PREÂMBULO

Nós, os povos das Nações Unidas, resolvidos a preservar as gerações vindouras do flagelo da guerra, que por duas vezes, no espaço da nossa vida, trouxe sentimentos indizíveis à humanidade, e a reafirmar a fé nos direitos fundamentais do homem, na dignidade e no valor do ser humano, na igualdade de direitos entre homens e mulheres, assim como das nações grandes e pequenas, e a estabelecer condições sob as quais a justiça e o respeito às obrigações decorrentes de tratados e de outras fontes de direitos internacionais possam ser mantidos, e a promover o progresso social e melhores condições de vida dentro de uma liberdade ampla.

E para tais fins, praticar a tolerância e viver em paz, um com os outros, como bons vizinhos, e unir as nossas forças para manter a paz e a segurança internacionais, e a garantir, pela aceitação de princípios e a instituição dos métodos, que a força armada não será usada a não ser no interesse comum, a empregar um mecanismo internacional para promover o progresso econômico e social de todos os povos. Resolvemos conjugar nossos esforços para a consecução desses objetivos.

Em vista disso, nossos respectivos Governos, por intermédio de representantes reunidos na cidade de São Francisco, (...) concordam com a presente Carta das Nações Unidas e estabelecem, por meio dela, uma organização internacional que será conhecida pelo nome de Nações Unidas.

Carta das Nações Unidas – Preâmbulo.


Em um auditório. Londres, Inglaterra.

_Imaginem um lugar riquíssimo em recursos naturais, com o equivalente a trilhões de dólares em seu subsolo. Ouro, diamantes, minérios raros... Tudo isto é extremamente cobiçável, ainda que a exploração resulte num banho de sangue de proporções inimagináveis. Agora imagine um governo corrupto, cujas instituições já faliram há algum tempo. Parte do exército se rebelou, criando uma das muitas frentes e grupos "revolucionários", os quais não poupam os civis de seus conflitos, e que passaram a explorar as riquezas naturais para financiar a sua guerra, contrabandeando-as para outros países, que as vendem como se fossem suas como se isto pudesse limpar todo o sangue derramado, toda a miséria imposta a muitos inocentes.

Dohko parou de falar e olhou rapidamente para a primeira fileira do auditório, onde Kourin, sua filha mais velha de quinze anos, ignorava a palestra enquanto lia um livro de fantasia. Ele ficou um tanto desapontado com a desatenção dela, mas prosseguiu:

_Pensem agora nos homens mutilados ou mortos, nas mulheres e meninas estupradas repetidas vezes, nos meninos raptados para serem transformados em soldados de infância roubada. Sim, porque neste conflito, as mutilações, os assassinatos, os estupros e raptos também são considerados como armas de guerra, além das armas bélicas habituais, que entram ilegalmente através das fronteiras mal vigiadas do país. E por falar em fronteiras, milhares refugiados as cruzam diariamente, gerando também problemas para os países vizinhos, que se valem da ajuda insuficiente de diversas organizações internacionais.

Dohko olhou para os repórteres que também estavam no auditório:

_Através da imprensa, o mundo inteiro pode ver o que está acontecendo na África, mas poucos se sentem dispostos a ajudar de alguma maneira. Enquanto isso, muitos sequer abrem mão de alguns minutos da sua vida vazia para refletir sobre as imagens de violência que aparecem na TV, afinal, tudo parece tão distante, não é mesmo? Aquelas pessoas passando fome nos campos de refugiados... Os órfãos e as viúvas de guerra... O que todos eles têm a ver com você?

Dohko encarou as pessoas presentes ali. Naquele instante, até sua filha adolescente prestava atenção em suas palavras:

_Enquanto isso, bandeiras tremulam em fileira noutra parte do mundo, representando orgulhosamente os países membros das Nações Unidas. Por todos os lados, a imprensa internacional se aglomera para cobrir mais uma sessão da Assembleia Geral da ONU, a expressão maior da cooperação entre as nações, do multilateralismo em prol da paz e da tolerância. Nas proximidades, carros oficiais transportam chefes de Estado e de Governo, assim como ministros das Relações Exteriores e diplomatas, todos contando com um minucioso esquema de segurança. Os debates de alto nível, então, têm início. Eles revelam as mais diversas intenções e os mais variados interesses. Depois, chegará a hora dos discursos utópicos, das reivindicações e dos entendimentos; o momento certo para abrandar certas tensões, para fazer promessas e negociar. No entanto... Até que ponto a cooperação internacional pode ser sentida no quotidiano das pessoas, na vida de um menino africano que, por exemplo, pode estar agora mesmo vigiando uma estrada no meio do nada, com uma antiga arma de fabricação soviética nas mãos?

Inesperadamente, um repórter levantou a mão e interrompeu com uma pergunta:

_Sr. Dohko Li Zhou... Suas palavras podem ser encaradas como uma crítica às Nações Unidas?

Em uma estrada no centro-oeste da África.

