Rogue estava sentada na cama, a bochecha apoiada em uma das mãos enquanto observava, atenta, o relato de Amy sobre o que aconteceu enquanto estava inconsciente.

Assim que acordara, pela segunda vez, Hank já estava ao seu lado, repetindo exames, tomando sua temperatura e verificando seus sinais vitais. Toda a atenção a incomodou um pouco, embora ela houvesse se esforçado para ser paciente. No fundo era reconfortante ver que ainda havia pessoas que se preocupavam com seu bem estar.

Ela ainda estava febril, mas Fera não pareceu surpreso. Assegurou que era uma reação normal de seu corpo devido às drogas que lhe foram aplicadas, cuja finalidade ainda era desconhecida para todos.

Amy entrara com Storm pouco tempo depois. Sorriu ao ver Rogue acordada correndo para o seu lado, bombardeando-a com perguntas cheias de preocupação que fizeram-na rir.

Vampira analisou cuidadosamente a pequena e, quando não viu qualquer ferimento aparente, pediu detalhes sobre o que perdera em meio à confusão da organização.

Logan acompanhava o intercambio das duas com a mesma atenção, seus olhos não se desviavam dos levemente amarelados de Amy, que eram estranhamente intensos, quase tanto quanto os de Rogue.

O corpo de Wolverine estava apoiado na parede próxima a cama que Rogue ocupava com Amy sentada ao seu lado, os braços cruzados fortemente contra o peito largo. Em seu rosto, uma expressão de desagrado, como se houvesse sido obrigado a tomar algo com o gosto ruim.

Imaginar o que Rogue passara já era péssimo, ouvir com detalhes era ainda pior, quase insuportável. Mas ele queria saber mesmo assim. Sentia que sofrer ao seu lado, sabendo o que Rogue sofrera, era o mínimo que poderia fazer por ela, não tendo evitado o que aconteceu.

Hank e Ororo ouviam em silêncio lado a lado. Estudavam as reações de Rogue, prontos para interferir se algum detalhe, alguma informação, fosse demais para ela.

Mas não foi necessário. Vampira encarava Amy com uma expressão neutra, questionando um tópico ou outro mais de uma vez, completamente fria e lúcida embora a febre que persistia provavelmente dificultasse seu raciocínio.

Sua intensa determinação espantava Fera, que insistira para que Rogue tivesse uma conversa tão relevante apenas depois que estivesse recuperada, por não querer que ela se estressasse, mas agora já estava plenamente convencido de sua capacidade de lhe dar com os fatos que seriam terrivelmente traumáticos para qualquer um. A força que havia dentro da jovem mulher era impressionante.

" Então, quando eles levaram você, eu tentei impedir, mas não consegui."

A voz de Amy morreu no fim do lamento. Sua cabeça pendeu com pesar, seus olhos culpados desviaram-se de Rogue. A mesma moveu-se desconfortável ao ouvir o tom de inconfundível culpa na voz da pequena.

"Ei. Pirralha olha pra mim."

Rogue insistiu quando a menina não se moveu:

"Amy, por favor, olha pra mim."

A pequena obedeceu finalmente, os olhos queimavam com lágrimas embora ela fosse boa na arte de disfarçá-las. Mas ela não conseguiria esconder nada de Rogue. Era como se a mesma estivesse olhando em um espelho distorcido que mostrava sua infância, tudo o que lia com clareza naqueles olhos puros eram absurdamente familiar.

"Eu não admito que você se culpe por isso está me ouvindo?"

"Eu não pude..."

"Nem eu mesma pude Amy." Rogue a cortou impaciente, não permitiria que Amy se condenasse sem motivos. "Você é forte, mas não é capaz de salvar o mundo. Não sozinha."

A pequena mordiscou os lábios em silêncio. Rogue continuou, a voz um pouco mais suave.

"Olha Am, você não deve carregar o peso do mundo nas costas. É só uma garota. Uma mutante, que não deveria ter passado por nada do que passou, mas antes de tudo uma menina. Todas as coisas ruins que acontecem, não é responsabilidade sua, não cabe a você resolver tudo."

