VI – O segundo encontro
Jace estava ansioso para o encontro como nunca tivera em toda a sua vida, primeiro porque queria agradar Clary e segundo porque realmente havia gostado daquela garota pequena. Gostou do jeito como ela mordeu o cachorro quente e gostou do modo como ela sorriu, gostou até mesmo do jeito que ela revirou os olhos para ele.
O garoto havia conseguido uma reserva em nome de Jace Wayland – o nome que usava quando não queria que soubessem quem ele realmente era – em um restaurante no centro da cidade com muito custo. Provavelmente não teria conseguido se Isabelle não tivesse feito uma intervenção e colocado o nome dele na lista de reservas, essa era a parte boa de ter uma prima que era capaz de derrubar qualquer sistema de segurança de um computador no quarto dela. A desvantagem era que além de foda, ela era enxerida e ficava se metendo em assuntos que não tinham nada a ver com a vida dela.
— Eu fiz a maldita da reserva, tenho direito de saber pelo menos com quem vai sair. – E agora a garota estava o importunando incessantemente querendo saber quem Jace levaria para jantar, afinal o primo não era disso. Ele não costumava sair para jantar, agradar mulheres e ser o cavalheiro, pelo menos não desse jeito e não nessa ordem.
— Você tem o direito de sair daqui antes que eu atire em você, se quer saber. – O loiro falou olhando feio para a menina, que só rolou os olhos.
A ameaça talvez funcionasse com qualquer outra pessoa, menos com Isabelle Lightwood. Ela havia sido criada com o primo e sabia muito bem que ele jamais atiraria nela, mesmo que sua vida dependesse muito disso. Isabelle abriu a boca para responder, mas não terminou porque a porta se abriu, revelando Alec.
— Vai atirar na Izzy? – O moreno perguntou entrando no quarto sem cerimônia.
— Cadê a privacidade? – Jace questionou, mas foi ignorado.
— Ele tem um encontro e não quer me contar com quem vai sair. – Isabelle reclamou se jogando na cama do primo.
— Talvez porque não seja da sua conta. - Jace rebateu, pegando um sapato no closet.
— Claro que é da minha conta, Herondale. Você nunca leva ninguém para jantar, nunca se preocupa tanto e muito menos fica ansioso, escolhendo roupas e mais roupas. Eu preciso saber quem é essa garota. – Isabelle continuou falando, tentando fazer Jace perder a pouca paciência que tinha e acabar falando com quem ia sair só para ela calar a boca.
— E quem disse que é uma garota? – Alec perguntou, olhando para a irmã. Jace sorriu de lado e olhou para a prima também, que estava incrédula.
— E não é?
— Pode não ser, sabe... – o Lightwood respondeu a irmã com um olhar sacana no rosto.
Ao mesmo tempo que ele estava curioso para saber quem era a menina que estava fazendo aquilo com Jace Herondale, ele também queria ajudar o melhor amigo. Ele sabia bem o que era viver sem privacidade e sabia também que o amigo sofria bem mais que ele nesse sentido, afinal ser filho de um dos chefes da Máfia de NY significava não ter uma vida intima livre de questionamentos. Jace não precisava de Isabelle se metendo na vida dele também, já bastava o pai do loiro.
— Jace...? – Isabelle recorreu ao primo, mas ele só deu de ombros.
— Toda forma de amor é válida. Pensei que você ia me apoiar em minhas decisões sabe.
— Você está brincando! – A garota falou enquanto o primo pegava a chave do carro que haviam ido para a balada ontem.
Jace estava realmente bonito, mais do que o normal. Com uma camisa simples, uma jaqueta de couro por cima, uma calça jeans mais escura e coturnos, os cabelos loiros caiam displicentemente, como sempre, e o anel de sua família estava devidamente pendurado no pescoço. Ele sabia que não deveria sair com aquilo, porque se fosse pego rapidamente saberiam quem ele era, mas o garoto não ligava – ou como Alec gostava de falar, ele era simplesmente imprudente.
— Deseje-me sorte no meu encontro Isabelle e pare de julgar minhas escolhas, deixe-me ser feliz, mulher. – Jace falou dando uma última olhada no espelho. Sabia que estava cedo, mas queria chegar com antecedência para impressionar a ruiva.
— Boa sorte? – Ela falou ainda meio chocada.
— Obrigado, significa muito sua aceitação para mim, ok? Tchau, Alec. – E então o loiro se foi deixando os primos no quarto. Um com ar de riso e outra completamente chocada.
