—Tome cuidado, Teddy.

Hermione agarrou o menininho antes que ele saísse andando sem pensar pela rua movimentada. Para alguém que já dava sinais de possuir um forte dom de prever as coisas, às vezes ele agia às cegas como qualquer criança da sua idade. Ela não costumava levar o ativo menino ao mercado, mas neste dia, os mais novos estavam muito ocupados com o tutor e Teddy estava tão inquieto que não deixava ninguém prestar atenção ao que o homem dizia. Os mais velhos simplesmente tinham desaparecido misteriosamente. Até mesmo Hector saíra quando deveria estar fazendo suas lições. Mais tarde, ela teria que reunir todos os garotos para passar um belo sermão. Eles ainda eram muito jovens para vagar sozinhos pelas perigosas ruas da cidade.

— O que você vai comprar? — Teddy perguntou ao mesmo tempo em que seguia pulando de um pé para o outro ao lado de Hermione.

— Acho que vou comprar algo para colocar no cozido. A filha da Sra. Stark ainda não está se sentindo muito bem, por isso ela só teve tempo de nos trazer um pouco de pão, presunto e ovos. Isto deve dar para o almoço de hoje e para o café da manhã de amanhã, mas preciso preparar algo para vocês comerem no jantar.

— Não quero carne de carneiro.

— Não vou fazer carne de carneiro. De qualquer maneira, não sei preparar aquela carne muito bem. — Ela não tinha certeza se a Sra. Stark também sabia, pois a última vez que Hermione provara definitivamente só servira para contribuir ainda mais com a aversão que Hermione já tinha pela iguaria.

Ela suspirou quando Teddy correu até a vitrine de uma loja onde havia vários soldadinhos de chumbo expostos. Os bonequinhos eram bem feitinhos e pintados em cores vibrantes. A tentação perfeita para um garotinho. Hermione desejou ter dinheiro naquele exato momento para poder comprar alguns. Afinal, não tinha certeza se ele ainda iria querer brincar de soldadinho quando ela completasse a maior idade e finalmente recebesse a sua herança. Apesar de ainda não ter provas, ela tinha certeza de que Ron e Gina estavam roubando a herança que seus pais haviam lhe deixado, sustentando, com seu dinheiro, uma vida de luxo e esbanjamento. A possibilidade de que não restaria quase nada ou nenhum dinheiro quando ela finalmente conquistasse o controle da sua vida era muito grande. Talvez não restasse nem mesmo o suficiente para comprar alguns soldadinhos, ideia que ela considerou muito triste para ser posta em palavras.

— Hermione, precisamos ir — disse enquanto o puxava pela mãozinha. — Você sabe que não posso andar muito por aí à luz do dia. E se Gina ou Ron me verem? Eles podem começar a me vigiar mais de perto. E com isso pode demorar muito para que eu consiga sair de casa sem que ninguém perceba.

— Eu havia me esquecido. Vamos comprar comida, então. — Ele ergueu os olhinhos para ela enquanto eles esperavam que uma carroça carregada de barulhentos porcos passasse. — Não fique triste, Hermione. Um dia ainda vou ganhar aqueles soldadinhos.

Ela desejou que ele estivesse certo e que ganhasse os soldadinhos antes de estar velho demais para brincar.

— Agora, vamos ao açougue.

— Por ali, não!

— Vai ser rápido, Teddy. Venha logo — ela disse enquanto puxava o corpinho resistente do menino para mais perto da rua. Hermione saiu apressada para cruzar a rua quando finalmente viu uma oportunidade no fluxo constante de carruagens e carroças. Teddy soltou um grito e começou puxá-la de volta. Ela virou a fim de olhar para ele, incerta se o menino estava sentindo alguma premonição ou se simplesmente tudo não passava de teimosia, e então viu a carruagem correndo em sua direção. E na direção de Teddy. Mas, em vez de diminuir a velocidade ao ver que havia pessoas atravessando a rua, o veículo acelerou ainda mais à medida que se aproximava. Não era assim que ela desejava morrer.

