UMA CRIANÇA
Oito semanas. Ela congelou. Sua mão desceu pelo seu corpo, entre os seios, sobre o estômago e parou perto do umbigo. Acariciou a barriga. Será possível? Os sinais… todos os sinais tinham estado lá e ela os havia ignorado, tinha culpado apenas o cansaço pelas mudanças na sua vida. Como não havia percebido? Continuou olhando para sua imagem refletida no espelho. Encontrou seus olhos na imagem e penetrou tão fundo em sua alma que as cenas de toda aquela violência afloraram. As lágrimas rolavam de seus olhos quando ela focou novamente a si mesma. Nada mais importava, enxugou-as com as costas da mão, cuidaria daquela criança como se fosse fruto de amor... um amor que nunca aconteceu. Ela daria todo o carinho que aquele pequeno ser merecia. E quanto ao pai? Bom, metade da vizinhança deveria estar nesse exato momento especulando sobre um suposto filho do pobre Senhor Mc.Alliston.
Victória mirou sua imagem mais uma vez, suspirou e fechou a porta do armário. Ela o daria a eles, não se importava com o que pensariam. O fato é que como herdara os bens do velho bruxo, a possibilidade dele ter feito isso por causa da gravidez era bem palpável. Não havia dúvidas sobre como agiria, Vickie estava decidida a criar seu filho como um McAlliston. Como previra, o anúncio da gravidez se tornou durante um mês e meio, o assunto principal do lugarejo, mas como tudo na vida, passou. Os dias se transformaram em meses. Ela já não conseguia se manter de pé por muito tempo ou subir as escadas da botica atrás de alguma poção em especial, foi quando resolveu contratar um ajudante.
Após dois dias do anúncio, um jovem alto, com cabelos castanhos e olhos verdes entrou pela porta da botica e lhe sorriu. Vickie se levantou calmamente, colocou a barriga de encontro ao balcão e o fitou devolvendo-lhe o sorriso. Seu ar jovial e o sorriso cativante chamaram sua atenção, nunca o tinha visto pelas redondezas. Quem será? Teria que pelo menos falar alguma coisa.
- Bom dia - o olhou curioso. - Em que posso ajudá-lo? Alguma coisa em especial?
- Sim... - ele abriu seu sorriso novamente. - Preciso do emprego.
- Precisa? - disse com calma. - Mora por aqui, senhor...
- Hall, Derek Hall - respondeu estendendo-lhe a mão. - Sim, senhora McAlliston, me mudei a poucos dias e preciso sobreviver... se me aceitar começo hoje mesmo!
- Bom, senhor Hall - ela o fitou por um momento. - O que conhece sobre poções? Seu preparo, seu uso?
- Absolutamente nada - disse encarando-a -, mas aprendo rápido.
- Precisa mais do que boa vontade para se fazer uma poção eficaz! - Vickie olhou para as mãos dele, grandes e compridas, e mentalmente disse para si mesma: A julgar por suas mãos, não duvidaria que apenas sua boa vontade em aprender bastasse!
Por alguns segundos a visão do Mestre de Poções de Hogwarts encheu seus pensamentos e ela se pegou dizendo para o rapaz a sua frente, em claro e bom tom:
- Há muita sutileza no preparo de uma poção, os ingredientes tem que ser pesados com exatidão - sentiu que estava falando igual a Snape. - Não é um passatempo, necessita dedicação, muitas vezes em tempo integral.
- Você deve ser muito boa nisso, não é? - sorriu-lhe maroto. - Então aprenderei com a melhor professora que poderia ter - falou macio. - Por favor, senhora McAlliston, não irá se arrepender.
- Está bem, senhor Hall - ela o encarou. - Está empregado, mas não esqueça que exigirei sua dedicação ao trabalho. Amanhã às 8:00 horas.
- Obrigado, senhora McAlliston - e fez uma mesura para ela, arrancando-lhe um sorriso. - Me chame de Derek, por favor.
- Estamos combinados então, Derek - disse suave, e antes que o rapaz cruzasse a porta, completou: - Me chame de Victória.
- Até amanhã, Victória. - disse saindo sorridente pela porta.
Derek possuía uma boa mão para poções e não foi difícil para Vitória lhe ensinar o básico. Qualquer outra poção mais complicada ela mesmo faria, mas eram casos raros por ali. Poderia ser encenação, mas Vickie duvidava disso, o rapaz realmente se interessara pelo assunto. Pedia livros emprestados e vivia indagando sobre ingredientes e efeitos de poções.
Vickie já estava no final de sua gravidez, e Derek se tornara tão solicito em relação a isso também que a proibiu de ir para a botica. Tomava conta de tudo, inclusive dela. Victória havia descoberto que ele perdera os pais, não tinha parentes próximos, e se enfiara em viagens pelo mundo. Até que o dinheiro acabou e ele teve que voltar à Inglaterra. Por isso estava ali, tinha que comer, se vestir, e conseguir sobreviver.
Foi numa manhã de verão que Andrew nasceu, os cabelos negros e lisos, os olhos também pretos, não deixavam margem a dúvidas da identidade de seu pai. Vickie o pegou nos braços, o sentiu tão pequeno e desprotegido, que o afagou ainda mais contra si. Aquele era o seu Snape, a parte que seria a lembrança mais doce e pura de um sentimento que se perdera em dor e feridas.
Dois meses depois, os jornais bruxos da Inglaterra divulgavam a morte do diretor da escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts, Albus Dumbledore. Foi assim que, novamente, Vickie se viu arrastada de volta àquilo que havia fugido. As notícias eram claras e não deixavam margem a especulações, seu assassino era ninguém menos que o professor de Defesa da Arte das Trevas da escola, Severus Snape.
Victória se viu presa a promessa do diretor, aos seus sentimentos, teria que voltar e inocentar Severus... só ela poderia fazer isso... só ela. Apesar de toda a mágoa que sentia, Vickie não o culpava pelo estupro, preferiu que fosse ele a fazê-lo, ela implorou e permitiu. O que ela nunca perdoou foi o modo como aquele ato violara não só seu corpo, mas sua alma e a de Snape. Algo surgira num simples beijo, inocente e roubado, e foi devidamente sepultado junto com todas aquelas lembranças horríveis. A hora de inocentá-lo iria chegar, Vickie desejou ardentemente que nada acontecesse de mal a ele... nada. Severus podia ser tudo menos assassino. Nesse momento, uma coisinha miúda entre seus braços se mexeu, fazendo-a sorrir, e disse para Andrew:
- Seu pai é inocente, meu querido - beijou a testa do filho. - Somos a prova disso.
