"Caríssimos,

Tenho comentários sobre esse capítulo. Esse encerra um pequeno ciclo. As questões sobre a avaliação da aptidão de Jim para ser uma amazona terminarão por aqui. Na verdade ele é uma continuação direta do anterior. O Tema que abordei nesses dois últimos capítulos chama-se consequências. A primeira dela foi a possível gravidez de Jim e a segunda é o julgamento. Nesses capítulos, os personagens estão sofrendo consequências pelas escolhas que fizeram na primeira parte da fic. Nesse capítulo eu vou abordar alguns fatos passados, então se tiverem dúvidas ou se não está lendo desde a primeira parte, é só voltar a parte 1 é dá uma procurada. Garanto que tudo está lá!

Sem mais, desejo uma boa leitura."

Luna


CAPÍTULO VI – Julgamento

"Todo e qualquer ato gera uma conseqüência. Uma das piores é o julgamento. Somos julgados o tempo todo. Querendo ou não, goste ou não goste, sempre somos julgados pelo que fizemos em algum momento ou por quem somos. Para enfrentar essa faceta tão dura da vida, é preciso dentre outras coisas: coragem, determinação e consciência de quem somos."

"Você saberia dizer com convicção quem você é?"

A voz tranqüila e sombria de Hanzo ecoava pelo templo sagrado de Star Hill a cada passo que dava. Ele observava felinamente sua irmã andar pelo templo o seguindo com os olhos assustados e interrogativos. Jim não sabia como tinha chegado ali, só sabia que estava ali em Star Hill quase de frente para Hanzo. Perto demais do ser que mais temia.

Ela o via empunhar sua espada, tão imponente quanto sua altura, com extrema elegância. Seu rosto sombrio de traços marcadamente orientais encarava a jovem mostrando nada além de um olhar dúbio onde várias emoções podiam ser refletidas. Ameaça, afetividade, expectativa, interrogação... O que se imprimia no coração de Jim naquele momento era que Hanzo não era um só, e sim vários. E poderia escolher uma face como melhor lhe conviesse.

Subitamente, ele para de caminhar e repete a pergunta:

- Quem é você, Jim?

Ela titubeia. Sente o peso do silêncio que cerca o templo após a indagação. Seu coração rebate o medo por estar de frente para aquele homem tão terrível mais uma vez. Desta vez ela se sentia mais sozinha do que antes quando o viu na floresta da neblina. Estava mais sozinha do que nunca.

Trêmula e incapaz de dar um passo, ela fecha os olhos. O som sutil de um sussurro próximo ao ouvido a faz abri-los novamente. Já sabe que ele está atrás de si, à espreita. Por um curto espaço de tempo teve a sensação de estar despertando de um sono profundo repleto de sonhos caóticos. O espelho d'água, o mesmo que viu se formar magicamente depois de receber sua lágrima na noite que descobriu que Shaka tinha uma noiva, surge na sua frente. .

A imagem era a mesma daquela noite fatídica. Seu próprio rosto metamorfoseado em um rosto lemuriano. Cabelos verdes, olhos violeta, duas pintas no lugar das sobrancelhas.

A imagem cria vida própria e pergunta usando sua voz:

- Quem é você, Jim?

Ela emite um soluço doloroso e dá um passo para traz encontrando o corpo do irmão mais velho. Hanzo a vira gentilmente a colocando de frente para ele. Então a envolve completamente em um caloroso abraço. Exatamente como no primeiro encontro.

O escuta de olhos arregalados suspirar profundamente transparecendo toda a sua emoção.

- Você é minha perfeita e forte irmã...

"Irmã... irmã... minha irmã... irmã, minha irmã..." e o eco se repete interminavelmente até penetrar fundo em sua mente. Sente a pressão do abraço aumentar, como se ele não quisesse deixá-la ir nunca mais. Ela não tinha forças para repeli-lo. A voz de Hanzo continuou repetindo a palavra 'irmã' como se fosse o único som inteligível do mundo. Ela absorve o templo, o céu, o universo... Até restarem apenas os dois em meio ao nada. Profundo e escuro buraco negro da consciência.

Então ela acorda.

Sobressaltada, lábios trêmulos, olhos querendo saltar das orbitas. Recebe os olhares de tédio, interrogação e susto das colegas de alojamento. Se elas soubessem...

- Você está bem estranha ultimamente, heim garotinha? – debocha uma colega.

Seu nome é Rubia. Ela possuía o mesmo tipo físico atlético de Helena, mas não tão alta.

- É falta de sono... – responde Jim com um mistura de sonolência e cansaço em sua voz.

Levanta da cama ouvindo o estralar de seus ombros.

- Essa semana você faz a comida, vê se não esquece... – diz outra interna ao passar por ela com uma escova de dentes na boca.

Jim apenas balança a cabeça em sinal que concordava. Odiava todo e qualquer serviço domestico, mas se esforçava para cumprir as obrigações naquele alojamento sem reclamar. Sabia que se criasse alguma confusão, por menor que fosse, não faltariam dedos duros para contar a Kanon ou a Aioros, aqueles que a estavam avaliando/vigiando no momento. E ela estaria muito encrencada. Atualmente o esforço maior que se centrava era passar na maldita avaliação. Em outras palavras, estava disposta a engolir sapos um atrás do outro para continuar seu treinamento.

Arrumou a cama e apanhou sua pilha de roupas sujas que havia deixado próxima a mesma na noite anterior. Ainda de pijamas, rumou para a lavanderia do alojamento, que não era uma lavanderia, na verdade, e sim uma enorme sala sem teto com dezenas de tanques. A tecnologia apurada das máquinas de lavar ainda não havia chegado a Vila das Amazonas.

