Capítulo 7 – E agora?
Uma semana... uma semana surreal havia se passado desde a morte de Cedric Diggory. Nesse tempo, já tinha corrido por toda a Hogwarts mais ou menos o que tinha acontecido na noite da terceira tarefa. Mas surgiam as teorias mais fantasiosas... até mesmo que Harry havia matado Cedric para ficar com o prêmio do Tribruxo sozinho, embora pouquíssima gente acreditasse nisso.
O fato era: Harry e Cedric haviam decidido, por senso comum, pegar a Taça Tribruxo juntos, uma vez que haviam se ajudado por todo o labirinto, acharam que era solução mais justa. Por insistência de Cedric, diga-se de passagem, uma vez que Harry estava com a perna ferida e jamais ganharia uma corrida até a Taça, mas, ao mesmo tempo, ele só se ferira para ajudar Cedric. Enfim... os dois pegaram ao mesmo tempo e foram parar em um cemitério, pois a Taça era uma Chave de Portal. Aí aparecera um bruxo de capa negra segurando um pacote desconhecido. E o pacote ordenara, com uma voz aguda e sibilante: "Mate o outro."Depois disso, Harry só sentiu uma dor descomunal na cicatriz, enquanto a voz do bruxo de negro dizia "Avada Kedavra" e Cedric Diggory caía morto ao seu lado.
Então ele fora amarrado a um túmulo pelo bruxo, que ele descobrira se tratar de Peter Pettigrew. E Pettigrew começou a fazer um ritual de magia negra para que o pacote (que Harry obviamente não tinha a menor dúvida de quem se tratava) revivesse. Retirara pó de ossos de dentro do túmulo, sangue do braço de Harry e depois decepara a própria mão direita fora. Jogara tudo dentro do caldeirão (onde já havia um líquido) junto com o bizarro conteúdo do pacote: do tamanho de um bebê, mas em mais nada parecido com um bebê. Voldemort, tão frágil e ao mesmo tempo tão assustador. A poção sibilara, fumegara, mudara de cor... enquanto Harry torcia com todas as forças para que não desse certo... mas deu.
E Voldemort emergiu do caldeirão, pálido como a morte, fendas vermelhas no lugar dos olhos, narinas retas como as de uma cobra. Convocara os Comensais, eles apareceram aos montes, como se não tivessem se passado 13 anos. Explicara a Harry a magia que usara para ressurgir (osso do pai, sangue do inimigo, carne do servo, etc), torturara o garoto e depois decidira soltá-lo para duelar com ele. Esse foi seu grande erro.
Como as varinhas dos dois eram irmãs, elas se comportaram de uma maneira completamente inesperada, e a varinha de Voldemort começou a expelir sombras dos últimos feitiços realizados. A mão nova que dera a Pettigrew... o espírito de Cedric, denso e concreto, falando com Harry, pedindo ao garoto que levasse seu corpo de volta a Hogwarts, mas ao mesmo tempo um fantasma temporário.. da mesma maneira, o espírito de Franco Bryce, o jardineiro trouxa da casa dos Riddle... Berta Jorkins... e os pais de Harry. James e Lily deram instruções sobre como Harry devia proceder para escapar... e ele escapara. Correra e desviara dos feitiços dos Comensais enquanto os "fantasmas" distraíam Voldemort, segurara o corpo real de Cedric pelo braço e usara um feitiço convocatório para a Taça... voltando, assim, a Hogwarts.
Mas a coisa não acabava aí... enquanto todos se distraíam com Cedric Diggory, alguém que supostamente devia ser Olho-Tonto Moody arrastara Harry para dentro da escola e fizera o garoto contar o que havia acontecido no cemitério. Depois se revelara como o fiel servidor do Lord em Hogwarts, o que havia colocado o nome de Harry no Cálice de Fogo... e que fizera de tudo para o garoto ganhar o Torneio, justamente para que essa noite acontecesse. Só havia um problema. Harry havia sobrevivido. Isso não estava nos planos do Lord. Mas quando "Moody" estava prestes a matá-lo, eis que surge Dumbledore e o estupora, já sabendo que não se tratava de Moody. E eles descobrem se tratar de Barty Crouch Jr., supostamente morto em Azkaban há 12 anos, mas, na verdade, vivo por vontade da mãe, que morrera em seu lugar usando Poção Polissuco para se fazer passar por ele na prisão. A mesma poção que ele mesmo usara para se transformar em Moody.
Ele confirmava toda a história de Harry sobre a volta de Voldemort. Mas enquanto Dumbledore levava Harry para a ala hospitalar e deixava Crouch Jr. por conta de Minerva McGonnagal, eis que aparece Cornelius Fudge e ordena que um dementador execute o beijo fatal no rapaz, impedindo-o de depor para sempre. Recusa-se a acreditar em Harry, Dumbledore, Minerva, Snape e em todos os que confirmam o retorno de Voldemort. Recusa-se a preparar a si mesmo e a população bruxa para a guerra iminente. Fecha os olhos para o óbvio à sua frente, e isso é tudo. Bom, essa é a versão verdadeira dos fatos, que pouquíssima gente em Hogwarts ficou sabendo. Entre essas poucas pessoas, estava Ginny, que contou para Draco, que contou para Blaise, e os dois se tornaram os únicos sonserinos a saber o que realmente aconteceu (pelo menos por enquanto).
Refletindo sobre esses fatos, Draco concluiu que acreditava em tudo. Não, não era delírio do Potter. Era, na verdade, a única explicação lógica para a morte de Cedric Diggory, e o reaparecimento de um Barty Crouch Jr. supostamente morto. E o heroizinho imbecil não era mentiroso, isso não. Nem louco, embora Draco se divertisse muito com os artigos ridículos de Rita Skeeter querendo provar isso o tempo todo. Não, ele podia sentir uma tensão diferente no ar. Como se uma bomba pudesse explodir a qualquer momento…
Essa era a última noite, o último jantar deles em Hogwarts. A escola estava decorada não com as cores de uma possível casa campeã, mas apenas de preto. Luto por Diggory. E Dumbledore resolveu se pronunciar para acabar (ou tentar acabar) com as fofocas. Contar toda a verdade, a verdade que Draco já soubera por Ginevra, mas que chocava tantos que ainda não sabiam. "Cedric Diggory foi morto por Lord Voldemort", dizia ele. Depois, um discurso sobre união, bondade, etc, e Draco começou a se enfastiar. Ficou perdido nos próprios pensamentos até a hora do brinde. Brindaram a Cedric Diggory, e ele ergueu levemente a taça. Afinal, apesar de tudo, respeitava os mortos. E não podia dizer que não gostava de Diggory... nem que gostava. Era indiferente, apenas torcendo por ele para contrariar Potter. Mas não fazia mal brindar.
Foi quando Dumbledore decidiu fazer um segundo brinde... a Harry Potter, que sobrevivera apenas com sua coragem, depois de ter visto Voldemort retornar. Todos seguiram o exemplo do diretor, e também brindaram a Harry. A taça de Draco, porém, permaneceu intocada. Por que é que estão brindando ao Potter? O que foi que ele fez? Não impediu a morte de Cedric Diggory. Não impediu o Lord das Trevas de voltar. A única coisa que fez foi salvar a própria pele. Grande coisa. Grande herói.
Olhando ao redor, ele viu que não era o único na mesa da Sonserina a não brindar a Harry Potter. Não sabia se os colegas de casa haviam pensado a mesma coisa que ele, ou estavam só querendo contrariar Dumbledore e a Grifinória. Crabbe e Goyle, por exemplo, ele sabia que estavam apenas o imitando. Embora eles fizessem parte da extensa gama de coisas que passaram a ser supérfluas em sua vida desde que ele conhecera Ginevra, sabia que os dois não perderiam facilmente a mania de segui-lo como dois canzarrões de caça. E, pensando bem, ele achava que o resto estava só sendo do contra mesmo. Menos mal. Apesar da falta de personalidade, pior seria se brindassem ao Cicatriz.
Ficou um pouco irritado ao ver que Blaise brindara, ainda que discretamente. Ia perguntar ao amigo por que raios fizera isso, quando sua atenção foi desviada para outra pessoa... alguém que ele tinha sérias desconfianças de que não estava se recusando a fazer o brinde apenas para ser do contra: Pansy. Essa tinha personalidade, até demais. Draco reparou que ela olhava as mesas das Casas no Salão Principal com desprezo e desagrado, como se pensasse "Patéticos". Percebendo o olhar do garoto em sua direção, Pansy virou-se subitamente para ele, e Draco deu um meio-sorriso de aprovação a ela, o qual ela retribuiu, como se soubesse perfeitamente por que ele estava sorrindo. Depois, virou-se na direção de Blaise.
- Por que você brindou ao Potter?
Blaise sorriu, enigmático.
- Não posso não, é? Tenho que andar atrás de você, como Weasley faz com Potter?
- Para de gracinha, eu não disse isso. A questão é que ele não fez absolutamente nada, a não ser fugir correndo do cemitério e dos Comensais.
- E que opção ele tinha, Draco? Como poderia enfrentar, sozinho, dezenas de Comensais e mais o Lord das Trevas?
- Que se virasse! Ele não é Harry Potter, o "Menino-Que-Sobreviveu", o grande herói salvador do mundo? Fugir não é típico dos corajosos grifinórios!
- Bom... se formos considerar que Potter esteja contando a verdade... e acho que, como eu, você acredita nisso, independente de gostar ou não dele. Ficar amarrado a uma pedra de túmulo... ser torturado... depois duelar com um bruxo poderosíssimo cercado de todos aqueles Comensais... e ainda sobreviver pra contar a história, já é bastante coisa. Talvez, se ele tivesse morrido lá, naquele cemitério, as pessoas só soubessem realmente o que aconteceu quando já fosse tarde demais.
- Isso só prova que o Lord das Trevas também não é lá muito inteligente. Se tinha Potter amarrado, por que foi que o soltou?
- Ah, o orgulho...! Você sabe muito bem o que é isso, Draco. Imagino que ele deve ter pensado que sua própria consciência imunda sempre o faria se lembrar que só tinha conseguido acabar com o Potter porque ele estava indefeso... que ele nem sequer dera uma chance para o garoto tentar reagir... ou algo assim.
- Grande coisa para quem tentou matar esse mesmo garoto quando ele ainda era um bebê.
- Sabe que nisso você tem razão? – disse Blaise, pensativo – É verdade. Por que essa ânsia toda em matar Harry Potter?
- Bem, eu não o culpo.
Blaise riu com gosto.
