A LUA DO LOBO

Capítulo VI – Fim de Um Sonho.

Apesar da fria noite esconder os perigos que os aguardam, a luz da lua vermelha predomina no céu estrelado, dando uma aparência diabólica ao pátio que leva à escadaria da mansão. Yohji anda na frente, atento a qualquer movimento. Aya cobre a retaguarda, ainda com um frio no estômago, sem conseguir tirar da cabeça os gritos de Omi. Vê então uma figura aparecer no alto da escadaria, abrindo a porta de entrada.

É ele, todo vestido de branco... Olhar vitorioso. Eles se encaram por alguns instantes e o ruivo percebe a verdade. O assassino está ali apenas para mostrar para ele de quem é a vitória. Desembainha a espada e corre na direção dele, mas, de repente, paralisa. Muraki sorri e entra, sem sequer fechar a porta. Tsuzuki corre na direção do Weiss. Avista então o que o impedira... Milhares de cobras cobrem os degraus da escada.

- Não façam movimentos bruscos. – Tsuzuki alerta, contendo Yohji e Ken que chegam ao local. – Estas serpentes foram invocadas por magia, não são verdadeiras.

- São seres mágicos? – Ken novamente surpreende o loiro.

- Você está querendo substituir o Omi? Se for, diz logo. – Yohji diz, admirado com o conhecimento que o moreno demonstra. O jogador desfere-lhe novamente um soco no braço.

- Sendo mágicas são mais perigosas. Seu veneno é muito mais mortal. – Olha para o pedestal aos pés da escada de onde saíra um dos tigres de pedra. – Quando eu disser, quero que todos corram como doidos até aquele pedestal e fiquem lá até eu me livrar delas.

Respirando fundo, tira de seu sobretudo mais um fuda, pensando no jufu certo para livrar-se delas. Sabe que o veneno pode desorientá-lo por alguns instantes, mas não matá-lo. Infelizmente, para os humanos... Só não queria ser picado diante deles, pois seria difícil explicar sua recuperação. Olha para os dois Weiss que estão a seu lado e que se mostram preparados para correr.

- Pronto! Vão!

Os dois rapazes correm, como nunca o haviam feito, mas percebem que Aya não os acompanhara. Ele está ainda ali, parado, na mesma posição em que estava antes. Yohji faz menção de descer para ir buscar o amigo, mas Ken o detém.

- Aya, seu idiota, corre. Elas estão indo em sua direção! – Yohji se ajoelha, as pernas fraquejando com a visão das víboras se aproximando do ruivo.

Tsuzuki percebe o perigo imediato em que o Weiss se colocara e corre até ele, a tempo de receber a picada de uma das cobras na perna. Esta amolece na hora e o shinigami se ajoelha, segurando no casaco de Aya. Olha para ele, mas percebe que o rapaz não poderá ajudar. Levanta-se então, apoiando-se em seu braço e aponta o fuda para as serpentes, dizendo as palavras mágicas que lhe dão força. A magia se espalha e os seres mágicos começam a desaparecer um a um, conforme se aproximam para atacar. Quando percebem que todas elas haviam sumido, os dois amigos correm na direção deles. Ken ampara o guardião, enquanto Yohji puxa o líder pelo braço.

- Você estava maluco? Por que não correu?

- Eram cobras! – Só então o espadachim consegue mover-se. Ele parece descontrolado. – Céus! Cobras... Muitas cobras...

Seus companheiros nunca o haviam visto assim. Quando se acalma, ele finalmente parece perceber a presença dos demais. Só então vê que o guardião está ferido. Ajoelha-se a seu lado.

- Uma delas te picou. E o veneno? O que podemos fazer? – Aya fala preocupado, colocando a mão sobre o ombro de Tsuzuki.

- Não se preocupe. Injetei um pouco de soro assim que me picou. – Odeia mentir, mas se é necessário... Alguém tem de fazê-lo. – Sempre trago comigo.

