7

O tempo perdeu todo o significado. Nunca havia luz na cela e assim não havia qualquer diferença entre dia e noite. Ela não tinha a menor idéia do tempo a que estava no confinamento solitário. De vez em quando lhe empurravam refeições frias por uma abertura na base da porta. Hermione não sentia qualquer apetite, mas forçava-se a comer cada porção. "Tem de comer ou não vai durar muito aqui." Ela compreendia isso agora; sabia que precisaria de todas as suas energias para o que planejava fazer. Encontrava- se numa situação que qualquer outra pessoa consideraria desesperadora: condenada a 15 anos de prisão, sem dinheiro, sem amigos, sem recursos de qualquer tipo.

Mas havia uma fonte profunda de força dentro dela. Eu sobreviverei, pensou Hermione. Enfrento meus inimigos nua e minha coragem é meu escudo.

Sobreviverei assim como sobrevivi à guerra contra Voldemort. Por que apesar de não ter lutado efetivamente (trabalhara como espiã), aquilo tambêm fora difícil e doloroso. E Hermione sabia que se conseguira sair daquela guerra forte, saíria do inferno forte também.

E sua mãe e seu pai estavam ali com ela, naquela cela dos infernos, podia sentir a sua força, era pungente, forte e reconfortante. Não os desapontarei, sussurrou Hermione para a escuridão.

Ela começou a planejar sua fuga.

Hermione sabia que a primeira coisa que precisava fazer era recuperar a força física. A cela era apertada demais para exercícios amplos, mas suficientemente grande para o t'ai chi ch'uan, a arte marcial milenar que era ensinada aos guerreiros que se preparavam para o combate. Os exercícios exigiam pouco espaço e acionavam todos os músculos do corpo. Hermione levantou-se e executou os movimentos iniciais. Cada movimento possuía um nome e um significado. Ela começou pelo agressivo Socando os Demônios, passou para o Acumulando Luz, mais suave. Os movimentos eram fluidos e graciosos, executados bem devagar. Cada gesto provinha do tan tien, o centro psíquico; todos os movimentos eram circulares.

Hermione podia ouvir a voz de seu mestre: Desperte a sua chi, a sua energia vital. Começa pesada como uma montanha e se torna leve como a pena de um pássaro. Hermione podia sentir a chi fluindo por seus dedos. Concentrou-se até que todo o seu ser se focalizava em seu corpo se movimentando através de padrões eternos.

Agarre a cauda da ave, torne-se a cegonha branca, repila o macaco, enfrente o tigre, deixe as mãos se tornarem nuvens e circule a água da vida. Deixe a serpente branca rastejar e monte no tigre. Abata o tigre, reuna a sua chi e volte ao tan tien, o centro.

O ciclo completo levou uma hora; quando acabou, Hermione estava exausta. Efetuava o ritual toda vez que lhe mandavam comida, até que o corpo começou a reagir, foi se tornando forte.

Quando não estava exercitando o corpo, Hermione exercitava a mente. Deitada no escuro, Efetuava complexas equações matemáticas, operava mentalmente o computador do banco, recitava poesia, imitava sotaques diferentes (era muito boa nisso), recordava de feitiços, nomes de livros e às vezes até capitulo inteiros de alguns dos livros de magia. Era um perfeccionista. Lembrava se aulas das aulas com a professora Minerva, lembrou-se de Harry (por onde ele estaria?) e por fim acabou-se lembrando da voz de Rony : "- obviamente eu nunca a conheci de verdade..."

Hermione afastou a recordação. Havia portas em sua mente que tinham de permanecer fechadas por enquanto.

Ela lançou-se ao jogo do ensino: Indique três coisas absolutamente impossíveis de ensinar.

Ensinar a uma formiga a diferença entre católicos e protestantes.

Fazer uma abelha compreender que é a terra que viaja em torno do sol.

Explicar a um gato a diferença entre comunismo e democracia.

