Parte 7
O grito veio de algum ponto da escuridão. A voz inconfundível exalava desespero e certa urgência. Bright e Stela correram. Em seu caminho, Covarde vinha correndo na direção contrária – mas afinal, ele era um covarde...
Foi só então que Bright parou e se perguntou "Por que diabos eu estou correndo nessa direção?". Afinal, era, claramente, a direção onde o risco se encontrava. Ele não era um segurança ou vigia, muito menos um mago, e quem quer que fosse, estava disposto a feri-los para conquistar seu objetivo. E ferimentos mágicos não são como ferimentos comuns. O Bibliotecário que o diga...
Mas Stela não parou. "Ela é doida, ou muito emotiva..." pensou. Mas ela não dava sinais de parar, a não ser quando diminuiu, virou-se e gritou:
-Você vai ficar parado aí a noite toda?
Bright queria mandar uma resposta, mas ela deu-lhe as costas e continuou a correr.
"Deixe a suicida ir." Diziam seus instintos. "A vida é dela, o problema é dela. Você não tem que se meter com magos. É burrice! Volte pro quarto e se esconda até o dia raiar. Não, melhor, corra na mesma direção que Covarde. Ele sempre sabe para onde está indo, de qualquer forma. Onde quer que o gato vá, é mais seguro naquela direção!" gritava sua mente.
Mas suas pernas não obedeciam. "Vá para a frente ou fique parado, mas você não vai voltar!" diziam elas. Por quê? Não tinha motivo para ir até o local da briga. Ele era amigo do Bibliotecário, mas ele não era um herói. Heróis saltam como loucos na direção do perigo, mais ou menos como Stela, só que melhor armados. Magos, ladrões, pessoas comuns e covardes profissionais – como ele – preferiam correr na direção oposta e rezar a algum deus para que aquilo funcionasse. Por que, então, tinha a vontade súbita de correr na direção da aventura, emoção e todo tipo de coisas perigosas das quais, provavelmente não sairia sem alguns membros faltando – ou com alguns membros ou tentáculos a mais, se a experiência dele com magia valesse de alguma coisa...
"Droga!" disse, e finalmente correu atrás de Stela, cujas costas já haviam sumido na escuridão.
Stela não esperava encontrar uma cena como aquela. O Bibliotecário no chão com um vulto encapuzado tentando esfaqueá-lo. O vulto era baixo e estava coberto com o capuz, mas sua mão estava descendo em direção ao pescoço do Bibliotecário, mesmo com o orangotango usando as duas poderosas mãos para segurar o adversário. Sem saber o que fazer, Stela olhou em todas as direções. Nas histórias que seu pai contava, sempre havia uma barra de ferro, uma espada ou adaga caídas no chão. Dessa vez não havia nada.
Claro, não sendo uma heroína propriamente dita, Stela não possuía a incrível habilidade que eles tinham que utilizar qualquer material, por maior ou mais pesado que seja, como arma. Além disso, ela não carregava espadas ou adagas escondidas em locais no mínimo duvidáveis de se encontrar qualquer coisa por motivos de saúde do portador, como os heróis geralmente faziam, o que dificultava a situação. Além disso, os vilões, Guardas, além de qualquer tipo de pessoa que não lutasse honestamente, tinha inúmeros métodos para resolver uma situação complicada, mas Stela não tinha a malícia necessária, e a única coisa que pôde fazer foi gritar:
-Saia de cima dele seu criminoso imundo!
Claro que isso não ajudou em nada. Na verdade, o criminoso deveria ter experiência o bastante para saber que ela não faria nada...
...Ou estar bem acompanhado.
-Fique paradinha, moça. – Disse uma voz malandra atrás dela. Stela já fora assaltada por criminosos licenciados, mas de alguma forma sentiu um tipo diferente de ameaça naquela voz. Não era tão gentil. Era bem mais cruel. E a espada perto de sua garganta parecia realmente afiada.
-Quem são vocês, o que querem?
-Nada que você possa nos dar, então fique caladinha. Se bem que, pode ser que você tenha algo que eu... – Começou a voz, mudando para um tom lascivo. – Argh!
Bright tinha a malícia que Stela não tinha, e tinha parado, no caminho, para pegar um exemplar de "Feitiços para enviar/trazer criaturas para/de outras dimensões", - um volume de cinco mil páginas com capa dura e revestida e uma blindagem de aço por toda a borda que trancava o livro, que só podia ser aberto com o cadeado certo, que só podia ser adquirido na Biblioteca através de comprovante de término de curso – que poderia muito bem ser usado como arma – e de fato foi, num ataque assumidamente covarde por parte de Bright, que se esgueirou até atrás de seu oponente e o golpeou na nuca com a borda de aço do livro. Sem parar para se desculpar, Bright correu e chutou o vulto encapuzado na bica do estômago. Ele nem pareceu sentir, mas olhou para Bright com olhos profundos e enfurecidos.
-Você é o próximo, moleque! – Gritou a voz rouca de um velho.
