Lily debruçou na balaustrada antiga de pedra no balcão do casteloDuvernay, tentando se livrar das lembranças infelizes, diante da vista maravilhosa.
Os jardins gloriosos do castelo eram cercados por campinas verdes e, mais ao longe, pomares de maçã, de onde saiam, pelo que se dizia, uma das melhores cidras do mundo. O resto da vasta propriedade do castelo, lar de gerações e gerações da família do marido de Alice, Frank, era reserva natural de mata densa. Porém, somente a alguns quilometros para o oeste, ficava a costa da Bretanha, recortada por penhascos, praias e portos pitorescos.
A suíte onde Lily se hospedava era equivalente a de um hotel cinco estrelas, e ela vinha recebendo um tratamento de nobreza. Por duas longas semanas, se esforçara ao máximo para fazer cara de alegre diante dos anfitriões, pois quem gostaria de receber em casa uma hóspede chorosa e deprimida?
Infelizmente, a companhia dos mais do que felizes e bem-casados Alice e Frank só contribuiu para que ela se sentisse ainda mais traída, solitária e arrasada. Frank Longbottom se comportava de forma muito amavel com ela. Tão diferente daquela personalidade arrogante de antes, que Lily se perguntava se ele desconfiava que a amiga de infância da mulher tinha o coração partido.
Isso mesmo, Lily não podia mais se enganar: ela havia se apaixonado loucamente por James. Fingira ter as coisas sob controle quando não as tinha. E ele a usara como uma suplente na cama, enquanto a adorável namorada trabalhava no exterior. Ela se enojava consigo mesma por ter entregue o próprio corpo de modo tão fácil. O que antes parecera tão especial, era agora barato e banal. Mas ela não podia acusar James de ter lhe prometido amor ou algum tipo de futuro com ele.
Se era assim, por que ele insistentemente tentava contactá-la desde que ela partira de Londres? Ele obviamente desconfiava que ela tinha descoberto tudo sobre Narcisa? No começo, enviara inúmeras mensagens de texto para o telefone celular dela. Sem sucesso, tinha deixado dezenas de recados no mesmo celular. Recados que soavam genuinamente ansiosos sobre o sumiço dela. Qual era o jogo dele? O saco de lixo que ela lhe mandara não explicava tudo?
Alice apareceu no balcão com uma criancinha agarrada à coxa. Enquanto Jake, o filho de cinco anos, era a cara do pai, Jolie, a filha de um ano, tinha os cabelos cor de caramelo da mãe e olhos azuis vívidos.
— Eu amei esse vestido. — Alice passava a mão sobre o traje escolhido pela amiga, propício para os quatro meses de gravidez. — Eu dou graças a Deus por você ter acompanhado Frank. Sozinho, ele compra sempre coisas caras e formais mas eu prefiro roupas casuais e confortáveis.
— Os verões aqui são quentes mesmo. — Lily segurou com uma das mãos o cabelo úmido para refrescar a nuca. Ao jogar a cabeça para trás, uma tonteira súbita a forçou a se apoiar na balaustrada com as duas mãos.
Meu Deus, pensou Lily, temerosa, abaixando as pálpebras para disfarçar os olhos ansiosos. A menstruação dela já estava atrasada uma semana, acontecimento raro o suficiente para deixá-la preocupada. Para piorar, ela havia se sentido meio zonza e enjoada em diversas ocasiões. Acabava de ter outra daquelas tonteiras. Ela conhecia quais eram os sinais mais comuns da gravidez, no entanto, também suspeitava que as turbulências emocionais e a ansiedade poderiam estar interferindo no seu organismo.
— Você está se dando melhor com Frank, agora, não? — inquiriu Alice, satisfeita.
Afastando os pensamentos angustiantes, Lily sorriu.
— Acho que só agora estou tendo a chance de conhecê-lo direito.
— Ele é tão confiante que às vezes soa mesmo arrogante, e eu posso compreender sua desconfiança, depois do jeito como seu pai a tratou e a sua mãe. — Alice suspirou, em apoio à amiga. — Eu não a culpo por desconfiar de homens com personalidade forte.
Lily estava desconcertada, pois Alice parecia se referir a um assunto que ela supunha ser uma intimidade da família Evans. Percebendo a expressão no rosto da amiga, Alice recuou.
