Uma semana depois, Lily sentou ao lado de James no banco traseiro da Toyota a caminho de casa. Toda vez que o carro dava um solavanco, estremecia, imaginando a dor que aquilo devia causar a ele. Mas o rosto de James permanecia inexpressivo. Lily tinha certeza de que ele estava sentindo um milhão de coisas diferentes, físicas e emocionais, mas as guardava para si.
Quando o carro virou a alameda Bayberry, porém, e James pôde ver todos os carros estacionados ao longo do meio-fio perto da garagem de sua casa, seus ombros ficaram tensos.
- Isso é que vai ser difícil – murmurou ele.
Lily apertou a mão do namorado.
- Você vai se sair bem.
Ele olhou para ela, ensaiando um sorriso sem graça.
- É, devo olhar por lado bom da coisa. Eu vou estar numa cadeira de rodas, então nunca vou cair com a cara no chão.
Esse era o tipo de piada que James fizera durante toda a semana, mas Lily sabia que era necessário um grande esforço para que ele mantivesse o bom humor num momento como aquele. "Tudo o que ele tem de fazer é ir do carro para casa, mas este vai ser um dos maiores desafios de sua vida", ela se deu conta. "Ele vai precisar de muito mais força e coragem do que já teve que demonstrar em qualquer partida de futebol ou beisebol."
Impulsivamente, Lily inclinou-se e abraçou James.
- Vamos lá – sussurrou em seu ouvido.
O Sr. Potter estacionou o carro e abriu o porta-malas. A Sra. Potter andou até a parte de trás do carro, e Lily se prontificou a ajudá-la.
Juntas, retiraram a pesada cadeira de rodas do porta-malas. Durante os dois minutos que levaram para armar a cadeira, várias pessoas começaram a sair da casa, se reunindo no jardim e mantendo uma certa distância do carro.
Lily conduziu a cadeira até o lado do carro em que James estava, com o Sr. Potter pronto para ajudar o filho. O rapaz colocou um braço ao redor do pescoço do pai e sentou na cadeira de rodas.
- Confortável? – perguntou a mãe, inclinando o corpo para colocar um travesseiro de suporte da lombar atrás das costas do filho.
- Não sei se algum dia vou me sentir confortável nessa coisa – replicou James baixinho.
Lily caminhou ao lado de James enquanto ele conduzia a cadeira lentamente ao longo do piso de tijolos em direção à porta da frente, sobre a qual havia uma faixa onde se lia: "Bem-vindo, James". Depois de alguns metros, ele parou para recuperar o fôlego e segurar a mão de Lily.
Seus amigos não conseguiam mais se conter. Correram para dar-lhe tapinhas nas costas, beijar suas bochechas, cumprimentá-lo.
- Você está ótimo, Potter!
- A gente sentiu muito sua falta, James.
- Que bom que você está de volta, cara!
James segurava firmemente a mão de Lily. Ela podia sentir as emoções que tomavam conta dele; passavam para ela pelos dedos dele como se fossem uma descarga elétrica.
- Obrigado pelo comitê de boas-vindas – James disse, assim que os cumprimentos terminaram. Ele passou a mão pelo cabelo, abrindo seu sorriso típico, e então soltou uma piadinha. – O que você acharam da minha nova máquina?
- Você trocou seu carro por isso? – Remus seguiu com a brincadeira.
- Ei, é mais fácil para estacionar – protestou James.
- Mas não tem muito espaço pro carona – acrescentou Alice.
Surgiram mais algumas piadinhas. Então Sirius falou:
- O time não é o mesmo sem você, Potter. Precisamos de você de volta ao campo, cara.
- Não se preocupe, Black – respondeu James calmamente. – Estarei novamente em forma no final da temporada. Só leve o time até as finais, que eu estarei lá. Mas eu ouvi um boato de que existe um bolo com meu nome em algum lugar. Vamos, me levem até ele!
A turma começou a entrar na casa mantendo o clima otimista que James estava transmitindo.
Apenas Lily sabia o tremendo esforço dele para manter um sorriso no rosto.
- Pronto para entrar? – ela perguntou suavemente.
- Mais um minuto – disse ele, ainda segurando a mão dela como se nunca mais fosse soltar.
Por várias semanas antes do acidente de James, Lily vinha imaginando o que fazer com a relação deles. Agora percebia com clareza que não conseguiria terminar o namoro. A batida de carro havia mudado o mundo de James de ponta-cabeça, e o dela também. Tudo tinha mudado.
Não importava quais eram seus sentimentos mais secretos, ela não podia abandonar James agora. Ela tinha o dever de permanecer ao lado dele durante sua recuperação.
