Capítulo 07
Sango brigava contra os seus dolorosos pensamentos e contra a contínua náusea enquanto apresentava seu relatório sobre o projeto Córdoba em uma sala cheia de representantes de vendas e funcionários de marketing.
Ela estava na metade da apresentação quando alguém abriu a garrafa térmica de café ao seu lado e ela sentiu o forte aroma da bebida.
O estômago dela revirou e ela levou a mão à boca, enquanto corria para o banheiro.
Quando finalmente aliviou o enjôo, lavou a boca e encontrou a diretora de marketing esperando por ela no banheiro.
— Sente-se um momento antes de voltar para a sua mesa.
— A apresentação...
— Instruí Takeda a terminar para você.
— Mas você está perdendo.
— Vou repassar a apresentação quando for para a minha sala. Mas queria saber se você está bem. Lembro-me desses mesmos sintomas, e você aparentou estar surpresa.
— Ficou gripada recentemente também?
— Não com esse tipo de gripe... Não há mais de vinte e cinco anos.
— Esse tipo de gripe?
— Você não sabe? — perguntou gentilmente a diretora.
Mas, de repente, Sango descobriu. Não ficava menstruada há seis semanas, mas nunca foi muito regular, por isso não ficou preocupada. Especialmente nos últimos dias. Primeiro, sentia saudades de Miroku. Depois, brigava contra esse sentimento... Não dava para pensar com clareza.
— Não é possível — ela falou, sabendo que era.
— Tem certeza?
— Ele achava que eu não poderia engravidar — ela falou, tonta ao perceber o que acabara de dizer.
— E você arriscou mesmo assim? — a diretora sacudiu a cabeça. — As jovens de hoje em dia... Como pôde ser tão ingênua?
— Não estava sendo ingênua. — bem, talvez estivesse. — Não em relação a isso. Eu não me importava com o risco.
— Espero que seu namorado pense da mesma forma.
Ela duvidava. Miroku não queria filhos com ela. Ele resistiria a isso, ela tinha certeza. Mesmo que a tenha irritado muito, era um cara responsável, mas não podia ter deixado mais claro que não queria uma família com ela.
Ela sorriu sem forças para a outra mulher.
— Obrigada por ter vindo ver como eu estava.
— De nada. Mas, se eu fosse você, ficaria longe das garrafas de café.
Sango se arrepiou.
— É o que farei.
Miroku parou no caminho entre seu escritório e o de sua assistente quando ouviu o nome de Sango.
— Ela saiu da sala tão rápido que pensei que fosse dar de cara na porta — comentou um dos profissionais de marketing.
— E a diretora a seguiu?
— Depois de pedir a Takeda Musashi para concluir a apresentação, sim.
— Espero que esteja bem. Sango é um amor e trabalha muito bem.
— Oh, tenho certeza que sim, mas não creio que essa doença vá passar logo, se é que você me entende.
— O que quer dizer? — perguntou a assistente dele.
— Bem, lembro que eu era muito sensível ao cheiro de café quando fiquei grávida do meu primeiro filho. Ela agiu da mesma forma.
— Acha que Sango está grávida? Mas ela não namora ninguém.
— Basta uma noite.
— Não acho que ela seja do tipo de ficar com um cara em uma noite.
— Talvez esteja certo, mas ela voltou perfeitamente bem para o escritório, agora. Se não for o costumeiro enjôo matinal, então não sei o que é.
Miroku voltou para o escritório dele tonto diante da possibilidade de Sango estar grávida. Será que o bebê era dele?
Tinha de ser.
Mas como seria possível?
As palavras de Sango ecoavam na mente dele. "Baixa contagem de espermatozóide não significa esterilidade. Você brincou de roleta-russa com o meu corpo".
Brincou, mas não teve a intenção. Não podia acreditar que a tivesse engravidado, depois de anos tentando com Mayuri. Ele supunha que jamais engravidaria uma mulher e decidiu que não se casaria novamente por causa disso. Sofreu muito no seu casamento com Mayuri por causa da impossibilidade de engravidá-la.
Estava determinado a não entrar naquela situação novamente. A sua incapacidade de gerar um filho no ventre dela ameaçou o que teria sido um casamento perfeito.
Sango não podia estar grávida. Não era possível. A moça da área de marketing estava equivocada.
Ele pegou o telefone.
A assistente atendeu.
