Passeios noturnos

A palavra de Harry para definir Cho era "controlada". Ela tinha a mania de organizar, planejar e arrumar tudo, tanto os móveis de casa quanto os grandes passos de sua vida. Ele nunca achou isso um defeito, mas sim um fato engraçado. Ela era tão impecável, bonita e centrada que o atraiu no primeiro momento. Ela era madura e responsável. Depois da farra e liberdade amorosa que viveu na maior parte da faculdade, no último ano de estudo ele se sentiu pronto para um relacionamento sério. E quem melhor do que a aluna modelo de medicina? Inteligente, linda, aplicada, divertida... Cho era tudo que ele poderia desejar em uma namorada, mesmo com aquela mania de querer tudo certinho.

Mas depois de seis anos de relacionamento e sete de amizade, alguma coisa havia mudado. Harry não sabia o quê. Gostava dela, provavelmente sempre gostaria, mas ela era apenas mais uma das coisas tão certas em sua vida, como o trabalho, o abrigo de seu apartamento e sua família. Ela começava a parecer certa demais, controlada demais, e ele queria o descontrole.

Queria Gina Weasley.

Se ela não tivesse aparecido em sua vida, talvez Harry nunca tivesse começado a pensar em Cho como alguém sem graça. Mas comparada a Gina, Cho era sem graça. Qualquer mulher comparada a Gina era sem graça. Cho era linda, podia ser divertida e fácil de lidar, eles se davam bem quando não estavam brigando, se entendiam, mas era tão controlada. Sempre bem vestida, sempre evitando discutir em público, sempre em dia com o trabalho, com a casa sempre organizada, sempre arrumando as coisas de Harry, sempre cuidando de tudo, velando por tudo, ajeitando tudo...

Era assim ela que estava parecendo para ele ultimamente. Mas Harry sabia que tinha se tornado alguém assim também, com tudo certo e planejado – com toda uma vida chata.

Ele também sabia que Cho não fazia por mal. Na verdade, o cuidado dela com ele foi algo que o rapaz sempre admirou, ele gostava que ela se importasse e cuidasse dele – gostava antigamente. Agora, os mesmos zelos de antes pareciam diferentes, como se fossem para prendê-lo e controlá-lo. Harry sabia que estava sendo muito duro, que estava se irritando por pouco, que Cho continuava a mesma e o problema era com ele. Mas o que fazer?

Ele não sabia, portanto não fez nada. Não iria terminar com ela. Às vezes desejava isso mais do que tudo, mas outras, não. Terminar com ela por quê? Por quem? Por Gina, que ele mal conhecia e que não demonstrou interesse algum nele? Ele nem sabia se sentia algo por ela além de atração. E se fosse o tipo de coisa que se resolve com uma transa? E se sua pequena obsessão fosse algo simples que uma noite de sexo curasse? Não iria terminar com Cho - que conhecia há anos e com quem tinha uma longa história, com quem compartilhou momentos bons e ruins, com quem riu e chorou, com quem comemorou o primeiro emprego, com quem fez viagens, com quem discutiu filmes e se divertiu, com quem compartilhou a vida, por quem se apaixonou de verdade -, por sexo. Bem ou mal, ele gostava dela. Mesmo que sentisse uma atração tremenda pela tal Gina Weasley.

Então tudo estava mais ou menos bem entre Harry e Cho. Ele havia lhe comprado um presente atrasado pela data que tinha esquecido, e ela acabou se rendendo às suas desculpas. Ele lhe comprou um colar, e ela lhe deu uma máquina fotográfica profissional com muitos recursos. Fazia muito, muito tempo que Harry não tirava fotos. Em algum lugar de seu apartamento havia caixas com máquinas fotográficas e fotos, a maioria que ele tirou nos tempos de faculdade ou antes. Depois que começou a trabalhar, a fotografia, que já tinha sido sua grande paixão, acabou ficando de lado. Agora ele nunca tirava foto alguma. Ele desconfiava que era por isso que Cho havia lhe dado a máquina: para que ele voltasse a fotografar e, assim, sentir-se melhor e mais relaxado, o que talvez o fizesse dormir. A insônia estava acabando com ele.

