N/a: Estou tão feliz! Essa fic está recebendo mais hits por capitulo postado do que qualquer outra que eu já escrevi. Ah sim, neste capitulo, tenho a honra de lhes apresentar... a morena misteriosa.
Razão e Desrazão - by Blodeu-sama
Cap. VI
Voltei à Hogwarts uma semana antes do início das aulas, como de costume. Agi normalmente, de maneira agradável com todos, categoricamente determinada a não comentar nada sobre meu... divórcio. Estranho pensar em tal palavra e atribuí-la a mim, mas eu sabia que devia me acostumar com ela. Neville foi o único que notou que eu já não usava aliança, e discretamente me perguntou se havia acontecido alguma coisa entre eu mim e Ron.
- Voltei a ser Granger. – Respondi. E não dei mais detalhes. Neville foi sensível o suficiente para não pedi-los.
Eu sabia que se Severus estivesse no castelo, ele teria notado também. Mas ele ainda não voltara, e não era obrigado a voltar até o primeiro dia de aula, então deduzi que estava em algum ponto de Londres com a misteriosa irmã e com o sobrinho.
Por isso fiquei surpresa quando o encontrei aquela tarde, quando ainda faltavam três dias para o início das aulas. Mas estou me adiantando.
Era uma tarde particularmente bela, aquela. O sol de início de primavera brilhava firme, o ar tinha aquele cheiro de grama nova e terra úmida. Embora eu tivesse planejado passar meu tempo preparando minhas aulas antecipadamente, o dia parecia ser um convite a um passeio. Eu estava me sentindo realmente bem, coisa um tanto quanto rara desde o início das férias de Natal, então não recusei tal convite.
Vesti uma roupa bruxa simples, de tweed, e decidi passear por Hogsmeade. Fazia tanto tempo que eu simplesmente não andava por lá, para olhar as vitrines e trocar uma palavra ou outra despreocupadamente com conhecidos! Fiquei quase encantada ao descobrir uma nova pequena livraria no começo da rua principal, e gastei lá quase uma hora inteira folheando livros com cheiro de novo. Comprei tinta e penas novas, e passei no correio para deixar uma carta a Harry. Quando percebi que estava com sede, pensei em ir ao Três Vassouras, mas parei no meio do caminho. Aquele lugar estava cheio de lembranças do "trio de ouro" e, conseqüentemente, de Ron.
Eu estava evitando pensar em Ron ao máximo.
Foi então que me lembrei de Madame Puddifoot. Ron e eu nunca tínhamos ido lá, achando que era um lugar ridículo e piegas, mas naquele momento serviria perfeitamente. Devia estar razoavelmente vazio e os ocupantes estariam mais preocupados com seus respectivos pares do que com uma jovem professora passando a tarde no povoado.
Ao entrar no pequeno café vaporoso, pude notar imediatamente que não havia mudado muito. Continuava predominantemente rosa e branco, cheio de babados e ridiculamente gracioso, como a antiga sala de Umbridge. Sentei-me em uma mesa próxima a janela, parcialmente escondida por um grande abajur de babados e estampas floridas que iluminava aquele canto do pequeno salão, e quando madame Puddifoot veio me atender, pedi alguns biscoitos de leite e chá de camomila.
Foi só quando já estava na metade da xícara que ele chegou. A principio não notei, estava de costas para a porta, e tudo o que ouvi foi o sino avisando a chegada de alguém e a voz animada e ligeiramente grave de uma mulher.
-... e eu disse a ele que queria o que era meu de direito, e queria também um pouco de respeito e gentileza. E o sujeitinho apenas foi embora sem me dizer palavra! Acredita nisso, querido? Queria que todos os homens do mundo fossem como você, Severus.
- Não seja tola, você é a única que conhece meu lado gentil.
Eu me virei com rapidez para a porta. E lá estava ele, sorrindo um sorriso leve, apenas um curvar de lábios, que transformava completamente sua fisionomia de um jeito totalmente positivo. Trazia os cabelos soltos, e vestia suas costumeiras roupas negras, mas andava de braços dados com uma mulher, que eu não podia descrever de outra forma a não ser estonteantemente linda.
Tinha longos cabelos perfeitamente negros, brilhantes, que desciam em cachos por suas costas até a cintura delgada. Os olhos eram grandes, oblíquos, de um azul puro como aquarela. Os lábios, naturalmente vermelhos e dados a um sorriso fácil. A roupa trouxa era justa, mas não o suficiente para se tornar vulgar. Para todos os lados havia curvas, graciosas e perfeitas, num corpo que eu julgava não ser muitos anos mais velho que o meu. Olhava para Severus com a mais pura admiração.
