— Você é um idiota.
Ele falava baixo. Sua respiração embaçava a janela porque o vidro fora resfriado pela chuva. O quarto atrás dele estava escuro, de modo que ele era poupado de ver seu reflexo no espelho de corpo.
Ele bebericou seu drinque.
— Idiota, covarde... — Com um suspiro, acrescentou: — ...e mentiroso.
Cada vez em que a via, ele estava mentindo por omissão. Mentindo ao não lhe dizer quem era. Ele tinha consciência de que o que estava fazendo era errado, mas não podia chegar para ela e falar: "Sou o Pontas. Lembra de mim? O cara sobre quem o seu marido escreveu nas cartas. O tipo de homem que você disse achar um egoísta. Que pensa que é o presente de Deus para as mulheres. Destruidor de reputações. Pontas." Ela o havia ridicularizado em suas cartas e ele merecera cada palavra de reprovação. No lugar dele morrera o marido que ela tanto amara.
Rangendo os dentes e fechando os olhos, James pressionou a testa contra a janela. O que ele estava fazendo só podia ser classificado como manipulação e logro. Ele não tinha como se desculpar.
Na verdade havia uma desculpa, mas quem acreditaria nela? Quem acreditaria que ele se apaixonara por uma mulher que nunca havia visto? Que ele se apaixonara apenas lendo suas cartas? Ele mesmo mal acreditava nisso. Certamente ela jamais iria acreditar.
Cedo ou tarde teria de dizer a ela quem ele era. Mas quando? Como? Quando ela descobrisse, qual seria sua reação?
Impacientemente, deu as costas para a janela raiada por filetes de chuva e golpeou o copo alto contra a mesa. Ela viera com o apartamento insípido e mobiliado no qual estava vivendo temporariamente.
James sabia qual seria a reação dela quando lhe contasse. Fúria. Desprezo. Ira. Essas não eram as emoções que ele queria ver queimando naqueles olhos verdes quando eles o olhassem.
Entrou no banheiro e se despiu. As cicatrizes púrpuras que se emaranhavam pelo lado esquerdo de seu corpo eram exatamente o que ele merecia, pensou com ódio de si mesmo. Merecia coisas ainda piores por não ter se identificado quando se apresentara a ela.
Mas ele lhe diria na próxima vez em que a visse?
Não. De que valia fazer promessas que ele sabia que não iria cumprir? Ele não ia contar a ela. Ainda não. Pelo menos não até...
Deitado sozinho na cama, observou a água espalhar-se em padrões prateados nas janelas. Ele pensou nela. Pensou no beijo.
— Oh, Deus, o beijo — gemeu ele.
Ela tinha uma boca deliciosa. Quente, úmida, sedosa. Por trás dos limites que ela impusera, ele sabia que espreitava uma paixão ardente.
"Você sabe como sempre amei a chuva. Está chovendo hoje. Um daqueles aguaceiros inclementes que nos faz pensar que o sol nos desertou e esqueceu. Mas não estou apreciando a chuva. Estou deprimida. A chuva não me traz gotas felizes e reluzentes que dançam ao cair em poças. Ela me traz coisas pesadas, ameaçadoras, que deitam peso em meus ombros. Eu descobri a diferença. Chuva é uma coisa que deve ser compartilhada. Não há nada mais aconchegante do que buscar abrigo da chuva com alguém que você ama. Mas não há nada mais solitário do que suportá-la sozinho."
Enquanto James recordava dessa carta em particular, ele pousou a mão em seu corto e gemeu baixinho. Ainda saboreando o beijo, ele sussurrou para as sombras:
— Se você estivesse aqui comigo, Lily, eu compartilharia a chuva com você. Eu compartilharia tudo.
— Mas isso é loucura!
— Não quero discutir isso, Lene.
— Porque você sabe que está errada. Porque sabe que está apenas sendo teimosa.
— Não é teimosia, é bom senso — argumentou Lily.
Elas estavam lavando os pratos do café da manhã. A amiga de Lily era tão transparente quanto a película plástica que cobria as sobras de biscoitos. Mal entrara pela porta dos fundos, ela começara a cobrir Lily com perguntas sobre seu encontro com James.
— Não consigo acreditar que você não vai sair com ele de novo.
