Essa história não me pertence. Estou apenas postando-a no universo de CardCaptor Sakura.


A Amante Comprada,

Sakura Kinomoto x Syaoran Li


Sakura estava pálida como um fantasma, em choque, sem ar.

"Ca... Casar comigo?" – as mãos estavam trêmulas. – "Está disposto a se casar comigo?"

Syaoran encheu sua taça com o que restava na garrafa de vinho, um pouco constrangido.

"Não vai ser tão ruim assim. Acho você altamente desejável, gioia mia."

"Estou emocionada." – Sakura comentou, enquanto sentia justamente o oposto.

Dor, orgulho ferido e decepção se misturavam dentro dela. O pedido de casamento feito por Syaoran teria sido um sonho tornando-se realidade para ela dezoito meses antes. No entanto, a relutância e ambivalência que ele evidenciava ao tocar no assunto eram óbvias. Parecia mais uma piada. Pena que não era engraçada. Ao contrário.

Syaoran a olhou com cinismo.

"Claro que está."

Ela quis bater nele. Ele sabia que era um partidão, cobiçado por solteiras e casadas; bonito, charmoso e milionário. Nunca imaginaria que uma mulher esperasse mais além daqueles atributos para se casar com ele. Muito menos que recebesse um não como resposta.

"O que você sente por mim?"

Syaoran lançou-lhe um olhar carrancudo e pressionou o maxilar.

"O que quer dizer com isso?"

Sakura sentiu-se comovida com a atitude dele, mas continuou.

"Você não é burro. Sabe o que quero dizer."

"Não faço amor, só sexo." – ele respondeu, num tom seco.

"E eu não sou uma qualquer. Só me caso por amor!"

Ele continuava olhando para ela, mas agora a expressão do rosto estava mais relaxada.

"Sei que peguei você de surpresa."

Claro que estava surpresa! Só de pensar que o anúncio do casamento ganharia repercussão mundial, sentiu calafrios na espinha.

"Óbvio que sim."

"Mas não gosto da sua atitude." – ele disse curto e grosso.

Sakura baixou a cabeça, tentando recuperar a tranqüilidade. Sentia vontade de esbofeteá-lo. Era seu primeiro pedido de casamento e havia sido um insulto, pensou. Ele não só não a amava como não a admirava. Para ele, ela era apenas um rosto e corpo bonitos. Apenas sexo.

Syaoran acreditava que, ao se casar com ela, lhe estaria fazendo um favor ao dar seu nome ostentoso e ilustre a uma Maria-ninguém. Porém, ele estava muito enganado! Ela nunca aceitaria aquilo. Como ele tinha a desfaçatez de dizer na cara dela que sexo era a única coisa que tinha a oferecer a ela? Ela o odiava. Cólera e mágoa eram cortantes como uma faca, no interior de Sakura, e a impediam de raciocinar naquele momento.

"Sinto muito se não gosta da minha atitude. Mas nunca me casaria com uma pessoa como você."

A tensão que pairou no ar era quase insuportável. Sakura estava tão tensa que tinha medo de, ao se mover, quebrar-se em pedaços. Ela o tinha ofendido e o descontentamento dele esfriou o ambiente.

"Olhe para mim..."

Sakura obedeceu. Não queria, mas o tom autoritário dele foi mais forte que sua resistência.

"Isso é um não?"

Ela apenas mexeu a cabeça afirmativamente.

O gesto encheu Syaoran de cólera. Não podia acreditar no que acabava de escutar. Como podia ter recusado tal proposta se há menos de um dia ela era uma virgem? Será que o detestava tanto assim? Ficou remoendo aquelas perguntas em sua mente enquanto sentia uma desagradável sensação. Seu orgulho estava ferido! Se ela era tão estúpida a ponto de não reconhecer as vantagens que teria casando-se com ele, não era problema dele. Havia cumprido sua parte e mantido sua honra intacta. Na verdade, pensou, ela estava lhe fazendo um favor.

Pela primeira vez, desde que haviam chegado à Itália, lembrou-se de que ela era uma ladra e, subita mente, perguntou-se como havia passado pela sua cabeça casar-se com ela.

Olhou o relógio e disse com indiferença:

"Amanhã de manhã, voltaremos para Londres."

"Já? Mas chegamos ontem."

"A minha vida é assim. Tenho uma reunião amanhã na sede de Londres."

"Está bem." – ela murmurou ainda confusa com a conversa que havia começado e terminado de maneira abrupta, como se fosse um assunto corriqueiro, sem importância. Ele estava tranqüilo e insensível, como se jamais tivesse pedido ela em casamento.

"E você tem um encontro com os representantes da fundação de caridade de quem roubou o dinheiro."

Sakura arregalou os olhos. Com certeza, não havia entendido bem.

"O que foi que você disse?"

"Sinto muito, mas, por mais constrangedor que possa ser, vai ter que ceder e fazer o que foi combinado."

"E o que foi combinado?"

"Minha equipe marcou uma sessão de fotos com a imprensa para mostrar você dando um cheque para a fundação, com a quantia que fez desaparecer." – ele explicou com uma calma irritante.

Sakura sentiu uma pontada no estômago.

"Isso é uma piada!"

"Não, nunca achei roubo uma coisa engraçada. E você não tem escolha."

Ela não era responsável pelo sumiço do dinheiro e não agüentaria a humilhação de ter que se encontrar com o pessoal da fundação.

"De jeito nenhum vou fazer isso!"

"Vai sim, eles já aceitaram. Você faz parte da minha vida agora e sua reputação tem que ser restaurada. Não quero que me associem a uma ladra."

"Mas todo mundo vai saber que esse dinheiro é seu!" – ela protestou, levantando-se da cadeira. – "De que vai adiantar?"

"Podem até desconfiar, mas pelo menos não vão ter tanta certeza da sua culpa. Com o tempo, vão esquecer esse assunto e, daqui a uns dois meses, você vai organizar um novo evento beneficente e limpar sua imagem. A maioria vai achar que esse incidente desagradável não passou de uma tempestade em copo d'água."

"Não vou fazer isso, Syaoran." – ela resmungou, mas parecia que falava com a parede.

"Encare isso como um castigo."

"Você já é meu castigo." – disse amargamente.

"Prefere ser taxada de ladra para o resto da vida?"

A pergunta deixou-a sem argumentos e ela engoliu com dificuldade. Aquele suposto roubo poderia real mente persegui-la para sempre. Ele estava certo. Talvez fosse melhor, mesmo, para manter as aparências e enterrar aquele episódio vergonhoso de uma vez por todas. No entanto, a idéia de voltar a encontrar os funcionários da fundação a enchia de pavor.

"Achei que não." – Syaoran concluiu.

"Não posso acreditar que você me tenha pedido em casamento..." – Sakura deixou escapar e se arrependeu, em seguida. A vergonha a tomou da cabeça aos pés.

