VI

Mais alguns dias se passaram. Saga foi rezar, foi fazer penitência, tudo que achava necessário pra poder ter uma criada que se adequasse à casa e por lá ficasse até que fosse a vez de Lidiya voltar. A seguir, resolveu procurar fora do Santuário. No recinto sagrado as pessoas pensavam muito em lutas, em coisas referentes à "causa"... quem sabe uma criada vir de um local mais "profano"¹ não fosse mais útil e prática? Claro, não precisava ser como aquela Larissa, que queria até mesmo revelar o Santuário ao mundo através de pesquisas históricas... mas poderia ser alguém de fora!

Foi até sua casa. Conversou com Kanon. Ele concordou, e então Saga pensou em procurar... porém, naquele mesmo dia eles receberiam uma candidata.

Tocaram na casa. Quando Saga foi atender, reparou que se tratava de uma mocinha baixinha e franzina. Parecia ter uns treze ou catorze anos.

- Hum... olá moça. Qual seu nome?

Ela parecia deslumbrada. Apertou as mãos de Saga como se ele fosse uma divindade, maravilhada, e declarou, em grego porém com um sotaque francês bem forte, quem era enfim:

- Sou Cecília. Nada é por acaso! Achei-os pelo destino, já escrito nas estrelas!

Saga coçou a cabeça, estranhando.

- Você veio pelo anúncio das criadas?

- Sim! Desejo muito ser criada de vocês!

- Bem... pode até ser, porém... não estamos aceitando menores de dezoito anos.

- Ora! Posso não parecer, mas tenho vinte anos de idade! Vejam meu RG!

Realmente, o ano de nascimento dela declarava que tinha vinte anos, embora parecesse bem mais jovem. O documento não parecia falsificado, e como Saga havia rezado logo de manhã... pensou que aquele poderia ser o resultado de suas preces.

"Não se deixe levar pelas aparências, Saga!", dizia de si para si. "Ela pode parecer franzina e fraca para o trabalho, mas quem sabe é a tal 'criada ideal'!"

- Prazer, Cecille. Mas pode me chamar de Cecília; fica mais apropriado para o sotaque grego. Pode entrar. Vamos conversar e então eu verei se pode ser nossa criada.

Ela, serelepe e feliz, entrou com suas coisas. Não eram muitas. Saga levou-a para a sala de estar, conversando com ela sobre sua experiência. Ela também não tinha praática como criada; era, assim como Larissa, uma jovem estudante universitária que precisava de local para ficar por uns tempos, a fim de se sustentar. Saga, um tanto quanto apreensivo, perguntou a ele que curso ela. E ficou tranquilo ao saber que era pedagogia...

- Hum. Gostaria de lhe dizer, Cecilia, que não é permitido tirar fotos do Santuário, nem divulgá-lo por aí... se é que me entende.

- Sim, entendo! Apenas desejo fazer meu trabalho.

As mãos de Larissa eram irrequietas. Mexiam sem parar, e ela parecia muito ativa por contra deste aspecto. Apesar de bastante "serelepe" e da aparência quase infantil, ela não parecia ser tão má. Quando Saga lhe perguntou como ela soubera da vaga para criada, então, é que Saga teve ainda mais certeza de que deveria ficar com ela.

- Ah, senhor, Saga! Eu acredito fervorosamente em Destino, em nossa história estar escrita nas estrelas! Hoje de manhã vi um horóscopo na TV, dizendo que minha vida mudaria drasticamente! Pois então... logo, logo em seguida, o anúncio de emprego aqui caiu em minhas mãos! Oh, senhor! É aqui mesmo que devo ficar! É esta a grande mudança que deve se efetuar em minha vida!

Saga assentiu. Sendo Santo de Atena, também tinha bastante dessas superstições e crenças em destino. Logo, pensou que era ela a moça ideal.

- Está admitida!