— Me desculpe... Você não sabia que eu sabia..
— Papai e as suas outras mulheres? — Lily esforçou para aparentar serenidade.
Alice fez uma careta.
— Minha madrasta não parou de flertar com ele durante as famosas férias... Eu sinto pena da sua mãe.
— Ela era uma pessoa de alma boa, mas teve uma vida miserável com o meu pai. — Lily se sentiu quase agradecida por ter a chance de expressar a sua dor pelo destino da mãe. — O meu pai podia ser muito cruel.
— Mas um homem pode ter a personalidade forte sem necessariamente ter que magoar ou humilhar as mulheres.
— Eu sei. — Lily concordava na esperança de encerrar um assunto que lhe doía. Não havia nada de fraca na personalidade de James, e ele a magoou e a humilhou, refletiu ela.
— Sabe mesmo? — Alice a encarou. — Ou a sombra imensa e perturbadora do seu pai caiu sobre a sua relação com o cara italiano, sobre o qual você não me contou?
— Eu só tive uma briguinha com James... Nada sério. — Lily tentou equilibrar o tom de voz, pois a força do seu orgulho não lhe permitiria contar a verdade para Alice.
Privada dos detalhes mais banais pela natureza reservada da amiga, Alice não pôde esconder o desejo de saber mais.
— Você pelo menos deu ao James a chance de pedir desculpas?
Lily ficou vermelha de desconforto e decidiu mentir para manter a paz.
— A gente... A gente voltou a se falar. Ele me ligou ontem à noite...
— Ah, que ótimo!
Nesse exato momento, Jolie puxou a calça de algodão de Lily e levantou os braços pedindo para ser posta no colo. Lily viu o olhar confiante da menininha, o sorriso caloroso, e a suspendeu. Jolie tinha a confiança de uma criança que era criada num ambiente de amor e contentamento. Lily reconheceu que numa atmosfera semelhante teria desenvolvido uma auto-estima muito mais saudável.
— Vamos brincar de carrinho — pediu Jake. — Jolie pode ficar olhando.
Alice passava a maioria das tardes descansando, mas era o dia de folga da babá, e a amiga aparentava cansaço. Ignorando os protestos cerimoniosos de Alice, Lily entrou com as crianças para que a amiga pudesse repousar um pouco.
Depois do jantar, Lily agradeceu a Frank e Alice pela hospitalidade maravilhosa. De manhã, ela planejava pegar o trem para o Dordogne e visitar pela primeira vez o túmulo da mãe. Depois disso, ela iria para Paris e lá procuraria um novo emprego. Frank lhe oferecera seu apartamento em Paris e um posto lucrativo nos negócios dele, mas Lily preteria não misturar as coisas.
— Você acha que eu conseguiria convencer Hilary a vir nos visitar? — indagou Alice, na porta do quarto de Lily.
— Ela adoraria vir, mas ela é muito ocupada com a irmã menor e com o salão de beleza — explicou Lily. — Eu gostaria de saber alguma coisa sobre Jen, mas ela parece ter desaparecido da face da Terra.
— Ela sempre foi muito envergonhada, mas tenho certeza que mais cedo ou mais tarde fará contato. Enquanto isso, eu, você e Hilary deveríamos organizar um reencontro de verdade para o fim do ano — sugeriu Alice, antes de desejar uma boa noite para Lily.
Lily deixava o chuveiro, quando ouviu o ruído de um helicóptero se aproximando. Nada demais nisso. Dono de uma companhia aérea internacional, Frank voava para a maioria dos lugares que precisava ir, assim como as pessoas do seu círculo social.
Vestida numa camisola branca de algodão, Lily estava separando as roupas para vestir na manhã seguinte, quando alguém bateu na porta do quarto. Alice surgiu com um grande sorriso no rosto.
— Tenho uma surpresa fantástica para você! — anunciou a amiga, como uma colegial excitada. — Feche os olhos!
Reprimindo um suspiro, Lily atendeu o pedido.
— Já posso abrir?
— Não até você ouvir a porta se fechar de nov. E não precisa se apressar para o café amanhã! — Alice riu.
Quando a porta se fechou, Lily teve um choque tremendo. Alice havia entregue no quarto dela um homem de 1,95 metro.
