A vidraça comprada por Edward foi além das expectativas de Isabella. Constava de dois caixilhos que corriam um independente do outro. Ela experimentou levantar o de baixo para a frente do de cima, prendendo-o nas laterais. O ar fresco entrou no quarto e, sem conter a alegria, ela riu, virando-se para Edward:

—Devo parecer maluca, não é? Nunca vi uma vidraça igual e, ter uma só para mim… — hesitou em busca de palavras que exprimissem seu contentamento.

—Você empresta graça a tudo, Isabella. Jamais me distraí tanto.

—Vendo me comportar como uma tola por-causa de uma janela? — Voltou-se para ela, desceu a parte inferior e, satisfeita, disse: — Enquanto eu estiver na fazenda, Edward, esta janela é minha. Deixe-me apreciá-la.

Isabella sentiu-lhe o calor do corpo e a respiração na orelha quando ele se aproximou a suas costas e murmurou:

—Estou tão contente quanto você.

Ela fechou os olhos, desejando que Edward pusesse as mãos em seus ombros. Surpresa com a idéia absurda, sacudiu a cabeça e abriu os olhos.

—Não me impeça de compartilhar sua alegria — ele pediu.

Isabella tentou se explicar, mas achava difícil pôr em palavras as fantasias que ele tornava realidade.

—Eu não fiz isso. Estava pensando em outra coisa. Sei como você fica feliz ao ajudar as pessoas.

Se ela se virasse, poderia tocá-lo, idéia era tentadora e ao mesmo tempo, estranha. Ele o fizera algumas vezes com extrema delicadeza, mas, a amedrontara. Quando Edward ficava muito perto, como naquele momento, o coração disparava, aflito. Percebeu que ele recuava ao ouvir o ruído das botas no soalho. Sentiu falta do calor do corpo dele, porém, mais tranqüila, virou-se da janela.

—Isabella, você não me deve nada. Este quarto precisava de uma janela. E o fato de você receber ar fresco e luz natural já é pagamento suficiente para mim. Caso você continue aqui ou não, a janela será sempre sua. Eu a comprei para você.

Edward bloqueava a porta com os ombros largos. Atraente demais, constatou ela ao observar- lhe o rosto. Testa larga, nariz reto, olhos escuros e de expressão penetrante. Lembrou-se daqueles lábios em suas mãos e na testa. Sabia que homens e mulheres se beijavam nos lábios. Tinha ouvido os cochichos de Alice e Rosalie tarde da noite.

Na escuridão, as irmãs haviam murmurado outros segredos. Imagens estranhas viam-lhe à mente ao ouvir falar sobre mãos de homens tocando suas peles e provocando enorme prazer. Tais imagens criaram vida ao olhar para as mãos de Edward. Uma onda de calor cobriu-lhe os seios e espalhou-se pelo pescoço e o rosto.

—Isabella?

Agitada, ela virou-se novamente para a janela. Precisava dizer algo que disfarçasse a estranha ansiedade sentida.

Ao ver os cavalos no pasto, além do estábulo, inspirou-se.

—Você prometeu me deixar ajudar a lidar com os potrinhos. — Apanhou as botas e acrescentou: — Estarei pronta num minuto.

Meio hesitante, ele assentiu com um gesto de cabeça e foi embora.

Em instantes, Isabella passava pela cozinha onde pegou o casaco quente que Edward lhe comprara. Seus passos ressoaram na escada antes de seguirem apressados pelo pátio.

—Os potros não vão a lugar algum, dona — Pony afirmou, rindo, quando Isabella parou ao lado dele. — Venha comigo para ver como trabalhamos.

Por volta do meio-dia, ela já tinha tirado o casaco. Os braços doíam por ter escovado os três potrinhos designados por Edward a seus cuidados. Estava se saindo bem, pensou quando tinha terminado essa parte e os levado, um a um, a dar voltas pelo curral. Durante as primeiras, segurava o cabresto com firmeza, mas depois, apenas a ponta de uma corda. O animal a seguia de perto, farejando-lhe os ombros ou ao longo das costas como os filhotes de Maisie em suas pernas.