Os olhos verdes seguravam os cor de mel que não mais conseguiram engolir as lágrimas.

"Você... você não sabe..."

Balbuciou com a voz embargada, Rogue a cortou.

"Sim eu sei Am. Acredite, entendo melhor do que ninguém, e é por este motivo que estou falando sobre isso. Não quero que você se torture, que acabe se tornando..."

'Uma pessoa como eu. '

Ela completou em sua mente. Suspirou.

Wolverine, Hank e Storm observam a interação de ambas com extremo interesse e certa surpresa. Fera obteve a confirmação de suas suspeitas, compreendeu o laço que unia as duas. Elas partilharam experiências semelhantes, ele refletiu, talvez fosse uma boa coisa, para ambas.

Rogue lutaria para que a garota menor tivesse as oportunidades que ela não teve, para que tivesse uma vida melhor, menos sofrida e aquilo a tornaria mais maleável, carinhosa.

E com a presença constante da pequena seria mais fácil para todos entenderem a postura de Rogue, especialmente Wolverine, que parecia estar sempre fugindo do passado da garota que tanto lhe interessava, como se temesse encontrar ainda mais de si mesmo dentro dela. Ele temia se envolver, Fera sabia. Mas apesar de tudo, aparentemente não conseguira evitar.

Storm tocou seu antebraço com a mão esquerda, chamando sua atenção, tirando-o de seus devaneios. Hank baixou a cabeça para fitá-la. Pôde ler claramente, em seus olhos e gestos, que ela seguia a mesma linha de raciocínio que ele.

Após lançar um olhar de soslaio para Logan, que parecia completamente imerso na conversa de Rogue e Amy, lançou um olhar significativo primeiro à Hank e depois, à porta.

O mesmo assentiu compreendendo, e ambos saíram deixando os três estrategicamente a sós.

Logan observava Rogue conversando com a pequena, defendendo-a dela mesma com ardor. Aquele lado de Vampira, protetor, meigo ainda era muito novo para ele.

Assim como ele mesmo, Vampira acabara de se mostrar outra pessoa nas mãos de crianças perdidas, mas ele sentia que não era apenas isso.

Estava explícito no rosto de Rogue, em seus olhos expressivos, nas atitudes e atenções que dedicava à garota menor, Amy, que algo especial existia entre elas. Havia mais alguma coisa, um motivo substancial que as unia, mas ele sabia que Rogue não diria, nem mesmo se ele lhe perguntasse.

Ela relutava em dividir certas coisas sobre si mesma com quem quer que fosse, embora parecesse mais a vontade, a ponto de se abrir em alguns momentos, com Wolverine. Ao menos era o que acontecia antes do laço de ambos ficar perigosamente por um fio, depois novamente estreito, mas de uma maneira nova e estranha.

Ele se perguntava seriamente se isso se manteria por muito tempo. Não imaginava como seria se chegasse a perder a afinidade, o carinho e compreensão mútua que dividia com a garota de cabelos mistos. Já estava começando a acostumar-se a ser compreendido sem precisar dizer qualquer palavra, ver os olhos verdes de Rogue cintilarem decifrando algo que estava dentro dele e nem ele mesmo entendia. Sua coragem ao enfrentá-lo, com a certeza de que nunca sairia ferida, sua plena confiança que Logan sabia haver perdido um pouco ao deixá-la.

Seus conselhos, sábios demais para alguém tão jovem, suas conversas em que dividiam parte de suas experiências, sempre de maneira tão vaga, mas o suficiente para ver o quão terrivelmente parecidos eles eram.

Definitivamente não queria, podia, perder aquilo.

xXxXxXx

A mente de Logan vagava, os olhos azuis fitavam distraidamente a janela, vendo cada detalhe do jardim principal, com clareza apesar da escuridão que reinava.

Já passara da meia noite. Poucos minutos. Rogue estava adormecida, o rosto sereno, na verdade calmo demais, Wolverine pensou.

