CAPÍTULO 7

As apostas

Existem apostas feitas por brincadeira...

-Eu tinha apostado que seu Patrono era um asno, esqueceu?

...mas algumas envolvem riscos...

-Quer apostar? – perguntou a garota, sem vacilar.

-É só uma questão de tempo para que todo o teatrinho tenha fim.

...riscos que também estão presentes no amor.

-Augusto... – Lanísia ofegou.

-Isso, meu bem... Sou toda sua, sempre sua...


As novas diretrizes que levariam à seleção do Rei e Rainha do Baile de Formatura provocaram um rebuliço entre os alunos do sétimo ano. Não se falou em outra coisa durante todo o dia. Ao entardecer, as Encalhadas passaram pelo saguão de entrada e notaram que uma lista fora afixada no quadro de avisos. Se aproximando, elas leram:

AVISO AOS ALUNOS DO SÉTIMO ANO

Os ensaios e preparativos para a formatura se iniciam no próximo sábado. Favor assinarem na lista os nomes dos pares; caso ainda não tenha um par, encontrar companhia com urgência, ou a seleção dos pares para aqueles que estiverem sozinhos ocorrerá por sorteio.

Minerva McGonagall.

-Ah o bom é que nem precisamos nos preocupar com isso – comentou Joyce. – Se fosse alguns meses atrás estávamos ferradas. Nunca vi tanta dificuldade em achar homem decente.

-A Lanísia não pode ir com o professor – lembrou Serena. – Quem será o seu par, amiga?

-Não faço idéia... Acho que vou escolher o primeiro que aparecer me convidando, não importa quem seja.

-Lanísia...

A garota sentiu um arrepio na nuca, tão intenso que a fez estremecer. A voz de Augusto, tão próxima e inesperada, era capaz de baqueá-la. Sem fôlego, ela voltou-se e ficou frente a frente com o professor. Ele parecia confuso e ansioso, coisas que ela aprendera a admirar; não eram esses fatores que o deixavam ainda mais irresistível?

-Oi, professor Augusto... – ela conseguiu dizer, um calor incendiando o corpo.

-Preciso falar com você, a sós.

Lanísia olhou confusa para as amigas.

-Ah... Seria alguma coisa relacionada ao dever de casa? Ou a algum exame?

-Não, mas...

-Por que precisa ser a sós, professor? Não tem como me falar agora? Há algum problema se as minhas amigas escutarem?

-Sim, tem problema. Acho que elas não vão querer ver o que eu tenho pra você – ele chegou ainda mais perto; uma nova onda de calor fraquejou as pernas de Lanísia. – Mas, acredite, você vai gostar muito.

-Eu... Vou gostar?? – ela perguntou, olhando para as amigas em busca de ajuda. – Não estou certa disso... – começou a recuar para o Salão Principal. – É hora do jantar, acho melhor deixarmos para outra hora...

Augusto avançou e bloqueou o caminho.

-Não. Sou seu professor e estou ordenando que me acompanhe até a minha sala – ele fitou atentamente o rosto assustado da garota. – Vai desobedecer à ordem do seu professor?

Lanísia ofegou, afastando-se um pouco; se ficasse tão perto daquele homem, era capaz de desmaiar em pleno saguão.

-Tudo bem... vamos... Vamos até a sua sala...

-Não fique assustada – ele disse, sorrindo. – As melhores coisas a aguardam lá. Coisas que reservo apenas à minha melhor aluna... – e, bem baixinho, completou. – E à minha bela garota.

Lanísia quase caiu outra vez ao ser atingida por uma nova sensação de calor, mas foi socorrida pelas mãos fortes de Augusto, que conseguiam ser firmes, mas ao mesmo tempo delicadas. Isso fez com que o sorriso dele aumentasse ainda mais.

-Acho que minha aluna não está se sentindo muito bem. Devo levá-la pela mão, para evitar que se machuque no caminho. Não acham, meninas?

-Claro – responderam as Encalhadas em coro.

-Nos vemos daqui a pouco, amigas... Já estou bem, professor... – disse Lanísia, enquanto Augusto a segurava bem próxima a ele, subindo os degraus da escadaria de mármore. – Não precisa mais me ajudar, obrigada...

-Não precisa se incomodar! Para mim é um prazer...

Augusto deu uma risadinha e trouxe Lanísia ainda mais para perto. Enquanto subiam a escadaria, a garota olhava em desespero para todos os lados, tentando esconder-se dos alunos que passavam por eles.

-O que pensa que está fazendo, Augusto? – perguntou a ele quando entraram no corredor que levava à sala do professor. – Enlouqueceu?

-São essas as perguntas que eu quero fazer pra você – ele respondeu, ficando sério. Abriu a porta da sala e empurrou Lanísia para dentro. Em seguida, trancou-a. Lanísia ainda se recompunha do empurrão quando Augusto, segurando em seus pulsos, prensou-a na parede do fundo da sala, o olhar decidido fixo no rosto da jovem. – Anda, pode me explicar o que está acontecendo com você!

-Não consigo entender porque está tão nervoso...

-Não fuja do assunto, Lanísia, me responda por que está diferente comigo.

-Não estou...

Ele pressionou o corpo ao dela; Lanísia sentiu-lhe a rigidez pulsando por baixo das vestes.

-Sentiu? Isso é uma das coisas que você me faz. Você me enlouqueceu, me envolveu por completo. Agora é tarde demais para recuar. Meu coração e todo o meu corpo não aceitariam isso – ele movimentou-se, pressionando-a ainda mais; Lanísia gemeu. – Isso... Você ainda me quer... Reconheço os sinais. Mas, agora... olhe pra mim, olhe... – ele afastou os cabelos negros do rosto dela para que ficassem olho no olho e segurou o rosto dela com violência, forçando-a a encará-lo. – Agora me diga por que está fugindo de mim. Por que está fugindo daquele que é o único capaz de fazê-la desmanchar-se apenas com um movimento...

Ele pressionou-a outra vez, deixando-a zonza.

-Eu quero uma resposta – exigiu Augusto, ainda mantendo o rosto de Lanísia seguro em suas mãos. – Agora.


Diante da lista do baile, Hermione, Alone e Serena conversavam a respeito dos pares.

-Você vai com Harry ou Colin? – perguntou Mione à Alone.

-Ou eles vão juntos? – zombou Joyce antes que a garota pudesse responder.

-Se eles forem juntos, quem vai usar vestido? – perguntou Serena. – Eu aposto no Harry, trajando um longo vestido cor de jade... Combinaria com os olhos dele.

-E muita maquiagem daria um jeito naquela cicatriz – disse Joyce.

Alone colocou as mãos na cintura e encarou-as:

-O que faz com que subestimem o Harry? Só porque o patrono dele é um veado? Isso não faz dele menos homem que o Colin...

-Qual é o patrono de Colin? – perguntou Mione.

-Um poodle... – respondeu Alone, contrafeita. – Mas não deixa de ser um cachorro, o que acaba refletindo a masculinidade e a agressividade presentes nele... É, não sei com qual dos dois eu irei, talvez faça algum sorteio...

-Então por enquanto acho que apenas eu, Serena e Joyce vamos assinar a lista – falou Mione, com a pena na mão. Escreveu seu nome ao lado do nome de Rony; Joyce, por sua vez, inseriu o nome de Juca junto ao próprio nome.

Quando se afastaram para que Serena assinasse, perceberam que a amiga hesitava.

-Vamos, Serena, só falta você – disse Joyce. – É bem simples, é só assinar o seu nome. Pegue a pena, pressione sobre o pergaminho e assine.

-Eu sei como se faz – resmungou Serena. – O problema é que não sei o que assinar no nome do meu par.

-É bem fácil, acompanhe comigo, vou soletrar pra você – Joyce fechou os olhos buscando concentração e iniciou a soletração. – D-R-A-C-O...

-Não tenho dificuldade pra escrever! – respondeu Serena, beliscando o braço de Joyce. – Eu... Eu não sei é se coloco o Draco como o meu par... – foi baixando a voz à medida que falava, receosa da reação das amigas.

-Não estou entendendo, Serena – disse Mione. – Draco é o seu namorado, se não colocar o nome dele, vai colocar o nome de quem? – a compreensão chegou à Mione logo em seguida; ela fez uma careta. – Quer ir ao baile com o Lewis??

-Sim! – confirmou Serena.

-Ficou maluca? – perguntou Joyce. – A lerdeza já está afetando sua cabeça também?

-Eu quero ir com ele, mas não com segundas intenções!