— Alice é muito legal — murmurou James, tranquilo como sempre.
Bastou pôr os olhos nele para Lily se sentir ameaçada. Ele era o homem que ela, contra a própria vontade, tinha desejado por duas semanas sem fim. O homem que ela simultaneamente desejava e odiava, que havia visto pela última vez agarrado à linda Narcisa. O estômago dela se embrulhou ante as memórias cruéis. A mágoa e a raiva não eram barreiras contra a beleza masculina dele, aquele físico que fazia seus sentidos cantarem. O terno grafite, bem cortado, acentuava os ombros largos, a cintura enxuta e as coxas longas e potentes.
— Inferno, como você descobriu onde eu estava? — perguntou Lily, feroz.— Eu não disse a ninguém!
— Da última vez que você falou com Marco, ele ouviu alguém falar com você em francês...
— Nunca vou perdoá-lo por ter contado...
— Não faça isso, bella mia. Eu tive que fazer uma certa pressão para que ele me contasse...
Lily lhe dirigiu um olhar furioso de reprovação.
— Seu canalha... Ele só tem 14 anos!
— E mesmo tão jovem, Marco valoriza a lealdade entre familiares — afirmou James, secamente.
— Você ainda não me explicou como chegou
- Eu investiguei o seu passado...
Lily arregalou os olhos, incrédula. — Você fez o quê?
— Você tem laços fortes com a França. A sua amizade com Alice e Frank Longbottom fez daqui um destino óbvio...
— Eu não posso acreditar que você teve a ousadia de vir aqui...
— Eu tive... Acredite, amore — cortou James.
— Nem posso imaginar a história maluca que você contou na porta para entrar aqui...
James a olhou com arrogância.
— Eu não tive que contar nenhuma história. Os seus amigos não pareciam surpresos em me ver — declarou ele.
Lily se constrangeu. A mentirinha sobre haver falado com James na noite anterior se revelava um tiro pela culatra. Evidentemente, Alice presumira que a chegada de James seria uma surpresa maravilhosa para Lily e que estaria ajudando na reconciliação do casal.
Olhos dourados reluzentes se fixaram em seu rosto corado.
— Você pode explicar isso? Ou eu devo supor que tudo quanto é cara que aparece aqui procurando por você vai direto para o seu quarto?
Enfurecida com a piada, Lily perdeu a cabeça e levantou a mão contra ele,
— Não... — Segurando seu pulso antes que ela o esbofeteasse, James lhe dirigiu um olhar severo de repreensão.
Lily puxou o braço. Ela se encontrava tão irada com ele, que mal conseguia controlar a respiração para falar.
— Saia daqui agora!
— Não... — A recusa foi tranquila; sem variar o tom de voz.
— Então, eu saio...
— Se você prefere assim... Eu vou tirar o livro que estou lendo da mala e me preparar para me deitar — disse James, suavemente.
A raiva levou Lily até a porta, mas, ao ouvir aquelas palavras, parou, franzindo a testa.
— Do que você está falando?
Passando por ela, James abriu a porta, pegou uma maleta e uma bolsa de viagem, que ficaram no corredor, e as trouxe para o meio do quarto.
— Você parece não perceber o quanto que eu estou furioso com você — alertou James, de súbito. — Você me deve uma explicação e um enfático pedido de desculpas.
Lily cruzou os braços.
— O quê?
—E se você não se retratar, eu vou ser obrigado a uma baixaria, ao mais baixo nível que um cara pode chegar.
— Você? Que novidade! Eu vi você se derretendo todo com a sua namorada loura! — disparou Lily contra ele, com raiva e ressentimento.
James a examinou atentamente, os olhos dourados faiscando sob os cílios pretos e densos.
— Correção. Ela estava se derretendo toda comigo, então você me viu mesmo com Narcisa. Eu estava imaginando isso...
- Você disse que não podia almoçar comigo porque tinha- tinha... Negócios para tratar! — acusou-o Lily, em alto e bom som.
— Narcisa estava comigo quando eu telefonei para você. Com ela ouvindo, eu não tinha como dizer que a estava levando para almoçar e acabar tudo com ela.