Nesse momento, o bibliotecário chutou o velho numa área há muito não usada. O vulto prendeu a respiração com a dor e curvou-se à frente segurando a área danifica e soltando a faca. O Bibliotecário chutou-o para longe. Um orangotango não é um animal que alguém gostaria de irritar, e o Bibliotecário estava muito irritado, de forma que avançou com as unhas como garras na direção do oponente encapuzado. Os dois vultos negros se engalfinharam na escuridão e começaram a rolar pelo chão, na direção de uma das prateleiras.
-Volte aqui! – Gritou Stela.
O homem que a ameaçara estava correndo em direção às estantes. Stela segurava a espada e correu na direção do homem desesperadamente.
-Volte aqui você! – Gritou Bright, tentando alcançá-la antes que entrasse no labirinto de estantes.
Um grito ininteligível foi ouvido e um flash de cor octarina voou e bateu numa estante próxima, causando uma luz que doía ao bater nos olhos, que fez Brigh parar. A voz pronunciara as palavras mágicas era de um velho e o vulto segurava um cajado mágico, o que provava que era um mago formado.
-Vamos embora, velho, o mago chegou! – Gritou o segundo vulto, que abaixara-se rapidamente permitindo ao feitiço passar a centímetros de sua cabeça – o que foi uma atitude sensata, considerando que parte da estante começou a ganhar escamas.
O mago aproximou-se andando num passo rápido, com o cajado apontando ora para um, ora para outro, varrendo todos os presentes na cena.
"Eu sabia! É agora que todos nós somos transformados em insetos gigantes, sapos, vacas, ou qualquer coisa parecida! Eu sabia que não devia ter vindo!" pensou Bright, e fechou os olhos para não ver o que iria acontecer.
Stela levantou os braços no que deveria ser um gesto universal de paz, se ela não estivesse com uma espada em uma das mãos. Os olhos do mago brilharam quando se arregalaram de pavor e ele começou, imediatamente, a proferir palavras mágicas enquanto balançava o cajado.
-... – Gritou o vulto que tinha se engalfinhado com o Bibliotecário no chão e agora voava pela Biblioteca. Mas ao invés de cair de queixo no chão, o vulto, numa demonstração heróica de habilidade, direcionou o vôo e caiu sobre o mago, deixando sua capa e capuz caírem e arrancando o cajado das mãos do mago, que, com o susto, caiu no chão embaixo do vulto, que puxou alguma coisa de dentro das roupas rasgadas do mago.
-NÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃOOOOOOOO! – Gritou o mago, tentando segurar o livro, mas superado pela força hercúlea que fora capaz de rivalizar com a de orangotango.
-PEGUEI! – Gritou o velho seminu, segurando o mago no chão com um pé e erguendo o livro em uma das mãos.
-Ótimo, agora vamos embora! – Gritou o outro vulto.
-COHEN O BÁRBARO, O QUE VOCÊ ESTÁ FAZENDO AQUI?
A cena paralisou enquanto todos olhavam para a garota que dera o grito. Stela estava com a face vermelha de raiva.
-EU DISSE QUE QUERIA VIVER SOZINHA! SERÁ QUE VOCÊ NÃO PODE RESPEITAR ESSE ÚNICO DESEJO MEU?
Bright, de repente, achou melhor repensar suas noções de temores. Por algum motivo, uma versão verdadeiramente furiosa de Stela subiu acima de Dragões e Criaturas Das Dimensões Calabouço – mas ainda não acima de um Bibliotecário Verdadeiramente Furioso e uma espada mágica dentro da Biblioteca.
-Ei, eu conheço você de algum lugar! – Disse Cohen, a massa de músculos e pelancas, incapaz de se lembrar de onde conhecia a garota.
-Deixe os encontros amorosos para depois, vamos! – Disse o outro vulto encapuzado, que tropeçou na própria capa enquanto corria para algum lugar que, Bright tinha certeza, não era a saída. O homem estava claramente perdido.
-Ei! A saída é para lá!
Bright não sabia por que estava indicando a saída. Talvez por que queria aqueles estranhos perigosos fora da sua Biblioteca o mais cedo possível.
Manhoso levantou-se, revelando seu rosto ao jogar a capa fora e, por algum motivo, acreditou no rapaz.
-Obrigado! – Disse, e voltou a correr.
Cohen tentou segui-lo, mas um vulto saltou por cima de Cohen e puxou o livro que o bárbaro segurava acima de sua cabeça. O Bibliotecário correu com o livro na direção das estantes.
-Droga! – gritou Cohen, e virou-se na direção do Bibliotecário. – Volte aqui, seu maldito Macac... – Eles nunca ouviram o final da sentença, pois Cohen atravessou a barreira de estantes e entrou num espaço diverso do deles.
-O livro! O livro! – Gritava Manhoso, enquanto, deixando que a cobiça falasse mais alto, corria em direção às estantes.
-Meu Livro! – Disse o mago, que gritou uma ladainha incompreensível para Manhoso e Estela, mas que Bright reconheceu, dado seu extenso conhecimento de línguas mágicas, adquirido em anos de trabalho duro na Biblioteca, como "Transforme-se em um caranguejo" proferido em uma língua muito antiga e atualmente só falada pelos povos bárbaros que viviam no Mar de Areia.
