Capítulo 6: O Quadribol e a estranha experiência

Harry Potter estava sentado em seu exuberante sofá verde, tentando concentrar-se no livro "As Mais Difíceis e Perigosas Maldições", mas sem conseguir. Sabia que eventualmente seria obrigado a encarar Voldemort e precisava melhorar muito sua prática em Maldições. Também sabia muito pouco – e planejava estender seu conhecimento – em Artes das Trevas, só que não se sentia muito disposto a aprender.

Olhou para o relógio. Faltavam dez minutos para as três da tarde – horário em que o jogo de Quadribol começaria. Ele gostaria muito de assistir, considerando que amava muito jogar. Não encontrava motivos para não comparecer e por isso dirigiu-se para o campo de Quadribol. Avistou Alvo, Minerva e Hermione sentados na arquibancada da Grifinória e atravessou a multidão de estudantes para chegar até eles.

– Hey, Har… Henry! – Hermione gritou e acenou para ele quando o viu.

– Oi, Mione! Alvo, Minerva! – respondeu Harry alegremente. Até que enfim se divertiria um pouco. – Malfoy está por aqui?

– Não – Dumbledore sorriu.

– Ótimo! E o dia está salvo!

– Não se alegre tão cedo, Henry – McGonagall disse –, ele é o juiz. A propósito, que bom que se juntou a nós.

– Ele… – Harry ponderou a resposta –…é injusto? Malfoy, digo?

– Não, nem um pouco. E não há a necessidade de favorecer os sonserinos no Quadribol, você notará logo – Hermione disse.

– Malfoy jogando limpo? Isso soa tão estranho… Sabe, ele gentilmente me informou, no café da manhã, que os grifinórios apanhariam dos sonserinos. Somos tão ruins assim? Me pareceu o contrário. Pareceu que éramos tão fortes quanto nossa época de escola – Harry disse.

– Você verá – Dumbledore disse, não querendo desapontá-lo antes mesmo do início do jogo.

Naquele momento, quatorze jogadores atravessaram duas portas enormes, entrando no campo. Sete deles caminhavam devagar, parecendo não ter prazer algum em jogar. Os uniformes vermelhos de Quadribol eram deploráveis e arrastavam no chão.

'Ah, Merlin… Se eles jogarem de acordo com as aparências que possuem…', Harry pensou amargamente. Para ele, Quadribol sempre fora sinônimo de diversão, algo que obviamente contrariava o que os grifinórios pensavam naquele momento.

Os jogadores em uniformes verdes não se assemelhavam de forma alguma a seus oponentes. As vestes eram novas em folha – 'provavelmente em virtude de algum feitiço', Harry pensou – e os jogadores tinham um olhar… de orgulho. Orgulho por fazerem parte do time, como deveria ser. E as vassouras deles…

Harry pegou um onióculos que trouxera consigo para observar mais atentamente as vassouras. Elas eram fenomenais. Podia-se ler "Nimbus 2050" em uma delas, e todas eram iguais, parecendo tão velozes…

Olhou então para as vassouras da Grifinória e notou que combinavam perfeitamente com o uniforme – eram antigas e miseráveis. Mirou de relance o nome das vassouras – as letras quase totalmente descascadas - e Harry imaginou que as vassouras já deveriam ter servido a muitos donos. Nelas, lia-se com dificuldade: "Firebolt IV"

– Nossa! Essas vassouras devem ser muito rápidas! – Harry exclamou. Afinal, ele o era em sua Firebolt, e o novo modelo só poderia alcançar uma velocidade ainda maior… algo difícil de imaginar. – Devem ser tão rápidas que não poderemos nem vê-los mais com essas vassouras…

– Talvez não seja como você espera, Harry – disse Dumbledore. – Sabe, em parte, é a vontade do dono que faz a vassoura voar com velocidade. Evidentemente, algumas vassouras são melhores do que outras. Contudo, isso não é tudo o que importa. Deixe-me dizer assim: você voaria mais rápido na sua Firebolt do que a Hermione aqui em uma Nimbus 2050.

– Eu concordo – Hermione sorriu. – E eu não chegaria muito longe antes de cair…

– Tão ruim assim? – riu Harry.

– Temo que sim. Eu não vôo há anos – comentou Hermione.

Malfoy foi até o centro do gramado, onde os dois capitães estavam parados.

– Quero um jogo limpo de vocês dois – disse, e todos poderiam ouvi-lo claramente, porque sua voz estava enfeitiçada.