—Acha que pode cuidar de cinco, Isabella? — Edward perguntou. Estava sentado na cerca, com o chapéu inclinado para trás e olhar satisfeito.— Pony afirma que você tem muito jeito.

Ela parou e o potro a empurrou com a cabeça, forçando-a a segurá-lo pelo cabresto.

—Comporte-se e eu lhe darei uma cenoura — murmurou antes de dirigir-se a Edward : — Pony disse isso?

—Ele garante que você é capaz de lidar com cinco. É uma grande responsabilidade. Trata- se dos melhores.

—Você vai vender os outros? — ela indagou ao olhar para o pasto onde mais de vinte potrinhos pastavam.

—Tenho compradores esperando por meus cavalos. Estes aqui são para ser ensinados. Se quiserem que eu trabalhe com eles, terão de me pagar mais.

—Que cavalos vai mandar para Dodge City?

—Os castrados de quatro ou cinco anos. Estão prontos Para ser usados pelo Exército. Acabaram de ser amansados e já podem ser montados. Vamos juntá-los dentro de uma semana, mais ou menos, e mandá-los embora. Quanto aos potrinhos que eu não vender, ficarão por aqui até que possam ser montados.

—Eu não calculava que exigissem tanto trabalho. Achei que bastava selar e montar.

—Quando alguém compra um cavalo meu, ele já foi amestrado e pode ser cavalgado. Todos, exceto os potros de um ano. Estes são muito novos para aguentar o peso.

Edward desceu da cerca e, ao se aproximar, riu ao ver o potro corcovear.

—Vamos, acalme-se. Está na hora de Isabella almoçar e nós vamos levá-lo para junto dos outros.

Abriu a porteira e ela o levou a um cercado pequeno onde uns dez dos potrinhos selecionados pastavam.

Isabella vestiu o casaco, deixado num dos mourões da cerca, e confessou enquanto acompanhava Edward para casa.

—Estou me sentindo culpada por não ajudar Esme esta manhã.

—Ela não vai se importar. Já trabalhava aqui antes de sua chegada e você está ganhando seu sustento.

De fato a criada os recebeu com um sorriso momentos depois.

—Lavem-se depressa, pois os outros já devem estar chegando. Eu lhes disse que podiam continuar a vir comer aqui. Pony reclamou estar cansado da própria comida.

—Você primeiro, Isabella — disse Edward, apontando para a bacia de água quente na pia.

—Isso mesmo. Assim poderá me ajudar a servir — acrescentou Esme.

O almoço estava apetitoso. Carne assada, com bolinhos fofos cozidos no molho, e uma travessa farta de legumes. Precisava aprender a fazer os bolinhos, pensou Isabella ao ir pondo os pratos arrumados pela criada na frente de cada homem. Finalmente, colocou um em seu lugar e o último diante da cadeira de braços de Esme.

Os homens comeram em silêncio e logo os pratos estavam vazios. Sem que fosse preciso pedir, Esme pegou mais carne, deixada no fogão para não esfriar, e a pôs na mesa para que repetissem. Isabella nunca tinha visto tanta fartura em sua vida. Em casa, as porções eram racionadas e apenas o pai podia repetir. Além de ser servido em primeiro lugar. Edward, por outro lado, não começava a comer até que todos o fizessem. Vendo seu prato vazio, ele indagou:

—Alimentou-se o suficiente? Como passou a manhã inteira lidando com os potros irrequietos, pensei que você estivesse faminta e quisesse repetir.

—Aceito mais um pouco — respondeu ela ao passar o prato para Esme servi-la. — Obrigada — agradeceu ao pegá-lo de volta e espetar o garfo num bolinho. — Ai, como eu gostaria de saber fazer uns tão bons.

—Não existe segredo algum. É só jogar colheradas da massa no molho fervendo, tampar a panela e deixar cozinhar por uns vinte minutos na chapa do lado — explicou Esme.

—Você fala como se fosse muito fácil.

—Ora, cada um de nós tem suas habilidades. Entendo muito pouco do trabalho de um estábulo.

Quando todos terminaram, Isabella levantou-se para tirar os pratos.