Para acabar tudo com ela? Para acabar tudo com ela? Essas palavras mágicas ecoaram em altos decibéis pelo cérebro de Lily e tornaram impossível para ela pensar em alguma outra coisa. Ele planejava terminar a relação com Narcisa Black?
James a encarou, severo.
— Claro que se você tivesse ficado no mesmo edifício, ou pelo menos no mesmo país, teria descoberto isso naquela mesma noite quanto eu a levasse para jantar.
Momentaneamente, Lily se calou. Teve que escorar as pernas na cama para se manter de pé porque os joelhos fraquejaram. James tinha optado por ela e dispensado a loura dos sonhos? Quando começava a dar crédito para tal gesto, ela lembrou que ele havia jurado não estar envolvido com nenhuma outra mulher.
— Você mentiu para mim — condenou Lily. — Quando a gente ficou pela primeira vez, eu perguntei se você tinha outra mulher, e você disse que não.
— Para mim, isso não foi uma mentira. Narcisa sabia que passaria meses viajando. A nossa relação era casual. Não estávamos compromissados. Tanto que depois que terminei, ela me contou que teve um affair com um fotografo, Lucius Malfoy, ou algo do tipo... — acrescentou James.
Então, de acordo com a versão de James, Narcisa não tinha a menor importância, fora uma amante casual certamente, isso poderia haver sido tudo que ela, Lily, significara para ele. Mas quem, afinal, tinha decidido manter uma relação temporária até se mudar para a França? De qualquer maneira, como ela poderia confiar que ele dizia a verdade sobre Narcisa Black? Desde quando era possível acreditar em qualquer coisa que um homem dizia quando se tratava da outra? Quantas vezes o finado pai não mentira para a mãe sobre os seus casos?
— Algum comentário? — resmungou James.
Lily o encarou. Não importava o quão amargurada e desiludida ela se encontrava, ainda tinha que lutar contra o desconfortável desejo de estar junto dele. Envergonhada da própria debilidade, ela empinou o queixo.
— Você perdeu o seu tempo vindo aqui!
James fez cara de desprezo.
— Esse diálogo é absurdo. Você está entendendo o que eu estou falando? Você age como se não fosse capaz de compreender o que você fez.
— O que eu fiz? — repetiu Lily, contrariada.
— Sem avisar, sem explicar, você desapareceu no ar...
— Eu enviei a minha carta de demissão e devolvi os seus presentes... Isso não foi o suficiente?
— Para saber que você estava chateada com algo. Não passou pela sua cabeça quando você desapareceu que eu ficaria muito preocupado com você?
Lily deu de ombros.
- E por quê?
A raiva queimava no olhar repreendedor de James, e ele se aproximou.
— A gente estava vivendo uma relação. Não dei razão nenhuma para você acreditar que eu faria alguma coisa para ferir ou magoar você. Dio mio... Você confiava em mim o suficiente para me dar uma chave da sua casa!
Com a garganta apertada e as lágrimas contidas, Lily desviou o olhar dele, pois não queria lembrar do quanto ingenuamente tinha confiado nele.
— Quando você não respondeu minhas mensagens, eu fui até a sua casa para ver se você estava doente. Notei que você tinha feito as malas e partido, e fiquei genuinamente preocupado.
Involuntariamente, Lily o espiou de relance e deu de cara com um olhar de desprezo que a congelou.
— A essa altura, não tinha a menor ideia de que você tinha pedido demissão da Venstar. A preocupação me levou a contratar detetives particulares para traçar o seu paradeiro. Claro, um cara menos honrado simplesmente abriria o seu diário e o leria!
Essas palavras finais aterrorizantes pairaram no ar, enquanto Lily arregalava os olhos para James. Qualquer sinal de cor sumira de sua face.
— Meu... Meu diário? Como você sabe que eu tenho um diário?
— Difícil não perceber. Ele estava ao lado da sua cama, rosa-choque, com um "meu diário" escrito na capa e um cadeado que eu poderia ter quebrado com um dedo.
— Você viu o meu diário... — Lily estava em pânico por James ter se aproximado dos segredos dela. Por que ela foi lhe dar a chave de casa? Como ela não havia pensado em esconder o diário?
— Enfim, você me dá a atenção que eu mereço, cara mia — comentou James, direto.
Lily estava paralisada.
