Capítulo VI – A primeira reunião do elenco

Sentei na cadeira de fronte a mesa do Senhor Inu Taisho me preparando para ser demitida. Aquela cena com o Senhor Sesshomaru com certeza daria motivos suficientes para uma justa causa. Afinal, chamar o superior hierárquico de safado e asno não é exatamente um bom exemplo de subordinação. E a insubordinação é Justa Causa. Eu estava mais preocupada em ter decepcionado o Senhor Inu Taisho do que qualquer outra coisa. Ele tem sido tão simpático e atencioso comigo, que me faz quase ficar arrependida por querer matar o filho dele. Ele não tem culpa do filho que tem.

Ele se levantou e veio até mim, segurando o eu braço que Sesshomaru havia agarrado, ergueu a manga de minha blusa observando o roxo que havia ficado na minha pele pálida. Estava doendo muito, mas não vou dar o gostinho àquele idiota de saber que estou sentindo dor por culpa dele.

- Me desculpe por isto. Meu filho às vezes esquece a educação que lhe dei. – comentou Senhor Inu Taisho , voltando a se sentar e me observar eu abaixei a manga de minha blusa.

- Está tudo bem, eu o provoquei.

- Nada justifica um homem machucar uma mulher. Cavalheiros não agem dessa forma com damas.

- Este é o problema... Ele não é um cavalheiro. – comentei naturalmente, alguns segundos depois eu notei o que havia falado e pensei em me corrigir, mas o Senhor Taisho estava rindo.

- Gosto de sua personalidade, Kagome. É impossível sentir tédio com você. – Ele apoiou os cotovelos na mesa, ficando sério repentinamente. – Eu acredito que as pessoas resolvem suas diferenças com a convivência. Quando você se acostuma com os hábitos e gênios das pessoas ao seu redor, você passa a tolerá-las. Claro que tudo que é demais resulta em catástrofe, mas as pessoas precisam aprender a ceder um pouco; quando ambos os lados cedem, ambos ganham, e convivência fica mais fácil... ou ao menos tolerável.

- Desculpe, mas não estou entendendo o propósito do que o Senhor está dizendo.

- Estou lhe transferindo para ser secretária executiva do Sesshomaru.

- Desculpe? Como?

- Vocês dois tem se estranhando desde que se conheceram, vou resolver a diferenças dos dois com tratamento de choque. Vão passar mais tempo juntos.

- O senhor não poderia ser um chefe normal e me demitir?

- Não. Isto não resolveria o problema. E você tem sido a única até o dia de hoje que conseguiu fazer o serviço de uma forma que nem mesmo Sesshomaru consiga colocar algum defeito. Faz idéia do quanto isso é difícil?

- Senhor Taisho...

- Está decidido... você ainda tem quatro meses conosco, nesse tempo, vocês dois vão conviver. Você é a melhor amiga de minha filha, com toda certeza se encontrará com ele fora da empresa... Eu ao menos quero que vocês consigam ficar no mesmo meio ambiente sem sair briga.

- Não brigamos. Ele apenas é mau comigo. O senhor está me jogando na boca do lobo.

Literalmente.

- Ele não é o seu modelo para o personagem?

- Sim, mas eu não preciso passar tanto tempo com ele.

- Estou fazendo isto para o bem dos dois.

- Eu quero demissão.

- Lembre-se que tem multa na rescisão unilateral do contrato.

Estreitei os olhos, nervosa: ele havia me pegado. Admiro a astúcia dele.

- Vou falar com Haruka sobre a transferência de suas funções. Boa sorte com a pesquisa. Pode ir.

- Com licença. – falei a contra gosto. Ótimo, entro esperando uma demissão e o que ganho é mais tempo com Sesshomaru Taisho. A vida é uma grande ironia.

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Eu não estava com vontade de chegar na empresa. Aquele seria meu primeiro dia como secretária de Sesshomaru Taisho. Eu estava com medo que estava por vir. Muito medo, na verdade, mas claro que não vou dar o gostinho de ele notar que me afeta dessa forma. Não mesmo. Na verdade o meu medo decorria do fato do que eu sabia como ele sobrecarrega a secretária. Quase enlouqueci quando fomos para Seul, ele deve achar que somos um trem-bala. Claro que agora eu teria a Tomoyo para me ajudar, mas, se sendo secretária do pai dele, aquele cretino me dava documentos em alemão, agora com ressentimento de que não fui mandada em embora, é capaz de me dar documentos em árabe.

O fato de eu ser assunto na empresa inteira, por causa da cena com o Senhor Sesshomaru, diminuía ainda mais a minha vontade de entrar naquele prédio. Fiquei quase cinco minutos no carro buscando força de vontade, momentos em que quis ir embora. Assim que cheguei, soube que minha mesa agora era ao lado da de Tomoyo, e a referida mesa estava com quatro pilhas de quarenta centímetros de papeis e mais duas pastas de trinta centímetros.

Eu queria chorar, mas respirei fundo e me sentei, sem saber por onde começaria. Meu olhar foi para Tomoyo, que me observava.

- Ele te deixou um recado. Eu queria te ajudar, Kagome, mas preciso retornaras ligações e agendar as viagens do próximo mês.