Mas apesar de ter adorado o presente, Harry mal tirou a máquina da caixa. Deu uma olhada nela, leu o manual, ensaiou bater uma ou duas fotos e guardou tudo novamente. Não, ele não se sentiu animado com aquilo. Não se sentia animado com nada.

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Harry olhou no relógio: eram 3:32h da madrugada de sábado para domingo. Ele estava deitado em sua cama e abraçado a Cho, que estava tão nua quanto ele. Ele não conseguia dormir, mas ela estava no sétimo sono.

Haviam saído naquela noite com Draco e sua nova namorada e tinham chegado tarde. Eles riram muito ao se deitar, lembrando da conversa e das piadas compartilhadas com o outro casal, fizeram amor várias vezes, riam mais e por fim dormiram. A noite havia sido mesmo agradável, mas naquele momento, no meio da madrugada, Harry tinha perdido o sono e se sentia cansado e mórbido. Queria sair dali, estava sufocado naquele silêncio. Queria acordar Cho para transarem de novo, porque assim talvez parasse de pensar que, nessa mesma hora, o Red Cabaret devia estar fervendo de animação e vida...

Ele se levantou em um gesto rápido, daqueles que fazemos sem pensar. Foi até o armário e vestiu uma roupa qualquer. Olhou Cho antes de sair do quarto; ela dormia exausta.

Harry não tinha muita certeza se realmente iria até quando pegou a chave do carro e desceu até o subsolo do prédio, onde era a garagem. Entrou em seu carro, ligou-o e saiu por Londres.

Ele rodou por ruas e avenidas, esquinas e quarteirões, indeciso.

Deveria ir ou não? Deveria parar, às quatro da manhã, no Red Cabaret? Seu coração batia forte; ele queria ir até lá, desejava voltar àquele local havia dias.

Entrou na rua do clube e estacionou. Os sons da casa de strip chegavam baixos na rua.

Entrava? Havia levantado de repente e parado ali por um impulso cego. Precisava voltar àquele lugar, esse pensamento o atormentava. Harry saiu do carro.

Assim que colocou os pés no salão, viu que o local estava muito cheio, totalmente lotado de gente. Mulheres nuas e seminuas estavam espalhadas por todo canto, dançando, entretendo ou roçando nos homens. Mas onde estava Gina?

O coração de Harry estava agitado. Ele foi até o bar; dessa vez a atendente ruiva e de cabelos cacheados não estava lá, havia algumas outras. Uma morena bem bonita serviu-lhe um coquetel, e ele continuou olhando ao redor.

Ela estaria em uma das Salas Privativas? Estaria com alguém?

Que idéia louca a de parar ali. Mal acreditava em si; aquilo tudo parecia um sonho estranho, ainda mais naquele ambiente tão vermelho e erótico. Será que era um sonho? Será que acordaria em sua cama e perceberia que nada naquilo era real?

Mas não. A música, as pessoas, as risadas – tudo era real. Harry só havia agido por impulso, como há muito tempo não fazia, e parou ali.

Pediu outro coquetel e tomou um gole. Então viu Gina. Viu Guinevere, a rainha.

Ele havia passado por ela e nem tinha percebido. Ela estava a alguns metros do bar, em um dos pequenos palcos que faziam vez de mesa. Um grupo de homens estava ao redor dela, e Guinevere, a rainha, executava uma dança que tirou o fôlego de Harry.

A única peça que cobria o corpo dela era um par de luvas negras de veludo, que cobriam todo o seu antebraço e parte de seu braço. Fora isso, ela não usava mais nada.

Harry estava enganado. Aquilo era um sonho sim. Ela era perfeita. A mulher mais bonita que ele já tinha visto. Uma jóia que se destacava entre tantas.

Ele definitivamente a queria. Naquele instante, naquele lugar.

Por um longo tempo Harry ficou observando Gina se exibir para os homens. Não saberia dizer quantos eram ou que idade tinham, porque toda sua atenção era dela. Era ela de-li-ci-o-sa.

Quando Guinevere, a rainha, deixou aquele grupo de homens, Harry estava em seu sexto coquetel. Ela não o viu. Ele ficou no bar observando os movimentos dela de longe, vendo em que lugar ela ia, quem atendia, sem enxergar ninguém mais além dela.