Separa as peças de roupas mecanicamente procurando pensar em coisas banais para esquecer aquele pesadelo. O terceiro daquela semana. Ou teria sido o quarto? Já havia perdido as contas. Nunca mais sentiu o cosmo de Hanzo por perto, ou viu seus corvos. Alias, ninguém mais no Santuário os viu depois a captura de Jamian. Porém, ela tinha aqueles sonhos estranhos.

A locomotiva de pensamentos descarrila quando suas mãos tocam uma especifica peça de roupa. O antigo uniforme de treino indiano. "Antigo...", ela pensa demoradamente nessa palavra. Não era tão antigo assim, mas a impressão que tinha era de que não vestia aquela roupa há anos. A época que morava na casa de Virgem parecia tão distante.

Passa a mão no sári laranja algumas vezes, em seguida o estende sobre a pilha de roupas sujas imaginando a pessoa que havia lhe dado aquela roupa...

Flashback:

Uma chuva fina caia sobre as 12 casas. Naqueles dias de início do início do treinamento mestre e discípula tateavam a convivência. As conversas eram curtas e nada íntimas, porque Shaka queria. Ele fazia questão de manter uma distância que Jim odiava.

- ... Você entendeu os fundamentos do cosmo? – Shaka perguntou serenamente sem se mover da posição de lótus. – Jim?

Ela demora a responder causando irritação no mestre que não era de mostrar muita paciência.

- Entendi... – ela responde vacilante após aprumar o corpo de repente.

- Como pode ter entendido se não estava prestando atenção? – ele foi sereno, porém cortante.

- Mas eu estava prestando atenção sim! – exclama Jim indignada.

Claro que ela estava prestando atenção. Nele e não nas palavras. No homem loiro de olhos fechados vestido com aquela roupa branca de um ombro só que deixava parte do peito musculoso a mostra. Era quase um ultraje alguém treinar outra pessoa vestido daquele jeito! E com aquele rosto angelical e severo ao mesmo tempo e nesta ordem...

Jim já estava convencida de que seu mestre era bonito. Agora procurava achar o que era mais bonito nele. Os cabelos loiros, o nariz afilado, a boca pequena e carnuda, o queixo fininho, os músculos do braço, as suaves elevações do peito, ou os olhos... Ah, e não podia esquecer-se de imaginar como seria vê-lo de olhos abertos. Isso levava sempre boas horas de seu dia.

- Mesmo? – ele pergunta mostrando incredulidade em seu tom de voz.

- Estava! – ela responde coçando a cabeça com força para parar de secar o mestre. – Eu sempre presto atenção no que você fala... – seu tom de voz torna-se sonhador e Shaka percebe.

- Então repita tudo o que eu falei.

A boca da jovem se abre escandalosamente.

- Quê?!

- Repita.

- Mas você falou por quase meia hora sem parar...

- Repita.

Jim bufa grosseiramente, respira profundamente, aperta os olhos cerrados buscando controlar a raiva. Nunca havia sido tratada daquele jeito e ficado calada, mas tinha, creia-me, tinha que se controlar. Não queria passar por outra ilusão mortal. E creia-me mais uma vez, o ser iluminado a sua frente era tão bonito quanto cruel quando era desobedecido.

- Ok... – ela diz resignadamente, apesar de seu rosto transparecer um pouco de fúria ainda.

Repete palavra por palavra. Internamente, muito bem protegido por sua muralha de austeridade, Shaka se surpreende com o fato da sua sempre dispersa discípula repetir suas palavras com aquela fidelidade e desenvoltura. Intrigado, ele tenta mais uma vez entrar na mente dela e é mais uma vez barrado. Como, em nome de todos os deuses?

Como aquele ser de aparência frágil conseguia ser tão transparente e fechada ao mesmo tempo? Por mais que ele a estudasse, sempre acabava de mãos vazias diante daquele baú trancado e mais dúvidas. Quando ela terminou de falar, abriu um enorme sorriso de satisfação carregado de expectativa.

- Então? – ela perguntou com um olhar que exigia uma resposta dele, qualquer reação, inferno! Qualquer coisa que não seja ficar parado na posição de lótus de olhos fechados.

- Então o quê? – ele diz simplesmente e Jim nada pode entender em sua expressão, o que a deixou mais irritada.

- Eu repeti tudo o que falou. Palavra por palavra e você não diz nada?!

- Ah... – ele a observa atentamente por trás dos olhos fechados. Era um pouco divertido vê-la tão furiosa por um motivo tão bobo, ele tinha que admitir. – Você prestou atenção a tudo o que eu disse, embora não parecesse... – os ombros de Jim despencam em sinal de desalento. – Não fez mais do que a sua obrigação.

- Queeê?!

Por longos minutos Jim fica estática. Até se jogar no chão repetindo em pensamento: "eu desisto! Eu desisto! Eu desisto!". Verdade verdadeira é que ela queria voar no pescoço dele depois de mais uma demonstração de arrogância do homem mais próximo de deus. Todos diziam naquele santuário que Shaka de Virgem era arrogante, mas ela não pensava que fosse tanto. E todos os dias se dava conta dessa realidade e repetia surpresa essas palavras em sua mente: "eu não pensava que fosse tanto." Passado o acesso secreto de fúria, solta um longo e pesado suspiro, voltando a posição de meditação que era uma imitação desajeitada da de Shaka.

Ele continua a falar, ignorando a irritação que tinha provocado na aluna. Porém não podia ignorar o olhar curioso dela em cima de si. Com o passar dos dias isso foi incomodando Shaka. Era o que o levava sempre a achar que ela nunca prestava atenção ao que ele dizia. Isso era bem perturbador...

- Isso é tudo por hoje. – disse ao finalizar suas lições. – Alguma dúvida, minha discípula?

- Na verdade, tenho!

O mestre inclinou levemente o rosto. Isso era tudo o que ele não queria ouvir, pois toda dúvida que a discípula tinha era com relação a ele e nunca com o treinamento. Ela adorava fazer perguntas pessoais.

- Prossiga... – Shaka disse se preparando psicologicamente para o que viria.