— Pode acreditar.
— Por que não vai?
— Não é da sua conta.
— É da minha conta, porque você é minha melhor amiga. ― Lily pendurou a toalha de pratos no suporte e se virou para encarar Lene.
— Lene, você não tem drama suficiente na sua vida para se manter ocupada? Precisa se meter com a minha? — Ela saiu da cozinha e seguiu até a escada. Lene estava bem atrás dela.
— Minha vida amorosa não precisa de ajuda. A sua está em crise.
Lily parou no degrau e girou nos calcanhares.
— Não estamos falando sobre uma "vida amorosa". Eu não tenho uma.
— É exatamente o que estou dizendo.
— E não quero uma — enfatizou Lily.
— Muito bem. Apague "amorosa" e insira "sexual". Vamos falar da sua vida sexual.
Lily voltou a subir a escada.
— Isto é repugnante.
Lene segurou Lily pelo braço.
— Repugnante? Repugnante? Desde quando uma vida sexual saudável é repugnante? Você já teve uma.
— Isso mesmo — disse Lily, puxando seu braço. — Com um homem que eu amava, meu marido, que me amava e me respeitava. Era como deveria ser. — Ao sentir lágrimas se formarem em seus olhos, Lily subiu os últimos degraus antes que a amiga as visse cair.
Os Evans já haviam saído para a igreja. Lily iria juntar-se a eles a tempo para o culto. Eles haviam levado Harry.
Quando Lene entrou no quarto de Lily, esta estava tirando seu robe. Ela tirou um vestido do armário e começou a colocá-lo. Um pouco desanimada, Lene sentou na beira da cama.
— Idealmente, é assim que deveria ser — concordou Lene. — Mas nem todas nós temos tanta sorte, Lily. Nós pegamos o que podemos.
— Eu não. O que eu tinha era perfeito. Eu não quero nada menos.
— Bem, olhe para ele! Você quase não vai encontrar ninguém mais perfeito que James Potter.
Apenas ouvir o som do nome dele fez a mão de Lily tremer enquanto tentava colocar um brinco na orelha. Hoje não estava sendo necessário muita coisa para deixá-la com os nervos a flor da pele, não depois de passar a noite toda chorando. Ver a foto de Sirius na penteadeira fez com que ela se lembrasse de sua traição. Ela jurara mantê-lo vivo em seu coração. E ela descobrira que sair com James Potter punha em risco sua determinação em honrar esse juramento.
Em oposição ao argumento de Lene, ela disse:
— Como posso saber que ele é perfeito? Não sei nada a respeito dele. Eu o conheci há apenas uma semana.
— Você sabe o quanto ele é bonito. Você sabe que ele é um cavalheiro, que dirige um carro bom... se bem que um tanto tedioso... que ele é ambicioso, que é gentil com idosos e crianças, que ele...
— Certo, certo, entendi. Descontando o fato de que ele é bonito, você poderia estar citando outros trinta homens. Eu não quero me casar com nenhum deles também.
— Quem falou em casamento? — berrou Lene. — Estou falando em diversão. Em sair junto. — Ela olhou para Lily com cara de safada. — Ir pra cama.
O beijo, o beijo, o beijo. Maldito seja aquele beijo intimidador, provocador. Por que ela o havia permitido? Por que não conseguia esquecê-lo? Por que tinha sido tão bom?
— Não seja boba. — Trêmula, enfiou lenços de papel na valise. Harry invariavelmente chegava da creche da igreja com mãos lambuzadas. — Nem penso mais nisso.
— Mentirosa — acusou Lene. Lily virou subitamente a cabeça para ela. — Você pode não pensar conscientemente nisso, minha querida, mas pensa nisso. Lily, você não pode simplesmente cortar fora a sua sexualidade porque outra pessoa morreu. Você não pode se livrar dela como um par de meias que não cabem mais. É uma parte de você.
— Eu não preciso mais dela.
— Eu acho que precisa.
— E por que acha isso?
— Porque você colocou brincos que não combinam. ― Incrédula, Lily olhou-se no espelho. Lene tinha razão. Furiosa, ela começou a fazer a troca.
— Isso não prova nada.
Lene levantou da cama e se aproximou da amiga.