Por volta das seis da manhã, quando as mulheres começaram se retirar, Harry pagou sua conta e saiu do clube. Entrou no carro e dirigiu até em casa, pensando nela. Em Gina, em Guinevere, a rainha. Duas mulheres em uma só. Ou uma só mulher que se desdobrava em duas.

Quando entrou em casa, tudo estava silencioso. Cho ainda dormia no quarto. Ele tirou as roupas, deitou na cama e fechou os olhos, ainda pensando em Gina. Cho nem percebeu que ele havia saído. Quando a mulher acordou, Harry fez sexo com ela, mas pensava numa certa ruiva que lhe despertava fantasias.

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Depois da primeira vez, foi fácil voltar até lá. Harry não sabia, mas estava começando um novo costume: ir ao Red Cabaret durante a madrugada, quando suas horas de insônia o atormentavam. Nem se importava de não dormir se a consequência fosse ver Gina.

Foi só na quarta vez que apareceu ali que ela notou-o. Ela havia acabado de fazer uma pole dance* no palco principal e se dirigiu para o bar, onde Harry estava. Ele se virou e fingiu analisar o fundo de seu copo, e ela se sentou a três bancos do dele.

Pelo rabo de olho ele a viu acender um cigarro. Então ela girou a cabeça para o lado dele; Harry fingiu que nem notou e continuou dedicando toda sua atenção à bebida, mas seu coração batia forte.

- Harry? – ela perguntou incerta.

Ele ouviu a voz de Gina e se virou, fingindo surpresa.

- Oh, olá. Como vai?

- Bem – ela se sentou no banco vago ao lado dele, estava usando uma lingerie de cor viva. – Quer um cigarro?

Para a sua própria surpresa, Harry aceitou. Pegou um cigarro do maço e acendeu com o isqueiro dela.

- Não vai trabalhar mais por hoje, não?

- Estou no meu intervalo. Eu preciso me sentar por alguns minutos com esses saltos enormes.

- Claro.

- Você chegou agora? Eu nem te vi...

- Não, faz um tempo – alguns dias, na verdade. - Eu tenho insônia, aí eu sempre ando pela cidade à noite – mentiu, procurando explicar sua presença. – Acabou que ultimamente vim parar aqui.

- Legal. Quer uma dancinha particular? – ela sorriu cheia de charme e piscou para ele, que sorriu de volta.

- Não, obrigado. Só vou tomar minha bebida mesmo.

Eles fumaram seus cigarros e conversaram amenidades. Quando Gina se afastou para voltar ao trabalho, o rapaz pensou que aquele encontro foi muito mais fácil do que havia imaginado.

No horário do clube fechar, Harry saiu e entrou no carro, mas não partiu. Ficou esperando Gina sair. Queria saber se o tal Larry ainda ia buscá-la no trabalho. Naquele dia ele não foi.

Gina saiu conversando uma loira mignon e as duas pegaram um táxi. Depois disso Harry voltou para a casa mais tranquilo, mas não conseguiu dormir, como sempre. Antes de sair havia tido suas três horas de sono.

Foi só em meados de setembro, numa noite em que o clube estava mais vazio do que cheio, que Gina sentou ao lado de Harry por mais tempo que de costume. Ele estava indo até lá esporadicamente, e ela sempre se sentava com ele em seus intervalos.

- Então – Gina começou, olhando-o atentamente, depois de uma pausa na conversa para tragar seu cigarro –, o que você faz aqui, Harry?

Era a primeira vez que ela lhe perguntava algo de verdade. Antes só tinham conversado sobre coisas sem importância: o tempo, a cidade, o outono... Nunca sobre ele ou sobre ela.

- Estou bebendo – ele levantou seu copo, sabendo que não era exatamente aquilo que ela tinha perguntado.

- Só isso?

- E também conversando com você.

- Mas vira e mexe você está aqui. Deve se cansar de ficar bebendo nesse bar como um velhote frustrado.

Gina queria mesmo era saber o que ele queria com ela. Porque Harry sempre aparecia por lá, gentil e educado, e ficava de olho nela.

- Não, não me canso. Há muitas distrações.

Era verdade. Durante suas excursões noturnas, que nem foram tantas assim, ele havia conhecido diversas pessoas, homens com as histórias mais engraçadas e tristes. Sentar naquele bar a cada noite era como sentar numa sala de cinema ao acaso: você não sabe que história pode aparecer. Além disso, tinha as mulheres para ver. Não era nada cansativo.

