CAPÍTULO SEIS
Por favor, Senhor, faça com que ele esteja vestido.
Serena fez essa rápida oração enquanto entrava no prédio, acenava para Ralph e esperava pelo elevador.
Saíra-se tão bem nas últimas 24 horas. Passara a tarde e a noite ao lado de Mamoru sem pular em cima dele. Claro, na maior parte do tempo estivera fazendo alguma coisa. Examinara os documentos na escrivaninha de Luna e no gabinete de leitura.
E os documentos da tia-avó não eram exatamente uma distração. Para alguém que parecia levar uma vida tão interessante quanto ela, os bens pessoais eram comuns. Sem cartas excitantes, diários, nem mesmo um computador.
Serena não encontrou nada além de contas. E, enquanto Mamoru salientava que talvez as contas telefônicas pudessem levá-los até Eric, ela também lembrava que ambos teriam que ligar para cada número listado a fim de descobrir algo. Nada mais parecia ter alguma remota conexão com o sr. Chiba. E nada lhe deu pistas sobre o porquê da tia-avó ter lhe deixado tudo.
Em relação ao lado pessoal, Serena agira certo. Apenas fitara Mamoru durante o jantar. Até tentara dormir mesmo sabendo que aquele corpo másculo estava no quarto ao lado. E, naquela manhã, ele tomara banho.
As portas do elevador se abriram e Serena entrou. A lembrança de ver Mamoru saindo do banheiro, molhado, cheirando a sabonete e a creme de barbear, fizera com que ela se derretesse e quisesse gritar.
Claro que foi por isso que Serena saiu correndo do apartamento e passou o dia inteiro resolvendo assuntos ligados ao funeral, marcado para o dia seguinte. Assuntos que poderiam ter sido resolvidos pelo pessoal da funerária. Entretanto, estava tão desesperada para ficar longe de Mamoru que se forçou, inclusive, a passar algumas horas à procura de um traje preto para comprar.
Não fez isso para ficar longe dele, uma voz interna lhe dizia. Fez isso para parecer decente no funeral.
- Cale a boca - Serena disse alto para si mesma. Comprara as roupas para mostrar respeito pela tia-avó no funeral. Não para agradar Mamoru , nem a família, nem a si mesma.
O elevador abriu e Serena sacudiu a cabeça para dispersar esses pensamentos. Então, seguiu corredor abaixo até o apartamento.
- Ei, estou em casa! - ela gritou ao abrir a porta. Mamoru podia ter saído. Combinaram com Ralph para deixá-lo entrar e sair do apartamento. Porém, se estivesse em casa, Serena queria se assegurar de que estava vestido.
- Aqui dentro - Mamoru respondeu, sentado em um sofá na sala, lendo o jornal. Serena largou as bolsas, sentou-se em uma poltrona e esticou os pés.
- Já encontrou seu pai?
- Não. Perguntei por aí, mas ninguém o viu ou ouviu falar dele. Se meu pai não aparecer no funeral da sua tia-avó amanhã, ficarei sem rumo.
Serena acenou com a cabeça, concordando. Se ele ficasse sem rumo, isso significava que iria embora, o que era bom. Então, por que ela queimava com tanto desapontamento?
- Está tudo preparado para o funeral. Exceto uma coisa chata. Peguei os sapatos errados. Aparentemente, os sapatos pretos Vuitton deveriam estar em uma caixa - ela disse, tirando uma xerox de dentro do bolso do jeans.
Mamoru abaixara o jornal e a olhava. Serena notou que ele também a fitara desse jeito algumas vezes na noite anterior: analisando-a, rosto e corpo. Provavelmente, tentando imaginar por que Serena não se parecia com as irmãs.
- Luna deveria ter pedido a uma das minhas irmãs para achar as roupas dela. Nasceram sabendo tudo sobre moda.
-Provavelmente, ela tinha outras qualidades em mente quando a escolheu.
- Eu lhe disse para não ser condescendente. Não sabe nada do porquê de minha tia-avó me escolher. Se é tão bom em tentar imaginar os motivos que norteiam as ações da minha família, por que não se concentra na razão pela qual seu pai o abandonou?
Serena ia sair da sala, deixando as bolsas para trás. Porém, ao passar por uma mesinha, ouviu um barulho que a fez parar. Havia uma enorme caixa de papelão em cima da mesa. E algo ali dentro se mexia.
- Que diabos é isso? - perguntou.