- Todo mundo diz que você é a reencarnação de Buda e uma vez me disse que fala com ele quando medita... – apontou para a flor de lótus de pedra onde Shaka passava quase o dia todo meditando... – Então se você é o Buda, como pode falar com 'ele'? – ela viu uma sobrancelha loira se erguer. – Tipo você fala com você mesmo, passa horas falando sozinho, ou fala com, sei lá... Com o espírito do Buda no nirvana...

Shaka fez força para segurar um riso diante de pergunta tão infantil. Depois de horas de teoria, a dúvida que ela tinha era sobre aquilo? Ele não conseguia conceber. Então pigarreou e procurou um tom de voz natural para responder:

- Eu não falo sozinho enquanto medito...

- Mas já vi você sussurrando alguma coisa...

- É um mantra. – cortou. – Já te ensinei alguns até... E não é que eu seja o Buda, eu apenas atingi o mesmo estágio espiritual que ele e posso me comunicar com divindades.

- Esse estágio espiritual que fala é a iluminação?

- Sim.

- E como seria?

- Não adianta explicar agora. Você não entenderá o conceito. Ainda é muito verde para isso... – Jim podia jurar que ele a olhava de cima a baixo sem mover a cabeça. Analisou-a por completo. Então se levantou impassível e disse: - O treinamento acabou para mim, mas o seu continua. Vou descansar. Quanto a você nada de vadiar na casa de Áries ou subir até o templo de Atena...

- Mas você não terminou de explicar... E que história é essa de 'não entenderá o conceito'? Como vou entender se você não explica?

Foi inútil chamá-lo. A última coisa que Jim ouviu foi o som da porta da alcova de Shaka batendo.

Terminou achando graça naquela lembrança, embora não tivesse achado a mínima graça na hora. Mas a raiva logo passou quando se pegou imaginando o loiro que estava meditando tão perto. Naquela época era perto demais e longe demais ao mesmo tempo. Quem poderia imaginar que ela acabaria na cama daquele arrogante.

Um sorriso sonhador enfeitou seu rosto. Ela jogou o sári dado por Shaka no tanque para lavá-lo junto com suas outras roupas a noite, quando retornasse do treino. Antes que a saudade perturbasse mais, foi para cozinha.

Achou que a tristeza fosse embora quando começasse a treinar, mas em vez disso ela ficou. Firme e forte. Sentou ao lado de Lucy para amarrar novas faixas nos punhos, observando Kanon conversando com sua mestra Shina.

- A avaliação vai ser hoje, não é? – pergunta Lucy.

- Daqui a algumas horas...

- Pensamento positivo, amiga. Vai dar tudo certo! – o tom de voz de Lucy era bastante encorajador. – A propósito, o que o grande mestre Shion disse?

- Disse que eu estava muito estressada e isso afetou o meu estômago. Também disse que era normal eu me sentir enjoada por conta dos meus poderes telecinéticos. Ele mencionou algo sobre afetar meu labirinto e o fluxo de sangue no organismo...

- Hummm... – murmurou Lucy abrindo uma garrafa de água. – Você contou a ele sobre a suspeita de gravidez?

- Não... Pelo jeito dele, acho que diria que era gravidez psicológica. – Jim tentou rir da própria piada. – Se eu contasse alguma coisa sobre isso teria que falar quem era o possível pai...

Estabeleceu-se o silêncio entre as duas. O assunto Shaka tornou-se algo incomodo para Jim. Durante dias, Lucy evitou tocar no assunto para não piorar a ferida que via bem aberta. No entanto, naquele início de amanhã de treinos, via algo receptivo no rosto da amiga para aquele assunto. Por isso resolveu tentar.

- Você por acaso falou com o Shaka ontem, quando subiu para falar com Shion?

- Não, eu nem se quer cruzei com ele. Mas vi a noiva na casa de Virgem...

Em seguida deixou escapar um suspiro triste que tocou Lucy.

- Oh, amiga... Não deve ter sido nada fácil para você...

Jim se levantou bruscamente. Seu olhar se esvaziou por alguns segundos.

- Não, não foi... Na verdade não está sendo. Depois da briga que tivemos no alojamento o Shaka ficou tão... Distante.

- Distante? – fez Lucy juntando os joelhos observando o rosto da amiga com atenção.

- É... Antes eu o sentia perto de mim. Às vezes aqui nesta arena, se eu me concentrasse muito conseguia sentir o cosmo dele me rondando. Como nos primeiros meses de treinamento. Ele ficava lá na casa de Virgem meditando e zelando por mim ao mesmo tempo... Ele sempre dizia que estaria comigo sempre, que sempre me protegeria. Mas agora... – vira o rosto na direção das 12 casas, vendo sua antiga morada de longe. Sua voz sai lamentosa. – Eu não sinto mais Lucy. Sua presença sumiu totalmente. Acho que ele não quer mais saber de mim...

- Bem... – Lucy se ergue e abraça os ombros da amiga lateralmente. – Ele deve ter ficado chateado depois daquela briga horrorosa que vocês tiveram. Você disse que ia matar o filho dele, Ji! Que homem ia escutar uma coisa destas e ficar bem?

- Eu não disse...

- Disse sim! Você disse com todas as letras...

- Mas no fundo não foi isso que eu quis dizer... – se solta do abraço fraternal de Lucy. Volta a sentar pegando as faixas que colocaria nos punhos. Evita olhar para o rosto de Lucy durante o processo. – Eu disse que não queria engravidar, por que ele é comprometido. Estava completamente pirada naquela época...

- Estava mesmo... – disse Lucy com olhar perdido de quem relembra fatos estranhos. – E agora você se arrependeu do que disse?

- Muito. E... – começa a dar voltas com faixa na mão para se distrair.

- E deixa eu adivinhar... – diz Lucy observando o movimento das mãos de Jim. Ela lembrava um robô. Estava estampado em sua face que se fazia de forte. – Você está com saudade do Shaka, acertei?