Nos raros momentos em que saíam juntos em missão e tiveram de pernoitar, ele acordara diversas vezes, sobressaltado, com os murmúrios, que precediam gritos, de uma Rogue atormentada por sonhos pouco agradáveis. Ele nunca a vira ter uma noite de sono tranqüila. Acreditava que era apenas uma questão de tempo para os pesadelos começarem a se manifestar.

Estava correto.

Com os olhos ainda fixos na janela, e a mente presa em alguns fatos de seu passado, Logan mudou seu foco ao ouvir tecidos se atritando. Rogue começara a se mover.

Ele voltou o olhar para a garota, no exato momento em que ela começou a murmurar seu sono se tornando conturbado, turbulento. Ela franziu o cenho, a mão esquerda apertando firmemente o travesseiro em que sua cabeça repousava.

Wolverine parou por um momento, pensando na melhor atitude a tomar. Sabia que, em uma situação como aquela, despertá-la seria a pior coisa a ser feita. Rogue acordaria ainda mais assustada, poderia ser perigoso, principalmente no estado delicado em que se encontrava.

Mas também não podia deixá-la daquela maneira, atormentada por algo que ele não sabia com exatidão, embora desconfiasse.

Os fantasmas às vezes voltavam através dos sonhos. Ele sabia disso, melhor do que qualquer outro. E pela maneira com que ela se movia, apavorada, desnorteada, o que a assombrava era claramente traumático.

Logan se aproximou, desconfortável ao ver as gotas de suor formando-se na testa de Vampira, escorrendo por suas pálpebras que tremulavam.

Rogue estremeceu e choramingou coisas sem sentido, afundando o rosto ferido no travesseiro.

"Shii querida, está tudo bem."

Ele afagou os cabelos dela em uma tentativa de acalmá-la, mas não obteve resultado. Reparou no rosto que se avermelhava cada vez mais, o que era teoricamente uma reação natural considerando sua pele clara e os movimentos frenéticos de nervosismo que manifestava. Mas por algum motivo, Logan sentiu que havia algo errado.

Descansando uma de suas mãos enluvadas na testa soada de Rogue, ele sentiu a pele dela ardendo. A febre havia voltado. Ele correu impulsivamente em direção à porta, mas parou no meio do caminho, lançando o olhar para a garota que se contorcia na cama. Ele precisava chamar Hank, mas não queria deixá-la sozinha no estado em que ela estava.

"Merda"

Se gritasse por Hank, acabaria despertando toda a mansão. Precisava se acalmar, pensar.

"O rádio!"

Exclamou subitamente, tentando lembrar aonde o havia deixado. Após revirar, impaciente, os vários cantos da ala médica, Logan o encontrou na mesinha ao lado da cama, que Fera usava para dispor os medicamentos. Ligou-o e chamou por ele apressadamente.

"Hank!"

Não obteve resposta.

"Merda bola de pêlos, se você não atender..."

"O que está acontecendo, Logan?"

Hank o cortou com a voz afetada. Obviamente estivera dormindo. Por algum motivo completamente ilógico, isso enfurecera Logan.

"Tem alguma coisa errada com ela Hank."

"Ela..."

"Rogue!" Logan gritou impaciente, depois tornou a baixar a voz quando ela estremeceu. "A guria está com febre, peludo, porque não move logo o seu traseiro azul e venha ver que porra está acontecendo com ela."

Hank suspirou exasperado.

" Já estou indo."

Murmurou antes de desligar o rádio.

Logan andou de um lado a outro pelo quarto, uma expressão de evidente frustração no rosto. Olhava para a porta impaciente, e já estava quase saindo atrás de Hank quando ouviu seus passos, lentos e calmos.

"Para alguém excessivamente inteligente, você tem uma lerdeza impressionante."

Logan repreendeu vendo-o adentrar o local com toda a calma do mundo, verificando sua paciente sem pressa. Hank voltou-se para ele por um momento, os olhos estavam despertos e alertas embora o sono ainda estivesse estampado em seu rosto.