- Ah, vamos, Draco, coitado do garoto de ouro... Tenho um leve pressentimento de que esse brinde vai ser uma das poucas manifestações públicas favoráveis que ele vai ter daqui pra frente.
- Por quê?
- Bom, só temos mesmo a palavra dele de que o Lord das Trevas está de volta. Nada de mortes, nada de ataques... nada que realmente prove que o velho caos recomeçou. Você ouviu Dumbledore. "O Ministro da Magia não quer que eu diga isso a vocês" Acho que muita gente vai seguir o querido Ministro e não vai querer acreditar no Potter, entende? É mais fácil não ver.
- Querer é uma coisa, Blaise. Poder é outra. É uma grande estupidez um cego que não quer ver. Cedric Diggory está morto. Não ferido, não seriamente machucado. Morto. Como morreu? Num trágico acidente durante o momento em que ele e Potter resolveram dar um passeio fora de Hogwarts? – disse Draco, num tom cético – Sim, porque Potter não saiu andando do labirinto. Ele apareceu deitado no chão, segurando o cadáver do Diggory com uma das mãos e a Taça com a outra, o que é uma prova clara de que a Taça era mesmo uma chave de portal. Algo que definitivamente não estava nos planos desse torneio. E temos o fato de que Dumbledore acredita no Potter. As pessoas amam, idolatram o homem. Tudo o que ele diz é lei.
- Mas a Weasley não disse que Fudge discutiu com ele, não quis acreditar em nada do que ele dizia? E temos ainda o falso Moody, que recebeu um beijinho carinhoso que o deixou sem alma, de modo que não pode testemunhar confirmando a história. Sei não, Draco... algo me diz que o ministro vai tentar negar enquanto puder essa volta do Lord das Trevas.
- Ainda não consigo acreditar que aquele maldito era uma farsa. Filho de Crouch? Que bizarro... – e aí ele se exaltou de repente – Como as pessoas vão poder ser burras o bastante para não estranhar nem ao menos isso, Blaise? Um cara que teoricamente deveria estar enterrado em Azkaban ressurge dos mortos de repente?
- Afinal de contas, Draco, você quer que as pessoas acreditem no Potter, então?
- Eu estou pouco me lixando para o Potter.
- Eu sei... a minha pergunta, na verdade, é: você quer que as pessoas saibam a verdade? Você sabe muito bem quem Potter acusou de fazer parte dos Comensais. Você quer que todos saibam disso?
Draco ficou em silêncio por um tempo. Não sabia responder a pergunta de Blaise... afinal, queria que se tornasse público o fato de que seu pai era um servidor do Lord das Trevas? Bom, verdade ele já sabia que era. Não por causa de Potter, mas porque seu pai sempre dizia que se o Lord algum dia retornasse (mesmo que falasse como quem não acreditava realmente que isso podia acontecer), ele voltaria para seu lado. Principalmente quando se irritava com quaisquer assuntos relacionados a trouxas, sangues-ruins e seus simpatizantes, os quais eram as vítimas favoritas do Lord. E todos os nomes que Potter dissera pensavam como Lucius. Portanto, que eles todos estiveram naquele cemitério, era fato.
Agora, se Draco desejava que isso se tornasse público... Na verdade, o que ele queria mesmo era que o Lord não tivesse voltado. Porque tinha certeza do que viria a seguir. Já tinha 15 anos, não era mais uma criança. Seu pai ia querer que ele seguisse seus passos e se tornasse, também, um Comensal da Morte. O que ele não tinha a menor intenção de fazer. Não queria tomar partido nenhum na guerra que se seguiria agora, simplesmente porque não concordava com as ideias de nenhum dos lados. Viu que Blaise o olhava, como se esperando uma resposta, e resolveu quebrar o silêncio.
- É, acho que talvez não... Terei um pouco mais de paz se as coisas forem realmente como você acha que vão ser. Eu imagino que meu pai não vai fazer tanta pressão para que eu me junte a ele enquanto tudo ficar nas sombras. Mas acho difícil, sabe... mesmo que o Ministério queira vendar os próprios olhos e os da população bruxa, não vai conseguir por muito tempo.
- Não tenha tanta certeza disso. Esse anonimato pode ser uma grande vantagem para o Lord das Trevas e seus Comensais. E eles vão ser aproveitar disso, se puderem. Imagina, Comensais por todos os lados no Ministério...
- É, imagina o tamanho da burrice! Ah, mas quando vier à tona... Fudge vai se ferrar.
- Vai mesmo. Mas acho que o próprio Fudge quer acreditar que tudo seja uma grande ilusão do Potter.
- E a imprensa, Blaise? Vai ficar calada? Vai deixar passar uma história como essa?
- E desde quando é interesse da imprensa ser inimiga do governo, Draco? O Profeta vai dizer exatamente o que Fudge mandar.
- E o que eles vão falar? A história ridícula que está correndo por aí de que Potter matou Diggory e agora está querendo pôr a culpa no Lord? – perguntou Draco, debochado.
- Ah, não... não vão transformar o rapaz num criminoso, isso seria muito grave... mas vão tentar desacreditá-lo de todas as formas. A Rita Skeeter já não vem fazendo isso há um bom tempo?
- E você acha que alguém acreditou nessa mulher?
- Mas agora é interesse do Ministério... talvez eles até a transformem numa repórter... digamos... séria, se ela concordar em continuar as agressões ao Potter.
- Isso daria um trabalho... mas até que seria divertido ver o Potty passar por maluco. – disse Draco, com um sorriso de desdém.
- Bom, vamos ver no que vai dar isso. Eu aposto qualquer coisa como o Fudge vai fingir que nada aconteceu, e muita gente ainda vai engolir.
- E quanto ao Dumbledore?
- Essa é a minha maior dúvida. Será que vão querer fazer ele passar por maluco também?
- Duvido que conseguiriam. Eu já disse, todo mundo ama o velho.
- Amam o Potter também, Draco. Mas você não faz ideia do que se pode fazer com um pouco de persuasão.
- Eu faço ideia sim. Mas, mesmo que você esteja certo, sempre vai ter aquele grupinho que vai acreditar no Potter e no Dumbledore.
- Ah, isso com certeza! Mas se eles forem minoria, o que vão poder fazer? Até eles conseguirem provar que um bruxo das trevas ressurgiu quase dos mortos, vão estar de pés e mãos atadas. Imagino que, no próprio Ministério, vai ter até gente sendo demitida se insistir em ficar contra a posição do governo.
- Vamos viver em uma ditadura, então?
Blaise viu a cara de desagrado do amigo e pensou: "Pronto. A coisa chegou ao ponto fraco do Draco."
- Mas você não disse que seria divertido ver o Potter passar por maluco?
- Isso sim, mas não tinha pensado que as coisas poderiam chegar a uma ditadura. Bem... nunca se sabe... se todos enxergarem o óbvio, talvez não cheguem mesmo.
- Você está confiando muito na inteligência das pessoas, Draco.
Draco deu de ombros, e os dois saíram da mesa. Mas ele fez o caminho de volta para a Torre da Sonserina um tanto pensativo. Essa história de "não poder ir contra a posição do governo" não o agradara em nada... embora não tivesse a certeza de que ia mesmo ser assim. E o pior: não sabia o que queria que acontecesse. Odiava a indecisão... uma coisa era não tomar partido nenhum porque não queria mesmo tomar. Outra, completamente diferente (e desprezível, na sua opinião), era não ter uma posição porque não sabia o que queria. De repente pensou em Ginevra. Ela certamente vai ficar do lado do Potter…Mas isso não era motivo para ele ficar também. Aliás, acontecesse o que acontecesse, jamais ficaria do lado do Potter. Ficaria apenas do lado de Draco Malfoy.
O dia amanheceu cinzento em Hogwarts. As nuvens que não ameaçavam chuva, mas nem por isso davam indícios de que poderia sair o sol, eram uma perfeita amostra de como estava o espírito da maioria das pessoas. Uma semana não apagava a morte de um colega e as circunstâncias em que ela ocorrera. Mas, principalmente, estavam todos sem saber o que pensar com o chocante discurso de Dumbledore na noite anterior. Aliás, todos não. Alguns sabiam perfeitamente o que pensar. E isso não os deixava com o espírito menos cinzento e opaco.
Draco resolveu se despedir de Ginny de manhã bem cedo, antes de todos acordarem. Mandou Pandora, sua coruja (uma linda coruja negra, aliás, muito mais bonita e garbosa do que aquela coisa branca insossa do Potter) com um pequeno bilhete ao quarto da garota. A coruja era muito bem instruída. Devia bater devagarinho na janela, e só entrar e entregar o bilhete se fosse Ginevra quem abrisse ("a ruiva, Pandora, só tem ela de ruiva lá, entendeu?"). Se ela fizesse tudo bem silenciosamente, com certeza nenhuma das outras saberia que uma coruja esteve no quarto.
Dito e feito. Quarenta minutos depois, Ginny estava no corredor de sempre, onde Draco havia dito que estaria. Draco estava com a cabeça e um dos pés recostados na parede, e as mãos para trás. Exibia no olhar um visível tédio. Olhou-a de cima a baixo. Ela parecia mais linda que o normal. Draco achava que era alguma coisa no cabelo... ou nos olhos. Mas foi com fingido desinteresse que ele disse:
- Slytherin, como as mulheres demoram pra se arrumar!
Impressionante como mesmo assim ele é incrivelmente atraente!
- Mas vale a pena, como você pode ver... – ela respondeu, marota.
Ele não pôde conter o riso.
- Quer dizer que a convivência comigo transformou você numa convencida... que interessante, Ginevra. Seus amiguinhos já sabem disso?
- Claro que não. Essa Ginevra é exclusividade sua.
- Então eu sou realmente um cara de sorte.
E a beijou.
- A sua coruja é muito linda, Draco. Mas tinha um arzinho superior irritante... por que será?
- Porque ela é muito bem ensinada.
- Você vai me mandar cartas por ela durante as férias?
- Talvez... imagino que você não vai aguentar de saudade de mim.
- Eu? Na verdade eu pensei em você, coitadinho, tão solitário em sua mansão… eu vou estar na Toca, cheia de gente!
- Cheia de coelhos, você quer dizer, né? Ah, isso me faz pensar em uma coisa... minha coruja não vai conseguir chegar naquele lugar. E se chegar, não vai acreditar que o dono dela está mandando cartas para alguém que more naquilo. Desculpa, não vai dar.
- Ah, entendo... – disse ela, com um ar de inconfundível piedade – sua coruja não te obedece. Tudo bem, eu compreendo.
Ele a agarrou pela cintura.
- Não me provoca.
Ela sorriu.
- Ai, como é fácil vencer você... tão previsível!
- Ah, é? Então preveja isso.