Syaoran a olhou impassível.

"A realidade é muitas vezes mais estranha que a ficção." – respondeu enigmaticamente.

Um dos empregados entrou no terraço e disse algo em italiano para Syaoran.

"Seu professor de italiano chegou."

"Você nunca me explicou por que deseja que eu aprenda italiano."

Ele ergueu a sobrancelha demonstrando ironia.

"Será uma hóspede mais útil se aprender."

Um senhor sorridente, de cerca de sessenta anos, entrou no terraço e os cumprimentou num inglês impecável. Depois de conversar por alguns minutos, Syaoran se retirou. O professor, então, lhe explicou que iria focar na parte de conversação. Ela ouvia com um sorriso fixo, porém estava a quilômetros de distância, pensando em Syaoran e se perguntando se algum dia o entenderia. Por que havia feito à proposta de casamento se era tão óbvio que não queria se casar? Talvez porque fosse mais conveniente para ele ter uma esposa no lugar de uma amante. Tal suposição a deixou impávida. Tentou esquecer, mas não conseguia. De qualquer forma, não queria estar casada com um homem que não sentia nada por ela e não se casaria com ele apenas pelo estilo de vida que ele lhe proporcionaria. Havia recuperado seu orgulho e auto-estima, ao dizer não.

Jantou sozinha naquela noite e passeou pelos belos jardins da casa. Só voltou a ver Syaoran na hora de ir para a cama. Apesar de tensa, esperava que ele a procurasse, mas isso não aconteceu. Não conseguia dormir, virando de um lado para o outro, ruminando os últimos acontecimentos, até que, com vergonha de si mesma, percebeu que estava desapontada.

Syaoran passou todo o vôo de volta a Londres revendo documentos com alguns membros da equipe. Enquanto isso, Sakura recuperava o sono perdido na noite anterior, encolhida numa das poltronas. Ele a cobriu com um cobertor. Enquanto trabalhava, volta e meia, erguia a cabeça para dar uma espiada na bela adormecida. Era raro que se surpreendesse com alguém, mas Sakura conseguia tal proeza com freqüência. Ela o enfrentava. Derretia-se toda em seus braços e pouco depois dizia que o odiava. Se houvesse algum homem na vida de Sakura, vivo ou morto, queria descobrir. A relação dos dois, por mais estranha que fosse, era o compromisso mais sério que já havia mantido com uma mulher. Seguramente, não duraria mais que dois meses, mesmo assim desejava saber tudo sobre ela. Decidiu, naquele instante, que iria contratar um detetive particular.

(...)

"A que horas será a reunião com o pessoal da fundação?" – Sakura perguntou, quando já estavam na limusine, saindo do aeroporto.

"Às duas da tarde." – disse, olhando rapidamente para o perfil alvo e tenso de Sakura. – "Não sei por que está tão preocupada. Ninguém vai ter coragem de ser indelicado com você. Minha doação é muito valiosa para eles. E, para a imprensa, só vai precisar sorrir o tempo inteiro e responder às perguntas inconvenientes que os repórteres fizerem."

Em determinado momento, a limusine estacionou em frente ao edifício da empresa Li e Syaoran se despediu, informando que a veria mais tarde. O guarda-costas, que estava no banco da frente, saiu e abriu a porta para Syaoran. No segundo seguinte, Sakura estava sozinha com o motorista, a caminho da nova e temporária casa. Foi então que lembrou que a mãe, provavelmente, veria numa das fotos de jornal a filha entregando o cheque para a fundação de caridade. Os olhinhos brilharam. Nadeshiko iria descobrir que estava fora de perigo e a procuraria. A chance de poder rever a mãe mudou o ânimo de Sakura, que passou a encarar a sessão de fotos com outros olhos.

Depois de uma reunião longa em que todos os acionistas o escutaram atentamente e com admiração, Syaoran encerrou o expediente em boa forma. Um dos secretários mais antigos se aproximou com um ar apreensivo.

"Algum problema?" – Syaoran perguntou, com as sobrancelhas levantadas.

"Uma tal de Tomoyo Kinomoto pediu para ver o senhor. É uma mulher muito insistente e disse que não vai embora enquanto não recebê-la."

Franziu a testa.

"Tomoyo... Kinomoto?"

"Acredito que seja alguma parente de Sakura Kinomoto."

Intrigado, Syaoran pediu que avisassem à mulher que poderia vê-lo. Poucos minutos depois, uma mulher pequenina entrou no escritório dele, com uma expressão hostil.

"Sou prima de Sakura." – anunciou.

Syaoran achou aquilo divertido. Levantou-se da cadeira, cumprimentou-a e pediu para que se sentasse.

"O que posso fazer por você?"

Tomoyo ignorou a cadeira e continuou de pé. Abriu a bolsa e retirou um documento volumoso, jogando-o sobre a mesa dele.

"Sakura me pediu que passasse a verificar as correspondências dela depois que partisse, e imagine o meu choque quando li esse contrato asqueroso que a fizeram assinar!"

"Minha relação com Sakura só diz respeito a nós dois." – Syaoran reparou que, apesar de não haver semelhanças físicas entre as primas, ambas eram impulsivas e de pavio curto. O sotaque melódico da morena também lhe era familiar.

Sem dizer uma palavra sequer, Tomoyo Kinomoto retirou uma foto amassada da bolsa e estendeu o braço. Com as sobrancelhas franzidas, Syaoran apanhou a foto. Ele olhou a imagem, surpreso.

"Mas essa é uma foto antiga minha... Tirada de um jornal."

"Sim, senhor Li. Você era ídolo de Sakura, mesmo antes de ela conhecê-lo pessoalmente. Tinha apenas quatorze anos quando recortou essa foto para colocá-la na cabeceira da cama."

Ele continuou observando a foto, absorto naquela descoberta fascinante. Imaginou Sakura, adolescente, recortando sua foto do jornal. Já desfilava naquela época, lembrou. Devia ser bem alta e magrela, e muito bonita, porém apenas uma criança. Parecia que lhe haviam entregado uma chave para um baú secreto, que não via a hora de abrir.

"Espero que você se envergonhe do que fez." – disse Tomoyo. – "Sakura merece um homem decente que a respeite."

"Eu a pedi em casamento, mas ela não aceitou." – admitiu Syaoran. – "Acho que a fantasia adolescente dela acabou." – Então colocou a foto e o contrato numa gaveta. – "Posso ficar com isso?" – perguntou, retoricamente.

Ofereceu uma xícara de chá que foi recusada com educação. A visitante parecia estar pronta para ir embora.

"Vai contar para Sakura que estive aqui?"

"Não."