-Claro, imagine se tem segundas intenções nisso, mané... Tem muito mais do que isso!

-Está enganada, Alone. Aliás, todas vocês estão enxergando as coisas de maneira errada. Apenas lembrei que o Lewis vai ficar sem companhia. A Gina não pode ir, o que é um alívio, seria uma companhia medonha para o Lewis, na minha opinião... Sei que tem várias garotas no sétimo ano, mas ainda assim, não imagino quem esteja à altura do Lewis para acompanhá-lo no baile.

-Vamos imaginar a situação: estou sem par – lembrou Joyce. – Que tal se eu fosse com ele?

-Não...

-Quer dizer que eu não estou à altura dele?

-Não é isso, Joyce. Só que...

-Ainda ficaria insatisfeita dessa forma? – perguntou Joyce, ao que Serena respondeu com um aceno afirmativo. Ela fitou Serena atentamente. – Já deu pra entender bem aonde você quer chegar... Na sua cabecinha de vento, Lewis só arrasaria no Baile de Formatura se estivesse com você nos braços!

-É o que eu acho! – Serena confirmou com entusiasmo. – Meninas, seria muito estranho se eu dissesse ao Draco que prefiro ir com o Lewis ao baile?

-Serena, vamos relembrar... – Hermione estendeu uma mão. – Draco é namorado... – depois estendeu a outra mão, bem afastada. – Lewis é irmão...

-Qual é o problema de querer ir ao baile acompanhada do meu irmão? É um gesto bonito...

-Não, no seu caso é um gesto de desespero – intrometeu-se Joyce. – Você quer fazer isso para impedir que o Lewis vá com outra garota... Percebe a diferença que você coloca entre o Draco e o Lewis? Imaginar que Draco convide outra menina não te deixa irritada, mas quando é o Lewis você pensa na medida mais absurda para que isso não aconteça!

-Precisa pôr um fim nesse sentimento de posse – falou Mione. – Conformar-se com o par que ele escolher para o baile pode ser o primeiro passo.

-Agora pegue essa pena e assine o nome do seu namorado, Draco Malfoy, na lista.

Serena olhou para a pena que Joyce lhe estendia.

-Não vou fazer isso.

-Por que não?

-Porque eu quero ir com Lewis – ela disse, e, irritada, derrubou a pena dos dedos de Joyce e subiu a escadaria de mármore.

Joyce suspirou.

-Parece que o grupo de socorro às Encalhadas foi solicitado.


-Não há nada para responder, Augusto – falou Lanísia, calma. – Eu amo você, sou louca por você. Não sei porquê fez tudo isso, sabe muito bem que me deixa arrepiada e provoca todas essas sensações!

-Mas algo mudou. Você não é a mesma! – ele soltou-a e começou a andar a esmo pela sala. – Não tenta me provocar... Comportou-se como uma aluna qualquer na aula hoje de manhã!

-Você sempre me cobrou pra que eu agisse assim! É só o que estou fazendo! Deixando de ser ousada, de agir impensadamente diante das outras pessoas...

-Nunca conseguiu agir assim, Lanísia. Quer que eu acredite que, de uma hora pra outra, você resolveu mudar? Justo depois daquele dia no Expresso, em que ficou claro pra nós dois que a sua loucura e seus atos atrevidos eram o diferencial na nossa relação? No momento em que aprendemos a valorizar isso, você simplesmente resolve seguir pelo lado oposto?

-Estamos em Hogwarts, Augusto, e quase fomos flagrados pelo professor Flitwick! Precisamos ter mais cuidado...

-Mas não acabar com tudo! Lanísia, eu conheço você... Essas atitudes, elas... Elas fluem por você, são maiores do que os seus pensamentos. Você age sem pensar, por instinto. Não posso acreditar que tudo continue igual...

Lanísia ficou intrigada.

-Augusto, o que está sugerindo?

-Nem sei ao certo... Mas eu penso que, talvez, você tenha se cansado de esperar por mim... Ou tenha pensado melhor, notado que sou muito velho pra você...

-Não...

-Então apareceu um desses garotões da escola, ficou jogando conversa mole em seu ouvido e deixou-a confusa...

-Mas que absurdo...

Antes que pudesse prosseguir, Augusto trouxe-a para perto dele e abraçou-a.

-Não me troque por um desses garotos. Você merece mais do que isso. Eles jamais teriam fôlego para satisfazê-la, para amá-la com tanta intensidade. Desconhecem o seu corpo, não saberiam a forma certa de tocá-la... – ele agarrou-a e ergueu a barra do vestido, alcançando-lhe a coxa e apertando. – Falta a eles experiência para conseguir domá-la como eu consigo... – subiu a mão e acariciou-lhe o bumbum, enquanto Lanísia delirava de prazer com seus toques.

-Augusto... eu sei de tudo isso...

-Então não me deixe – subitamente, ele agarrou-lhe o pescoço e beijou-lhe com voracidade, sem deixar espaço para que Lanísia recuasse ou o impedisse. – Não... Não me deixe... – e, agilmente, virou o corpo de Lanísia sobre o tampo da mesa e deitou-se sobre ela, deixando-lhe beijos nos lábios, no pescoço, nos seios, ao mesmo tempo em que, com as mãos, apertava suas pernas, deslizava as mãos pela curvatura da cintura, alucinado, fora de controle. – Quem mais poderia lhe conceder tudo isso??

-Augusto... – Lanísia ofegou. – Pare, alguém pode aparecer...

-Não, tranquei a porta...

-Vão estranhar o fato de estarmos trancados aqui... Ahh... – ela não segurou o gemido de prazer quando o professor desceu-lhe as alças da blusa e, abrindo o sutiã, tocou o seu seio com a língua. – Não... Para... Não para... Para...

-Não, você precisa sentir outra vez o que sou capaz de fazer. Sou o homem perfeito pra você.

-Eu...

PAM-PAM-PAM.

-Que barulho foi esse? – perguntou Augusto.

-Acho... Acho que bateram na porta – respondeu Lanísia, aproveitando para arrumar a roupa no momento em que Augusto se afastou.

-Droga, quem será? – ele perguntou, olhando preocupado para a porta. – Deve ser algum professor... Ande, se vista logo! – ele pediu, enquanto alisava as próprias vestes amarrotadas e tentava dar um jeito no cabelo.

-Eu avisei! Sabia que era arriscado demais...

-Vamos, Lanísia, não posso demorar pra abrir! – ele alertou. Lanísia correu para junto dele e, finalmente, Augusto abriu a porta...

Não havia ninguém no corredor.

-Mas... – ele murmurou saindo e olhando para os dois lados. Ia voltar-se para Lanísia e informá-la de que não era ninguém quando viu a jovem se afastando a passos rápidos a caminho da escadaria de mármore. Augusto entendeu o que tinha acontecido. Correu até Lanísia e impediu-a de prosseguir. – Foi você. Você bateu na mesa para que eu pensasse que tinha alguém à porta!

-Desculpe, mas era o único jeito de fazê-lo parar...

-Vai dizer que não estava gostando?

-Não é questão de gostar ou não, o momento é inapropriado!

Augusto riu, mas sem alegria; era o riso de quem se depara com algo que jamais imaginou que ia presenciar.

-Jamais houve momento inapropriado pra você, Lanísia, e você ainda quer me fazer acreditar que tudo continua na mesma! Por que não é sincera comigo? Por que não me diz o que está acontecendo?

Lanísia encarou-o por alguns segundos.

-Já disse que não está acontecendo nada. Eu amo você, Augusto. Isso é tudo.

Ele estendeu a mão para tocar o rosto dela, mas Lanísia encolheu-se e olhou apavorada para os dois lados do corredor.

-E você ainda quer me fazer acreditar que é a mesma Lanísia – ele suspirou. – Antes jamais recusaria um toque meu.

-Estamos em pleno corredor! – ela sussurrou, horrorizada. – O que queria, que eu me atirasse nos seus braços?

Ele agarrou-a mais uma vez, ignorando o fato de estarem expostos.

-É isso mesmo que eu queria. Mas ainda vou trazer a sua loucura por mim de volta. Vou voltar a ser irresistível...

-Você nunca deixou de ser.

-Quando era irresistível pra você, não importava o lugar, a hora, não havia impedimento. Antes não tinha, e vai voltar a não ter.

Ele soltou-a, deixando-a distanciar-se. Augusto voltou à sala, bateu a porta e chutou uma cadeira, fazendo-a despencar de lado sobre o piso. Urrou de ódio na sala vazia.