Harry saiu da loja de luvas, resmungando sobre os altos preços das mercadorias. Seus amigos riram e Neville deu-lhe um tapinha no ombro. O humor de Harry estava péssimo e ele sabia disso, assim como também sabia que não era certo descontar nos amigos. Estava, na verdade, precisando se livrar da névoa de raiva que pairava em sua mente. Eles estavam seguindo para o clube, onde ele esperava conversar sobre seus planos de investimento com os homens que queria como sócios. E para tal iria precisar de uma mente livre de ressentimentos ou autopiedade.

— O preço realmente estava nas alturas — comentou Neville —, mas as luvas são da melhor qualidade e vão durar muito tempo.

— Espero que esteja certo, com um preço tão alto este será o último par de luvas que vou comprar por um bom tempo — disse Harry.

— Aquela não é a sua Lady Hermione? — perguntou Simas. — Cruzando a rua com aquele menininho que de doce só tem a cara? Teddy esse é o nome.

Harry olhou na direção que Simas apontou, do outro lado da rua e alguns metros à direita. Seu coração bateu em falsete quando ele a avistou. Ela estava trajando um vestido azul simples os cabelos estavam presos em um estilo igualmente simples e o sol realçava os tons castanhos das madeixas. Ela parecia uma camponesa a caminho do mercado, não era o tipo de mulher que normalmente chamaria a sua atenção, mesmo assim ele achou a beleza dela um bálsamo para sua alma. Percebeu então que estava caminhando cegamente em direção a ela quando se deteve por um instante. Estava perigosamente encantado, mas não sabia ao certo como se curar desse mal. Pior, seus amigos vinham logo atrás, rindo do seu estado de encantamento.

Um barulho chamou sua atenção quando ela começou a atravessar a rua. Nem foi preciso ouvir o grito de Teddy para ver o perigo se aproximando de Hermione. Olhou de volta para a moça e viu que ela começava a vir em sua direção, mas ele sabia que ela não continuaria que não arrastaria um menino assustado. A carruagem ainda ganhava velocidade. Então ela o viu.

Harry começou a correr em direção a ela, mas de repente ela parou, ergueu Teddy e
jogou-o para ele, que não teve outra opção senão pular para apanhar o era pequeno e leve, mas a força do impacto de seu corpinho fez com que Harry cambaleasse alguns passos para trás.

— Mi-o-ne!

Harry queria ecoar o pranto do menino, pois tinha certeza de que estava prestes a ver Hermione sendo pisoteada pelos cavalos que vinham em sua direção. Seus amigos avançaram, mas ele duvidou que eles pudessem fazer qualquer coisa. Mesmo que Dino e Simas conseguissem alcançar a carruagem, nunca seriam capazes de controlar o veículo antes que ele atingisse Hermione. Ela começara a correr novamente, mas era tarde demais. Harry
pressionou o rostinho do menino contra seu ombro, ciente de que fizera o que ela queria ao receber o menino no colo, apesar de contrariado por ser impedido de salvá-la.

— Pule! — ele gritou, mas duvidou que pudesse ser ouvido entre todos os outros berros e gritos.

Ela era rápida, ele pensou um tanto histérico, apesar de não achar que tivesse sido rápida o suficiente. Então, quando se preparava para ver a tragédia se descortinar diante de seus olhos, ela saiu do caminho dos cavalos. Harry tinha acabado de voltar a respirar quando a viu ser atingida pela saliência que saía do centro da roda da carruagem. O baque foi forte o bastante para derrubá-la. E ela teria caído se Neville não tivesse pulado para ampará-la bem a tempo. A força do impacto e o peso do corpo jogaram Neville para trás. Harry correu até eles, ainda segurando Teddy em seus braços.

— Ela está ferida? — ele perguntou para Neville, lutando contra o desejo estranho de arrancar Hermione dos braços do seu amigo, enquanto este se sentava. — Você está ferido?

— Só um pouco dolorido, mas estou bem — Neville respondeu —, já Lady Hermione pode ter se machucado de verdade. Quando caí, ouvi a cabeça dela bater com força no chão. — Ele olhou para o corpo largado em seus braços. —Creio que isto não seja apenas um desmaio.

Harry colocou Teddy no chão e se agachou ao lado de Hermione. Passou a mão na nuca de Hermione e soltou uma leve palavra grosseira ao encontrar um talho. Enquanto retirava os dedos ensanguentados para pegar seu lenço e colocar sobre o ferimento, Dino e Simas se aproximaram.