O juiz sorriu, zombeteiro. Os dois capitães cumprimentaram-se. Quem eram eles? Harry usou novamente os onióculos. O garoto sonserino era parecido com Marcus Flint e seu nome era Gregor. Pelo que Harry sabia, ele estava no sétimo ano. Era uma sorte Simon Zabini não ser o capitão – tê-lo no time já era suficientemente ruim. Harry percebera a rivalidade existente entre o trio grifinório e Zabini. Nada diferente do que ele tinha com Rony e Hermione contra o babaca do Malfoy e seus dois guarda-costas.

O capitão da Grifinória era Ronny Longbottom – que deveria ter herdado da mãe a aptidão para Quadribol, Harry pensou, ao lembrar que Neville sempre tivera habilidades muito duvidosas com a vassoura. Porém, assim que Malfoy dera começo à partida, viu que estava errado. O garoto não parecia ter aptidão alguma, assim como todo o time.

Simon Zabini pegou a Goles e, em menos de dez segundos, marcou o primeiro gol do jogo, fazendo os sonserinos comemorarem.

– Dez a zero para, grande surpresa, Sonserina! – o narrador do jogo disse, e Harry o olhou, sem conseguir lembrar de que Casa era o garoto

Os grifinórios eram… ruins. Muito ruins. Harry se surpreendera ao ver que era possível alguém voar tão devagar em vassouras tão boas – e parecer tão infeliz enquanto jogava. O apanhador tentava se manter fora da rota dos sonserinos, os batedores pareciam fugir dos balaços, e o goleiro se escondia atrás do gol cada vez que a Goles se aproximava – o que acontecia quase o tempo todo. Somente os atacantes – Ronny Longbottom, Leon Creevey e Martin Whitby – pareciam estar tentando vencer alguma coisa, mas é claro que não tinham chance alguma.

Quando Longbottom conseguiu marcar uma vez – conforme a sorte permitira –, Gregor Flint, o capitão sonserino, pediu tempo, parecendo furioso.

– O que vocês acham que estão fazendo, deixando aquele babaca grifinório marcar? Se algo assim acontecer de novo, vocês estão fora do time, ENTENDERAM? – Flint falou tão alto que pôde ser ouvido pelos que estavam nas arquibancadas. Então ele voltou-se para o apanhador: – E não ouse capturar o pomo antes que tenhamos, no mínimo, quinhentos pontos, certo? Não se preocupe se aquele suposto apanhador da Grifinória vir o pomo. Eu o conheço, ele nem ousará pegá-lo. O bom dos grifinórios é que eles sabem que são perdedores. Então, espere algum tempo se você vir o pomo cedo. Certo?

O apanhador concordou.

"Ótimo, então. Vamos voltar para o campo e arrasar os Grifos!", Flint gritou e todos os sonserinos o aclamaram.

Harry olhou para Malfoy, que ainda voava – parecendo tão imensamente feliz, tão contente consigo mesmo – e procurou lembrar-se de, na primeira oportunidade, fazer algo para mudar a atitude do time de Quadribol da Grifinória, porque aquela simplesmente não era aceitável.

Cerca de dez minutos depois, o jogo continuou. Harry viu o pomo pela primeira vez. Thomas Weasley, o apanhador da Grifinória, também o fez, Harry notou, embora não se manifestasse. "Malfoy estava certo," Harry pensou "mas o apanhador da Sonserina ainda não o viu, eu acho. E o placar é dez a… 150! Ainda dá tempo…"

Harry levantou-se, pouco ciente do que estava fazendo, e gritou o mais alto que pôde:

– Weasley! Vá atrás do pomo!

Thomas Weasley virou-se e encarou Harry, abobado. O professor queria dizer aquilo mesmo?

Com isso, Frank Pucey, o apanhador sonserino, também viu o pomo. Estava muito mais distante do que Weasley – que finalmente começara a voar na direção da bolinha dourada. Entretanto, Weasley voava devagar, e Pucey tinha uma chance se fosse mais rápido – o que acontecia normalmente. Porém… deveria ele ir atrás do pomo? Filch lhe dissera para ignorar, mesmo se o grifinório o visse. Só que agora Weasley perseguia o pomo e, caso o conseguisse pegar, ele… venceria. A Grifinória vencendo um jogo? Quase impossível de imaginar, mas era o que aconteceria, e Flint não ficaria muito contente.