-Tem algo na cabeça dela... Algo que está atrapalhando... Mas eu vou reverter isso...

Ele abriu o armário e tirou o esboço de sua pintura mais recente, que trazia Lanísia estendida sobre o banco da cabine do Expresso de Hogwarts, inteiramente nua. Olhando os contornos do desenho, Augusto recordou aquela viagem inesquecível...

A entrega de Lanísia...

"Fica peladinho pra mim, fica... Fica peladinho do jeito que eu gosto."

...a loucura...

"Vamos tirar tudo, professor... Ninguém pode nos ver..."

...os momentos de prazer...

"Sou toda sua... me faça sua mulher... acabe comigo, meu professor, vai..."

...aquilo não podia ter fim. Desesperado, Augusto largou-se sobre o chão da sala e seguiu com o dedo os traços do desenho.

-Preciso resgatar tudo aquilo – disse, as lágrimas angustiadas molhando o rosto. – Você vai voltar a ser minha. Vou seduzi-la até que seja inteiramente minha outra vez. Não vou perdê-la...

Ele apanhou o lápis e começou a fazer os contornos dele mesmo, nu, agachado ao lado da figura de Lanísia.

-Se a ousadia a abandonou, eu vou incorporá-la. Farei as piores loucuras... – ele uniu as mãos dos desenhos – ...mas será minha novamente. Só do seu professor.


-Acabou a crise? – perguntou Alone, quando ela, Mione e Joyce chegaram à sala comunal e sentaram-se próximas à Serena. – Arremessou a pena daquela maneira só porque estava nervosa, o que vai ser da próxima vez?

-Olha quem fala em crises nervosas... – replicou Serena, séria. – Posso ter me acalmado, mas ainda quero ir com o Lewis.

Hermione afastou, com o pé, um gibi do Super Trouxa, que estava largado no chão, e riu como se lembrasse de algo engraçado.

-O que foi?

-Falar no Patrono do Colin, e ver essa revistinha do Super Trouxa, fez com que eu me lembrasse da aula do Augusto em que ele nos ensinou a conjurar os Patronos... Foi engraçado demais...

-Foi terrível – suspirou Joyce, pegando o gibi do Super Trouxa, o super-herói atrapalhado, e recordando a aula ocorrida há dois meses...


Depois de muitas aulas práticas, Augusto achou que os alunos já estavam preparados para produzir Patronos – e não meros fiapos de fumaça prateada.

-Algum voluntário para começar? – ele viu que Serena se esticava, erguendo a mão. – Ah! Mas que surpresa, Srta Bennet... Fique no centro da sala, os outros recuem aqui para o fundo...

Serena respirou fundo.

-Está preparada?

-Muito! – ela concentrou-se e executou o feitiço. – EXPECTO PATRONUM!!

Uma anta prateada formou-se e começou a correr pela sala. As gargalhadas ribombaram nas paredes, enquanto Serena nem se dava conta; aplaudia a anta, sorridente.

-Vá antinha, voe feliz... – voltou para o fundo da sala, para perto das amigas. – Vocês acreditam que o meu Patrono é uma anta? Ei, por que está dando dinheiro para a Alone, Joyce?

-Eu tinha apostado que seu Patrono era um asno, esqueceu? Perdi.

-Certo, quem será o próximo? – perguntou Augusto, enquanto a anta se desfazia.

-Eu! – Joyce adiantou-se, com a varinha em punho.

Ao executar o feitiço, ela deixou nítido a todos o seu Patrono. A galinha robusta sacudia as asas, movendo o bico; novamente, as risadas soaram em alto e bom som.

-Uma galinha? – perguntou Joyce ao professor. – Fiz alguma coisa errada... Não pode ser...

-Não houve erro algum, este é seu Patrono, Joyce. Ele é baseado na sua personalidade, não tem como mudá-lo...

-Tudo bem, tudo bem, não precisa ficar lembrando que minha personalidade está refletida nessa galinha ridícula!

Ela juntou-se às amigas, visivelmente decepcionada.

-Viram que absurdo, meninas?

-Eu não achava que seria uma galinha, Joyce – disse Mione, entregando um galeão para Alone por ter perdido a aposta.

-Que bom que você sabe valorizar minhas outras faces, Mione, sou muito grata por isso – disse Joyce, olhando feio para Alone enquanto segurava na mão de Mione.

-Claro...

-No que você apostou?

-Numa vaca – respondeu Mione; Joyce soltou sua mão com tanta violência que ela quase despencou no chão.

-Agora quem vai sou eu... – disse Lanísia, abrindo mais um botão na camisa do uniforme, de modo a exibir ainda mais a curvatura dos seios. Ela acenou para Augusto, que se engasgou ao bater os olhos no decote. – No que vocês apostaram? – ela perguntou às outras Encalhadas.

-Eu coloquei leoa – disse Alone, consultando a lista de apostas. – Joyce apostou em cadela...

-Oh! – exclamou Lanísia, encarando Joyce com espanto.

-Pensei no período de cio... – explicou-se. – Sua correria atrás do Augusto me fez lembrar isso... Cadelas no cio ficam doidas pra cruzar, sabe, não sossegam, ficam em cima dos cachorros até conseguirem alguma coisa, e isso é bem parecido com você e o Augusto...

Lanísia suspirou.

-O pior é que eu tenho de concordar que é parecido... Mas espero que não saia uma cadela abanando o rabinho...

Lanísia encaminhou-se para o centro da sala. O efeito-Lanísia já começava a se abater sobre Augusto, que colocou um livro sobre as pernas como se quisesse ocultar qualquer movimento súbito no baixo-ventre. Lanísia sorriu satisfeita e abriu mais um botão da camisa.

-Ah-ah, isso é o cio! – gritou Joyce do fundo da sala, atraindo a atenção de todos.

Ela corou diante da raiva de Lanísia; as outras pessoas balançavam a cabeça, sem entender a razão para Joyce gritar aquilo; Augusto, por sua vez, ajeitou o livro para que o cobrisse ainda mais.

-Pode conjurar seu Patrono, Srta Burns – disse Augusto, formal.

Lanísia sorriu-lhe maliciosa e, em seguida, concentrou-se na execução do feitiço.

-Expecto Patronum!!

Uma enorme pantera foi formada e, em seu esplendor prateado, circulou o corpo de Lanísia, suas patas movendo-se com rapidez. Ela sorriu em admiração, enquanto era aplaudida por todos. Todos com exceção das amigas, cuja aposta em seu Patrono não rendera vitória alguma...

-É pantera mesmo? – perguntou Joyce, apertando os olhos para ter uma melhor visão do Patrono. – Será que não é uma cadela grandona?

-Conforme-se, Joyce, não é cadela e pronto – disse Alone.

-Esses Patronos estão saindo com defeito! – reclamou. – Cadela é muito mais a cara da Lanísia!

-Não temos nem o que discutir com você – disse Mione. – É péssima nisso. Você achava que o seu Patrono seria um esquilo.

-Porque esquilos são fofinhos como eu... Seria bem melhor do que aquela galinha descontrolada – reclamou Joyce, abrindo espaço para Lanísia que acabava de juntar-se às amigas outra vez. – Agora entre nós só falta você, Alone.

-Devo comentar que não estou nem um pouco feliz com as apostas que vi no papel – disse Alone. – Serena, como pode pensar que meu Patrono é um ganso?

-Gansos são estressadinhos – respondeu Serena, sacudindo os ombros. – Fiz essa ligação de personalidade!

-Uma cascavel, essa é a aposta de Joyce Meadowes! – vociferou Alone, arremessando o papel das apostas no rosto da amiga.

-Isso, é aquela que tem o chocalho no rabinho... – explicou Joyce.

-Está me chamando de falsa por acaso?

-Não... Eu pensei no seu lado vingativo, na questão de dar o bote, mas nas pessoas que você não gosta... Sei que é uma ótima amiga.

-De você não esperava mais nada, Joyce, só que isso não tem sentido algum – resmungou Alone, vendo que Hermione pegava o papel de apostas do chão e anotava a sua aposta. – Resolveu arriscar um palpite, Mione?

-Sim. Estou apostando que será uma naja!

-E eu quero apostar numa jibóia – falou Lanísia, agitando a pena.

-Posso mudar para alguma espécie de cobra também?? – Serena estava ansiosa para alterar, mas Alone segurou-a pelo uniforme. – Se deixar ganso eu vou perder...

-Não, você não vai apostar em cobra! Ou vai se arrepender de ter feito isso como todas as outras... – ela olhou feio para Lanísia, Mione e Joyce, que lhe retribuíram com caretas de desdém. – Preparadas para quebrarem a cara?

