugares à procura de algo ou alguém que pudesse me ajudar a encontrar uma cura para ela. Foi quando, depois de errar por tantas terras, ouvi alguém falar de seu padrinho. Haviam me dito que era um homem sábio e que poderia encontrar a cura para o mal de que minha mãe sofria. Foi assim que vim parar aqui; e essa parte da história você já conhece.

E, nesse momento, voltou seu olhar bastante úmido para Ikki. Um delicado sorriso surgiu em sua amargurada face:

- Quero dizer... talvez, haja uma parte dessa história que você não conheça. É a parte em que você deu sentido à minha vida. Eu sempre tive uma esperança, por menor que fosse, de um dia ser feliz. Por mais distante que esse sonho me parecesse, eu sempre dormia embalado por ele, todas as noites. E vi que não me enganei... pois encontrei a felicidade aqui, com... você.

Em um gesto que causou certo sobressalto ao moreno, Hyoga pousou suavemente sua mão sobre a dele. O sol começava a se pôr e uma brisa fria brincava com os cabelos dos dois, que se entreolhavam em silêncio.

- Sua teoria, então, é inválida. – continuou a dizer o loiro, ao cabo de alguns segundos – Você não é capaz de trazer apenas desgraça às pessoas, Ikki. Afinal, você foi o responsável por trazer felicidade a um coração roto e ferido, como o meu.

Os olhos de Hyoga nunca brilharam tanto quanto naquele momento. E Ikki sentia-se hipnotizado por aquele olhar.

- Será, então, que... não merecemos ser felizes... juntos? – finalizou Hyoga, sem desprender seus olhos do moreno, que o fitava com igual ternura.

- Eu... – balbuciou Ikki. Seu coração batia tão forte que ele não entendia como ainda não havia pulado fora de seu peito. Aquilo não parecia real. Era como se estivesse vivendo um sonho. Olhava para Hyoga e dava-se conta de que nunca o vira tão belo. Sempre reconheceu, mesmo que inconscientemente, que aquele rapaz loiro era muito bonito, mas nunca dera tanta atenção a isso. Ao menos, era o que pensava. Contudo, nesse momento, sentia-se incrivelmente atraído pelo outro e percebia que não era uma atração recém-descoberta. O moreno se via algo confuso e não sabia o que dizer. Nem precisava. Palavras eram desnecessárias naquele momento. Para preencher as lacunas que as palavras deixavam, os rostos foram aproximando-se e, quando estavam muito próximos um do outro, o moreno fechou os olhos, sentiu o hálito quente do outro arrepiar-lhe o corpo por inteiro e então...

- Ikki! Ikki! Onde você está?

... Todo o momento dissolveu-se. A voz de Lasho despertara a ambos daquele momento e, instintivamente, Ikki afastou seu corpo de Hyoga.

- Ah! Até que enfim; aí está você. – falou Lasho, com a voz ríspida – Onde esteve todo esse tempo? Conde Muldovar disse que tinha liberado você para um breve descanso, mas depois não o viu mais!

- Eu... eu estava treinando. – respondeu o moreno, recompondo sua voz.

- Descansando; você quer dizer, né? - acusou Lasho, ao ver o moreno sentado sobre aquele tronco, ao lado de Hyoga - Resolveu fugir da prática de manejo da espada? Pois, agora, está encrencado. Volte para a cabana; o conde está impaciente esperando por você. – e, tendo dito isso, deu as costas para os dois jovens e saiu dali.

Ikki voltou seu olhar para Hyoga e percebeu que este o encarava, muito sério.

- Eu... preciso ir até lá. – disse Ikki.

- Você sabe muito bem o que ele quer. - disse Hyoga, com a voz fria - Vai passar novas lições. E vai querer que pratique durante a semana para, no próximo domingo, ver se você progrediu. E será assim até o dia em que puder finalmente ficar no lugar dele. É isso que você quer?

- Eu... eu não sei, Hyoga. Mas eu preciso ir até lá agora, está bem? Depois conversamos.

Ikki não sabia mais o que dizer naquele momento. Ainda não conseguia processar tudo aquilo que tinha acabado de acontecer. E, talvez por covardia, preferiu adiar aquela conversa. Deu as costas para o loiro e começou a caminhar na direção da cabana. E sentia-se mal com isso. Só não sabia se estava se sentindo assim pelo que quase acontecera entre ele e Hyoga... ou se era justamente por estar fugindo do que quase ocorrera entre eles.