Ele olhava para ela simplesmente com tranqüilidade. Uma tranqüilidade que eu nunca tinha visto no rosto dele em nenhuma ocasião.
Novamente virei o rosto para frente, e deslizei alguns centímetros na cadeira, tentando ocultar-me atrás do abajur extravagante. O casal sentou a duas mesas de distância, Severus de costas para mim e a mulher bem ao lado dele.
- Gostou do povoado querida? – Perguntou ele com uma voz casual. Casualidade era algo estranho, vindo dele.
- Imensamente. Quando me falava dele, achava que era quase abominável. Mas você tem essa mania irritante de tornar tudo abominável! – Ela riu, inclinando-se para ele, pelo que eu via no reflexo do meu bule de chá.
- Confesso que tenho, de fato. Mas acho que você me compreende apesar disso.
- Claro que compreendo, Severus... meu pobrezinho. – Ela se inclinou ainda mais e segurou a mão dele entre as próprias, e Severus baixou o rosto por um momento antes de erguê-lo novamente e entrelaçar os dedos aos dela.
Senti meu rosto arder, e uma coisa gelada e escorregadia se alojar em meu peito. Não era possível... não os dois... não podia ser... tinha que ser outra coisa! Eu não podia ter sido traída pelos dois! No momento em que esse pensamento me surgiu na cabeça, tive vontade de rir de mim mesma, amargamente. Traída?! Eu fora casada com Ronald. Eu fora traída por Ronald. Tudo o que eu tivera com Severus foi um breve e estranho beijo, e nada mais. Ele não tinha como me trair, porque ele não tinha obrigação nenhuma comigo.
Então porque eu me sentia tão profundamente magoada com aquela pequena cena?! Ele e aquela mulher belíssima, tão íntimos e unidos...
- Sabe, pensei em me mudar para cá, e deixar aquela casa sufocante em Spinner's End.
- Severus! – A mulher parecia francamente espantada. – Você pretende mesmo deixar aquele lugar miserável finalmente?! Mas venho lhe falando isso há quanto tempo, dois anos?! – Ela sorriu – Há algum motivo especial para isso?
- Talvez...
- Oh, não me diga que...?
Eu não podia ver o seu rosto, mas sua resposta já foi suficiente para fazer eu me sentir sufocada.
- Você disse que achou adorável, não é? Era só o que precisava saber querida. Gostaria de começar de novo em um lugar adorável, com a pessoa que mais tem se mostrado especial para mim.
Não tenho certeza de quanto dinheiro larguei em cima da mesa, só que nunca tinha saído com tanta pressa de um lugar, sem que tivesse o próprio Voldemort as minhas costas. Tive a impressão que ele chegou a se virar para a porta, tentando ver quem acabara de deixar o pub, mas tudo o que ele teve tempo de ver foi a barra das minhas vestes de tweed acabando de sumir.
Voltei um tanto trôpega de volta para Hogwarts. Ele... Severus queria começar de novo, com aquela mulher. Isso queria dizer que iriam se casar? Oh não, casamento era um erro tão grande! Ao menos era o que eu achava naquele momento. 'Casamento' parecia ser a palavra predominante em todos os meus problemas. Pelas calças de Merlin, ele não podia se casar agora! Não... não quando eu finalmente me sentia livre para começar a corresponder o que achava que eram provocações insinuantes.
Ou será que eu me enganara o tempo todo? Será que aquele homem sisudo que era meu colega apenas estava sendo gentil comigo porque eu tinha um cérebro útil para seus propósitos? Será que estava sendo gentil comigo porque eu era a "fiel escudeira de Harry Potter"? Aqueles olhares insistentes, sempre foram minha imaginação? Eu sabia que o beijo, naquele dia, fora culpa minha. Eu tomara a atitude, e fugira, e até agora eu parecia ser a única a fazer dramas e cenas, julgando que ele me queria como eu o queria.
Talvez para ele eu ainda fosse aquela irritante sabe tudo com dentes enormes e cabelo armado, que atrapalhava sua aula e o interrompia a qualquer oportunidade. Talvez eu ainda não passasse de uma criança, aos olhos dele.