- Você podia ter se matado! – Yohji segura o ruivo pelos ombros – Por que não se moveu? Depois surtou na nossa frente.

- Desculpe por isso. Não posso evitar. – Abaixa a cabeça, envergonhado. – Eu sofro de ofídiofobia. Não consigo me controlar. Primeiro paraliso, depois entro em pânico. – Lembra-se então de que tudo aquilo o impedira de pegar Muraki. Olha para a porta ainda aberta. Volta seus olhos para Tsuzuki, que já se levanta. – Estou agindo de forma muito passional. De agora em diante só vamos fazer o que você disser.

- Pra mim também é passional, meu caro espadachim. Eu também amo o garoto que está lá dentro, da mesma forma que você ama o seu. Eu entendo a sua dor.– Os dois se olham. – Vamos seguir pela porta, mas muito alertas, pois ele não a deixou aberta por esquecimento.

Todos concordam com isso, mas avançam, conscientes do perigo. Sobem os degraus devagar. Yohji coloca-se novamente à frente. Quando estão na metade da escadaria, nitidamente ouvem um novo grito. Desta vez é Hisoka, um lamento de profunda dor cortando o silêncio, enlouquecendo o shinigami, que corre o restante do caminho, entrando pela porta e mergulhando na escuridão. Os outros o seguem.

- Lá fora pelo menos tinha a luz da maldita lua vermelha. – Yohji reclama enquanto liga a lanterna que trouxera.

- De qual direção veio o grito? – Tsuzuki tenta apurar os sentidos.

Conforme os olhos vão se acostumando com a escuridão, a fraca luz vermelha que entra pelas janelas é suficiente para que consigam ver os amplos corredores que vão tanto para a esquerda quanto para a direita. Novamente um grito, desta vez de Omi, indica a direção a seguir.

- Acho que estão no porão! – O ruivo corre na direção da porta de onde o grito viera.

Os quatro descem uma escada que acaba em um porão envolto em névoa. Andam devagar, percorrendo um corredor cercado de celas com grades.

- O que é isso? – Ken teme até em pensar para que serviriam.

- Pelo jeito o Takatori tinha sua pequena prisão particular. Aquela deve ser a sala de torturas. – Yohji aponta para a porta no fim do corredor.

- Talvez você esteja certo. Eles estão lá. – Aya treme ao pensar em Omi e naquilo que o loiro dissera.

Eles seguem pelo corredor, a névoa ficando cada vez mais densa. Em alguns minutos perdem o contato visual um com o outro. O ruivo tenta encontrar a porta, mas, de repente, não está mais naquele corredor. Está em um pequeno quarto de hotel, entrando arrasado pela porta. Tira o sobretudo de couro preto e o deposita sobre uma pequena poltrona. Anda até o quarto, onde uma solitária cama de solteiro é o único móvel. Senta-se nela e tira a katana da bainha. Ela, sua única companheira, está suja de sangue. Começa a limpá-la com cuidado. Já não liga em ser um assassino. Nem se importa mais em estar sozinho. Já faz tanto tempo!

O vazio que sente em seu coração já faz parte de seu ser. Pensa em Omi, mas... Não consegue nem se lembrar direito de seu rosto, apenas dos olhos azuis. Vazio... Vazio... Quem se importa?! Na verdade, ele se importa, mas procura não pensar mais nisso. Sente falta do seu garoto? Mais do que gostaria de admitir. Decide sair, tentando afastar esses pensamentos que o perturbam sempre. Caminha pela rua, no final da tarde, ainda sem conseguir afastar os pensamentos recorrentes, alheio às pessoas que andam a seu redor. Então um garotinho esbarra nele e foge. Sente uma dor aguda e percebe que o pequeno o esfaqueara. Anda, cambaleia e se apóia em uma caixa de correio. Enquanto sente as forças lhe faltando, seu último pensamento é a lembrança de um belo rosto, cabelos dourados e olhos azuis.