— A carruagem? — Harry perguntou.

— Estava muito rápida — respondeu Simas.

— Quase alcancei quando ele virou logo depois de tentar atingir Lady Hermione - Dino disse —, mas fui impedido por um grupo de pessoas enfurecidas que se juntaram à perseguição. Simas teve que agarrar uma criança que quase foi atropelada pelos idiotas.

— Vocês reconheceram o cocheiro, a carruagem, ou viram alguém dentro? — Perguntou Harry enquanto pegava com todo cuidado o corpo largado de Hermione dos braços de Neville e se levantava.

— Era uma carruagem de aluguel, com toda certeza. O cocheiro estava com o rosto oculto por um cachecol, mas ele não se lembrou de esconder a cicatriz de um ferimento que quase arrancou seu olho esquerdo. Havia alguém dentro, pois, quando a carruagem virou, ouvi o barulho de um corpo sendo jogado para o lado, mas as janelas estavam fechadas. — Simas olhou na direção da multidão que ainda estava por perto para assistir ao drama. —Dino e eu podemos fazer algumas perguntas. Tentar descobrir se alguém sabe ou viu algo que possa ser útil.

— Acho que é uma boa idéia. Isso não foi um acidente. Foi intencional.

Simas assentiu.

— Foi mesmo. A carruagem saiu correndo. Acho que todos que viram tiveram a mesma impressão. Como ela está?

— Parece que não quebrou nada, mas ela bateu a cabeça com força. Vou levá-la para casa dela e chamar um médico. Encontre conosco lá. — Ele deu uma olhada para Neville, que havia se levantado, mas examinava as próprias pernas. — Acho que Neville também vai precisar de um médico.

— Leve a carruagem. Dino e eu podemos alugar uma.

Harry concordou e conferiu se Neville estava segurando a mão de Teddy firme o suficiente para controlar a criança, para só então seguir em direção onde a carruagem de Dino estava estacionada. Com todo cuidado, ele colocou Hermione sobre o assento, subiu na carruagem e se sentou próximo à cabeça dela. Em seguida, acomodou parte do corpo da moça sobre seu colo, amparando a cabeça e o pescoço com o braço. Teddy e Neville sentaram de frente para eles. No momento que Neville fechou a porta, a carruagem entrou em movimento e Harry se perguntou quando tinham dito para o cocheiro para onde ele deveria seguir. Estava alarmado com o modo como o estado de Hermione fizera com que ele se esquecesse de todo o resto. Com todos os problemas que já tinha, não estava precisando desta atração pela meia-irmã da
sua noiva.

— O senhor acha que ela vai morrer? — Teddy perguntou, com a voz trêmula e os olhinhos reluzentes com as lágrimas contidas.

Foi difícil não gritar com o menino. Só de ouvir a pergunta foi o suficiente para fazer com que o coração de Harry disparasse de medo. Ele fez o que pôde para se acalmar e, assim, pudesse aplacar os medos da criança.

— Não. Ela só sofreu um arranhão na cabeça. — Harry esperava que o menino fosse muito pequeno ainda para saber o quanto uma pancada na cabeça poderia ser perigosa. — Ela está respirando bem e o sangramento já está estancando — ele adicionou, mais para acalmar a si mesmo do que para tirar aquele olhar assombrado dos olhos do garoto. — Ela é jovem e forte. — A fisionomia de Teddy indicou a Harry que, apensar de pequeno, o menino já conhecia o toque indiscriminado da morte.

— Se eu tivesse conseguido segurá-la melhor... — iniciou Neville.

— O senhor se saiu bem, milorde — disse Teddy. — Foi uma bela pegada.

— Foi mesmo — concordou Harry. — Não é fácil segurar um corpo arremessado no ar. Para mim, foi quase um milagre ter conseguido segurar Teddy. Ao ampará-la, você atenuou o impacto da queda. Ela poderia ter se ferido ainda mais se você não tivesse sido tão rápido.

— A culpa foi minha — disse Teddy.

— Por que acha isso? — perguntou Harry.

— Eu não disse a ela por que nós precisávamos sair da rua. Eu não tinha visto o motivo com muita clareza e tudo aconteceu muito rápido. Eu só sabia que não deveríamos atravessar a rua na direção do açougue. Ela achou que eu estava com medo que ela fosse comprar carne de carneiro.