Ela se retirou sem se despedir. Quando um dos secretários entrou com documentos para serem assinados, encontrou Syaoran curiosamente distraído. Meia hora depois, deu alguns telefonemas e avisou que iria embora mais cedo. Surpreso consigo mesmo pela decisão - afinal, estava acostumado a trabalhar dezoito horas por dia -, saiu do escritório.

(...)

Uma funcionária de Syaoran com ar autoritário acompanhou Sakura até o luxuoso hotel onde se encontraria com os representantes da fundação. Sakura estava à beira de um ataque de nervos. Antes de sair do apartamento, ficou agoniada e não conseguia escolher uma roupa para vestir. Finalmente, escolheu um terninho branco e cinza e uma saia que Syaoran havia recomendado para ocasiões sociais.

Ao entrar na sala, a secretária levou-a diretamente para onde estava a equipe da instituição. A conversa foi bastante desconfortável, pois todos falavam e sorriam demais. As três modelos a quem Sakura havia convencido a desfilar chegaram juntas. Todas, sem exceção, haviam feito ligações furiosas para Sakura depois que o episódio foi publicado nos jornais.

"Estou aliviada por você ter conseguido resolver o mal-entendido." – disse uma das meninas.

"É, depois de tanta fofoca, sua imagem tinha ficado bem manchada." – lembrou outra.

"Eu sei. Que bom que puderam vir hoje aqui. Sinto muito por ter causado problemas para vocês." – disse Sakura com gratidão.

A outra modelo era uma russa, ruiva, chamada Ayame. As curvas exuberantes e as longas pernas chamavam a atenção no pequeno e justo vestido branco que vestia. Era uma modelo em ascensão e tinha a noção exata de sua superioridade. Olhou Sakura com desprezo.

"Nós chegamos à conclusão de que não queremos aparecer em nenhuma foto com você."

Sakura ficou tão vermelha que parecia que havia levado vários tapas no rosto. A secretária que estava ao lado disse que aquilo seria impossível e se afastou para usar o celular. Alguns repórteres começaram a chegar, meia hora depois. Sakura sabia que, se a imprensa notasse qualquer clima estranho entre ela e as modelos, criaria um verdadeiro escarcéu na mídia.

De repente, Ayame esbarrou abruptamente em Sakura e foi andando na direção da entrada.

"Acabo de ver um amigo..."

Um burburinho se formou por toda a sala. Sakura se virou para a entrada.

"Syaoran Li... Minha nossa. Ele não é um gato?" – exclamou uma das modelos.

O alívio relaxou todos os músculos tensos de Sakura. Ele devia ter ido lá para lhe dar apoio.

"Estou até sem ar. Ele é lindo e rico demais." – a outra colega completou.

Quando viu que ele vinha em sua direção, Sakura estremeceu. Ayame já estava com os braços enroscados no dele, falando pelos cotovelos, com intimidade. Ele olhou para Sakura tão rapidamente que ela ficou na dúvida se realmente tinha ocorrido contato visual. Ele então riu de algo que a ruiva disse.

Sakura foi conduzida para o local onde posaria para as fotos com o maldito cheque. Só conseguia ver que Syaoran era só sorrisos para Ayame e que lhe servia uma taça de vinho. O estômago revirou dentro de Sakura. Conhecia a sensação que era ter a atenção completa de Syaoran e a modelo russa estava dando em cima dele de maneira escancarada. Sakura ficou ansiosa, à espera que ele fosse notá-la, mas isso não ocorreu.

As câmeras agora estavam todas aponta das para o casal. Alguns minutos depois, Ayame passeou pela sala como uma rainha e finalmente se sentou numa espreguiçadeira. Sakura e as outras modelos foram solicitadas a se juntar a ela na espreguiçadeira. Não houve nenhuma objeção à inclusão de Sakura, pois Ayame estava ocupada demais fazendo charme para Syaoran. Depois, voltou a se juntar a Syaoran, deliciando-se com as câmeras que registra vam a cena.

Takashi se aproximou de Sakura.

"Senhorita Kinomoto? O carro está à sua espera. Quando você desejar..."

Sakura piscou surpresa.

"Foi seu patrão que pediu que me levasse para casa?"

Takashi olhou como se não tivesse entendido a pergunta.

"Deixa para lá..." – disse, tentando manter a dignidade.

Saiu sem nem olhar para trás, pela porta dos fundos, para evitar os repórteres indesejados que a esperavam do lado de fora. Sentia-se traída, magoada, chocada. Syaoran a ignorou, como se ela não existisse. Como se fosse uma estranha. No entanto, estava claramente divertindo-se com Ayame. Tinha preferido a presença da russa gostosa à sua. Será que tinha que aceitar aquela rejeição com graça e indiferença? Por que estava tão transtornada que não conseguia pensar direito? Não devia estar comemorando o fato de que Syaoran já planejava substituí-la por uma amante mais ousada? Finalmente, teria sua liberdade de volta. No entanto, não compreendia como um homem podia pedir alguém em casamento num dia e, no dia seguinte, estar flertando com outra.

Não havia nada de emocional na proposta de Syaoran. Porém, achou a resposta de Sakura ofensiva. Sem dúvida alguma, ele havia se arrependido amargamente pelo impulso cavalheiro e digno que lhe acometeu quando fez o pedido. Para consertar o erro, passou a tratá-la com a frieza que merecia. Por isso, não a tinha procurado na noite passada. Ayame era muito atraente e mais sofisticada, pensou Sakura, com os olhos molhados. O que havia de errado com ela? As lágrimas desceram pela face e os dentes estavam trincados.

Quando foi procurar um lenço na bolsa, viu que havia um embrulho no assento do carro. Tinha o nome dela escrito. Abriu a caixa e encontrou um porta-jóias. Na tampa, estava estampado o nome de um designer mundialmente conhecido. Um bracelete incrível, cravejado de brilhantes, encontrava-se no interior do estojo envolto por um acolchoado de seda azul. Ela sentiu vertigem. Estava sendo dispensada e devia agradecer por isso. Aquele era o símbolo de sua liberdade; poderia ir para a sua própria cama, com direito a uma pulseira de diamantes no pacote.

A porta do carro se abriu e ela saiu do carro. Desorientada ao ver que estava num aeroporto, avistou outra limusine a poucos metros, e Syaoran de pé recostado na porta. Surpresa ficou olhando boquiaberta. Ele estava tão lindo que chegava a doer à vista.

"Pode ficar com esse bracelete ridículo!" – ela gritou.

Syaoran a olhou meio assustado.

"Qual é o problema?" – perguntou educadamente.

"Vi você com a Ayame."

"Estávamos apenas conversando."

"Você ficou dando em cima dela."

"E você ficou com ciúme."

Ela abriu a boca, mas voltou a fechar. Fulminando de raiva por causa daquela acusação, ela foi andando na direção dele, aos berros.

"Nunca escutei algo tão absurdo na minha vida... Não fiquei com ciúme."