Largou-a e saiu andando pelo corredor. Ginny gargalhou.
- Draco... Draco, não seja criança. Draco, volta aqui!
Ele continuou andando como se não a ouvisse. Ela suspirou.
- Ah, está bem! – gritou – Vou tomar café então, Harry deve estar me esperando!
Draco se virou num movimento automático, antes que pudesse se conter. Como ela ousava provocá-lo ainda mais, principalmente falando no maldito Potter? Quando olhou para ela, viu que ela sorria provocante. E... era impressão dele ou só agora ela afrouxara a gravata do uniforme e abrira uns dois botões da blusa de gola? Somando isso ao fato de que Draco finalmente percebeu a principal diferença na aparência de Ginevra (os lábios, mais corados do que o normal, com algum brilho em tom de rosa que os deixava ainda mais convidativos), não pôde pensar em outra coisa pra fazer que não fosse voltar de repente, segurá-la com força possessiva e beijá-la ardentemente. Quando o beijo acabou, ele viu que, sem querer, revertera o jogo a seu favor. Ela estava completamente sem fôlego e até um pouco tonta. Ele a amparou quando ela cambaleou, e sorriu.
- Será que agora você admite que vai sentir minha falta?
- Não sei... – ela respondeu, ainda tonta, e em seguida sorriu de volta – Mas sei que o seu beijo é ainda melhor quando você está irritado.
A satisfação pelo elogio destruiu completamente qualquer resquício de irritação pelas palavras anteriores dela.
Quando as carruagens sem cavalo se posicionaram para levar os estudantes à estação, todos pareciam anormalmente ansiosos em subir em uma. Era como se deixar o castelo fosse deixar também as sombras da morte e do perigo que pairavam sobre ele. Como se, ao voltar para casa, todos se dessem conta de que tudo não passara de um pesadelo e a vida seria normal como sempre. Mas alguns sabiam que não seria assim. Quando chegaram a Hogsmeade, onde o Expresso de Hogwarts já estava esperando por eles, Ginny, Harry, Ron, Hermione, Fred e George pegaram um vagão para si e passaram a maior parte da viagem jogando, conversando e rindo. Mas não para fingir que as sombras não existiam. Justamente por terem plena consciência delas, achavam que pelo menos durante uma inocente viagem tinham o direito de se divertir um pouco.
Quando os Weasleys se despediram de Harry e Hermione e já estavam se preparando para usar o Flu do bar mais próximo para chegar em casa, perceberam que não estavam sozinhos. A comitiva que havia intimidado os tios de Harry na estação (que incluía o verdadeiro Moody e outras pessoas que eles não conheciam) não deixara a companhia deles, e, juntamente com Arthur e Molly, não parecia os estar guiando ao lugar de sempre.
- Aonde vamos, mãe? – perguntou Fred.
- Você vai ver, querido.
- Não vamos para a Toca? – insistiu Ron.
- Não, Ron – respondeu o pai – Dessa vez não vamos.
- E para onde vamos? – dessa vez era George.
- Não ouviu sua mãe? – cortou Moody, ríspido – Siga-nos e faça perguntas depois.
Chegaram a um local escuro e abandonado. A experiência com o mundo bruxo, porém, dizia a Ron, Ginny e os gêmeos que se tratava de algo mais. Dito e feito. Com algumas palavras e feitiços saídos da varinha de Moody, apareceu uma legião de vassouras que estavam escondidas ali de alguma forma provavelmente mais complicada que o necessário (afinal, era Moody).
- Cada um pegue uma e me siga – comandou ele.
- Mas não há vassouras suficientes! – ponderou Ginny.
- É claro que há. – respondeu Molly – Você e Ron não vão sozinhos. Você vai comigo e Ron com seu pai.
Em meio aos protestos de "Não sou mais criança!" e "Posso perfeitamente voar sozinho!" vindos dos dois, os pais se posicionaram nas vassouras.
- Vamos logo, vocês dois, não é hora para criancices! – o tom anormalmente sério e irritado do pai conseguiu silenciá-los, e os dois acabaram obedecendo.
Com feitiços de camuflagem, todos meio que desapareceram no ar enquanto voavam para um lugar que Ginny não fazia a menor ideia de onde era ou mesmo o queera. Esse pensamento dava um frio no estômago, pois era a verdadeira prova de as coisas realmente haviam mudado. Uma guerra silenciosa estava começando, e ninguém parecia saber ao certo o rumo que ela tomaria. Depois de algum tempo voando no ar frio da noite, eles chegaram a uma rua de Londres e pousaram entre uma casa de número 13 e outra de número 11. Papéis foram dados aos filhos Weasley junto com a recomendação "Leiam e memorizem rápido!". Ginny leu o seu (em que havia uma caligrafia fina e familiar) rapidamente: A sede da Ordem da Fênix encontra-se em Grimmauld Place, número 12. Rapidamente a tinta desapareceu e uma casa surgiu entre as duas. A comitiva entrou primeiro, enquanto Molly e Arthur esperaram os filhos.
- Vamos, crianças, entrem agora. – disse a mãe.
Os filhos entraram no que descobriram ser uma grande, nobre e antiga casa, que só mesmo por magia poderosa poderia estar escondida naquela rua trouxa. Ginny sentiu arrepios. Sussurros pareciam acompanhá-los por onde quer que andassem, e naquela escuridão não havia como saber de onde vinham. De repente fez-se ouvir uma voz alta e num tom de forçada jovialidade, contrastando completamente com todo aquele clima sepulcral.
- Ah, não se preocupem. Essa casa adora mostrar a todos o que realmente é: desagradável. Acho que não adianta muito, mas enfim... sejam bem-vindos.
E archotes se acenderam repentinamente, revelando o rosto do padrinho de Harry, Sirius Black. Ele sorria, parecendo feliz em vê-los, embora Ginny tivesse certeza de que algo impedia que a felicidade dele fosse completa.
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Já se passavam alguns dias desde que Draco voltara para casa, e o pai parecia sempre ocupado. Ao que o garoto ficava muito grato, uma vez que as inevitáveis pressões estavam sendo adiadas. O único problema é que estava se sentindo entediado. Nunca em sua vida torcera tanto para as férias acabarem, a fim de que pudesse retornar a Hogwarts. E ele sabia muito bem o motivo. Em casa, não havia ansiedade por encontros secretos nos corredores, ou pelos inesperados e tão esperados encontros não-marcados. Em casa, não havia para quem sorrir enviesadamente no café da manhã e vê-la olhar para os lados com medo de que alguém visse. Em casa, não havia Ginevra. Depois de alguns intermináveis dias, resolveu escrever para ela. Não seria algo que demonstrasse o quanto ele sentia falta dela (afinal, ele era, acima de tudo, um Malfoy), mas sim uma carta descontraída. A quem eu quero enganar? Assim que essa carta chegar, ela vai perceber que eu estou desesperado atrás dela. Decidindo-se por ignorar esse insistente pensamento, começou a escrever. Depois de inúmeros rascunhos rasgados, conseguiu algo que considerou satisfatório e mandou.
Porém, os dias se passaram e nada de Pandora voltar com a resposta de Ginevra. Milhares de pensamentos, cada um mais improvável que o outro, passavam pela cabeça de Draco, inclusive o mais absurdo de todos: ela simplesmente não se interessar mais por ele.
Quando a coruja regressou, depois do que pareceram semanas, estava com uma carta. Draco a pegou ansioso, para descobrir, entre decepcionado e intrigado, que era a mesma que ele havia mandado. Ou seja, Pandora não havia entregado a carta a Ginevra.
- Escuta aqui, Pandora. Eu sei que eu nunca mandaria cartas para um lugar como aquele estando em meu estado normal de sanidade mental, mas é uma necessidade, entende?
Mas a coruja piava, frenética, de uma maneira que Draco conhecia bem... sua vaidosa Pandora ficava indignada assim nas raríssimas vezes em que falhava em alguma de suas missões. Ou seja... ela não havia sequer encontrado Ginevra. O sonserino começou a estranhar. Afinal, a despeito de todas as piadas, ele sabia que, fosse onde fosse a "casa" dos Weasleys, Pandora encontraria. O que o fazia chegar à conclusão de que a garota não estava lá. Ficou quieto, pensando, enquanto a coruja se refazia da viagem infrutífera com água fresca e os deliciosos petiscos que só mesmo um bom Malfoy era capaz de proporcionar. Onde estaria Ginevra? Estaria em perigo? Algo lhe dizia que não, pois sabia que os comensais não estavam agindo abertamente ainda. Então, por que ela não estava na tal "toca"?
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Grimmauld Place
Passadas algumas semanas, Ginny descobriu, afinal, que não era tão emocionante assim viver no Quartel-General da Ordem da Fênix. Sim, ela e os irmãos entenderam rapidamente que a casa de Sirius fora escolhida para sede da revivida ordem da qual muitos fizeram parte na antiga guerra (inclusive seus pais) por ser o local com mais métodos de segurança possíveis (afinal, a tradicional família Black não gostava de intrusos, muito menos sangues-ruins, traidores do sangue, pobretões, etc). Além disso, fora adicionado a ela o Feitiço Fidelius, cujo guardião era, logicamente, Dumbledore. Assim, eles estavam no local mais seguro do mundo, onde o que de mais excitante que acontecia eram os berros do retrato da mãe de Sirius, que o filho descobrira, irritadíssimo, que não havia como retirar da parede. Certo, até que não era bem assim. Reuniões secretíssimas eram realizadas constantemente ali, e Fred e George arrumaram um jeito de escutar as que eram possíveis.
- Orelhas extensíveis – diziam eles, com um sorrisinho – Nossa nova invenção que certamente vai ser um sucesso absoluto em Hogwarts. E aqui, ela vai ser de grande ajuda pra gente.
Eles estavam certos. Com as orelhas, puderam ouvir coisas que seus pais jamais contariam a eles, embora não fossem tão emocionantes assim. O máximo que conseguiam ouvir é que havia gente da Ordem seguindo e marcando os Comensais, outros trabalhando para recrutar mais gente para a própria Ordem, outros montando serviço de guarda a alguém ou alguma coisa... isso despertara a curiosidade de Ginny por algum tempo, mas acabou deduzindo que a guarda era para Harry. Ele vai ficar furioso quando souber, pensou ela. De vez em quando Snape aparecia por lá, mas nem com as Orelhas Extensíveis era possível descobrir o que era dito nas reuniões em que ele participava. De qualquer forma, Ginny não confiava nele. Nem ela nem nenhum dos irmãos Weasley.