" Eu não tenho dormido desde que você surgiu com Rogue drogada nos braços. Fico trancado no laboratório em busca de respostas que ainda estão longe de serem encontradas apesar de meus inúmeros esforços. Eu não estava tirando uma soneca Wolverine, estava pesquisando, concentrado e desperto apesar das condições precárias em que me encontro como você, que é um homem sensato, pode perceber."

Havia um leve tom de impaciência em sua voz. Logan anuiu.

"Foi mal peludo. Eu..."

"Você se desesperou, eu sei." Hank suspirou antes de voltar ao tom brando de sempre. "Aprecio sua preocupação com Rogue, sua permanência ao lado dela, e tenho certeza que ela também aprecia, mas você não deve se esquecer que não é o único que está empenhando esforços para ajudá-la."

Logan não disse qualquer palavra. Achava o silêncio uma opção segura e preservadora em situações como aquela. Observou com extrema atenção os movimentos calmos de Fera, monitorando as máquinas, tomando o pulso de Rogue, examinando-a com cuidado, tentando não acordá-la embora seu sono continuasse turbulento.

"E então?"

Questionou ansiosamente quando Hank se afastou de Rogue, direcionando o olhar cansado ao amigo.

"Não houve qualquer regressão em seu estado Logan."

"Mas a febre..."

"A febre poderá persistir por mais tempo, é uma maneira do organismo de Rogue combater as drogas que, de acordo com os exames, ainda não deixaram seu organismo."

Logan franziu o cenho. Olhou para o rosto esgotado do amigo, que sorria apesar de parecer estar prestes a cair exausto a qualquer momento. Queria dizer-lhe para descansar, mas não podia fazer isso.

Por mais que não gostasse de ver Hank daquela maneira, sabia os motivos que o levavam a trabalhar até a exaustão. Pedir para que ele repousasse significaria aconselhá-lo a deixar de pesquisar insistentemente o caso de Rogue, Wolverine sabia que isso poderia regredir as chances de saber se a garota era mesmo o alvo, e o que eles queriam com ela se fosse. E Logan não podia fazer aquilo. Olhou pesaroso para Fera.

"Droga bola de pêlos... você está horrível."

Fera riu. Sabia o que Logan queria dizer com aquela observação sem tato.

"Não é a primeira vez que escuto um comentário do tipo, vindo de você."

"É verdade, mas dessa vez é diferente." Logan considerou em silêncio por um momento. Depois, hesitante, acrescentou. " Você está acabado, queria te obrigar a descansar..."

"Mas você não pode." Hank completou sua frase com um sorriso de compreensão. "Eu entendo. E mesmo que você me dissesse, como líder, para fazê-lo, Logan, eu não o faria. Sei o quão importante é o que estou fazendo ali dentro, sei o quanto é necessário para Rogue. E não permitiria que um reles cansaço me impedisse de continuar."

Logan segurou os ombros do amigo, olhando-o agradecido nos olhos.

"Obrigado."

"Não por isso. Rogue também é importante para mim, embora de maneira diferente do que é para você."

"O que quer dizer com isso peludo?"

Hank se limitou a sorrir, deixando-os a sós, sem dar qualquer resposta para Wolverine. O mesmo deu de ombros e tornou a se acomodar, velando silenciosamente o sono, agora um pouco mais suave, de Rogue.

xXxXx

Vampira acordara ainda um pouco febril, porém bem mais disposta do que estava no dia anterior. Amy despertara pouco depois das seis da manhã, encontrou Storm no jardim, sentada com uma xícara de chá fumegante e uma expressão pensativa, mas suave.

Ela sorriu ao ver a menina, e a obrigara a tomar café da manhã, alegando que lhe faria companhia já que não havia ninguém acordado naquele horário.

Amy sentiu-se feliz por não ter de se misturar com os outros. Internamente decidiu sempre acordar naquele horário para evitar o tumulto que parecia ser constante em uma mansão com moradores tão... Incomuns.

