Extra – Naruto I

Caminhava preguiçosamente pela rua. Parei em frente aos grandes portões de ferro já tão conhecidos por mim. Estava atrasado, eu sabia. Mas a manhã de domingo estava tão relaxada ao lado de Hinata que minha vontade era dormir o dia inteiro naquela cama quentinha e macia.

- Uzumaki Naruto.- disse ao interfone preso a parede que margeava o portão.

Logo ouvi o estalo elétrico que destrancava a armação de ferro e me permitiria passar.

Soltei um suspiro rápido antes de continuar meu caminho pela estreita trilha de pedra que me levaria até a enorme porta de carvalho da mansão.

Bati três vezes antes de ouvir alguém lá de dentro perguntar sobre o código.

- O crime é a justiça feita por aqueles que são corajosos o bastante para fazer suas próprias leis.

Vi a porta ser aberta, permitindo minha passagem.

- Bom dia, Naruto. – ouvi Sai dizer naquele sorriso debochado que só ele tinha. E que me irritava profundamente. Juro que um dia ainda quebro a cara dele.

- E ae! – respondi e continuei caminhando. Não queria prolongar a conversa.

- E então? O que tem a dizer sobre ela?

- Hinata é... – pensei por um momento - Exatamente do jeito que imaginei. – esbocei o sorriso mais malicioso que pude e segui meu caminho. Minha próxima missão me esperava.

Extra – Naruto II

Agora, com um revólver calibre 38 apontado para a cabeça de um inocente, me pergunto se tudo valerá a pena algum dia. Meus motivos parecem tão estúpidos se comparados a uma vida.

Um barulho no corredor me chamou a atenção e quando me virei dei de frente com um menino de não mais de 5 anos sendo calado pela mãe. Ambos tão pálidos e assustados que me perguntei se acaso eu parecia um tipo de monstro.

Sim. Eu sou um monstro. E do pior tipo. Um assassino.

- Não sabíamos que tinha mulher e filho.

Cocei a cabeça com a ponta da arma com um pouco de dificuldade, pois tinha a cabeça coberta com uma espécie de gorro com buracos na área dos olhos e na boca. Tentei pensar por um instante.

- Eles não têm nada com isso. Deixe-os, por favor. – me disse num fio de voz e me olhando suplicante.

- Somente cumpro ordens. – suspirei.

Apertei os olhos, sentindo o corpo tremer e um gosto metálico na boca. Só então percebi que eu mordia meu lábio inferior com brutalidade.

Eles só estavam tornando as coisas mais difíceis para mim.

- Você – me virei para a mulher pálida e chorosa – pegue tudo de valor que tiver, pegue todo seu dinheiro e suma com seu filho daqui. Hokkaido é bem bonito, devia dar uma volta por lá. E você – me virei para o menino – papai vai para um lugar melhor, mas sempre cuidará de você.

Tentei sorrir para dar algum consolo a criança, mas meu sorriso saiu como uma careta.

A mulher não se mexeu e eu a olhei irritado. Não gostava disso tanto quanto ela.

- Hana, por favor vá logo e leve Koji daqui. Eu sabia que isso aconteceria algum dia.

- Não tente chamar a polícia, moça. – encarei-a sem expressão – Eu saberei se você o fizer.

A mulher então disparou com o filho.

- Obrigado. – ouvi o homem dizer aliviado.

Quem, diabos, ficaria aliviado por estar prestas a morrer?

- Não por isso. – disse apontando-lhe novamente a arma.

O homem trêmulo ajoelhado a minha frente cerrou fortemente os olhos e começou uma oração muito conhecida pelos cristãos num fio de voz. O homem cujo único crime fora ser honesto e justo ao defender os mais fracos e extremamente corajoso ao arruinar os planos dos mais fortes.

- "Perdoai as nossas ofensas" – disse a ele enquanto destravava a arma, apesar de minha mão tremer tanto que eu mal conseguia segurá-la.

Um barulho. Como bombinhas em dia de festa. Um baque de algo pesado caindo no chão. Uma poça vermelho-vivo inundando todo o cômodo. Meu estômago revirando. O gosto da bile em minha boca. A súbita vontade de vomitar. As lágrimas que deixavam um rastro salgado por meu rosto.

Essa é a cena que relembraria todos os dias em meus pesadelos. E as sensações seriam as mesmas todas as noites.

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Pela quinta vez naquela semana acordei no meio da noite molhado pelo suor e pelas lágrimas. Corri ao banheiro e pus para fora o pouco que havia no estômago.

Meu corpo pesava tanto que eu mal saía da cama. Só havia ido à irmandade dias atrás dizer que a missão estava cumprida.

Não conseguia fechar os olhos, pois a cena daquele domingo a noite se formava quase instantaneamente em minha cabeça.

E a expressão petrificada do sujeito e a poça de sangue me fazia sentir o coração estagnar e afundar no peito. Nem mesmo as lágrimas me livravam da culpa.

Por mais que eu tente pensar no assunto friamente, não consigo não me chamar de assassino. Por mais que eu tente jogar a responsabilidade em cima de outro, a culpa não me larga.

"Não importa que esteja doente ou morrendo, Uzumaki. Esteja na mansão na segunda pela manhã se não o arrebentaremos" ouvi a voz gutural de um dos membros da irmandade.

Talvez uma surra bem dada fosse muito bem-vinda. Sim, seria muito bom levar uma surra. Talvez a culpa fosse embora com alguns dentes ou com o sangue misturado ao cuspe. Mas meus "irmãos" não gostam de deixar vestígios. Eu acabaria morrendo. E apesar de merecer isso e ir diretamente para o inferno, eu não o queria. Continuaria levando minha vida inútil até que ela não fosse mais necessária.

Pela primeira vez em dias, arrumei-me para sair de casa. Coloquei um casaco pesado e umas botas e saí em busca de um boteco.

Pedi um wisk. Fumei um cigarro caro com sabor de menta. Retirei a loira de baton vermelho e meia arrastão que estava sentanda no meu colo. Xinguei. Derrubei mesas. Levei um soco no olho e vários pontapés. Chutei e soquei um nariz adunco e exageradamente grande. Fui expulso do bar. Continuei caminhando pela noite fria, soltando o ar rapidamente para fazer fumacinha com a boca.

Meus pés me levaram por uma rua vagamente conhecida. Parei em frente a um condomínio pomposo. Chamei por um nome escondido em minha mente.

Logo vi aquela que me salvaria de mim mesmo. O grosso roupão apertado sobre o corpo. Os olhos luminosos como a lua piscando para espantar o sono. A face ainda mais pálida pelo frio. A voz tão calma e doce, tão preocupada.

Logo estaria encostado a ela, ouvindo sua voz melodiosa próxima a meu ouvido, sentindo o perfume que entraria por minhas narinas e acalmaria minha mente. Tirando-me de minha realidade vergonhosa e levando a uma fantasia, onde eu seria importante para ela. Ela me permitiria sonhar que era importante para alguém, para um anjo feito ela, mesmo que isso fosse a mais dolorosa das mentiras. Ela me acalmaria como uma droga. Minha própria cocaína em formas angelicais perfeitas.

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N.A.: Resolvi postar os dois extras de uma vez.