— Ele está falando sério? – Isabelle perguntou olhando para o irmão, que só deu de ombros. Ele poderia contar a verdade ou poderia manter a mentira, só para ver o choque na cara de Isabelle. É claro que ele escolheu a segunda opção... Era sempre hilário ver a irmã cochada.
— Por que não? Estamos falando do Jace. Você sabe bem que ele pode muito bem fazer uma coisa dessas "só para experimentar". – E então Alexander saiu do quarto, deixando Isabelle sozinha com seus pensamentos nada criativos sobre a nova onda do primo.
No carro, Jace tentava dirigir com calma, para não chegar muito cedo na casa de Clary. Ele queria parecer pontual, mas não desesperado. É claro que não estava conseguindo se conter muito, chegando em frente à casa dela as sete e quarenta e cinco, quinze minutos adiantado.
No quarto da mansão Morgenstern, nesse mesmo horário, Clary importunava Magnus Bane para ajudá-la a terminar de se arrumar. O amigo, que também era seu segurança, enquanto penteava os cabelos da ruiva já havia desistido de fazê-la ver a razão e leva-lo consigo, ele agora só rezava para que nada de ruim acontecesse com ela e a culpa caísse em sua ausência.
A menina estava bonita, com os cabelos ruivos soltos, um vestido preto que ia um pouco acima da coxa e que marcava muito bem sua cintura. Os saltos também estavam presentes, mas sem o exagero dos da noite passada, esses tinham o salto mais grosso e eram um pouco mais baixos. Uma maquiagem leve estava eu seu rosto e Clary gostou da aparência que viu no espelho, e continuaria admirando mais ainda, se a porta do seu quarto não tivesse aberto e uma cabeça loira tivesse apontado dela.
— Eu podia estar pelada Sebastian. – Clary comentou com o irmão, que agora entrava em seu quarto sem cerimônia alguma.
— E eu não veria nada que nunca tenha visto, se quer saber. Onde você vai?
— Vou sair. – A ruiva respondeu voltando a se admirar no espelho.
— Isso eu percebi, agora eu quero saber onde você vai. E com quem.
— E quem te elegeu o interrogador da vez, em? – O celular da menina apitou e ela rapidamente o pegou em cima da escrivaninha. Era Jace avisando que já havia chegado e que a esperava no portão.
— Ninguém me elegeu interrogador, até porque se isso fosse um interrogatório você não estaria livre, leve e solta aí não. E muito menos estaria com todos os dedos da mão. – O olhar de Clary saiu da tela do celular e foi para o irmão, a falta de paciência era nítida.
— Poupe-me das atrocidades que você faz com as pessoas, Morgenstern.
— Vai me falar com quem vai sair e onde vai? – Devido ao silêncio da garota, que só juntava algumas coisas para colocar na bolsa, o loiro virou-se para Magnus. – Você sabe onde ela vai?
— Nenhuma ideia, meu caro. – Bane respondeu sorrindo. – Posso ir? – Perguntou a Clary que só assentiu, agradecendo pela ajuda. Assim que Magnus saiu do recinto, Sebastian voltou a atacar.
— Você vai me contar ou eu vou ter que perguntar para o papai? Ou para a mamãe, talvez?
— Eu vou sair com um cara que eu conheci ontem na balada, satisfeito? – O queixo de Sebastian praticamente foi ao chão com a declaração de Clary. Ele sempre achou que fosse o irresponsável da família, mas a irmã agora o havia superado de vez.
— Você está louca ou o quê, Clarissa? Sair com um cara que você conheceu ontem em uma balada? Que tipo de droga que está usando? E se esse cara for perigoso ou...? – Mas ele não terminou o sermão.
— Ontem foi no sentido figurado, Sebastian. Na verdade, nos conhecemos hoje mesmo. De madrugada sabe? E se ele fosse perigoso ou alguma coisa do tipo, eu não estaria aqui, já que ele que me trouxe em casa enquanto Simon engolia, por coincidência, a prima dele na pista.
— Clary...
— Deixe o sermão para quando eu voltar Sebastian, porque agora ele já está lá fora esperando. Eu te amo e não me espere acordada. – E então Clary saiu do quarto.
Odiava quando Sebastian ficava controlando a vida dela. Odiava mesmo!
