Página Seis

Eu supus que Luna não apareceria na reunião que marquei com Papoula dois dias depois em Hogwarts. Eu me estapeei mentalmente à suposição infundada que meus temores diziam ser um fato. Contudo, todas as minhas idéias justificativas caíram por terra quando a vi cruzar as pesadas portas de carvalho da enfermaria.

Eu havia passado o fim de semana inteiro tentando compreender porque meus sentimentos por Luna haviam mudado tanto. Tanto que pouco sabia sobre o que sentia por ela... tanto a ponto de querer beijá-la meio a um abraço amistoso, por Deus! Tudo foi tão rápido, impreciso, não sabia em que pensar, no que me basear. Pela primeira vez na minha vida, eu não tinha as perguntas, muito menos as respostas.

Eu me agarrei à companhia de Ron desesperadamente, ele sempre fora tão péssimo em relação a sentimentos que não questionou a minha mudança súbita. Eu o agradeci interiormente por isso. Foram três dias tranqüilos e até divertidos onde cozinhei e o obriguei a me ajudar com a sobremesa.

"Se você quiser o pudim vai ter que ajudar, Ron! Ou não te ajudo a solucionar os gráficos de Aritmancia daquela papelada que vi você tentar traduzir para o QG dos aurores." – eu disse entre risos.

Eu me permiti esquecer dos problemas até que pudesse encontrar alguma base em que me apoiaria.

E agora eu estava ali, Luna a minha frente, seus olhos azuis a me fitar demoradamente e era como se todas as perguntas sem respostas pairassem entre nós duas.

Eu queria me afastar, eu queria me aproximar. Dizer coisas sem sentido que me desculpasse para com ela... eu não queria falar nada! Apenas suspirei resignada e assisti Luna e Papoula sentarem-se na mesa para começar a reunião.

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Finda a reunião, tínhamos novas metas a cumprir com base nas descobertas de Luna que provaram ser verdadeiras e eficazes. Pilhas de livros para estudar, coletas de material para fazer, segredos, gráficos, tabelas, de tudo um pouco. Eu acompanhei com os olhos Papoula guardar os frascos com experimentos de ditamno e percebi que Luna fazia o mesmo. Olhamos-nos, falando quase ao mesmo tempo.

"Preciso falar com você." - "Podemos conversar?"

Assenti silenciosamente em resposta. Por um impulso sem hesitação, segurei sua mão a caminho da saída.

"Vamos dar uma volta pelo castelo, Papoula. Voltamos logo!"

O silêncio reinou durante todo o trajeto da enfermaria até os jardins da ala norte do Castelo, onde nos dirigíamos. A mão que segurava a de Luna suou, mas fiz questão de segurar seus dedos com firmeza para que ela não se desprendesse de mim. De repente, eu precisava do contato direto com Luna. O dia estava como todos os últimos: nublado, ameaçando uma forte chuva que nunca vinha a acontecer. Ventava gelado e agradeci o fato de ter trazido meu casaco. Luna olhava o céu com as sobrancelhas arqueadas. Fiquei curiosa sobre o motivo, mas não precisei profaná-la, Luna esclareceu minha pergunta muda.

"A professora Trelawney disse uma vez em aula que as estrelas podem indicar o futuro da humanidade." – Luna veio dizendo devagar, deitando-se no chão debaixo de uma frondosa árvore. – "... o que eu acho intrigante e sempre me preocupo em questionar é porque só as estrelas podem ler o futuro..."

Luna olhou para mim com olhos questionadores, ignorando deliberadamente o seu conhecimento de que eu havia abandonado Adivinhação e tão pouco acreditava nessa lenda de futuro lido nos astros. Ela sorriu para mim e indicou com o dedo indicador as nuvens pesadas entre os galhos da árvore. O silêncio voltou a pairar entre nós. Eu de pé frente a árvore, Luna deitada no chão, o dedo em riste para o nada, somente o som do vento machucando os ouvidos.

"Então eu cheguei à conclusão de que..." – sua voz soou baixa após tantos minutos de contemplação – "as estrelas só indicam o nosso futuro porque existem as nuvens para revelar o presente. O passado já não nos interessa mais. Tudo o que passou só podemos tentar entender e aceitar. Temos que esperar a noite cair para ver o brilho das estrelas no futuro, mas o presente... não. Ele é o aqui, é o agora. É você e eu debaixo dessa árvore, tentando nos responder o que fizemos na sua sala três dias atrás."

O dedo de Luna ainda apontava para o céu, mas ela não olhava mais para o alto. Luna olhava para mim novamente, chamando-me com o olhar para que eu me aproximasse. Eu andei devagar, sentei ao seu lado de pernas cruzadas ao modo oriental e olhei para onde seu dedo apontava.

"O que você vê, Hermione?"

As nuvens pesadas estavam baixas e, talvez por isso, suas formações mostravam desenhos sem muito sentido para mim. Franzi o cenho em observação, porém, pouco distingui.

"Olhe aquela ali!" – senti seus dedos no meu pulso e Luna a ergueu para o alto como fizera a pouco, com a minha mão. "Ela me parece, no momento, um delicioso sundae de caramelo. O que será que isso quer dizer, huh?"

Eu ri um pouco mais relaxada e respondi observando a "nuvem-sorvete" ganhar vida diante dos meus olhos. "É muito provável que assaltemos a cozinha de Hogwarts para provar o tal sundae... mesmo que seja pleno inverno!"

Ela olhou para mim compreendendo que eu a havia entendido. Deitei ao seu lado imitando sua posição. Sua mão ainda segurava a minha, mas agora, apontava para diversas nuvens à esquerda de nós.

"Veja aquela... parece muito com a árvore em que estamos deitadas agora."

"E aquela outra parece o frasco de ditamno que madame Pomfrey guardou há pouco." - eu entrei na brincadeira.

Eu me deixei levar nas figuras altas, na voz de Luna, no vento gélido. O passado estava no passado, o futuro eu nunca desejei saber e o presente...

"Lembra-se daquela música que cantamos no jantar em sua casa? Aquela que ensinei ao Harry?"

"Sim, lembro."

"Eu consigo enxergá-la tão viva agora!" – e Luna pôs-se a cantar baixinho, como alguém que receia perturbar a paz quieta dos jardins de Hogwarts – "Imagine there's no heaven… It's easy if you try... No hell below us... Above only sky… Imagine all the people… Living for today…"

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"Luna…?"

"Unh?" – ela resmungou sonolenta.

"Eu só queria te dizer que não me arrependo."

"Eu também não, Hermione" – ela respondeu com um olho aberto semi-cerrado – "Eu também não."

Eu girei o corpo no gramado apoiando-me nos cotovelos para vê-la melhor. Devagar, meus lábios encontraram os delas e eu sorri.

O presente... eu estava vivendo agora.

Continua…


N/A: Imagine de John Lennon não é a cara da Luna? Tá, talvez só eu mesmo acho... XD

Próximo Capítulo: mais pesquisas, mais observações furtivas… mais beijos.