Yohji chama os amigos, mas sem resposta. Tenta usar o tato para decifrar o local onde está. Sente então o cheiro salgado do mar. Mas o que está fazendo no porto? Ouve então o ruído de metal contra metal. Atravessando a névoa encontra Ken enfrentando um homem armado de espada. Ele mesmo tem os seus problemas, enfrentando mais três homens. Ken não está sozinho. Há outros rapazes com ele, também enfrentando seus próprios oponentes, mas não os conhece. Está ali por ele, por mais ninguém. Envolvera-se naquilo meio sem querer. Quando elimina os três pode observar o moreno lutando.

O jogador parece gostar imensamente daquilo, como o lobo sedento de sangue que descrevera certa vez. Assim que terminam, Ken corre até ele, dando-lhe um abraço forte. Segura aquele ser querido com força, como se temesse perdê-lo novamente. Olhando para seu rosto neste momento, mal pode reconhecer o homem que lutava há poucos instantes. Os dois nada dizem, só ficam ali, diante um do outro. As palavras não podem expressar aquilo que sentem naquele momento. Ouvem então um ruído. Um homem extremamente alto surge da névoa e avança contra eles. Ken se coloca a sua frente, sendo atravessado por uma espada. Os outros rapazes acabam com o homem, mas Ken cai nos braços de Yohji. Ele tenta impedir que o moreno morra, mas sente sua vida se esvaindo entre seus dedos. Segura-o junto do peito e chora, assim como fizera muitos anos antes sobre o corpo de Asuka.

Ken também tenta encontrar o caminho... Odeia esse clima sobrenatural! Está andando para trás, quando esbarra em algo. Volta-se e não está mais no porão enevoado. Está na sacristia de uma igreja e Yohji está ali, de smoking, tentando arrumar a gravata. Ele o puxa e tira suas mãos da diabólica arma de enlouquecer que uma gravata pode ser. Começa a dar o nó, da forma que seu pai o ensinara. Olha para ela, mas seus olhos acabam encontrando os do loiro. Ele então para. Os dois ficam se encarando ali, a respiração do moreno ficando ofegante. Ele não consegue mais se controlar e toma seus lábios.

Em um primeiro momento o outro resiste, mas depois também se envolve no beijo, enlaçando-o pela cintura. O beijo se torna mais ardente, mas os acordes do órgão no salão principal da igreja despertam o noivo. Ele empurra o moreno, que ainda não acredita que fizera aquilo. O silêncio é perturbador enquanto se olham. Yohji baixa a cabeça e sai, passando por Ken sem dizer nada. A música de casamento faz seu coração se encolher, sabendo que esse é o fim.

Tsuzuki força sua mente para tentar decifrar o que está acontecendo. Estavam tão perto da porta e agora todos haviam se perdido em um corredor estreito. A névoa... A névoa... Ouve então a doce voz do ser amado a suas costas. Quando se volta ele está ali, diante de uma cama... Seus olhos verdes encarando-o. Abraça o garoto o mais forte que consegue. Deita-o delicadamente sobre a cama e começa a despi-lo. Beija seus lábios, mas Hisoka o empurra. Percebe em seus olhos que o adolescente não o ama mais. Na verdade, nunca o amara. Usara de seus olhos verdes apenas para conseguir sua vingança. Uma grande raiva então se apodera dele. Algo que está escondido dentro dele há muito tempo e que teme mais do que tudo. Só que a expressão de desprezo daqueles olhos verdes derrubara as barreiras que criara para proteger a si e aos outros.

Tsuzuki tira de dentro do sobretudo uma adaga e crava-a no coração do garoto muitas e muitas vezes. O ódio tomando seu corpo, numa fúria enlouquecida que transforma a expressão de seu rosto. Quando percebe que o corpo destruído do jovem shinigami inicia sua recuperação, novamente o ataca sem piedade, garantindo que este morra de verdade. Levanta-se e observa o resultado de sua raiva. Os olhos verdes estáticos, com uma expressão de surpresa e dor. A porta se abre e Muraki está ali. Aproxima-se e o abraça, Tsuzuki soltando então toda a emoção que represara, deixando as lágrimas caírem. Sente-se seguro nos braços daquele homem...