- E o que sua namorada pensa disso? – Gina perguntou.

Harry pigarreou. Cho. Ele não pensava nela quando ia até lá.

- Ela não pensa nada.

- Por que ela não sabe que você está aqui?

- Porque ela está dormindo.

- Na casa dela ou na sua?

- Às vezes na dela, outras na minha. E você?

- Eu o quê?

- O que faz aqui?

- Eu trabalho aqui.

- Mas por que aqui?

Gina sorriu, um sorriso todo travesso.

- Você quer saber por que eu sou uma stripper? – era exatamente isso que Harry queria saber; ele acenou afirmativamente – Bem, por que não ser? É um emprego ótimo: você ganha bem, trabalha à noite, é relativamente fácil. E o principal: eu sou bonita o suficiente e sei lidar com os homens. O que mais eu poderia querer?

Ela falava com tanta certeza e de forma tão envolvente que conquistou a total atenção de Harry. De fato ela sabia lidar com os homens. Conseguia seduzir um só com algumas frases e seu olhar oblíquo.

- Então você gosta?

- Gosto. Eu gosto de receber elogios e aqui recebo muitos. Gosto de ser desejada e inalcançável, mesmo que às vezes tenha que atender um bando de escrotos filhos da puta daqueles bem hipócritas, sabe?

- Hipócritas?

- É. Do tipo que vem aqui à noite, mas te aponta o dedo na rua e te chama de imoral. Do tipo que na frente de todos banca o santo, finge ser o pai de família e o marido perfeito, mas trai a esposa e faz todo tipo de sordidez fora de casa. Do tipo que fala em público que as prostitutas têm que ir para a cadeia, mas vive contratando os serviços delas entre quatro paredes. Do tipo que diz que falar de sexo é errado, mas gosta de fazer as coisas mais sujas. Desses homens eu não gosto e, infelizmente, eles são a maioria aqui.

Harry sentiu que Gina estava sendo totalmente sincera. Ela acendeu outro cigarro, tragou e passou para ele. Havia conhecido mais dela naqueles poucos minutos do que em todas as noites que tinha ido até lá.

- Mas você não é assim – Gina ainda disse.

- Como você sabe?

- Eu sei.

Ela estava encarando-o séria. Harry teve uma vontade enorme de se aproximar e beijá-la, mas lembrou que se fizesse isso seria colocado para fora do clube pelos seguranças. Então apenas fumou seu cigarro.

- Preciso ir – ela se levantou e suspirou. – É hora de ir embora.

- Quer uma corona? – quando Harry percebeu as palavras já tinham saído; ficar longe dela parecia difícil – Quer dizer, se seu namorado não vier te buscar.

- Meu namorado? – ela franziu a testa.

- É. O Larry. O dermatologista.

- Ah! – Gina abriu um sorriso de compreensão – Ele não é meu namorado, é só um amigo. Ou era, não sei.

- Um amigo?

- É, um amigo. Mas a gente não está se vendo mais já faz alguns dias.

- Entendo.

- Eu moro do outro lado da cidade, Harry. Você vai sair totalmente do seu caminho se for me levar em casa. Não precisa...

- Não custa nada – apressou-se em dizer. - Eu não tenho nada para fazer. Não consigo dormir mesmo.

- Por causa da insônia que você me falou?

- É.

Ela mordeu os lábios, indecisa.

- Ta, aceito sua carona. Acho que não corro o risco de você ser um serial killer, não é?

Eles riam. Não, aquele risco Gina não corria.

Harry a esperou do lado de fora do clube, encostado no carro. Ela saiu usando as mesmas botas e bolsa de sempre, um short jeans curto e desfiado e uma blusa de frio que devia ter estado na moda na década de 1970. Ela conservava seu estilo. Era tão bonita, tão atraente, tão desconcertante.

Só de ver Gina andar até ele, Harry sentiu seu estômago se agitar em expectativa. Mas expectativa por quê? Ele não devia pensar besteira, porém uma parte dele adoraria ser convidado para conhecer a casa dela.

Não devia pensar nisso. Não, não devia.

Será que ela morava sozinha?

- Ei – Gina chegou até ele sorrindo. – Já mudou de idéia quanto à carona?

