Saint Seiya não me pertence, mas sim ao tio Massami Kurumada, pois se me pertencesse...
Galera linda! Desculpem a demora, era pra sair no final de semana, mas infelizmente não consegui! Mas estou aqui trazendo novidades essa semana! Novas emoções! Espero que gostem e continuem comentando! Mil Bjs no coração de todos 3
Capítulo 6 - Transferência
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Realmente era estranho tocar a campainha daquela que fora por tantos anos a sua casa... De alguma maneira lhe parecia até mesmo surreal. Viu-o abrir a porta delicadamente. Sua aparência estava boa, não demonstrava qualquer tipo de abatimento.
- Olá Shaka, entra! – Seu sorriso era cortês como sempre fora. Não sabia se era a distância, mas era impossível não reparar naquela beleza única, encantadora do ariano.
- Olá Mu, obrigado! Não quero incomodar, vim somente buscar as coisas... – Em verdade estava um tanto sem jeito com aquela situação. Ficou de pé, próximo à parede da sala.
- Ok, é sábado e você deve ter compromisso. Um momento, já volto com as caixas. – Não sabia bem dizer o porquê, mas uma pontada de ciúmes em seu coração surgiu somente em pensar na possibilidade de que Shaka tivesse certo tipo de compromisso...
Buscou as caixas de papelão que havia guardado no quarto de visitas, e levou-as até o seu dono, que as recebeu de bom grado, com um agradecido e sincero sorriso no rosto.
- Muito obrigado Mu, já está tudo organizado! Realmente nem sei como te agradecer!
- Não tem de quê, foi mais prático para nós dois assim. Sabe, eu achei o livro do Geertz nas suas coisas, nem imaginei que o guardava ainda. – A situação era realmente desconfortável e tentava suavizá-la de alguma maneira, se realmente fosse possível.
- Eu jamais poderia me desfazer dele... Ele traz muitas lembranças... – Com a cabeça baixa, sorriu nostálgico. – Mas e você, está bem?
- Estou sim, adaptando-me á nova realidade... – Sua voz era mais firme e resoluta que de costume, causando certo estranhamento ao outro.
- É bom ouvir isso! Se precisar de qualquer coisa, não hesite em me procurar. Você sempre poderá contar comigo! – Era como se buscasse demonstrar uma espécie de compensação sobre o que tinha feito. – E aí, já tem planos?
- Sim, penso em me dedicar mais à meus artigos, com intuito mesmo de publicá-los. Talvez seja essa a hora.
- Claro, seria muito bom, você é talentoso e acredito que farão sucesso. Torço por você. – Cada vez mais suas vãs justificavas pareciam mais injustificáveis... – Olha Mu eu queria te dizer que...
- Não diga nada Shaka! Não quero discutir esse assunto! Entendi perfeitamente seu ponto de vista, sua decisão. Não temos mais 20 anos... Essa é a realidade, você achou melhor nos separarmos e assim será. Mais nada! – Aquelas palavras lhe eram sim doloridas, mas era a única maneira de sentir-se protegido daquelas emoções que tentavam dominar-lhe desde que fora abandonado.
- Desculpe Mu, realmente desculpe. Bem, preciso ir. – O olhar tão azul tornou-se opaco imediatamente e encheram-se de pranto contido. Baixou a cabeça timidamente e dirigiu-se até a porta, saindo pela mesma e batendo-a sem seguida.
Por um momento arrependeu-se de tudo o que tinha feito. Vê-lo tão bem, tranquilo, belo... Fazia seu coração apertar, encolher... Sentia em seu âmago uma vontade quase incontrolável de retornar, dizer que estava equivocado e pedir para voltar... Mas simplesmente não o fez... Deixou o prédio com pesar, sentando-se ao volante e respirando profundamente.
Ficou um bom tempo parado, não se importava com os transeuntes. Lamentava feito uma criança... Sua cabeça estava mais confusa que nunca. Permitiu-se sentir por completo. Chegando à pensão, deixou as caixas intactas num canto e decidiu dar uma volta.
A cidade estava vazia, cinzenta, melancólica. Sentia o vento frio bater em seu rosto enquanto caminhava. Recostou-se nas grades do Viaduto Santa Ifigênia, contemplando o abstrato, o inexistente. Percebeu que por mais que doesse, já não poderia mais voltar atrás... Teria que lidar com a consequência de seus atos... Não era fácil tomar para si a própria responsabilidade, mas era necessário...