- Tudo bem. Obrigada.

Voltei minha atenção para a mesa, notando um bilhete, quase suspirei ao notar que estava em japonês e não em árabe:

"Analise os currículos anexados nas pastas; ligue para os que se encaixarem nas características que anotei dentro do primeiro apenso. Agende horários com todos e faça as entrevistas pessoalmente. Os documentos que estão em sua mesa devem ser enviados por fax (números na agenda em sua mesa) e depois tire cópias de todos eles e envie os originais para os endereços neles descritos; guarde as cópias no arquivo da empresa. Os documentos precisam ser enviados por para o correio hoje, bem como passados por fax.

Qualquer dúvida, fale com Tomoyo."

Olhei as pilhas de papeis em minha mesa. Preciso de uma intervenção divina para conseguir enviar todos estes documentos ainda hoje. Segui para cozinha e tomei um café forte, voltei para a minha mesa e, com um pesaroso suspiro, comecei a realizar as obrigações que haviam sido incumbidas a mim.

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Olhei no relógio do meu iphone: dez e dezessete da noite.

Levantei, me espreguiçando. Finalmente havia terminado de selecionar os candidatos, eu iria ligar para todos eles amanhã. Prendi meu cabelo com uma presilha até então esquecida sobre a mesa, com um suspiro que transmitia todo o meu cansaço. Ainda assim, estava satisfeita com a minha competência; afinal, havia conseguido enviar todos os documentos por fax e por correio e ainda os arquivei em suas pastas respectivas. Eu sabia que quando chegasse aqui amanhã haveria mais serviço, e, possivelmente, eu iria surtar pensando que não conseguiria realizar todos antes do final do expediente. Por isto, resolvi deixar separados os currículos que eu havia selecionado e marcaria com calma as entrevistas.

Aliás, por que raios eu tenho que marcar essas entrevistas?

Essa não é função do RH?

Com mais um suspiro, desliguei o computador e peguei minha bolsa para ir embora. Olhei mais uma vez para mesa para ter certeza se não estava esquecendo nada.

Indo em direção do elevador tive a impressão de ter ouvido passos. Voltei alguns metros, apenas o suficiente para averiguar se não havia nenhuma alma penada atrás de mim, notei a luz da sala do Senhor Sesshomaru acesa. Definitivamente não me recordava ele ter ido embora. Caminhei até lá, apenas por curiosidade. Consegui ouvir sua voz; palavras sendo proferidas em inglês. Lembro-me vagamente que Tomoyo comentou que estava marcando alguns videoconferências. Talvez uma reunião tão tarde fosse por causa do fuso-horário. Será que ele sempre tem reuniões nesses horários?

Agora entendo o motivo de ele nos escravizar... Ele é um viciado em trabalho. Soltei um suspiro e voltei ao meu percurso para minha casa, eu precisava muito da minha cama.

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O ator que interpretaria o Sadao se chamava Bankotsu Singi, ele era irmão mais velho do Jakotsu – dois anos mais velho, para ser exata. Era um homem realmente lindo e muito charmoso, com o cabelo negros curtos com alguns fios arrepiados e os olhos castanhos-chocolates. Possuía um corpo esculpido pela academia e que faria qualquer mulher vender um rim para lavar sua roupa naquele tanquinho que ele chama de abdômen. Eu não o conhecia pessoalmente, então quando Jakotsu me ligou avisando sobre a reunião do elenco para apresentação da equipe, fiquei ansiosa para vê-lo pessoalmente. Claro que conhecer atriz que interpretaria a Kaoru também me deixava ansiosa, mas Bankotsu era o irmão do Jakotsu, um dos meus amigos e a minha ultima experiência com irmão de amigos foi um desastre. Rendeu-me um personagem e idéias para o roteiro, mas mesmo assim uma catástrofe.

Quando entrei na sala onde ocorreria a reunião, me dirigi à cadeira ao lado de Jakotsu, haviam poucas pessoas ainda. Sorri para Sango e Miroku que já estava sentados, eles apenas me cumprimentaram com um aceno de cabeça. A outras pessoas eram Kagura Tsubasa, a atriz que interpretaria a Kaoru e o ator que faria o irmão – o Tanaka – precisei ler seu nome na placa a sua frente para me recordas de quem se tratava, Hiroti Maeda. Era novo no ramo e eu havia aprovado ele como Tanaka porque era exatamente como imaginava, incluindo até o fato de ser alto e rato de academia. Jakotsu havia me dito que apenas concordava com a minha escolha porque o rapaz era gostoso e havia se saído muito bem em outro drama; sinceramente não sei, ando meio relapsa quanto à programação na televisão.

Quando finalmente chegou o horário da reunião, a sala estava cheia de pessoas, todas sentadas em cadeiras e com uma placa com seu nome marcado na mesa a sua frente. Todos se apresentaram e prometeram se esforçar para que o drama fosse um sucesso. Ou seja, foram duas horas de confraternização manjada, logo após começaram os debates sobre os locais de filmagem, as fotos para o marketing do drama dentre outros tópicos que Jakotsu havia separado para serem abordados.