Mas ela se concentrava principalmente na maneira como destruiria seus inimigos, um de cada vez. Lembrou-se de um jogo que fazia quando era pequena. Levantando uma das mãos para o céu, era possível bloquear o sol, apagá-lo por completo. Era o que haviam feito com ela. Levantaram a mão e apagaram a sua vida.

Hermione não tinha idéia de quantas prisioneiras haviam sido quebradas pelo confinamento, na solitária e isso também não faria diferença para ela. No sétimo dia, quando a porta da cela foi aberta, ela ficou ofuscada pela súbita luz que inundou a cela. Um guarda estava parado do lado de fora.

- Levante-se. Você vai subir agora.

Ele se inclinou para ajudar Hermione. Contudo, para sua surpresa, ela se levantou facilmente e saiu da cela sem qualquer ajuda. As outras prisioneiras que tirara da solitária saíam abaladas ou com uma atitude de desafio, mas aquela não exibia qualquer das duas reações. Havia nela uma aura de dignidade, uma confiança que não condizia com aquele lugar.

Hermione parou na claridade, deixando que os olhos gradativamente se acostumassem. É uma mulher e tanto, pensou o guarda . Com uma boa limpeza, dá para se levar a qualquer lugar. E aposto que ela faria qualquer coisa por uns poucos favores. Em voz alta, ele disse:

- Uma garota bonita como você não deveria passar por esse tipo de coisa. Se nós fôssemos amigos, eu cuidaria para que, isso nunca mais acontecesse.

Hermione virou-se para fitá-lo; quando o guarda viu a expressão em seus olhos, decidiu prontamente não insistir.

Ele acompanhou Hermione até lá em cima e entregou-a a uma inspetora, que farejou por um instante e murmurou:

- Deus do céu, como você fede! Vá tomar uma chuveirada. E queimaremos estas roupas.

A água fria estava maravilhosa. Hermione ensaboou os cabelos, esfregou-se vigorosamente da cabeça aos pés com o sabão áspero. Enxugou-se e vestiu-se. A inspetora estava à sua espera:

- O diretor quer falar com você.

Na última vez em que ouvira essas palavras, Hermione pensara que significassem a liberdade. Nunca mais seria tão ingênua.

O diretor Brannigan estava de pé junto a uma janela quando Hermione entrou em sua sala. Ele virou-se e disse:

- Sente-se, por favor. - Hermione ocupou uma cadeira. - Estive em Washington numa conferência. Voltei esta manhã e encontrei um relatório sobre o que aconteceu. Você não deveria ter sido confinada na solitária.

Ela o observava atentamente, o rosto impassível não traindo coisa alguma. O diretor olhou para um papel em sua mesa.

- Segundo este relatório, você foi agredida por companheiras de cela.

- Não, senhor.

Brannigan acenou com a cabeça, uma expressão de compreensão.

- Entendo o seu medo, mas não posso permitir que as reclusas comandem esta prisão. Quero punir quem fez isso com você, mas preciso do seu testemunho. Providenciarei para que seja devidamente protegida. Quero agora que me conte exatamente o que aconteceu e quem foram as responsáveis.

Hermione fitou-o nos olhos.

- Fui eu. Cai do catre.

O diretor estudou-a por um longo tempo e ela percebeu o desapontamento em seu rosto.

- Tem certeza?

- Tenho, sim, senhor.

- Não vai mudar de idéia?

- Não, senhor.

Brannigan suspirou.

- Está bem. Se é essa a sua decisão, mandarei transferi-la para outra cela...

- Não quero ser transferida.

Ele ficou surpreso.

- Está querendo dizer que pretende voltar à mesma cela?

- Isso mesmo, senhor. O diretor ficou perplexo. Talvez houvesse se enganado em relação a ela; talvez ela tivesse atraído o que lhe acontecera. Só Deus sabia o que aquelas malditas presas estavam pensando ou fazendo. Ele gostaria de ser transferido para alguma penitenciária de homens, boa e sã. Mas a esposa e Amy, a filha pequena, gostavam dali. Residiam num chalé encantador, havia um terreno aprazível em torno da prisão. Para elas, era como viver no campo; mas ele, no entanto, tinha de lidar com aquelas mulheres doidas 24 horas por dia. O diretor olhou a mulher à sua frente e murmurou, contrafeito:

- Muito bem. Mas trate de se manter longe de encrencas no futuro.