Jim para de enrolar a faixa. A franja cobria quase todo o lado esquerdo do rosto. Quando ergue os olhos para Lucy, eles estavam cheios de lágrimas brilhantes.

- Eu estou! – explodi - Estou com muita saudade dele, sim! Estou morrendo de saudade dele, estou explodindo! Sinto falta de ouvir a voz dele, de receber suas lições, de meditar com ele, de comer com ele, de dormir com ele... Eu quero aquela vida de volta, quero o cheirinho dele de volta, o cosmo, a presença, tudo! Ah, Lu... – apertou o punho contra os olhos determinada a não chorar. – Eu não sei mais o que fazer para esquecê-lo. Hoje cedo eu achei um uniforme velho, comecei a lembrar e...

- Ta bom! – exclama Lucy segurando os braços da amiga com firmeza. Em seguida a abraça. – Eu sabia que isso ia acontecer. O que você tem que fazer agora é voltar para a casa de Virgem e falar com o Shaka...

- Voltar?! – pergunta Jim ao mesmo tempo empurrando a sueca.

- Isso mesmo! – disse Lucy sentando as mãos na cintura. – Você fez tudo errado! Você sim, queridinha, todo esse tempo só vem fazendo besteira. Uma atrás da outra! Você saiu de casa de repente e deixou o seu homem para outra de mão beijada. Em vez de falar com ele e descobrir o que estava acontecendo, você briga com ele. Por acaso parou em algum momento para ouvir o Shaka? Heim? – Jim olhava confusa e assustada para as mãos de Lucy se movendo afetadamente. Ela falava como se estivesse no programa da Oprah Winfrey e fosse a própria Oprah Winfrey.– Não, você virou as costas! Bancou esse tempo todo a menina mimada em vez de... – ela se detém puxando o ar com força. - Vou lhe dizer o que você tem que fazer: você vai voltar para a casa de Virgem, vai colocar aquela indiana para fora a pontapés, conversar com o Shaka, ouvir tudo o que ele tem para dizer, fazer as pazes e retomar a sua vida. Vai voltar para sua casa, para o seu mestre e a morar perto de mim... Por que eu preciso de você morando perto de mim e não naquele alojamento longínquo!

Um minuto inteiro foi usado para Jim processar tudo o que ouviu de sua conselheira amiga. A interna de Afrodite estava irreconhecível, ou melhor, ainda era a patricinha Lucy fanática por moda e passeios no shopping, mas uma versão totalmente segura de si, determinada e astuta. Dava até certo temor imaginar que por baixo de tanta delicadeza e batom com glitter houvesse uma mulher tão forte.

- Era isso o que você faria, Lu? – pergunta Jim ainda assombrada.

- Exatamente isso. A diferença é que eu arrancaria o coração da biscate que se aproximasse do meu Afrodite... Ou do meu Mask. Arrancaria com essas mãozinhas...

Jim teve um calafrio imaginando a cena

- Eu agradeço o apoio, mas... Você acha que isso daria certo depois de tudo o que aconteceu? Que o Shaka vai me receber de volta e expulsar a noiva? Eu não sei... – as duas sentaram ao mesmo tempo no acento de pedra. – Ele não me procurou mais e somado ao fato de eu não sentir mais o cosmo dele por perto, pode ser um sinal. Um sinal de que ele não quer mais saber de mim. Morar no alojamento é um sacu, mas eu não posso negar que me sinto um pouco mais livre lá. Se não fosse a dieta rígida vegetariana do Shaka eu não teria tido aqueles problemas estomacais na semana passada e não teria tido aquela maldita suspeita que bagunçou totalmente a minha vida. Morar com o Shaka não era um paraíso. Ele é um cara muito intransigente, muito arrogante. Ele me cercava de barreiras e de regras. Tinha ciúme até do Milo, que é apenas meu amigo...

- De qualquer forma, eu acho que vocês devem conversar sim...

- Eu sei... – fecha o punho com força para ajustar as faixas que tinha colocado. – Estava pensando em falar com ele depois da avaliação, o que você acha?

- Acho boa coisa. Você não combina com aquelas horrorosas do alojamento. Seu lugar não é la, Ji, e sim perto de mim... – agarra-se ao braço da amiga amorosamente.

- Já estou entendendo... – um sorriso maroto brota nos lábios da morena. – Você só me quer por perto para te salvar das enrascadas que se mete com o Máscara. E por falar nele, vocês ainda andam se encontrando as escondidas?

- Não. O Mask me ignora desde a briga com o mestre Afrodite. To começando a ficar preocupada... – diz Lucy mordendo a pontinha do dedo. – Mestre Afrodite também me preocupa, na verdade me intriga...

- O que está acontecendo?

- Ele está meio estranho. Eu achei que depois daquela noite, onde quase transamos as coisas iam esquentar. Em vez disso esfriaram... Nós ficamos mais íntimos, sim. Dormimos juntos, nos agarramos sempre, mas não passa disso. – seus olhos confusos encontram os espertos de Jim. Ela já tinha uma opinião sobre tudo isso. – Ele parece que não quer avançar, sabe? E ao mesmo tempo se mostra muito interessado...

- Eu já vi esse filme, amiga. – interrompe seriamente – Acontecia a mesma coisa comigo e com o Shaka. O fato é que mestres se envolverem com discípulas vai de encontro às regras do Santuário. O Afrodite, assim como o Shaka, sabe disso, e pode estar se sentindo culpado. Mas...

- Mas...

- Pelo que você me falou sobre aquela noite, onde o Afrodite preparou todo um cenário para vocês com direito a jantar a luz de velas...

- E continua fazendo isso...

- Eu acho que o Afrodite não se sente culpado coisa nenhuma. Ele não é do tipo que liga para o que os outros pensam. – Lucy concorda. – Acho que ele não fica com você logo por outro motivo: ele quer brincar com você...