— Sim, signor Taisho.
— Por favor, peça a diretora de marketing para vir ao meu escritório.
Uma hora depois, ele obteve algumas respostas e ainda se recuperava do que acabara de ouvir. Sango acreditava que estava grávida e que ele fosse o pai.
Não que tenha dito isso, mas falou à diretora de marketing que o pai da criança não julgava possível engravidá-la. Isso significava que só podia ser ele. Não que ele duvidasse seriamente da fidelidade dela.
Ela era dele, e sempre fora, desde o primeiro encontro. Ainda não tinha a gravidez confirmada, pois ainda não havia percebido, até a diretora insinuar. Entretanto, ele queria acreditar nisso.
Estava desesperado para acreditar.
Primeiramente, a diretora de marketing hesitou em contar a conversa que tivera com Sango no banheiro, mas ser presidente da empresa tem certas vantagens. Demonstrar preocupação com seus funcionários era uma delas.
Depois que ela saiu, ele sentiu uma forte vontade de comemorar e pediu à assistente para chamar Sango. Ela olhou para ele com uma certa especulação, mas ele não se permitiu demonstrar nada do que sentia. Era bom nisso. Aprendeu cedo, quando a imprensa seguia cada passo seu, a não demonstrar os sentimentos e a não expressar sua vulnerabilidade.
No mesmo dia, pela manhã, quando convidara Sango para ir ao casamento do irmão na ilha Diamante, se aproximou mais de uma mulher do que fizera em anos. A recusa dela o surpreendeu e magoou, e ele precisou de todo o controle para não demonstrar o quanto.
Depois de algumas horas pensando e pouco trabalho feito, ele havia conseguido até entender o ponto de vista dela. Ela o amava, mas ele não podia fazer promessas para o futuro. No entanto, parte dele questionava a força desse amor, já que ela era capaz de deixá-lo com tanta facilidade.
Tudo mudou e ela logo saberia.
— A Srta. Minamo saiu mais cedo hoje, signor Taisho — avisou a assistente.
— Sei. Você sabe por quê?
— Acho que passou mal hoje cedo. Deve ter ido descansar.
Miroku aquiesceu.
— Por favor, cancele minha agenda de hoje à tarde.
— Mas signor Taisho, o senhor tem...
— Passe tudo que for urgente para o vice-presidente. — ele tinha algo bem mais importante para cuidar e nada mais o impediria naquele momento.
Sango lia o resultado do exame de gravidez pela centésima vez e ainda não conseguia acreditar. Carregava um bebê de Miroku. Ela acomodou a mão sobre a barriga e pensou na pequena vida que crescia ali dentro.
Se tivesse energia, entraria na internet para pesquisar remédios, mas estava tão cansada que só pensava em se deitar.
Estava indo fazer isso quando uma forte batida à porta a impediu.
Ela abriu e confirmou o que pressentia: era Miroku.
Não podia saber sobre o bebê. Ainda não. Ela mal sabia sobre isso. Talvez tivesse ouvido falar que ela saíra mais cedo por estar doente. Talvez tivesse ido verificar. Sempre se preocupou com a sua saúde, paparicando-a quando ficava menstruada e comprando bastante chocolate...
Ele bateu novamente à porta.
— Abra, Sango. Sei que está aí!
Ele parecia mais impaciente do que preocupado. Ela abriu a porta.
— Olá, Miroku, o que o traz aqui?
— O que acha? — os olhos azuis dele a examinavam com cautela.
Ela deu de ombros.
— Não tenho a menor idéia.
— Passou mal na metade de sua apresentação hoje de manhã.
Ela não se surpreendia por ele ter ouvido. Os rumores da empresa eram mais eficientes do que qualquer jornal de fofocas.
— Então ficou preocupado e decidiu vir ver como eu estava?
Ele entrou na sala, apertando gentilmente os ombros dela.
— Pode-se dizer que sim.
— Não precisa. Estou bem. Foi apenas um mal-estar temporário.
— Não foi o que a diretora de marketing me falou. Na realidade, na opinião dela, seu mal-estar deverá durar alguns meses.
— Ah, não...
Ele franziu a testa, claramente chateado com a reação dela.
— Ah, sim. E não gostei de ser o último a saber.
— Saber de quê?
— Que está grávida.
Ela sentiu uma enorme falta de ar e balançou quando tudo ficou preto ao redor. Ele a agarrou e a tomou nos braços, levando-a para o quarto.