Não posso dizer que não chorei. Chorar era meu novo hobbie, ao que eu notara, e estava ficando boa nisso. Chorei por uma noite toda, mas um pequeno feitiço glamour no dia seguinte me fez parecer completamente normal e descansada. Mas eu não fiquei chorando por ele, por Ron e pela minha porcaria de vida. Eu não podia ser tão fraca.
Não era a Hermione que o mundo conhecia.
Passei a evitá-lo cuidadosamente. Mesmo quando na noite seguinte apareceu para jantar, me certifiquei de levantar-me da mesa antes que ele pudesse começar a sobremesa. Passei dias inteiros em meu quarto e mais que nunca, contrariando meus princípios, pedia a Lynn que me trouxesse comida e livros. Quando as aulas começaram, sempre que ele se aproximava eu engatava uma conversa com qualquer um que estivesse por perto, e quando ele parecia prestes a insistir numa conversa a sós, eu dizia algo sobre ter que fazer alguma coisa e saía rapidamente. Eu não estava chorando, mas também não tinha certeza se conseguiria me manter racional em uma conversa amena com Severus. Não quando ao olhar seu rosto eu já sentia minhas entranhas queimando de ciúmes da beldade que ele chamava tão afetuosamente de 'querida'.
E, obviamente, eu teimava em nunca parar um segundo para pensar no porquê de tanto ciúmes. Eu não queria admitir, conscientemente, que eu tinha por ele mais do que atração física. Ainda não estava preparada para admitir isso.
Evitá-lo deu esplendidamente certo por cerca de quinze dias. Então, ao voltar da biblioteca já tarde da noite, meu medo se materializou na forma de Severus Snape me esperando ao lado da tapeçaria de flautista.
- Olá Hermione. – Ele murmurou, soturno, ao me ver chegando.
- Oh, Snape, você está aí. – Respirei fundo, ignorando com toda a força que tinha o fato dele ter usado meu primeiro nome outra vez. – Sinto muito não poder convidá-lo para entrar, estou absurdamente cansada. Quem sabe amanhã...
- Quem sabe amanhã você possa continuar se esquivando de mim. Não, senhorita Granger, acho que devemos conversar hoje. Acredito que não tomarei muito seu tempo.
-... pois bem, entre. – Murmurei, um tanto quanto aturdida. Disse a senha ao flautista e entramos em meu quarto. A pequena ante-sala cheia de estantes estava sobriamente decorada agora, mas não muito organizada. Virei-me de costas para recolher os livros largados no sofá com as mãos, ao invés de usar um feitiço.
- Então, é verdade. Voltou a ser Granger. – Ele disse, com voz firme, sentando-se sem ser convidado no outro sofá.
-... Neville disse a você? – Perguntei um tanto quanto surpresa, embora tivesse soado sarcástica. Não, Neville mal se aproximava de Snape.
- Notei a falta da aliança, e também que já não sobe mais no corujal todas as sextas-feiras. Você costumava mandar cartas ao Weasley às sextas.
- Você nota muitos fatos sobre mim, Snape. – Disse por fim, me virando. Meu rosto estava impassível, e me perguntei se era assim que os sonserinos sentiam-se o tempo todo. Divididos entre a frieza e a vontade de gritar insultos dos mais variados.
- Pensei que não se importasse.
- Pois eu me importo. – Sentei-me e cruzei os braços, encarando-o com toda a força de meu olhar.
-... ainda zangada pelo o que eu disse antes de você sair?
Eu nem mesmo me lembrava daquilo. Por quanto tempo ainda pretende sofrer...? Aparentemente eu era incapaz de deixar de sofrer. Irracional de mais em meus sentimentos. No fim, eu parecia sempre acabar molhando o travesseiro com minhas lágrimas por outra pessoa. Por que eu só amava os homens errados?!
Merlim... eu o amava!
- Granger?
Percebi que tinha ficado em silencio por quase um minuto inteiro. Meu rosto continuava impassível, mas eu sabia que Severus era um exímio legilimens. Empalideci levemente só de imaginar a possibilidade de ele invadir minha mente e perceber aquilo que eu acabara de admitir para mim mesma.
- Não, não estou zangada. Você está absolutamente certo, eu e Ronald nunca combinamos e não devíamos ter casado. Mas não se preocupe, eu já não vivo com ele e não pretendo voltar a viver, algum dia. Dê-se por satisfeito, conseguiu o que queria. Sua aluna mais brilhante agora vai se dedicar exclusivamente aos estudos. Agora me deixe sozinha.