- Brincar?! – indaga Lucy totalmente indignada.

- Isso. Ele quer te seduzir para te afastar do Máscara, essa é minha opinião...

E achou por bem terminar de falar logo sabendo que qualquer crítica que se fizesse ao deus Afrodite de Peixes deixava Lucy uma fera.

- Impossível. Meu perfeito mestre Afrodite nunca faria isso... – disse Lucy seriamente com uma expressão carrancuda na face.

Shina grita chamando os internos. As duas levantam e caminham de volta a arena.

- Eu se fosse você ficava de olho no Afrodite. Lu, não falo por mal, apenas não gostaria que você terminasse como eu... Relacionamentos entre mestres e discípulas parecem que nunca acabam bem...

Lucy disse que concordava com a amiga, porém internamente repetia que Afrodite não era capaz de iludi-la nunca. Ele não. Lucy Renard simplesmente não conseguia desconfiar de seu mestre de Peixes.

Casa de Virgem...

A meditação de Shaka é interrompida por um cosmo amigo pedindo permissão para passar pela sua casa. Ele concede de pronto e volta a mergulhar no silêncio. Segundos depois sente o mesmo cosmo chamar por ele com uma sombra mínima de agressividade. O dono queria ser atendido e rápido.

- Não finja que não está me ouvindo, Shaka de Virgem. – disse o visitante parado em frente à flor de lótus onde Shaka meditava e protegia sua casa ao mesmo tempo. – Responda logo. Eu sei que pode me ouvir...

- Afrodite... – Shaka levanta minimamente sua cabeça. – Diga o que quer...

- Quero conversar com você. Desce já daí e me serve um chá de hortelã. – uma sobrancelha loira de Shaka se move depois da ordem. Afrodite cai na risada. – Anda Buda, mostre sua hospitalidade para com um vizinho de 12 casas...

Sem fazer questão de mostrar seu descontentamento com aquela interrupção, Shaka vai para a cozinha preparar o chá. Afrodite se senta no sofá e espera pacientemente o retorno do guardião de Virgem.

- Onde está sua linda noivinha? – pergunta Afrodite recebendo a xícara das mãos de Shaka.

- No templo de Atena...

Afrodite espera Shaka sentar na poltrona a sua frente para falar.

- Eu me lembro bem de como você ficava quando a Jim saia desta casa. Parece que não sente o mesmo instinto protetor com relação a sua noiva... – havia boas doses de ironia na voz do sueco.

- Gostaria que fosse direto ao ponto, Afrodite. – disse Shaka incisivamente.

- Ok. Farei sua vontade... – dá um gole rápido do chá. Começa e falar usando um tom de voz tão claro quanto sério. – Eu sei sobre você e a Jim. Sei que vocês eram amantes e que ela quase ficou grávida.

Shaka recua o tronco para traz. Por pouco não abriu os olhos devido ao susto.

- Lucy?

- Não importa como eu sei, o fato é que você cometeu muitos erros ultimamente... – disse Afrodite severamente. - Todos dizem que o Santuário ficou mais liberal com Atena por aqui, mas a realidade é bem diferente. Ainda obedecemos as mesmas velhas e ultrapassadas regras. Shion não mudou quase nada desde que ressuscitou... Atena colocou essas garotas e garotos do mundo exterior aqui para dar uma chacoalhada nos habitantes pré-históricos deste Santuário, mas as verdadeiras mudanças profundas e necessárias ainda vão demorar a acontecer...

- Você está querendo dizer que...

- Que você quase colocou o futuro da Jim a perder. – interrompe Afrodite fechando os olhos. – Se o romance de vocês viesse a público, não era só o respeito de Shion que ela perderia, mas de todos os seus colegas de treino. Como colocaria na cabeça daqueles jovens que a Jim nunca foi favorecida por dormir com você?

Shaka suspirou pesadamente ao ouvir aquelas palavras tão duras, porém totalmente verdadeiras. Aquela conseqüência era a que mais temia. Tanto ele como Jim.

- Sabe, Shaka, eu concordo com o Aioros... – disse Afrodite. Ele pega a xícara analisa a porcelana simples e fina. – A Jim é instável, é praticamente uma bomba relógio sem ponteiros com pernas. Além disso, é muito indisciplinada. Eu acho que o que a Jim mais precisa no presente momento é de um mestre. Não alguém que passe a mão na cabeça dela, ou que a ame, e sim de alguém que ensine o que ela tem que aprender, porque potencial para ser uma guerreira de primeira linha ela tem, isso é indiscutível. – inclina-se apoiando os cotovelos nas pernas. Olha diretamente para os olhos fechados de Shaka que apenas ouvia tudo com uma expressão pensativa. – Eu conheço a Jim. Ser uma amazona de Atena é seu principal objetivo na vida. Transformou-se num sonho para ela. O treinamento é atualmente a única coisa que ela se importa, por isso deixou essa casa, eu presumo. No que depender dela, não medirá esforços para conseguir sua armadura, mas e você Shaka? Está pronto para ser o mestre que ela precisa?

Templo de Atena...

Na sala do mestre uma conversa entre velhos amigos se transforma numa discussão acalorada.

- Está cometendo o pior erro da sua vida! – exclama Dohko. Seu rosto ainda demonstrava total incredulidade pelo que tinha acabado de ouvir. – Ela não vai sobreviver um só dia na prisão do Cabo Sunion...

- Não tenho outra escolha, Dohko...

- Shion, você tem pelo menos consciência que está assinando a sentença de morte da mulher que ama?

A pergunta implacável faz o patriarca erguer a cabeça e encarar o amigo de longa data. Outro ele já teria colocado para fora de sua sala por questionar suas ordens.

- Aneta traiu este Santuário sagrado, traiu Atena, traiu a mim... – seu rosto se contorce não de severidade como era de seu feitio, mas de dor por repetir aquela verdade. – Meu dever é puni-la de acordo com as regras...