A reunião perpetuou até as sete horas da noite. Todos os tópicos haviam sido devidamente abordados e a primeira sessão de fotos para o cartaz promocional já estava agendada. Eu possuía quinze capítulos prontos, os quais já estavam com Jakotsu. Eu me sentia uma máquina de produzir roteiro - uma máquina sendo muito explorada, diga-se de passagem.

Reconheço que minha atenção era sempre chamada para o Bankotsu, ele interpretaria o Sadao, eu queria ter certeza de que daria conta do recado. Sinceramente, acredito que ele seja capaz, ao menos a cara de sário ele já tem e as sobrancelhas arqueadas junto com um nariz afilado; a maior diferença dele para o Sadao que minha imaginação havia idealizado, eram os lábios: os lábios de Bankotsu eram carnudos.

Quando a atriz que interpretaria a Kaoru, bom, ela simplesmente não possuía a mesma personalidade que a minha personagem, mas não tinha mesmo.

Kaoru era uma garota alegre com uma sagacidade de invejar muitas pessoas, mas esta tal de Kagura era uma mulher... como posso dizer?... metida. O nariz só não era mais empinado por falta de cirurgia plástica. Jakotsu havia me garantido que ela era uma atriz quase perfeita, espero que ele não esteja enganado.

Lembro que antes de ir embora, ela veio até mim me perguntando se eu poderia fazer a Kaoru ter um gosto melhor para moda. Eu estava pronta para responder que o valor de uma mulher não se mede pelas roupas de grifes em seu armário, quando o Bankotsu se aproximando me perguntando o motivo do Sadao ser tão cretino. Ignorei a pergunta da Kagura e respondi a do Bankotsu:

- Por que ele é o Sadao.

Ele coçou a cabeça, parecendo confuso e em seguida voltou atenção ao roteiro do primeiro capítulo que estava na sua mão direita, indagando:

- Apenas por ele ser o Sadao?

- Sim.

- Nenhum homem seria tão... – Ele ficou em silêncio por um instante, acredito que procurando a palavra certa – ... peculiar.

Repousei minha mão sobre seu ombro e com o meu melhor olhar de consolo falei:

- Você não conhece tantos homens, pelo visto.

Antes que pudéssemos estender a conversa, Sango me chamou para irmos jantar, Miroku, ela e eu no restaurante com o melhor yakisoba da cidade pertencente ao pai do pervertido do noivo dela.

No restaurante, após nos deliciarmos com a comida, Sango me perguntou sobre que eu achava dos atores que haviam sido escolhidos para os papeis principais, que em resumo eram:

Kaoru Nakamura: protagonista feminina.

Ryota Sadao: protagonista masculino.

Tamaka Nakamura: irmão de Kaoru e coadjuvante importante para a trama.

Eiko e Ritsuko: as melhores amigas de Kaoru.

Makoto Shigeno: melhor amigo do Sadao.

E finalmente os avôs da Kaoru, com quem ela vem morar para cursar a faculdade de Tóquio.

O amigo de Kaoru por quem era apaixonada no começo da trama, o Yue, ainda não havia sido escolhido, mas logo seria fechado um contrato com algum ator – por sorte ele é um personagem que aparece no décimo capítulo, isto nos dá algum tempo.

- Aquela atriz é frufru demais para Kaoru. – Ouvi Sango comentar. – Serio, eu imagino a Kaoru... – Ela fez uma pausa pensativa. – como a Rin.

- A Rin?

- Chatinha, mas divertida.

Ri com o comentário.

- Não entendo essa mania das mulheres difamarem as amigas dessa forma. – comentou Miroku. Nós duas o ignoramos.

- Quando ao Sadao, o Bankotsu se encaixou perfeitamente no que eu imaginava, incluindo aquele jeito polido de falar.

- Nunca se sabe, Sango. Às vezes na hora da interpretação a Kagura consegue encarnar perfeitamente a personagem enquanto que o Bankotsu não.

- Será?

- Pode acontecer.

- Você tem razão, pode acontecer.

- Como estou sendo ignorado nessa mesa, vou ao banheiro. – Comentou Miroku se levantando.

- Com quem? – Perguntou Sango.

- Como assim com quem?

- Se você esta saindo de um lugar para ir para outro por estar sendo ignorado, isto significa que neste novo lugar você não será ignorando. Sendo assim, com quem você vai?

Eu pisquei confusa, junto com Miroku. O que diabos Sango estava falando?

- Eu não entendo a sua lógica, amor. – respondeu Miroku, seguindo para o banheiro.

- De olho nesse safado.

- É um banheiro masculino, Sango. E a gente tem visa periférica do lugar.

- Vai que ele muda de time.

Rolei os olhos.

- O tarado do Miroku?

- Ele é uma caixinha de surpresa, nunca se sabe... mas deixa isto para lá... me fala o que você pretende fazer para os pombinhos da trama ficarem juntos?

Ô, mudança drástica de assunto. Soltei um suspiro, lembrando minhas idéias para os possíveis finais, claro que todas as idéias foram rebatidas por Sango e posteriormente por Miroku, quando este voltou do banheiro.