Capitolo Settimo
Os olhos do Guardião da Nuvem se entreabriram sonolentos. Sua visão estava embaçada, e o moreno levou alguns segundos até finalmente conseguir enxergar exatamente onde estava. Era um enorme quarto decorado em estilo ocidental. Grossas cortinas vinho nas janelas, uma larga cama de casal com quatro pilares em cada extremidade. Toda a mobília parecia cara, e pela decoração Hibari teve certeza de que estava no quarto de Dino.
O relógio dourado ao lado da cama marcava 21h30min. Por um minuto, o Guardião da Nuvem respirou fundo, fazendo com que sua mente - até então sonolenta e devagar - começasse a fazer uma espécie de reconstituição de suas últimas memórias. Ele lembrava de deixar o Japão, das longas horas de vôo, da conversa na imigração italiana, de entrar naquela enorme Mansão e ser saldado pelos subordinados da Família, de invadir o escritório de Dino, de morder o louro até a morte...
As lembranças de Hibari pararam e o moreno levou uma das mãos até o rosto. A última parte que sua mente havia lhe mostrado não tinha sido nem um pouco agradável. Ele havia se declarado, e todo seu plano que envolvia hospitais e uma longa lição de moral havia ido por água abaixo.
Um sentimento de extrema humilhação pessoal fez o moreno mover-se na cama, notando pela primeira vez que havia algo em cima do travesseiro livre ao seu lado. Um aparelho celular de aparência extremamente moderna estava por cima de um pedaço de papel.
Imaginando o que seria e de quem seria, Hibari pegou primeiro o papel, enquanto o aparelho escorregava do travesseiro para a cama:
"Por favor, ligue #1".
Não havia assinatura ou carimbo. A mensagem fora escrita com uma caneta de ponta fina e ele conhecia muito bem a caligrafia com traços românticos. Com o aparelho em mãos, Hibari apertou o número um e esperou. O que era aquilo? Deja vu?
- Kyouya!
A voz do outro lado atendeu no segundo toque.
O Guardião da Nuvem mexia com a mão livre o pedaço de papel, tentando não parecer surpreso ou até mesmo contente. Seu coração batia demasiado rápido, e ele teve vontade de sorrir ao ouvir aquela voz tão feliz pronunciar seu nome.
- O que significa isso? - O moreno soava levemente sonolento.
- Eu realmente sinto muito, Kyouya, mas eu prometo voltar o mais rápido possível!
- Você não precisa voltar.
- Kyouya!
- Onde você está? - Hibari sorriu. Ele conseguia imaginar o louro encarando o aparelho celular com uma expressão atônica.
- Terminando uma reunião, estarei de volta com certeza antes das 23hs, por favor, espere por mim.
- Hm... - O Guardião da Nuvem passou os olhos pelo quarto - Como eu saio desse quarto?
- Do lado de fora devem estar alguns subordinados. Romário está na casa, se precisar de qualquer coisa é só chamá-lo. Você deve estar com fome, então coma alguma coisa, tome um banho se quiser - a voz de Dino soou longe e Hibari pôde ouvi-lo conversar com alguém, pedindo um pouco mais de tempo - Sinta-se a vontade, só espere que eu volte, eu realmente quero vê-lo, Kyouya.
O moreno entreabriu os lábios, mas não disse uma palavra.
Havia algumas coisas que ele gostaria de dizer, mas sabia que essas coisas teriam de esperar o momento apropriado, e que certamente não seria através do telefone. Mesmo não assumindo, Hibari queria ver Dino, provavelmente com a mesma intensidade com que o louro queria vê-lo.
- Eu vou esperar - O Guardião da Nuvem levantou-se da cama - Agora volte para sua reunião de faz-de-conta.
Dino riu e sua voz ecoou por todo interior de Hibari, fazendo-o arregalar os olhos surpreso com o arrepio que sentira. Quando o louro se despediu com o habitual "Ciao", o moreno deixou o telefone na cama, caminhando em direção a porta. Sua mente de repente estava cheia de imagens não muito castas, e ele sabia que precisava manter seus pensamentos longe daquele tipo de lembrança. Havia outras coisas que ele discutiria com Dino naquela noite.