Então Frank Pucey seguiu Thomas Weasley – que estava atrás do pomo, mas que agora não o conseguiria pegar a tempo. O tal Weasley era mesmo lento – mas também estava perto… Eles perderiam, a menos que…

– WEASLEY! – resolveu gritar. – Não se aproxime mais um palmo! Estou avisando!

Pucey não via motivos reais para que Weasley ouvisse suas ameaças vazias – só que o garoto o fizera. Parara no meio do caminho. O pomo estava a dez centímetros de sua cabeça… e ele parara. Interessante…

Voou o mais rápido que pôde, na direção de Weasley… se funcionasse… Estava a apenas cinco metros… Weasley o encarava, chocado. Quatro metros… Três metros…

Thomas Weasley deu um grito fino e voou para longe. Pucey percebeu que nunca o vira voar daquela forma. Na verdade, nunca vira um Grifinório fugir para tão longe. Era engraçado, e o fez ter certeza de que voar não era da natureza dos grifinórios.

E então se viu a apenas um metro… apenas um metro o separava do pomo… Pucey estendeu o braço e abriu a mão. Apenas centímetros…

E pegou.

Os sonserinos comemoraram, os grifinórios suspiraram. Gregor Flint voou até Pucey. O capitão estava aliviado por seu apanhador não ter seguido sua ordem – teriam perdido o jogo se ele o tivesse feito. E Evans… será que ele o ouvira falando com o apanhador? Não, não poderia ter ouvido… ninguém tinha uma audição tão apurada. E então, Flint lembrou de Dumbledore no banquete… talvez ele tivesse ajudado o canalha a enfeitiçar os ouvidos? Afinal de contas, Dumbledore era um bruxo poderoso…

Não importava. Eles haviam vencido, e 300 a 10 não era um resultado tão ruim assim. Aliás, nada ruim… Só que, é claro, ele teria de falar com o Professor Malfoy sobre esse Evans. Talvez ele os ajudasse a evitar que coisas como aquela se repetissem. Malfoy sempre ajudara os sonserinos. Com uma ameaça bem feita, talvez… ninguém se atreveria a mexer com Malfoy, o garoto tinha certeza.


O time de Quadribol da Grifinória assustou-se ao ouvir uma forte batida na porta do vestiário. Quem seria? Não estavam acostumados a receber pessoas interessadas no time – normalmente, tudo o que faziam era rir deles, só que até isso já perdera a graça. Ainda assim, quem viria ao vestiário só para rir deles?

Bateram novamente à porta.

– Er… entre – Ronny falou, abobado.

Harry Potter abriu a porta destrancada e entrou no recinto. Os garotos não conseguiam ler a expressão no rosto do mais odiado – menos gostado, para ser mais exato, só que "odiado" soava melhor – professor. Havia desapontamento? Martin achou que era isso o que parecia, mas como um sonserino nojento poderia estar desapontado quando seu time acabara de vencer por 300 a 10? Estranho.

"O que você quer aqui?", Ronny cuspiu as palavras.

– Quer gozar da nossa cara enquanto ainda nem saímos do vestiário, Professor? As pessoas normalmente esperam que descansemos uns dez minutos antes de virem aqui e começarem a gritar quão babacas nós somos. Então, por favor, deixe-nos manter a tradição. Tente se adaptar a ela e suma daqui! – mandou Leon.

Entretanto, Harry só sorriu fracamente e sentou em um banco.

– Nossa, você está realmente de mau humor, hein? – disse com calma. Os grifinórios só o encararam e ele continuou: – Sabem… essa foi a impressão que tive quando vocês estavam em campo...

– E por que, professor, estaríamos interessados em sua opinião? – Martin perguntou. – Por que simplesmente não vai comemorar com seus colegas sonserinos sua vitória sobre os Grifos babacas?

Eles haviam esquecido por completo o sentimento de culpa que os incomodara durante aquela manhã. Evans sobrevivera à brincadeira e ele era um canalha mesmo, então eles não se importaram se já estavam com raiva dele.

– Weasley, por que você não capturou o pomo? – Harry virou-se para Thomas. – Vocês teriam vencido, sabe…

Thomas não respondeu, é claro que ele sabia por quê. Olhou para o chão.

"Você tem medo do Pucey, Thomas?", Harry perguntou suavemente, e Thomas baixou a cabeça. Realmente, temera pelo que o apanhador adversário faria caso ele tivesse pegado o pomo, mas por que deveria dizer isso a Evans? Era um problema dele, não do professor!