Ela esperou que Parvati Patil terminasse de conjurar o seu Patrono e, em seguida, anunciou ao professor que queria ser a próxima. Enquanto isso, Serena tentava mudar a sua aposta com as outras Encalhadas.

-Vai... Eu quero apostar em outra espécie de cobra... Deixem, por favor...

-Está bem – Joyce concordou. – Qual é a espécie?

-Serpente!

-Serpente não é um tipo de cobra, sua imbecil – respondeu Joyce. – É só outro nome para o animal.

-Mesmo?? – perguntou Serena, impressionada. – Que ótimo, já ganhei o dia! – ela bateu palmas. – Aprendi que serpente e cobra são a mesma coisa... Adoro sinônimos, amigas!

Augusto fez sinal para que Alone se aproximasse; ela ergueu a varinha e executou o feitiço, revelando a todos que seu Patrono era...

-Uma naja... Uma naja!! Isso é uma afronta, professor!

-Não dissemos que era uma cobra? – falou Lanísia, aos risos, pagando para Mione, que acertou a aposta.

-Uma cobra e uma serpente ao mesmo tempo, porque são a mesma coisa – anunciou Serena à classe, "ensinando" os colegas.

A naja prateada ziguezagueava pelo ar; Alone tentava desfazê-la, agitando as mãos no ar quando a cobra se aproximava demais.

-Nunca fui tão ofendida... – lamentou-se, recuando para o fundo da sala.

-Vejam, o próximo é o Juca! – mostrou Hermione.

Elas se concentraram, enquanto Juca Slooper ficava com o rosto vermelho diante de todos os colegas. Augusto tranqüilizou-o, dizendo que não precisava ficar nervoso todas as vezes em que ia fazer alguma demonstração em público, mas Juca disse, com a voz fraca, que não era bem esse o motivo do nervosismo.

-Eu sei no que o meu Patrono se transforma... Não é muito legal, professor...

-Pior que a anta da Serena? – perguntou Joyce. – Duvido muito, Juquinha, pode executar o feitiço com tranqüilidade!

-O risco de ser outra galinha é mínimo – resmungou Serena, dando um tapa no braço de Joyce.

Juca tomou fôlego. Executou o feitiço e o seu Patrono despontou. A classe inteira franziu a testa e procurou se concentrar, enquanto tentava identificar que bicho era aquele; a dificuldade era expressa em perguntas:

-É um pato?

-É um texugo?

-É um peixe?

-Não! É o Super Trouxa! – exclamou Joyce, ficando em pé sobre a cadeira e erguendo o punho, vitoriosa. – Foi mal, pessoal, não pude evitar a brincadeira, essas perguntas me lembraram o gibi...

Augusto aproximou-se de Juca, aproveitando que a sala silenciou-se com a interrupção de Joyce, e explicou:

-O Patrono de Juca é um ornitorrinco. Ele parece uma mistura de diferentes animais, mas é um só. Tem um bico que lembra um pato, mas o corpo é coberto de pêlos e tem garras nas patas. Uma aparência incomum, sem dúvida...

-Que bicho mais esquisito, meu pai... – murmurou Alone, em choque.

-Com tantos animais, ter um ornitorrinco como Patrono é azar demais...

-Também acho, Mione, mas o Juca é meu namorado... – disse Joyce. – Eu não esperava que ele tivesse muita sorte nisso...

-Como nascem os ornitorrincos? – perguntou Serena às amigas, enquanto o ornitorrinco prateado se desfazia diante de seus olhos. – Será que é um cruzamento de pato com algum outro bicho?

-Não, Serena... – respondeu Joyce – ...mas no seu caso eu ainda me pergunto se você não seria fruto de um cruzamento desse tipo...

-Sou filha de dois seres humanos! Se fosse filha de algum animal, teria seqüelas, como esse pobre bicho animal! Você vê algum rabo de jegue em mim? Vê?

-Talvez esteja escondido pela calça! – rebateu Joyce.

-Não tem problema, eu provo pra você que não tenho rabo... – Serena fez menção de tirar a calça, mas o sinal tocou naquele momento, encerrando a aula, para alívio de Augusto, e interrompendo Serena.

-Na próxima aula continuamos com os Patronos... – avisou o professor enquanto os estudantes se retiravam. – Se eu estiver em condições de suportar mais uma aula como esta, é claro...


-E ele não deu mais nenhuma aula sobre Patrono, não é? – perguntou Hermione.

-Não dá pra ter certeza, Mione. Esqueceu-se de que na aula seguinte o professor nos incumbiu da tarefa de alimentar os grindylows na sala ao lado?

-É mesmo, Joyce... Ficamos muito orgulhosas por ele ter nos confiado uma tarefa exclusiva!

-Hum... – fez Alone, pensativa. – Acham que ele nos deu essa tarefa para nos manter afastadas da sala porque ia dar outra aula sobre Patronos?

-É... Agora que relembramos tudo deu pra perceber que atrapalhamos demais – concordou Mione. – Nossa... Ele só mandou darmos peixes aos grindylows porque queria se livrar da gente!

-As Encalhadas sendo colocadas de lado... – disse Joyce, decepcionada. – Não acredito que chegamos a esse ponto...

A passagem do buraco do retrato abriu-se e por ela passou Lanísia. Logo atrás dela vinham Lewis e Gina. O braço de Lewis estava sobre o ombro de Gina; Serena ficou aflita, acompanhando os movimentos do casal. Lewis localizou-a na sala comunal, mostrou-a à Gina e, juntos, eles avançaram até o canto em que as Encalhadas estavam reunidas.

-Droga, estão vindo!

-Aja com naturalidade, Serena, por favor... – pediu Lanísia, quase implorando, enquanto ocupava uma das poltronas.

-O que o Augusto queria com você? – perguntou Mione.

-O que acha? Depois eu conto com detalhes, os dois estão se aproximando... Naturalidade, Serena, não se esqueça!

Lewis e Gina chegaram e cumprimentaram-nas.

-Mione, o Rony estava te procurando lá no Salão Principal – avisou Gina. – Pediu que fosse encontrá-lo perto do lago...

-Humm... Hoje tem!! – exclamou Joyce, cutucando Mione com o ombro. – É isso aí, Mione, coloca essa amiguinha pra trabalhar!

-Joyce, se não percebeu a irmã do Rony está aqui... – replicou Mione, nervosa e encabulada.

-Qual é o problema? Depois que vocês transaram em público lá na Festa da Fantasia Sexual do Lorenzo´s, todo mundo já sabe que você e o Rony fazem de tudo. Você soube, não soube, Gina?

-Eu vi, para falar a verdade... Um momento um tanto desagradável...

-Nem me fale... – comentou Mione, levantando-se. – Com licença, vou até lá encontrar meu Roniquinho... – viu que Joyce e Lanísia abafavam risadinhas. – É Roniquinho mesmo, meu lindinho e fofinho... Nem ligo para o que vocês pensam... – e saiu com ar superior.

-Tenho uma ótima notícia para lhe dar, maninha – disse Lewis, animado, sentando-se no braço da poltrona ocupada pela irmã. Serena forçou um sorriso. – Acho que já era de se esperar, mas agora é oficial. Eu e Gina estamos namorando!

Naquele momento, Serena perdeu o chão.


Hermione atravessou as portas de carvalho do castelo. A noite começava a cair, mas ainda havia claridade suficiente para que ela pudesse perscrutar o terreno à procura de Rony. Desceu pelo gramado a caminho do lago. Viu uma figura em pé à beira da água, com as mãos nos bolsos, parado junto a uma árvore. Ela sorriu, tirando os sapatos para sentir a grama sob seus pés. Sentindo uma gostosa sensação de liberdade, transbordando de paixão, Mione correu até o namorado.

Rony estava tão distraído que não escutou sua aproximação. Mione então o agarrou pela cintura, colando o corpo ao dele e dando-lhe um beijo no rosto.

-Chamou por mim? – ela perguntou.

Rony afastou os braços dela para que pudesse ficar de frente e beijá-la.

-Faz tempo que não temos uma noite com tempo tão agradável. Achei um desperdício ficarmos presos no castelo sem aproveitá-la.

-E de que forma está pensando em aproveitá-la?

-Humm... Como a minha namorada está atrevida! – ele fez cócegas em Mione. – Tendo esse tipo de pensamento, olha só! Isso também não dá pra desperdiçar!

-Você é um bobo... – ela disse, aos risos, abraçando-o.