Como o louro havia dito ao telefone, havia uma porção de subordinados do lado de fora do quarto. Todos se mostraram extremamente preocupados com o bem estar de Hibari, perguntando inúmeras vezes se ele gostaria de tomar um banho ou jantar. O moreno optou primeiro pelo banho, sendo escoltado até o fim do corredor, onde um largo banheiro o esperava. Entretanto, todo o luxo e excelentes sais de banho não foram suficientes para conquistar a atenção do Guardião da Nuvem. Enquanto a água da ducha descia por seu corpo, Hibari lembrava do que tinha dito a Dino, e nas conseqüências que aquelas palavras poderiam ter. Ele sabia que as coisas não estavam indiferentes como antes. A maneira como o louro o tratara a poucos minutos no telefone era a prova disso.
Só restava saber como aquela situação seria resolvida. O Guardião da Nuvem não se sentia inclinado a usar seu par de tonfas, pelo menos por enquanto.
Romário o aguardava na saída do banheiro para acompanhá-lo até a sala de jantar.
- Ele ainda não chegou? - Hibari descia a larga escadaria principal, olhando os quadros na parede.
- O Chefe deve chegar um pouco tarde, mas pensei que ele tivesse avisado.
- Avisou.
O jantar transcorrera ainda mais solitário do que o banho.
Hibari estava acostumado a comer com audiência, já que Kusakabe fazia questão de fazer companhia em todas as refeições do moreno, entretanto, a vigilância na casa de Dino era ainda mais cerrada.
Enquanto degustava seu tímido prato de ravióli, Hibari não pôde deixa de pensar se o louro não se sentia sozinho naquela enorme casa, com suas dezenas de quartos. Provavelmente para Dino a sensação era outra. Ele crescera com aquelas pessoas, então tudo acontecia de forma natural. O Guardião da Nuvem tentou não parecer ansioso, mas Romário não ignorou a maneira como o moreno encarava o relógio em seu pulso com certa freqüência.
Ao terminar o jantar, Hibari dispensou a sobremesa e Romário o acompanhou novamente até o quarto de Dino. O caminho foi feito em silêncio, mas assim que chegaram a entrada do quarto, o braço direito dos Cavallone levou a mão dentro do bolso do terno.
- Acredito que isso seja seu, Hibari Kyouya.
O homem estendeu a mão, mostrando a Hibari algo que ele já vira. Era o mesmo envelope que ele mesmo deixara para Dino semanas atrás no quarto de Hotel. Para sua surpresa, o envelope estava intacto.
- O Chefe nunca chegou a conhecer o conteúdo. Eu o encontrei enquanto limpava o quarto no meio de alguns documentos.
- Obrigado.
- Ah! Mais uma coisa, Hibari.
Romário coçou a bochecha e ajeitou os óculos. A expressão sempre amistosa do homem havia desaparecido e ele encarou o Guardião da Nuvem com uma expressão séria. Em seguida, colocou os braços ao lado do corpo e inclinou-se para frente.
- Muito obrigado - Hibari tentou não parecer surpreso com a atitude de Romário - Eu sei que o Chefe é totalmente atrapalhado e na maioria das vezes difícil de confiar, mas ele realmente se importa com você - Romário voltou a ficar ereto, e sua expressão retornou ao habitual sorriso - Ele estava trabalhando esses dias porque prometi que o deixaria fazer uma ligação amanhã, mas acredito que agora seja desnecessário. De qualquer forma, você deveria ouvir o que ele tem a dizer.
- Eu vou - O Guardião da Nuvem meneou a cabeça mostrando que havia entendido o recado.
O braço direito dos Cavallone afastou-se, e Hibari adentrou novamente ao quarto.