- Eu gostaria muito de saber o que ele escreve nos seus relatórios ultrassecretos... – dizia Bill, a voz impregnada de desprezo – Provavelmente um monte de mentiras para encobrir seus amiguinhos comensais.
Isso, acima de tudo, fazia Ginny detestar Snape. Se Bill não gostava dele, isso decidia a situação.
No mais, a rotina era limpar (ou pelo menos tentar limpar) a casa, que estava imunda e cheia de coisas desnecessárias. Rotina que fora quebrada uma vez, por um fato extremamente desagradável: Percy, que chegara todo cheio de si contando que tinha sido promovido a assistente júnior do ministro. Mas como todos sabiam que Fudge só concedia espaço a quem se colocasse contra Dumbledore, foi fácil ver por quais caminhos Percy estava se enveredando. Houve uma grande briga nesse dia. E, para surpresa de todos, era Arthur quem gritava com o filho, enquanto Molly permanecia quieta, apenas chorando de decepção e tristeza. E, a partir do dia em que Percy saiu de casa dizendo que não pertencia mais à família, nunca mais o nome dele foi mencionado pelo pai. Ginny, apesar de ter ficado com raiva do irmão, sentiu uma pontada de pena. Era a ambição de Percy levando-o para o lado errado, deixando-o cego como Fudge. No fim, ela sabia que a verdade viria à tona e ele se envergonharia do que fizera... a única dúvida era se ele reconheceria isso diante da família. Ginny teve, então, a impressão de que perdera o irmão, e chorou.
Além de tudo, sentia uma falta imensa de Draco. E nem sequer podia escrever a ele, pois todos desaconselhavam que saíssem muitas cartas dali. Ela sabia que, se tivesse uma coruja, não se importaria com isso... mas teria que pedir a coruja de Ron emprestada, e sabia que isso despertaria tantas perguntas, que no fim, sua intenção de mandar uma carta com privacidade seria completamente destruída, o que a forçaria a desistir de escrever.
O melhor de se viver ali eram as pessoas novas que Ginny conhecera. A família Tonks, que consistia em Ted, Andromeda e sua filha Nymphadora (que jamais, em hipótese alguma, aceitava ser chamada de Nymphadora, a não ser pela mãe, a quem não conseguia convencer a chamá-la pelo sobrenome), eram as pessoas de quem ela mais gostava. A Tonks filha era extremamente estabanada e derrubava tudo que encontrava pela frente, mas era também muito divertida e engraçada. Era uma metamorfomaga, por isso sempre assumia uma aparência diferente. Seu pai, Ted, era um bruxo nascido trouxa, e era uma das pessoas mais agradáveis que Ginny já conhecera. Tinha um olhar inteligente e afetuoso, e sempre uma história engraçada para contar (a maioria delas envolvendo seus parentes trouxas). Andromeda, que era prima em primeiro grau de Sirius, era uma mulher muito bonita, de cabelos castanhos claros e olhos surpreendentemente violeta, decidida e ao mesmo tempo meiga, de quem Ginny gostou instantaneamente. Era capaz de ser doce ou amarga conforme a situação requisitasse. Uma vez, durante uma reunião, não foram necessárias as Orelhas Extensíveis para ouvir uma discussão dela com Snape sobre uma missão que estava supostamente atrasada. Quando saiu da sala, batendo a porta, e foi para a cozinha beber água, Ginny estava lá e sentiu um pouco de medo que pudesse sobrar pra ela também. Andromeda, no entanto, virou-se para ela sorridente e disse:
- Aposto que vocês adoraram isso.
Bebeu a água calmamente, enquanto Ginny olhava para ela intrigada, e depois acrescentou:
- Snape tem o dom de me deixar nervosa. Mas andar pelo jardim sempre me acalma. Gostaria de ir comigo?
- Jardim? Existe um jardim aqui?
E foi aí que Ginny descobriu o que passou a ser um de seus passatempos favoritos naquela casa sombria. O maravilhoso jardim que ela demorou tanto a saber que existia.
- Andromeda... como isso é possível?
- Isso se chama magia, minha querida.
- Sim, eu sei... mas ainda assim... parece impossível.
Ali estava a maior variedade de plantas raras e bonitas que Ginny já vira em toda a sua vida. Ela tinha a impressão de que cada uma delas tinha uma cor diferente, e irradiava um brilho que fazia todas as tonalidades se encontrarem no ar e darem uma aura de paraíso ao jardim. Não soube dizer por quanto tempo ficou ali, boquiaberta, contemplando aquela cena de beleza excepcional, até que foi despertada pela voz rouca e suave de Andromeda, impregnada de nostalgia.
- Foi o tio Alphard quem fez esse jardim aqui. Viajou por todo o mundo bruxo atrás dessas plantas e as trouxe para cá, dando seu toque especial, é claro. Ele tinha realmente um dom para captar a beleza, como um artista.
- Acho que eu nunca vi uma coisa tão linda em toda a minha vida.
Andromeda riu.
- Provavelmente não viu mesmo. Eu vivi um pouco mais que você, e ainda não vi... Bom, de qualquer forma, ainda bem que o tio Alphard era um gênio. Senão, essa maravilha não estaria mais aqui.
- Por quê? – perguntou Ginny, espantada. Afinal, quem ia querer se livrar de algo tão lindo?
- Porque quando ele rompeu com a família, tentaram destruir o jardim, para descartar qualquer lembrança dele aqui. Mas, como você vê... não tiveram sucesso.
- E por que ele brigou com a família?
- Porque era diferente de todos eles, assim como eu e Sirius. Como era brilhante, o comportamento dele era tolerado pelos irmãos. Mas quando Sirius saiu de casa, e tio Alphard resolveu deixar dinheiro para ele... aí foi a gota d'água. Tio Orion, que se tornou o patriarca Black depois da morte de vovô Pollux, expulsou-o daqui.
- Me desculpe por dizer isso, Andromeda, mas sua família parece um tanto quanto... intransigente.
- Intransigente? Acho que você está sendo condescendente com eles. "Horrível" seria a palavra apropriada. Ainda bem que escapei da convivência deles ainda mais cedo do que Sirius e tio Alphard.
- Quando casou com Ted?
- Exatamente. Eles nunca aceitariam meu casamento com um "sangue-ruim", não é mesmo? Mas eu não estava nem um pouco interessada no julgamento deles... Ted é alguns anos mais velho que eu, portanto, quando eu terminei Hogwarts, ele já tinha um emprego. Assim, nos casamos imediatamente e eu nunca mais vi minha mãe, meu pai ou minhas irmãs.
Não havia nenhum resquício de tristeza na voz dela ao dizer isso. Pelo contrário, foi sorrindo que ela acrescentou:
- Somente Sirius ia sempre me visitar, é claro... desde pequeno que ele nunca seguiu nenhuma regra dos Black. Resultado: fugiu de casa aos 16 anos.
- E foi viver com você e Ted?
- Não. Ted e eu vivíamos longe da cidade, e Sirius queria ficar na civilização. Ele foi acolhido pelo seu melhor amigo.
- O pai de Harry?
- Isso mesmo. James e os pais fizeram questão de que Sirius ficasse com eles até que completasse 17 anos, pudesse ter acesso à herança do tio Alphard e, assim, montar sua própria casa.
- E ele também não viu mais os pais?
- Bom, ele agora vê a mãe todos os dias... – respondeu Andromeda, irônica. – Via o irmão na escola, no último ano, e chegou a vê-lo umas poucas vezes antes que Regulus morresse.
- Nossa... o irmão de Sirius está morto?
- Está. Ele virou Comensal da Morte assim que deixou Hogwarts. Mas parece que quis desistir, e como Voldemort não aceita carta de demissão... – ela fez um gesto como o de uma faca passando pela garganta.
Ginny fez uma careta.
- Aposto que os pais dele não discordavam das ideias do Lord das Trevas.
- Nem um pouco. - disse Andromeda, disfarçando o estranhamento que sentiu por escutar o título "Lord das Trevas" vindo da boca de uma Weasley – Só não se juntaram a ele ativamente porque já eram mais velhos. Decidiram ficar na mansão e dar apenas apoio moral e financeiro, quando ele precisasse.
- Por que todas as famílias de sangue puro têm que ser assim?
- A sua não é...
- E olha como vivemos. Olha a nossa situação financeira, Andromeda. Por acaso você sabe como os Weasleys perderam tudo?
- Sei sim, Ginny. Sei da velha história, da velha briga, do golpe dado em seu tataravô pelos irmãos quando ele permitiu que a filha se casasse com um trouxa. Mas... isso incomoda você? Digo, essa situação? Preferia viver numa mansão como essa? Ou se sente feliz na Toca?
- Não me incomoda, Andromeda. Sou muito feliz na Toca, muito mesmo... mas... Percy, por exemplo, não era. Olha o que a ambição fez com ele... sei também o quanto Ron detesta ser pobre, e Fred e George...
- E você gosta?
- É como eu disse, Andromeda, sou muito feliz lá e...
- Não estou mais falando da Toca, Ginny. Sei o que existe lá que faz você tão feliz. Estou falando de ter uma situação financeira difícil. Você gosta? Ou pretende melhorá-la ao sair de Hogwarts?
- Bem, eu... pretendo, é claro... mas...
- Então não deve culpar seus irmãos por não gostarem. Com exceção de Percy, tenho certeza de que todos vocês são felizes de alguma forma. Só não querem ter privações para sempre, não é? Afinal, quem é que disse que um pouco de ambição é pecado? Desde que bem dosada, acho que faz até bem.
Ginny ficou em silêncio. As palavras de Andromeda lembravam as de Draco... "um pouco de ambição faz até bem...". No caso de Draco, era mais que um pouco... mas ainda assim, ela não achava exagerada. Lembrou-se subitamente dos planos que ela e Draco faziam juntos em Hogwarts... ousados, ambiciosos, inteligentes e divertidos. De fato, se havia uma prova de que ela concordava plenamente com Andromeda, essa prova era Draco.
- ... Draco. – dizia Andromeda. Ginny deu um pulo.
- O que você disse?
Andromeda se assustou com a reação de Ginny.
- Disse que minha irmã caçula sempre foi ambiciosa, mas ainda teria salvação se não tivesse casado com aquele demônio loiro. E que ele agora certamente vai tentar envenenar também a mente de Draco. Por quê?
- Você... sua irmã... você é irmã de Narcissa Malfoy?
- Originalmente nascida Narcissa Black, sim. Por que tão espantada, Ginny?
Ginny não respondeu. Seu coração batia descompassadamente, e nada tinha a ver com a surpresa da descoberta de que Andromeda era tia de Draco (embora essa surpresa fosse genuína). Por um momento, parecia que Andromeda lera seus pensamentos, ao começar, subitamente, a falar de Draco no mesmo instante em que Ginny pensava nele.