Ele olhou para mim de um jeito estranho. Parecia estar se sentindo culpado e magoado ao mesmo tempo. Levantou-se abruptamente.
- Achei que... eu estava enganado a seu respeito Granger.
Suspirei profundamente, baixando o rosto. Não estava chorando, mas meu queixo trêmulo devia ter me denunciado.
- O que mais você quer de mim?
-... Potter recebeu a carta? – Ele perguntou. Por um momento, estranhei a mudança súbita de assunto.
- Sim. Ele me pediu para agradecê-lo. Você deu a ele o melhor presente de Natal que ele podia ter recebido. – Disse baixo, minha voz pouco acima de um sussurro.
- Você a leu?
Eu me lembrei das ultimas linhas da carta. Lembrei-me do gosto de chá de camomila na boca. Lembrei dos olhos tranqüilos dele voltados para a mulher no Pub. Daquele dia quente em Londres, do jeito soturno das aulas dele quando eu era mais nova. Do nosso beijo quase acidental.
- Não. – Respondi firme, pouco me importando ao perceber que ele via na minha mente a minha mentira.
Ele fez um aceno triste com a cabeça.
- Boa noite Hermione. – Severus disse, quase pesaroso, e sumiu pela tapeçaria.
-
- Professora Granger?
A voz de Frances Prince me tirou de meus devaneios pouco saudáveis de volta para minha nova poção experimental. Desde que voltara das férias de Natal ela vinha me ajudando com algumas coisas básicas em meu projeto de estudos. Eu tinha conversado com Minerva a respeito e ela achava uma idéia adorável que eu me dispusesse a dar aulas extras à garota, contanto que a notícia não se espalhasse muito. Não que muitos daqueles alunos quisessem ter mais aulas do que já tinham, mas era bom não arriscar.
- Sim, Prince?
- Terminei aquele livro que a senhora... senhorita me indicou ontem. Fiz algumas anotações, será que poderia me esclarecer alguns pontos?
- Claro, querida, diga.
- O livro diz que há certas magias hereditárias, que não podem ser transmitidas de outra forma além do sangue, e que muitos bruxos hoje desconsideram esse tipo de magia, agora que a tradição de ensinar como trabalhar com elas se perdeu. Mas não explica direito que tipo de magias são essas e como podemos saber que possuímos alguma.
- Bem... – pensei por um momento. Esse era um assunto que eu considerava um nível avançado de mais para a garotinha de treze anos, mas Frances já me surpreendera várias vezes. – você tem algum parente trouxa querida?
-... hum, não sei professora. Acho que todos os meus parentes de sangue ainda vivos estão na Hungria, tirando papai e mamãe.
Então, ela de fato não sabia de seu parentesco com Severus. Ele estava certo mais uma vez.
- Bem, existe uma coisa que os trouxas chamam de DNA, e é um material que existe em nosso corpo, em cada parte dele, que informa sobre nossos ancestrais. Uma magia que eles chamam de ciência. É o DNA que diz que um bebê que tem dois pais de olhos azuis tem que necessariamente nascer com olhos azuis. Provavelmente, existe um DNA relacionado à magia, mas nós bruxos não nos ocupamos muito em estudar isso, o que eu acho uma pena.
Frances Prince parecia beber cada palavra minha. Perguntei-me, pela milésima vez, se eu tinha uma expressão parecida no rosto quando ouvia um professor falar, no passado.
- Então, a magia hereditária é como um DNA. Alguém que tenha na família um vidente, tem mais chances de ser um vidente ele próprio. É algo como uma inclinação natural a certas coisas. Pode ser desde habilidade em falar parsel até metamorfomagia. Não existem maneiras exatas de se descobrir suas inclinações... uma hora elas simplesmente aparecem. Como, por exemplo, sua habilidade em poções...
- Mas ninguém em minha família parece muito inclinado a poções. Nem... bem, às vezes eu acho que posso penetrar na mente das pessoas, sem que elas percebam. Não sei se isso é uma magia hereditária. - Ela disse parecendo encabulada, enquanto acabava de picar alguma coisa com a faca de prata.
Pisquei várias vezes por trás da nuvem de fumaça que se formara meu caldeirão, quando Frances despejara nele com cuidado asas de libélula azul.
- Sim, é hereditária. Essa capacidade se chama Legilimens e em geral os bruxos têm que se esforçar muito para adquiri-la. É uma habilidade delicada Frances... acho que devia ter algumas aulas particulares com o professor Snape. – E lá estava eu, outra vez, inevitavelmente dizendo o nome dele.