Dessa vez o cômodo parecia ainda maior e mais solitário. Cada pedacinho naquele lugar tinha a cara de Dino. O tapete, a estante, a confortável cadeira de couro atrás da modesta escrivaninha. A enorme cama com seus vários travesseiros parecia ter saído de algum conto de fadas, e Hibari imaginou se os detalhes dourados nas vigas eram realmente feitos de ouro. Independente da decoração, enquanto cruzava o cômodo, o moreno imaginou como teriam sido essas últimas semanas para Dino. Assim que chegou a enorme janela, o Guardião da Nuvem abriu um pouco as cortinas, encarando a noite italiana. O frio de fevereiro estava ali, ele podia ver os subordinados de Dino com seus sobretudos enquanto ficavam de guarda pelo jardim. O céu estava negro, levemente acinzentado. Não havia estrelas ou lua, mas Hibari não se importou. Ele não queria nenhuma distração enquanto estivesse pensando.
Não foi fácil para o Guardião da Nuvem refazer seu flashback mental. Era difícil acreditar que tais palavras saíram de sua boca. Hibari sabia que podia alegar cansaço, falta momentânea de juízo ou qualquer desculpa ridícula que ele quisesse. O problema estava no simples fato de que dessa vez ele sabia que a situação chegara a um ponto critico.
Quem Dino achou que estava enganando todo esse tempo? As poucas conversas, as raras ligações, o sexo sem paixão? Hibari havia percebido tudo isso, mas não dissera nada. Ele viu Dino se afastando um pouco a cada dia, mas todas as vezes que pretendia tocar no assunto as palavras lhe faltaram. Era isso.
Hibari encostou a testa no vidro da janela e respirou fundo. Aquela noite seria decisiva.
- KYOUYA!
O Guardião da Nuvem tirou os olhos do livro em suas mãos, encarando o homem que invadira o quarto aos berros.
Dino estava parado no meio do quarto, as bochechas vermelhas assim como a ponta do nariz, provavelmente causado pelo frio. Sobretudo, cachecol e... sapatos. Hibari suspirou e sentou-se melhor na cama. Ele estava confortavelmente vestido com um dos pijamas de Dino e havia começado a ler um dos livros da estante. A visão do louro usando sapatos dentro do quarto o fez erguer uma sobrancelha. Ocidentais e seus maus hábitos.
- Eu não sei o que é pior: a maneira totalmente mal educada com que você entrou gritando em um cômodo ou o fato de você estar usando sapatos.
Um sorriso largo brotou nos lábios do italiano enquanto ele caminhava em direção a cama, retirando o cachecol do pescoço.
- Eu também senti sua falta, Kyouya!
Hibari fechou o livro. Seria impossível continuar lendo.
- Como você está? - Dino sentou-se na beirada da cama. O sorriso havia desaparecido.
- Bem.
- Bom saber - o louro voltou a sorrir - Obrigado por ter me esperado. Romário disse que você tomou banho e jantou, tem alguma coisa que você precise?
- Não - Hibari abaixou o olhar, encarando a distância entre a mão de Dino e a dele. Era significativa.
- Eu vou ter de pedir que espere mais uns minutos porque preciso de um banho.
- Terei companhia - O Guardião da Nuvem voltou a abrir o livro, mas sem o menor interesse na leitura.
Dino levantou-se e colocou um dos joelhos na cama, inclinando o corpo. Sua mão direita segurou o rosto do moreno, enquanto seus lábios depositavam um leve beijo na bochecha de Hibari. O louro murmurou um "volto logo", saindo do quarto às pressas.
O Guardião da Nuvem encarou a porta sendo fechada, deixando o corpo escorregar na cama, cobrindo o rosto com o livro. O beijo ardeu em seu rosto e o perfume de Dino era embriagante, a ponto de fazer com que o quarto parecesse girar.
Dorian Gray e sua interessantíssima história de vaidade e luxuria poderiam despertar o interesse literário de Hibari em qualquer outra ocasião, menos naquela. As linhas que até poucos minutos o haviam capturado em um jogo de atenção, agora nada significavam a não ser meras palavras colocas juntas sem o menor sentido. Dorian poderia viver para sempre com seu belo rosto que o Guardião da Nuvem não se importaria. Pensar na condição do personagem o fez lembrar das mudanças que aqueles três anos realizaram tanto nele quanto em Dino.
Quando se conheceram, Hibari era o líder do Conselho Estudantil, ainda adolescente. Dino já era um homem de vinte e dois anos, mesmo que não aparentasse, tanto mentalmente quanto fisicamente. Todas as vezes em que se olhava no espelho, Hibari percebia que a única coisa que parecia ter mudado era sua altura. Ele tornara-se mais alto e esguio, mas o restante de seus atributos pareciam basicamente os mesmos.
