Capítulo VI

Saphira preparava-se para pousar um pouco antes da cidade para que a adentrassem a segurança dos elfos. Seguiram Arya pelo mesmo caminho da última vez que lá estiveram e não demoraram a encontrar os dois que os receberam.

Cumprimentaram-se como o devido e Eragon pôs-se calado. A elfa lhe contou no caminho a boa nova. Havia roubado o último ovo que pertencia a Galbatorix.

"Mas como? ... Perigoso!... Por que não me chamou para ir junto...? Por que não me contou???".

E que aquele ovo verde que se esperava que ficasse intacto por um longo tempo, já escolhera seu novo cavaleiro.

"COMO??". Saphira mal formulava frases completas em sua cabeça. Estavam abobados. Arya explicou-lhes que não contara aos Varden, pois era arriscado demais. Isso se o déspota já não soubesse.

Depois do vôo muito silencioso, e agora a caminhar para o centro de Ellesméra, Eragon ainda refletia sobre a nova situação.

Um novo cavaleiro. Oh. Bem. Teria alguém para conversar que estivesse na mesma situação. Um amigo, alguém que compreendesse... que só compreendesse como ele.

Mal percebera que chegavam às portas de Tialdarí, onde vivia Islanzadí. Abriram-se e lhes deram passagem. Não notara o suspiro cansado de Arya. Os nobres lá estavam novamente, sentados e o observando. Não sabia se havia mudado durante o tempo que passara em Surda. E não se importava. Como ele, Saphira também ansiava para ver seu novo companheiro.

Os olhares dirigiram-se direto para a área em frente ao trono da rainha, que sorria. Um dragão esmeralda, imenso, os encarando com a mesma curiosidade deles. Eragon ainda procurava o novo cavaleiro no hall do palacete.

Cumprimentou Islanzadí como antes, assim fez Saphira.

- Mas... Onde está o novo Shur'tugal? – Ele perguntou num tom baixo e sem graça. Estava procurando um rapaz certamente e ignorara a presença de Violet. Ela percebera e forjara um sorriso.

- É uma honra conhecê-lo, Matador de Espectros – Ela se pronunciou numa reverência sarcástica. – Bjartskular...

E honrou o dragão azul às sua frente.

- Meu nome é Violet.

Georhgio também se sentiu um tanto sentido pela amiga. De novo. Ainda assim, apresentou-se e cumprimentou sem desrespeitos ao famoso e corajoso cavaleiro e Saphira.

Eragon ainda estava pasmo e não podia acreditar no que havia feito. Havia simplesmente desprezado a moça com longa trança castanha. Sentiu-se pequeno, diminuído. Mas disfarçou a vergonha como pode e devolveu as honras aos dois.

Islanzadí forçou um chá em seu palacete, mas as criaturas e seus humanos não trocaram palavras. O rapaz sentia-se muito embaraçado por não ter esperado por uma garota. Nunca teria esperado. Simplesmente não a vira e Saphira preferia não comentar nada. Violet sorria para a rainha quando esta se dirigia a ela, mas estava cabisbaixa de modo que não estava normal.

Por que não esperamos por isso de novo?

Porque eles expressaram a surpresa na frente de todos. Não sei. As pessoas se surpreendem com dragões originais...

É, George... É... Ela riu. Vamos dar uma volta.

Despediu-se brevemente de Arya, Eragon, Saphira e Islanzadí e sobre a sela de Georhgio os dois ficaram a planar baixo sobre Ellesméra.

Ela se chateou você acha? Indagou Eragon a Saphira.

Acho que ela não ficou feliz. Mas, bem, ninguém esperaria uma garota Eragon. Nunca houve uma cavaleira, nunca houve! Não foi sua culpa. E você não deve ter sido o único.

- Por que não me avisou?

- Porque eu não deveria mesmo contar todos os detalhes. Você soube o que precisava saber. Então agora compreende toda a situação – Respondeu Arya, dando de ombros.

Elfos e seus mistérios.

- Não se preocupe Eragon – Disse a princesa, num tom mais afável. - Violet não costuma ligar para isso. Queria ter visto minha própria feição quando vi o ovo se partir para ela.

O cavaleiro sorriu amarelo, ainda que estivesse remoendo o acontecido de minutos atrás. Procurara realmente o amigo que esperara encontrar, um companheiro, conselheiro; quem quer que sua mente pedia. Não que Violet não pudesse se encaixar no papel, mas aquela fora a sua e seria também a maior surpresa que Alagaësia teria.

Três dias mais tarde; para uma tarde de quase inverno, fazia muito calor. Saphira sobrevoava Ellesméra com Eragon em seu dorso. Os dois e o novo dragão e cavaleira trocavam breves palavras corteses.

O treinamento seguia como o esperado. Oromis exigia dos cavaleiros um crescimento diário, cobrava que evoluíssem e os dois respondiam com avidez. Glaedr também era severo com os dragões, principalmente com Georhgio.

Violet ainda tinha dificuldades em manejar perfeitamente as duas espadas, mas as lutas com o mestre e Vanir passavam a durar mais a cada dia.

O dragão azul pousou próximo ao campo de treinamento, onde os ruídos de armas colidindo superava muito o de pássaros que dominava a maior parte da cidade.

Vanir e Violet travavam mais um combate. Eragon e Saphira haviam sido liberados e o dragão mais jovem saíra para caçar. O Matador de Espectros desceu da sela da amiga e parou para observá-los.

- Para uma garota... – Dizia Vanir, respirando rápido, com um meio sorriso no rosto. – Você é indiscutivelmente intrépida demais.

Violet riu, antes de girar, desviando da lâmina do outro.