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Novamente o esperava. Novamente segunda-feira. De algum modo ficara feliz que ele decidira voltar. Sabia que ele precisava e por mais que cogitasse, não conseguiria procurar mais ninguém. Escutou a porta se abrir.
- Boa tarde Shaka, sente-se por favor! – Sua expressão era tão serena, quase fria.
- Boa tarde Kamus. Primeiramente gostaria de me desculpar pela atitude da semana passada. Eu acabei reproduzindo o mesmo que ele tinha feito comigo. – Não podia negar que estava extremamente envergonhado.
- Não se preocupe. Você sabe que eu posso aguentar Shaka. O que importa é que você voltou.
- Algo me diz que eu sempre vou acabar voltando... Bem, vamos ao que importa. Ele novamente tentou entrar na minha vida pessoal, mas dessa vez de maneira mais sutil, dizendo fantasiar sobre o que se passava comigo. – Mantinha a cabeça baixa, as mãos inquietas.
- O que ele falou exatamente?
- Ele disse que imaginava que estava me divorciando... Que eu era alguém muito especial e que portanto, não deveria ter sido deixado, mas sim que eu estava deixando alguém...
- Shaka, ele está tentando...
- Eu sei o que ele está tentando fazer Kamus, eu sei...
- Se você sabe, porque parece tão afetado com isso? – Algo na fala daquele paciente do loiro havia se mesclado às emoções do terapeuta de forma perigosa.
- Sabe Kamus, sábado eu fui buscar o restante das minhas coisas e... E o Mu deixou claro que não era possível nenhum tipo de conversa entre nós. Que estava feito. De alguma maneira me senti tão só...
- Shaka, interessantemente pouco antes de ser sentir só e rejeitado pelo seu ex-companheiro, ouviu que era alguém que não deveria ser deixado... Pense em que ponto esse seu sentimento de ruptura tão intenso não foi reforçado pelo fato de seu paciente te dizer que você não é uma pessoa que deva ser abandonada ou rejeitada.
-Faz sentido Kamus, não posso ignorar... – Ria nervosamente, passando a mão pela própria franja. – Talvez tenha sido isso mesmo, me deixei influenciar pelas palavras de Ikki em um momento de vulnerabilidade pessoal... Afinal eu sei muito bem o porque saí de casa, minhas razões são verdadeiras.
- Shaka, você já pensou em encaminhá-lo? Eu conheço uma pessoa que poderia lidar muito bem com esse caso e ...
- Não! Eu não preciso disso. Foi só um pequeno deslize. É minha capacidade profissional que está em jogo! – Instantaneamente fitou-o com determinação.
- Não se cobre tanto. – Por mais que não quisesse, admitia a si mesmo a culpa pela atitude tão autocrítica do outro.
- Eu faço isso há tanto tempo, posso lidar com essa situação, eu sei. Ele é uma pessoa difícil e finalmente conseguimos estabelecer o vínculo. Eu sei que posso!
-Você sabe que todos somos passíveis desse tipo de questão. Há algo em você que o liga à série emocional dele, ele transferiu* Shaka. E apesar de isso ser bom, penso que o tipo de relação transferencial que ele começou a desenvolver com você possa ser perigosa. – O caso começava a ficar mais claro em sua cabeça.
- Eu não vou encaminhá-lo a outra pessoa, não por agora. Eu dou conta! – Tudo o que não precisava agora era de uma situação que expusesse suas fraquezas. Duvidar da própria capacidade profissional era algo com o que realmente não estava preparado para lidar...
- Tudo bem, mas venha aqui. Será importante para uma condução mais segura do caso.
- Eu virei Kamus, eu virei.
- Shaka, preciso perguntar. Ele por acaso descreveu alguma vez como era essa noiva falecida?
- Sim, ele disse que ela era loira, com volumosos cabelos. Branca, bem magra e elegante. De aparência frágil e delicada... Sim, era isso. – Por um instante percebeu onde o outro queria chegar... Ele próprio possuía algumas semelhanças físicas com a tal moça.
- Você entendeu onde estou querendo chegar?
- Sim, é transferência de amor...
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- Tio, eu saí da sua casa há três dias e o senhor já está aqui de novo?
- Por acaso minha visita te incomoda filho?