Dino, ao contrário, mudara significativamente diante dos olhos do moreno. O homem idiota, atrapalhado e completamente perdido havia se transformado em... bem, ele continuava idiota, atrapalhado e perdido, mas estava mais alto e muito mais bonito. O cabelo ganhara um corte diferente, os olhos um formato menos infantil, assim como outros detalhes que não passaram despercebidos por Hibari. Ele notava cada pedacinho de Dino, mesmo que não falasse.
Pensar no italiano não era uma boa idéia, não naquelas condições.
O livro fora fechado novamente, e Hibari encarava o alto teto do quarto imaginando como as coisas procederiam dali em diante. Perder Dino não era uma opção.
O Chefe dos Cavallone reapareceu no quarto após cerca de dez minutos. O conjunto de inverno com que ele havia chegado dera lugar a uma confortável calça de moletom escura e uma blusa branca com o símbolo de alguma banda antiga. Dino enxugava o cabelo com uma toalha, deixando-a pendurada na cadeira.
Hibari encarou a toalha e tentou não ficar irritado.
- Eu vou levá-la daqui a pouco - Dino riu, lendo a expressão que o moreno tinha.
- Você continua desleixado - Hibari tirou os olhos da toalha e passou a encarar o italiano que sentava no meio da cama.
- Você parece bem.
Dino segurou uma das mãos de Hibari entre as suas, erguendo-a devagar, beijando-a de leve. Em seguida seus lábios formaram um largo sorriso.
O Guardião da Nuvem sentiu cada milímetro de seu corpo reagir ao beijo, mas manteve-se classicamente sério e inabalável. Sua mão parecia em chamas, e algo dentro dele dizia para diminuir ainda mais a distância entre eles. Porém, Hibari Kyouya jamais perderia a razão para uma voz em sua mente.
- Eu estou bem - o moreno moveu lentamente os lábios. Ele sabia que o inevitável momento havia chegado, e dessa vez não adiantava ficar calado. A razão pela qual aquilo estava acontecendo era exatamente por causa de seu silêncio.
- Você ainda deve estar cansado da viagem, por que não descansa? - Dino colocou a mão de Hibari na cama e olhou envolta - Eu vou estar no quarto de hóspedes, se precisar de qualquer coisa é só chamar.
- O que?!
Hibari segurou o pulso de Dino assim que o louro fez menção de sair da cama.
O italiano o olhou com surpresa, mas o que realmente surpreendeu o moreno foi a realização de que ele havia ajoelhado na cama e se inclinado. O próprio Hibari não percebeu que havia feito isso.
Um período de silêncio fez Dino sentar-se novamente na cama, dessa vez próximo ao Guardião da Nuvem.
- Ouça, Kyouya... - Dino tinha as mãos de Hibari entre as dele - O dia foi muito cansativo, e eu sei que temos algo pendente para resolver mas podemos fazer isso amanhã. Você pode pensar no que aconteceu com a cabeça fria, sem o calor do momento - o louro mordeu levemente o lábio. Havia hesitação em sua voz, como se Dino não estivesse sendo totalmente sincero.
- Você está com medo! - Hibari afastou as mãos, procurando seu par de tonfas com os olhos - Você tem medo que eu retire o que eu disse nessa manhã. Você é impossível, Dino.
O Guardião da Nuvem encarou novamente a toalha na cadeira.
Ele sabia que não era o melhor momento para enfatizar o desleixo de Dino, mas aquela era uma medida de autoproteção. O moreno não tinha coragem de encará-lo naquele momento porque não era preciso olhá-lo diretamente. Hibari sabia, e teve a certeza que precisava quando seus olhos negros encararam os olhos cor de mel e surpresos do italiano. Ele estava certo. Dino estava provavelmente assustado demais com a possibilidade de que o moreno retirasse tudo o que havia dito.