Mamoru não respondeu. Serena o olhou e viu que ele continuava no sofá, porém, fitando-a, tenso.
- Sei por que meu pai me abandonou. Porque era um covarde que preferiu deixar o filho de dez anos tomar conta da família. Você, por outro lado, é adulta e imagino que sua tia-avó tivesse bons motivos para confiar na sobrinha. Pode ficar irritada o quanto quiser. Porém, não tenho culpa se Luna lhe deixou o dinheiro e se você se sente culpada por causa disso.
- Apenas não me subestime.
- Não a subestimei. Apenas disse o que pensava.
- O que tem aqui?
- Abra e veja. Mas tenha cuidado.
- É um pombo.
- Sim.
Serena olhou mais de perto e viu que os pés do pombo estavam enrolados com ataduras brancas.
- Está bancando o médico com o pombo?
- Tratei-lhe os abscessos dos pés. Levei muito tempo para pegá-lo.
- Por que resgatar um pombo? São como peste, há trilhões deles.
- Acha que não devo ajudar um pombo porque é uma peste?
- Sim! Não se trata de uma espécie em extinção.
- Tudo bem, então vou matá-lo.
- Não!
- Se é uma peste, por que não posso matá-lo?
- Porque... Apenas não mate.
- Veja. Não vou deixar um animal sofrer, não importa qual seja. Posso curá-lo ou matá-lo. O que quer que eu faça?
- Por que é tão responsável?
- Por que nega que pode ser também?
- Apenas não o deixe sujar os móveis - Serena o avisou e foi embora. -Obrigado.
A caixa era grande. Não era de admirar que ela não a tivesse notado da primeira vez que entrara no closet. Estivera à procura de sapatos, e aquela caixa era grande o suficiente para guardar uma televisão. Porém, estava escrito Louis Vuitton, e era a única com essa inscrição.
Como estava na parte de trás do closet e era grande demais para ser aberta ali, Serena tirou os sapatos do caminho e a arrastou até o centro do quarto. Depois, sentou no carpete ao lado da caixa.
- Parece que andou carregando móveis - Mamoru comentou, em pé, no vão da porta.
- Aparentemente, essa é a caixa de sapatos - Serena explicou e tentou tirar a fita adesiva. Porém, as unhas não eram longas o suficiente para isso.
- Aqui. - Mamoru se aproximou e tirou um canivete do bolso. Ofereceu-se para cortar a fita, mas Serena estendeu-lhe a mão, pedindo o canivete.
- Estou impressionada com o fato de você carregar uma faca.
-Eu a estava usando para cortar as ataduras. Essa caixa não tem apenas sapatos, certo?
-Não tenho certeza - Serena respondeu, abrindo a caixa.
Na parte de cima, havia um par de sapatos e um envelope creme escrito Serena. Ela tirou os sapatos e o envelope de lá e os colocou de lado enquanto olhava o que mais havia ali.
Uma pilha de livros de capa dura. Serena retirou-os, e colocou-os no carpete. Todos tinham um design parecido, uma foto estilizada em fundo preto e o nome do autor em letras maiúsculas, na cor vermelho-sangue.
Serena tinha visto esses livros antes, em lojas, livrarias, sendo lidos no metrô. Entretanto, nunca ali no apartamento.
Mamoru sentou ao lado dela e disse:
- Sua tia-avó era Xander Dark.
Ela fitou o envelope no carpete. Xander Dark aparecia nos livros em letras grandes, na cor vermelho-sangue. Luna Tsukino aparecia gravado discretamente no envelope.
- Minha tia-avó era um dos escritores de terror mais famosos nos Estados Unidos...
Mamoru pegou um exemplar de Se você for à floresta...
- Agora sei por que Luna tinha uma armadilha para urso - comentou, desviando o olhar da foto da armadilha na capa para o objeto dentro de uma caixa de vidro, atrás deles.
- E a serra! - Serena riu, apontando para a capa de Reação em cadeia.
Mamoru leu a orelha do livro.
- Xander Dark é o escritor mais vendido, com mais de trinta romances arrepiantes de suspense e terror. - Depois comentou: - Nenhuma foto, nenhuma informação biográfica. Será que manteve isso em segredo?
- Sim. Não contou nem a mim nem ao resto da família. Que mulher - disse.
-Luna se empenhou para esconder isso. Não há nenhum romance de horror na estante.
- Entretanto, queria que eu descobrisse - Serena comentou ao pegar o envelope e abri-lo, retirando uma folha de papel.