Dohko vira o rosto por alguns segundos por não encontrar forças para olhar o amigo de frente. Ele via toda a dor de sua alma. Ela chorava lágrimas de sangue como no dia em que o viu vestindo uma surplice determinado a matar Atena. Para todos, o grande mestre era a eterna figura de autoridade, poder e liderança, mas para Dohko era mais que um irmão. Era parte dele. E como era difícil ver um irmão morrer por dentro.

Ainda sem olhá-lo, Dohko pergunta:

- Só me diga como vai conviver com isso, Shion?

Faz-se o silêncio. Shion volta a baixar a cabeça fazendo a sombra do elmo dourado de grande mestre esconder seus olhos.

- Eu não sei. Mas terei que descobrir um meio.

- O que Atena diz a respeito de tudo isso? – pergunta Dohko.

O tom de voz empregado demonstrava apenas compaixão.

- Que a decisão é minha. – suspira Shion. – Ela disse que o destino de Aneta está em minhas mãos. E eu... Eu não poderia olhar para o rosto da minha deusa se a perdoasse.

- Eu já imaginava que diria isso, por isso vim aqui te fazer uma proposta. Deixe-me levá-la do Santuário. Eu a deixaria em lugar seguro, na minha antiga residência em Rosan, na propriedade onde vivem Shiryu e Shunrei. Assim ela receberia uma das punições cabíveis para um caso como esse, o banimento.

A proposta faz as linhas de expressão da testa de Shion sumirem. A gratidão transborda do rosto do lemuriano. Sua voz sai embargada.

- Faria isso por mim?

- Eu faria qualquer coisa por você, Shion. Também acho que ela merece uma segunda chance. Aneta é uma boa mulher, ela não merece morrer.

- Vou pensar em sua proposta, velho amigo. – disse Shion retirando o elmo de grande mestre. Consegue abrir um sorriso pequeno. - Desde já agradeço.

A porta da monumental sala do mestre se abre. A nova serva pessoal de Shion entra apressada. A saia da túnica espalha-se completamente com as passadas cuidadosas. Ela ainda não havia se acostumado a andar com uma saia tão longa, nem com a grandiosidade daquela sala. Alexia sempre se sentia pequenina demais quando entrava ali, principalmente quando se deparava com a figura imponente de Shion sentado naquele trono de ouro.

Todos diziam que ele por ser o grande mestre do Santuário a mais de dois séculos possuía um cosmo quase divino. Ela nunca fora capaz de sentir aquele cosmo, mas teve plena certeza da existência dele quando viu pela primeira vez Shion sentado naquele trono daquela sala.

- Senhor... – ela diz se ajoelhando respeitosamente.

- Pode falar, Alexia.

- Trago um recado do cavaleiro de Sagitário, Aioros... – Shion e Dohko a observam atentamente. – Ele disse que a reunião onde fará a avaliação da interna de Shaka acontecerá em duas horas, e solicita permissão para usar a sala de reuniões oficiais deste templo.

- Então a avaliação será sob a forma de uma reunião... – diz Shion pensativamente.

- Sim, senhor.

- Entendi... – Shion relanceia o olhar para Dohko depois para Alexia, pedindo que ela se levante com um gesto sereno de mão. Havia certa astúcia naquele olhar que Dohko não fora capaz de compreender de onde vinha. – Diga a Aioros que concedo permissão para usar a sala. Dohko e eu estaremos lá também...

- Sim, senhor...

- Eu?! – sobressalta-se Dohko. – Mas eu tinha um compromisso na vila...

- Desmarque. Quero você na reunião comigo e já está decidido.

Shion e Alexia ouvem o exagerado bufar de descontentamento de Dohko.

- Diga-me, Alexia, como você agüenta esse chato 8 horas por dia?

- Dohko! – repreende Shion.

A serva prende os lábios para não rir. Já Dohko solta uma gargalhada desmedida. Passa o braço por cima dos ombros de Alexia a deixando confusa e corada.

- Não ligue para ele, minha cara. – ele diz ainda sorrindo. – As servas fizeram bolinhos de arroz hoje?

- Acho que sim. – responde Alexia cautelosamente. – Mas posso providenciar, caso não tenham feito.

- Oh, eu ficaria muito agradecido. Você é uma verdadeira santa! – e dá um beijo estalado na testa da serva que fica ainda mais corada. Do outro lado, Shion começava a ficar vermelho de ódio diante da folga do cavaleiro que chamava de melhor amigo. – E não me olhe com essa cara, Shion! Precisarei de forças para passar o resto do dia trancado aqui neste templo.

Dohko pisca para Shion matreiramente que deixa cair os ombros, como quem diz: "Eu desisto."

Arena...

O salto alto amarelo de Shina furava o chão de terra a cada passo que dava. Ela caminha até os internos que descansavam durante o intervalo e chama aquela que seria avaliada naquela tarde. A interna de Shaka se levanta prontamente ao ouvir o chamado batendo a poeira que ficou nas pernas com as mãos.

Antes de ela dar o segundo passo em direção a mestra, Shina diz: - Você também Lucy. Venham comigo...

A interna de Afrodite segue Jim com uma cara confusa.

- É agora? – pergunta Jim fitando o rosto sério de Shina.

- Sim. – responde a mestra.

- Por que eu também fui chamada, mestra? – pergunta Lucy atrás de Jim.

- Ainda não sei. – vira-se e começa a caminhar para a saída da arena. – Pegaremos Helena quando passarmos pela Casa de Touro...

As duas amigas se olham ligeiramente assustadas, em seguida seguem a mestra. À frente os belos olhos verdes de Shina se estreitaram imaginando como seria aquela avaliação. Não era bom sinal Lucy e Helena também serem chamadas.