Sentimentos, emoções, conversas sérias... nada disso era o forte de Hibari. Pessoas não passavam de um emaranhado de confusão e bagunça, e o máximo que ele pudesse evitar interagir com elas ele o faria. Entretanto, seu silêncio, sua distância e sua teimosia foram responsáveis por afastar a única pessoa que sempre fez questão de tê-lo por perto. A única pessoa que mesmo sendo intragavelmente insuportável, sempre deixou claro que Hibari era sua prioridade.
Se o Guardião da Nuvem perdesse Dino o que restaria?
- Ky-Kyouya eu... - Dino tinha o rosto corado e era extremamente fácil de perceber que Hibari tocara em um ponto que o italiano claramente não queria falar - E-Eu ainda acho que devemos ter essa conversa amanhã.
- Então eu vou embora.
Hibari saiu de cima da cama no mesmo instante em que Dino fazia o mesmo do outro lado.
O louro passou a mão nervosamente pelo cabelo, encarando as costas do homem a sua frente sem saber o que dizer. Aquele dia havia sido cheio de surpresas, e Dino não queria que aquele sentimento desaparecesse. A declaração de Hibari ainda soava em seus ouvidos, e pensar que tudo aquilo poderia se desintegrar diante de seus olhos não era nem um pouco agradável, porque se o Chefe dos Cavallone dissesse todos os motivos que o fizeram tomar a decisão de deixar a vida de Hibari, então sem dúvidas dessa vez, seria o moreno quem o abandonaria.
- Por que você não me contou o que estava te aborrecendo?
A pergunta do Guardião da Nuvem pegou o italiano de surpresa. O moreno havia se virado e ambos se encaravam tendo apenas a enorme cama entre eles.
- Você não me ouviria - Cazzo!¹
- Como você tem tanta certeza?
- Você nunca me ouviu, Kyouya.
- Estou ouvindo agora.
- E-Eu... - O louro mordeu novamente o lábio. Era extremamente difícil ser totalmente sincero com Hibari depois de tudo. Por um instante Dino sentiu-se tolo. Realmente. O que poderia ter sido evitado se ele tivesse simplesmente dito o que sentia quando as coisas começaram a se tornar difíceis? - Você estava infeliz ao meu lado.
A voz de Dino soou baixa. Seus ombros estavam encurvados e o italiano parecia realmente cansado.
As palavras do Chefe dos Cavallone surpreendeu Hibari, que imaginaria ouvir qualquer outra coisa menos aquilo.
- De onde você tirou essa suposição?
- Eu senti isso.
- Você é estúpido, Cavallone.
- Eu não vou começar uma discussão, Kyouya - Dino passou a mão no cabelo, demonstrando exatamente o contrário - Você nunca diz nada, e eu cansei de tentar adivinhar. Você não parecia feliz ao meu lado então achei melhor que você pudesse estar livre para procurar alguém que pudesse fazê-lo realmente feliz.
- Você é egoísta - Hibari tinha a expressão passiva e indiferente - Você diz que foi para minha própria felicidade, quando na realidade você não teve coragem de me perguntar diretamente se eu estava ou não feliz. Como eu disse, você é um covarde.
Dino virou o rosto, visivelmente irritado pelo último comentário. Hibari o estava atingindo em lugares que ele sabia que teriam uma reação.
Se as coisas continuassem naquele ritmo, uma nova briga era inevitável.
- Se você tivesse me perguntado saberia que eu não estava infeliz - O Guardião da Nuvem não acreditava que estava a ponto de falar aquelas coisas. Se Dino fosse um pouco mais observador e menos idiota teria percebido que não havia outra pessoa que pudesse fazê-lo feliz. - Eu não sou como você que canta sobre sentimentos a toda hora. Três anos atrás um homem estrangeiro vindo de algum lugar da Europa foi enviado para supostamente me treinar (como se eu precisasse disso!). Algum tempo depois esse mesmo homem diz que está apaixonado por mim no final de um dos treinos. Eu era jovem e não compreendia o que você estava falando, mas eu segui com o fluxo porque mesmo não entendendo, a idéia não me pareceu ruim - O moreno suspirou. Aquilo era realmente necessário? - Mas faz algum tempo que eu passei a entender o que você quis dizer naquela declaração, e foi esse o motivo pelo qual eu nunca o mordi realmente até a morte depois de tudo o que você fez comigo. Por isso eu repito, você é um idiota Dino. Um idiota que me fez voar por mais de quinze horas para estar aqui agora falando algo que você já deveria saber.