—Joe encontrou um gavião com a asa quebrada. Quer saber, Isabella, se você se importaria de cuidar dele ou se seria melhor acabar logo com o sofrimento do coitado — disse Edward.

—Vou dar uma olhada. Já cuidei de vários pássaros com asa quebrada. Podemos pôr o gavião numa gaiola que deixei atrás do estábulo com uma raposa. Ela já ficou boa e eu vou soltá-la.

Edward lhe dirigiu um olhar severo.

—Eu vi. Pony contou que você a tirou da armadilha ao lado do galinheiro. Não podemos ter raposas soltas por aí, Isabella. Se entrarem no galinheiro, vai ser o diabo!

—Ora, se você não gostou de eu tratar da raposa por que quer que eu cuide do gavião? Ele devia estar de olho nos pintinhos.

Edward deu de ombros.

—Sei lá. Detesto ver um animal machucado. Se tivesse encontrado a raposa antes de você, talvez a tivesse matado. Espero que, ao cair na armadilha, ela tenha aprendido a lição e fique longe daqui.

—Bem, vou ver o gavião depois — disse Isabella a deixar uns pratos na pia e voltar para pegar outros n mesa.

—Vá logo, menina. Eu arrumo a cozinha — Esme disse Com um olhar grato para a criada, ela pegou o casaco e acompanhou Edward para fora.

—Na verdade, você prefere ficar ao ar livre, não é. — indagou ele, sorrindo.

—Ora, posso trabalhar tanto fora como dentro de casa. Gosto muito de passar aquele limpador de tapete e ainda não quebrei nada lá na sala.

Edward a observou com olhar pensativo e, perto do estábulo a fez parar.

—Hoje à noite, Isabella, vamos ter tempo para sentar à mesa da cozinha. Quero mostrar outros livros e lhe ensinar algumas letras.

Ela o fitou com olhar sério, o coração exultando de alegria. Edward falava com tanta naturalidade como se oferecesse algo sem valor.

—Ficarei muito contente caso você tenha tempo para perder comigo.

Mais do que contente, gostaria de dizer. A possibilidade de entender aqueles sinaizinhos retorcidos fazia sua cabeça rodopiar.

—Não será uma perda de tempo. Aprender a ler é quase tão importante quanto respirar.

Logo você fará isso com a mesma facilidade.

Entraram no estábulo e ela percebeu que o seguia como os potrinhos tinham feito com ela de manhã. Estaria Edward, da mesma maneira, amansando-a para seus propósitos?, conjeturou.

Os sinaizinhos tinham nome e formato próprio, Isabella descobriu no decorrer da semana seguinte. Edward lhe garantiu que era inteligente e logo estaria lendo os livros que ele havia trazido da cidade, emprestados pela professora.

—Ela não perguntou para que você precisava deles? Sabe que estou aqui? — Isabella perguntou, assustada.

— Sabe, mas eu a fiz prometer que não contaria a ninguém. Ela se lembra de suas duas irmãs que frequentaram a escola por um ano. Porém, ignorava que vocês fossem três. Ela não tem seu pai em grande conta. E pediu para lhe dizer que suas irmãs vão bem. Ela conhece seus maridos.

Isabella debruçou-se sobre a mesa e perguntou com olhar ansioso:

—Elas estão felizes? Não são maltratadas?

—Pelos maridos? Duvido. Devem estar levando uma vida bem melhor do que a anterior, na casa de seu pai.

Isabella recostou-se na cadeira e refletiu sobre o que acabava de ouvir.

—Talvez eu possa ir vê-las qualquer dia e lhes dizer que estou bem. Pode ser que elas nem saibam que fugi de casa.

—Não sei se seria conveniente. Não quero que seu pai descubra onde você está, Isabella. Não tenho certeza do que ele pode fazer e não desejo apontar-lhe uma arma. Agora, me deixe ver seu caderno. Esme contou que você passou umas horas, à tarde, escrevendo letras.

Maggie o tirou de sob o livro e entregou a ele. Edward olhou-o rapidamente e sorriu.

—Você aprendeu a escrever meu nome. Acertou todas as letras. Foi Esme quem ensinou?