— Sei que você amava Sirius. Não estou tentando te convencer a esquecê-lo.
— Eu jamais vou esquecer Sirius.
— Sei disso — concedeu Lene com seu tom mais gentil naquela manhã. — Mas ele está morto, Lily. Você está viva. E estar viva não é pecado.
Como se refutando as palavras da amiga, Lily disse:
— Vou chegar atrasada à igreja.
Lene alcançou Lily na porta da frente.
— Vai ou não?
— Vou o quê? — perguntou Lily enquanto checava seu cabelo uma última vez no espelho do vestíbulo.
— Sair com ele de novo?
— Não. Fim da discussão.
Lene apontou o dedo para Lily e a fitou com olhos estreitos.
— Você se divertiu — acusou Lene. — Sua filha da mãe, eu sei que você se divertiu.
Eu me diverti demais, pensou Lily.
— Ele me prestou um favor e retribuí. Agora estamos quites. — Enquanto empurrava a porta de tela, ela acrescentou: — Além disso, ele provavelmente não vai me convidar para sair novamente.
Ele convidou. Na quinta-feira daquela semana. Ela não tinha notícias dele até o telefone tocar na Petal Pushers. Como Lene estava ocupada com um cliente, quem atendeu foi Lily.
— Petal Pushers.
— Lily? Oi.
— Olá.
— Aqui é James.
Como se ele precisasse se identificar. Ela reconhecera imediatamente sua voz. Ao ouvi-la, uma fraqueza deliciosa se espalhou pelo corpo de Lily.
— Como você está? — perguntou, desejando que sua voz não soasse tão arfante.
— Bem. E você?
— Bem. Ocupada. Mal tive tempo de pensar esta semana. Os dias passaram voando. — Ela não queria que ele pensasse que ela passara dias sentada diante do telefone esperando que ele ligasse. Não entendia por que sentia a necessidade de fazer este jogo de corte.
— Como está Harry?
— Irritado. Acho que está nascendo outro dente.
Uma risada grave encheu o ouvido de Lily antes que ele dissesse:
— Então ele tem o direito de estar irritado.
Ela contorceu o fio do telefone em seus dedos nervosos. Ela deveria agradecer-lhe novamente pela noite de sábado. Não, isso iria lembrá-lo de seu encontro. E do beijo.
— Estou ligando porque...
— Sim?
— Bem, eu sei que está meio em cima, os Longbottom... Lembra de Frank e Alice?
— Claro.
— Bem, eles me convidaram para jantar amanhã à noite. Gostaria de vir comigo?
— Acho que não posso.
— Alice sugeriu isso — apressou-se em dizer. — O que quero dizer é: ela me perguntou se eu gostaria de levar alguém, e quando mencionei o seu nome, ela ficou toda feliz. Parece que vocês duas se deram bem.
— É verdade, gostei muito dela. Mas sexta à noite é um problema. Harry...
— Ele também está convidado. Alice disse que eles têm uma piscina rasa. Ela disse que as crianças... eles tem um filho, você sabe... poderiam brincar na piscina. — Ele riu de novo e Lily percebeu o quanto estava começando a gostar daquele som grave. — Nós sabemos o quanto Harry gosta de água.
— Eu não sei, James.
— Por favor.
Lily mexeu o maxilar enquanto tentava decidir-se. Deveria aceitar? Não. Porque ela não queria dar a impressão errada a ele. Por outro lado, ele poderia se lançar à conclusão errada se o bebê dela também estava sendo convidado. Não parecia uma noite que prometesse tornar-se romântica. E não seria falta de educação recusar o convite dos Longbottom? Ela realmente gostara do casal. Além do mais, era muito saudável cultivar relacionamentos com banqueiros. Enquanto empresária, este contato poderia vir a lhe ser útil no futuro. Ela e Lene poderiam algum dia querer se expandir, e então precisariam de um empréstimo.
Meu Deus, a quem ela estava tentando convencer?
O fato era que ela queria ir ao menos para provar que a noite de sábado, e especialmente o beijo, não haviam significado nada. James era novo na cidade e não conhecia muita gente. Ele que ria sua companhia. A situação era simplesmente essa.