Todos os meus motivos para devanear voltaram. No fim, tudo o que eu fazia parecia voltar-se para ele. Meus estudos, meus atos, meus passos, até meus pensamentos. Snape naquela escola conseguia ser mais onipresente do que Dumbledore em si jamais fora.
-... com o professor Snape? – A garota parecia desgostosa com a idéia. Eu quase ri, não podia culpá-la.
- Bem, Frances querida... eu realmente não sei se devia lhe dizer isso mas... o professor Snape também é um Prince. Talvez por isso você seja boa em Poções e legilimens.
- Snape é um Prince?!
Tive que ser rápida para segurar o frasco que ela deixara escorregar pelos dedos.
- Sim, é. E creio seja o melhor legilimens vivo da Grã Bretanha. Ele pode lhe ensinar muito sobre essa magia, já que você tem facilidade com ela.
-... mas... um Prince?! Tem certeza, professora?
- Absoluta. A mãe dele chamava-se Eileen Prince. Só não diga a ele que fui eu quem lhe contei, está certo?
-... mas ele é tão desagradável. – Resmungou a garota, e desta vez eu não consegui evitar de rir. Frances corou.
- Sabe, ele não é tão ruim quanto parece. – Eu disse, divertida. – Ele passou por coisas muito ruins durante a guerra. Mas agora, com o fim de Voldemort, ele já não está tão ruim.
- Nossa, eu não quero nem imaginar como ele era quando era ruim. - Disse ela um tanto assustada, quase um murmúrio. – A senhorita teve aula com ele na sua época de Hogwarts, certo?
- Sim. E ele era ainda mais rabugento e inflexível e adorava favorecer os alunos da Sonserina. E claro, ele me odiava porque eu respondia a todas as suas perguntas. Mas acredite-me quando eu digo... ele não é tão ruim quanto parece. Devia falar com ele. – Fiz uma pausa, sorrindo levemente. – Pode ir agora, Frances. Vejo você outra vez amanhã?
- Sim professora. Até amanhã.
Quando a garota de longas tranças negras se foi, me larguei em uma cadeira e suspirei alto.
- Nem de longe tão ruim quanto parece... – murmurei para mim mesma, e um quadro de uma mocinha rechonchuda e ébria riu pra mim, comentando com a colega do quadro ao lado em voz audível.
- Ah se eu ainda pudesse me apaixonar assim! Definitivamente não ficaria choramingando pelos cantos, não! Mas essas moças de hoje são muito complicadas...
Mandei-a se calar.
-
O tempo passou sem que eu notasse, e o clima foi ficando mais quente. Frances disse para mim uma tarde que havia mencionado sua facilidade em legilimens com o professor Snape, e ele se dispusera a lhe dar algumas instruções vez por outra. Mas ele não veio falar comigo a respeito, e embora soubesse que eufalar comigo a respeito, e eu deveria suspirar de alivio, fiquei um tanto desapontada.
Mas quando dei por mim, as provas finais já estavam se aproximando.
Era absolutamente estranho estar do outro lado pela primeira vez. Ser eu a pessoa que aluninhos ansiosos vinham interrogar procurando descobrir o que exatamente teriam que saber para passar de ano. Preparar as provas, trocar idéias com os professores a respeito disso e daquilo. Não estar à beira de um colapso. Era, sem falta de palavra melhor, esquisito.
- Minerva, acha que feitiços de transfiguração animal ainda são muito complicados para o primeiro ano?
- Bem querida, depende da classe. Sei que a Corvinal está inteira apta, mas não tenho certeza quanto às outras.
- Hum... está certa Minerva, metade dos meus alunos da Grifinória ainda estão muito estabanados com suas varinhas para isso. Acho que vou dar a eles apenas pequenos besouros para a prova prática.
- Sim, faça isso. Ah, Hermione?
Ergui meus olhos para a velha diretora com um pouco mais de atenção e um leve sorriso.
- Fico feliz em ver que não deixou seus problemas pessoais influenciarem seu trabalho. Realmente, era mais do que eu podia esperar de você, em seu primeiro ano aqui.
Senti-me encabulada. Será que toda a Inglaterra discutia meus problemas conjugais quando eu virava as costas?