Assim que tomou café, a pequena foi até a enfermaria, contente por encontrar Rogue já desperta. Wolverine havia saído, assim que ela acordou, em busca de Fera, querendo que ele a examinasse embora a garota insistisse que estava bem.

"Se estivesse bem eu não teria de ter gritado pelo Hank na noite passada porque você estava tendo uma crise."

Logan rosnou exasperado quando ela alegou, pela terceira vez, estar completamente bem.

"Foi um caso isolado Logan, agora eu já estou legal."

Ela insistiu cruzando os braços firmemente sob o peito, em um gesto de clara teimosia. Logan fez o mesmo.

"Vou chamar o peludo, e ele vai dizer se você está legal."

Disse em tom de quem encerra a conversa antes de sair. Amy riu entrando, mostrando que ouvira parte da conversa, Rogue bufou. Uma carranca irritada surgiu em seu rosto.

"Você não terminou a sua história antes pirralha."

Amy lançou-lhe um olhar de clara confusão. Rogue revirou os olhos, totalmente impaciente.

"Sobre o que aconteceu enquanto... bem você sabe."

Murmurou balançando as mãos em um gesto de desdém. Amy assentiu, finalmente compreendendo.

"Na verdade tudo foi muito confuso... até mesmo para mim. Você não acordava, e eu tentei chamar a atenção dos guardas quando barulhos estranhos começaram a soar cada vez mais altos..."

Rogue podia imaginar a cena com clareza, Wolverine irado, destruindo tudo e todos que cruzavam seu caminho, os olhos cintilando em fúria animal.

"...E então seu namorado surgiu, ele era a coisa mais assustadora que..."

"Ele não é meu namorado!"

Rogue interrompeu Amy ao protestar o termo, com o rosto indignado.

"Não?"

A confusão e surpresa no rosto da pequena aumentaram a irritação de Rogue.

" Claro que não! Porque diz isso?"

"O jeito que ele ficou quando viu você... e você sempre murmurava o nome dele enquanto dormia."

Para aumentar o já enorme constrangimento de Rogue, Logan surgira na porta no exato momento em que Amy completou a frase.

Ele sorriu de canto, demonstrando que ouvira o que a pequena havia dito, e o rosto de rogue foi tomado por um rubor intenso, deixando-a ainda mais irritada consigo mesma.

"Nem uma palavra Logan."

Ele riu quando Rogue estreitou os olhos verdes em sua direção, mas sem sustentar seu olhar. Os lábios de Logan repuxaram-se nos lados em um sorriso de canto, um pouco irônico, um pouco verdadeiro.

"Eu não disse, ou ia dizer, qualquer coisa, querida."

"É eu sei..."

Rogue respondeu sarcástica, tentando dissimular o constrangimento e o rubor que persistia em seu rosto.

"Como se sente?"

Wolverine se aproximou, ignorando o que ouvira de Amy. Não era um assunto confortável para qualquer um dos dois.

"Bem. Porque está me perguntando se você não acredita quando eu falo?"

Ela atirou secamente. O rosto virado evitando encará-lo.

"Hank disse que você está melhor."

Ele respondeu relevando sua irritação. Era melhor usar da paciência, ele pensou, enquanto ela ainda existia.

"Então quando poderei sair daqui?"

Logan preferiu acreditar que ela se referia à enfermaria e não à mansão. Na verdade, se ele a questionasse a respeito, nem mesmo Rogue saberia responder.

"Fera disse que talvez em algumas semanas..."

Os olhos verdes se arregalaram e, pela primeira vez desde que Logan entrou naquele quarto naquela manhã, o olhar de Rogue encontrou o dele.

"Você está brincando certo?"

Os orbes verdes faiscaram com uma indignação crescente quando ele negou.

"Se ele disse que eu estou melhor então por que, inferno? Eu não quero continuar aqui!"

Logan finalmente se irritou, dando alguns passos automáticos em direção a Rogue.