—Perguntei duas para ela. Não foi muito difícil. Fiz a linha reta do lado errado dos círculos do B, mas quando percebi e corrigi, aprendi depressa.

Tinha mesmo, pensou Edward. Sentiu um grande orgulho ao ver as linhas de letras de forma que ela havia escrito.

E depois, o próprio nome, mas em letra cursiva. Embora imperfeitas, estavam legíveis.

Porém, o que o comoveu foi ver o nome dele escrito três vezes, em letras de forma maiúsculas.

—Bem, vamos dar uma olhada no livro. Eu falo as palavras e você vê se as letras fazem sentido. Mas para isso, acho melhor me sentar perto de você — disse ele ao mudar-se para a cadeira ao lado da sua.

Ela o fitou com olhar tão desconfiado quanto o da raposa que ele tinha visto na gaiola, atrás do estábulo, na semana anterior. Quando aparecera, Isabella era uma criatura arisca, mas já havia mudado bastante.

Com o indicador sob a primeira palavra da página, ele a leu em voz bem alta:

—Este…

Isabella a repetiu baixinho e, ansiosa, indagou:

—O que quer dizer a palavra seguinte?

Edward viu Isabella parada à porta da sala e fez-lhe um sinal afirmativo, ciente de que ela ia se recolher ao quarto no segundo andar. Sua vigilância tinha acabado depois de alguns dias e ela não temia mais deixar os dois sozinhos. Num acordo tácito, Sophie dava a entender que percebia o afeto dele por Isabella e o aprovava.

—Edward?

Impaciente, Isabella empurrou-lhe o dedo para a palavra seguinte.

—…é — ele leu.

E então, bem devagar, palavra por palavra, leu a sentença inteira. Enlevada, Isabella as ouviu em silêncio e dando-se conta de que um novo mundo se abria para ela.

Novembro trouxe a primeira nevada. Os cachorrinhos ficavam presos no telheiro de lenha e Isabella ia vê-los todos os dias. Ensinava-os a ter contato com pessoas, agradava Maisie e limpava o lugar. Eles já tinham aprendido a beber leite na tigela e deixavam a mãe em paz grande parte do tempo. Também já começavam a comer restos de alimentos sólidos.

Edward refletia sobre a melhor maneira de dizer a Isabella que estava na hora de encontrar pessoas que os quisessem. Havia decidido ficar com um pelo menos, pois todos tinham traços do pai pastor. O marrom com manchas pretas seria útil para reunir os animais no pasto, caso Isabella não quisesse tê-lo por perto o dia inteiro.

Naquela manhã, com o balde de leite, Edward aproximou-se do telheiro no instante em que o sol surgia por trás dos pessegueiros. Lá dentro, os cachorrinhos latiam de fome.

Ele abriu a porta e a luz do sol iluminou o lugar. Edward parou abruptamente diante da cena com que se deparava. Uma cascavel, com certeza em busca de calor, tinha invadido o território de Maisie e encontrado a morte entre os dentes dela. Quase decepada ao meio, continuava pendurada lá. Mas antes de morrer, tinha desferido um golpe fatal na cadela que apenas tentara defender os filhotes.

Isabella não podia ver isso, resolveu depressa ao fechar a porta. A única janela do telheiro filtrava luz suficiente para ele enxergar. Antes de mais nada, encheu a tigela dos cachorrinhos com leite. Em seguida, pegou um saco de estopa, de uma pilha no canto, e enfiou o corpo de Maisie dentro. Depois, com uma pá, pôs também a cobra e amarrou a boca do saco com um pedaço de corda.

Naquele instante, ouviu a voz de Isabella, no terraço, falando com a gata. Ele saiu do telheiro, mas deixou a porta entreaberta.

—Você já deu leite para os cachorrinhos? — ela perguntou quando chegou perto e olhou para dentro. — Onde está Maisie? Já foi dar uma volta? Desde que os filhotes pararam de mamar, ela não fica muito aqui — comentou ao abaixar-se para cocar a barriga de um deles.