— Você quebrou o cadeado?
— Não, apesar de ter me parecido a melhor solução diante do seu sumiço e da sua recusa em falar...
— Eu não me recusei... Onde está o meu diário?
— Na minha maleta...
— Você está com ele aí?- James confirmou com a cabeça. Lily respirou fundo.
— Eu daria simplesmente tudo para você não lê-lo.
— Eu imaginei isso — afirmou James.
— Então você vai devolvê-lo agora? — sugeriu ela, da maneira mais gentil possível.
— Não. Ele é um trunfo que eu tenho para garantir que você ouça, pense e reconsidere o seu comportamento — frisou James, sem hesitar.
Lily trincou os dentes, fechou os punhos e cravou as unhas nas palmas das mãos.
— Mas eu estou disposto a lhe dar um tempo para respirar. Já é tarde, você estava pronta para se deitar. Podemos conversar amanhã...
- Eu estou partindo de manhã cedo para o Dordogne...
— Eu sei. Alice mencionou que eu quase não a pegava mais aqui — interrompeu James. — Não é uma coincidência que eu tenha uma casa na mesma região? Você vai poder viajar comigo.
Lily respirou tão profundamente, após tal sugestão, que pensou que iria explodir.
— Será que dá para eu tomar um banho? — inquiriu James, colocando a bolsa sobre uma mesinha junto à parede.
— Você não pode dormir aqui! — soltou Lily, olhos verdes arregalados.
— Tudo bem. Por que você não pede aos nossos anfitriões um quarto separado para mim?
Lily empalideceu ao imaginar tal possibilidade constrangedora. Ruborizada, ela abaixou a cabeça.
— Melhor você dormir aqui esta noite. A cama é grande, é tarde, Alice e Frank provavelmente já estão dormindo — resmungou Lily.
O visível constrangimento dela para pedir um segundo quarto à amiga fez James dizer de forma exageradamente cortês:
— Acho que realmente não é uma boa ideia. Você obviamente não se sente confortável com essa possibilidade.
Lily tentava controlar a respiração, agora aliviada por ele mostrar sensibilidade suficiente com a situação.
— Tudo bem. Não se incomode — afirmou ela secamente.
James tirou o paletó e a gravata, desabotoou a camisa. Ele havia chegado irritado, ainda estava irritado, mas de súbito lhe bateu uma vontade de gargalhar. Duvidava que seus anfitriões estivessem na cama às onze da noite. Era inconcebível para James permitir que a opinião de outras pessoas influenciasse o comportamento dele. Lily era muito mais vulnerável. Ele a examinou com interesse, enquanto ela deitava na cama, extremamente incomodada.
Enquanto ele se despia sem o menor dos pudores diante de Lily, ela lhe deu as costas para encarar a parede. Mas a imagem da flexibilidade masculina dele viajava na sua mente de forma intensa, como se ele ainda estivesse ali de frente para ela. Lily se enfureceu consigo mesma por se sentir tentada a espiá-lo tirando a roupa.
E se ele estivesse falando a verdade sobre Narcisa Black? Por que a teria seguido até a França? Ela, Lily, não era somente uma transa rotineira para ele? Talvez James já planejasse visitar a região... Ele tinha uma casa ali, lembrou.
Deitada na cama, inquieta, ela ouvia a distância o barulho do chuveiro no banheiro anexo ao quarto. Irritava-se com o fato de não poder organizar os próprios pensamentos. Ela se encontrava no meio de um furacão. Em busca de uma explicação, ela reavaliou o início do caso dos dois...
Tinha passado dez dias seguidos com James. Só não ficaram juntos as horas em que trabalhavam, problema que era aliviado com duas horas diárias de almoço. Em retrospecto, ela se sentia pasma com a própria irresponsabilidade. James a quisera e tinha conseguido.
Nunca antes ela havia sito tão feliz. A realidade falava por si. Felicidade daquela magnitude não tinha como durar, e, uma vez que ela experimentara o melhor, deveria ter se dado conta de que o pior estaria por vir. E será que o pior ainda não havia chegado? Ela poderia estar esperando um bebe daquele Don Juan inveterado!