Não! Espera! Precisa lutar contra isso. Sua mente precisa voltar... É a Bruma do Pesadelo! Afasta Muraki, sua imagem indo e vindo a sua frente. Tira do bolso um fuda e começa a proferir as palavras mágicas. Aos poucos vê a névoa se desfazer e os Weiss caídos no chão do corredor. Ajuda Aya a levantar-se.

- Lutem contra os efeitos, rapazes. Essa é a Bruma do Pesadelo, um dos feitiços mais perigosos, pois expõe o íntimo da pessoa, seus medos mais escondidos.

Ken e Yohji ficam parados olhando para o shinigami, a lembrança do pesadelo ainda viva em suas mentes. O medo mais escondido... Os dois se olham, mas logo se evitam, ainda sem saber o que significava aquilo que viram em suas alucinações.

- Levantem rápido vocês dois. A porta está a nossa frente. – O ruivo desembainha sua espada. – Espero que não seja muito tarde.

ooOoo

Durante alguns instantes Muraki e Omi ficam se encarando, o jovem Weiss sentado no chão e o doutor parado na porta. Ele parece se divertir com a ousadia. Fecha a porta atrás de si.

-Eu gostaria muito de enfrentá-lo, mas você sabe que é inútil. – Sorri maliciosamente.

O Weiss sabe muito bem que isso é verdade, mas também sabe que precisa atrasá-lo, dando tempo para os rapazes os resgatarem.

- Além disso, vale a pena se arriscar se o seu herói ruivo não chegará para salvá-lo?

- O que você quer dizer com isso? – O arqueiro tenta perceber em sua expressão o significado de suas palavras.

- O espadachim infelizmente não conseguiu.

- É mentira! Eu sei que ele está vivo. – Os olhos se enchem de lágrimas.

- Não é ele quem sofre de ofídiofobia? – Diverte-se com a expressão do garoto, que conhecia muito bem esse pequeno segredo do espadachim. – Pois é, coloquei milhares de serpentes à frente dele e o pobrezinho ficou lá paralisado. Pena. Ele era bastante sensual, não é?

Aquilo devasta o arqueiro. Ele abaixa a cabeça e percebe que para Muraki ter conhecimento sobre esse fato, ele teria que ter visto com seus próprios olhos... Afinal, Ran não contaria um segredo tão íntimo para outra pessoa. Começa a chorar, parado ali, no mesmo lugar em que o enfrentara segundos antes. Só vale a pena lutar se pudesse voltar aos braços de Aya. Agora não se importa mais com seu destino, pois a vida sem ele não tem significado.

Satisfeito pelo resultado de seu pequeno truque, Muraki se aproxima de Hisoka. Ajoelha-se a seu lado.

- Por que fez isso com ele? Não basta o que pretende fazer?

- Não. Eu gosto de me divertir. Mas agora temos que ser rápidos, pois alguns deles chegarão aqui e temos negócios a terminar.

- Teria algo que eu pudesse dizer pra que você o deixasse em paz? Algo que possa te oferecer?

- Tudo que quero de você eu posso tomar. Infelizmente, decidi terminar com nossa relação. É que você é um tanto possessivo. – Ele ri de forma assustadora. – Aprendi algumas coisinhas sobre os shinigamis, principalmente como matar um.

Os olhos verdes compreendem muito bem o que o doutor quer dizer.

- Isso é impossível para um mortal, mesmo pra você. – Tenta blefar, pois ele mesmo não sabe como isso funciona.

- Só há três formas de o fazer. Um shinigami de alto escalão pode matar um inferior. Se você ferir mortalmente um guardião da morte, continuamente, impedindo que ele se recupere. Ou, a "pièce de resistance", quando o assassino tem alguma espécie de poder mágico atuante sobre ele. Entendeu agora?

- Mas por quê? – Hisoka percebe que sua vida realmente está nas mãos do homem.