Um sorriso malicioso que era pura provocação curvou os lábios de Syaoran, que continuou em silêncio."

"Não fiquei com ciúme!" – ela voltou a repetir, ainda exaltada. – "Você é famoso por ser um mulherengo nojento, mas não vou tolerar esse tipo de comportamento! Estou achando ótimo que o jogo tenha acabado!"

"Mas o jogo não acabou, gioia mia. Estamos viajando para Southampton para embarcar no Lestara."

Sakura não conseguiu disfarçar o estado de confusão em que ficou.

"Mas achei que o bracelete fosse um presente de despedida..."

"Não sou tão brega assim. Quando acabar, vou te dizer."

"Mas você nem falou comigo no hotel e me deixou ir embora sozinha."

"É melhor a mídia descobrir que estamos juntos numa outra ocasião. Não queria que a nossa relação ofuscasse o real motivo daquela sessão de fotos, que era limpar a sua reputação." – murmurou Syaoran, andando sensualmente, até ficar bem próximo do corpinho rígido de Sakura. – "Minha secretária ligou avisando que Ayame estava criando problemas, então achei melhor ir até lá para distraí-la um pouco."

Sakura mordeu os lábios.

"Fez um belo trabalho..."

"Aproveitei para desviar a atenção da mídia de você também. Os repórteres ficaram mais interessados em descobrir se estava rolando algo entre mim e Ayame do que em perguntar sobre as suas andanças pela polícia."

Tanta informação foi de difícil digestão para ela. O jeito como tratou a russa mostrava confiança e interesse exagerados, pensou.

"Ficou óbvio que você e Ayame já se conheciam muito bem!"

"Ela fez uma série de comerciais para uma das minhas empresas no ano passado. Não soube disso?"

Ela fez que não com a cabeça. Raramente via televisão. Apesar da vontade, não teve coragem de perguntar se os encontros profissionais entre eles haviam ficado mais íntimos. Engoliu com dificuldade e murmurou.

"Ela te quer..."

"Mas eu quero você, cara mia."

Aquela revelação causou uma corrente elétrica por todo o corpo de Sakura. As pernas ficaram bambas e ela teve medo de cair. Sentiu vontade de chorar. Mesmo depois que o horrível sentimento de humilhação se evaporou, ela ainda sentia vontade de chorar. A tempestade de emoções tinha deixado Sakura fragilizada, apesar de ter descoberto que tudo não havia passado de um mal-entendido. Ele não a havia rejeitado ou traído. Nem preferido Ayame. O caso entre os dois, que mal havia começado, não tinha acabado. Porém, ela havia feito uma cena ridícula de ciúme e passado vergonha. Como poderia ter ciúme dele se várias vezes tinha dito que o detestava? Não entendia, mas sem dúvida, havia morrido de ciúme ao ver Syaoran sorrindo e se divertindo com Ayame. Será que tinha cometido a bobagem de se apaixonar por ele novamente?

Syaoran a abraçou pela cintura e olhou para o rosto extenuado de Sakura. Não entendia como não havia ficado irritado com a cena de ciúme, uma vez que tinha pouca tolerância para os exageros femininos, principalmente em público. Os seguranças se afastaram do carro, tentando esconder os risinhos. Porém, ele percebeu que ela nem estava ciente do seu entorno e da audiência. Ainda estava bastante ofegante e a desejava com tanto ímpeto que, se houvesse um motel no caminho, correria para lá com ela. Desconcertado pela ânsia que enfraquecia seu autocontrole, Syaoran ficou preocupado.

Sakura tinha um nó na garganta. Ela o encarou e se arrependeu em seguida. Os olhos chocolate estavam mais escuro e a hipnotizaram e a vontade de chorar se foi, como se nunca tivesse existido. O desejo nos olhos dele a excitou a ponto de causar câimbras em algumas partes do seu corpo.

"As nossas bagagens já estão no helicóptero. É hora de embarcar." – ele murmurou com a voz rouca pela volúpia.

Sabia que não deveria, mas puxou Sakura pela cintura e a apertou contra seu sexo, que estava duro e excitado. Foi um ato de pura provocação sexual. Ela soltou um gemido muito sutil e baixo que só ele pôde escutar. Ficou molhada na mesma hora. Com um riso pervertido, ele a virou confiante, puxando-a pela mão rumo ao helicóptero.

O barulho ensurdecedor do helicóptero impossibilitou qualquer chance de diálogo. Sakura se acomodou no confortável assento para recompor as energias. Não tinha a menor idéia de para onde estava indo, mas também não se importava com isso. Acreditava ter ouvido a palavra Southampton, mas não tinha certeza. No seu descontrole emocional, não registrou tudo que ele dissera. Porém, vindo de Syaoran, tudo era possível. O destino daquele helicóptero não era o que a preocupava, mas sim a possibilidade de que estava voltando a se envolver intensamente com Syaoran. Não! Sexo era a única coisa que a ligava a ele, disse para si com veemência. Era algo repulsivo, mas pelo menos não era amor. Apenas se fosse uma completa imbecil se apaixonaria novamente por ele, naquelas circunstâncias, mas não era o caso.

Syaoran deixou o porta-jóias que ela havia aban donado na limusine sobre o colo dela. Sakura o colocou de lado, como se fosse uma batata-quente. De rabo de olho, viu que ele abria o estojo e retirava o bracelete. Pegou o pulso de Sakura e pôs o bracelete. Irritada, ela virou a cara. Ele acariciou os fios de cabelo que caíam sobre seu rosto e lhe deu um beijo selvagem. Sakura ficou febril de imediato.

"Por que tem de ser tão teimosa?" – perguntou ele, com ar repreensivo.

Os lábios estavam dormentes em razão do beijo inesperado e provocante. Virou-se novamente. Se não se rebelasse contra o poder que ele exercia sobre ela, estaria perdida, pensou. Quando o helicóptero desceu, Sakura não conse guiu descobrir onde estava. Via algumas torres de ferro e, mais adiante, armazéns gigantes. Talvez Syaoran estivesse indo lá a negócios, refletiu, visto que ele estava impaciente para sair do helicóptero. Um cheiro vagamente familiar a fez lembrar da infância, até que identificou o aroma do mar. Ficou alarmada. Syaoran a guiou por uma porta que estava aberta. Mas ela estava hesitante, tentando se achar. Caminhava por um piso de metal e ficou apavorada ao se lembrar do filme Titanic.

"Sakura...?" – Syaoran perguntou quando ela pa rou.

"Isso... Isso é um barco!" – ela balbuciou com a voz falha.

"Um barco... Meu iate Lestara."

