Narrado por: Vittorio

Esta chuva torrencial que cai novamente e volta a molhar essas majestosas construções que se erguem diante de meus olhos...Será que esta chuva, que afugenta as pessoas da rua, pode limpar minha alma?...Alma...será que possuo uma? Sendo o que sou, um ser das trevas desprovido de sentimentos pela outra raça, não acredito que possa ter uma alma real...Mas então, chuva, será que você pode, ao menos, limpar meu coração? Ajudar-me a deixar essa tristeza de lado? Lavar todos esses péssimos sentimentos que me afligem?...Na verdade, se levasse com sua água pura o medo, já seria o suficiente... "Mas medo de que?", você deve se perguntar, não é? Nem eu sei...Talvez seja o medo da perda...medo de perder a única pessoa que eu amo neste mundo...medo de perder...Aya... Hn...melhor me apressar então. Está chovendo, e o céu está completamente escuro apesar de ainda ser de tarde. É melhor eu correr antes que Aya saia de casa para encontrá-lo...Tenhu que fazer alguma coisa contra isso... qualquer coisa... qualquer coisa... eu preciso pensar em algo... e logo!

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Narrado por: Aya

Logo que ouvi os primeiros pingos de chuva baterem nas janelas perfeitamente vedadas, levantei-me, com a pretensão de ir até a casa de Omi. Andei pelo apartamento, à procura de meus sapatos. Caminhei um pouco pela sala, aproveitando para acarinhar o gato branco que eu mantinha em casa...Gostava muito dele...era uma criatura noturna e solitária...assim como eu...tínhamos muita coisa em comum. Logo avistei meus coturnos pretos perto da porta. Fui até lá calmamente, sentando-me no chão de madeira a calçá-los.

Ainda estava amarrando os cadarços quando a porta se abriu, e um par de longas pernas cobriu minha visão do corredor.

-Vittorio! Está molhando o chão! – Reprendi o garoto, que além de molhar estava embarrando tudo...Mas ele me ignorou completamente...

-Você vai sair? – Sua pergunta foi feita de sopetão, tanto que demorei um pouco para respondê-la, tentando processar o que ele havia dito.

- Hai...Tenho algumas coisas a fazer... – Coloquei uma expressão séria no rosto, sabendo o que ele pretendia.

-Você vai ver ele? – Sua voz embargada e magoada se misturava com a dureza e raiva que ele tentava demonstrar, mas lágrimas de sangue já se misturavam às gotas claras de chuva em seu rosto claro.

-... Vittorio... - Fiquei sem reação. O que poderia fazer numa situação dessas? Nunca o imaginei chorando só por causa de uma paixão minha...Mas talvez fosse por causa daquela minha nova paixão em especial...Omi era humano...e eu nunca havia estado verdadeiramente apaixonado antes...Será que Vittorio me conhecia tão bem assim?

- Não vá...Por favor... – Sua expressão se suavizou, dando lugar ao choro quase compulsivo. Ele se jogou em meus braços, molhado como estava, segurando-se fortemente em minhas roupas e chorando como uma criança...não...ele era mesmo uma criança...Nada mais que um pequeno garoto precisando de colo e atenção...um pequeno garoto apaixonado... Abracei-o de volta. Eu o entendia...entendia completamente, mas também sabia que aquilo iria passar...teria que passar...

- Shhhhhhhhh... calma Vittorio... não chore mais... – Embalei-o por meia hora, talvez mais, abraçado a ele, mas ainda negando os beijos que seus lábios gentilmente me ofereciam...Isso só o fazia chorar mais e perguntar o porquê de ser pior que o humano... tentei explicar que não era isso, mas acredito que ele não me ouvia...

Quando se acalmou, adormeceu, ainda agarrado em mim. Levantei-o com cuidado, levando-o até seu quarto. Coloquei-o na cama e o cobri, beijando fraternalmente sua testa e acariciando seus cachos que já começavam a secar. De algum modo me sentia responsável por aquela criaturinha que havia criado... e de certa forma, eu era...

Levantei-me do colchão, convicto a finalmente sair. Troquei o casaco que vestia por um seco e abri a porta do apartamento, saindo e trancando-a logo depois.

-Lindo como sempre, Aya...

-WAH! – Se meu coração ainda batesse com certeza estaria a mil naquele momento...Até hoje odeio levar sustos...

– Mestre! Não faça mais isso! Assustou-me! – Fitei o rosto bonito do meu mestre, um pouco acima do meu. Queixo longo e fino, olhos verdes cintilantes...Boca carnuda, cabelos perfeitamente cuidados na altura dos ombros e um cigarro na mão: esse era Yohji, meu mestre, aquele que me matou e também me despertou para a nova vida.