Toda alegre, quase saltitando, Larissa foi arrumar suas coisas no quarto das criadas. E logo, assim que conseguiu arrumar tudo, resolveu iniciar o serviço. Era bastante solícita, e sempre perguntava a Saga como ele gostava que as coisas fossem feitas.

"Pode ser um pouco 'criança', porém tirando isto, não é má! E também, de que adiantaram as outras terem aparência de adultas, se deram problemas? É melhor funcionar do que ter uma boa aparência!"

Aproximadamente meia hora depois, Kanon chegou. Olhou aquela atividade toda em casa e logo identificou a nova criada. Acenou em cumprimento a ela, recebendo muitos e efusivos apertos de mão... só que logo ela voltou para seu serviço, atarefada e querendo demonstrar energia.

- Hum... Saga... ela é a nova criada, certo?

- Sim.

- Qual seu nome?

- Cecille, mas diz que, pela dicção grega, podemos chamá-la de Cecília. É francesa.

- Hum... fico contente que pareça uma criança, pois assim provavelmente não vai dar em cima de você... mas... será que executará bem o serviço?

- Não seja preconceituoso, Kanon! Ela tem vinte anos, apesar de parecer ter uns treze. Nós também começamos muito novos neste serviço de Atena, o qual é bem mais arriscado do que o de uma criada!

- Sei... você quem sabe! Ela desempenhando bem o trabalho, pra mim tá ótimo.

No primeiro dia, tudo pareceu normal. Ela arrumava tudo, apesar de tropeçar bastante e xingar em francês... atrapalhava-se um pouco no grego, misturava-o com sua língua original, mas era bastante dedicada.

No entanto, logo aquela também apresentaria problemas...

OoOoOoOoOoOoO

Na volta do primeiro dia de treinos, Kanon quase se sentiu aliviado. Havia comida em cima do fogão, as roupas limpas, passadas, dobradas e guardadas... e um cheirinho de desinfetante no ar.

- Aaaahhh... casa com criada é outra coisa!

- Sim - respondeu Saga - E parece que ela não dorme aqui à noite, não...?

- Mais perfeito impossível...

Ambos sorriram, se abraçando no sofá e já pensando em fazer mais do que somente se beijar... quando escutaram a estridente e afrancesada voz de Cecília.

- Oh, vocês dois! E isso lá são horas?

Ambos pularam pra fora do sofá, pensando se ela haveria visto os amassos... mas logo deixaram de se preocupar com isso, pois a verborragia de Cecília não parava...

- Ora! Treinam até as seis da tarde e voltam às oito! O que andam fazendo nas ruas a essa hora, sacre bleu?

Os gêmeos se entreolharam. Quiseram rir pra não chorar. Pois sim...

- Cecília... - começou Saga, querendo ainda ser educado - Você está falando conosco como se fosse nossa mãe... e você é quinze anos mais nova do que nós... na verdade, parece ainda mais jovem...!

- Eu sei. Mas eu trabalho para vocês! Eu cuido da casa! Eu deixo tudo pronto para que cheguem às seis e meia! E vocês... vocês estão desrespeitando meu trabalho!

- Cecília, não queremos desrespeitar seu trabalho. Mas temos nossa vida, entende...

- Sua vida! Pois sim, sua vida! Podem até ter, mas eu estou governando a casa! Eu sei o trabalho que dá! Vocês chegarem às oito só complica tudo!

Os irmãos se entreolharam novamente, não sabendo bem o que depreender daquilo tudo.

- Agora - continuou ela, com sua voz estridente - Vão jantar. Vão jantar, que preciso terminar de arrumar a sala! Vocês na sala vão atrapalhar tudo!

Quietos, eles foram até a cozinha. Antes de entrar, Kanon perguntou para a francesa:

- Cecília... você dormirá em casa?

- Sim, dormirei! Pois se nem tenho onde dormir!

Kanon bufou de impaciência. Já na cozinha, foram comer.

- Saga! - disse, já irritado, enquanto comiam - Ela nos trata como se tivéssemos cinco anos de idade e fôssemos filhos dela!