- Você me odeia, quer vingança e vive estragando os meus planos. Mesmo assim, esse não é o motivo. Eu sei que você e Tsuzuki são muito mais do que parceiros. Sei o quanto ele está apaixonado por você e vice-versa. Só que ele é meu e não quero você no caminho.

O rapaz tenta se soltar das amarras, mas estas sequer cedem. Não tem como resistir. Olha com ódio para ele.

- Você pode fazer o que quiser, mas ele nunca será seu. É uma alma sensível demais pra ficar com um homem como você. Eu volto de onde quer que eu vá pra te destruir.

- Você não entendeu. Eu o terei de uma forma ou de outra, exatamente por ele ser uma alma tão sensível. Além disso, quando um shinigami morre, já estando morto, ele simplesmente deixa de existir. – Sem hesitar mais Muraki coloca a mão sobre o peito coberto pelo feitiço e começa a sugar dele a energia vital do garoto. Seu lamento é intenso, a dor se intensificando conforme o homem continua. As forças se esvaem dele rápido. Pensa em Tsuzuki e em como teme por sua segurança.

Hisoka olha para Omi, que percebe o sofrimento do amigo e emerge da profunda dor que o deixara em choque. Este toma a corrente presa a sua perna e pula sobre o doutor, tentando enforcá-lo. O homem deixa Hisoka e tenta derrubar o pequeno Weiss de suas costas.

Habilidoso, o arqueiro intensifica seu ataque, lembrando-se de tudo que aprendera na profissão que fora sua vida. Seu ódio é tão imenso que não pensa em nada, a não ser matar aquele homem, destruí-lo por toda a dor que o mesmo lhe causou e que está causando a seu amigo, porém o que ocorre é uma... Uma luta desigual... Desde o início, pois o homem consegue jogar seu oponente no chão e deita-se sobre ele.

- Era isso o que eu queria!!! – Passa a língua por seu rosto. – Eu precisava que o predador dentro de você surgisse para poder ter o que quero.

- Então foi tudo um truque? – O brilho de ódio presente no olhar azul do garoto.

- Claro! Eu ia sacrificar minha presa mais preciosa para ter você, se fosse necessário. – Muraki olha na direção de Hisoka de forma sarcástica, seu jovem inimigo quase sem forças caído ao lado deles. Volta novamente seu rosto para o arqueiro. - Agora vou tê-lo, meu pequeno predador.

- Não sou um predador! Não mato porque gosto, como você faz. Eu acabo com quem fere os inocentes.

- Se você prefere pensar assim. Será que suas vítimas concordam? E aqueles que morreram por sua causa, como o seu adorado Ran? Vou dar-lhe a oportunidade de rever todos eles. – Muraki toca a cabeça de Omi.

- Não! – Grita à visão de cada uma de suas vítimas, diretas ou indiretas, ao longo de sua vida de assassino. Pode vê-las vivas, levando suas vidas, e seu aspecto depois de mortas por ele.

O doutor tira a mão, mas a dor daquela visão deixa Omi completamente em choque... Paralisado... Com os olhos fixos no vazio. Ele então o despe completamente. A hemorragia do estupro já estancara e o homem o acomoda no chão frio. Olha para Hisoka que, quase inconsciente, nada pode fazer ou falar. Começa então a molhar os dedos no sangue que escorrera dos pulsos do shinigami e a escrever um longo feitiço na pele macia do jovem arqueiro.

Profere o feitiço com toda a concentração, deixando de lado a atenção que mantivera até agora no progresso do grupo de resgate. Termina de dizer as palavras mágicas e designa qual o resultado deste sobre o garoto. Agora, somente ele e Hisoka sabem realmente qual será a conseqüência dele... Na verdade, lhe agrada que o jovem shinigami saiba muito bem, pois a culpa é mais uma forma de torturar seu velho inimigo. Coloca então novamente a mão sobre a cabeça loira.