Pela primeira vez, Syaoran estava orgulhoso de seu palácio flu tuante. Iriam navegar em paz e com privacidade. Escolheria lugares exóticos que ela iria gostar de conhe cer. Os paparazzi nunca os encontrariam. Ela iria adorar. Iria rela xar e se divertir e esquecer daquela idéia absurda de que o odiava. A expressão de Syaoran era de pura satisfação.

Começaram a descer umas escadas, e Sakura mos trava-se petrificada. Estava revivendo um de seus piores pesadelos; cercada de água por todos os lados, em constante movimento. E nas profundezas daque las águas estavam as vidas que o mar havia tirado de seu pai e seu irmão. Ficou pálida e começou a suar frio.

"Não gosto de barcos." – ela disse com falta de ar.

Syaoran riu.

"Mas esse é um barco muito grande, Sakura. Nem vai sentir que está longe de terra firme."

"Me dá enjôo..."

"É impossível, nós nem embarcamos ainda."

Enquanto Syaoran a olhava incredulamente, Sakura não agüentou e vomitou. Ele foi, imediatamente, ajudá-la com um lenço nas mãos.

"Vamos entrar. Vai se sentir melhor lá dentro."

Porém, Sakura não queria entrar. Ao contrário, que ria estar em terra firme novamente. Teve o ímpeto de sair correndo de volta para o helicóptero de Syaoran, mas estava enjoada demais para correr.

"Não gosto do mar." – disse com dificuldade.

"É só não olhar para ele." – aconselhou Syaoran , como se falasse com uma criança. – "Deve ter sido alguma coisa que comeu e não caiu bem. Vou pedir para o médico examiná-la."

"Não preciso de médico." – quando ele não es tava olhando, Sakura enxugou rapidamente as lágrimas que já lhe saíam dos olhos.

Os dois chegaram a um salão enorme e suntuoso, mas Sakura só queria saber onde era o banheiro. De uma das muitas janelas, viu o mar. Parecia tão calmo iluminado pelo pôr-do-sol, mas ela voltou a ficar enjoada. Pôs as mãos na boca e forçou o maxilar, pois não queria passar aquela vergonha novamente. Syaoran a pegou no colo e a levou para o banheiro, todo de mármore, que ficava numa suíte. Pegou uma toalha, umedeceu-a, e colocou-a na testa de Sakura.

"O médico está chegando, cara mia."

"Será que não entende? Vou ficar bem só depois que me tirar deste barco!"

"Quando foi a última vez que comeu? Você dormiu no avião, quando serviram o café da manhã. Al moçou?"

"Estou enjoada por causa do medo!"

"Mas não há motivo para você ter medo..."

Sakura não agüentou mais e começou a chorar desesperadamente, molhando seu rostinho vermelho pelo nervosismo. Foi até a cama e escondeu o rosto, enquanto convulsionava de tanto chorar. Ele a envolveu nos braços, apertando-a contra si. Não entendia o que estava acontecendo, mas ela sabia exatamente o que estava se passando. Não podia compreender o terror irracional que a acometia. Tentou lutar contra a nuvem negra que invadia seus pensamentos e final mente conseguiu falar.

"Meu pai e meu irmão morreram afogados..."

Syaoran empalideceu, olhando-a com ternura e pena. Não gosto de barcos... Não gosto do mar. O médico bateu à porta, avisando o casal de sua chegada. Syaoran trocou algumas palavras com ele.

"Vai aceitar tomar uma injeção para melhorar o enjôo?"

"E aí, nós saímos desse barco... Imediatamente?" – ela perguntou em tom de súplica.

"Prometo." – ele apertou as mãozinhas frias e trêmulas de Sakura.

A injeção surtiu efeito imediato. Em poucos minu tos, Sakura ficou grogue e os pensamentos ruins foram se tornando turvos até desaparecerem. Apertou o ros to contra o peito de Syaoran e adormeceu em seus braços. Sakura sonhou que estava encurralada no fundo do mar. Os pulmões ardiam, debatia-se desesperadamente para conseguir chegar à superfície, até que en controu o irmão mais velho. Gritava seu nome, mas apenas bolhas de ar saíam da boca.

"Sakura..."

Os olhos aterrorizados se arregalaram. Respirava ofegante em busca de oxigênio. Estava molhada pela transpiração.

"Deve ter sido um pesadelo daqueles." – ele dis se, deitado ao lado dela, como os olhos na altura dos dela. – "Pude ouvir seus gritos do outro quarto."

"É sempre o mesmo pesadelo..." – ela sussurrou. – "Horrível."

"Precisa comer alguma coisa." – Syaoran pe gou o telefone e pediu comida.

Sakura se sentou e abraçou as pernas. Só então no tou que estava nua. Agarrou o lençol e se cobriu toda. Os olhos se adaptaram à fraca luz do ambiente, e logo reconheceu a suíte do apartamento de Londres. Alcançou o pulso de Syaoran e checou as horas no re lógio.

"Nossa!" – exclamou ao ver que era uma da ma nhã.

"A injeção te nocauteou. Foi bom para você."

"Não me lembro da viagem de volta."

"Viajamos de limusine. Tinha medo de que acor dasse com o barulho do helicóptero."

"Desculpa... Deve ter achado que sou uma doida." – ela murmurou, envergonhada. – "Mas não entrava num barco desde que... Bem, desde o acidente."

"Estava com seu pai e seu irmão, quando eles morreram?" – ele perguntou surpreso. – "Quantos anos tinha?"

"Dez. Touya tinha dezesseis anos. Estávamos de fé rias em Mallorca, na Espanha. Papai levou a gente para ver os barcos na praia. Pedi para ele nos levar para passear num deles e fomos no último dia. Ele alugou um e demos uma volta pela baía. Não estáva mos com coletes salva-vidas..."

"O que aconteceu?"

"Alguns barcos maiores passaram a toda a veloci dade e formaram umas ondas enormes. Foi muito rápi do. A água invadiu o barco e ele virou. Eu come cei gritar e papai ficou em pânico. Acho que ele ba teu com a cabeça, porque vi que estava inconsciente. Só lembro que nunca mais vi meu pai com vida."

Syaoran envolveu as mãos de Sakura.

"Você...? Seu irmão...?"

"Eu fui atirada ao mar... Ele ficou preso no bar co. Eu nadava muito bem... Mergulhei procurando por ele, mas não o encontrei. A correnteza estava muito forte. Um barco pesqueiro apareceu e conse guiu tirar o Touya... Mas era tarde demais."

"Foi um milagre você ter sobrevivido."

Sakura cobriu o rosto com as mãos e deixou escapar um soluço.

"Foi culpa minha... Se não tivesse insistido tanto, nunca teríamos saído naquele barco."

"Isso é absurdo. Você era apenas uma criança. Foi um acidente. Devia ser proibido navegar sem co lete salva-vidas. Como é esse pesadelo?"