Ela não era a droga de uma criança inocente que precisava das pessoas ao lado dela o dia todo lhe dizendo o que fazer e com quem fazer. Entendia que o irmão queria sempre protegê-la, mas não precisava ser vinte e quarto horas por dia. Ele e o pai precisavam entender que ela não era a menininha que eles haviam visto nascer, ela já era uma mulher que sabia se defender muito bem. Bem até demais!
Saiu de casa rapidamente, rezando para não encontrar mais ninguém no caminho, e isso não aconteceu. Respirou aliviada quando chegou ao portão, abrindo-o e dando de cara com Jace, encostado no carro, mexendo no celular de forma distraída.
Ele parecia aqueles atores de filme de ensino médio americano, o cara popular e gostoso que tinha tudo e todos da mão. Um sorriso mínimo surgiu no rosto de Clary e ela se obrigou a ir de encontro até aquela toda perfeição.
Jace parecia distraído, mas não o estava de fato, por isso não se surpreendeu quando Clary começou a ir em sua direção. Seus olhos rapidamente saíram do celular e foram para a menina, que parecia mais linda do que na noite anterior, se é que isso fosse mesmo possível. Um sorriso nada inocente surgiu no rosto do garoto, ao ver a menina mais de perto.
— Clarissa, boa noite. – Ele cumprimentou, beijando a sua mão como havia feito na madrugada, quando a deixou em casa. O coração da menina deu um salto quando os lábios de Jace tocaram a sua pele e ela podia jurar que estava ficando vermelha.
— Olá senhor cavalheiro. Espero que não tenha esperado muito. – A menina falou para testar sua voz, estava firme, pelo menos isso.
— Esperei o dia todo, logo... Foi muito tempo sabia? – Jace falou guiando Clary em direção a porta do carro. Ele a abriu e ajudou a menina a entrar, percebendo que ela estava bem menor do que ontem. Assim que ele entrou no carro, Clary já se adiantou.
— Dia longo? – Perguntou, referindo-se ao fato de que o menino mencionara que ficara o dia todo esperando por ela.
— Você nem faz ideia.
— Também esperei o dia todo, mas foi só para saber onde vamos mesmo. – Jace colocou a mão no peito enquanto girava a chave do carro, dando vida ao motor.
— Bom saber que veio pelo jantar e não pela minha presença ilustre.
— Então nós vamos jantar? – Ela questionou.
Havia trocado algumas mensagens com Jace durante o dia, perguntando onde iam. Ele fez questão de manter tudo em segredo, primeiro porque queria instigar a curiosidade da menina e segundo porque ele realmente não fazia a mínima ideia de onde leva-la se Isabelle não o tivesse ajudado.
— Vamos jantar, mas eu ainda prefiro surpresas sabe?
— Então não vai me contar onde vamos jantar?
— Não. Daqui uns quinze minutos você vai saber onde vamos... – ele falou e percebeu a impaciência dela. Pelo visto Clary era mais ansiosa do que aparentava.
— Porque vai me contar ou...?
— Porque vamos chegar lá. Acalme-se Clarissa, quanta ansiedade. – Jace brincou, olhando-a de canto de olho.
— Nem sei se estou vestida apropriadamente para o local onde vamos, Jace. Você me fez arrumar para um encontro sem nem saber como me vestir.
Claro que a roupa era só uma desculpa fajuta de Clary. Se ela fosse sincera consigo mesma admitiria que estava ansiosa para se encontrar com Jace e, surpreendendo até a si mesma, queria ficar maravilhosa para o encontro. Além do fato de que ela odiava não saber das coisas.
— Você está linda, Clary. É isso que importa. – O elogio fez a menina corar e um sorriso foi arrancado dos lábios de Jace com esse ato. Ela corava! Havia muito tempo que não fazia uma mulher corar por causa de um elogio... geralmente elas coravam por outro motivo.
Não demoraram muito a chegar no Taki's, um restaurante nova-iorquino que era conhecido por sua popularidade e pela diversidade em seu cardápio. Clary já havia ido ali com Sebastian, mas o irmão ficou duas semanas para conseguir uma reserva, duvidava que Jace tinha conseguido isso de um dia para o outro.
Após descerem do carro e relutantemente o rapaz entregar a chave para o manobrista – ele não confiava nem um pouco nesse tipo de gente – foram em direção a entrada do restaurante. Clary estava um tanto curioso para saber como ele havia conseguido uma reserva em um dia, já Jace torcia para que o nome dele estivesse lá, como Isabelle havia prometido, se não ele ia, pessoalmente, matar a prima.