- Então... essas são as lições que desejo que você estude a partir de amanhã. Sei que elogiei muito o seu progresso da última semana, mas gostaria de ressaltar que deverá treinar ainda mais exaustivamente para que a próxima lição seja executada à perfeição. E, se depois, atingirmos o grau desejado de excelência, é bem possível que...

Nesse momento, Muldovar percebeu que Ikki não o ouvia com sua habitual atenção. Estava pior do que à tarde. Havia um ar de indiferença nele; o rapaz não parecia ouvir o que o conde falava e nem se importava em esconder isso dele. Fisicamente, o jovem parecia estar lá, mas em pensamento ficava evidente que estava muito longe dali...

- Posso saber o que se passa? – inquiriu Muldovar, algo nervoso.

- Ahn? Desculpe; o que foi, padrinho? – perguntou Ikki, voltando à realidade.

- Ikki, não prestou atenção em nada do que eu falei? Mas será possível? Quando é que você vai realmente levar a sério tudo isso? Quando penso que está melhorando, você parece querer regredir de propósito! Hoje mesmo, faltou à prática de manejo da espada e eu relevei esse fato. Mas agora age assim, como se me estivesse fazendo um favor estando aqui? Se continuar agindo dessa maneira, eu não vou conseguir fazer de você um susbstituto à altura para ocupar meu lugar! Então...

Ao começar a ouvir as duras palavras de seu padrinho, Ikki sentiu uma profunda revolta. O conde nunca parecia satisfeito! E, olhando ao seu redor, buscou um par de olhos amigos, que não encontrou. Foi então que percebeu como seria sua vida sem Hyoga. Se o loiro fosse embora e ele ficasse ali, levando a vida de sempre... seria exatamente assim. E algo dentro dele explodiu. Até então, Ikki sempre soube o que não queria. Mas agora, finalmente, ele sabia o que queria. Ele queria estar com Hyoga. E essa certeza cresceu em seu coração, subiu a garganta e ganhou vida ao ser enunciada pela voz do moreno:

- Tem toda a razão, padrinho. Eu nunca serei um substituto à altura. Então, eu... desisto de tudo. Entregue seu cargo para o Lasho, faça o que quiser. A mim, nada disso interessa. – falou, levantando-se abruptamente da cadeira em que estava sentado.

- Ikki! O que pensa que está fazendo? – indagou o conde, indignado com a atitude de seu pupilo.

- Indo atrás da minha felicidade! – falou, antes de deixar a cabana. Lá fora, correu até o celeiro, mas encontrou apenas Natássia, que dormia placidamente. Saiu do celeiro e deu-se conta de que o cavalo de Hyoga não estava lá. Sentiu um desespero momentâneo ao pensar que o loiro pudesse já ter ido embora, mas acalmou-se ao lembrar que Natássia ainda estava lá. Então... aonde o loiro teria ido?

Viu que mais à frente, dando água para seu cavalo, estava Lasho, alheio a tudo o que acabara de acontecer dentro da cabana. Ikki correu até ele e perguntou o paradeiro de Hyoga:

- Ele estava nervoso e disse que precisava sair. Foi até a vila. – respondeu o pajem, sem se dar ao trabalho de olhar para Ikki e, por isso mesmo, não vendo a angústia em seus olhos.

Sem pensar duas vezes, Ikki tomou seu cavalo e saiu dali em disparada. Precisava encontrar Hyoga, precisava falar a ele que tomara uma decisão.

Vendo Ikki partir velozmente em seu corcel negro, o pajem percebeu finalmente que algo estranho acontecia. Foi então até a cabana e encontrou seu senhor, sentado a uma cadeira, pensativo:

- Mestre... o que aconteceu?

- Por que pergunta? – respondeu o conde, demonstrando seu mau-humor.

- Bem... primeiro eu vejo aquele forasteiro sair daqui visivelmente chateado com algo e agora é Ikki quem sai daqui, correndo, para ir atrás dele...

- Ikki saiu?

- Sim; pegou o corcel e foi até a vila atrás de Hyoga.

Como se, num repente, tudo se fizesse claro para o conde, o homem piscou os olhos algumas vezes, passou a mão por seu queixo fino em uma atitude indecifrável e então ordenou para o pajem:

- Prepare nossos cavalos, Lasho. Vamos atrás deles.

Continua...