— Está bem? Já marcou uma consulta com o médico?
— Estou bem. Só fiquei tonta por um minuto. De qualquer forma, só confirmei com um teste caseiro. Ainda não tive tempo de marcar uma consulta.
— Foi o que a diretora pensou, que você não soubesse que estava grávida.
Lembrando da acusação dele na sala, ela ficou imóvel em seus braços.
— Então, qual foi o alarido por ter sido o último a saber?
Ele corou.
— Não estou pensando direito. Desculpe. É que eu preferia ter ouvido as notícias diretamente de você. Do outro jeito não foi legal.
— Se você me perguntar, não tem nada de legal nessa situação.
Ele interrompeu o processo de deitá-la na cama.
— Como pode dizer isso?
— Oh, não sei. Estou grávida de um filho que você não quer. Terminamos recentemente nossa relação e todos pensam que fiquei grávida depois de um encontro de uma noite, pois nossa relação é secreta.
Ele a acomodou gentilmente na cama e sentou-se ao seu lado, passando a mão possessivamente na barriga dela, o que levou lágrimas aos olhos dela, por alguma razão.
— Naturalmente, tudo mudou. E, por favor, nunca mais repita que não quero este bebê.
— Mas como pode?
— Como não posso? Um bebê é um presente de Deus. Um presente que nunca pensei que teria. Acreditava que jamais seria pai, e agora sei que serei. Não estou tentando ver o melhor de uma situação ruim. Estou emocionado. — e os olhos dele brilharam com uma felicidade tão profunda que ela não podia duvidar. — Quero esse bebê mais do que poderia explicar para você.
Ela estava equivocada. Mortalmente equivocada. Miroku estava totalmente convencido de sua esterilidade. Isso era óbvio. Ela estava errada ao pensar que ele não se importava com as conseqüências de fazer sexo sem proteção com ela, pois ele realmente acreditava que fosse estéril. Mas isso não significava que a recíproca fosse verdadeira... Que ele gostava dela como ela gostava dele.
Ele realmente queria aquele bebê que ela carregava, mas isso não tinha nada a ver com o fato de ela ser a mãe. Ele queria ser pai e o fato de ela ser o veículo que faria isso acontecer não fazia com que ela tivesse um local especial no coração dele... Só na sua vida.
Ao se lembrar da realidade, ela não conseguiu evitar um pequeno sorriso. Nunca tinha visto Miroku tão feliz, e gostava disso.
— Que bom que ficou feliz com o bebê!
— Estou feliz, tesoro mio, muito feliz — ele sorriu para ela e roçou um pequeno círculo na barriga dela. — Será que conseguiremos fazer um casamento duplo com meu irmão? Ele planeja fazer um casamento bem discreto, então seria perfeito.
— De que diabos está falando?
— Devemos nos casar o quanto antes.
Bem, ela não estava errada quanto a isso. Ele queria se casar com ela, como ela pensou que ocorreria se engravidasse, mas a perspectiva nem chegava perto da que um dia havia imaginado, quando chegou a acreditar que ele gostasse dela. Mas também não repudiaria isso agora.
A reação dela à possibilidade de ir ao casamento do irmão dele fora o suficiente para convencê-la de que, independentemente dos sentimentos de Miroku, ela o amava. Afastar-se dele seria um caminho doloroso.
— Você está indo rápido demais para mim, Miroku.
— O que quer dizer? Não pode me dizer que não quer se casar comigo. — a feliz aceitação da paternidade abriu caminho a uma resolução impiedosa. — De acordo com você, o grande inconveniente de manter uma relação comigo era a possibilidade de um dia terminarmos. Se nos casarmos, esse bicho-papão vai sumir para sempre.
— Não é um bicho-papão.
— Seja o que for. O medo será infundado no casamento.
— Os casamentos podem terminar... Em divórcio. — ele sabia melhor do que ninguém. Pelos próprios pais.
Ele colocou a outra mão no ombro dela, como se a abraçasse para impedi-la de partir.
— Não haverá divórcio.
— Haverá se você achar que poderá escapar e ser infiel como seu pai. Sou tão intolerante quanto sua mãe em relação a esse tipo de coisa.
Ele se levantou e ficou de pé ao lado da cama como um anjo vingativo.