-PROTEJAM-SE! – gritou uma voz de repente.

Antes que pudessem fazer qualquer movimento, Rony e Mione foram molhados pela água do lago. Afastando os cabelos úmidos do rosto, os dois viram um grupo de cinco garotos nadando na água, que estava agitada devido ao impacto provocado pelos saltos.

-Nossa, que mancada! – disse um deles ao ver Rony e Mione ensopados. – Desculpem, eu disse que era pra avisar antes, mas...

-Mas a nossa empolgação nos impediu – respondeu outro, nadando de volta à margem. Quando o rapaz pisou na grama, Mione desprezou-lhe o rosto; seu olhar perdeu-se em todo o resto que estava exposto diante dela.

Ele estava usando apenas um calção de banho azulado. Ela registrou-lhe a panturrilha grossa; depois seus olhos passaram do calção para o tórax molhado, onde gotículas de água escorriam ao redor do umbigo. O peitoral proeminente estava arfante, acompanhando a respiração acelerada; gotas se acumulavam e pingavam dos poucos fios negros que o decoravam. Finalmente, Mione chegou ao rosto; o cavanhaque, os dentes que conseguiam reluzir até mesmo na escuridão, lhe revelaram quem era aquele...

-Aaron... – ela balbuciou, o ar quase faltando enquanto admirava Aaron sacudir os cabelos úmidos.

-Oi, Mione! – ele cumprimentou, animado. – Como vai, Rony?

-Bem – respondeu Rony, desconfiado. – Mas não me lembro de termos conversado antes...

-E não conversamos, mas nas poucas vezes em que conversei com a Mione ela sempre me falou sobre você.

-E... Conversaram poucas vezes mesmo? – Rony não deixava de encarar Aaron com desconfiança. – Eu nunca vi os dois juntos...

-Na maioria das vezes conversamos na biblioteca. Sou como a Hermione, vou à biblioteca por prazer, mesmo quando não há necessidade alguma, não é mesmo, Mione?

Ela estava concentrada em examinar o corpo dele mais uma vez, de modo que não percebeu a pergunta. Apenas quando Rony a chamou, Mione desvinculou-se da atração irresistível proporcionada pelo corpo molhado de Aaron Raccer.

-O que foi? Perguntaram alguma coisa? Desculpem, eu me distraí...

-Você, distraída? – perguntou Rony, estranhando. – Está tudo bem com você, Mione? Está muito agitada. Quer voltar ao castelo?

-Não, Rony, não – ela beijou-o com voracidade, um beijão que fez Rony quase perder o equilíbrio e despencar na água. Ele não se sentiu muito confortável sabendo que Aaron estava bem ali, na certa sentindo-se desconfortável pela forte demonstração de amor provocada pelo beijo de Mione, mas era impossível não corresponder de bom grado aos carinhos da garota.

-Uau! – exclamou Rony. – Estou vendo que está com a corda toda!

-Claro... E... Vamos passear pelos jardins? – ela perguntou ao namorado, indicando o lago. – Aaron e os amigos estão se divertindo e... Não vamos atrapalhar...

-Acho que nós é que vamos atrapalhar vocês – disse Aaron, enquanto Mione disfarçava para não olhá-lo. – Eu e meus camaradas aqui estávamos esperando uma noite assim há meses. Desde que a lula gigante foi banida daqui não tivemos oportunidade de nadar tranquilamente no lago... A propósito, não querem nadar também?

-A água deve estar bastante agradável, mas fica para outro dia – respondeu Rony. Olhou preocupado para Mione. – Parece agitada outra vez...

-Não, estou bem... – ela respondeu. – Só quero me afastar daqui...

-Ansiosa para ficarmos sozinhos, não é? – ele tomou-lhe a mão. – Já vamos... Ah, até logo, Aaron! Divirtam-se!

-Vocês também! Tchau, Mione!

-Tchau! – ela respondeu, sem nem ao menos virar para despedir-se. Acompanhou Rony, afastando-se cada vez mais do lago e da presença desconcertante de Aaron...

Por que sentira todas aquelas coisas? Apenas Rony devia provocar-lhe tudo isso. Nunca antes se perdera tanto assim admirando um corpo. Sempre achou Aaron atraente, mas nunca o encarou daquela forma; como um objeto físico, algo que poderia lhe fornecer prazer...

O simples fato de pensar nessas palavras enrubesceu Mione; ela ficou grata pela escuridão da noite, que os engolfava cada vez mais. No entanto, Rony estranhou o seu silêncio...

-Queria saber Legilimência só para ter acesso a todos os seus pensamentos.

-Acho que não valeria a pena... – ela comentou, desanimada consigo mesma por tudo o que havia se passado à beira do lago.

-Por que não?

Mione parou de caminhar. Não devia deixar que Rony percebesse que havia algo errado. Na verdade, ela não queria que houvesse. E só tinha um jeito de fazer com que o rapaz se sentisse nas nuvens: oferecer-lhe uma noite maravilhosa, proporcionar-lhe tudo o que o seu amor tinha a oferecer. Então, maliciosa, ela respondeu-lhe:

-Não valeria a pena porque são pensamentos bem perversos.

-Agora terá que me contar...

-Só se me pegar primeiro – ela empurrou-o; Rony caiu sentado na grama. Mione começou a correr, a brisa noturna ondulando sobre seus cabelos. – Deixe de ser molenga!

-Vou pegá-la e vai se arrepender dessa ofensa! – ele brincou, fazendo uma expressão zangada e erguendo-se com ímpeto.

Começou a persegui-la entre as árvores e moitas, subindo e descendo as encostas esverdeadas dos terrenos de Hogwarts. Brincaram e riram na noite como duas crianças, mas, quando Rony alcançou-a atrás de uma árvore, antes que Mione conseguisse desviar-se dele, os dois despencaram juntos na grama abraçados como amantes.

Durante alguns segundos apenas se olharam. Em seguida, beijaram-se, e quando Rony começou a despi-la, Mione não deu importância para o fato de estarem ao ar livre, amando-se sob o céu pontilhado de estrelas. A árvore fornecia um ótimo refúgio, e não havia alunos nas proximidades, mas tudo perdia a importância naquele momento tão mágico.

Ela fechou os olhos, enquanto era tocada pelo vento e pelas mãos do seu ruivo.


-Estão namorando? – perguntou Serena, o sorriso forçado entortando os lábios. – Mesmo?

-Sim, e estamos muito felizes... – falou Gina, no momento em que Lewis dava um beijo estalado em sua mão.

-Parabéns! – exclamaram Alone, Lanísia e Joyce.

-É, muito lindo isso... – murmurou Serena, ainda com o falso e exagerado sorriso. – Mas vocês não acham que é muito cedo? Não deviam esperar mais um tempo para darem um passo tão decisivo?

-Só estamos namorando, maninha, ninguém aqui está marcando a data do casamento.

-É, e nem pensamos em marcar o chá de bebê – brincou Gina, mas o único a rir foi Lewis; Serena continuava com o sorriso imbecil congelado nos lábios e as amigas fitavam-na com tanta preocupação que a piadinha de Gina se perdeu sem atingi-las.

-Bebês? – perguntou Serena, subitamente apavorada; o sorriso fingido deu lugar ao pavor. – Vocês... Uau, já pensaram até nisso? Já estão tentando fazer os bebês?

-Maninha, foi uma brincadeira da Gina...

-Vocês já fazem sexo, é isso? Tem vida sexual ativa?

-Ah... – fez Gina, incapaz de continuar; seu rosto estava vermelho, assim como Lewis, que também não entendia o motivo daquelas perguntas indiscretas.

-Serena... Nossa, está nos deixando com vergonha...

-Vocês já fazem ou não fazem? Responda, Lewis, eu tenho o direito de saber tudo sobre a sua vida! Sou sua irmã, preciso zelar pelo seu bem-estar...

-Não fizemos nada, Serena – ele respondeu, por fim. – E depois dessas perguntas nem sei se vamos fazer... Gina, você ainda é minha namorada, não é?

-Claro – ela sorriu, evitando olhar para Serena. – Já vi que a família não é fácil, mas sou sua namorada sim...

-Não liga não, Gina – avisou Lanísia. – Serena ainda está se acostumando com a idéia de ter um irmão, então acaba se esquecendo de que certas perguntas não são convenientes. Ela está aprendendo...

-O Patrono dela é uma anta – disse Alone.

-Ah... Claro... – Gina tossiu discretamente.