- Você vai esquecer o que fiz aqui. Lembre-se de tudo, menos disso. E quando você morrer por obra desse feitiço, tudo que lhe tirei será definitivamente meu. Primeiro o quebrei, depois o roubei. E no fim, terei o melhor de você.

Os olhos verdes olham para o homem e para sua vítima, desolados por não terem cumprido a promessa feita a Omi. Ele é um guardião da morte e fora fraco demais para salvar uma vida tão preciosa. O arqueiro agora está amaldiçoado como ele, mas sua pena será muito mais pesada. Muito mais. Afinal, como ele mesmo dissera, há coisas piores que a morte. Nota que a pele no novo amaldiçoado começa a absorver o sangue com que foi escrito o feitiço, até desaparecer completamente. E é o seu sangue!

Quando Muraki já está de pé, a porta se abre. Aya avança contra ele, ainda de costas, e atravessa seu ombro com a katana. O homem, surpreso e torturado pela dor lancinante, empurra o espadachim com força, que cai contra a porta. O doutor avança contra o Weiss, mas Tsuzuki se coloca entre eles. O olhar mecânico reage à visão dos olhos violeta do shinigami.

- Você é uma visão divina depois de um dia tão agradável.

Aya se levanta e tenta avançar contra o homem, mas o guardião o detém.

- Agora é minha vez de enfrentá-lo. – Tuzuki se coloca em uma posição defensiva, esperando algum dos feitiços do inimigo.

- Não vou lutar com você. Já tenho o que queria e fujo muito feliz. – Neste instante ele desaparece, como o fizera antes.

O espadachim corre para Omi e o cobre com seu casaco. Os olhos do garoto continuam fixos no vazio. O ruivo percebe então o que Muraki fizera com o seu garoto e o toma nos braços. Queria ter impedido aquele homem de causar tamanha dor física àquele ser tão amado, mas ele falhara. O cobre de beijos e pega no colo. Yohji e Ken mantêm-se afastados.

Tsuzuki corta o fio que segura o jovem shinigami. Hisoka está muito fraco. Também o pega no colo e coloca dentro de seu sobretudo. Os olhos verdes o encaram.

- Tsuzuki, eu falhei. Eu falhei. Muraki... Ele venceu. Eu falhei.

- Calma. Você precisa se recuperar. – O segura mais forte, sentindo o tremor do esguio corpo.

- Mas eu preciso contar o que... – A voz de Hisoka quase não sai.

Tsuzuki não o deixa continuar. Está aflito com a aparência do garoto, que lhe causa grande preocupação. Nesse instante só deseja levá-lo de volta para casa.

- Fique quietinho. Você precisa de cuidados.

- Mas... – O homem novamente o cala.

Adora Tsuzuki e seu jeito super protetor, mas isso às vezes o irrita. Se tivesse forças o mandaria calar a boca e deixá-lo falar. Acaba desistindo, pois sabe que ele não o deixará pronunciar mais nenhuma palavra. Suspira com tristeza. Olha então para Omi e este se volta também para encará-lo. Os dois pequenos loiros, prisioneiros de uma mesma maldade, trocam um olhar sem alegria ou expressão.

- Desculpa. – O shinigami sussurra para o arqueiro. – Eu falhei.

Os olhos verdes se fecham e o garoto encosta a cabeça no peito do parceiro. Tsuzuki se aproxima dos Weiss.

- Queria agradecer a ajuda de vocês. Pena que não pudemos impedir que isso acontecesse. Mas o tempo é o melhor remédio. Ainda mais com o seu amor. – Sorri tristemente para eles. Percebe então que Hisoka perdera os sentidos em seus braços. O shinigami empalidece. Seu amor pelo garoto é perceptível em cada expressão de seu rosto. – Preciso ir, ele não está bem.

- Pode ir, Tsuzuki. – Aya fala desanimado, sempre observando Omi em seus braços a cada gemido. – Não tenho como agradecer sua ajuda. Sei que vai ser difícil superar esse trauma, mas o meu Omi consegue. E como você mesmo disse, ele tem o meu amor. Vou estar ao lado dele.