- De jeito nenhum – ele abriu a porta do carro para ela.

- Tchau, Gina! – uma voz feminina gritou. Harry viu a jovem loira e mignon, que tantas vezes tinha atendido fregueses com Gina, acenar. Se ele não se enganava, o nome dela no clube era Lua.

- Tchau, Luna! – Gina acenou de volta, se despedindo da amiga. Depois virou-se novamente para Harry e entrou no carro. – Você vai se arrepender dessa carona, eu moro longe – disse quando ele deu a partida.

Por nada no mundo ele se arrependeria, mas nada disse.

- Onde você mora?

- Bem... – Gina explicou e Harry descobriu que ela realmente morava bem longe dele, e até mesmo um pouco longe do Red Cabaret, mas não era nenhum lugar impossível de se chegar. Era uma parte mais simples de Londres.

Talvez um silêncio desconfortável surgisse entre eles no carro, um espaço relativamente pequeno, mas isso não aconteceu porque Gina estava muito à vontade. Ela começou a tagarelar e mexer em tudo: no som do carro, abriu o porta-luvas, ligou o DVD...

- Mas ninguém vai querer assistir um DVD aqui – ela disse. – Aposto que você nem usa isso.

- Uso sim – Harry mentiu. Ele não lembrava de ter usado aquele DVD alguma vez. Por que comprou um carro com aquele acessório, afinal? Resolveu mudar de assunto – Você mora sozinha?

- Moro.

- E o que costuma fazer quando não está trabalhando?

Gina deu de ombros.

- Estou por aí, não costumo ficar muito em casa. Eu vou em festas, bato perna, às vezes leio...

- Lê o quê? – Será que ela tinha o mesmo gosto literário que ele?

- Poemas, normalmente. William Blake, Sylvia Plath, Pablo Neruda, Lord Byron, Baudelaire, Maiakovski… Todos esses.

- Uau. – Poemas? Ele não gostava muito e não era algo que esperava de Gina. – E o que mais? Do que você gosta?

- O que é isso, um interrogatório?

Harry a olhou. Ela estava sorrindo.

- Algo do tipo.

- E eu não tenho direito a fazer perguntas, não?

- Não.

- Ah! Que maldade – ela zombou.

Eles se calaram. Harry estava feliz. Estava dirigindo seu carro pela Londres silenciosa e de céu negro. Era setembro e Gina estava ao seu lado. Estava tudo bem. Ele estava começando a aprender sobre aquela mulher: já sabia onde ela morava, que gostava de poemas, do seu trabalho e não apreciava a hipocrisia – ninguém apreciava. E o que mais?

- Você gosta do seu bairro? – Harry perguntou.

Gina estava com os olhos fechados. Ela os abriu e fitou-o. Tinha um olhar ao mesmo tempo sério, sonolento e intenso.

- Gosto. O bairro, apesar de meio pobre, é tranquilo. Eu moro no térreo de um sobrado, no andar de cima mora a Sra. Cohn. Ela é viúva e velha, não faz barulho nenhum durante o dia, o que é ótimo, porque posso dormir sem ser incomodada. É um lugar fácil de morar.

- Fácil? Não seria bom?

- Não, é fácil mesmo – ela sorriu bagunçou os cabelos de Harry. - Você está bonito.

Ele gostou de ouvir aquilo.

- Obrigado.

- Antes eu só tinha te visto de paletó, todo careta. Mas quando você vai ao clube está de jeans, suéter... Parece mais confortável.

- É porque estou mais confortável.

- Lembra, no fim de junho? Quando você abriu a porta do seu apartamento e eu estava nas escadas? Até me emprestou um casaco...

- Lembro. Não esqueceria disso nunca.

- Não? – Harry podia sentir o tom divertido na voz de Gina – Eu sou inesquecível?

- Totalmente. E desconcertante.

Ele a fitou, os dois sorriam. Harry não acreditou em si, estava flertando com ela na cara dura!

- Bem – Gina quebrou o breve silêncio que surgiu, ainda tinha um tom divertido –, eu também nunca vou esquecer daquele dia. Sabe por quê?

- Por quê?

- Porque você estava uma gracinha de camisa de malha e samba canção - ela riu. - Desculpe, eu sou uma tarada, reparo nesse tipo de coisa.