-Lewis, eu preciso conversar com você – disse Serena, levantando-se rapidamente antes que alguma das amigas lhe impedisse. Agarrou o braço do irmão. – Em particular.

-Não pode ser depois?

-Não, é uma emergência... – vendo que o rapaz ainda hesitava, ela completou. – Não se preocupe, minha cunhadinha vai entender. Só vou tomá-lo emprestado por alguns minutos – ela apertou a bochecha de Lewis e perguntou para Gina, que a observava, séria. – Você não se importa, não é, cunhadinha?

Antes que Gina respondesse, Serena já puxava Lewis para o buraco do retrato. Fora da sala comunal, ela continuou arrastando-o, buscando um corredor deserto onde pudessem conversar. Marjorie, que estivera a postos, de olho no retrato da Mulher Gorda, vibrou de felicidade quando Serena saiu. A Encalhada que lhe interessava no momento, ao lado do rapaz que testava os limites de sua racionalidade; os dois, sozinhos, embrenhando-se pelos corredores sombrios do castelo...

Era a oportunidade perfeita para completar a Magia do Aprisionamento.

Sorrateiramente, Marjorie seguiu-os.


Serena e Lewis pararam próximos à janela de um dos corredores. Serena apoiou-se no parapeito e ficou encarando o anoitecer; foi a forma que encontrou de fugir do rosto de Lewis para dizer o que pensava:

-Lewis, eu não quero que você namore a Gina.

-O quê?

-Isso mesmo... – ela respondeu, encarando os terrenos da escola. – Acho que fará uma grande bobagem se continuar com ela...

-E tem algum motivo para pensar assim? – questionou Lewis, se debruçando no parapeito ao lado dela. Ele afastou os cabelos dourados de Serena, buscando enxergar-lhe o rosto; ela afundou o olhar ainda mais, como se buscasse algo no jardim. – Ela fez alguma coisa com você que eu não saiba? Te ofendeu de alguma forma?

-Sim... Ou melhor, não... Ah, não sei explicar muito bem... Existe algo que me incomoda nela, é como se fosse um sexto sentido. Eu sinto que ela não é a garota certa pra você, entende?

-Eu gosto da Gina – falou Lewis, puxando-a para perto dele e mantendo-a segura em seus braços. – Esse não é um bom motivo para que ela seja a garota certa para mim? Se a sua preocupação é a minha felicidade, pode ficar sossegada. Eu e a Gina temos muitas coisas em comum, nos damos muito bem...

-Sim, você se dá bem com ela, mas eu não... – e, finalmente, Serena reuniu coragem para encará-lo diretamente nos olhos. A visão do rosto de Lewis, carregado de sentimento, mexeu com seu coração, mas ela forçou-se a prosseguir. – Eu não gosto dela, Lewis. Sinto muito, mas eu não gosto. Queria vê-lo feliz, mas com alguém que me fizesse bem... A minha felicidade não importa para você?

-Até mais do que a minha – ele respondeu, segurando o rosto dela com as mãos. – Você é tudo o que eu tenho.

-Então vai deixá-la? – ela sussurrou.

-Eu... Eu não sei... – ele recuou, ficando de costas para ela, encarando a parede de pedra. – É complicado. Porque eu sinto algo diferente. Para mim, a Gina é maravilhosa, não sabe quanta coisa legal já passamos juntos...

Enquanto ele falava, Serena voltou-se e olhou para as estrelas. Não ia conseguir convencê-lo a largar Gina; mas também, do que valeria isso? Terminando com Gina, Lewis estaria solteiro novamente e pronto para encontrar um novo amor. E, mais uma vez, seria a garota errada; ela jamais ia aceitar...

Uma dor lancinante subitamente se apoderou do seu corpo e fez com que curvasse os joelhos e escorregasse para o chão. Lewis, perdido nas próprias palavras, nem percebeu que Serena caía, sofrendo horríveis espasmos de dor.

Assim que a racionalidade foi arrancada da alma da jovem, voou envolta em fumaça negra na direção da varinha de Marjorie. A garota tocou a ponta da varinha no fundo do último frasco e fechou-o. Já ia escapulindo a caminho da sala comunal da Lufa-Lufa quando viu que o desenlace da Magia do Aprisionamento teve uma testemunha.

Com o susto, Marjorie quase derrubou o frasco de vidro.

Diante dela estava o professor Ipcs Raccer.


Na sala comunal, as Encalhadas ficaram em silêncio, pensando no que Serena teria a dizer para Lewis. Lanísia resolveu tomar a palavra quando viu que Gina, cansada de esperar, começava a cochilar numa poltrona do outro lado da sala.

-Acho melhor interferirmos – disse Lanísia. – A Serena vai acabar fazendo uma bobagem.

-É, ela não tem o direito de atrapalhar a vida do Lewis se não vai ficar com ele – falou Alone. – Vamos atrás dela, talvez ainda não tenha dito nada.

-Isso, se tem uma Encalhada que precisa de orientação é a Serena – opinou Joyce.

-Vamos sair em silêncio para que a Gina não queira nos acompanhar – orientou Lanísia, pedindo silêncio com um sinal.

Alone e Lanísia já alcançavam a passagem do buraco do retrato quando perceberam que Joyce não as acompanhava – e perceberam da pior maneira possível...

-ALGUÉM VAI LEVAR ESSE GIBI DO SUPER TROUXA?

Com o susto provocado pelo grito de Joyce, as garotas trombaram. Gina despertou do cochilo de maneira tão súbita que estava em pé antes de abrir os olhos. Alone e Lanísia olharam para Joyce como se quisessem estrangulá-la.

-Aonde vocês vão? – perguntou Gina.

-Ao... ao Salão Principal – respondeu Alone. – Subimos direto para a torre, já estávamos nos esquecendo do jantar... Mas você não pode ir, é claro, tem que esperar o Lewis, não tem?

-Sim, só espero que ele apareça logo... – Gina deixou-se cair na poltrona outra vez. – Estou morta de cansaço, e a fome piora ainda mais as coisas.

-Pode ficar sossegada... – disse Lanísia, chamando Joyce com a mão. – Ninguém mais vai berrar em plena sala comunal vazia.

-Não mesmo, acho isso uma tremenda falta de educação... – opinou Joyce, sendo empurrada pela passagem. – Calma, meninas... Quanto nervosismo! – Joyce ajeitou as vestes, enquanto o retrato se fechava após a saída de Alone. – Acho melhor irmos por este lado. Serena não ia levar Lewis para o Salão Principal, deve ter procurado algum corredor por aqui.

-Vamos encontrá-los – disse Lanísia, e as três saíram em busca de Serena e Lewis.


Ipcs não fez qualquer tipo de pergunta à Marjorie; simplesmente deu meia-volta e começou a caminhar rápido. A garota guardou o frasco de vidro na bolsa, enquanto tentava alcançá-lo, incapaz de chamá-lo em voz alta – se fizesse isso, denunciaria a sua presença a Lewis.

Assim que fechou a bolsa, mantendo o frasco em segurança, Marjorie acelerou o passo. Ipcs não se incomodou em ser alcançado por ela; continuou no mesmo ritmo, de cabeça baixa, e sentindo que Marjorie havia chegado perto, falou:

-Desde que a vi entre os alunos dessa escola, sabia que podia esperar o pior... Claro que não estava enganado.

-Professor... Aquilo que viu não é o que está pensando...

-Eu reconheço uma magia negra quando vejo uma, Marjorie, não adianta tentar me enganar. Você tirou alguma coisa de Serena Bennet, e isso é um crime.

-Não, eu só estava...

-Estava praticando o mal, assim como a sua mãe faz tão bem! Claro que você não seria diferente. A mãe, o irmão, todos da mesma laia, todos com a mesma maldade correndo nas veias...

Marjorie ultrapassou-o e bloqueou o caminho.

-Como sabe de tudo isso?? – perguntou, o medo cedendo lugar à desconfiança. – Se tem tanto conhecimento sobre a minha família, é porque já deve ter solicitado a ajuda da minha mãe... É isso, professor? Precisou de magia das trevas para aprontar?

-Sou seu professor, garota, tenha mais respeito! Ago-agora trate de sair da mi-minha frente ou a situação vai p-piorar...

Mas Marjorie não saiu; ela apenas deu uma risadinha.

-Começou a gaguejar!! Está com medo, professor Ipcs? – riu ainda mais quando o bruxo deixou de encará-la e ficou vermelho. – Quem diria... Um homem tão inteligente como o senhor, apelando para as artes das trevas?

-Isso foi pa-passado... Se acha que com isso va-vai me impedir de con-con-contar a verdade para a diretora, está e-enganada...