— Como ousa me acusar disso? Nunca fui infiel nessa relação e considero os votos do casamento sagrados.
— Foi você que me disse que não planejava se casar porque não acreditava que conseguisse ser fiel.
— Isso foi antes.
— Antes de quê?
— De você engravidar — ele respondeu, como se isso explicasse tudo.
— Bem, sua mãe também teve um filho do seu pai e isso não o impediu.
Ele cruzou os braços e olhou para ela.
— Não sou meu pai. Não vou me comportar assim.
— Como pode ter certeza disso? — e como ela poderia?
— Porque tenho, está bem? Dou minha palavra de que não levarei outra mulher para a cama.
— Tenho certeza de que seu pai falou a mesma coisa.
— Está se recusando a se casar comigo? — perguntou Miroku, com fúria na voz. — Pense bem antes de responder, porque aviso a você que, casado ou não, não serei pai do meu filho em meio período.
Oh, droga. Ela nem sabia o que ele queria dizer com isso.
— Eu não gostaria que fosse e não estou me recusando a casar. Só estou dizendo que preciso de algum tempo para pensar. Hoje de manhã, já não tínhamos mais uma relação...
— Por sua escolha, não minha.
— Sim, concordo, mas, se não consegue ver o que levou ao nosso rompimento, não sei o que dizer para ajudá-lo a enxergar. E, francamente, a notícia da gravidez caiu sobre mim como uma grande guinada.
— Uma guinada positiva, suponho.
Ela virou a cabeça, as lágrimas aparecendo para atrapalhar. Como poderia responder? Sob vários pontos de vista, estava muito emocionada por esperar um filho dele, mas não podia esquecer as dúvidas que a haviam levado a optar por não querer um bebê. Elas não haviam desaparecido da forma que pensou.
— Não quer meu filho? — ele perguntou, parecendo dez vezes mais irritado do que antes.
Ela sacudiu a cabeça, mas ainda não queria olhar para ele. Não conseguia pensar direito quando olhava para ele, e precisava pensar.
— Não é isso.
— O que é, então?
— Eu não tinha planos de engravidar.
— Agora ou nunca.
— Nunca.
— Você não fazia nada para evitar, embora eu sempre esquecesse a camisinha.
— Eu sei. — porque ela tinha sonhos e esperanças... Só que às vezes, quando os sonhos se tornam realidade, podem ser terríveis.
— Então, deve ter pensado em engravidar, pelo menos um pouco.
— Pensei, mas era mais fantasia que realidade.
— E agora que é realidade, está infeliz?
— Infeliz, não... Assustada — ela admitiu.
Ele sentou na cama novamente e tocou a testa dela com um terno carinho.
— Por que tem medo? Por causa de sua carreira?
— Por causa dos meus genes.
Ele merecia a verdade. Ele tinha o direito de saber os riscos que a criança enfrentaria, mas tinha de procurar as palavras certas. Nunca havia planejado essa conversa.
— Preciso lhe contar uma coisa, Miroku.
— Você ainda não casou. Era virgem quando fizemos amor pela primeira vez, claro que não podia ser casada — ele falou, como se conversasse consigo mesmo.
Ela virou para olhar para ele e sorriu, quase sem força.
— Não, não sou casada.
— E o bebê é meu. Não tente me convencer do contrário, porque não vai funcionar. Você é mulher de um homem só, e eu sou seu homem. (n/a: um desses me dizendo isso! Eu nunca iria contra a palavra dele XD)
— Claro que o bebê é seu, não tenho a menor intenção de convencê-lo do contrário.
— Então nada pior pode justificar seu olhar de descontentamento.
— É o que pensa.
— Então me conte seus problemas que eu vou solucionar.
— Não pode.
— Tem certeza? — ele perguntou, enquanto pegava sua mão e acariciava a palma com seu polegar.
— Sim. Nesse caso, não há nada que possamos fazer além de ter esperança.
— Diga o que é.
— Sinto muito. — ela engoliu em seco. — Não quero fazer uma tempestade em copo d'água. É muito difícil para mim falar sobre isso, mas, quando tinha quinze anos, decidi que não engravidaria.
— E por quê? — ele perguntou, com um olhar indulgente.
— Porque passei os nove anos anteriores em uma prótese que pega todo o dorso para corrigir uma deformidade postural genética, e ainda tinha mais por vir, e detestava a idéia de que meu filho passasse pelo mesmo problema.