- Nos vemos por aí, amigos. Adeus. – Os dois desaparecem e os quatro amigos seguem para fora daquele lugar.

ooOoo

Seis meses se passaram desde o ataque de Muraki e as coisas haviam mudado bastante entre os Weiss. Em respeito ao estado emocional em que Omi ficara após o estupro, Aya deixara o quarto onde dormiam juntos. O garoto estava a cada dia mais distante, parecendo até ter certa repulsa por qualquer demonstração de carinho do espadachim. Isso causava ao ruivo imensa dor, mas este enfrentava resignado, convencido que o seu garoto conseguiria superar o problema e voltaria a seus braços. Quando Omi reencontrou seu avô Takatori, o chefe da Kritiker, as coisas pareceram piorar. Sentia-se arrasado, mas nada demonstrava, voltando à frieza habitual de antes.

Por sua vez, Yohji e Ken também haviam mudado um com o outro. Agora passaram a evitar-se, deixando de lado aquela amizade tão próxima de antes. Não havia mais as provocações ou brincadeiras e jamais falaram qualquer coisa sobre as visões que tiveram naquele corredor, ou seja, a Weiss se desintegrava, voltando a ser apenas uma relação profissional como no início, com a diferença de que não havia mais o sorriso de Omi, sempre tentando uni-los. Yohji estava certo quando afirmara que o garoto era o coração do grupo, com este ferido, o grupo iria morrer.

Nesse clima, numa tarde quente de verão, o jovem Weiss está sentado num parque próximo ao lugar onde o trailer está estacionado. Observa o sol se pôr. Apesar de tentar, aquilo não lhe causa qualquer sensação. Nota então a aproximação de Aya e tenta se levantar, mas este o impede, colocando a mão sobre seu ombro.

- Fique. Precisamos conversar. – Há muita tristeza em sua voz. O ruivo senta-se a seu lado. – Havia um por do sol destes na tarde em que descobrimos o que sentíamos um pelo outro. – Espera uma resposta, mas percebe que não virá. – Sabe, respeitei sua dor, tentei apóia-lo... Demonstrar meu amor, tudo para ajudá-lo a sair dessa tristeza.

- Não é tristeza! – Diz isso sem olhar para o homem a seu lado.

- Então, o que é? – Aya olha firmemente para ele.

- Não sei. Só sei que não sinto nada... Nada mesmo. – Não há qualquer emoção em sua voz.

- Omi, olha pra mim! – O garoto se volta para ele.

- Aya...

- Ran!

- Ran, eu não sou mais o Omi. Estou decretando a morte dele. Agora eu sou Mamoru Takatori.

- Não! Você odeia ser um Takatori. – Fica aflito com tais palavras.

- Não odeio mais. Além disso, meu avô me pediu pra ajudá-lo a dirigir a Kritiker e eu aceitei. – Diz isso se levantando. O ruivo também se levanta e se coloca diante dele, segurando seu braço.

- E nós? Acaba assim? Você me amava tanto e agora sou um nada pra você? – Aya segura o braço do garoto com tanta força que o machuca.

- Nós dois juntos foi um erro. – Não há qualquer emoção, nem no olhar.

Puxa o braço com facilidade, pois o espadachim não deseja mais segurá-lo. Alguma coisa dentro dele se quebrara, como se qualquer esperança de salvação tivesse morrido com Omi nesta noite. Fica observando a lua que surge, brilhante e cheia... Do jeito que o seu garoto tanto gostava. Começa a pensar nele como se realmente tivesse morrido. Impossível que todo aquele amor fosse um erro para o pequeno, não era o que via antes em seus olhos. Então o Omi morrera realmente e com ele levara o coração do ruivo. Aya fica ali, sem sequer perceber a passagem do tempo. Volta então para o trailer e vê que o garoto havia partido.

A Weiss finalmente foi dissolvida e os três passaram a serem independentes. Aceitavam contratos da Kritiker, mas trabalhavam para outros. Já não havia mais a velha amizade que os unia. Por motivos diferentes foram se afastando.