Querida Serena,
Aposto que nunca suspeitou que a sua velha tia-avó fosse o Mestre dos Assassinatos, Lesões Corporais e Monstros.
Preciso que faça duas coisas para mim. Depois, pode fazer como quiser. Gostaria que desse a minha armadilha para urso à minha agente, Gabriella Hernandez, e a minha coleção de "anjinhos", os instrumentos de tortura, ao meu editor, Hector Banner. Ambos vão apreciar os presentes. Gabriella, Hector e Saul Feinberg são as únicas outras três pessoas que conhecem a verdadeira identidade de Xander Dark.
Meu segredo e o resto dos meus pertences são seus e pode fazer o que quiser. Aproveite, minha garota preciosa. Somos muito parecidas, você e eu. Com amor, Luna.
Uma lágrima caiu na carta. Serena começou a levantar-se. Não ia chorar na frente de Mamoru de novo. Mas ele havia saído e fechado a porta.
- Veja só. Um homem que sabe passar a ferro? Mamoru ergueu o olhar preso à tábua de passar que ele montara na cozinha. Com cuidado, abaixou o ferro, que estava quente e, se continuasse com ele nas mãos enquanto fitava Serena, acabaria se queimando.
- Parece maravilhosa. - Serena estava usando uma saia justa, salto alto, uma blusa e uma jaqueta de veludo. Tudo na cor preta. - Foi às compras? - Mamoru perguntou.
- Imaginei que, se Luna ia usar Gaultier, eu deveria me esforçar.
- Bom empenho - Mamoru comentou, tirando a camiseta e pegando a camisa que acabara de passar.
Serena desatou a tossir. Ele se afastou e estendeu uma das mãos para lhe dar um tapa nas costas, perguntando:
- Você está bem?
- Sim. Apenas coceira na garganta.
- Essa é a segunda camisa que passo hoje - ele comentou, desligando o ferro e vestindo-a.
- Deixe-me adivinhar, você ficou todo sujo por causa do pombo - Serena disse enquanto colocava uma tigela em cima da bancada e a enchia de cereais.
- A propósito, ele está muito melhor essa manhã.
- Que alívio. Não me sinto preparada para mais um funeral hoje.
Serena colocou leite na tigela e serviu-se de café. Mamoru se perguntava se havia algo errado. Na noite anterior tentara ficar longe dela. Em parte, porque pensara que Serena precisava ficar só depois de ler o que quer que seja que a tia-avó tinha a lhe dizer. Em parte, porque aquela mulher parecia incrivelmente sexy, sentada no chão, rindo, os olhos brilhantes. Então, concluirá que era melhor ficar longe da tentação.
Quando Mamoru dobrou a tábua de passar, um barulho chamou a atenção de Serena. Ela se virou e, com um sorriso no rosto, disse:
- Estou tão ansiosa para esse funeral.
- Por quê? Serena colocou o café-da-manhã em cima da mesa e sentou.
- Você e eu somos duas das únicas cinco pessoas que sabem que Luna era Xander Dark. Todos no funeral, inclusive minha família, vão estar se perguntando onde minha tia-avó conseguiu tanto dinheiro.
Mamoru sentou em frente e perguntou:
- Não vai lhes contar, vai?
- Não.
Já estava quase terminando de comer, quando comentou:
- Pensei em uma coisa. A carta que minha tia-avó me escreveu datava do mesmo dia do testamento. Vinte e três de abril.
- O mesmo dia que a carta do meu pai foi postada. Qual a conexão? Acha que os dois estavam juntos nesse dia? Acha que o meu pai tem algo a ver com o testamento de Luna? Afinal, trata-se de um testamento muito recente.
- Talvez. Se eu estivesse tendo aulas de skate aos 74 anos, também escreveria o meu testamento. Talvez seu pai esteja no funeral. Está pronto para encontrá-lo?
- Estou pronto para encontrá-lo há 16 anos. Ela afastou a cadeira.
- Pronto? Quero chegar lá alguns minutos mais cedo para me certificar de que tudo esteja do jeito que Luna queria.
- Só preciso colocar uma gravata.
- E eu, escovar os dentes. Nos encontramos em cinco minutos.
Serena passara um brilho labial que fez com que a boca parecesse ainda mais deliciosa. Ao encontrá-la, Mamoru ofereceu-lhe o braço:
- Vamos, srta. Tsukino?