Harry acompanhou-a e riu. Pensou que se ela era uma tarada por aquilo, o que seria ele, que não desgrudava os olhos dela toda vez que tirava a roupa no clube?

- Você não fala muito de você – ela comentou. – Me diga algo da sua vida.

- Mas nós já chegamos – Harry entrou na rua do endereço que ela havia lhe dado e estacionou o carro em frente a um sobrado de aparência antiga. – É a casa certa? O número está meio difícil de ver...

- É a casa certa – ela se virou totalmente para ele, não parecia querer ir embora logo. – Me diga algo sobre você. Algo que eu não sei.

- Não tem nada para dizer. Eu sou totalmente sem graça, Gina.

- Isso sou eu quem decide! Vamos, diga logo que eu desço e te deixo ir.

- Então não vou dizer, porque não quero que você vá.

Ela mordeu os lábios, risonha. Tinha entendido bem o que Harry quis dizer.

- Você é mesmo adorável – a jovem falou. – Vai, me diz algo. Qualquer coisa.

Ele deu de ombros, pensando. Não havia nada interessante sobre ele. A pessoa misteriosa ali era ela.

- Ah, eu... – Harry começou – Eu não sei, eu... Me formei em publicidade na universidade. Você cursou uma universidade?

- Não. Você tem irmãos?

- Sou filho único.

- Que sorte! Eu tenho seis irmãos mais velhos, todos homens, e eles me infernizavam pra caramba quando eu era pequena - Gina se sentou direito no carro e passou a bolsa pelo pescoço e ombro. – Até mais, Harry.

- Já vai?

- É. Antes tarde do que nunca, não? A gente termina essa conversa outro dia. Vai aparecer amanhã no meu trabalho?

- Não sei, amanhã é sexta... Vou tentar.

- Tente e consiga. Tchau! – ela piscou para ele e saiu do carro, mas não antes de lhe lançar um sorriso cheio de mistérios.

Harry a viu destrancar a porta do sobrado e entrar. Depois ele partiu.

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Harry não apareceu no clube na sexta-feira, nem no sábado e muito menos no domingo. Naquele fim de semana ficou no apartamento de Cho e não ousou sair durante a madrugada. Em parte porque era território dela, em parte porque andava meio culpado por estar indo ao Red Cabaret.

Estava jantando com a namorada no sábado à noite quando começou a reclamar que estava cansado de sua casa. Harry não aguentava mais entrar naquele apartamento e ver as mesmas coisas de sempre.

- Tudo parece sem cor – ele disse.

- Então mande redecorar – Cho sugeriu. - Você pode ficar aqui enquanto isso.

- Vai dar muito trabalho...

- Mas não é você que vai fazer todo o trabalho, Harry. É só pagar alguém para isso. Ah, tive uma ótima idéia! – ela exclamou de repente – Você pode transformar o quarto de hóspedes pequeno em umquarto escuro, para relevar suas fotos.

- Eu não tiro mais fotos, Cho.

- Mas pode recomeçar. Você gostava tanto! Pode te fazer bem.

Ela esticou a mão pela mesa e tocou a de Harry, que a olhou. Cho merecia alguém melhor do que ele. Ela não merecia um namorado que desejava outra pessoa. Pegou a mão dela e a beijou.

- É uma boa idéia. Vamos fazer isso.

Iria fazer só para agradá-la. Sabia que estava deixando-a muito de lado ultimamente.

- Eu amo você, Harry.

Ele sorriu.

- Eu também te amo.

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* Pole dance: a famosa dança do poste; a dança feita com um mastro.


Recado:

Eu disse que o próximo capítulo não demoraria. Viram? Atualizei super rápido.
Quero agradecer a todos que comentaram no último capítulo. Pensei que ninguém comentaria por ser um cap curtinho. Muito obrigada mesmo, gente. Agradeço também a todos que estão lendo, mas não estão comentando.
Sobre esse capítulo, talvez vocês não gostem do fim... Mas será que o Harry estava sendo sincero com a Cho? Fica a dúvida.

Beijo!