"Você não está aqui de férias Rogue, portanto sair não é opção."

"Não é o caralho..."

"Cale a boca! Deixe de ser tão infantil, o que você passou não foi brincadeira, inferno garota, você quase morreu..."

"Muito obrigada pelo discurso Logan, mas não é necessário. Eu sei muito bem o que houve, quem esteve lá fui eu e não você." Os olhos azuis se arregalaram com o comentário, mas ela continuou: "Não tente me explicar os danos que tive como se eu tivesse cinco anos!"

"Então pare de agir como uma criancinha mimada de cinco anos, que eu paro de te tratar como tal."

"Logan! Que parte do não a estresse você não entendeu?"

Hank apareceu irritado na porta da ala médica, o rosto transparecia evidente frustração, provavelmente por motivos externos, mas que se intensificou ao ver Logan discutindo aos gritos com sua paciente.

"Olha só peludo..."

"Não, olha só você Wolverine." Hank se aproximou de Logan, furioso, sem deixá-lo concluir sua frase. O mesmo arregalou os olhos, surpreso, o calor da raiva e a discussão com Rogue momentaneamente esquecidas ante a irritação tão incomum em Fera.

"Eu tenho suportado todos os seus rompantes com paciência, por saber que a situação delicada de Rogue é difícil para você. Mas desta vez você foi longe demais Wolverine. Se eu vir você discutindo novamente com ela, quando eu enfaticamente recomendei, exigi, que não a estressasse, serei obrigado a barrar sua entrada aqui. Sei que você é o líder, Wolverine. E eu sou uma pessoa calma, mas tenho meus limites."

Rogue e Amy olhavam para ambos com um misto de surpresa e divertimento. Logan pareceu se encolher, o que era raro, perante a irritação também rara de Hank. Era uma oportunidade única, que merecia uma fotografia, Rogue pensou abafando o riso.

Após mais alguns segundos de surpresa muda, Logan recuperou a voz e a possibilidade de se mover. Ele poderia peitar Fera, seus instintos e sua personalidade o impulsionavam a esta atitude. Mas ele sabia estar errado. E era esta ciência que o mantinha em silêncio agora. Sabia também que Hank jamais teria perdido o controle se não estivesse tão exausto e era assim que retribuía seus esforços constantes, pensou amargamente. Fazendo tudo o que ele dissera para não fazer, arriscando agravar ainda mais a situação de Rogue.

Ele se soltou de Hank, saindo da enfermaria sem dizer qualquer palavra, apenas um rosnado frustrado deixou seus lábios. Irritação e constrangimento disputavam terreno dentro dele. Como fora se envolver em uma discussão louca com Rogue, pouco depois de ela ter acordado? Justamente ele, que pirara na noite anterior ao vê-la mal. A crise que presenciou era uma prova viva de que Vampira ainda não estava em seu estado normal, a fragilidade estampada em seu rosto pálido, nos ferimentos que ele podia ver, sentir o cheiro, em seu rosto e corpo.

Ele era um babaca. Um babaca dos grandes. E talvez Hank estivesse certo, talvez fosse melhor ele se manter a distância se não conseguisse controlar sua maldita boca estúpida quando estava ao lado daquela garota irritante e temperamental. Mas ele não podia imaginar ficar longe dela novamente.

xXxXxXx

"Porra, Hank, será que nenhum de vocês acredita em mim? Eu estou bem!"

Rogue esbravejou quando Fera a examinava em busca de qualquer alteração causada por sua irritação recente.

"Eu só estou verificando Rogue. E se acalme."

"Pro inferno com essa coisa de calma Hank, pro inferno, você sabe o que ele disse?" Ela continuou seu monólogo sem esperar respostas de Hank. "Ele é um filho da puta arrogante, é isso que ele é. Temperamental, irritante, estúpido e grosso. Não tem qualquer educação! Um idiota completo."