Ela contou. Havia muito tempo não falava do dia do acidente e ele se mostrava um ótimo ouvinte. En tão, contou como a mãe entrou em pânico ao saber do acidente e do negócio do pai, que faliu poucos meses depois. Sentiu um alívio enorme depois de haver descrito toda sua tragédia pessoal a Syaoran. Pôs as mãos em seus cabelos e pensou que, depois de tantas horas de sono, devia estar com a cara bem amassada.

"Acho que um banho me faria bem." – esque cendo-se que estava nua, saiu de baixo do lençol e da cama. Ao se lembrar, soltou um gritinho e saiu correndo para o banheiro, enquanto Syaoran ria com vontade.

"Você tem cinco minutos. O jantar já está espe rando." – ele a avisou, com bom humor.

Embrulhada em uma toalha branca e felpuda, Sakura tinha os cabelos molhados e sentia-se revigorada. Syaoran assistia ao noticiário pela televisão. No quarto ao lado, havia uma mesinha sobre rodas reple ta de comida.

"Vou me vestir e já comemos..." – disse ajustando a toalha que ameaçava cair.

"Eu proíbo, cara mia." – ele disse puxando uma cadeira para que ela se sentasse. – "Para que se vestir se vou despi-la em seguida?"

Sakura corou, enquanto o coração se agitava pela antecipação. Bastava que ele a olhasse com aqueles olhos chocolates para que ficasse febril e ardente de desejo. E ele sabia disso. Desviou o olhar para a comida, tentando disfarçar o nervosismo e comeu com apetite.

"Não vai comer nada?"

"Já jantei." – encheu uma taça de vinho e tomou um gole. – "Fico feliz de ver você comendo com von tade."

"Os últimos meses foram muito estressantes. Mas não vamos falar disso..." – Não queria estragar aquele momento agradável tocando em assuntos espinhosos. – "Agora, sabe tudo sobre mim. É hora de falar um pouco de você."

"De mim...?" – Syaoran franziu a testa.

"Dos seus pais, por exemplo." – Sakura afastou o prato vazio. – "O que fazem?"

Syaoran soltou um resmungo e se levantou.

"Os dois morreram. Na época, saiu publicado em todos os jornais."

"Não sabia... O que houve?" — Perguntou, levantando-se também.

Syaoran a pegou pela mão e os dois voltaram para o quarto.

"Quer que comece com Era uma vez?"

"Por quê? Sua infância foi um conto de fadas?"

Syaoran a deitou na cama e se afastou para admi rar o lindo corpo de Sakura.

"Nem um pouco. Apesar de morar num palácio e do dinheiro sobrando. Minha mãe era muito rica e muito mimada."

Os olhos de Sakura brilhavam de curiosidade.

"Ela se parecia com você? Como ela era?"

"Era bem bonita." – ele tirou a camisa e se dei tou ao lado dela. – "Não era muito maternal. Eu fui um acidente e as babás me conheciam melhor que ela. Ela gostava de diversão e eu não era uma criança muito divertida."

"E seu pai?"

"Era um intérprete brilhante e muito respeitado, mas um verdadeiro escravo da minha mãe." – Syaoran não conseguiu disfarçar o desgosto. – "Ela tinha vários amantes. Deixou o nome do meu pai na lama, dormia fora de casa e ria na cara dele. Quando eu tinha dezoito anos, ele a flagrou na cama com um dos meus amigos. Naquela noite, ele se ma tou... Ela nem foi ao funeral."

Sakura estava perplexa com a narrativa monotonia dos fatos horrendos que haviam assombrado a juven tude de Syaoran. Ela se inclinou sobre ele, com os olhos verdes como duas preciosas esmeraldas brilhando de dó.

"Não sei o que dizer..."

Ele emaranhou os dedos entre o cabelo macio e ainda úmido de Sakura e trouxe o rosto angelical para mais perto do seu. Os olhos chocolates eram pura armadilha sensual.

"Não diga nada, então, me mostra, gioia mia."

Os olhos se fecharam quando ela o beijou e o cora ção acelerou. O desejo corria pelas veias como um rio de lava.

"Syaoran..." – suspirou, enquanto os mamilos rijos roçavam a toalha, em busca de liberdade. Soltou um gemido sensual quando ele arrancou a toalha fora.

"Amo seu corpo... Amo os efeitos que ele causa no meu."

Ela agarrou as coxas musculosas dele, com as unhas gentilmente apertadas sobre a pele bronzeada e macia de Syaoran. Ele brincou com os bicos excitados dela, com uma habilidade invejável, apertan do e atiçando-os com os dedos. Sakura parou de respirar e estremeceu. Ele parou por um instante.

"O que foi?" – ela perguntou ansiosa.

"Você me deseja tanto que não consegue disfar çar. Gosto disso." – ele ronronou. – "Você me excita." – Ela o olhava com sofreguidão. – "Sexo nunca foi tão quente e estimulante. Se ten tasse fugir de mim agora, eu a trancaria a sete chaves." – ele jurou.

"Não vou a lugar algum..."

Ele a beijou com agressividade, em seguida com doçura. Fez com que ela engolisse sua saliva e chu pou seus lábios. Sakura estava em ponto de bala.

"Nenhum lugar em que eu não esteja também..." – completou, sem parar de beijá-la.

"Que romântico..."

Ele ficou tenso.

"Tenho mais dos genes da minha mãe do que gos taria. Não vou ser infiel, mas não espere romantismo."

"Não se preocupe, a única coisa que gosto em você é seu dom de me fazer sentir bem na cama." – ela revidou.

Syaoran soltou um riso delicioso, apertou o quei xo de Sakura e deitou por cima dela para beijá-la com mais intensidade.

"Você é uma mentirosa... Uma mentirosa linda e sexy. Tem tanto que aprender ainda. E eu terei um prazer enorme em ensinar tudo."

Sakura ficou constrangida, curiosa, sem entender por que ele tinha dado aquela resposta tão presunçosa.

"Me ensinar o quê?"

"Como me dominar por debaixo das cobertas..." – ele a provocou, sentando-se na cama, apenas para ti rar as calças e o chinelo. – "Métodos, técnicas, rit mos."

"Não preciso aprender essas coisas, nem quero." – olhava-o com fome, a boca seca e o coração sufo cado. Havia uma piscina de mel dissolvendo-se den tro dela e o calor a fez tiritar.

"Sei que quer, gioia mia." – Nu, voltou a se deitar sobre ela, acariciando os ombros estreitos e alvos de Sakura. – Vai exigir muita paciência e disciplina da minha parte e confesso que, nesse momento, essas qualidades estão escassas no meu estoque."