Bright, numa reação instantânea, empurrou Manhoso. Não desejaria aquele destino para seu pior inimigo, e Manhoso estava bem próximo disso. Stela correu com a espada na mão gritando de raiva e frustração. O mago gritou de terror e ergueu o cajado, gritando uma palavra mágica aleatória. Um disparo de luz octarina atingiu a espada de Stela, que se transformou numa cobra. Stela soltou um grito e jogou a cobra para cima, ao mesmo tempo em que o mago, triunfante, preparava outro feitiço.
No segundo seguinte ocorreu algo completamente inesperado. Covarde saltou das sombras, a pelagem amarela ressaltando na escuridão, e cobriu o rosto do mago, agarrando-se atrás das orelhas dele enquanto miava desesperadamente e arranhava o que podia da pele frágil do velho.
Ao mesmo tempo, Manhoso caiu entre as estantes e Bright apavorou-se com o miado desesperado. Impulsionado pelo medo, Bright pegou o livro e jogou no mago. O "Feitiços para enviar/trazer criaturas para/de outras dimensões" bateu com força contra a barriga do mago, que dobrou sem ar, derrubando o gato no chão. Stela chutou a cobra para entre as estantes e correu na direção oposta, na direção do mago. Ela esbarrou no mago e caiu por cima dele.
-Desculpe!
Mas o mago não estava para brincadeiras e apenas empurrou a garota e correu para as estantes.
-O senhor esqueceu seu caj... – Uma luz octarina saiu do cajado que rejeitou o toque Stela e a empurrou na direção das estantes onde estava Manhoso. A luz atingiu Bright, que foi empurrado contra o mago e jogou este contra a estante errada, caindo, ambos entre as estantes.
O Bibliotecário tinha que admitir, o velho era durão. Cohen e o Bibliotecário ainda trocavam socos, mas agora era por puro orgulho. Cohen, matador de monstros, não ia perder para u orangotango. O Bibliotecário, um orangotango de cento e cinqüenta quilos não ia perder de um mero humano. Era tudo uma questão de princípios.
A fúria do Bibliotecário fora subjugada pelas dores e pelo cansaço, mas o corpo jamais domaria seu espírito animal, que o fazia lutar até a morte – na verdade esse era o pouco humano que restara em sua mente, um orangotango teria fugido há muito – ou até alguém desmaiar de cansaço.
No momento Cohen estava ganhando, mas isso, com certeza era só temporário. Cohen, diferente dos orangotangos, não tinha pernas tão fortes, flexíveis e maleáveis como as do Bibliotecário. Assim, foi jogado longe assim que este decidiu usá-las. O bárbaro bateu na parede e caiu sentado no chão. O Bibliotecário pôs-se de pé para o segundo round.
E foi quando eles ouviram o som mais aterrador que poderiam ter ouvido entre aquelas prateleiras. O som de rápidas, mas fortes pancadas no chão, deixava uma sensação de desgosto e agonia nas almas do Bibliotecário e do herói. Cohen não sabia o que era, nem precisava. Ele sabia que quando se estava em um calabouço – qualquer calabouço independente de quão civilizado ou organizado fosse o lugar – e nem sequer se poderia dizer isso da Biblioteca. Além disso, ele não gostava de aranhas, nem qualquer criatura com mais de quatro patas – não tinha medo, só não gostava – e a coisa parecia ter muitas pernas.
O Bibliotecário não precisou pensar muito antes de decidir fugir da luta por um tempo e subir numa prateleira o mais alto que pôde. Cohen o imitou, e ambos estavam seguros em cima das prateleiras quando um imenso cardume de caranguejos de escadas deslizantes passou por eles, enchendo, com suas inúmeras patas o corredor inteiro. Os caranguejos tinham o tamanho de poodles, mas não eram nada bonitinhos. De fato, de todos os monstros que Cohen já tinha visto, eram os mais estranhos, de forma que, em homenagem aos princípios gramaticais de Quinby II, não tentaremos descrevê-los aqui, posto que jamais chegaríamos à descrição exata da bizarrice.
Cohen olhou para o orangotango, que retribuiu o olhar. Ambos se encararam como adversário prestes a entrar em conflito, e Cohen falou primeiro:
-Uma trégua?
-Oooook. – Disse o Bibliotecário, acenando com a cabeça em confirmação.
Seguinte, esse foi o especial de Natal. Depois desse só tenho capítulo 8 e não tenho mais nenhum carregado nem sendo feito? por que? Estou chateado com vocês. Ando acompanhando quem entra e já várias pessoas leram, mas nenhuma mandou nem uma review pra mim. Então é o seguinte, vou postar o próximo capítulo na data prevista, mas se ninguém postar uma review, não tem especial de ano novo e os capítulos passam a ser bisemanais, fui claro? põ, galera, se estão gostando, postem, se não estão, POSTEM TAMBÉM, assim eu vou saber!