Culpe Lene por todas suas lembranças eróticas exageradas daquele beijo. Fora Lene quem recentemente a levara para assistir a filmes cheios de pele, suor e calor. Culpe o fato de não ter sentido o toque da boca de um homem por quase dois anos.
Não significara nada. Então por que fazer tanto drama por causa disso? Por que simplesmente não sair e desfrutar da hospitalidade dos Longbottom?
— Parece divertido, James. Obrigada por convidar a mim... e a Harry. Ele e eu vamos adorar. Que horas?
— Sete da noite em ponto.
— Na verdade o relógio digital diz seis e cinqüenta e oito, mas estamos prontos.
Lily deu um passo para o lado e James passou através da porta de tela da frente. Ela esquecera o quanto ele era alto. Ou ele só parecia alto porque era tão musculoso? Bíceps impressionantes pronunciavam-se por baixo das mangas curtas de sua camisa polo. As calças marrons casuais teriam provocado Lene a fazer um comentário sobre seu bumbum, caso ela estivesse ali.
— Seus pais estão em casa?
— Não. Eles mandaram um abraço para você. Quase toda sexta-feira eles se encontram com amigos para jogar cartas e dominó. Eles alternam as casas.
— Foi por isso que você hesitou em aceitar meu convite para esta noite?
Um dos motivos, pensou Lily. Um motivo menor.
— Sim. É difícil conseguir uma boa babá. Quando elas estão com idade suficiente para se confiar nelas, não pensam em mais nada além de rapazes.
— Você pensava?
— No quê? Em rapazes? É claro — disse ela, jogando a cabeça para trás e rindo baixinho. Ele gostava da forma como os cabelos dela enrolavam em torno dos ombros. — Com uma amiga como Lene, eu não tinha escolha. Durante nossos tempos de escola fomos umas degeneradas.
— Vejo que as duas degeneradas têm se bronzeado.
O vestido de verão branco ressaltava a cor em sua pele. Ela hesitara vesti-lo porque deixava seus ombros e a maior parte das costas nus, salvo por uma rede de listras. Depois do banho, passara uma loção que concedia à pele bronzeada uma aparência reluzente.
— Durante as tardes — respondeu ela, ciente do olho castanho esverdeado de James se movendo sobre ela. — Quando chego em casa ainda resta sol suficiente para meia hora de bronzeamento.
— Está fantástica. — Sua voz soou um pouco rouca. Exatamente como soara antes dele a beijar.
— Harry está lá em cima — disse, afastando-se depressa.
— Eu a ajudo a descer com ele.
— Não se incomode.
— Quatro mãos são melhores que duas — disse ele enquanto a seguia escada acima. — No que diz respeito a Harry, não tenho certeza se é suficiente.
Quando chegaram ao quarto de Harry, o menino estava de pé no berço. Assim que viu James, apontou seu indicador, começou a pular para cima e para baixo e balbuciou alguma coisa que apenas ele podia entender.
— Acho que ele me reconheceu — disse James, satisfeito. Ele levantou o bebê do berço e o ergueu acima de sua cabeça. — Oi, campeão. Tem sido um bom monstrinho esta semana? Comeu mais cravos?
Foi enquanto ele estava segurando o bebê no alto que Lily notou a cicatriz no braço de James. Começava no pulso, contorcia-se em torno de seu cotovelo e desaparecia na manga da camisa. Quando James se virou, rindo, para dizer-lhe alguma coisa, percebeu para onde ela estivera olhando. Ele imediatamente ficou sério.
— Eu te disse que era feio. ― Os olhos de Lily subiram para o rosto dele.
— Você deve ter sofrido muito. ― Ele deu de ombros.
— Até que não. Pronta?
Ele carregou Harry enquanto ela levava a bolsa de fraldas, James olhara para a bolsa desconfiado enquanto Lily a punha no ombro.
— Não sei. Parece que estamos nos mudando — disse ela, rindo. — Mas aprendi a sempre sair preparada, e tenho certeza de que Alice vai entender. ― Ele a ajudou a fechar a casa.
— Temos de passar a cadeira de Harry do seu carro para o meu — comentou James enquanto saíam da varanda.
— É muito longe? Ele pode ir no meu colo?
— Hum-hum. Vamos fazer isto direito.
— Por que então não vamos no meu carro?