Sem mais conseguir se conter, Amy riu. O riso abafado se transformou em gargalhada quando o rosto indignado de Rogue voltou-se em sua direção. Após se controlar um pouco, mas ainda ofegante, ela se justificou para a amiga que a fuzilava com os olhos verdes gélidos.

"A qual é Rogue, você ainda insiste que não são um casal? Então me explica o que foi isso? Se não é um briga de namorados, eu não sei o que mais é."

Fera também riu. Mas disfarçou a risada ao ver a expressão furiosa de Rogue. Por mais que ele insistisse, a garota não relaxava, parecia simplesmente não conseguir. Ela e Wolverine eram dois teimosos, ele pensou um pouco exasperado, um tanto divertido.

"De que merda você está falando Amy? Quer saber, não responda. Me poupe de suas teorias românticas infantis e vá atormentar outro, porque não experimenta Storm? Com certeza ela vai curtir teorizar besteiras sentimentalistas com você."

Ao invés de se irritar, Amy riu, familiarizada com aquele tipo de atitude defensiva. A melhor defesa é o ataque, pensou. Conhecia aquela tática.

"Não se zangue comigo Rogue. Só estou constatando um fato."

'Não está não. Está fantasiando bobagens, como toda criança existente desde a aurora dos tempos. Você ainda é uma pirralha, o que pode saber sobre essas coisas?"

Hank achou que era hora de interferir, antes que fosse obrigado a dopar Rogue para que a mesma relaxasse, embora ele hesitasse para lhe dar qualquer medicamento antes que as drogas aplicadas desaparecessem completamente de seu organismo.

"Amy porque você não vem comigo? Prometi te mostrar o laboratório lembra-se? Estou disposto a cumprir esta promessa agora, enquanto aguardo à hora certa para fazer os restantes dos exames de Rogue. E quanto a você," ele acrescentou direcionando o olhar para a garota na cama, "tente relaxar, ou vou ser obrigado te amarrar, e eu juro por Deus que o farei, Rogue."

Ameaçou seriamente, antes de lançar-lhe um leve sorriso e sair com Amy, fechando a porta atrás de si.

Rogue bufou, cruzando os braços e desviando o olhar para a janela, irritada.

Seus olhos ficaram fixos lá, e algumas lembranças que pensara haver perdido, sem qualquer significância para qualquer outro, retornaram à sua mente, repentinamente estimuladas pela vista da janela.

Ela encontrara Emma ali uma vez. No lugar em que seus olhos fitavam, uma distância considerável da entrada do jardim da mansão. Ao sentir a presença de Rogue ela sorriu, mas não um de seus inúmeros sorrisos sarcásticos irritantes, fazendo sua primeira confidencia e última, vaga e aparentemente simples, mas tão significativa no fundo.

Vampira Lembrou-se de maneira vívida, cada detalhe daquele dia ensolarado e quente. Havia descoberto que Magneto tramava algo, após ouvir uma conversa de Pietro com seu pai. Fora avisar a Logan que não estava lá, como sempre, e saíra frustrada com passos pesados e o coração ainda mais, mas parou por um momento ao ver Emma mais a frente observando, nada discretamente, Scott sentado na árvore em que costumava partilhar suas raras tardes de folga com Jean.

Emma mantinha o olhar sobre ele, mas Ciclope nem ao menos notou. Ele nunca notava. Parecia o tempo todo completamente inerte, afogado em sua dor da perda intensa demais para ser superada.

Ela ia passar reto e ignorar sem qualquer comentário, mas Emma não perdeu a deixa para uma observação mordaz.

"Deixe-me adivinhar, você veio atrás de seu cavaleiro andante?"

Rogue também não perdeu a oportunidade de retrucar. Era sempre assim com as duas. Entre uma mordida e outra, rolava um sorriso. Algumas vezes Rogue vencia com as provocações, em outras era Emma, ambas péssimas perdedoras de temperamento forte e difícil.

" E você, pra variar, está aqui secando o Scott."

Ao invés de se irritar, e retrucar, Emma sorriu. Um sorriso estranho, de melancólico conformismo. Rogue ficou surpresa com sua atitude aberta, completamente contrária ao seu temperamento arrogante.