De fato, tudo acontecera com uma rapidez estarrecedora, Harry recordou. A ação se descortinara diante de seus olhos como se fosse uma lenta e estranha dança macabra, mas, na verdade, tudo sucedera em um ou dois minutos. Todos se moveram o mais rápido possível. Agora que repassava mentalmente a seqüência dos fatos, ele se dava conta de que Teddy e
Hermione sobreviveram por um milagre.

Harry ficou imaginando quanto tempo levaria para que Gina soubesse do que tinha acontecido até que o detalhe mais importante de tudo que Teddy dissera chamou sua atenção.

— O que você quis dizer com sabia? Sabia do quê?

Teddy corou.

— Sei das coisas, milorde. Só isso. Alertas e coisas do tipo, mais ainda não consigo entender muito bem. Mina diz que tenho um dom muito poderoso para aparecer enquanto ainda sou criança, mas que ainda vai demorar um pouco para que eu aprenda a usá-lo do modo correto.

Ele estava abrindo a boca para fazer mais perguntas ao menino, e talvez tentar refrear suas pretensões, quando a carruagem parou diante da casa em que Hermione cuidava dos garotos. Teddy pulou da carruagem e correu para dentro de casa antes que pudesse ser detido. Neville ainda estava se firmando depois de descer da carruagem, quando meia dúzia de meninos surgiu correndo de dentro da casa. Atrás deles veio um jovem alto e elegante que trazia os traços dos Granger estampados no rosto. O jovem abriu caminho entre os meninos, murmurando algo que rapidamente os acalmou. Quando se aproximou de
Harry, ele pousou uma mão elegante com dedos longos sobre a testa de Hermione e então meneou a cabeça.

— Meu nome é Septimus Granger, sou primo e tutor deste bando de pequenos bárbaros — ele disse num tom de voz que atingiu Harry profundamente e acalmou o medo contra o qual ele vinha lutando desde que a carruagem atropelara Hermione. — Ela vai ficar bem, mas acho que o senhor prefere ouvir isso de um médico.

Depois de rapidamente apresentar Neville e a si mesmo, Harry disse:

— Eu ficaria grato se um dos meninos pudesse ir buscar um médico, tanto Lady Hermione quanto Lorde Neville precisam ser examinados.

— Olwen. — O tutor voltou-se na direção de um menino com cabelos cacheados e pretos como as penas de um corvo e que parecia ter quase a mesma idade de Hector. — Vá chamar o Doutor Pryne. — No momento que garoto saiu correndo, Septimus olhou para Harry novamente. — Acompanhe-me. Vamos acomodá-la para esperar pelo médico. Lorde Nevillle, talvez o senhor pudesse esperar na sala de estar. Jerome, Ezra, por favor, cuidem do cavalheiro.

Os dois meninos, que não pareciam ser muito mais velhos do que Teddy, conduziram Neville enquanto Harry seguiu o tutor. Teddy, Delmar e outro menino correram na frente para abrir a porta do quarto de Hermione. Um berço colocado num canto do espaçoso e simples cômodo indicou a Harry que o último dos meninos que haviam sido colocados aos cuidados de Lady Hermione ainda era um bebê. Ele a deitou com todo cuidado sobre a cama surpreendentemente grande e se perguntou como a família dela tivera a coragem de lhe delegar um fardo tão pesado.

Ele se aproximou então da cabeceira da cama enquanto Septimus ajeitava um travesseiro sob a cabeça de Hermione. Harry permaneceu parado, observando o rapaz que a examinava em busca de outros ferimentos. Teve que cerrar os punhos nas costas ao ver as mãos de outro homem movendo-se sobre o corpo dela, apesar de saber que era necessário. Mesmo assim, o ciúme ardeu por dentro das suas entranhas. Quando o homem ergueu os olhos e fitou-o com a cor calma do sol refletindo sobre o mar, profundo e insondável, Harry teve a forte sensação de que Septimus Vaughn pôde ver até a sua alma. Foi embaraçoso não ter forças para lutar contra o sentimento de posse que experimentou por Hermione. Certamente, não queria que ninguém notasse a sua batalha interna, que ele obviamente estava perdendo.