Dino parecia estar ouvindo a alguma coisa extremamente secreta. Da mesma forma como ouvira as palavras de Hibari em seu escritório, o que o moreno dizia agora parecia surreal demais para ser verdade. Porém, assim que terminou de falar, o Guardião da Nuvem virou levemente o rosto que havia ganhado um tom rosado. Aquilo foi demais para o Chefe dos Cavallone.
- Você está certo. Eu sou idiota e covarde, mas imaginar que você não estivesse feliz ao meu lado era inconcebível - O italiano sorriu, dando a volta pela cama com passos vagarosos. Ele poderia simplesmente atravessá-la, pois o trajeto seria mais simples, mas ele não tinha a intenção de apressar as coisas. Foram precisos três anos para que Dino escutasse aquelas palavras. O que seriam dez passos? - Eu estava com medo de ouvir que você realmente me odiava, e não saberia o que fazer se isso fosse verdade - O louro parou na frente de Hibari, e o moreno ergueu os olhos negros na direção do rosto de Dino. A visão daquela bela face fez o italiano engolir seco. Hibari era de tirar o fôlego. - Eu te amo, Kyouya. Desde que nos conhecemos você se tornou a razão pela qual acordo todos os dias. Eu amo o jeito que você fala, anda, e até mesmo respira. Eu amo como você não come suas cenouras e ainda se confunde ao usar talheres. Eu amo seu temperamento, mesmo você tendo uma personalidade horrível. Até hoje, não houve um dia que eu não te amasse, e esse tempo que ficamos separados foi devastador. Então, desculpe por não perguntar, por negligenciar sua opinião e por tomar a decisão sozinho. Mas eu preferia qualquer coisa menos ouvir de seus lábios que tudo isso que vivemos nesses três anos não passou de uma ilusão.
- Eu não sou um certo homem inconveniente que gosta dessas bobagens sobre ilusões.
Hibari tentou não deixar que a imagem do Guardião da Névoa surgisse em sua mente, mesmo o citando na conversa.
Na realidade, o moreno havia ficado extremamente nervoso com o que acabara de ouvir. Como sempre, Dino era capaz de dizer as coisas mais embaraçosas com a maior cara limpa, sem hesitar, sem gaguejar e sem perder o charme. As palavras ditas com seu peculiar sotaque davam à declaração uma cor diferente. Elas pareciam ganhar vida, e entraram pelo ouvido de Hibari atingindo diretamente o coração do Guardião da Nuvem.
- Eu não sou você. Eu não consigo dizer certas coisas como você diz. E eu não sou idiota - Hibari manteve os olhos no símbolo da camiseta de Dino, ergue-los era totalmente impossível - Quando nos conhecemos e você disse todas aquelas coisas eu não sabia o que esse "amor" significava. Era apenas uma palavra que eu lia nos livros.
Dino fechou os olhos, abrindo-os em seguida.
Seus dedos ergueram o queixo de Hibari, fazendo com que o moreno não tivesse outra escolha a não ser olhar naquela direção.
- E agora? Você sabe?
O Guardião da Nuvem permaneceu em silêncio.
A resposta estava na ponta de sua língua, mas as palavras não pareciam dispostas a percorrer o curtíssimo espaço até seus lábios. Se os olhos de Hibari não tivessem captado um pequeno detalhe naquele momento Dino provavelmente teria ouvido as palavras que tanto esperava. Entretanto, o sempre astuto e observador moreno não pôde negligenciar a forma como os lábios rosados do italiano se repuxaram em um discreto, mas presente, sorriso de vitória.
- Eu vou mordê-lo até a morte!
Hibari levou as mãos rapidamente até o peito de Dino, pronto para empurrá-lo o mais longe possível. Em seguida planejava procurar seu par de tonfas que deveriam estar em algum lugar daquele quarto. O problema na brilhante idéia do moreno foi que o Chefe dos Cavallone não estava disposto a ser mordido até a morte de novo.