- As garotas elfas... Elas fazem mesuras pra você? – Respondeu divertida empurrando Vanir para depois abaixar-se numa reverência sarcástica.

O elfo avançou e a cavaleira desviou para esquerda por puro reflexo. Antes que conseguisse recuperar o equilíbrio para aparar o último golpe, Vanir girou e investiu para arrancar a espada direita de Violet.

- Isso vou considerar como um não – Completou ela, sorrindo e girando a espada que sobrara várias vezes. Afastou-se uns passos para trás e enxugou a testa suada.

- Você subestima o poder de sedução de um elfo... – Vanir disse antes de cerrar os dentes e investir contra o abdômen de Violet. Ela desviou-se rapidamente e aparou o golpe. Arrastou a lâmina da espada curta até o punho da de Vanir, ficando bem próxima dele. Aquilo o obrigou a reparar que o corpete da garota estava bem apertado aquele dia...

- Sedução ahn? – Ela murmurou, ainda rindo. O elfo estava mais confuso do que propriamente atraído. Com o objetivo momentâneo atingido, Violet deu um meio giro confiante e arriscado. Vanir percebeu o movimento e deslocou-se um pouco para a esquerda fazendo com que a última espada da cavaleira voasse para o lado e caísse perto de Eragon.

Os dois combatentes se encararam e Violet fez uma careta de cansaço. Olhou para o rapaz com os braços cruzados.

- Apreciando o show? – Ela perguntou de modo simpático. Eragon riu olhando para o chão e voltou a encarar Violet.

- Vocês falam demais – Ele respondeu simplesmente. A cavaleira fez outra careta e suspirou ainda ofegante.

George?

Sim.

Não há um lago por aqui?

Há. Estou perto dele.

Quer vir me buscar?

Não.

E onde fica esse lago então?

Norte.

- Saphira, Bjartskular, sabe dizer onde fica uma lagoa por aqui? – Pediu Violet.

- O Espelho das Águas de Prata, nós a chamamos – Comentou Vanir, com aquela expressão corriqueira dele de quem fala a um ignorante.

Por que eles precisam colocar esses nomes? Perguntou-se a cavaleira.

Bem. Posso levá-la até lá se quiser. Ofereceu Saphira. Eragon concordou com a cabeça. Queria uma oportunidade decente para expressar as desculpas pendentes do dia em que foram apresentados.

Violet assentiu com a cabeça e sorriu. Subiu à sela atrás de Eragon e Saphira; num segundo, levantaram vôo. A garota avistou um brilho espelhado perto dali; mais ao Norte dos alojamentos onde ficavam.

O dragão pousou suavemente às margens do lago. Violet correu para a água e molhou o rosto muito corado.

- Obrigada Saphira – Sorriu ela mais uma vez. E antes que respondesse viram o mestre ali sentado, apreciando a brisa leve entre as árvores – Ebrithil?

Oromis mostrou um sorriso cansado.

- Está bem, mestre? – Perguntou Eragon. Oromis às vezes sentia a amargura e as limitações físicas da mutilação que sofrera.

- Estou, Eragon finiarel. Vieram se refrescar? – Disse ele de modo sério. Violet riu apenas e molhou novamente o rosto. Saphira caminhou lentamente até Oromis para que conversassem.

O cavaleiro respirou e caminhou para perto da garota.

- Violet eu queria... Queria que me perdoasse por não ter esperado que fosse uma garota – Admirou-se com a objetividade da frase e quis ter sido mais gentil.

A garota, ainda agachada, virou-se para olhá-lo, balançando a trança às costas.

- Não se importe com isso Eragon. Começo a me acostumar.

- Mas não devia.

Ela deu de ombros como se o assunto já estivesse gasto demais. Voltou-se para as margens do Espelho das Águas de Prata e com um movimento do braço, molhou Eragon e riu. O cavaleiro fez uma careta e logo sorriu. Estendendo a mão, deixou que as palavras antigas saíssem num sussurro. Um jorro de água subiu do lago e acertou Violet em cheio.

Ela soltou uma exclamação indignada e depois se deitou para rir. O lago era um dos poucos lugares em Du Weldenvarden em que o sol podia bater em cheio. Eragon sentou-se perto da garota na terra escura e ficaram em silêncio por um momento.

- Quando esteve aqui antes... Você não se cansou de toda essa gentileza? – Ela perguntou.

- O que quer dizer?

- Quero dizer... Toda essa cortesia exagerada, essa harmonia perfeita dos elfos – E riu da própria frase. Eragon hesitou.

- Acho que não. A companhia deles parece importante... Eles sabem coisas demais.

- É disso que estou falando! Eles são criaturas celestes, quase divinas. Sinto falta da rudeza dos humanos.

- Como alguém pode sentir falta disso? – Disse o cavaleiro sorrindo, mas compreendia o que ela queria dizer.

- Não sei. Mas sinto. Você já viu um elfo bêbado? – Eragon refletiu sobre a pergunta inútil, mas a cavaleira respondeu por ele. - Não! Ninguém nunca viu. É tudo muito certo, muito perfeito. Até superficial.

Eragon riu, mas não respondeu. Um diálogo com mais de três palavras cada já era mais do que havia esperado conseguir com a conversa e estava feliz.

Importunando Eragon com suas teorias? A voz de Georhgio ecoou nas cabeças dos dois. O dragão se aproximava de barriga estufada, cheia das lebres que caçara.

- Acho que gosto de ouvi-las – Eragon respondeu.

Então é já um caso perdido. Brincou Georhgio, deitando-se ao lado de Violet. A noite se aproximava, mas eles não se importavam com o tempo. O sol ainda aquecia o fim de tarde e isso era o bastante.

Bia Black,

19 de fevereiro de 2008