Os olhos chocolates estavam fixos nos seios brancos, que contrastavam com os mamilos róseos. Ela respirava com dificuldade. Não conseguia suprimir o desejo. Ele a colocou de joelhos e chupou cada bico, demoradamente, mordiscando-os e lambendo-os. Enquanto se entretinha com a boca, com as mãos foi explorar o púbis de Sakura, passeando com os dedos entre as pernas dela. O corpinho feminino agitou-se e Sakura gemeu de prazer. A pele parecia que ia derreter pelo fogo que a consumia. Quando Syaoran encontrou o pequeno clitóris e o provocou, Sakura começou a ver estrelas e ficou em transe.

Ela gemeu, subindo por cima dele, encaixando-se com as pernas abertas, ávi da por ser possuída. Respondendo aos impulsos dela, Syaoran penetrou-a sem rodeios, com firmeza. Ela gritou de prazer. Não estava preparada para o movimento que ele fez em seguida, saindo novamente de dentro dela e colocando-a de joelhos novamente. Excitada e frus trada, ela pronunciou o nome dele.

"Confie em mim." – Syaoran respondeu ofegante.

Voltou a penetrá-la, agora ajoelhados na cama, e cada milímetro do sexo de Syaoran entrando dentro dela, como um choque elétrico. Chegou ao clímax na mesma hora, convulsionando-se toda, dos pés à cabe ça, com um gemido sufocado e sôfrego.

Syaoran a deitou e a abraçou. Suspirou.

"Você é sensacional, bella mia." – Ela acariciou as costas molhadas de suor de Syaoran. – "Não entendo por que demorou tanto a se entre gar aos prazeres do sexo." – ele comentou, enquanto beijava-a no pescoço.

"Sempre fui mais infantil que as garotas da mi nha idade..." – lembrou-se do incidente desagradável que aconteceu durante a adolescência e hesitou em contar, mas acabou revelando. – "Minha mãe tinha um namorado que tentou me levar para a cama. Não aconteceu nada porque comecei a gritar, mas fiquei traumatizada. Sentia-me culpada e suja... Mamãe dis se que eu devia ter provocado seu namorado..."

Syaoran ergueu a cabeça e a olhou com doçura.

"Está brincando? Quantos anos você tinha?"

"Treze. Ele estava morando com a gente já fazia alguns meses." – ela franziu a testa. – "Tinha algo nele que me dava medo. Até que uma noite, quando minha mãe não estava em casa, ele tentou me agarrar, mas consegui sair correndo para o meu quarto. Se ela não tivesse chegado mais cedo e o pego no meu quarto, não sei o que teria acontecido."

"Eu sei. E se você tivesse sido estuprada, tenho certeza de que a sua mãe arranjaria um jeito de culpar você também!"

Sakura ficou apreensiva.

"Não diz isso! Tem que entender que ela estava muito magoada. Eles iam se casar."

"Você é filha e devia ser a coisa mais valiosa para ela." – Syaoran acariciou o rosto delicado de Sakura e a olhou de um jeito diferente, muito meigo. – "Com razão, levou tanto tempo para perder a virgindade. Eu também fui um insensível. Estava com tanto tesão que não tive nenhum cuidado."

"Mas foi bom..." – Não sabia muito bem como descrever suas sensações. Era tudo tão novo para ela. – "Com você, tudo fica diferente..."

"Continua, gioia mia." – ele disse com uma voz vibrante que arrepiou os pêlos de Sakura. Enquanto sorria encabulada pelo convite indecoroso de inflar o ego de um homem acostumado a elo gios e paparicos, Syaoran se levantou bruscamente e soltou um palavrão.

"O que foi?" – ela perguntou ansiosa.

Ele a encarou com cara de desespero.

"Esqueci da camisinha! Pela primeira vez na vida, não usei camisinha!"

Sakura mordeu os lábios.

"Eu não tomo nada... Nunca precisei antes..."

Com um suspiro de resignação, Syaoran relaxou o ombro.

"Para quando é sua menstruação?"

"Daqui a duas semanas."

Ele ficou pensativo.

"Isso quer dizer que você está no período mais fértil... Alguma vez já quis ter filhos?"

"Nunca pensei nisso."

"Nem eu..." – admitiu ele. – "Mas, se tivermos, azar..."

"Não é engraçado como uma única palavra pode significar tantas coisas? Azar..." – Sakura empalideceu.

"Quis dizer que vou cuidar de você... E do bebê." – ele disse com a voz hesitante. – "Por isso, não pre cisa se preocupar."

"Não estou preocupada."– mentiu, apavorada com a idéia de engravidar de um homem cujo único interesse nela era a habilidade que tinha de diverti-lo na cama. – "Mas posso ir ao ginecologista e pedir para tomar a pílula do dia seguinte."

"Não." – rejeitou Syaoran na mesma hora, o que surpreendeu a ambos. – "Não gosto da idéia. Vamos esperar para ver no que dá." – Syaoran voltou a se deitar, apoiando o rosto tencionado sobre o travesseiro. Depois a envolveu com o braço e a apertou contra si. – "Durma um pouco e tente não se preocupar... Amanhã de manhã, voltamos para a Itália."

"Seria ótimo se pudesse acumular milhas com todos esses vôos." – ela brincou.

Ele riu, deliciando-se com o comentário bem-hu morado, e apagou as luzes. Ela se encolheu nos braços dele e pensou na proba bilidade de ter um filho. Para sua surpresa, a idéia lhe agradava. Consternada, repreendeu-se e repetiu men talmente que seria um desastre. Não podia se com portar como uma adolescente que idealiza a materni dade, esquecendo-se da real situação na qual se en contrava. Que diabos estava acontecendo com ela? Onde estava o ódio que sentia por ele? Descobriu que a mágoa e o rancor já não habitavam sua alma. No entanto, o medo de se machucar outra vez persistia, reconheceu com pesar. Estava se apaixonando nova mente?

Syaoran acariciou a cintura curvilínea de Sakura.

"Está muito cansada?"

"Não muito..." – sussurrou. A simples pergunta de Syaoran desencadeou uma nova onda de excitação, apagando qualquer vestígio de razão e seriedade em sua mente, deixando tudo em suspenso.

(...)

Os brincos com diamantes brilhavam tanto que chegavam a cegar Sakura.

"Não posso aceitar... Não posso!"

"Qual é o problema? É um presente... Não pode recusar um presente."

"Você já me deu um colar, um bracelete, um re lógio... Agora, isso. Aposto que custaram uma fortu na."

"O dinheiro não é problema, bella mia. Sou um homem generoso, e daí? Devia ser um ponto a mais para mim." — Ele a pegou pelos punhos e arrastou-a para si.

Sakura não disse nada, mas pensou que ele não pre cisava de mais pontos. Sentia-se extremamente des confortável com tantos presentes extravagantes e ca ros. Será que ele achava que precisava pagar a ela pe los serviços prestados? A quantia que tinha dado à instituição de caridade não deveria ter sido suficien te? Enfim, sua caixa de jóias já estava repleta, com diamantes e safiras estonteantes.