Certa tarde, Yohji chega ao apartamento em que Aya vive sozinho. O ruivo o recebe com um sorriso. O loiro nota como a solidão do espadachim significa também "nada de móveis", pois o apartamento está quase que completamente vazio. O ex-líder dos Weiss senta no batente da janela, a chuva escorrendo pelo vidro. Sequer percebe que Yohji não tem onde se sentar. Este não se importa. Preocupa-se sim ao notar como ele emagrecera.

- Yo-tan, como você está? – Aya fala sem olhar para o amigo, observando as gotas escorrendo pelo vidro.

- Indo. Tenho trabalhado bastante como detetive e ocasionalmente para a Kritiker. Tem visto o Ken?

- Uma vez ou outra. Ele tem trabalhado bastante. Cada vez mais ele parece gostar disso.

- Isso é ruim. – A tristeza está clara no tom de sua voz.

Aya finalmente olha para o amigo.

- Por que você veio, Yohji? Foi por causa da reportagem no jornal sobre a apresentação à sociedade do neto desaparecido do velho Takatori? Não foi por isso? – Há certa raiva no que diz, mas não contra o loiro a sua frente.

- Fiquei preocupado. Como você está?

- Também tenho trabalhado bastante, mas tenho evitado a Kritiker.

- Estou perguntando com relação ao Omi?

- O Omi morreu! – Volta a olhar para a janela, mas, em seguida, olha para o amigo, profunda amargura em seus olhos. O loiro se aproxima e acaricia seu rosto. A tal toque Aya sucumbe. Fecha os olhos e as lágrimas escorrem por seu rosto.

- Eu morri com ele, Yohji. Só há um vazio dentro de mim e ver o Takatori nos jornais piora tudo. Às vezes queria que ele tivesse realmente morrido nas mãos de Muraki, mas aí percebo que a culpa é minha, não dele.

- Aya... – Yohji pensa no que pode dizer para ajudá-lo.

- Eu devia tê-lo salvado das mãos daquele animal. Foi aquela noite que destruiu meu menino e roubou de mim seu sorriso, suas lágrimas e o amor por mim que havia em seus olhos. – Cada palavra era pronunciada com dor profunda, tão profunda quanto um abismo sem fim...

- Pare de se culpar. Fizemos todo o possível para impedir o que houve. Se for assim, eu também sou culpado, pois estava lá e não o salvei. A culpa é daquele assassino. – Diz com certa tristeza também. Não gosta de ver Aya assim...

- Mas...

- Agora só nos resta tocar a vida pra frente e deixar o passado pra trás. O tempo vai te fazer esquecer o Omi. Vá um tempo pros Estados Unidos, trabalhe por lá e um dia, quem sabe, você volta a amar alguém.

- Não. Tranquei meu coração. Não quero sofrer nunca mais. Chega! – Volta a olhar pela janela. – O Omi vai sempre estar aqui comigo, pois foi a única coisa verdadeira que aconteceu na minha vida nos últimos anos.

"Sem ele... Não tem sentido amar!" – Pensa tristemente.

Continua...

ooOoo

Novamente peço desculpas pela demora em postar este capítulo, mas tenho esperanças que agora consigo voltar a colocá-los com maior freqüência. Neste capítulo finalmente o drama que transformou Omi se desenrola. Descobrimos a razão de tanta mágoa entre ele e o espadachim. E alguns outros segredos vão sendo sutilmente revelados. Muraki consegue seu grande objetivo. Muita ação, mas abrindo espaço para muito mais, pois este capítulo 6 é apenas a metade da fic.

Agradeço a minhas betas queridas, Yume Vy e Samantha Tiger, pelo carinho de dedicação que dispensaram a este capítulo, apesar de suas dificuldades pessoais. Agradeço os comentários da mestra Suryia, da Yue-chan e da Kiara Salkys, desculpe por fazê-las esperar.

03 de Março de 2007.

14:23 PM.

Lady Anúbis