— Já que está espiando, Delmar — Septimus disse —, pegue uma toalha e um pouco de água para mim. Quero limpar este sangue para que eu possa ver melhor o ferimento.

— Não seria melhor esperarmos pelo médico? — perguntou Harry enquanto Delmar corria para atender ao pedido.

— Conheço bem o Doutor Pryne. — Septimus começou a remover cuidadosamente os cabelos de Penélope de cima do ferimento. — Ele vai gostar de ver tudo pronto para que ele examine. Como isto aconteceu? — Septimus perguntou, depois de Delmar colocar uma bacia com água e uma tolha sobre uma mesinha ao lado da cama, e começou a limpar meticulosamente o sangue do ferimento e dos cabelos da prima.

Harry contou ao homem tudo que conseguia se lembrar. Teddy adicionou alguns detalhes, de acordo com seu ponto de vista e opinião, com uma clareza surpreendente para alguém tão pequeno. A cada fato que Harry se recordava, mais convencido ficava de que o acidente fora intencional, uma tentativa de assassinato.

Septimus não disse nada enquanto descartava a água suja de sangue e a toalha e enchia a bacia com água limpa de um jarro ornamentado para lavar as mãos.

— No que Hermione se meteu desta vez? — finalmente disse ao caminhar de volta até cama.

— Então, você também acredita que não foi um acidente — disse Harry.

— Certamente não foi um acidente. Mesmo assim, por que alguém iria querer matar Hermione?

— Acho que a Sra. Dolores está por trás disso — disse uma voz grave que já era familiar a Harry.

Harry se virou para ver Artemis, Estefan e Darius parados na entrada do quarto. Ele franziu a testa, observando os rapazes se aproximarem da cama para darem uma olhada em Hermione. Os três pareciam mendigos, estavam com roupas rasgadas e o rosto sujo. Tinham também a fisionomia carregada o que dava certo ar de maturidade aos seus rostos jovens.

— Por que aquela mulher iria querer ferir Lady Hermione? — Harry perguntou.

— Pelo que ela viu — respondeu Darius. — Coisas ruins aconteceram naquele lugar. Muito ruins.

— Todos sabemos que nenhuma mulher está lá por que quis se juntar ao estábulo daquela velha rabugenta. Meus amigos e eu pretendemos investigar de perto. Por sinal já começamos a fazer isso, e mesmo assim ela não armou nada contra nós.

— Os senhores são lordes, pessoas bem-nascidas e importantes — disse Artemis. — Se fossem um qualquer, ela até poderia tentar silenciá-los, mas até mesmo ela sabe que não pode fazer nada contra cinco nobres. Foi por causa de Hermione que o senhor acabou descobrindo o jogo sujo daquela mulher, por isso é Hermione que ela deseja ver morta. Para ela, Hermione foi a culpada de todo o prejuízo. Mas acho que há algo mais oculto.

— O quê? Lady Hermione viu ou ouviu algo mais que a Sra. Dolores quer manter em segredo?

— Ela viu fantasmas — disse Delmar.

— Fantasmas? — Harry perguntou descrente. — Você quer que eu acredite que Lady Hermione viu fantasmas? Que Dolores quer vê-la morta porque ela viu alguns espíritos flutuando naquele buraco?

Todos os homens presentes no quarto voltaram-se desapontados para ele. Atitude que Harry considerou injusta, apesar de ainda se lembrar de algumas coisas que Hermione lhe dissera a respeito. Ela falara que a casa da Sra. Dolores era um "lugar muito triste, repleto de sentimentos ruins e espíritos enfurecidos". Dissera também que alguém havia morrido naquela cama. E ele ainda podia ouvi-la dizer "pobre Luna", naquele seu tom de voz suave e pesado de tristeza.

Não fazia sentido pensar que ela podia falar com os mortos, ele disse a si mesmo, mas aquela voz severa no fundo da sua cabeça pouco fez para banir a crença que reavivava em sua mente e em seu coração. Ele não entendia por que aquilo estava passando pela sua cabeça, pois nunca acreditara em superstições.

— Sinto muito que não acredite em nós, milorde — disse Artemis —, mas essa é a verdade. Este é o dom de Mione. Ela disse algo para os homens que a raptaram e eles devem ter contado a Sra. Dolores. Acreditando ou não no dom de Mione, a mulher deve estar com medo de que ela saiba de algo. Estamos tentando descobrir que segredos aquele bordel esconde, mas ainda não tivemos sorte.