— Você vai deixar que eu dirija? ― Ela sorriu para ele e largou as chaves em sua mão livre.
— Como está indo a casa? — perguntou ela depois que Harry estava seguro em sua cadeirinha e eles percorriam por ruas iluminadas pelo crepúsculo.
James não recuara o banco do motorista para acomodar as pernas compridas. Ele dirigiu como fizera antes, com o pulso esquerdo segurando de leve o volante. Só que desta vez ele esticou o braço direito pelas costas do banco da frente. Seus dedos também estavam próximos de seu ombro esquerdo, embora sem tocá-lo.
— Fantástica. A sua idéia sobre a área de jantar na cozinha foi magnífica. Até o arquiteto gostou, e ficou chateado por não ter ele mesmo pensado nisso.
— É um terreno muito bonito. Seria uma pena não desfrutar ao máximo daquelas árvores.
— Foi por causa delas que escolhi construir ali.
"... que uma casa sem árvore não é nada. Eu preferiria viver numa casa como a da família Robinson do que num palácio cercado por nada além de concreto."
Frank e Alice Longbottom tinham personalidades igualmente efervescentes. Lily e Harry foram recebidos como reis no caos ruidoso de um lar feliz. Não que sua casa não fosse adorável. Era. Ela até sentiu uma pontada de inveja pelos cômodos graciosos que Alice fez questão de lhe mostrar. Alice sentia-se tão à vontade com Lily que aceitou sua oferta de ajudá-la na cozinha.
— James nos disse que você é viúva.
As mãos de Lily pararam enquanto ela rasgava a alface para uma salada. Estivera James falando sobre ela? Aparentemente Alice sentiu a tensão de Lily.
— Não sou fofoqueira, Lily. E James também não. Eu perguntei. Ele me disse, mas não entrou em detalhes. Se isso deixa você pouco à vontade, podemos conversar sobre outra coisa.
James não poderia ter entrado em detalhes porque não conhecia os detalhes sobre a morte de Sirius. Era curioso que ele não tivesse perguntado. Ela olhou para Alice.
— Sirius morreu um dia depois do nascimento de Harry.
— Meu Deus — disse Alice, pousando no balcão a bacia de salada de batata que acabara de tirar da geladeira. — O que aconteceu?
Lily contou a história.
— Não faz nem dois anos.
Alice olhou para o pátio onde os homens bebericaram cerveja enquanto vigiavam tanto o churrasco quanto Harry e Neville, o filho de Alice e Frank, que brincavam na piscina rasa. Enquanto ela observava, Harry dobrou a cintura e mergulhou a cabeça na água. Aparentemente ele conseguiu mais do que queria, porque subiu tossindo água. Instantaneamente James estava ajoelhado ao lado da piscina, enxugando o rosto do menino com uma toalha e administrando-lhe tapinhas nas costas.
— James e Harry parecem se dar muito bem um com o outro. Quando você o conheceu?
— Há apenas uma semana. Somos só amigos. Que molho você quer na salada? — Quando Lily se virou, Alice estava olhando para ela, achando graça. — O que foi?
Alice riu.
— Bem, se tudo que Frank sabe a respeito de James Potter for verdade, é melhor você tomar cuidado.
— Por quê? O que Frank diz?
— Que James é ambicioso, não conhece o medo, é incrivelmente audacioso nos negócios, e que até agora cada aposta dele vingou. Em outras palavras: ele geralmente consegue o que quer. — Ela sorriu para Lily. — Se toda a atenção que ele dispensou a você naquele banquete é indício de alguma coisa, eu diria que o homem está atrás de você. E se você não quiser ser pega, é melhor correr depressa. — Depois de pegar duas latas de cerveja na geladeira, ela passou uma para Lily. — Vamos. Acho que eles já devem estar com vontade de tomar outra.
James havia retirado Harry da piscina, e em seguida se agachado e colocado o menino entre seus joelhos. Ele estava enxugando o garoto com uma toalha, com tanta habilidade que parecia fazer aquilo todos os dias. Lily abriu a lata de cerveja e a passou para ele.
— Quando você quiser, eu assumo ele.
James levantou a cabeça para fitá-la com um sorriso de parar o coração. Ele bebericou a cerveja e lambeu a espuma com a ponta da língua.