- Eu... jamais poderia imaginar. Você.. é completamente diferente dela... da imagem que eu tenho dela... e de toda a família dela.
- Claro que sou. É como eu disse, sou diferente. Narcissa e Bellatrix eram as irmãs autenticamente Black. Eu era o patinho feio. As duas fizeram seus casamentos perfeitos com milionários sangues-puros da alta sociedade bruxa, enquanto eu me casei com Ted. Mas é como eu estava dizendo... sempre vi algo de malévolo em Bellatrix, portanto não me espantei quando ela foi para o lado dos Comensais. Mas Narcissa... tenho certeza que ela teria salvação se não tivesse casado com Malfoy, e espero que Draco ainda tenha.
- Ah, ele tem. – disse Ginny, sem pensar. Andromeda olhou para ela com espanto.
- É mesmo? Você conversa com ele? Sempre achei que todos os Weasleys odiassem os Malfoys!
- Eu... bem... é... eles odeiam mesmo... é que...
Ginny sentiu que corava furiosamente e entrou em pânico, sem saber o que responder a Andromeda. Afinal, as palavras escaparam dela antes que pudesse se conter.
- É que uma vez... uma vez Draco me chamou para dançar e... ficamos amigos.
Andromeda olhou para ela com uma expressão indecifrável. Ginny achou que não se expressara direito. Resolveu tentar outra vez.
- No Baile de Inverno, Draco me chamou para dançar. Na verdade, ele estava provocando meu amigo Neville, que estava dançando comigo e pisava toda hora no meu pé. Neville é muito desajeitado, e Draco sempre gostou de implicar com ele. Então Draco disse ao Neville que eu não queria mais dançar com ele porque ele estava pisando no meu pé. E me arrastou para a pista, antes que eu pudesse brigar com ele. E desde então, eu passei a conversar com ele, e ficamos amigos.
- É mesmo? Isso é ótimo! Então quer dizer que você é amiga do Draco? Como ele é? Não se tornou insuportável como o pai? Ele dança bem?
A voz de Andromeda era tão animada e cheia de inocente empolgação que Ginny não pôde deixar de rir.
- Uma de cada vez, Andromeda! Ele... ele é diferente de todas as pessoas que eu conheço. Decididamente não é insuportável. É ambicioso, inteligente... tem pavor da minha família, mas já conseguimos superar esse pequeno incômodo. E... ele dança muito bem, sim.
- Ginny, você não sabe o quanto me faz feliz! Eu não pensei que conseguiria notícias do meu sobrinho aqui! Me fala mais dele... como é essa questão da família?
- Nós já tivemos uma briga muito feia por causa disso. Peguei ele discutindo com Ron uma vez, humilhando e falando barbaridades da minha família. Fiquei um bom tempo sem falar com ele. Mas uma vez pegamos detenção juntos, e ele me fez escutar o que ele tinha a dizer. E ele me disse coisas que eu nunca esperava ouvir. Como, por exemplo, ele odeia ser comparado ao pai o tempo todo. Ele sempre chamou meu pai de perdedor, mas admitiu considera o próprio pai muito mais perdedor que o meu. E falou muitas outras coisas que eu nunca esperava ouvir dele, e me pediu desculpas! O que foi ainda mais surpreendente, pois Draco é muito orgulhoso.
Ela disse tudo isso muito rápido, mas Andromeda não pareceu ter qualquer dificuldade para entender. E continuou fazendo perguntas sobre Draco, envolvendo Ginny lentamente, até que, sem qualquer aviso, disse:
- Tudo isso me deixa muito feliz, Ginny. E o melhor de tudo é que sei que é verdade. Pois se ele fosse um arrogante miserável como o pai, não teria se apaixonado por você.
O espanto no olhar de Ginny não deixou mais nenhuma dúvida em Andromeda. Se a garota não soubesse do que ela estava falando, certamente teria uma reação mais contida, faria uma cara de descrença e até riria... não praticamente pularia de susto e ficaria vermelha de vergonha, como fez agora. Era a reação típica de quem era descoberto de repente.
- Está tudo bem – disse Andromeda, com um sorriso tranquilizador – Eu estou realmente feliz por vocês. E principalmente por saber que tenho um sobrinho tão maravilhoso. Bom, eu acredito que ele seja maravilhoso... ou seus olhos não brilhariam tanto enquanto fala dele.
E Ginny sentiu que podia confiar plenamente em Andromeda. Podia, finalmente, contar a alguém tudo o que acontecera entre ela e Draco nos últimos meses, fazendo-a mais feliz do que jamais poderia imaginar. Descobriu-se falando sem parar, e Andromeda era uma excelente ouvinte, pois estava genuinamente interessada em tudo o que Ginny contava. Riu das frases convencidas de Draco, e das que Ginny aprendera com ele... bateu palmas quando Ginny contou sobre o primeiro beijo e as circunstâncias em que ele ocorreu... ficou triste quando a primeira briga séria aconteceu... e soltou quase um grito de satisfação quando eles se reconciliaram na detenção.
Quando Ginny mostrou o presente de aniversário que ganhara de Draco, o pingente de prata com uma pequena serpente de esmeralda, pôde ver que Andromeda ficara genuinamente comovida. A garota, por sua vez, sentiu-se extremamente aliviada em dividir isso com alguém. Tinha certeza que Blaise Zabini sabia do que havia entre eles, porque, apesar de nunca ter realmente conversado com ele, de vez em quando o amigo de Draco lançava uns olhares simpáticos de cumplicidade a ela. E ela sempre se sentia mal ao pensar que não havia ninguém para quem pudesse contar tudo e esperar compreensão. Como era bom ter, agora, Andromeda. Mas o sorriso eufórico dela diminuiu ao contar à nova amiga seus temores.
- Mas acho que você está exagerando quando diz "apaixonado", Andromeda... sei que Draco me acha interessante e diferente, sim... e sei também que ele adora me beijar. – acrescentou com um sorrisinho maroto – Mas isso é bem diferente de estar apaixonado.
- Essa é a vantagem de estar de fora, e não vivendo a situação. Já percebi, pelo seu relato, coisas que você não me contou, porque não sabe, e nem precisa. São facilmente dedutíveis.
- Do que você está falando?
- De nada que possa significar algo pra você se ouvir de mim. Mas pode estar certa de uma coisa... ele gosta de você de verdade. – finalizou ela, sorrindo.
Mais dias se passaram sem grandes novidades, até que veio a bomba. Harry sofrera um ataque de dementadores em pleno mundo trouxa, estava ameaçado de expulsão por usar magia, e a caminho de Grimmauld Place.
- Isso é um absurdo! – dizia Hermione – Não podem expulsá-lo, simplesmente não podem! Há exceções para essa regra de não usar magia fora da escola, e usar para salvar a própria vida é uma delas!
- Como se o Ministério se importasse realmente com isso... – dizia Bill, com um olhar sombrio – Eles estavam doidos pra ter um caso contra o Harry, e agora finalmente conseguiram! Eu não me impressionaria se descobrisse que foram eles mesmos que mandaram os dementadores pra lá!
- Ora, Bill, menos! – dizia Arthur – Isso é claramente coisa de Você-Sabe-Quem, e o Ministério se recusa a enxergar, como sempre! Mas vão absolvê-lo. Amelia Bones é justa, e vai perceber que a justiça está do lado do Harry.
Mas Ginny podia sentir a incerteza na voz do pai ao dizer isso. Ela não sabia o que pensar. Simplesmente não conseguia conceber Hogwarts sem Harry, ele expulso... e, quando não imaginava algo de jeito nenhum, geralmente esse algo não acontecia... ela torceu para que dessa vez não fosse diferente.
Quando Harry chegou, trazido por Moody, Tonks, Kingsley Shacklebolt (um auror negro, forte e gentil) e outros membros da Ordem, estava realmente nervoso. Furioso. E não pela perspectiva de ser expulso injustamente. Na verdade, o que o enfurecia era o fato de ter ficado quatro semanas sem notícias do mundo bruxo, trancafiado na Rua dos Alfeneiros e pescando jornais no lixo. E a pescaria nem servira para fazê-lo saber que estava sendo ridicularizado no Profeta Diário. Ginny o entendia. Também ficaria possessa no lugar dele. Quem ela não entendia era Dumbledore. Por que ele se mostrara irredutível em relação a isso? Parecia estar tomando uma distância proposital de Harry, e Ginny não conseguia compreender o motivo disso. E, ao se colocar ao lado do amigo, teve uma ideia súbita. Quando os dois estavam sozinhos, pediu Hedwig emprestada.
- Minha amiga Luna Lovegood... bem, você não a conhece. Se conhecesse, entenderia porque estou ansiosa em mandar notícias a ela. Ela acredita no retorno do Lord e é um tanto excêntrica. Está preocupada comigo, porque sabe que a minha família está diretamente envolvida nessa guerra silenciosa, e disse que se eu não mandasse notícias pra ela em um mês, ela enviaria um "falcão gigante farejador" pra descobrir o que estava acontecendo comigo.
- Um o quê?
- Um falcão gigante farejador.
- O que é isso?
- Algo que provavelmente não existe, Harry, mas por favor, me deixa escrever a ela dizendo que estou bem!
Harry olhou para ela e pensou em protestar, dizendo que ninguém tivera essa preocupação com ele, mas se conteve, pois não era verdade. Ginny tivera. Ficara do lado dele, quisera mandar notícias, e garantiu que, se tivesse uma coruja que fosse dela, teria feito isso. Pôs-se no lugar da amiga dela e concluiu que ficaria ainda mais desesperado por notícias de Ginny se soubesse que ela não estava na Toca.
- Está bem – disse ele, sorrindo – Pode tranquilizar sua amiga.
E Ginny sentiu-se estranhamente culpada...
... mas escreveu para Draco assim mesmo. Imaginava que ele realmente estivesse preocupado, esperando notícias dela, mesmo que nunca admitisse. E a conversa com Andromeda a animara ainda mais a respeito do relacionamento dos dois. Quando acabou de escrever, prendeu a carta a Hedwig e disse, em tom de segredo:
- Não conta pro Harry onde você foi de verdade!
Fez um afago carinhoso na coruja e a soltou.