— Lady Hermione sabe que vocês estão espionando a Sra. Dolores?

— Não, muito menos como estamos fazendo, e não queremos dizer nada a ela até descobrirmos algo que valha a pena contar.

— E Hector? Ele também está seguindo a mesma regra?

— Ah, o senhor o viu, não foi?

— Claro que sim. Gina arrasta-o consigo dia e noite. Ela parece pensar que um menino ridiculamente vestido no seu encalço oferece prestígio a sua pessoa.

— Ridiculamente vestido?

Harry ignorou a pergunta surpresa de Artemis.

— O que você acha que ele irá descobrir?

— Que os meios-irmãos de Hermione estão a roubando às escondidas e que estão por trás do rapto.

Ele esperou até que o choque da acusação direta o acertasse, que um protesto começasse a se formar em seus lábios, mas nada aconteceu. Harry se deu conta de que acreditava que os Wesley eram de fato capazes de cometer tais crimes. No momento que soube como Hermione era tratada, ele começou a enxergá-los com mais clareza e nada do que viu foi bom. O modo como forçaram o noivado e o fato de terem ameaçado-o com as dívidas do seu pai só serviram para dar ainda mais força àquela opinião. Foi por tudo isso que não ficou surpreso, pois já havia começado a desconfiar sozinho de tudo aquilo. Infelizmente, as suspeitas de um grupo de garotos não eram suficientes para ajudá-lo a pôr fim ao noivado. Mesmo que encontrasse outro meio de arrumar o dinheiro que precisava e pagar as dívidas do seu pai, ele não poderia terminar o noivado baseado em suspeitas, sem envolver o nome da sua família em um escândalo. Seu pai já havia causado muito sofrimento. Harry se recusava a
motivar ainda mais.

— Mas por quê?

— Ganância e desejo, milorde — respondeu Artemis.

—Vocês acham que Ron sente desejo por Lady Hermione?

Artemis aquiesceu com um aceno de cabeça.

— Ela não percebe, mas está lá. Ela não disse que foi levada para a Sra. Dolores para atender a outro homem que chegaria no dia seguinte? Eu seria capaz de apostar o pouco que temos que o homem era Ron.

Não houve tempo para Harry fazer mais uma pergunta sequer. Um homem que parecia estar na casa dos quarenta anos, forte e robusto, com cabelos grisalhos em desalinho, entrou no quarto. Pela maleta que carregava, Harry chegou à conclusão de que ele só podia ser o Doutor Pryne. Em poucas palavras, o médico expulsou todos do quarto, menos Septimus e Harry.

— Examinei Lorde Neville — disse o médico enquanto lavava as mãos, olhando diretamente para Harry. — Ele sofreu apenas alguns hematomas, arranhões e uma torção no joelho. Falei para os meninos fazerem compressas com água fria no local. Vou enfaixar antes de ir embora. — Ele analisou o talho na cabeça de Hermione e apertou de leve ao redor da área do ferimento. — Não sofreu traumatismo craniano. Bom sinal. Só vai precisar de alguns pontos. —
Voltou o olhar para Harry e Septimus. — Ela precisa descansar pelo resto da semana. Agora, vou precisar de mais luz para que eu possa dar os pontos — ordenou e Harry saiu andando rapidamente enquanto Septimus fazia o mesmo.

Hermione gemeu de dor no primeiro ponto. Harry avançava, pensando em segurar a cabeça dela para que o médico continuasse, mas Septimus o impediu. O jovem pousou uma mão sobre a testa de Hermione e a outra sobre o coração. O rosto de Hermione, contorcido pela dor, começou a relaxar sonolento.

Ela não se moveu nem fez nenhum som enquanto o médico terminava de dar os pontos. Harry queria negar que Septimus tivesse acalmado-a apenas com o seu toque, mas não pôde. Tinha visto com seus próprios olhos. O médico não pareceu surpreso ou incomodado.

Doutor Pryne olhou para Septimus depois que terminou de enfaixar a cabeça de Hermione.

— Tem certeza de que não vai querer se juntar a mim na tentativa de salvar algumas vidas?