As internas só puderam ver a sala de reunião de longe durante um poucos minutos que a porta ficou aberta. Elas só receberiam permissão para entrar depois que os cavaleiros fossem ouvidos. Sentaram nos bancos acolchoados do corredor de acesso e puseram-se a esperar. 10 minutos depois, Jim se encontrava andando de um lado a outro, mais do que nervosa.

A sala de reuniões oficiais do templo de Atena fora preparada especialmente para aquele evento. A pedido de Aioros, os servos puseram uma mesa no meio da sala para os avaliadores e uma cadeira em frente à mesma que seria ocupada por aquele que estivesse prestando o seu depoimento no momento. Um pouco afastado, várias cadeiras foram postas em fileira para que os participantes assistissem tudo o que era dito.

Era uma espécie de julgamento, só que em vez de Shion ser o juiz como era o costume, Aioros estava em seu lugar. Kanon era seu auxiliar. Eles ouviriam os cavaleiros que treinaram Jim em algum momento, depois as amigas, e por fim os mestres, Shina, Mu e Shaka. A avaliada ficaria por último. No final eles dariam a "sentença", ou seja, decidiriam o futuro da interna, se ela continuaria como aprendiz ou não.

Estavam presentes na sala de reuniões: Aioros, presidindo a mesa de avaliação, Kanon, também ocupando a mesa. Shion sentava-se na primeira fila, ao lado de Dohko, Shina, Mu e Shaka. Milo, Camus, Saga e Shura, ocupavam as cadeiras logo atrás.

Na hora marcada, Aioros se levanta e dá inicio aos trabalhos:

- Agradeço a presença de todos nessa reunião solicitada por mim com o intuito de avaliar a interna de Shaka. Antes de qualquer coisa quero expor os motivos que levaram e fazer essa avaliação. – ele respira fundo. – Na verdade não sou eu. Atena me pediu que desse uma opinião sobre as habilidades da jovem que todos diziam ser um prodígio, a bem treinada interna de Shaka. Nossa deusa temia principalmente pela segurança de Jim, pois havia detectado... Como devo dizer... – fecha os olhos e faz uma pausa. – Uma doze excessiva de impulsividade na personalidade dela. Então depois de presenciar alguns fatos, eu resolvi ir fundo na questão e promover essa avaliação. Para isso, eu optei por ouvir cada pessoa envolvida direta ou indiretamente em seu treinamento. Meu objetivo principal é conhecê-la, saber tudo o que ela fez durante esses meses de treinamento e ouvir também a opinião de todos vocês. Não é meu objetivo simplesmente apontar erros, ou dizer o que ela fez de errado. Esta avaliação tem um objetivo bem maior. Minha motivação é a mesma da de Atena: zelar pela segurança de seus futuros guerreiros e amazonas. Sabemos que vestir uma armadura sagrada vai além do poder. É uma coisa muito mais profunda que poucas pessoas têm. Meu objetivo é descobrir se Jim está psicologicamente preparada para tudo o que virá e se é capaz de vestir uma armadura. Eu sei que muitos aqui gostam dela, mas eu peço encarecidamente... – agora ele falava mirando Shaka. – Eu peço que pensem unicamente no futuro, no futuro desta jovem como amazona de Atena.

Ele sentou e posicionou uma folha de papel a sua frente. Disse agora usando um tom de voz descontraído:

- Passado toda essa parte chata de apresentação, vamos dar início aos depoimentos. Eu tenho uma lista e o nome que está em primeiro lugar é... Saga de Gêmeos! Queira vir até aqui, por gentileza...

Gêmeos levanta e ocupa o lugar em frente a mesa. Aioros o recebe com sorriso aberto. Kanon logo toma a palavra:

- O meu irmão Saga, eu mesmo interrogo... – diz mostrando um sorriso entre amigo e sorrateiro. – Comece falando daquele dia que Jim se juntou a turma de internos de segundo ano que estávamos treinando...

- Lembro-me perfeitamente deste dia. – diz Saga altivamente. Ele esperava coisa pior vinda de Kanon. – Shina mandou a Jim treinar conosco e ela se saiu muito bem...

- O motivo que levou a Shina a enviar sua aprendiza para nossa turma foi que a Jim tinha se atrasado muito para o treino e se fosse incluída na hora em que chegou a arena, atrapalharia o treino dos colegas que chegaram cedo. Eu estou certo, Shina? – Kanon perguntou girando um lápis preto entre os dedos.

- Sim. – responde Shina seriamente. – Nesse dia ela treinaria com o Shaka na parte da manhã, mas parece que eles tiveram um problema, então o Shaka mandou sua aluna para a arena e eu a enviei para o segundo ano, pelos motivos já explanados. O atraso da Jim naquele dia não foi por culpa dela e sim por culpa do Shaka que desmarcou o treino que daria na última hora.

Atrás da amazona, a cara de Shaka começava a ficar nada contente.

- Já começamos mal, heim Shaka? – sussurra Mu sentado ao lado do amigo.

- Eu tive um bom motivo, é só o que posso dizer no momento. – responde Shaka também sussurrando.

- Obrigado pelo esclarecimento, Shina. – disse Kanon girando o lápis perto do rosto. Ele se volta para Saga. – Fale mais sobre aquele dia, meu irmão.

- Como eu disse, a Jim se saiu muito bem. Pegou rapidamente o ritmo do treino, apesar de estar um ano atrasada. Lutou de igual para igual com aprendizes mais experientes. Ela foi ótima.

- Bem diferente do dia em que aceitamos treinar o primeiro ano no labirinto da nossa casa. Você deve se lembrar bem desse dia também... – o sorriso de Kanon era para lá de debochado. – Conte-nos como a Jim conseguiu sair do labirinto primeiro.

- Ela... – Saga limpa a garganta fuzilando o irmão. Imaginou que se ele não falasse a verdade Kanon faria. – Ela nos chantageou. Ela chegou a nossa sala de jogos, acredito eu, por acaso, e nos pegou... Jogando vídeo game enquanto manipulávamos as ilusões do labirinto. Ela disse que contaria tudo ao grande mestre se não liberássemos ela antes de todos...