Respondendo as reviews:

ooo Kellysds: Oh, obrigada pelas palavras gentis e pelas reviews. E é verdade: eu sempre atualizo minhas fics numa sequência, então um novo capítulo em uma significa logo um novo capítulo em outra.
Harry esquecer Gina? Acho que agora isso não acontece mesmo, rs. Cho? Ela é uma boa pessoa, sabe. Talvez Harry realmente não a mereça. Vamos ver, vamos ver... Dê uma chance a ela. Analise o papel dela na história.
Beijo!

ooo Patty Carvalho: Que bom que gostou do capítulo 5, eu também gostei. Tem muitas coisas nessa fic que eu gosto, mas são todas do futuro da trama - que eu conheço e os leitores ainda não.
Surpreender vocês? Bem, é isso que eu espero fazer. Vamos ver se consigo.
Harry deu uma mancada mesmo com a Cho. Ele anda bem distraído.
Beijo!

ooo Oraculo: Ei. A Gina ser bargirl não iria funcionar para a trama. Na verdade, stripper sempre foi minha única opção de profissão para ela, que é ótima nisso.
Hahaha! Harry e Gina juntos? Bem... não direi nada, mas vc pode imaginar, uma vez que essa fic é H/G.
Beijo!

ooo Guta Weasley Cullen: "Essa fic é muito diferente de tudo que eu li". Puxa, isso foi muito lisonjeiro. Não sei se sua intenção foi essa, mas "muito diferente" é um ótimo. Eu procuro fugir do convencional, que não me agrada muito.
"É claro que ele (Harry) não é fiel, do tipo principe encantado". Não, o Harry não é do tipo príncipe encantado. Ele é do tipo humano: falível.
Eu gosto muito da Gina. Ela tem algumas idéias que são muito parecidas com as minhas... Por que será, hein? Rsrs.
Beijo!

ooo Vanessa RB.: Você fez algumas observações bem interessantes no seu comentário (do capítulo 5), algumas que até irão acontecer, de certa forma.
"Qndo q a gente vai saber mais sobre ela (Gina) e q tipo de relacionamento ela tem com o Larry?" Para entender bem a Gina é preciso acompanhar a história. Sobre o Larry, acho que deu para entender melhor o relacionamento dos dois nesse cap, não? Se ainda tiver dúvidas sobre isso é so perguntar, ok? Bem, fico por aqui. Obrigada pelas reviews.
Beijo!

ooo Pedro Henrique Freitas: "Em breve será possível entender a Gina?" Em um "breve" não tão breve, será possível sim. Só vai dar para entendê-la mesmo com o desenrolar da história.
Ela quis "meio que testar o Harry" para saber que tipo de cara ele era. Que tipo de pessoa. Se ele a surpreendeu? Bem, acho que ela estava preparada para o que viesse, então não, ele não a surpreendeu.
"Como é o relacionamento dela com esse médico (o Larry) ?" Essa questão ficou clara nesse capítulo? Senão, me diga que esclareço esse ponto.
A Cho gosta mesmo muito do Harry. E ele gosta dela, não se engane. Vou repetir a pergunta que te fiz num dos e-mail sobre Vermelho: vc acha mesmo que o Harry gosta da Gina? Sobre o trabalho você está certo, ele já não gosta.
O Harry enfim se aproximou da Gina, oba! E sim, a insônia está associada "ao stress desta vida de que ele não gosta".
Beijo!

ooo Grace Black: Amou? Puxa, que bom! Fico muito grata pelas palavras tão gentis. Tem muuuuuita coisa para acontecer ainda, então continue acompanhando a fic e fique de olho. Obrigada pelas 2 reviews! ^ ^
Beijo!

ooo Priscila Louredo: Foi um capítulo bem curto. Essa fic tem capítulo medianos, mas o último foi menor.
"Por que diabos o Harry não dá o fora nessa Cho de uma vez?" Eles dividiram sete anos de suas vidas. Você não joga sete anos no lixo por pura atração. Certo? E eu andei bem rápido, você não precisa ficar nervosa e já pode postar o novo capítulo de Desencontros, ok? Rs. Estou esperando anciosa.
Beijo!

ooo Debora Souza: É, o Harry não está mesmo muito bem... Ele precisa de algo que o complete.
NC? Bem, vou revelar algo, porque acho que não vai afetar a trama. Quer dizer, o Harry e a Gina são adultos, são bem experientes e, até certo ponto e um mais do que outro, liberais. Então, sim, vai ter NC.
Beijo!