Septimus balançou a cabeça enquanto se afastava da cama.

— Não, posso. De vez em quando, talvez. Mas todos os dias, um paciente atrás do outro? Dor e mais dor? Isso acabaria comigo.

— Justo. Mas é uma pena. Uma grande pena. — Pryne se moveu para lavar as mãos. — Ela vai ficar bem. Como eu disse, ela precisa ficar de cama, por pelo menos alguns dias, e não deixem que ela faça muito esforço até que eu volte para tirar os pontos. Ela pode sentir um pouco de tontura, no começo. Mandem me chamar caso ela mostre qualquer sinal de que tenha sofrido algum dano no cérebro. Você sabe do que estou falando, meu rapaz.

— Sim, eu sei. — Septimus acompanhou o médico para fora do quarto. — Quanto devo ao senhor?

— Nada. O lorde, lá embaixo, pagou por tudo. Agora é melhor eu ir enfaixar o joelho dele para que o pobre possa vestir a calça outra vez.

Harry os observou saírem e então olhou para Hermione. Todos acreditavam que ela era capaz de ver espíritos. Teddy acreditava que podia prever o perigo. O médico acreditava que Septimus tinha o dom de atenuar a dor dos doentes e feridos. Os boatos passavam de geração a geração, ele refletiu e então balançou a cabeça. Ele era um homem racional e controlado. Não pensava mais que Hermione e os garotos fizessem parte de uma família de charlatões, mas se recusava a acreditar nos dons mágicos ou místicos. Precisava de provas para acreditar em tais impossibilidades, e ninguém havia lhe mostrado nenhuma. Hermione soltou um gemido suave. Harry tomou-lhe a mão entre as suas e se sentou na beirada da cama. Não conseguia compreender por que estava se sentindo tão atraído por ela, mas sabia que seu sentimento era retribuído. Suas emoções e desejos estavam impregnados e firmes em seu corpo. Nem mesmo a estranha crença dela de que era capaz de ver e falar com os mortos conseguia atenuar o forte sentimento.

Lentamente, ela abriu os olhos e Harry foi atingido por uma onda de desejo e encantamento. Sabia que deveria lutar contra aquilo, acabar de uma vez por todas, pois ele era, em uma palavra, um caçador de fortunas. Assim como também estava noivo da meia-irmã de Hermione, tivesse ou não pedido oficialmente à mão da moça, ele não deveria precisar se lembrar deste fato importante. Mas precisava. Todas as vezes que olhava para Hermione,
ou até mesmo pensava nela. Para tocar em Hermione do modo como ansiava, ele teria de ser o pior dos cafajestes. O que mais o assustava era a grande parte do seu ser que tanto desejava assumir aquele manto vergonhoso. Seu receio era ter muito mais do seu pai em si do que imaginava.

— Teddy? — Ela sussurrou sua voz não passou de um murmúrio rouco.

— Ele está bem. Não sofreu nenhum arranhão. Você gostaria de beber algo?

— Por favor.

Harry se levantou e olhou ao redor do quarto. Próximo à lareira havia uma mesinha e duas cadeiras. Sobre a mesa, havia uma jarra e dois cálices de prata. Ele se aproximou da mesa, cheirou o líquido dentro da jarra e, depois de descobrir que era cidra, rapidamente serviu uma dose. Hermione parecia sonolenta quando ele se aproximou da cama, mas no momento em que ele se sentou na beirada, fitando-a, ela abriu os olhos novamente.

Em seguida, ela estendeu o braço para alcançar o cálice, sua garganta seca implorava por alívio, e só então percebeu o quanto sua mão estava trêmula.

— Acho que vou precisar de ajuda.

Harry quase sorriu do fundo de petulância que ecoou na voz dela. Lady Hermione não era uma boa paciente, ele concluiu enquanto pousava o cálice sobre o criado-mudo e se ajeitava na cama ao lado dela. Quando ele pousou o braço ao redor do corpo delicado, fazendo o possível para ajeitar-se de modo que pudesse apoiar o pescoço e os ombros ao mesmo tempo, ela olhou desconfiada.

— O que o senhor está fazendo?