- Claro que não tio, eu gosto quando o senhor vem. Mas não precisa se preocupar tanto! Estou bem! – Tomou uma das mãos do mais velho entre as suas carinhosamente. – Vem, vamos sentar! – Acomodaram-se tranquilamente no sofá maior?
- Está mesmo bem Mu? – Seu olhar não disfarçava a preocupação e afeto pelo menor.
- Estou sim... Realmente pensei que seria pior... Eu sinto sim, muita falta dele. Mas pelo menos por enquanto dá pra suportar.
- Mu, você tem que seguir seu caminho!
- Eu sei tio, mas não posso negar que eu ainda o amo. Nem sei se um dia deixarei de amar... Estando distante eu posso perceber melhor onde nós erramos...
- Não o justifique!
- Não o condene... Pra ele viver não é tão fácil, tão cômodo assim. Simplesmente não posso culpa-lo. – Seu olhar era paciente e tentava contagiar os róseos tão impetuosos à sua frente.
- Eu pensei em ligar pra ele, realmente acho que deveria conversar com ele...
- Sim, ligue pra ele, mas não seja duro, não o julgue. Lembre-se de tudo o que ele fez por mim.
- Mas Mu...
- Por favor tio! Dê apoio a ele, deve estar confuso, eu sinto isso.
- Mesmo depois de tudo, você continua cuidando dele! – Não conseguia não se irritar com a tranquilidade de seu sobrinho. Não gostava de vê-lo ceder daquela maneira.
- E eu sempre vou cuidar! Ele não tem mais ninguém, você sabe tio. Sou a única pessoa que restou pra cuidar dele.
- Mas ele não cuidou de você!
- Cuidou sim, tanto que até me deixou a casa. Ele não se cansa de falar que eu devo procura-lo se precisar de qualquer coisa... E eu sei que é sincero.
- Sou eu quem cuidará de você agora! – Segurou forte o ombro do sobrinho, reafirmando sua imposição sobre ele.
- Mesmo separado dele, ainda tem ciúmes né tio! – Riu divertidamente do gesto autoritário do outro. – Não estamos juntos, mas não somos inimigos... Entendo que foi isso que ele quis evitar. Faça o que estou te pedindo, por favor!
- Faço se você aceitar o que vim te propor.
- Não gosto de barganhas, mas estou disposto a ouvir.
- Logo chegarão as férias escolares, e você estará bem tranquilo. Dohko terá que voltar à China, então queria você fizesse uma viagem comigo. – Seu olhar tornou-se mais brando e acolhedor.
- Viagem? Pra onde?
- Tibet. Acho que chegou a hora de conhecermos nossa origem, entrar em contato com essa parte de nós. Foi de lá que vieram nossos antepassados... E eu queria muito que você fosse comigo.
- Tio, eu acabei de me separar e...
- Não se preocupe com dinheiro... Pensei em usar o dinheiro do aluguel da casa de seus pais... Você nunca quis esse montante, eu o venho guardando todos esses anos... Acho que faria muito bem a você, a nós! – Suas palavras eram súplices, assim como seu róseo olhar.
- Sim, tio. Concordo. Será bom, muito bom! É esse o momento! Vamos sim! – Abriu um lindo sorriso, abraçando-o com ternura. – Não sei o que seria de mim sem o senhor!
- Eu é que não sei o que seria de mim sem você filho! – Acarinhava os cabelos de seu menino, lembrando-se de quando ainda respondia realmente por esse título. Era difícil segurar a emoção!
*[A transferência é o deslocamento do sentido atribuído a pessoas do passado para pessoas do nosso presente. Esta transferência é executada pelo nosso inconsciente. Para a teoria freudiana, esse fenômeno é fundamental para o processo de cura. Na Psicanálise, a transferência é um fenômeno que ocorre na relação entre o paciente e o terapeuta, quando o desejo do paciente irá se apresentar atualizado, com uma repetição dos modelos infantis, as figuras parentais e seus substitutos serão transpostas para o analista, e assim sentimentos, desejos, impressões dos primeiros vínculos afetivos serão vivenciados e sentidos na atualidade. Esse sentimento pode ser filial, conjugal, de amizade ou também outras variáveis. O manuseio da transferência é a parte mais importante da técnica de análise.]
Espero que estejam gostando e continuem comentando! Bjs 3