-Ora, ora...Você continua se assustando com pouco... – Se abaixou, beijando- me nos lábios, não sabia dizer se ternamente ou por safadeza mesmo...A segunda opção era a mais coerente. Abri um pouquinho a boca, deixando-o explorá-la...Não adiantava dizer não para ele mesmo...Já havia desistido há muito tempo de negar seus beijos de chegada e despedida. Dentro de alguns segundos separei-me, não podia deixá-lo passar do limites.

-Chega mestre... -

Ah...Você está arredio...Eu vim a procura de um pouquinho de carinho e nem meu pupilo pode me dar? - Sua expressão era de falsa tristeza... Conhecia-o muito bem, havíamos convivido por muito tempo juntos. – Que vida cruel...Ninguém quer um pobre vampiro velho... – Sua cara de deboche se acentuou, enquanto tragava o cigarro profundamente.

Sorri para ele, balançando a cabeça em uma negativa.

– Desculpe-me mestre, não posso dar o que você quer... – No fundo, sabia que de acordo com a hierarquia, eu não devia estar falando isso para ele...afinal, eu era praticamente seu servo, devia obediência a ele, assim como Vittorio devia a mim...e sabia que ele podia me obrigar a ir para a cama com ele se quisesse, e não havia nada que eu pudesse fazer... só podia confiar no bom senso que meu mestre sempre teve, de me tratar como amigo/amante e não como o escravo que eu deveria ser...

Enquanto eu o fitava, esperando por sua resposta ou por qualquer coisa que ele fosse dizer, seu sorriso se alargou, mostrando uma perfeita e branca carreira de dentes. Os caninos pontudos se sobressaindo.

– Ok, Aya, me conte quem é seu novo amor...Vittorio? – Me abraçou pelos ombros, levando-me para fora do prédio enquanto conversávamos. Expliquei tudo para ele, desde como conheci Omi, até o ataque nervoso do outro vampiro havia pouco tempo atrás...

-Você acha prudente namorar um humano? – No momento estávamos na praça que ia dar na casa de Omi...Andávamos devagar, mas eu o estava guiando até lá...sabia que podia confiar nele...sempre pude...

-Não vejo porque não...eu gosto muito dele...

-Bem, você faz suas escolhas e arca com as conseqüências... – Tragou o cigarro que carregava, talvez o quinto desde que começamos a caminhar...Bem, não ia matá-lo mesmo...

-Mestre...eu...

-Hm? – Me olhou displicentemente, levantando uma sobrancelha... -Eu...acho que vou precisar de ajuda... – o nervosismo havia começado a tomar conta de mim daquele momento em diante...o mesmo nervosismo que me atormentaria por mais de um ano... – É o Vittorio...

-Vittorio? O que tem o garoto? – Olhou mais seriamente para mim, agora realmente disposto a me ouvir.

-Tenho medo do que ele possa fazer... – antes de Yohji começar a rir do absurdo, cortei-o. – Tenho medo do que ele possa fazer quando sente um ciúme doentio... – a boca do meu mestre logo se fechou, e o riso morreu em sua garganta...Tragou o cigarro novamente:

- O que quer dizer? – Franziu as sobrancelhas, estranhando que eu estivesse preocupado com um rapaz tão meigo.

-Vittorio está com muito ciúme... Nunca o vi daquele jeito... Hoje chorou, mas também tentou mostrar a raiva que começou a brotar em seu coração desde o instante que ficou sabendo de Omi... Ele acha que não, mas sei que ele estava aqui espionando a casa de Omi a tarde inteira, mesmo com o perigo de virar cinzas sob a luz do sol... Ele veio...e está, com certeza, tramando alguma coisa...

-E porque você não dá um jeito nisso?

-Já conversei com ele, mas ele não parece entender...Hoje, depois que ele dormiu em meus braços, pareceu mais calmo, mas não quero nem saber como vai ficar quando acordar e perceber que vim ver Omi... eu não sei porque, estou com um péssimo pressentimento, e tenho medo do que possa acontecer...

-Aya... – Meu mestre aproximou-se de mim, olhando-me com olhos graves... – Seus pressentimentos nunca falharam... Você tem certeza do que está falando? Você tem certeza de que Vittorio pode se tornar perigoso, não somente para seu garoto, como para todos nós?

-...Mestre... – Hesitei um pouco...Poderia Vittorio ser tão perigoso? Algo em mim dizia que sim...algo em mim dizia que aquela criança poderia dar lugar a uma fera que não distinguiria nem mesmo sua própria raça...uma fera completamente cega pelo ódio e pelo ciúme... – Hai... eu tenho certeza...

Continua...