Hermione não podia acreditar quão bom era tê-lo ao seu lado. Sua cabeça latejava e não havia uma parte sequer do seu corpo que não doesse. Mesmo assim, o calor que ele emanava aquecia seu sangue. Ela queria se aninhar naqueles braços. Desta vez não podia culpar a poção da Sra. Dolores pelo desejo ardente.

— Eu estava tentado garantir que a cidra fosse direto para a sua garganta e não que se espalhasse sobre o seu corpo e pela cama. — Ele apanhou o cálice e ergueu até os lábios dela. — Beba devagar.Já bati a cabeça antes, e é estranho, mas isso costuma causar enjôo — ele disse enquanto ela bebia lentamente.

— Acho que terei de ficar de cama por alguns dias.

— Vai. Algum problema? Será que os Hutton-Moore vão notar a sua longa ausência?

Hermione bebeu o último gole da cidra e, depois que ele colocou o cálice de lado, soltou todo o peso do seu corpo sobre o braço que a apoiava antes que ele pudesse se afastar. Tudo que queria era aproveitar a proximidade um pouco mais.

— Vou pedir para Sra. Potts me ajudar. Ela é ótima em inventar desculpas para mim, e eles estão acostumados a perguntar para a cozinheira o que estou fazendo, apesar de raramente o fazerem. Costumo passar a maior parte do tempo na cozinha. — O suave calor dos lábios dele moveu-se sobre a sua testa dolorida e a fez estremecer. — Obrigada por ter segurado Teddy — ela disse baixinho ao se virar para fitá-lo.

— Não foi nada. — Ele cedeu à tentação e roçou a boca sobre a dela, saboreando a maciez dos lábios sob os seus.

— Não acho que seja uma boa idéia.

— Concordo, mas vou roubar um beijo antes de ir embora

Hermione sabia que deveria negar, mas não teve forças para fazê-lo. A princípio ele se aproximou suavemente, experimentando apenas, até que sua boca se moveu lenta e carinhosamente sobre a dela. Quando a língua cutucou entre os lábios, ela os abriu com cautela. A língua invadiu a boca, explorando, estimulando, reivindicando-a com a intimidade do beijo. Apesar da dor, ela ergueu o corpo para se aproximar. Não conseguiu, contudo, conter um gemido suave. Ele sussurrou um palavrão e se levantou. Deixando-a com os doloridos
braços vazios e os lábios que ainda suplicavam pelo beijo.

— Preciso ir embora. — Harry se perguntou como conseguira dizer aquelas palavras quando todo seu corpo ansiava por mergulhar naquela cama. — Nos vemos amanhã. Descanse — ele ordenou enquanto saía apressado do quarto antes que perdesse todo o controle.

Ele quase saiu correndo do quarto, e Hermione suspirou. Não era certo beijá-lo, desejá-lo, como ela queria. Harry estava noivo de Gina e precisava de dinheiro para salvar a sua família. Hermione não tinha certeza se tinha algum. Assim como também tinha dez crianças para cuidar e poucos homens gostariam de assumir um fardo como esse. Como se isto não bastasse para espantar qualquer homem, ela ainda tinha os seus dons. Poucas pessoas fora da sua família conseguiam lidar bem com tais dons, assim como mostravam os vários casamentos desfeitos que pontuavam a árvore genealógica da família. Se permitisse que seu coração e seu corpo se rendessem a ele, ela poderia acabar com o coração partido e verdadeiramente desonrada.

Era uma ladainha conhecida e, como sempre, tinha pouco efeito sobre o seu bom-senso. Hermione fechou os olhos e sabia que deveria se preocupar mais com o triste destino que a rondava. Amanhã, talvez, ela se preocuparia.


(N/A): Heii gente, aqui estou eu de novo, primeiro beijo HH! Agora mais uns dois capítulos para... ops! Não posso dizer ainda! Espero que vocês gostem.

Muito obrigada a todos que estão lendo e principalmente que estão comentando, significa muito para mim!

LMidnight: A família de Harry é mesmo enorme!Pena que para salvar a família tenha que ficar longe de Mione :( Prometido e cumprido, não falei que ia rolar uns beijinhos para matar nossa vontade! Espero que tenha gostado do capítulo, bjoos flor!

Witchysha: Gostou da atualização? Pelo menos rolou uns beijinhos, hein? Espero sinceramente que tenha gostado, bjoos flor!

Reviews?