Não, não, não Lily se contorceu, lutando contra aquela ideia apavorante. As chances de ela estar grávida eram muito pequenas, dizia a si mesma, insegura. Se o seu ciclo não se estabilizasse logo, ela procuraria um médico. Uma vozinha dentro dela lembrava que a mãe, sim, só concebeu uma vez, mas que isso. havia ocorrido logo duas semanas depois das primeiras relações entre seus pais!
James voltou ao quarto vestido somente com as cuecas pretas Armani . Lily fixou os olhos nele. Preferia se distrair com o medo histérico sobre uma possível gravidez, do que sucumbir às lembranças dos momentos que passara na companhia dele. A atenção dela percorria os contornos firmes de seus ombros musculosos, o peito forte e largo, a barriga de músculos definidos e as coxas grossas. Um magnífico animal masculino no auge da forma atlética e sexual. Com a ponta da língua, Lily umedeceu os lábios secos. Ela tinha consciência da excitação úmida e quente que latejava entre as próprias pernas.
— Não... — disse James, suavemente. Lily piscou duas vezes e o olhou nos olhos.
— Como?
— Eu estou chateado com você. Você vai ter se ajoelhar e implorar para que eu a perdoe...
— Chateado? — Lily não podia acreditar no que estava ouvindo. — Me ajoelhar? Implorar? Para quê?
— Sexo... Para fazer sexo comigo, amore. — James levantou o lençol e se deitou ao lado dela. — Não pense que eu não sei quando você me quer...
Lily ficou vermelha como uma beterraba e o golpeou com um travesseiro.
— Canalha!
— E também sei o quanto você pode ficar violenta quando eu não lhe dou o que você quer. — James tirou o travesseiro de cima do rosto e o ajeitou em baixo da cabeça. Olhando de lado para ela, ele abriu um sorriso.
Num impulso violento, Lily se sentou.
— Você não sabe nada sobre mim...
— Eu sei que você guardou cada cartão e cada buque de flores que eu lhe mandei, mesmo depois de murchas — comentou James, irônico.
— E daí? — disparou ela. — Eu odeio desperdício.
— Alice me disse que você estava desconsolada desde que chegou, tentando bravamente disfarçar — acrescentou James.
Lily se lançou contra ele, em um tom de raiva. Alice nunca teria dito isso...
James se aproveitou de ela ter se aproximado para agarrá-la firme pelos braços e colocá-la por cima dele.
O silêncio se fez. As mãos dela se apoiaram no tórax dele, dedos esguios se espalhando pelos músculos. Lily perdeu a respiração. Quando seus olhos verdes confusos colidiram com os olhos dourados e quentes dele, o clima ficou carregado de desejo.
James entrelaçou uma de suas mãos fortes nos cachos de cor de canela de Lily e roubou um beijo intenso, devastador. Depois de soltar a boca avermelhada dela, ele a recolocou de volta no lado dela da cama.
A excitação se agitou numa tormenta dentro de Lily. Seu corpo exigia a satisfação que ele a tinha ensinado a querer. Ela rolou e, como um metal atraído por um imã, o agarrou novamente. Mas James a olhou com ironia e a afastou dele, sem hesitar.
— Eu ainda estou muito chateado com você...
— Chateado? — repetiu ela, chocada. James fixou os olhos nela, sério.
— Se um dia eu quiser uma outra pessoa, eu vou falar na sua cara. É assim que eu sou. Eu não minto e nem pulo a cerca. Eu não preciso. Eu posso ter tido um número razoável de mulheres na minha vida, mas nenhuma delas pode me acusar de desonestidade ou infidelidade, cara.
— Narcisa Black beijou você... Aquilo foi infidelidade! — rebateu Lily, feroz, em discordância. James a encarou.
— Eu não gosto de ser assediado em público. Acho de mau gosto. Pelo jeito, você não viu quando eu a afastei e pedi que ela se acalmasse...
— Não, não vi. — Lily puxou o lençol e virou as costas esguias e elegantes para ele. — Nossa relação tinha um tempo útil. Eu decidi vir para a França no início do nosso caso, e em nenhum momento cheguei a reconsiderar essa decisão!
Durante o silêncio dolorido que se seguiu, lágrimas quentes ecorreram dos olhos de Lily, pelo seu rosto, até o travesseiro. Ela sabia que não seria capaz de dormir do lado dele.