"Ele está pensando em Jean, não que isso seja novidade para alguém. Mas hoje relembra todos os momentos que passaram juntos, debaixo daquela árvore em que agora está."

Rogue assentiu, ainda pega de surpresa pela confissão. E pelo fato de não desejar provocá-la ao saber que ela estava dentro da mente de Scott.

"Era este o lugar que ele e a ruiva costumavam escolher para suas trocas de carícias nauseantes e melosas."

Esclareceu fazendo uma careta com a lembrança. Irritar-se com aquilo era, e sempre seria, inevitável. Nunca levara muito bem ser expectadora de demonstrações públicas de afeto dos outros. Saber que nunca seria protagonista de algo do tipo sempre amargava em sua boca. Emma manteve o sorriso estranho, direcionando o olhar para Rogue.

"É, eu já percebi. Ele tem os momentos bem vívidos em sua mente, e está revendo todos."

Rogue sentiu algo parecido com pena. Não conseguia compreender o porque de Emma se torturar tanto. Ela amava Ciclope, estava na cara. No entanto não perdia a oportunidade de espiá-lo, ver o homem que ela amava sofrendo pela mulher que ele amava. E agora estava dentro da mente de Scott, vendo-o com as mãos pelo corpo de outra mulher, fazendo juras de amor. Ela podia ler nos olhos de Emma, a dor que aquilo causava, o quanto a atormentava.

"Porque faz isso? É extremamente doloroso ver alguém aproveitando algo que você não pode ter."

Rogue não conseguiu conter a pergunta. Ela sabia daquilo melhor do que qualquer outro, acontecia sempre que ela tocava alguém. Mas Emma tinha escolha na matéria. Os olhos da loira cintilaram quando ela respondeu, desviando-os de Rogue.

"Eu não posso evitar."

Murmurou baixo, como explicação. Rogue assentiu, compreendendo. Às vezes ela tocava alguém por impulso ao ouvi-lo falar de maneira excitante sobre estar amando, apenas para experimentar, saber o que era viver um sentimento que ela nunca seria capaz de ter ou consumar.

Depois que a empolgação momentânea absorvida passava, ela sempre acabava se sentindo pior, amargando cada lembrança que lhe feria fundo, como sal sendo espalhado em feridas reabertas que doíam terrivelmente. A culpa por roubar energia e lembranças que não lhe pertenciam também a corroia, embora, em situações do tipo, nunca ficasse em contato com ninguém por tempo o suficiente para desacordá-lo.

Naquele momento houve uma espécie de compreensão mútua, uma cumplicidade de ambas, passando por situações semelhantes. Aquele foi um dos últimos dias em que Rogue a vira com vida, inteira. Depois tudo o que restou dela foram pequenos pedaços de diamantes, chovendo sobre os corpos de todos os presentes.

Ela estremeceu, repentinamente sufocada. Antes a lembrança do momento de cumplicidade com Emma lhe era agradável, reconfortante. Agora contorcia algo dentro dela, como mãos invisíveis apertando seu coração e torcendo-lhe o estômago. Agonizante e desconfortável.

Arrastavam junto com eles, flashes de lembranças que, embora fossem confusas e fragmentadas, Rogue sabia que eram suas, e extremamente dolorosas.

Sem conseguir respirar, ela se sentou na cama em um rompante, puxando com excessiva força os fios das máquinas que a conectava aos monitores, arrancando-os de sua pele. Fez uma careta quando sentiu a agulha do soro deixar sua veia, o sangue pingou marcando o chão absurdamente branco, mas ela não deu a mínima atenção.

Jogou as pernas para fora do colchão e se levantou, sentindo-as tremer fracas, como as de um filhote que estava aprendendo a andar. Teve de se apoiar nas grades da cama para não cair, e fez uma careta ao perceber o quão fraca estava. Pontos negros nublaram sua visão, e ela sentiu o chão sumir sobre seus pés.