Lily ajoelhou-se no chão ao lado da cadeira de rodas. Levantando a mão de James, ela pressionou-a contra sua bochecha. Antes do acidente, tinha pensado que todos os sentimentos por ele haviam desaparecido, mas talvez ainda existisse um pouco de amor. Ela só precisava agarrar-se a ele e ter a esperança de que seria suficiente.
De algum modo, Lily atravessou o resto do mês de setembro retomando uma rotina quase normal: escola, balé e visitas a James, que estava com um professor particular enquanto permanecia em casa se recuperando.
Numa tarde de sexta-feira, Lily saiu correndo de Hogwarts sem nem parar em seu armário. Era a única maneira de evitar mais uma sessão de simpatia asfixiante de suas bem-intencionadas, mas ignorantes, amigas. Acontecia um workshop sobre diversidade na escola naquela tarde, mas primeiro ela precisaria ir à cidade para uma aula de balé.
A escola estava silenciosa quando Lily retornou, algumas horas depois. O grupo estava menor do que no primeiro encontro do qual Lily participara. A reunião dessa noite seria feita por estudantes interessados em coordenar o desenvolvimento de um programa educativo sobre diversidade em Hogwarts.
- Vamos tirar proveito do fato de que existem apenas dez alunos aqui hoje - sugeriu a senhora Sprout, professora de biologia e uma das facilitadoras dos workshops – e realmente conhecer uns aos outros. Assim, seremos um grupo bem unido para trabalhar nesse projeto. Vamos ver... – tocou o dedo indicador na bochecha. – Acho que vamos começar com um exercício bem conhecido de integração. Vamos nos dividir em duplas para entrevistas informais, depois apresentamos nossos parceiros para o grupo. Entenderam?
- O.k. então esses são pares: Amélia e Andréa, Katy e Craig, Lily e Amos, Dylan e Zoe, Vince e Apolline. Achem um canto pra conversar e voltem em vinte minutos. E sem escrever nada, certo? Escutem o outro com atenção. Olhem para o outro com atenção.
Lily foi se juntar a Amos Diggory, que estava em pé próximo à porta da sala. Amos, um aluno do primeiro ano, era alto e loiro. Haviam se conhecido no primeiro workshop, e Amos tinha participado do grupo que fora tomar café após o encontro, mas nunca tiveram a chance de conversar a sós.
- Onde você quer sentar? – perguntou Amos.
- Que tal aquele banco perto da janela no fundo do corredor? – sugeriu Lily.
Sentaram-se no banco, com um espaço entre eles. Houve um momento inicial de silêncio constrangedor.
- Eu faço a primeira entrevista – Lily finalmente se ofereceu.
- Tudo bem – Amos fechou as mãos sobre o colo e sorriu timidamente – pode começar.
- O.k. – por um momento, Lily desejou que a senhora Sprout não tivesse proibido o uso de anotações. Ela gostaria de ter uma caneta ou um lápis para ocupar as mãos.
"Como é que alguém faz perguntas pessoais sem parecer intrometido?", ela se perguntou. – Hum, acho que vou começar com... Onde você nasceu?
- Nasci em Boston – Amos contou – Meu pai é canadense, na adolescência mudou-se para Bombay onde conheceu minha mãe e alguns anos depois, meus pais vieram de Bombay para cá.
- Porque eles vieram para os Estados Unidos? – perguntou Lily.
- Meu pai tinha um amigo que morava aqui e que o convidou para participar de um negocio. Ramesh estava fazendo muito dinheiro, então meu pai escolheu uma esposa e pegou um avião.
Lily balançou a cabeça para o lado.
- O que você quer dizer com " escolheu uma esposa"?
Amos sorriu novamente.
- Prepare-se para um choque cultural. Meus pais se encontraram apenas uma vez antes de casar, numa "exibição de casamento". Meu pai conheceu um punhado de esposas em potencial. Ele escolheu a minha mãe porque ela vinha de uma boa família e teve boa educação escolar; acima de tudo, ela era a garota mais bonita que ele já havia visto.
Lily lançou um olhar dúbio para Amos.
- Você está brincando, não é?
- É verdade – assegurou ele .
- Você quer dizer que sua mãe não teve nenhuma participação nessa decisão?
- Bem, os pais dela não teriam deixado meu pai colocar os pés na casa deles para conhecer minha mãe se ele não tivesse passado anteriormente pela inspeção. Mas, basicamente, não.
- Isso é terrível! – exclamou Lily. – Eu nunca tinha ouvido algo tão machista.
Amos soltou uma gargalhada.