Dino passou os braços envolta do corpo do homem a sua frente, trazendo Hibari para um apertado abraço. Uma longa gargalhada cortou sua garganta, enchendo o quarto com a alegria que somente Dino era capaz de trazer.
- Você é realmente adorável, Kyouya!
- Onde estão meus tonfas? - o moreno tentava enxergar além do peito do italiano, sem conseguir mover os braços.
- Em um lugar bem longe daqui ~
- Você está se divertindo, não está?
- Não é diversão, é felicidade.
Os braços de Dino se fecharam um pouco mais no corpo do Guardião da Nuvem, e o louro apoiou o queixo na cabeça que estava embaixo da sua. A risada havia cessado, e o silêncio novamente trouxe a sensação de que mais alguma coisa precisava ser dita.
O Chefe dos Cavallone tinha um largo sorriso no rosto, sentindo-se extremamente satisfeito. Em poucos minutos todas as suas dúvidas - as poucas e idiotas inseguranças - haviam desaparecido. Ele estava ali, na véspera do dia dos namorados com a única pessoa no mundo com que ele gostaria de estar. Como diziam as canções e os filmes, se o mundo terminasse naquele instante ele não se importaria.
Porém, para um abraço acontecer são necessárias no mínimo duas pessoas. Uma delas estava satisfeita com o desenrolar de toda aquela conversa, mas o mesmo não poderia ser dito em relação à outra pessoa. Havia uma coisa que Hibari Kyouya precisava tirar de seu peito.
Palavras não eram o forte do Guardião da Nuvem, então ao perceber que não conseguiria dizer o que queria, o moreno simplesmente fechou os olhos. Seu corpo relaxou-se nos braços do italiano, e lentamente suas mãos subiram as costas do homem que o abraçava, retribuindo o gesto. As mãos do moreno sentiram as costas de Dino através da fina camiseta, e outros sentidos acabaram sendo despertados. O cheiro de seu shampoo e de sua colônia, o calor de sua pele e a distância mínima entre eles fizeram Hibari afastar o rosto do peito do louro por um instante para encará-lo. O discreto meio sorriso que ele vira segundos atrás havia se expandido para um largo sorriso, mas dessa vez o moreno não se importou. Ele sabia o que viria em seguida.
Dino subiu a mão direita pelo braço de Hibari até a altura de seu pescoço. Os dedos delgados do italiano correram para a nuca do moreno, enquanto seus rostos se aproximavam. A proximidade fez com que as respirações de ambos se misturassem, altas, descompassadas e praticamente implorando para que aquela mínima distância simplesmente terminasse.
- Ti amo², Kyouya!
Movendo delicadamente os lábios, Dino sussurrou as únicas palavras que poderiam ser ditas naquele momento, antes que seus lábios finalmente tocassem os lábios de Hibari.
O beijo não foi delicado e modesto como o primeiro beijo. Também não foi eufórico e erótico como uma prévia do prato principal. Aquele gesto marcou o ponto final para qualquer dúvida que ainda existisse. Não havia indiferença e teimosia. Não havia negligência e casamento. Tudo o que existia eram duas pessoas que tiveram novamente certeza de que não importasse quanto tempo passasse, e quantas pessoas aparecessem pelo caminho de ambos, eles simplesmente pertenciam um ao outro.
Foi de Dino a iniciativa para que o beijo pendesse para o lado erótico, já que suas mãos corriam livres por baixo da blusa de Kyouya. O Guardião da Nuvem percebendo que finalmente chegara o momento de ter aquela outra conversa com Dino, moveu os pés em direção a cama, mas sem interromper o beijo.
Quando a beirada da cama tocou suas pernas, o moreno teve de dizer um breve "até logo" aos lábios do italiano, sentando-se. Seus olhos estavam fixos nos olhos cor de mel um pouco mais acima, e seu corpo reagiu imediatamente a maneira como Dino o olhava. Ele sentira falta daqueles olhos. Naqueles momentos, o sempre idiota e atrapalhado Dino Cavallone tinha uma expressão que somente Hibari conseguia ver. Admirar como aqueles olhos brilhavam de desejo era um privilégio.
O Chefe dos Cavallone deu um passo à frente, retirando a blusa e deixando-a cair ao lado da cama.