— Estamos nos saindo bem, mas obrigado pela cerveja.
— Não tem de quê. — Desconcertada, ela se virou a tempo de ver Frank aceitando uma lata de sua esposa. Ele disse "Obrigado, querida" e deu um tapinha nas nádegas dela. Ele manteve a mão ali por um instante antes de recolhê-la. Alice se abaixou e plantou um beijo suave na coroa dos cabelos de Frank.
Lily nunca se sentiu tão solitária.
— A casa está escura — comentou James enquanto conduzia o carro de Lily para o caminho de acesso.
— Acho que mamãe e papai ainda não chegaram. — Era incomum que eles ainda estivessem fora tão tarde. Em geral as partidas de dominó não passavam das onze horas, e já era quase meia-noite. Ela suspeitava que seu atraso fora calculado.
— Frank e eu deveríamos ter desafiado você e Alice para uma revanche.
— Homens nunca derrotam mulheres em jogos de palavras.
— Como assim?
— Mulheres são mais intuitivas que os homens.
— Bem, a minha intuição é de que Harry está pesando no seu ombro.
— Desta vez a sua intuição está certa.
Harry, que adormecera no sofá da sala de estar dos Longbottom, não se deixara acordar para ser trazido. Para prevenir uma birra que entraria na História, James quebrara sua própria regra de segurança e deixara-o viajar no colo de Lily em vez de amarrado em sua cadeirinha.
James saltou do carro e o contornou para ajudar Lily.
— Está com a sua chave na bolsa? — perguntou ele.
— No bolso lateral.
James encontrou a chave antes que eles alcançassem a porta da frente. Manipulando a chave, a bolsa de mão e a pesadíssima bolsa de fraldas, ele mal conseguiu destrancar a porta e abri-la.
— Obrigada, James. Eu me diverti muito.
— Vou entrar com você. Eu não deixaria você e Harry entra rem sozinhos numa casa vazia a esta hora da noite.
Parecia não haver sentido em discutir, embora ela estivesse se sentindo particularmente desconfortável por deixá-lo entrar na frente e precedê-la através da casa escura e escadaria acima. Ele já havia ligado o abajur da cômoda e Lily entrou no quarto de Harry. Ela abaixou o menino adormecido para o berço.
— Você consegue tirar a roupa do Harry sem que ele acorde?
— Acho que vou deixar que ele durma com a camisa. Se ele acordar por completo, vai pensar que é hora do café da manhã.
James soltou uma risadinha enquanto pousava a bolsa de fraldas na cadeira de balanço ao lado do berço. Observou, fascinado, os dedos capazes de Lily moverem-se agilmente para remover os sapatos e meias de Harry.
Sem acordar o menino, Lily retirou seus shorts e sua calça plástica. Automaticamente estendeu a mão para as linguetas adesivas que prendiam a fralda descartável. Ali suas mãos pararam.
Lily ficou extremamente consciente do homem de pé ao seu lado. O quarto pareceu encolher, mal deixando espaço para os dois ao lado do berço. A atmosfera se adensou com a tensão. O ar estava pesado e incomodamente quente, quase escaldante. A casa pareceu ficar ainda mais silenciosa.
Era estúpido. Ridículo. Harry era um bebê, sexualmente não desenvolvido. Mas o homem ao lado dela era desenvolvido, e ela se sentiu constrangida em remover a fralda de Harry com James tão perto. Olhar juntos para um menino nu seria uma intimidade entre eles, uma intimidade que Lily não queria gerar.
Ele pareceu notar que os dedos ágeis ficaram subitamente desajeitados e ineficazes, porque pigarreou e se afastou.
Lily trocou a fralda molhada de Harry em tempo recorde. Miraculosamente, ele não acordou. James estava de pé, emoldurado pelo vão da porta do quarto, quando ela se virou depois de cobrir o menino com um lençol fino e desligar a luz.
— Dormindo direitinho?
— Sim. Ele teve uma noite e tanto. Acho que vou comprar uma piscina de bebê para ele.
Ela desceu a escada na frente dele. Sentia um aperto no peito que não conseguia entender. Seu estômago estava embrulhado. Sentia um impulso insano de falar alto para que não deixar que o silêncio da casa escura os sufocasse.