Draco, por sua vez, não sabia mais o que pensar. Tentara enviar Pandora outra vez, dessa vez sem especificar algum endereço, apenas com a ordem "Ache Ginevra!", e mais uma vez a coruja voltara com a carta. Como era possível? Tentou estudar o rosto do pai para ver se conseguia captar algo diferente, como alguma ação da qual Draco não soubesse... chegou até mesmo a se arriscar para escutar as reuniões secretas que ele fazia com outros Comensais no escritório, mas nada ouviu a respeito de um suposto sequestro de Ginny, ou de qualquer outra pessoa. Só conseguiu saber que Voldemort estava atrás de alguma coisa que estava escondida em algum lugar do Ministério da Magia, que parecia uma arma poderosa, e que o grupo de resistência comandado por Dumbledore atendia pela ridícula alcunha de "Ordem da Fênix". Mas o que estaria acontecendo com Ginevra? Onde ela estaria?
Quando achou que não suportava mais não saber a resposta para essas duas perguntas, avistou uma coruja vindo na direção de sua janela. Mas não era uma coruja qualquer... era grande, branca e vistosa... ele conhecia aquela coruja… Potter! Mas o que ele quer comigo? Fosse o que fosse, provavelmente ele teria as respostas que Draco procurava. Embora a perspectiva de Potter saber onde estava Ginevra (e ele não) o deixasse furioso. Enquanto a coruja se aproximava rapidamente, Draco tomou uma decisão. Não deixaria a coruja ir sem amarrar em sua pata uma resposta malcriada a qualquer coisa que Potter tivesse escrito a ele. Quem sabe ele não descobriu sobre mim e Ginevra e está com ciúme... ah, eu gostaria de ter visto a cara dele!
A coruja, que Draco sabia se chamar Hedwig, estava quase chegando. Draco recebeu-a na janela, com água fresca e petiscos que tinham um cheiro irresistível. Ainda assim, achou que seria difícil convencê-la a entrar, mas quando viu e sentiu os odores, ela entrou no quarto imediatamente. Draco afastou a água e a comida da janela e pôs em um canto, fechando a janela. Ela nem hesitou. Foi para lá e passou a comer e beber como se não existisse mundo lá fora. Por Slytherin! Será que o Potter mata essa coruja de fome?Draco podia ver a reação pouco amistosa de Pandora à intrusa que comia sua comida e bebia sua água, mas advertiu-a para que ficasse quieta. Afinal, era por uma boa causa. Aliás, excelente, pois qual não foi a surpresa de Draco ao abrir a carta que a coruja trazia e ver que era de Ginevra.
Ela dizia que não estava em casa, mas também não podia dizer aonde estava, garantindo apenas que estava bem. Compreensível. Deve estar com toda essa tal de Ordem da Fênix, e mandar uma carta para a casa de um Comensal da Morte dizendo a localização de todos os membros seria loucura. Não mandei notícias antes porque não tenho coruja e Harry não estava aqui. Veio pra cá depois do incidente com os dementadores, do qual você já deve estar sabendo. Draco sabia sim. E sabia também que os dementadores eram reais... mas pouco se importava. A perspectiva de ver Potter expulso, independente do motivo, era animadora além da conta. Ele continuou lendo. Se eu pegasse a de Ron, ele não ia me deixar em paz. Está bem, pensou ele impaciente, já entendi porque não me escreveu antes! Ele sabia o que queria realmente ver escrito na carta. E pôde se permitir um sorriso quando finalmente encontrou. Sabe, até que você faz um pouquinho de falta sim... afinal, tem tanta coisa suja e bolorenta aqui que eu gostaria de ter sua ajuda para limpar, como naquela detenção... aliás, gostaria de ter você aqui para fazer todas as coisas que fizemos na detenção... enquanto isso, fico só imaginando o que vou fazer com você quando conseguir encontrá-lo outra vez. Me espere, Ginevra.
O sorriso dele aumentou, e ele percebeu que não foi a única coisa nele a crescer. Céus, olha o que essa garota está fazendo comigo! Olhou para Hedwig, e ela continuava comendo, satisfeita. A ideia de trocar cartas com Ginevra pela coruja do Potter proporcionava a Draco uma satisfação ainda maior. Ele escreveu uma resposta e esperou até que ela estivesse devidamente saciada para prender na patinha.
- Escute bem... – ele dizia, enquanto a afagava carinhosamente – não foi seu dono quem me mandou essa carta, não é? Pois eu quero que entregue para a garota que me escreveu. Você pode fazer isso?
Hedwig deu uma carinhosa bicada no dedo dele como resposta.
- Ótimo. Você é uma bela coruja! E quando voltar a Hogwarts, vai ganhar mais desses petiscos!
Ela levantou voo, plenamente revigorada e feliz.
Ginny não estava esperando uma resposta de Draco. Afinal, instruíra Hedwig para que entregasse a carta e partisse imediatamente. Então, quando a coruja voltou com uma carta na patinha, ela pensou, decepcionada, que sua carta não tivesse sido entregue.
- Puxa, Hedwig... o que aconteceu? Não encontrou a casa dele?
Mas a coruja fazia sinais frenéticos para a própria pata.
- O que... não! Será possível que ele...
Ela abriu a carta.
Olá, Ginevra.
Como está a vida sem mim? Está conseguindo sobreviver? Sabe, foi a preocupação com o seu bem-estar que me fez responder sua carta e escrever estas extremamente bem traçadas linhas. Afinal, no meio do populacho com quem convive diariamente, você deve mesmo estar sentindo falta de algum refinamento.
Mas não se preocupe, eu resolvi ser misericordioso e dispensar um pouco do meu tempo a você. Embora, é claro, eu esteja muito ocupado aqui. Afinal, você sabe quantos afazeres me aguardam diariamente nessa minha sofrida vida de milionário.
Inclusive, tem uma festa amanhã. Pena que nela não vou sentir um perfume doce mas ao mesmo tempo sensual, pertencente a uma certa ruiva que tem o estranho dom de me arrepiar com um simples toque.
Sem mais para o momento,
DM
Ginny ficou sem reação. Primeiro, porque não esperava uma carta de Draco. Como é que ele conseguira convencer Hedwig? Bem, essa resposta ela teve assim que tentou, distraidamente, dar um pedaço de bacon à coruja como agradecimento e ela recusou sumariamente. É claro, – pensou ela, divertida – ele a subornou com comida. Típico, Draco!
Mas o que a deixou ainda mais sem fala foi o conteúdo da carta... ele bancava o convencido de sempre o tempo todo, soltava a informação bombástica no final... e, antes que ela pudesse se recuperar, se despedia. Ela quase conseguia reconstruir a carta toda como um diálogo entre ela e Draco! Sentiu vontade de mostrar a carta a Andromeda, mas acabou não o fazendo. Decidiu que guardaria só para ela.
E esperava com ansiedade ainda maior pelo momento em que o reencontraria, imaginando todo o tipo de coisas... "Ginny, acho que você anda imaginando demais. Vai com calma, menina!" Pronto. Lá vinha a vozinha outra vez! Calma, – respondia ela à vozinha – esse "todo tipo de coisas" que eu imaginei não é o que você está pensando! E além do mais, que mal faz imaginar? "Que mal faz? Simplesmente que você fica aí imaginando, depois não consegue se controlar, e..." Ei, pode parar com isso! Eu tenho muito juízo, viu? Só que não sou mais criança! Por acaso você quer que eu fique brincando de selinho com ele a vida toda? "Claro que não... mas não precisa ficar toda empolgadinha só porque a Andromeda disse que ele está apaixonado por você. Lembre-se sempre que está lidando com Draco Malfoy!" Ok! Disso você pode ter certeza que eu não vou me esquecer...
O resto das férias transcorreu sem grandes incidentes. Harry foi absolvido ("Eu sabia! Eles não tinham caso contra você, Harry!" – dizia uma Hermione um tanto aliviada demais para quem sabia), mas mesmo assim Ginny achou arriscado tentar se aproveitar da boa vontade dele para pedir Hedwig emprestada outra vez. Afinal, se tinha apenas que mandar notícias a "uma amiga", essa amiga já estava devidamente informada. Logo, não houve mais cartas para Draco... apenas a ansiedade em revê-lo. O que aconteceu de mais emocionante foi a nomeação de Hermione e Ron para monitores (esta última inacreditável, na opinião de Ginny, Fred e George) e a pequena comemoração que houve em Grimmauld Place por causa disso. Ginny se pegou pensando que Draco provavelmente também recebera o distintivo. Os passeios com Andromeda se tornaram um ritual noturno (o brilho das flores durante a noite era hipnotizante), e as duas foram ficando cada vez mais amigas. Andromeda contou várias coisas a Ginny, desde casos da própria infância até as histórias da Primeira Grande Guerra contra Voldemort. Ginny contou de sua paixonite infantil por Harry, sobre como ele a salvara no incidente da Câmara Secreta, e sobre como ela se tornou uma pessoa mais feliz depois que superara esse sentimento imaturo. Ocasionalmente, também, as duas falavam sobre Draco. Assim, o dia de voltar a Hogwarts foi ficando cada vez mais próximo, e Ginny o esperava ansiosamente.
Na hora de entrar no Expresso de Hogwarts, Ginny viu Hermione e Ron explicando a Harry (com visível constrangimento) que não poderiam viajar todos juntos dessa vez, pois os dois tinham que ir para o vagão dos monitores. Ela ouviu Harry responder:
- Claro, claro! Sem problemas!
Mas a voz não parecia a dele. Ginny podia ver que Harry não estava confortável com aquela situação, e só não demonstrava para não parecer arrogante e despeitado. Mas ela não achava que ele era nem uma coisa nem outra. Compreendia perfeitamente os sentimentos do amigo, pois ela mesma era incapaz de achar uma explicação plausível para a nomeação de Ron para monitor, e não a do próprio Harry. O palpite de Sirius de que o afilhado "estava sempre criando confusão na escola" não colava nem um pouco, pois, na maioria das vezes, Ron também estava no meio da confusão.
Aliás, Ginny estava achando Dumbledore cada vez mais esquisito. Primeiro a falta de notícias a Harry, depois o fato de ter aparecido no tribunal para defender o garoto, mas sem sequer olhá-lo, e agora isso... Para tentar diminuir a frustração do amigo, foi com ele procurar uma cabine, encontraram Neville no meio do caminho e os três acabaram se sentando junto com Luna Lovegood, a amiga de Ginny. Tomara que Harry não invente de perguntar a ela sobre a suposta carta que eu escrevi mandando notícias! Mas se Harry pensou em perguntar algo a Luna, foi rapidamente distraído pelo incidente com a nova planta de Neville, que soltara um líquido viscoso e fedorento em cima dele, e pela aparição de Cho Chang justamente nessa hora. Caramba, mas ele também dá um azar!
Em seguida, uma nova aparição, que fez o coração de Ginny dar um pulo. Draco Malfoy, que exibia um reluzente distintivo de monitor. Ele ensaiou um meio-sorriso para ela, (fazendo-a prender a respiração com medo de que alguém visse) mas em seguida se virou para Harry.