- Posso andar de salto alto. Não sou tão ruim assim.
- Não, você é muito boa.
Em sua mesa, Ralph estava usando um terno em vez do costumeiro uniforme. O porteiro acenou para Serena, dizendo:
- Até mais tarde!
- Ralph está arrasado com a morte de Luna. Não conseguiu encontrar ninguém para substituí-lo hoje, mas irá ao funeral por meia hora, no intervalo do almoço -Serena comentou com Mamoru , enquanto saíam do edifício.
- Como vamos chegar... - ele começou, mas Serena já tinha erguido um dos braços e assobiado.
Um táxi parou. Um dos vidros laterais abaixou e um assobio inconfundível veio lá de dentro.
Mamoru franziu as sobrancelhas e se abaixou em direção ao taxista que fitava Serena com lascívia, dizendo:
- Ei, companheira, não precisa...
Gentilmente, Serena empurrou Mamoru e abaixou a cabeça, junto à janela aberta.
- Ei, José, como vai a vida?
- Você está ma-ra-vi-lho-sa! - o taxista comentou. Serena riu e abriu a porta de trás para entrar no táxi.
Mamoru a seguiu.
- Vai ao funeral da sua tia-avó, certo? Tenho que avisar os garotos pelo rádio que Serena está usando saia.
- Nunca vou conseguir fazer com que as pessoas esqueçam isso - Serena disse a Mamoru , sorrindo.
-Vai continuar trabalhando como taxista? – ele perguntou.
- Claro.
- Mesmo com cinqüenta milhões de dólares? Gosta tanto assim desse trabalho?
- Não quero depender da minha tia-avó pelo resto da vida.
- Luna lhe legou sua fortuna porque queria que você a tivesse. Isso não significa que depende dela.
- E como chamaria isso se eu parasse de trabalhar e passasse a viver do dinheiro que ela ganhou?
Mamoru fez uma pausa, lembrando-se de uma conversa que tivera com a mãe há alguns anos. Sue Chiba trabalhava como recepcionista em uma clínica veterinária.
Um trabalho que a mãe amava, mas que não pagava muito. E quando o dinheiro estava curto, Sue costumava trabalhar à noite e nos fins de semana em um depósito, empacotando revistas. Isso antes de os filhos terem idade suficiente para ajudar, trabalhando meio expediente.
O filho nunca ouvira a mãe reclamar. Mas lembrava-se dela vindo em casa, depois de sair da clínica veterinária, para jantar. Em seguida, saía de novo e trabalhava até meia-noite. Após alguns dias, o rosto dela demonstrava exaustão. Porém, o brilho nos olhos permanecia.
- Por que não o encontra? Ele tem que lhe dar dinheiro, é a lei, certo? - o filho perguntou, aos 14 anos. Alguns amigos na escola tinham pais divorciados e ele ouvira falar sobre o auxílio no sustento das crianças.
- Mamoru y, querido, você está certo. É a lei. Mas deixamos de depender do papai no minuto em que nos deixou. Ser pai não se refere apenas a dinheiro. E nada do que ele pudesse colocar em uma conta bancária o traria de volta.
- Mas é injusto - o filho dissera.
Mamoru ainda achava que era injusto, embora compreendesse o orgulho da mãe. Assim, também podia entender o de Serena.
- O que vai fazer com todo o dinheiro? Colocá-lo em uma conta bancária? Vai viver no apartamento da sua tia-avó?
- Não. É dela. E não sei o que vou fazer com o dinheiro. Ainda não pensei nisso.
- Aqui estamos, menina - José disse ao parar em frente à maior igreja que Mamoru já vira.
- Obrigado - Mamoru disse a José, entregando-lhe uma nota de dez dólares.
- Oh, não, são apenas alguns quarteirões, e eu não cobraria de Serena - o taxista disse.
Serena voltou a colocar a cabeça à janela do táxi.
- Não seja estúpido, José. Você tem que ganhar a vida também, assim como todos nós. Aqui. Pegue o dinheiro ou vou ter que jogá-lo aí dentro - ela disse, entregando-lhe a nota de dez dólares.
- Eu estava pagando o táxi - Mamoru disse.
- Como você diz, sou uma multimilionária - o avisou, subindo as escadas da igreja.
Serena realmente sabia como andar de salto alto. Mamoru queria colocar as mãos no quadril dela. Mas colocou-as nos bolsos da calça. Era uma igreja. Um funeral. Não era hora para pensamentos lascivos.