— Che cosa?
— Quando eu tinha seis anos, diagnosticaram um caso severo de escoliose juvenil. É uma forma extremamente rara da doença. Meus médicos esperavam evitar uma grande cirurgia.
— Não sabia que escoliose demandava cirurgia.
— Em geral, não, mas em casos raros o risco de morte por estresse do coração pela deformidade da coluna vertebral ou paralisia é tão grande que se sugere a única solução que representa menos riscos. Meus pais e médicos queriam evitar isso, mas, para tanto, tive de usar uma prótese vinte e quatro horas por dia, até completar dezenove anos, quando os médicos se convenceram que eu não cresceria mais. Mesmo assim, durante os dois anos seguintes, tive pavor que minha coluna recuperasse a curvatura que a deformava.
— Quer dizer que essa doença é hereditária?
— Não, não exatamente, mas minha mãe também teve. E se nosso bebê nascer assim também? Sinto muito. Devia ter contado antes, mas me convenci de que, se eu engravidasse, era porque devia ser assim, e nosso bebê não teria a doença. Só que agora que estou grávida, só consigo pensar nisso. Estou com tanto medo, Miroku.
Ele a abraçou.
— Está bem agora? A gravidez não representa riscos para a sua saúde?
— Não, nenhum. Tive uma correção de curvatura de oitenta por cento. Na realidade, foi um milagre, e não há limites para meu estilo de vida por causa da escoliose.
— Então seus receios são apenas em relação ao bebê?
Ela assentiu.
— Sinto muito — repetiu, com a voz trêmula pelas lágrimas.
— Pare de pedir desculpas. Esse bebê é um presente. Acredite.
Ela olhou para ele e o calor de seus olhos a encheu de esperança.
— Mas...
— Olhe para você. Está bem agora. Mesmo que nossos filhos tenham essa doença, a vida deles não será alterada.
Ela sorriu quando lembrou a dor.
— Fale isso para uma menina de treze anos que se olha no espelho e vê apenas a prótese, e não o corpo sob ela.
— A prótese é muito pesada?
— Não. Na realidade, com as roupas adequadas, mal dava para dizer que eu a estava usando, mas meus pais eram muito protetores.
— De que forma?
— Minha mãe me incentivou a evitar contato físico com outras pessoas para que elas não soubessem da prótese.
— E eles a abraçavam?
— Não. Eu não incentivava contato físico com ninguém.
— Isso explica tudo.
— O que quer dizer?
— Nada importante. É que às vezes há uma parede invisível ao seu redor.
— Nunca percebi que ela o impedia de me tocar.
— Não impediu, e não vai impedir que eu toque no nosso filho.
Ela chorou diante dessa certeza.
— Fico contente, mas precisa levar outra coisa em consideração.
— O que mais?
— Interação com outras crianças. Meus pais não gostavam que eu brincasse com outras crianças e passei grande parte das férias escolares dentro de casa lendo e fazendo deveres da escola, e não brincando.
— Como se exercitava?
— Meus pais me colocaram em um regime muito específico, sem correr riscos de ser machucada por outras crianças.
— Isso era necessário? — ele perguntou, em dúvida.
— Na realidade, não, mas esse não é o ponto, certo? O ponto é...
— Que nosso filho será nosso e faremos o melhor para ele, independentemente dos desafios que ele encontrar na vida.
— Não é simples assim.
— É, sim, Sango.
— Não acha que meus pais fizeram o melhor para mim?
— Sim, mas eles são eles, assim como meu pai é meu pai. Seremos pais diferentes.
— Mas você se preocupa tanto com a imprensa... Pode imaginar se eles soubessem algo dessa natureza?
— Se nosso filho tiver essa doença, faremos um anúncio público antes de atiçar a curiosidade deles. Entendeu?
— Sim. Sinto muito por não ter avisado, Miroku.
— Já falei para parar de pedir desculpas. Certo? Se realmente acredita que o que contou causou algum impacto na minha felicidade diante da possibilidade de ser pai, ou de como me sinto em relação a essa criança, então não me conhece como pensei que conhecesse.
— Cheguei a essa conclusão anteontem, quando percebi que todas as suposições que fiz ao seu respeito haviam sido erradas. Agora, percebo que minha outra suposição foi falha também. A verdade é que estou muito confusa em relação a você agora e vejo que ter engravidado não ajudou muito.