- Humm... parece que tem alguém deixando de ser o aluno favorito de Dumbledore! Por que será que ele escolheu seu amiguinho em vez de você, hein, Potter?
Foi Neville quem respondeu:
- Não enche, Malfoy!
Draco virou-se para ele com a melhor expressão de deboche que tinha e ia responder alguma coisa, quando Ginny interveio:
- Malfoy... eu me comportaria direito se fosse você...
A expressão dela era significativa. Ele sorriu.
- Nossa, Weasley... está me ameaçando?
- Talvez... acho que você vai descobrir que eu posso ser bastante ameaçadora. Não sou mais uma criança, sabia?
- Isso é fácil de perceber... – ele respondeu, olhando-a de alto a baixo de uma maneira que a fez corar e ter uma imensa vontade de rir, principalmente pela reação explosiva de Harry, que se levantou de um pulo, a varinha apontada para Draco.
- Engole o que você disse, Malfoy!
A sobrancelha esquerda do sonserino se ergueu.
- Nossa, Potter... por que tão irritado? Estou apenas constatando o fato de que a Weasley fêmea realmente cresceu e...
Um feitiço saiu da varinha de Harry com tanta rapidez que Ginny ficou se perguntando como é que Draco conseguira bloquear. E ela, por mais que estivesse achando toda a situação muito cômica, viu que era hora de acabar com a festa, uma vez que Neville também estava com a varinha em punho e com uma expressão nada amigável no rosto.
- Querem deixar de ser ridículos, todos vocês? Malfoy... acho bom você sair daqui.
- Pra quê? Enfrento esses dois com os olhos vendados...
- Haha! Muito valente você, mas não queremos demonstrações de macheza aqui, obrigada.
- Está bem. Existe algum outro lugar em que eu possa fazer uma demonstração de macheza pra você?
Agora Draco fora longe demais. Harry, furioso, esqueceu a varinha e partiu pra cima dele, e Neville já fazia menção de fazer o mesmo, quando Ginny sacou a própria varinha e apontou para os dois:
- Petrificus totalus!
E ela teve que recorrer às suas últimas forças para não rir da cena que se seguiu. Harry estava em cima de Draco, com uma expressão furiosa congelada no rosto e o punho erguido para um soco, enquanto o sonserino erguera o joelho direito para golpear Harry, a mão esquerda fazia menção de segurar a do grifinório, e a direita estava esticada à procura da própria varinha. Luna, obviamente, não fazia esforço nenhum pra segurar o riso, e a risada dela era tão engraçada que Ginny sentiu que não conseguiria manter a expressão séria por muito tempo.
- Pronto... agora está bem melhor. Será que os dois vão se comportar agora?
Olhares furiosos foi o que ela recebeu como resposta.
- Hummm... assim acho que não vai dar, sabem? Se continuarem me olhando desse jeito, vou achar que vocês dois vão voltar a brigar assim que eu desfizer o feitiço. Vamos... vocês podem fazer melhor que isso.
Com óbvio esforço, as expressões de Draco e Harry ficaram mais contidas. E Ginny voltou a falar como se estivesse ensinando uma lição a duas crianças malcriadas:
- Ótimo! Bem melhor assim, não é mesmo? Agora será que posso soltar vocês? Posso mesmo? Ah, que bom!
Ela apontou a varinha em direção à figura dos dois no chão, lamentando que não tivesse uma máquina para fotografar a situação, e gritou:
- Finite incantatem!
Os dois se levantaram, trocando olhares rancorosos entre si e reservando alguns a Ginny.
- Cara feia pra mim é foomee... – cantarolou ela, em resposta.
Em uma situação normal, Draco teria respondido algo como "Esse assunto de fome não é comigo, meu sobrenome não é Weasley", mas agora ele apenas apertou os olhos na direção dela (Ginny pôde jurar que viu faíscas saírem deles e o achou mais sexy do que nunca) e saiu da cabine. Harry, por sua vez, continuou de cara amarrada.
- Você não devia ter feito isso.
- E deveria ter feito o quê? Deixar vocês dois se engalfinharem até a morte e ainda ver o Neville entrar na brincadeira? Queria ver o que aconteceria com vocês se alguém em Hogwarts tivesse ficado sabendo dessa cena ridícula que houve aqui!
- Ri... ridícula m-mesmo! – disse Luna, que ainda não se recuperara do ataque de riso, o que não contribuiu nem um pouco para melhorar o humor de Harry.
- Mas não precisava me deixar naquela situação... constrangedora.
- Ah, ficou com vergonha? Que ótimo! Uma pena que não tenha se envergonhado de brigar como um trouxa com um cara que vive pra te irritar desde que pisou em Hogwarts pela primeira vez!
- Eu não podia deixar ele falar aquelas coisas pra você.
Ah, isso por que você não sabe as coisas que ele faz comigo...
- Harry... é como eu disse pro Malfoy… eu não sou mais uma criança. Não preciso nem quero você fazendo um papelão daqueles pra me defender!
- Mesmo assim, – teimou ele – eu não vou admitir que ele fale aquele tipo de coisa pra você na minha frente. Quem ele pensa que é?
Ela sorriu.
- Está bem, muito obrigada por querer defender a minha integridade moral, mas por favor, não faça mais isso, sim? Se for atacar o Malfoy, que seja pelo menos com algum feitiço.
Ele acabou sorrindo também.
- Certo. Vou me lembrar disso da próxima vez.
Quando chegaram a Hogwarts, Ginny estava morrendo de fome. A "aventura" no vagão do trem ajudara a contribuir para isso. Quando sentou-se ao lado dos colegas quartanistas, viu que Harry, Ron e Hermione olhavam para alguma coisa (ou alguém) na mesa dos professores e cochichavam. Ela olhou na direção para a qual eles pareciam estar apontando, e viu a professora nova (certamente de Defesa Contra as Artes das Trevas). Era uma mulher baixa e gorda, e havia algo desagradável na expressão dela. Ginny pressentiu que, por alguma razão, não ia gostar da nova professora. Ficou tentada a perguntar por que os amigos estavam tão interessados nela, mas viu que ia começar a seleção, e decidiu esperar.
Aliás, o início da cerimônia já foi tão interessante que quase espantou a fome de Ginny. O Chapéu Seletor cantou uma música diferente, que falava sobre união entre as casas. Certamente está fazendo isso por causa da guerra iminente. Mas é óbvio que tem gente estúpida o suficiente pra não entender.
Enquanto se dava a seleção, Ginny ficou estudando os rostos dos alunos e viu que estava certa. A maioria deles sequer parecia ter estranhado a música. Em suas expressões, somente a impaciência característica para que todos os calouros fossem logos selecionados e o banquete começasse. Ela não resistiu em olhar para a mesa da Sonserina para saber qual fora a reação de Draco, e viu que ele conversava com Blaise Zabini. A expressão no olhar dele era zombeteira, enquanto Zabini parecia bastante pensativo. Ginny olhou para a própria mesa e achou bastante curioso que a expressão no rosto do amigo de Draco fosse idêntica à de Hermione. Assim como ela, dá pra ver que ele já sacou tudo o que está acontecendo. Ginny descobriu-se interessada em saber mais sobre Zabini. Afinal, talvez Draco não seja o único sonserino que foge à regra da babaquice. Tão entretida estava que só se deu conta que a comida já havia aparecido quando viu que era a única que ainda não estava comendo.
Quando todos estavam devidamente saciados, Dumbledore se levantou e abriu os braços para os alunos, parecendo, como sempre, felicíssimo ao vê-los ali. Ginny achava isso muito bonitinho, mas como já conhecia o discurso de cor, deixou que seu pensamento vagasse, imaginando quando teria a oportunidade de ficar a sós com Draco.
- ... para a professora Umbridge, nossa nova responsável pela Defesa Contra as Artes das Trevas. – dizia Dumbledore.
Umbridge? A mulher do julgamento do Harry?Ginny de repente se deu conta de por que Harry, Ron e Hermione estavam cochichando e apontando para ela.
E, de repente, aconteceu algo que serviu para prender completamente a atenção de Ginny. A professora Umbridge se levantou e fez um barulhinho com a garganta, indicando que queria falar. Houve um burburinho geral, pois nenhum professor novo jamais havia interrompido Dumbledore em seu discurso. A expressão de Minerva McGonnagal revelava absoluta fúria. O diretor, porém, não pareceu se incomodar, e sentou-se, feliz da vida, para ouvir o que a nova professora tinha para dizer.
- Obrigada, diretor, pelas bondosas palavras de boas-vindas.
A voz dela era afetada, artificial. Ginny agora não tinha mais a impressão que não ia gostar da professora. Tinha certeza.
- Bom, devo dizer que é um prazer voltar a Hogwarts! E ver rostinhos tão felizes voltados para mim!
Será que a mulher é retardada? Por que pensa que nós temos dois anos de idade?
- Estou muito ansiosa para conhecer todos vocês, e tenho certeza de que seremos bons amigos!
Deve ser alguma espécie de piada... Dumbledore não pode ter contratado alguém assim para ser nossa professora.
Ginny já estava se preparando para voltar a pensar em Draco, quando o tom e o conteúdo do discurso da professora Umbridge mudaram. Ela disse coisas como "o progresso pelo progresso não será estimulado", "nova era de eficiência e responsabilidade" e "alguns hábitos desgastados serão descartados". Do que essa mulher estava falando? Quem era ela pra dizer quais hábitos deveriam ser cortados ou não? Nenhum professor tinha tal autoridade, a não ser Dumbledore! Que significava isso? Ginny se virou para os três amigos quintanistas, e viu que Hermione parecia estar encerrando uma explicação a Harry e Ron, de uma forma que, curiosamente, respondia à pergunta de Ginny.
- Significa que o Ministério da Magia está interferindo em Hogwarts.
Então era isso. A tal Umbridge estava ali como espiã do Fudge. O olhar de Ginny se virou automaticamente para a mesa da Sonserina, e ela viu que, mais uma vez, a expressão de Blaise Zabini era idêntica à de Hermione. Era a expressão de quem entendia o que estava acontecendo mais do que a maioria ali, e seria capaz de tirar as dúvidas de qualquer um sobre o assunto. Seguindo o olhar do rapaz, Ginny viu que ele olhava para Draco, cuja expressão era indecifrável. Mas Ginny seria capaz de jurar que ele também não estava gostando da situação, por mais que não fosse do grupo pró-Harry-contra-o-Ministério. Afinal, detestava a ideia de ter alguém controlando as ações dele...