-Eu sei que não vai impedi-lo. Mas acho que, conhecendo a minha família tão bem assim, o senhor deveria ter mais respeito. Minha mãe não ia gostar nem um pouco de saber que você me denunciou à direção da escola. Pode imaginar o que ela faria quando descobrisse?

-N-não...

-É cla-claro que na-nã-nãoooo – zombou Marjorie, imitando o jeito medroso do professor. – Hum, vejamos, você denunciou a filha dela, certo? Então ela o atingiria da mesma forma... Aaron Raccer... – à menção do nome do filho, Ipcs empalideceu. – ...é seu filho, não é mesmo? Um jovem tão promissor, inteligente, esperto, bonito... Tem tudo para ser um dos maiores bruxos do mundo. Não seria trágico se uma vida cheia de tantas promessas fosse interrompida de repente?

-O q-que...?

-Não, não fale nada, você demora séculos para falar... Mas ouça bem: tragédia! Tragédias acontecem todos os dias, e atingem qualquer pessoa. O jovem Aaron podia sofrer um acidente fatal de repente, todos estamos suscetíveis a isso... Uma queda da vassoura... Afogamento... Tanta coisa que pode acontecer. Imagine como todos iam lamentar! "Pobre Aaron, tinha tudo para ser grandioso!".

-Vo-vocês não teriam coragem de f-fazer mal a meu filho – resmungou o professor, apertando o braço de Marjorie.

-Quer apostar? – perguntou a garota, sem vacilar.

Passos soaram no corredor. Três sombras muito unidas se aproximavam. Marjorie teve o pressentimento de que seriam as outras Encalhadas, na certa procurando por Serena. Com o coração acelerado, ela abriu um armário de vassouras e forçou o professor a acompanhá-la, empurrando-o. Mal tinham fechado a porta do armário e ouviram as garotas caminhando pelo corredor.

-...estou dizendo, a Serena levou o Lewis para a Sala Precisa, não adianta procurar por aqui – disse Alone. – Deve tê-lo acorrentado lá para que ele fique longe da Gina.

-Ela não chegaria tão longe – falou Joyce. – Mas é estranho não aparecerem...

-Será que a Serena também sentiu aquela dor esquisita? – sugeriu Lanísia.

-É a única entre nós que ainda não sentiu... – lembrou Joyce – ...eu não ia nem estranhar se isso acontecesse...

Ela calou-se. Como uma confirmação da hipótese levantada por elas, Lewis acabava de surgir, carregando Serena nos braços; o corpo da jovem balançava molemente nos braços dele; Serena estava desacordada.

-Eu não sei o que aconteceu... – explicou-se Lewis, tenso. – Estávamos conversando, quando me virei ela estava caída, e não acordou até agora...

Joyce sentiu a pulsação da amiga e a temperatura na testa.

-Só está desacordada – ela tranqüilizou-o. – Temos uma leve suspeita do que tenha causado isso – trocou um olhar significativo com Alone e Lanísia. – Nem precisa levar para a ala hospitalar, há poção para dor no dormitório em quantidade suficiente para aliviar um batalhão – e, apontando a varinha, imobilizou o corpo de Serena no ar.

-Mas isso pode matá-la... – disse Lewis em pânico. – Talvez seja alguma infecção interna, que vai evoluir e começar a corroer os órgãos...

-Lewis, nem seu pessimismo vai nos abalar – falou Lanísia. – Sabemos muito bem como cuidar da Serena. Vamos carregá-la até o dormitório e dar a ela um pouco de poção.

Joyce e Lewis começaram a retornar para a sala comunal, Joyce mantendo o corpo de Serena no ar. Alone puxou Lanísia para o canto, próxima ao armário de vassouras, sem imaginar que estava ocupado por Ipcs e Marjorie...

-Todas nós passamos por isso – falou Alone à amiga. – Existe alguma coisa errada acontecendo, Lanísia.

-Também acho. Joyce precisa marcar uma reunião de emergência para discutirmos isso... Seja o que for, precisamos descobrir e impedir que nos atinja outra vez.

-Acha que pode ter relação com o Ted? – indagou Alone num fio de voz.

-Sim. Não consigo pensar em mais ninguém a não ser naquele estúpido. Posso estar enganada, mas parece que ele encontrou meios de agir aqui dentro e se vingar de todas nós.

E, olhando para o corpo imóvel de Serena, levitando à distância, Alone e Lanísia ansiaram por solucionar aquele mistério, ao mesmo tempo em que um medo intenso as envolvia. Seria tudo uma vingança de Ted? Mas qual seria o objetivo de tudo aquilo? O que fazer para se protegerem daquela ameaça?

Elas torciam para estarem enganadas. Se tudo fosse confirmado, significava que as paredes seguras de Hogwarts não foram capazes de conter a fúria de Ted. E se até mesmo essa barreira ele conseguira ultrapassar, elas não viam o que poderia detê-lo.

Inseguras, Lanísia e Alone começaram a seguir Lewis, Joyce e a Serena flutuante. Subitamente, a temperatura do corredor pareceu cair; elas ficaram bem próximas, de braços agarrados, caminhando num silêncio carregado de questionamentos...

Dentro do armário, Marjorie aguardou o som dos passos cessarem à distância para então abrir a porta e saltar para o corredor; ao sair, respirava aceleradamente, ansiosa pelo que ouvira.

-Elas já estão desconfiadas... – murmurou para si mesma.

-Você t-tem algo a ver com esse B-bacon?

-Não te interessa! – gritou, impaciente com o professor. – Quanto menos souber, melhor pra você.

-Logo v-vão desc-descobrir tudo o que es-está fazendo...

-Mas não vai ser por você. Vai querer que seu filho morra só para me prejudicar?

-Não.

-É o que eu imaginava. Só que mantê-lo em segurança vai custar mais do que o seu silêncio – sibilou Marjorie, rondando o professor. – Preciso que me ajude... Preciso que me torne uma aluna tão brilhante quanto Hermione Granger.

-Quer ser como ela?

-Não. Quero substituí-la.

Ipcs estava horrorizado; como podia existir tanta maldade em uma garota tão jovem? A voz era carregada de promessas amargas, verdadeiras. Os pêlos de sua nuca eriçaram-se de pavor. Mas ele não podia vacilar; então, tentando passar uma segurança que não existia, disse:

-N-negativo... Não vou ajudá-la de fo-forma alguma. Mantenho silêncio, mas jamais vou ajudá-la a p-prejudicar os outros. Boa noite, Srta. Crane.

Ele desviou-se de Marjorie e afastou-se ligeiro. A garota nem pensou em segui-lo; cruzou os braços e sorriu.

-Ele precisa pagar pra ver? Então, assim será...


Serena ainda estava desacordada quando Lewis, Alone, Lanísia e Joyce chegaram à entrada da sala comunal. Draco Malfoy, que subia à procura da namorada ao lado de Goyle, apavorou-se ao ver a namorada inconsciente.

-Por que ela está assim? O que fizeram com ela? – olhou feio para as meninas, mas depois concentrou sua raiva em Lewis. – Foi algum de vocês que fez essa barbaridade? Escutem bem, se algo acontecer a ela...

-Não seja ridículo, Draco – respondeu Lewis. – Acha que eu faria mal à minha irmã?

-Não colocaria a minha mão no fogo por você – falou Malfoy. – Nunca se conformou em ter perdido a Serena para mim...

Lewis fechou os punhos e encarou Draco.

-Repete! Anda, repete, Draco, pra que eu tenha o prazer de estourar a sua cara!

-Eu pensaria bem antes de fazer isso. Acho que o Goyle quebraria muito mais do que o seu rosto.

-Ei, ei, nada de encrenca por aqui, mané – Alone disse a senha à Mulher Gorda e o buraco do retrato revelou-se para admiti-los. – Deviam ter respeito um pelo outro, sabiam? Serena ficaria magoada ao ver o namorado e o irmão se engalfinhando!

-Nunca tiveram problemas, por que brigar agora? – perguntou Lanísia.

-Ele me chamou de ridículo – explicou-se Draco; ele considerou que era melhor deixar a discussão de lado, porque em seguida disse a Lewis: – Acabei saindo do controle... Desculpe, Lewis – ele ofereceu a mão ao cunhado. Lewis estava desconfiado da sinceridade daquele gesto, mas, mesmo contrafeito, apertou a mão de Malfoy.

-Está certo, mas nunca mais insinue que eu quis prejudicar a minha irmã – avisou Lewis, polidamente. – O que existiu entre nós dois faz parte do passado. Achei que já soubesse disso, cara.