O Guardião da Nuvem correu automaticamente os olhos para as tatuagens no braço do italiano, mas em seguida eles foram para a peculiar tatuagem que Dino tinha na cintura. As chamas azuis circulavam pela pele branca, fazendo com que a imaginação do moreno voasse. Ele sabia até onde aquele caminho o levaria, e era exatamente para lá que ele queria ir.
Dino inclinou-se e sorriu, pronto para capturar novamente os lábios de Hibari, quando sua atenção foi automaticamente para outra direção.
- Chefe!
A voz - que ele conhecia bem - veio acompanhada de três batidas pesadas, diretas e extremamente conscientes.
Hibari olhou para a porta com um misto de surpresa e irritação. Ele sabia que a voz era de Romário, mas o que ele queria àquela hora da noite?
Quando seus olhos voltaram para Dino, o moreno então entendeu o que estava acontecendo.
O olhar sexy e cheio de desejo desaparecera.
Dino tinha uma expressão sem graça, como se pedisse desculpas através dos olhos e do meio sorriso.
- Chefe, você disse que apenas trocaria de roupa e isso a vinte minutos!
- Eu ainda estou trocando~ - Dino olhou feio para a porta.
- Você...
Hibari apertou os olhos e levantou-se.
Dino virou o rosto no mesmo instante, dando um passo para trás por total instinto. O Guardião da Nuvem parecia estar envolto em uma névoa escura, tamanha a intensidade de sua raiva.
- Eu posso explicar~ - O louro pegou a camiseta do chão, dando pequenos passos para trás.
- Você veio aqui enquanto estava trabalhando, não foi? Por isso aquela história de "vamos-conversar-amanhã" e "eu-durmo-no-quarto-de-hóspedes". Você não tinha a intenção de passar a noite aqui.
- Kyouya, não! Eu pretendia passar a noite aqui, mas surgiram alguns papéis - a voz de Dino tremia, e mesmo Romário estando do outro lado da porta, suas pernas não conseguiram evitar a queda ao esbarrar em uma dobra do tapete.
- Você é o pior!
Hibari sabia que estava sem seu usual par de tonfas, então a coisa mais próxima que ele poderia usar era um livro. A idéia passou por sua mente, mas não foi essa a arma escolhida pelo moreno.
Dino havia protegido o rosto com as mãos ao perceber que algo voaria até ele, mas surpreendeu-se ao receber um travesseiro.
- Volte ao seu trabalho! - Hibari estava de costas, ajeitando os demais travesseiros restantes na cama.
Dino levantou-se e recolocou a camiseta, pegando o travesseiro do chão.
- Eu sinto muito, Kyouya, mas prometo voltar quando terminar, então se sentir sono durma primeiro, ok? - O louro bagunçou o cabelo de Hibari, depositando um beijo na cabeça do moreno.
O Chefe dos Cavallone não esperava ter aquela conversa naquele dia, assim como não esperava que Hibari voasse do Japão até a Itália.
Tudo o que o italiano queria era passar uma noite naquele quarto, matando cada segundo de saudade que ele sentira nessas semanas. Porém, ele sabia que Romário não deixaria o acordo que eles tinham morrer, mesmo que ele praticamente estivesse anulado. O braço direito dos Cavallone não tinha culpa se a ligação do dia seguinte não aconteceria.
Hibari tinha todo o direito de ficar chateado, e assim que deu meia-volta para seguir em direção à porta, a mente de Dino começou a pensar em maneiras de se desculpar no dia seguinte, quando sentiu que algo o puxava pela camiseta.
Assim que o Chefe dos Cavallone virou-se, os lábios de Hibari tocaram os dele em um leve e delicado beijo, daqueles suaves em que você deposita na pessoa amada por hábito.
- Não me acorde quando voltar, boa noite.
O moreno deu as costas e voltou à arrumação da cama, mesmo não tenho mais nada para ser arrumado.
- Boa Noite, Kyouya~
Dino abriu um largo sorriso enquanto caminhava até a porta, sem conseguir tirar da mente o rosto vermelho que Hibari lhe mostrou após o beijo.
Continua...
¹ - Droga!
² - Te amo!