Com a chegada do comboio da ONU, abutres gordos levantaram voo deixando para trás um terrível banquete. O odor pútrido da morte era intenso, assim como o zumbir das moscas sobre os cadáveres espalhados pela estrada. Homens, mulheres, crianças... Os corpos de dezenas jaziam ali há dias, apodrecendo sob o sol inclemente numa espécie de boas-vindas nefasta.

_Santo Deus... – um soldado disse num lamento doído. – Isso não pode ser real.

Mas era. E Aldebaran soube disso no momento em que desceu do veículo blindado, cobrindo o nariz e a boca com um lenço. Por mais que fosse um militar experiente, era impossível ficar indiferente a um massacre como aquele. Por isto o coronel sentiu uma intensa dor em sua alma, acompanhada por um sentimento de impotência que cresceu quando ele viu um pedaço de pano azul preso a uma árvore ressequida, o qual tremulava ao vento como se fosse uma bandeira.

A cor lembrava o azul celeste característico das Nações Unidas, mas era um lembrete deixado por uma das milícias rebeldes. Um lembrete o qual dizia que Aldebaran chegara tarde demais, ainda que a ação da ONU e de outras organizações internacionais na região não fosse novidade alguma.

O novo mandato conferido pelo Conselho de Segurança, inclusive, não tinha precedentes na história das Nações Unidas, uma vez que o coronel contava com uma unidade militar chamada Brigada de Intervenção, a qual possuía armamento pesado ao seu dispor para proteger civis e consolidar a paz. Todavia, ele também lidava com um inimigo maior: o descrédito que assombrava a ação da ONU, até então incapaz de conter a violência dos grupos armados que desafiavam o governo do país e os esforços internacionais.

_Coronel, há movimentação mais adiante – um soldado informou e entregou um binóculo ao seu superior. – Parece um bloqueio na estrada, senhor. A mais ou menos um quilômetro e meio de onde estamos.

Aldebaran observou a estrada por alguns segundos, vendo além da trilha de mortos.

_É um grupo pequeno. Provavelmente foram deixados para trás para garantir a posse da estrada.

_Quais as ordens, senhor?

O coronel nada disse. Simplesmente fez um gesto firme a um grupo de soldados, os quais se mobilizaram com as armas nas mãos, adotando posições junto aos veículos blindados.

Missão religiosa. Centro-oeste da África.

Shaka lavava suas mãos em uma velha bacia esmaltada, lamentando por mais uma vida que não pudera salvar. Visivelmente exausto, ele fechou os olhos por alguns instantes, mas os gemidos e os lamentos vindos da enfermaria mais próxima o apressaram. No entanto, alguém tocou em seu ombro e disse:

_Descanse um pouco, Shaka – falou Sara Mascarenhas, a médica brasileira que também trabalhava na missão. – Há quanto tempo você está atendendo sem parar?

Shaka olhou para ela, visivelmente tão exausta quanto ele, e respondeu:

_Acredito que há menos tempo que você.

A morena de cabelos curtos e olhos castanhos claros deu um sorriso cansado.

_Então nada de descanso pra você – ela brincou, mas logo adotou um tom mais sério. – O padre Jonh me disse que estamos isolados do restante do mundo. Ou seja, o rádio da missão quebrou de novo.

Shaka deu um suspiro preocupado. Não era a primeira vez que o rádio apresentava problemas, mas aquele não era o melhor momento para que a missão ficasse incomunicável:

_E quanto aos novos suprimentos?

_O escritório da capital respondeu antes que o rádio pifasse – Sara informou. – Disseram que esta região está instável demais para receber novos carregamentos, pois as estradas estão tomadas por rebeldes. Inclusive... – ela hesitou um pouco.

_Diga, Sara.

_Inclusive há relatos de que um dos grupos rebeldes está vindo em nossa direção.

Shaka sabia o que aquilo significava. Ele ficou em silêncio durante algum tempo, mas depois perguntou:

_E a ONU?

_Parece que também está vindo – Sara caminhou na direção da enfermaria. – Mas não sei quem chegará primeiro.

Em uma estrada do centro-oeste da África.

Após a ordem de Aldebaran, os soldados da ONU iniciaram a investida naquele início de noite. Eles se aproximaram do grupo armado e responderam aos tiros com perícia. O próprio coronel também participou da ação, liderando mais um grupo de soldados que atacou pelo flanco direito, camuflando-se na vegetação que crescia perto dali.

Ainda assim, os rebeldes seguiram atirando até o final, escondidos em meio ao entulho, pneus e carros velhos que usavam para bloquear a estrada. Eles chegaram a ferir de raspão um dos soldados da ONU, porém, foram atingidos e mortos ao final de tudo.

Aldebaran, então, aproximou-se das barreiras com cuidado, ainda de arma na mão e sob a cobertura dos seus. Ele primeiramente checou um dos mortos que estava em seu caminho. Depois, fez um sinal para que os soldados atrás de si o seguissem. Somente então percebeu um menino que segurava uma antiga arma nas mãos: ele estava ferido e parcialmente escondido atrás de uma pilha de entulho.