- Mas deu tudo certo. O negócio do meu pai fez sucesso, e minha mãe ama viver nos Estados Unidos. Ela ainda veste sáris, mas obteve um diploma de Harvard. É psicóloga. Isso nunca teria acontecido se ela estivesse continuado na Índia.
Lily não estava convencida.
- Mas esse lance de casar com um completo estranho?
- Eles não foram estranhos por muito tempo – acrescentou Amos – e, acredite ou não, eles têm um excelente casamento. Meu pai respeita muito a minha mãe. Eu sei que isso parece maluquice, comparado à América, mas é assim que as coisas acontecem por lá. Embora meu pai não seja indiano, ele simpatiza com os costumes de lá.
- Eles não fazem isso ainda, fazem?
- Claro que fazem. Às vezes, mesmo os indianos que moram nos Estados Unidos entram em casamentos arranjados. É bem comum – Amos gargalhou novamente. – você devia ver a sua cara, Lily.
Ela balançou a cabeça.
- É que eu não consigo imaginar. Você não vai se casar assim, vai?
Ele franziu as sobrancelhas loiras.
- Por que não? – brincou. – Se eu não conseguir encontrar uma garota legal, posso ligar pra minha tia em Calcutá e pedir pra ela me arranjar alguém.
Os dois deram uma gargalhada.
No inicio, Lily não tinha certeza de como começar a entrevista, mas agora as perguntas jorravam. Ela descobriu que a comida favorita de Amos era cachorro-quente com chilli e batatas fritas, assim como especialidades indianas, como samosas e rogan Josh. As duas irmãs mais velhas dele estavam na faculdade, uma estudando engenharia e a outra, inglês. Ele tocava saxofone e colecionava revistas em quadrinhos. Gostava de assistir a filmes antigos, especialmente westerns, e ouvir jazz. E era um grande fã do time de hóquei de Boston.
- Mas eu preferia dançar como Fred Astaire a ser um bom jogados de hóquei no gelo – concluiu Amos. – Meu pai e eu temos ingressos para toda temporada de hóquei, mas quase sempre prefiro ir ao balé com minha mãe.
- Você gosta de balé? – perguntou Lily, mal acreditando.
- Isso é estranho?
Ela balançou a cabeça.
- Ah, não. Eu faço aula de balé.
- Eu devia ter imaginado – disse ele, olhando Lily como se estivesse analisando o corpo dela.
Lily relaxou sua postura esticada de bailarina, ficando com o rosto levemente corado.
- É só que... balé... a maioria dos garotos que eu conheço... – "Pelo menos um chamado James Potter", pensou. – Eles não... quer dizer, não é...
- Coisa de macho? – completou Amos, sacudindo os ombros. – não me importo. Eu acho legal. Cara, queria ver um desses jogadores de futebol americano da escola fazer um Rond de jambe em l'air!
Os dois soltaram uma gargalhada novamente. Lily não tinha certeza se Amos sabia que ela namorava um desses jogadores, mas decidiu não contar nada a ele. "A não ser que ele me pergunte sobre isso na entrevista", ela pensou, desejando que isso não acontecesse.
Ele não perguntou. Perguntou sobre a família de Lily e sua criação, sobre viagens que ela havia feito e livros que tinha lido. Ela se viu contando para ele várias coisas de sua vida que mesmo suas amigas mais intimas não sabiam: que ela havia sido a primeira garota de sua família a optar por escola pública em vez de uma escola católica só para garotas; que seus pais haviam se separado quando ela estava no primeiro ano do ensino médio, mas depois reataram.
- Vinte minutos voaram.
- Vinte e cinco, na verdade – Lily disse para Amos, ao olhar o relógio.
- É melhor a gente voltar – disse ele.
Eles correram de volta para a sala.
- Isso foi divertido – comentou Lily.
Amos concordou com a cabeça.
- Foi um prazer conhecer você, Lily – disse ele, estendendo a mão.
Lily apertou a mão de Amos, sorrindo.
- O prazer foi meu – falou ela. E tinha sido mesmo.
James está fazendo um grande esforço para encarar a realidade, e só ele realmente sabe a grande dor que existe por trás das piadinhas otimistas. Para se superar ele precisa se conhecer, conhecer suas limitações e vencer seu maior obstáculo: ele mesmo. Mas ele conseguirá isso se perder Lily, a fonte de sua força? Em 25 minutos um estranho soube mais dela do que James em 2 anos.
Eu estou emocionada e sem palavras para agradecer o enorme carinho que tenho recebido, os comentários maravilhosos, cada um deles é especial demais para mim, do fundo do coração muito obrigada: Thaty, Nanda Soares, F. TomokoLeMarie, Clara Casali, Joana Patricia e Guest :*