-Mas eu sei! – exclamou Draco. – É que eu gosto tanto da Serena, que vê-la assim me descontrolou. Não vai voltar a acontecer, Lewis, foi pura criancice.

-Ela está bem, vamos cuidar dela... – avisou Joyce, guiando o corpo flutuante de Serena para dentro da sala comunal.

-Qualquer problema, me procurem – pediu Draco; embora não soubessem que tipo de ajuda ele poderia oferecer, Lewis, Alone e Joyce concordaram em procurá-lo. O retrato da Mulher Gorda fechou-se à passagem deles, escondendo o ódio que transbordou na face de Malfoy.

-Esse Lewis é muito folgado – falou Goyle, enquanto ele e Draco retornavam à escadaria de mármore.

-Sim, mas ainda vou dar um jeito nessa folga toda – disse Draco com sua voz arrastada. – É só uma questão de tempo para que todo o teatrinho tenha fim e eu possa lidar com ele da maneira que eu quiser...

-Foi assustadora a forma como a Serena estava. Difícil de entender, mas é como se ela estivesse sofrendo mesmo desacordada!

-Também achei. Mas pelo menos está viva. Seria horrível se tivesse morrido... – ele sorriu para Goyle. – seus olhos cinzentos brilharam de malícia. – Ela ainda não me fez o milionário Sr. Bennet Malfoy, o terceiro bruxo mais rico de toda a Europa. Definitivamente ainda não é hora pra morrer... Isso só será permitido quando ela puder fazer de mim um viúvo.

-Não choraria por ela se acontecesse algum mal depois que se casassem?

-Digamos que sim, mas bem menos do que choraria hoje, antes de sair no lucro. Hoje seria bem mais trágico... – ele riu alto, acompanhado pelo amigo. – Sr Bennet Malfoy... Pode apostar, ainda vou ser chamado assim. E não vai demorar muito.


As garotas ajeitaram Serena em um sofá na sala comunal. Lewis explicou à Gina o que aconteceu durante o tempo em que Alone e Lanísia tentavam despertar a garota com tapas no rosto.

-Ela não vai acordar com esses "tapinhas frescos" – disse Joyce, reprovando as amigas após sua avaliação visual.

-Começou a voz da sabedoria! – falou Alone, sarcástica. – Afaste-se, Lanísia, deixe que a grande sábia desperte a Serena, só ela sabe como dar o tapa perfeito.

-Eu usava muito esse método na minha bisavó – explicou Joyce, enquanto curvava-se sobre o corpo de Serena. – Só não deu certo uma vez.

-Por que aplicou um tapinha fresco?

-Não, ela estava morta e ninguém sabia – respondeu, erguendo a manga da blusa enquanto preparava-se. – Com a Serena vai funcionar logo no primeiro... Aprendam comigo.

PLAFT!

Joyce espalmou a mão com força, deixando uma marca vermelha no rosto pálido da amiga inconsciente. O queixo de Lewis tocou o chão, perplexo com o que presenciava.

-Caramba, Joyce, isso foi muito forte...

-Foi é muito fraco, Alone! – ela disse, sacudindo os dedos doloridos. – Ela não se mexeu nem um milímetro!

-Como assim? A cabeça dela quase se desgrudou do pescoço com esse tapa...

PLAFT!

A face esquerda foi golpeada dessa vez, ainda com mais força, mas Serena não esboçou qualquer sinal de recuperação.

-Que palhaçada é essa? – questionou Lewis. – Quer massacrá-la?

-Talvez... – ela ficou pensativa. – Boa idéia, Lewis, já estou vendo que os tapas não funcionariam, existe a possibilidade de um espancamento fazer o milagre.

-Ninguém vai espancá-la!

-Não, mas é só um surrinha bonitinha, bem leve – explicou Joyce. – Olha, o que será preciso para que funcione, na minha opinião... Podemos testar alguns socos, porque são mais potentes do que tapas... – ela começou a enumerar com os dedos. – Também alguns chutes na barriga, para isso seria bom chamarmos o Juca, ele tem um pé gigantesco, ia chutá-la muito bem...

-Não concordo com isso! – protestou Lewis.

-Alguma outra idéia? Pisoteá-la? Rolá-la por uma escada? Bater a cabeça dela numa parede?

-Nem nada disso! Acho um absurdo machucá-la! Vamos simplesmente esperar que ela acorde.

-Ai, Lewis, como você é sem sal! – Joyce fitou-o com desprezo. – Se contamos com formas de facilitar o processo, não tem porque esperarmos como um bando de amebas desocupadas!

-Sua estratégia é uma furada, Joyce – falou Alone. – Só deixou o rosto da Serena machucado.

-Eu ainda posso conseguir!

-Não, você não vai tocar nela outra vez... – Lewis tentou impedir, mas era tarde demais.

-Iáááá... – gritou Joyce como uma lutadora japonesa, e...

PLAFT!!

O tapa puxou o corpo de Serena pro lado, ela emborcou no sofá e...

-Vai cair!! – avisou Lanísia.

POF! A garota despencou no chão, de barriga pra baixo.

-Viu, sua maluca, o que você fez? – vociferou Lanísia.

-Mas vai ajudar... – disse Joyce, agachada no sofá, roendo a unha.

-A matá-la? – perguntou Lewis, irritado. Ele curvou-se e ajeitou o corpo de Serena. Todos exclamaram de surpresa quando se depararam com os olhos de Serena, abertos para a claridade da sala comunal. – Você está bem? – Lewis perguntou a ela.

-Ah! Não disse que funcionava? – disse Joyce, orgulhosa.

Serena olhou para o rosto de Lewis e segurou o queixo do rapaz com uma das mãos. Com a outra, acariciou os cabelos dele, em movimentos suaves e lentos.

-Lewis... – ela murmurou, e seu braço agarrou a nuca dele.

Sem saber que aquela que despertava era uma nova Serena, sem limites para suas emoções, Lanísia, Alone e Joyce tiveram a preocupante sensação de que a garota ia puxar Lewis de encontro aos seus lábios após aquelas carícias nem um pouco fraternais, e tudo diante de Gina Weasley...


Hermione beijava Rony enquanto o rapaz investia para dentro dela; era maravilhoso senti-lo dentro de si, os dois unidos num só corpo. A noite estava silenciosa; eles arfavam, úmidos de suor, mas sem pressa alguma de encerrar aquele momento.

As roupas de Mione protegiam o corpo dela contra a grama; Rony havia despido a camiseta, mas nem chegara a tirar totalmente a calça. A urgência de amar Mione, de unirem-se, era tão grande e pulsante que ele não quis perder nenhum segundo.

Mione fechou os olhos, abraçando o corpo de Rony, sentindo os músculos das costas do garoto se flexionando conforme os movimentos dos quadris. Rony soltava grunhidos de prazer, que aumentavam a excitação de Mione.

-Isso, meu bem... Sou toda sua, sempre sua...

-Ahh... Te amo, Mione...

-Eu... Hum... – ela teve que parar de falar quando Rony começou a arremeter mais rápido, causando sensações indescritíveis em sua intimidade, prazer que pareceu se espalhar por todas as áreas do seu corpo. – Humm... Assim... Também te amo... Amo muito...

Ela soltou um gritinho involuntário quando espasmos intensos e deliciosos envolveram sua intimidade, tão perfeitamente preenchida pelo órgão de Rony. Ela abraçou-o com mais força, querendo tê-lo bem perto de si enquanto desfrutava daquele momento, o ponto máximo do amor...

A sensação diminuía quando ela viu Rony imobilizar-se e urrar de prazer, atingindo o clímax dentro dela. O namorado, exausto, descansou a cabeça no ombro dela; Mione acarinhou-o, feliz, ainda com os olhos fechados...

-Que delícia... Ah, Aaron...

Ela abriu os olhos, assustada. Havia mesmo falado o nome de Aaron no lugar de Rony? Esperava que não; mas, se tinha cometido aquele engano, que Rony não tivesse escutado...

Mas o namorado deixou o seu ombro e, quando ela viu a expressão de fúria em seu rosto, a escuridão da noite não a impediu de ter certeza de que Rony havia escutado muito bem...

Ela trocara o seu nome pelo nome de Aaron Raccer.


N/A: Muito obrigado pelas reviews no último capítulo, foram 10 reviews no total, valeu mesmo! Ler reviews é sempre ótimo pra mim! Próximo capítulo, o mais rápido que puder! Obrigado a todos!