Um degrau gemeu em protesto contra o peso de James. Ele riu baixo e sussurrou.
— Você tem um degrau rangendo.
— Infelizmente, acho que são vários. — Ela suspirou enquanto lembrava de um problema que nunca estava muito distante de sua mente. — O sonho dos meus pais era vender esta casa depois que papai se aposentasse. Eles queriam comprar um daqueles trailers de luxo e viajar por todo o país.
— Por que não fizeram isso?
— Sirius morreu. — James não disse nada, embora ela tenha sentido uma hesitação em seu passo antes de pisar no degrau seguinte. — Eu me tornei um fardo para eles novamente.
— Tenho certeza de que eles não a vêem assim.
— Mas eu vejo. — Ele havia parado. Ela parou de andar na frente e se virou para fitá-lo. Ele estava parado vários degraus acima dela.
— Por que não a vendem agora?
— Não querem que Harry e eu vivamos sozinhos. Além disso, o mercado imobiliário nesta parte da cidade não é tão bom quanto já foi. A não ser que a vizinhança seja reestruturada, temo que eles não consigam muito dinheiro com a venda.
— Isso a preocupa, não é verdade? Não quer que eles se sintam responsáveis por você. ― Ela sorriu com tristeza.
— Apenas lamento que eles não possam realizar seu sonho por causa de mim.
Eles se entreolharam. O silêncio caiu como a cortina de encerramento de uma peça. Embora James tenha acendido uma lâmpada na cômoda, o restante da casa estava sombrio.
Um lado do rosto de James estava iluminado, o lado direito. Ela podia sentir a tensão no corpo dele, embora não estivessem se tocando. Os cabelos negros e arrepiados deitavam sombras errantes sobre sua face. Magro, moreno e intenso, ele parecia o protagonista atormentado de um romance gótico. Ele não impunha qualquer ameaça física, mas mesmo assim parecia perigoso. O que deveria ser sinistro era fascinante.
Ele a fazia tremer.
— Vou acompanhar você até a porta — disse Lily, ofegante, e deu as costas para ele.
Lily desceu mais um degrau antes de sentir os dedos de James em seus cabelos, fechando-se num punho que a segurou e capturou. Um leve gemido de protesto subiu pela garganta de Lily, mas ela estava indefesa. O punho fechou com força em torno do emaranhado de cabelos. Girou uma vez, aumentando a firmeza com que detinha Lily. Firme e implacável, James puxou gradualmente a cabeça de Lily para trás, até ela ter-se virado no degrau.
Com seu outro braço, James a levantou enquanto descia a cabeça até Lily. Ele selou sua boca na de Lily, vigorosa e implacavelmente. Ele não desceu um degrau para se juntar a Lily, mas em vez disso levantou-a e puxou-a para si.
As mãos de Lily fizeram tentativas fúteis de empurrá-lo, mas o peito de James parecia uma parede de tijolos. O coração de Lily estava acelerado, cada batida ecoando alto em sua cabeça. Ou seria o coração dele? Não sentia nada além da pressão firme dos lábios.
Quando ele afastou o rosto, zangado, ela arfou:
— Não, James, por favor.
— Abra a boca.
— Não.
— Beije-me.
— Não posso.
— Pode sim.
― Não, por favor.
— Do que você tem medo?
— Não tenho medo.
— Então me beije. Você sabe que quer.
Com sua boca, James mais uma vez clamou pelos lábios de Lily. Obedecendo a uma vontade mais poderosa do que a sua, ela entreabriu os lábios. Então, como fizera antes, a língua dele estava ali, procurando e encontrando a sua. James provou por completo a boca de Lily, até os dois finalmente se afastarem, arfando por ar.
— Não, não — disse ela, sem sequer reconhecer aquela voz arfante como a sua.
— Não posso acreditar que estou beijando você.
— Por favor, não.
— E que você está me beijando de volta.
— Não, não estou.
— Ah, mas você está, meu bem.
A boca de James cobriu o pescoço de Lily com beijos pequenos e suaves, parando para plantar beijos mais quentes em sua base sensível.
— A sua pele... Meu Deus, a sua pele!