"Você me deixa constrangida." – ela murmurou. – "Me faz sentir uma mercenária."

Syaoran soltou um resmungo.

"Às vezes você fica tão melodramática."

"Quem foi que me fez assinar aquele contrato horroroso?"

Syaoran não queria ser lembrado daquele contra to. Emoldurou com as mãos o rosto dela e a beijou com intensidade, como se não a visse há muito tem po, apesar de já estarem juntos havia semanas, sem desgrudar um do outro.

"Gosto de regras e limites. Eu me enganei com você. O que está rolando entre nós é muito mais do que um simples acordo jurídico."

Sakura queria muito acreditar nele. Muito!

O telefone tocou e ele a soltou para atender à cha mada. Ela foi até o terraço e se sentou numa das ca deiras. O calor do sol estava delicioso. A vista gloriosa do vale verdejante salpicado de casinhas e viníco las a saldava todas as manhãs já havia três semanas. Mal podia crer que estava em Toscana tanto tempo com Syaoran. Os dias voaram e ela desejava que nunca acabassem, pois passava por um momento úni co de extrema felicidade. Tinha desistido de se convencer de que o odiava. Ao contrário, havia aceitado o amor que sentia por ele e não mais se envergonhava de seus sentimentos. A presença de Syaoran lhe enchia de luz e alegria. Os toques de Syaoran causavam sensações tão ma ravilhosas e poderosas que, mais de uma vez, os seus olhos verdes se encheram de lágrimas.

Durante aqueles dias, ele havia sido tão atencioso, carinhoso... E romântico. Oferecia jantares à luz de velas, passeios ao luar pelos jardins floridos, piqueniques no bosque. Caminhavam de mãos dadas pelos vilarejos medievais, comiam em restaurantes pitores cos e conversavam horas a fio.

Syaoran a levou a um nutricionista e aos poucos ela estava engordando, de forma saudável. Sakura continuava com as aulas de italiano e Syaoran a ajudava nos deveres, com extrema paciência. Certo dia viajaram a Paris só para assistir ao show de um dos cantores favoritos de Sakura. Em outra ocasião, ele a levou para conhecer um dos jardins mais famosos das redondezas. Ele parecia uma pessoa totalmente diferente da que ela havia conhecido. Durante o rápido namoro que tiveram, ele era um viciado em trabalho e nunca tinha tempo para conhecê-la melhor. No entanto, agora, ele fazia de tudo para arranjar mais tempo para ficar com ela. As mudanças no comportamento de Syaoran mexeram muito com Sakura. Havia decidido que estava feliz algo raro, e que iria viver o momento e esquecer de como aquela história havia começado.

Apenas duas coisas nublavam seu contentamento. O medo de que a única noite em que se haviam des cuidado pudesse ter conseqüências irreversíveis era uma delas. Estava convencida de que uma gravidez iria destruir a relação, visto que nenhum outro ho mem apreciava tanto a liberdade quanto Syaoran. A maior preocupação, no entanto, dizia respeito à mãe, que ainda não tinha entrado em contato com ela. Sakura havia ligado para todos os conhecidos de Nadeshiko, mas ninguém sabia dela há meses, em alguns casos até há anos. Começava a pensar que conhecia a mãe menos do que imaginava. Por que desaparecer de sua vida tão completamente, como se a filha não existisse?

"Qual é o problema?" – Syaoran interrompeu as divagações de Sakura. – "Me conta."

Ela soltou um suspiro.

"Estou preocupada com minha mãe. Parece que ela desapareceu da face da Terra."

"Desde quando?"

"Pouco antes de eu ser presa. Teve medo de ser acusada como cúmplice e entrou em pânico."

"Por quê? Ela também estava envolvida no show beneficente?"

Ela fez que sim e contou a história.

"Quer que ajude a encontrá-la?"

"Adoraria, mas não sei como pode fazer isso..."

"Tenho muitos contatos."

Syaoran pensou que as informações levantadas pelo detetive que ha via contratado poderiam ajudar a encontrar algumas pistas. Tinha deixado o relatório em Londres. Tinha mudado de idéia e achou que seria antiético investi gar a vida de Sakura sem que ela soubesse.

"Agradeceria muito. Estou muito preocupada com ela. O marido dela a largou pouco antes de ela desaparecer. Sabe-se lá em que estado de nervos ela deve estar." – respondeu com certa aflição.

"Vou achar sua mãe para você, cara mia." – olhou o relógio. – "Mas agora temos um compromis so."

"Que compromisso?"– perguntou desconfiada. Ele deu de ombros.

"Acho que já era hora de você fazer um teste de gravidez. Então marquei uma consulta com um médi co de confiança."

Ela ficou surpresa.

"Não precisa, posso muito bem comprar um tes te de farmácia."

"Esses testes nunca são cem por cento confiá veis."

Sakura baixou a cabeça. Obviamente ele estava muito preocupado com aquela possibilidade. Havia disfarçado a inquietação para não deixá-la nervosa, mas via que ele não agüentava mais esperar pelo re sultado. Foram a uma clínica particular. O ginecologista era muito atencioso e arranhava no inglês.

"Seu teste deu negativo. Você não está grávida, senhorita Kinomoto."

Sakura não estava preparada para a reação que teve com a notícia; ficou claramente desapontada. Syaoran estava surpreso. Acreditava piamente que ela estivesse grávida. Ambos eram jovens e sau dáveis. Nunca havia pensado em ter filhos e por isso sempre foi cuidadoso para não engravidar ninguém. Deveria estar aliviado com a notícia de que não seria pai. Sakura esforçou-se para sentir alívio. Nas semanas seguintes ao incidente, a mãe natureza chegou a pre gar algumas peças, fazendo-a acreditar que seu corpo estava mudando. Estava se acostumando, inconscien temente, com a idéia de ser mãe.

"Você deve estar satisfeito, agora. Não temos mais nada com o que nos preocuparmos." – ela mur murou, quando já estavam na limusine.

Syaoran não respondeu, estava absorto em seus pensamentos.

Sakura tinha medo de que ele descobrisse que ela havia ficado decepcionada. Sentiu um nó na garganta e uma grande vontade de chorar.

"Talvez seja próprio do ser humano desejar o que lhe foi negado." – divagou Syaoran. – "Você fi cou chateada com a notícia, não ficou?"

"Claro que não!" – mentiu. Ela procurou um len ço nos bolsos do casaco de Syaoran e ao encontrar um escondeu o rosto. – "É a tensão, só isso... Estou meio sensível."

"Gostaria de ter um filho com você, gioia mia."

(...)

CONTINUA

(...)


Note: Capítulo grandinho né? Espero que tenham gostado.

Agradecimentos aos reviews de: Marieta100, PriSalles, Aryel-Chan, Josechaan e Guest.

Até a próxima, loves,