"Você tem", era uma declaração, não uma pergunta. "Quero falar com você essa noite, depois do jantar. Venha à minha sala. Tenho certeza de que sabe onde é, e, se não souber, pergunte a qualquer outro professor. Agora…"

– Por que isso? – Martin interrompeu. Nem Evans tinha o direito…

– O quê? – Harry perguntou, não entendendo o que o garoto queria.

– Você acabou de dar uma detenção sem motivo algum, Professor – Leon explicou.

– Você chama isso de detenção? – Harry sorriu. – Eu só estava pensando em conversar um pouco, garotos…

– Então Thomas pode se recusar a encontrá-lo, Professor, como tenho certeza de que ele está ansioso para fazê-lo – Martin riu.

'Está orgulhoso por conhecer as regras, meu garoto?', Harry pensou.

– Sr. Weasley, vai se recusar a se encontrar comigo esta noite? – perguntou ele, sorrindo de volta.

– Claro que vou – Thomas murmurou.

– Ah… – Harry suspirou. – Nesse caso, Sr. Weasley, não vejo outra opção que não puni-lo por seu comportamento inapropriado, dando-lhe uma detenção, essa noite, após o jantar, na minha sala.

As sete pessoas surpreenderam-se, e tudo que o professor fez foi sorrir diante das expressões. Era a primeira vez que ele se divertia sendo malvado. Não faria nada com Thomas Weasley, é claro, mas era divertido.

– Mas… – Martin protestou.

- Sim, Whitby, um professor pode fazer muitas coisas assim. Sim, Creevey, não preciso de nenhuma razão verdadeira. E, Longbottom, quando é o próximo treino? – perguntou Harry.

- Por que eu diria? Para que você vá avisar para seus amiguinhos sonserinos nojentos virem mais uma vez arruinar nosso dia? – Ronny respondeu depois de um momento de silêncio.

- O que o faz pensar que eu contaria aos sonserinos? – Harry perguntou, encarando o garoto com severidade e o fazendo estremecer.

- É claro que contará, você é um deles – e o mais nojento de todos, se quer saber -, e vocês sempre se unem contra nós, não?

- Eu sempre me uno aos meus amigos, você não? – disse Harry, depois de ponderar sobre o que responderia.

- Claro que sim.

- Isso é bom, garoto, mas o que o faz pensar que eu consideraria ser amigo dos sonserinos? O que o faz pensar que eu sou um sonserino? – Harry sussurrou.

- Você… não é? – Martin perguntou.

Harry olhou de Ronny para Martin.

- Não, eu não era da Sonserina.

- Então em que casa você estava? – Leon perguntou, contrastando com o silêncio do vestiário.

Harry deliberou. Deveria ele responder?

–Encontrem-me no campo amanhã de tarde, às três, e eu contarei a vocês, prometo. Tenho de ir agora, assim como vocês também deveriam fazer se não quiserem perder o jantar. Ah, e… tragam suas vassouras amanhã.

Com isso, Harry Potter saiu do vestiário. Por algum motivo, começara a gostar daqueles garotos e estava determinado a mostrar-lhes como se divertir em um jogo que ele amava tanto. Precisaria falar com Dumbledore para ver o que poderia fazer e com quanta ajuda ele poderia contar.


Frank Pucey caminhou até as masmorras, onde o Professor Malfoy passava o tempo livre. De fato, ao parar em frente à porta, ouviu alguém praguejando do lado de dentro.

– Agora não… – Malfoy resmungou.

O garoto perguntou-se o que havia de errado e bateu à porta.

– Merda! Quem é? – E então, com raiva, disse: – Entra!

Pucey lentamente empurrou a porta até que ela estivesse aberta. Malfoy parecia estar de muito mau humor, e isso não poderia ser uma coisa boa. Seria melhor se não o incomodasse, mas era tarde demais para isso.

– Eu… queria falar com o senhor – Pucey disse.

– Agora não, Pucey… eu estou com… pressa. Encontro você depois – Malfoy ofegou e rangeu os dentes, como se estivesse sentindo dor, antes de sair correndo da sala, deixando para trás um Frank Pucey muito confuso.

Frank percebera que o professor segurava o braço esquerdo enquanto andava, mas não tinha idéia do que poderia estar acontecendo. Pensando, decidiu que era melhor não se envolver – não era assunto seu e ele respeitava muito Malfoy. Por isso, voltou para o quarto, sem contar a ninguém a estranha experiência.

Se ao menos ele tivesse contado…


A/N: Obrigada por comentarem! Escrever é mesmo divertindo com pessoas como vocês lendo, sabiam? É difícil, mas ainda assim…