Takara – Tokyo – Japão
Antes que eu pudesse me divertir mais com a Srta. McDonald (percebi por um fantasma falar bem alto. Também tenho esse poder, além do poder de ilusões. Não é a toa que me chamam de Coringa), eu vi a tela ter a intromissão do nosso novo chefe.
Rolei os olhos. Todo mundo preferia o Kaito como o líder e rei, como ele sempre tinha o seu modo honesto de falar e estratégias melhores. Ninguém saberia que Saito seria tudo isso, quando Kaito foi atingido por um robô terráqueo e foi separado em duas partes: seu corpo e o seu espírito. Espírito, para nós, é quase a mesma coisa que falar o que é alma para um humano. Espírito é algo sobrenatural que controla um corpo, mas que tem o seu próprio corpo. Não tem molécula, claro. Mas vive.
Entretanto, o nosso espírito não tem aonde ir quando saí do corpo do hospedeiro. E ele tem a mesma memória e caráter do corpo. Acredito que Kaito tenha algum interesse na tropa inimiga, como ele tinha uma total chance de vencer isso e voltar ao corpo. Apesar de ele ser mais forte do que o nosso próprio mundo, Kaito tem lá os seus sentimentos e pensamentos sobre o que está rolando.
Estou até crendo que ele planejou tudo isso.
-- Deixe de ser idiota, Kaito. – eu contrapus totalmente com o que ele havia dito (coisas más) sobre o nosso atual império. Tínhamos oito anos, mas, ao contrário dos humanos, essa era a maioridade no nosso mundo. Não podíamos trabalhar ou dirigir. Mas o resto podíamos fazer à vontade.
Só que Kaito estava fazendo nas duas coisas: contra a sua vontade e na sua vontade. Contra a sua vontade era, já que ele não queria ser nenhum rei que sentasse em seu trono. Nem mesmo sem ver seus amigos. E nem colocar máscaras em seu bom caráter. Na sua vontade, para salvar o povo.
Segundo ele mesmo, ele odiava ser um boneco para o próprio pai. O seu irmão apenas se divertia quando o Antigo Rei mandava-lhe algumas ordens de fazer trabalhos pesados. Isso quando desobedecia alguma coisa.
Mas ninguém falava que ele era inútil.
Kaito era um dos gênios do Império.
-- Não estou sendo um tolo, Takara. – ele suspirou enquanto andava pelos corredores do Crystal College, com as mãos nos bolsos. – Tolos são aqueles que acreditam que isso seria justo.
-- Mas, Sr. Kaito, isso é impossível de ser justo. É democracia. E democracia é adorada por todos. – eu tentei esclarecer, mas Kaito continuou me ignorando. E eu o seguindo. – Kaito!
-- Hm? – ele finalmente olhou para trás.
-- Você está dizendo coisas sem pensar! Isso não é injusto! Você não pensa? Nós não temos escolha! – eu praticamente trovejei.
Foi aí que ele pirou.
-- VOCÊ NÃO ENTENDE? – ele me puxou para uma sala, como percebeu que havia gente nos ouvindo. – Eu não tenho mais que suportar o meu pai! Nem o meu próprio irmão! Eles querem poder, Takara. Poder, entende? Eu estou apenas querendo que tudo seja normal como antes! – lágrimas se desprenderam de seus olhos. – Nós não somos monstros. – ele disse entre dentes e com os punhos cerrados. E ele olhou para mim. – E eu estou aqui para fazer isso. Eu não quero que o meu povo seja um monstro, entende? Nós não nascemos para isso.
O sino tocou e ele foi embora, dizendo:
-- Não conte nada o que eu disse, por favor. Eu confio lealmente a você, está bem? – ele falou em sua voz de líder, fazendo que eu aceitasse logo.
Não demorou muito que outra coisa acontecesse logo de cara. Na verdade, isso não é novidade quando se vive em Crystal. Temos muitas intrigas e fofocas por toda parte. Adoramos e odiamos isso.
Era um bom dia daqueles, quando eu passava pelo castelo do rei. No momento em que passei por uma sala cuja porta era decorada de pedras preciosas, ouvi uma conversa:
-- Papai, o senhor não vai impedir, vai? Mamãe está querendo morrer! – ouvi Kaito falar angustiadamente. – Eu não quero vê-la morrer!
-- Sinto muito, Kaito. A sua mãe cometeu um grande erro ao ter se influenciado pela bebida e ter outra filha.
E grudei a minha orelha na porta. Uma princesa perdida?
-- Eu concordo totalmente com papai, Kai. – essa voz eu reconheceria em qualquer lugar. O tom brincalhão, o tom que faz todo mundo se intrigar e se encantar ao mesmo tempo. Não era à toa que as meninas do coral sejam tão apaixonadas por ele. Saito era um dos garotos com as vozes mais suaves do colégio, além de um bom desempenho. O seu desempenho só não era vencido por cinco alunos. E, entre eles, estava o seu próprio irmão. – Mamãe sabe que é o certo a fazer. Traição leva à morte perpétua, certo? – demorou-se alguns segundos. Parecia que Kaito estava tenso, fazendo que Saito desse uma risadinha marota e continuasse. – Qual é, irmãozinho! Você sabe muito bem que a justiça tem que ser feita.