—Isabella …

Surpreso com a voz embargada, Edward limpou a garganta. No mesmo instante, Isabella ergueu-se e indagou:

—Aconteceu alguma coisa? — Só então notou o saco de estopa. — O que está aí dentro? O que aconteceu? — insistiu.

Olhou para o interior do telheiro, contou os cachorrinhos e curvou os ombros como se já soubesse o que ia ouvir.

—Foi com Maisie, não foi? O que aconteceu, Edward?

Ele lhe contou o mais depressa possível e com a máxima delicadeza, mas não adiantou. Mesmo o fato de a cachorra ter morrido para salvar os filhotes não lhe serviu de consolo. Seus olhos encheram-se de tristeza e, soluçando, ela deu vazão às lágrimas.

Percebendo algo errado, Pony tinha se aproximado a tempo de ouvir o relato de Edward.

Apanhou o saco e afastou-se.

Consternado com a tristeza de Isabella e desejando consolá-la, Edward abriu os braços. Bastou ela dar um passo para aninhar-se entre eles, o corpo sacudido por soluços que abafou, enterrando o rosto no peito dele.

Edward a amparava sem fazer pressão com os braços. Sobre sua cabeça, viu os empregados falar com Pony. Shay levantou a cabeça e, através de gestos, avisou que ajudaria a enterrar a cadela. Pouco depois, com uma pá na mão, ele acompanhava Pony para além do pomar.

Como não quisesse que Isabella os visse, Edward a virou em direção de casa, ela, porém, olhou para o telheiro.

—Será que não havia mais uma ali dentro? Talvez fosse um casal.

—Se havia, já se foi. Fiquei admirado com a aparição de uma. Nesta época do ano, as cobras já hibernaram. Vamos para casa.

—Você deve estar certo. Foi apenas falta de sorte. O melhor é não se apegar muito aos animais — murmurou ela, tentando enxugar as lágrimas com as mãos e ao começar a andar.

Edward entregou-lhe o lenço do pescoço.

—Pegue aqui, está limpo. Tirei da gaveta agora de manhã. Isabella aceitou e acabou de enxugar o rosto.

—Ora, esqueci o balde de leite. Você não quer dar um pouco para a gata? — ofereceu ele, parando.

—Seria bom. Ontem, ela tentou caçar um camundongo no estábulo e acabou caindo com o focinho no chão. A coitada não serve para mais nada.

Ao lado da escada do terraço, a bichana cinzenta olhou para a dona como se soubesse que ela falava a seu respeito.

—Uns imprestáveis vocês todos são — Isabella reclamou em tom choroso, mas sentou-se no segundo degrau da escada e pôs a gata no colo.

Edward foi buscar o balde leite, pensando nas palavras de Isabella. Talvez fossem verdadeiras em relação à gata cuja sobrevivência dependia do ser humano. Porém, ela era um consolo para a moça que a agradava. Por esse motivo, a gata merecia um lugar na fazenda.

Ao passar sob a porta, os acordes suaves invadiram o quarto. Isabella sentou-se depressa na cama, apurando os ouvidos. Se a intenção de Edward fora tentá-la, tinha escolhido a arma certa. Mas por acaso, pois não podia saber o quanto ela ansiava ouvir música. Guardava raras lembranças da infância, das poucas vezes em que fora à igreja, porém, adorava ouvir o chilrear dos passarinhos.

Quantas vezes não tinha parado o que fazia para ouvi-los melhor.

Naquela noite, a tentação era muito mais potente. Com a harmonia das cordas e da voz, Edward a chamava de maneira irresistível.

Saiu da cama e enrolou-se no acolchoado. A melodia cantada por Edward a atraía. Abriu a porta sem fazer barulho e deixou-se envolver pela canção que falava do amor perdido nos braços de outro. Atravessou a cozinha, o vestíbulo e parou a uns passos da porta da sala. Não queria perturbá- lo.

Segurando o acolchoado com firmeza, espiou. Edward estava sentado no chão, encostado no sofá e com a cabeça abaixada para o violão. Os dedos tangiam as cordas, produzindo acordes que lhe acompanhavam a voz.

Como se percebesse sua presença, ele levantou a cabeça.