- Bem Minerva, se eu não fosse capaz de deixar meus problemas pessoais de lado, não acho que valeria a pena ser professora. E... – baixei o tom de voz para que somente ela pudesse me ouvir - meus problemas estão quase resolvidos. Ronald finalmente enviou-me uma carta dizendo que podemos quebrar o voto de união nas férias e, logo que isso esteja feito, vou procurar para mim alguma casa em um povoado bruxo. Estive pensando em Upper Flagley, que acha?
- Acho que seu casamento é só metade de seus problemas pessoais no momento, minha jovem. - disse Minerva, enigmática, antes de se levantar espanando um pó imaginário de suas vestes rigorosas. – Bem, eu vou para minha sala. Me entregue aquele relatório quando puder, está bem? Preciso dele para autenticar sua formação superior em Transfiguração no Ministério.
Porém quando já estava a dois passos de distância saí de meu torpor momentâneo e lhe perguntei.
- Qual seria a outra metade?!
Porém, nesse momento, Severus entrou na sala dos professores com as vestes negras farfalhando como sempre. Nós mal havíamos nos falado desde aquela noite em meu quarto. Minerva olhou para ele, e em seguida para mim, e deu um levíssimo sorriso enigmático. E saiu.
"Ela está passando tempo de mais conversando com aquele velho retrato" pensei comigo mesma, lembrando de uma vez em que cheguei ao seu escritório e a surpreendi às gargalhadas com o retrato de Dumbledore. Mas minhas bochechas estavam rosadas.
Por sorte, Neville virou-se para mim neste instante, juntando suas coisas rapidamente como que incomodado com a repentina presença do professor de poções na sala dos professores.
- Ah, Mione, se está pensando em se mudar para um povoado bruxo, sugiro que venha morar aqui em Hogsmeade. Upper Flagley tem um clima horrível o ano todo.
Severus ergueu o rosto, soturno, e suas pupilas acompanharam Neville até ele deixar a sala, quase correndo. Então se virou para mim.
- Pretende se mudar para Upper Flagley?
-... ainda não sei se é para lá que eu vou. Digo, Harry voltou a viver em Godric Hollows, talvez eu vá para lá. Mas já que pretende se mudar para Hogsmeade, poderia me dizer onde acho algum chalé confortável no povoado?
A maioria das pessoas naquela sala, mesmo que conhecessem Severus a mais de quinze anos, não puderam perceber uma única demonstração de surpresa em seu semblante. Talvez eu tenha sido a única a notar o leve arquear de suas sobrancelhas e os lábios levemente apertados.
- E quem lhe disse que eu pretendo me mudar para Hogsmeade?
-... eu ouvi. – Respondi incerta, desviando o rosto para minhas anotações. Já não tinha certeza se fora uma boa idéia tocar no assunto, mesmo com a perfeita cordialidade falsa em minha voz.
- Bem, ouviu errado, senhorita Granger.
- É mesmo? Pensei ter ouvido que se mudaria quando desposasse aquela moça adorável de cabelos pretos. – Sussurrei somente para ele ouvir, abandonando a falsa cordialidade. O ciúme voltara todo, com força total, ao me lembrar daquela mulher. Maldita, maldita mulher!
- Que...?! Acho que há um mal-entendido aqui, senhorita Granger. – Ele me disse, numa voz pouco mais alta que a minha.
- Oh não, creio que não. Recomeçar a vida... com uma pessoa especial... de fato, é algo bom para se fazer depois de todo o pesadelo da guerra.
- Precisamos conversar. – Ele insistiu, e notei um tom de ameaça. Estreitei levemente os olhos.
- Não, Snape, eu realmente o felicito pela iniciativa. Não precisa me dar detalhes, se não quiser. Sei que é uma pessoa reservada. – Levantei-me abruptamente. Não sabia quanto tempo mais meu sarcasmo sutil iria agüentar antes que minha voz começasse a tremer de raiva. – Tenha um bom dia.
Saí da sala como um furacão silencioso, e vi que ele fez menção de me seguir antes de notar dois ou três pares de olhos pregados nele. Com um suspiro, Severus voltou a se sentar, enquanto eu voltava para meu quarto pisando duro.
E pensando. Como eu fora ridícula naquele momento! Mas que raios, agora com certeza ele notaria meus sentimentos infantis, se houvesse uma chance de até então ele não ter notado. Merlin! Eu queria realmente me afundar no chão! E já que não podia me afundar no chão, tratei de me afundar em minha própria cama e tentar morrer de vergonha antes que ele viesse me procurar.