-- Mas matar duas pessoas por causa de uma traiçãozinha? Você acharia justo que você gostasse de duas garotas que não fossem a sua esposa e tivesse que morrer por elas? – Kaito conseguiu ficar sério novamente.
E, como as demais vezes, os dois parentes dele ficaram sem alguma palavra para rebater. Kaito era bom nessas questões, tanto que quase ninguém tinha coragem de falar mal dele. Era impossível, digamos.
-- Você não vai ajudar mamãe? – riu Saito, maroto.
E bem, também era impossível que Saito não risse feito um retardado. Digo, o motivo dele ser assim até hoje é um verdadeiro mistério. Saito era uma criança brilhante e muito sorridente quando era um simples garoto de quatro anos, então toda Crystal começou a ficar chocada com a repetina mudança.
Até Kaito.
-- Você não tem cérebro, Saito? – perguntou Kaito suspirando com uma gota na cabeça e com os braços fechados.
Saito não apagou o sorriso. Apenas sorria, de um jeito maníaco, o que fazia todos o olharem com atenção. Ele sabia como fazer todos o olharem com tal surpresa, além de todas as garotas – de Crystal – terem uma quedinha por ele (mesmo, segundo Miyako, ele ser bem estranho que poderia fazer qualquer um entrar em erupção.
-- Claro que eu tenho. Se eu não o tivesse morreria, certo? – ele perguntou para o irmão com tal tom grosseiro que senti que Kaito não estava mais agüentando ficar na maior tranqüilidade. Era meio impossível de ele partir uma briga, mas ele parecia querer. Saito tirou, finalmente, o sorriso do rosto e se aproximou da mãe com um desagradável olhar.
O problema que fez Kaito e Saito se afastarem mais, foi este:
Saito empurrou a própria mãe.
Até hoje, nós ficamos assustados com isso. Não ficamos com raiva, como sabemos que ele poderia fazer isso bem que quisesse.
E isso se alcançou até os dias de hoje.
-- Takara-san? – o chefe me chama com um tom detestável, o que não era uma pura novidade. Mas, para a minha surpresa, ele parecia estar surpreso. Além do mais, ele estava em um tom ofegante. – Você está acordado?
-- Sim, senhor. – eu respondi aparentemente educado.
Claro que eu não poderia mandá-lo calar a boca. Seria digno de uma prisão. Não poderia o chamar, irônico, de Sr. Sabe-Tudo´´. Ele iria fazer um discurso que faria a minha penitente humilhação. Então, eu só pude me inquietar e tentar manter a minha calma diante da cadeira. Psyché tentava me atacar, com a ajuda dos fantasmas, com os nervos à flor da pele. Com alguns escudos, eu conseguia me defender.
Menos do meu chefe.
Cerro os meus olhos e os meus punhos, respirando fundo. Que raiva.
-- Bem, eu quero que você procure todos os dados dos ancestrais de Maria Kuroyama. – ele disse, despenteando um pouco os seus cabelos. Estava frustrado, pelo que parecia. O seu costume não é de falar muito (na verdade, é raro – para mim – vê-lo falando durante cinco minutos e direto) e, bem... Ele está falando muito – ou os meus ouvidos conseguiram apenas acompanhar as palavras de maior importância? Estou ficando surdo? Ou a cera do meus ouvido me impede de falar? – e não parece estar bem (óbvio. Ao contrário de Kaito-sama, Saito é muito arrogante e sem-senso-de-humor. Se Saito se tornasse alegre e saltitante – como antes-antes -, será – com certeza – o fim do mundo).
-- Algum problema com ela, senhor? Digo, eu sei que ela é uma das garotas do território inimigo, mas... Maria-san não me parece uma ameaça, apesar de Kaito-sama estar dentro do corpo dela e tomando um pouco de sua energia vital. Ela me parece ser uma garota fraca, na minha opinião. – Eu estava certo, claro, como eu vi que os movimentos de Maria não me impressionaram nem tanto ou pouco. Na verdade, eu me impressionei como ela ainda não havia percebido nada e errado em seu corpo. Sorri para mim mesmo ao ver o quanto Kaito era sábio em escolher aquele corpo. Deveria ser um corpo forte, apesar da personalidade ser sorridente demais. – O senhor não acha que...?
-- Então vejo que se enganou profundamente, Takara. – Saito me disse com o típico olhar frio. Ele suspirou, como quisesse contar algo que me faria chocado. – Ela não é nada o que parece.
-- Como assim? – eu arqueei uma sobrancelha, surpreso.
Saito, o atual rei sangue-frio, se interessando por uma simples humana? Espera aí! Em que mundo estamos mesmo?
-- Parece que ela consegue poderes sem a ajuda do meu irmãozinho. – ele disse. – ou seja: Maria Kuroyama não é humana. E, se possível, nem crystaliana. A garota tem o poder daquele homem.
De fato, isso era um enorme motivo que pudesse alertar o nosso império. Eu não compreendia. Aquele homem não deveria estar extinto há milênios? Ele não deveria estar nas profundezas de um dos vulcões do seu devido planeta? Ou será que...
Ele voltou?
Um arrepio correu por toda a minha espinha, fazendo-me quase sobressaltar de onde estava. Se ele voltou, então...
O Império de Crystal está acabado muito antes do previsto.