- Sim... parecia bom demais!

- Pois não? E ainda dorme em casa! Não vou aguentá-la por mais do que uma semana aqui!

- E se foi realmente o Destino que a enviou até nos?

- Dane-se o Destino! Eu quero é meu sossego de volta!

- E a bagunça toda de volta também...? Ou vai me ajudar a limpar alguma coisa?

- Ah! O que não falta por aí é candidata a criada! Por favor, Saga!

Ainda temendo contrariar o Destino, Saga decidius-se por uma solução alternativa.

- Vamos esperar uma semana. Apenas uma. Se ela continuar assim mandona, mandamos embora.

- Uma semana com uma francesinha petulante em casa!

Após comerem, sequer puderam tomar banho direito. Cecília mandou-os dormir, e ela então foi para seu próprio quarto.

OoOoOoOoOoOoO

No segundo dia, Kanon já estava de mau humor. No terceiro, sem poder sequer se "amassar" direito com Saga em casa, sentiu-se mortificado. Nos dias seguintes, não aguentou e discutiu com a criada.

- Mas o que cacetes vem uma francesa de merda fazer aqui na Grécia? Vai se foder, porra! Uma piveta bizarra dessas, com um monte de sardas na merda da cara, com uma porra de um sotaque de puta de cabaré! Caralho! Na sua terra imunda a pessoa não pode nem falar inglês que todo mundo rechaça! Tem que ir pra lá falando a merda da língua afrescalhada de vocês! E ainda quer dar ordens na minha casa? Vai tomar no cu!

Ela parou, observando a Kanon respirar fundo por causa da verborragia anterior. Saga olhou aquilo estarrecido.

- Kanon! Não precisava de tanto!

- E eu há quatro dias vivendo como se tivesse uma mãe, quando não tenho uma desde os sete anos! Ah, que merda!

Ela ainda estava paralisada. Em seguida começou a falar, a voz embargada pelo choro que em breve viria.

- Eu cresci criando a meus irmãos. Tive sempre de ser muito enérgica, caso contrário eles não me respeitariam, até por eu sempre ter parecido mais nova... e nunca fui metida como a grande maioria dos franceses costuma ser!

Ao dizer isto, explodiu em choro. Saga tentou consolá-la, mas Kanon não deu a mínima mostra de piedade. Ela foi correndo até seu quarto e retirou a todas as suas coisas dele.

- Eu não fico mais aqui! Nem por mais um minuto! Não!

- Pois vá! - disse Kanon, ainda com raiva - É o que mais queremos!

- Foi por isso! Foi por isso que o Destino me colocou aqui! Para ser humilhada, oh mon Dieu!

E saiu desabalada pela porta, sem dizer mais nada.

- Kanon! - disse Saga enfim - Que vergonha! Agora ela vai espalhar a nossa fama por aí!

- E que espalhe! Mas que saco! Agora ao menos eu posso chegar em casa depois das oito e dormir à meia-noite, depois de uma ótima foda com você! E por falar em foda... já faz tempo que não fazemos algo por conta dessa mulher, não...?

Saga foi para o banho, sem responder nem insinuar nada para o gêmeo em relação a sexo. Mas Kanon sabia... sabia que de noite ele se renderia a si. E sabia também... que a próxima criada, independente de Destino ou não, seria melhor...

Ou ao menos era o que ele pensava.

To be continued

OoOoOoOoOoOoO

¹"Profano" vem do latim "pro fanum", que na idade média se colocava como algo "fora do templo". Como o Santuário seria considerado um "templo", Saga se referia a alguém que viesse de fora do Santuário. Ele aqui não usa o tempo "profano" como se fosse pejorativo.

Oi gente! Tirei a fic do hiatus, rssssssss! Vou aos poucos atualizando mais vezes, ainda mais que janeiro estou de férias!

Beijos a todos e todas! Obrigada a todos que ainda lêem as fics!