_Nós não somos inimigos – Aldebaran disse e baixou sua guarda aos poucos. – Viemos ajudar.

O menino estava visivelmente com medo, e seguiu apontando sua arma para Aldebaran, que falou gesticulando:

_Coloque a arma no chão.

O menino respondeu dizendo algo em um dialeto local, mas os soldados não compreenderam muito bem as suas palavras. Ele começou a ficar nervoso, apontou para alguns dos cadáveres e algo antes de dar tiros para o ar. Os soldados da ONU sentiram-se tensos quando Aldebaran aproximou-se dele um pouco mais:

_Coronel... – um dos soldados chamou. – Não confie nele, senhor.

_Eu sei o que estou fazendo, soldado – Aldeberan, então, ajoelhou-se perante a criança, olhando-a nos olhos. Era visível a confusão do menino, afinal, ele não esperava que aquele homem alto e forte como um gigante se rendesse após uma vitória. – Eu não quero machucar você – o brasileiro tentou falar em um dialeto da região, utilizando o seu vocabulário limitado. – Qual o seu nome?

No auditório de uma universidade. Londres, Inglaterra.

Kourin Aimée Zhou esperava a resposta do seu pai, assim como todas as pessoas naquele auditório silencioso. Ela sabia que antes da indicação ao Nobel, poucos se importavam com o ex-diplomata cuja ONG tentava mapear e combater o tráfico ilícito de armamentos. Mas agora, suas palestras estavam sempre lotadas, repórteres divulgavam seus discursos, e sua causa recebia a atenção do mundo inteiro, inclusive de artistas famosos.

_A minha crítica não se dirige diretamente às Nações Unidas – Dohko respondeu. – Afinal, se a ONU falha, isto ocorre porque a humanidade falhou em primeiro lugar.

Kourin sorriu ao olhar para o pai. Ela sentia-se orgulhosa dele, que continuou falando:

_Nós somos os povos das Nações Unidas. Nós – ele enfatizou. – Sendo assim... O que pretendemos fazer?

Em uma estrada do centro-oeste da África.

O menino hesitou um pouco, mas respondeu sem tirar os olhos do coronel:

_Madiba.

_Aldebaran – o militar apontou para si, percebendo que o menino baixava sua guarda. – Eu me chamo Aldebaran.

Uma lágrima desceu pelo rosto do menino, que apontou para longe na estrada e disse algo. O coronel não compreendeu tudo, mas disse aos seus soldados:

_Ele estava com aqueles refugiados. Fugia com a família para a fronteira, mas a milícia chegou e os atacou no meio do caminho. – o garoto pouso a arma antiga no chão e disso algo mais enquanto gesticulava e chorava. – Mataram a mãe e uma das irmãs dele. A outra não está entre os cadáveres, mas ele não sabe se ela conseguiu escapar para longe. O pai dele morreu no início da guerra civil. Foi assassinado, eu acho – Aldebaran aproximou-se do menino um pouco mais. Com cuidado, pegou a arma e a jogou para longe. – Ele disse que os rebeldes o obrigaram a guardar a estrada também, que lhe deram aquela arma e ameaçaram matá-lo se não o fizesse.

Os soldados da ONU baixaram suas armas. O menino seguia chorando, assustado. Ao olhar para Aldebaran novamente, pediu para que este não o obrigasse a matar ninguém.

_Está tudo bem – o coronel disse para tranquilizá-lo. – Você não precisará machucar ou matar ninguém. Nós cuidaremos de você.

O garoto limpou suas lágrimas. Aos poucos, começou a confiar e a se aproximar. Aldebaran estendeu a mão para ele e disse:

_Venha comigo.

O menino olhou para os rebeldes mortos ao seu redor, como se algum deles ainda pudesse lhe fazer mal. Depois, segurou a mão de Aldebaran, que o tranquilizou:

_Não precisa mais ter medo. Nós cuidaremos de você.


Este capítulo foi betado pela Mache-san. Obrigada, Helu! :*

De acordo com o meu planejamento, este capítulo traria o pessoal da CIA (Aioria + Shura), porém, a inspiração discordou e a parte da ONU ficou pronta antes.

Espero que vocês gostem.

Reviews:

RavenclawWitch: ainda não assisti The Blacklist, mas eu AMO Criminal Minds! Fico feliz por vc ter gostado do capítulo. Essa coisa de espionagem e afins é simplesmente fascinante. E por falar nisso, a missão da Violet já está bem definida na minha cabeça. :)

Krika Haruno: sim, o dia deveria ter 36 horas! Tanta coisa para ler que... Ah, vou esquecer disso por enquanto. :P Já tenho uma parte do capítulo da Catarina escrita, e espero que você tenha gostado da participação do Deba neste capítulo.