Com a mão ele acariciava suas costas nuas. Seus dedos deslizaram entre as alças do vestido e puxaram-na para mais perto dele. Contra sua barriga, Lily sentiu o que ela disse a si mesma que era a fivela do cinto dele.
Apesar de sua intenção de resistir, ela se mantinha abraçada a ele. Naquele momento ele era a única realidade que restava no mundo. Nem mesmo lembrando como eles haviam chegado ali, ela descobriu seus dedos enroscados nos cabelos de James. E, mais uma vez, ela respondia ao beijo de James com a boca de uma libertina.
— E seria muita petulância imaginar que você me deseja?
— James.
— Porque eu a desejo.
Alarmada, ela libertou a boca dos seus beijos escaldantes.
— Não. Nem ouse pensar...
Ele pôs as mãos em concha no rosto de Lily.
— Não apenas sexo, Lily. Eu desejo mais do que sexo. Sei que isto é repentino, mas eu me apaixonei por você.
Huntsville, Alabama
Eles haviam comprado uma casa para comemorar seu quinto aniversário de casamento, e hoje era o dia da mudança. A casa estava uma bagunça. Havia caixas empilhadas por toda parte.
— Como conseguimos acumular tanto lixo? Você terminou de limpar o sótão?
Quando a esposa do contador não recebeu resposta para nenhuma das duas perguntas, ela virou a cabeça para ver o que estava preocupando seu marido. Ele estava vasculhando uma pilha de fotografias, estudando cada uma intensamente.
— O que é isso, querido?
— Hum? Ah, só umas fotos que tirei no Cairo.
Ela estremeceu e caminhou até ele. Fechando os braços por trás em torno dos ombros dele, ela se curvou para olhar as fotos sobre seu ombro.
— Cada vez que penso no quanto estive perto de te perder, sinto um arrepio. Quantos dias entre a licença que você tirou e o atentado terrorista?
— Três — respondeu, soturno.
— Quem é esse com você? — perguntou ela baixinho, olhando para a foto que ele estava segurando. Ela sabia que ele freqüentemente pensava nos homens que tinham servido ao seu lado na guarda da embaixada, especialmente naqueles que haviam morrido.
— O da esquerda era Sirius Black.
— Era?
— Não sobreviveu.
— E o outro?
O marido sorriu.
— O bonitão é James Potter. Formado em Harvard. Família distinta da Filadélfia. Ele era um conquistador incurável. O apelido dele era Pontas.
Ela riu.
— Nem preciso perguntar por quê.
— Ele tinha um harém que até um sultão invejaria.
— Ele sobreviveu?
— Foi resgatado, mas estava gravemente ferido. Não sei se sobreviveu.
— Vai guardar a foto?
— Acha que eu deveria?
— Black era casado?
— Era. Por quê?
— Se a foto não for tão importante para você Remus, por que não a manda para a viúva? Ela provavelmente iria gostar de tê-la. Vocês todos parecem tão felizes, como se estivessem se divertindo a valer.
— O Pontas tinha acabado de contar uma das famosas piadas indecentes dele. — Remus beijou a esposa. — Boa idéia. Vou mandá-la para a viúva de Black. Se eu conseguir localizá-la.
Remus jogou a foto na caixa na qual estavam guardando coisas que levariam para sua casa nova.
Ninha Souma: Oii Ninha, nesse cap mais um pequena demosntração do que vem pela frente quando eles ficarem juntos ;D Realmente o Jay está fazendo besteira, até ele concorda com isso, ele tem plena consciência de que Lily pode ficar magoada, mas vamos esperar para ver como ele resolve isso, se é que ele vai conseguir. Estou feliz que você tenha gostado do cap anterior e do vestido preto ;D espero que tenha gostado desse também. Beijos
dudi's akara: Oii dudi's, é o tão esperado beijo de Jay e Lily aconteceu, e nesse cap mais um pouquinho de J&L. A seu apedido dudi's o início desse cap está focado nos pensamentos de Jay, sei que é pouquinho, mas espero que tenha gostado. Quero aproveitar e agradecer o cometário que você deixou em A Reconquista, obrigada pelos elogios, fico realmente muito feliz que você esteja gostando das minhas fics e torço para que goste das próximas também. Beijos