As aulas de Umbridge eram uma espécie de piada de mau gosto. Ela mandava ler capítulo por capítulo do livro, depois ia explicando tudo de novo... ridículo. Desse jeito não ia dar pra ninguém se defender contra nenhum tipo de arte das trevas, por mais inofensivo que fosse. Aliás, a simples presença daquela mulher estava sendo suficiente para deixar Hogwarts muito próxima do que Ginny chamava de "inferno". Umbridge estava mesmo levando a sério a história de ser espiã do Ministro. Não se podia respirar dentro do castelo sem a permissão dela. Qualquer coisinha mais ousada, por mais mínima que fosse, corria o risco de ser barrada por um dos inúmeros "decretos" que ela andava baixando todos os dias. Por Merlin, era uma ditadura! Só havia uma coisa que fazia Ginny suportar tudo sem maiores problemas... ou melhor, uma pessoa. Sorrindo, ela se lembrou do primeiro encontro com Draco em Hogwarts.
Ginny estava passando distraidamente por um corredor, a caminho da aula de Poções, quando se viu agressivamente puxada sem nenhum aviso para um canto escuro, por um par de mãos fortes e impetuosas. Seu primeiro impulso foi gritar, mas o estranho tapou sua boca, já parecendo antever suas intenções. Não satisfeito, tapou também seus olhos, e ela se debateu em pânico, sem ver contra quem estava lutando. Quando perdeu todos os movimentos, completamente dominada, ouviu uma voz em seu ouvido.
- Será que dá pra ficar quieta? O que vai ser da minha reputação se eu for visto com você?
Ah, Merlin! Maldito, cínico e sexy Draco Malfoy!
Ele a soltou, com um sorriso debochado ao ver a expressão de susto no rosto dela.
- Draco! Quer me matar de susto?
- Pense nisso como uma vingança pelo que você me fez ontem no trem.
Foi a vez dela sorrir:
- Ah, ficou bravo, foi?
- Pelo menos sei que o Potter ficou ainda mais pelas coisas que eu disse pra você.
- É mesmo, seu maluco! O que é que deu em você?
- Nada. Apenas vontade de irritar o Potter... e aproveitar pra poder falar com você de alguma forma.
- Ah, é... esqueci que você não consegue viver sem mim. Subornou até a coruja do Harry na ânsia por me escrever uma carta.
- E você teve a cara de pau de pedir a coruja dele emprestada pra escrever pra mim... caramba, Ginevra, onde você anda aprendendo essas coisas?
Ela sentiu um impulso incontrolável, e, quando viu, já estava beijando Draco.
- Adoro você me chamando de Ginevra... – ela disse quando os dois se separaram.
- E eu adoro ter você pra chamar dessa forma.
Os beijos foram se tornando mais ousados. Parecia que os dois sentiam uma fome insaciável um do outro, pelo tempo que tinham ficado sem se ver. Draco a encostou na parede, uma das mãos se insinuando pelas costas dela por baixo da blusa do uniforme, enquanto a outra se mantinha possessivamente na nuca de Ginny. Ela descobriu que não queria pará-lo. Pelo contrário, puxou-o para mais perto, movimentando-se contra ele enquanto o beijava. Começou a sentir algo que jamais havia sentido antes em seus poucos 14 anos de existência. Sua vontade foi deixar que as mãos dele fossem mais além, e fazer algo com as próprias mãos... mas de repente se lembrou para onde estava indo antes de ser puxada por Draco.
- Draco... Draco, para... Draco!
- O que foi?
- Olha só o que você está fazendo!
Ele sorriu daquela forma bastante "Draco":
- Nada que você não esteja gostando...
- Não é disso que eu estou falando... está fazendo eu me atrasar pra aula do Snape! Logo no primeiro dia!
- Ótimo... chame isso de vingança número dois!
- Não acha que já se vingou o suficiente?
- Acho que não...
Ele fez menção de se aproximar novamente, mas encontrou a barreira das mãos dela.
- Não, senhor. Prometo a mim mesma que não vou perder 50 pontos pra Grifinória no primeiro dia de aula. Fica quietinho aí.
Ela ajeitou o uniforme, enquanto barrava novas investidas dele. Sorriu, provocante, e disse:
- Bom dia pra você, Draco.
E saiu, enquanto ele a olhava, o costumeiro sorriso torto nos lábios.
Depois desse dia, Draco adquirira o hábito inquietante (e excitante, ela tinha que admitir) de puxá-la pelos corredores e beijá-la sem aviso. Sendo que, agora, ainda havia um problema a mais para os dois: Umbridge. Sabiam que consequências desagradáveis aconteceriam se fossem pegos por ela, e os dois espiões que ela arranjara pareciam estar mais em toda parte do que nunca (leia-se Filch e Madame Nora). Mas o aumento do perigo só a fazia ansiar mais pelos beijos "roubados" de Draco...
Bom, não fosse isso, a vida certamente seria um inferno. Agora a Sapa Velha (o apelido "carinhoso" que uma alma inspirada chamada Fred Weasley havia inventado para Umbridge) inventara que até os times de quadribol tinham que pedir permissão a ela para se reorganizar. Mas no final, tudo correra bem, até mesmo para a Grifinória (embora a implicância de Umbridge com a casa fosse alarmante).
Tanto que, no primeiro jogo, Grifinória x Sonserina, a equipe estava completa e sedenta pela vitória. O clima no Salão Comunal era de decisão. Ginny podia entender o por quê. Vencer os sonserinos seria uma forma de vencer Umbridge, já que eles eram os alunos favoritos dela. Isso porque muitos deles eram filhos de idiotas como Percy, que estavam do lado do Ministro da Magia por ambição, e outros eram filhos de Comensais infiltrados no Ministério. Mas Draco não gosta dela, pensou Ginny, lealmente. Ela se lembrou da expressão de desprezo no rosto dele ao falar da professora. "Ela é patética. Vive puxando o meu saco e falando bem do meu pai. Se ao menos soubesse quem ele é de verdade... fico só imaginando a cara dela.", dizia Draco.
De qualquer forma, ninguém sabia dos verdadeiros sentimentos de Draco por Umbridge, pois, na frente de Harry e dos outros grifinórios, ele não os demonstrava. Só para ser implicante, Ginny sabia, mas não adiantava. Eles estavam decididos a vencer a Sonserina no quadribol, e Draco Malfoy era um dos alvos favoritos. Harry, então, estava frenético.
- Ele vai aprender a controlar aquela boca grande.
Ah, essa não, Harry! Ainda?
- Por quê? O que foi que aquele babaca andou dizendo dessa vez? – perguntou Fred.
Harry ficou calado, a expressão compenetrada e furiosa.
Que bonitinho! Se ele ficasse assim por causa de mim há uns dois anos atrás, eu estaria pulando!
O jogo já começou violento. Ao contrário do que pedira o Chapéu Seletor, a rivalidade entre as duas casas parecia maior do que nunca. E a narração de Lee Jordan, como sempre, muito "imparcial":
- E Angelina Johnson está com a bola, passou pelos dois batedores sonserinos com uma liiiiiinda finta, aliás os dois estão lá batendo cabeça até agora... mas enfim, ela está chegando nas balizas e... OPA! SEU BRUTAMONTES COVARDE, FILHO...
- Jordan, já vai começar cedo?
- Mas professora, foi uma falta clara...
- Vou ter que tomar o megafone?
- Está bem, está bem...
E o jogo continuou, mais violento do que nunca, inclusive por parte dos grifinórios. Rapidamente, o jogo já estava 80 a 70 para Sonserina, sendo que a maioria absoluta dos gols havia sido de pênalti. Quando avistavam o pomo, Harry e Draco disparavam como se a vida dos dois dependesse disso, e bloqueavam um ao outro com faltas perigosas. Ginny achava que o coração dela ia saltar pela boca. Nem contia os gritos de nervosismo quando um quase derrubava o outro, pois sabia que todos pensariam que era por causa de Harry. Ou, pelo menos, ela acreditava nisso, já que estava tão entretida no jogo que esqueceu de prestar atenção em Hermione...
O jogo continuava feroz, e o placar, apertado. 190 a 170 para Sonserina, e os jogadores cada vez mais machucados. De repente, Harry e Draco deram uma guinada para baixo ao mesmo tempo, e todos prenderam a respiração. Era o pomo. E, como Harry estava voando um pouco mais baixo que Draco, começou a levar vantagem. Vendo isso, Draco estreitou os olhos e começou a forçar a si mesmo e a sua vassoura numa descida tão rápida que era quase vertical. Ginny sufocou um grito, apenas colocando a mão na boca. Mas parecia que ia dar certo. O sonserino aproximava-se cada vez mais de Harry, que não pôde disfarçar seu espanto ao ver a arriscada manobra que Draco estava tentando.
- O que diabos...
Mas antes que ele pudesse completar a frase, Draco se desequilibrou da vassoura e caiu duramente no chão, batendo primeiro a cabeça, depois as pernas, e finalmente o resto do corpo, ficando de bruços, inerte.
- OH, MEU DEUS! – Ginny gritou, em desespero, sob o olhar atônito de Hermione.
N/A: Oi, lindezas! Capítulo grande esse, né? Espero que não tenha ficado cansativo demais... me digam o que acharam, sim?
Cassiopee Naos: Fico muito feliz que você gosta do meu Draco! Eu tenho um enorme prazer de escrevê-lo, ele é um anti-herói, né? E eu adoro anti-heróis. Que bom que você achou as desculpas dele convincentes. No decorrer da história ele ainda irá amadurecer muito, claro. Afinal, será uma história grande, muitos capítulos pela frente. Ah, e no próximo capítulo Blaise já estará de volta! :)) Sobre eu seguir a trama original, obrigada pelos elogios, eu realmente tentei, mas já adianto que a partir do sexto ano isso vai mudar... eu tive algumas ideias que não casam muito com o enredo da JK, e você verá muitas diferenças. Mas arrisco dizer que preparei algo bem legal. Fica comigo! :)) Bjão e até o próximo capítulo!
KmileM: Que bom que você gostou! Eu temia que a reconciliação deles não ficasse convincente, que as desculpas dele não soassem suficientes, afinal, ele pegou pesado com ela... mas parece que agradaram, e eu fico feliz! Sobre a terceira tarefa, eu também me divirto de vez em quando em fazer minhas versões pra algumas cenas da JK; embora, como eu disse pra Cassiopee, a partir do sexto ano isso vai diminuir um pouco (mas confia em mim e não me abandona hahaha) Espero que esse monstro de capítulo, cheio de referências de OdF, tenha agradado também! :))
Beijos e até o próximo capítulo,
Bella