- Está certo, senhor.

Voltar à cela foi a coisa mais difícil que Hermione já fizera. Foi dominada pelo horror do que acontecera ali no momento em que entrou. As companheiras de cela estavam ausentes, no trabalho. Hermione deitou no catre e ficou olhando para o teto, planejando.

Se ao menos a varinha tivesse ali! Pensou frustada. Finalmente se inclinou para baixo do catre e arrancou um pedaço de metal solto no lado. Escondeu-o por debaixo do colchão. Quando soou a campainha do almoço, às 11 horas, Hermione foi a primeira a entrar na fila do corredor. No refeitório, Paulita e Lola sentaram-se a uma mesa perto da entrada. Não havia qualquer sinal de Ernestine Littlechap.

Hermione escolheu uma mesa ocupada por estranhas, sentou e comeu toda a refeição insípida. Passou o início da tarde sozinha na cela. As três companheiras de cela voltaram às 2:45. Paulita sorriu de surpresa quando viu Hermione.

- Então voltou para nós, coisinha bonita. Gostou do que lhe fizemos, hem?

- Isso é ótimo - disse Lola. - Temos mais para você,

Hermione não deu qualquer indicação de que ouvira as zombarias. Estava se concentrando na preta.

Ernestine Littlechap era o motivo dela para voltar àquela cela. Hermione não confiava absolutamente em Ernestine. Mas precisava dela.

"...- Vou lhe dar um aviso, querida. Ernestine Littlechap manda naquele lugar..."

Naquela noite, quando a campainha assinalou o prazo de 15 minutos antes das luzes apagarem, Hermione levantou-se do catre o começou a despir-se. Não houve agora falso recato. Tirou todas as roupas. A mexicana deixou escapar um assobio longo e baixo ao contemplar os seus seios cheios e firmes, as pernas compridas e bem torneadas, as coxas roliças. Lola respirava fundo. Hermione pôs uma camisola e deitou-se de costas no catre. As luzes se apagaram. A cela mergulhou na escuridão.

Trinta minutos se passaram. Hermione permaneceu imóvel, escutando a respiração das outras. Do outro lado da cela, Paulita sussurrou:

- Mamãe vai lhe dar um amor de verdade esta noite, meu bem. Tire a camisola

- Vamos ensinar você a chupar uma cona e terá de fazer até aprender direito - murmurou Lola, soltando uma risadinha.

Ainda não havia qualquer palavra da preta. Hermione sentiu o movimento quando Lola e Paulita se aproximaram. Mas estava pronta para elas. Levantou o pedaço de metal que escondera e golpeou com toda a força, atingindo uma das mulheres no rosto. Houve um grito de dor. Hermione desferiu um chute no outro vulto, que caiu no chão.

- Cheguem perto de mim outra vez e eu as matarei - disse Hermione.

- Sua puta!

Ouviu-as avançarem de novo em sua direção e levantou o pedaço de metal. A voz de Ernestine soou abruptamente na escuridão:

- Já chega, Deixem a garota em paz.

- Estou sangrando, Ernie. Vou dar um jeito nela...

- Pare com essa merda e faça o que estou mandando.

Houve um longo silêncio. Hermione ouviu as duas mulheres voltaram a seus catres, a respiração ofegante. Ela continuou deitada, tensa, pronta para o próximo movimento delas. Ernestine Littlechap disse:

- Você tem coragem, menina.

Hermione ficou em silêncio.

- Não contou nada ao diretor. - Ernestine riu baixinho na escuridão. - Se tivesse falado, seria carne morta.

Hermione acreditava nela.

- Por que não deixou que o diretor a transferisse para outra cela?

Então ela sabia até disso.

- Eu queria voltar para cá.

- É mesmo? Por quê?

Havia um tom de perplexidade na voz de Ernestine Littlechap. Aquele era o momento que Hermione estava esperando.

- Porque você vai me ajudar a fugir daqui.