—Isabella — murmurou e sorriu. — Eu não tinha certeza se você ainda estava acordada e podia me ouvir. Fico feliz por ter vindo até aqui.

Fascinada pela cena, Isabella retribuiu o sorriso. Viria, naturalmente. Essa música linda atrairia até as fadas da mata.

—Eu já estava deitada, mas ainda não tinha dormido — disse e deu-se conta de estar seminua sob o acolchoado.

—Não consegui dormir. Meus olhos teimavam em ficar abertos. Então, voltei aqui para baixo. Venha se sentar perto de mim, Isabella .

—Não estou vestida.

—Imaginei. Mas está bem coberta pelo acolchoado. Relutante, ela entrou na sala e sentou-se numa cadeira.

—Não, coração, sente-se aqui no chão, perto de mim.

—Está bem, desde que você continue tocando. ela concordou ao acomodar-se ao lado de Edward.

—Melhor assim. Agora, podemos cantar juntos. Tocou uns acordes e perguntou:

—Conhece esta canção?

Isabella tinha ouvido a mãe cantá-la muito tempo atrás, porém, ela seria incapaz de fazê-lo.

—Prefiro ouvir — murmurou.

Terminada aquela, Edward cantou outra de ritmo mais animado, seguida por uma lenta cujas palavras ele murmurava com suavidade.

As últimas notas ainda vibravam no ar quando ele espalmou a mão sobre as cordas, silenciando-as.

—Gostaria de aprender a tocar violão, Isabella?

—Ai, eu não seria capaz. Minhas mãos não são tão grandes quanto as suas e meus dedos não esticariam tanto.

Ele espalmou a mão sob a sua a fim de compará-las.

—Não concordo Isabella. Embora menores do que os meus, seus dedos são longos e esguios. Se quiser, eu a ensinarei.

A mão dele continuava sob a sua, irradiando calor, enquanto os olhos a fitavam com expressão sedutora.

Aflita, ela sentiu o coração começar a bater mais depressa. Dominada por uma sensação estranha, puxou a mão e a escondeu nas dobras do acolchoado.

—Acho que não quero — murmurou.

—Está com medo de mim, Isabella? Ainda não se convenceu de que eu jamais lhe farei mal algum? — Edward perguntou, com expressão triste.

—Eu não deveria ficar sozinha aqui com você.

—Esme está lá em cima. — Voltou a sorrir. — Ela me esfolaria vivo se eu a amedrontasse, Isabella. — Pôs o violão em seu colo. — Apenas passe o polegar da mão direita nas cordas quando eu avisar.

Passou o braço esquerdo sobre seus ombros e, com os dedos longos, prensou algumas cordas com firmeza.

—Agora.

Meio sem jeito, ela obedeceu, ouvindo a vibração das notas.

—De novo — ele mandou.

Enquanto Edward mudava a posição dos dedos, Maggie continuou a passar o polegar nas cordas, ouvindo sons diferentes.

Uma alegria imensa a dominou. Seu rosto iluminou-se e ela, sem se conter, riu.

—Está vendo? Você pode aprender. Vai me deixar ensiná-la, Isabella ? — perguntou, apertando-a no ombro.

A sala ficou em silêncio enquanto ela refletia. Como se sua resposta não importasse, Edward acrescentou num tom de indiferença:

—Podemos fazer isso umas duas noites por semana. Depois da aula de leitura.

—Você faz demais por mim. Nunca vou conseguir retribuir tudo isso. Não se trata de alguma coisa que eu possa pagar trabalhando, Edward.

Ele tornou a apertar-lhe o ombro, mas tirou a mão e levantou-se, deixando o violão em seu colo. Foi até a janela, afastou a cortina e deixou o olhar se perder na escuridão.

—Não estou pedindo nada a você, Maggie, exceto sua companhia. Deixe-me ser seu amigo.

Dominada por uma emoção profunda, Isabella passou a mão pela madeira acetinada do violão. Raramente sentia necessidade de chorar, mas naquele dia, duas vezes as lágrimas inundaram seus olhos. Na primeira, de tristeza e, na segunda, de alegria. Edward Cullen queria ser seu amigo.