Saga demonstrava estar desolado. Dirige um olhar triste para Shaka e outro para Shina. A amazona de cobra batia o pé freneticamente. Por trás dos lábios cerrados riscava os dentes um por cima dos outros, pensando: "Eu sabia, sabia que ela tinha aprontado alguma, eu sabia! Vaquinha!". É claro, não demonstrava nada em seu rosto.

Atrás dela, Shaka ralhava com Mu:

- Você ouviu isso? Ela chantageou os dois! Ela me contou uma história totalmente diferente. Bem que desconfiei...

- Isso também é novidade para mim. – disse Mu de braços cruzados.

À direita, Shion e Dohko permaneciam calados apenas ouvindo. Ao contrário do culpado Saga, Kanon estava mais do que satisfeito. Pigarreando para se recuperar daquela revelação estarrecedora, Aioros chama Shura para falar.

Ele apenas faz elogios a interna, porém condena o incidente chantagem na casa de Gêmeos. Na opinião dele, Jim seria uma boa amazona, tendo em vista que Atena tinha cavaleiros em seu exército capazes de fazer coisas piores do que uma chantagem. O terceiro a ser ouvido é Camus.

- Quais suas impressões depois de treinar a Jim por uma semana junto com o Shura, na semana em que Shina precisou se ausentar? – pergunta Aioros.

- Eu tive ótimas impressões. – começa Camus mostrando segurança. – A Jim é dedicada, segura de si, inteligente, esforçada, e muito forte. Ela me lembra um pouco o Hyoga quando era meu discípulo.

- E com relação ao controle das emoções, o que teria a acrescentar?

- Eu teria que passar mais tempo com ela para tirar uma conclusão verdadeira. Uma semana é insuficiente...

- Mas deve ter tido alguma impressão, mesmo que pequena... – insiste Aioros.

Camus levanta levemente o queixo fazendo sua coluna ficar reta.

- Eu diria que ela é instável. Mas não é nada que o tempo não cure. Com o treinamento certo, ela seria facilmente direcionada, pois, como eu disse antes, a Jim é muito inteligente e racional também, apesar de não transparecer muito essa segunda característica. Eu acredito, piamente, que ela esteja passando por uma má fase de impulsividade, mas que poderá continuar com o treinamento sem sombra de dúvidas. Com certeza o Shaka tem um plano para ajudá-la a passar por essa má fase.

- Eu concordo com você, Camus. – disse Aioros apoiando os cotovelos na mesa. – Acontece que a Jim não está mais com o Shaka. Ela saiu de casa. Diga-me, Camus, você gostaria de ter a Jim como discípula?

A pergunta prende a atenção de todos os presentes em Camus. Ele pensa um pouco antes de responder:

- Não. Ela atualmente não se encaixa no meu estilo de treinamento por ser instável.

Aioros agradece a Camus pelas palavras e em seguida chama Milo. Ele apenas faz elogios a Jim, sua grande amiga. Demora mais do que Camus, Saga e Shura juntos. Para ele, Jim é a melhor aprendiza do Santuário. Venceria qualquer disputa de armaduras facilmente. Sobre a falta de controle emocional, ele diz que o único que tem essa habilidade no Santuário chama-se Camus de Aquário, os outros não chegam se quer perto disso, incluindo ele mesmo. "Exigir que uma jovem aprendiza seja tão controlada como o "Iceberg ambulante" Camus era um pouco demais!"

Reforça dizendo que teria prazer em treinar alguém como a Jim e se orgulharia disso.

- A Jim não tem do que se envergonhar. Ela se esforça muito para melhorar todos os dias. Eu fui testemunha. Ela adora treinar tanto quando eu. Tem sobrando o que um guerreiro que luta pela justiça precisa: determinação e coragem...

E continua falando...

No lado de fora, as três aprendizes confabulavam o que poderia estar acontecendo atrás da porta do fundo do corredor. Os ânimos desestabilizados por conta da enorme espera começam a se exaltar.

- Eu ainda gostaria de saber por que fui chamada para essa avaliação? – pergunta Helena. – Não acham muito estranho? Não fizemos nada de errado para sermos avaliadas também...

- Não se preocupem. Vocês não estão sendo avaliadas. – diz Jim sentada no banco em frente a Helena e Lucy. – Estão aqui por minha causa, apenas...

- Que quer dizer com isso, Ji? – indaga Lucy.

Já tinha trançado e destrançado os cabelos rosados umas 3 vezes. Jim lhe lança um olhar sombrio.

- Eu estava pensando... Vocês duas são as pessoas mais próximas a mim. Suponha-se que me conhecem profundamente, por isso eles nos colocaram aqui juntas esperando, para mostrar que tudo o que eu disser lá dentro pode respingar em vocês... Também querem pegar possíveis cúmplices.

Lucy esbugalha os olhos de medo.

- Quer dizer então que eu posso ser expulsa do programa de internato também? – ela pergunta nervosa.

- Infelizmente sim, Lu. – responde Jim pesarosamente. – Eles nos mantiverem aqui fora todo esse tempo para testar nós três juntas, testar nosso autocontrole e nossa união. Querem nos desestabilizar por completo... Acham que por sermos tão amigas não escondemos nada uma da outra.

– É claro! Como não pensei nisso antes?! - explode Helena. - Ela se levanta e vai até Jim castigando o chão com seus passos. - Aioros não desconfiaria de você só pelo simples fato de você ter quase matado um interno na arena. Não... Isso é muito pouco para ele, afinal todo mundo sabe que o treinamento para ser um cavaleiro é terrível. Nem todos sobrevivem. Ele acha que você fez alguma coisa de errado. Algo de muito errado... Que vai além de ter um relacionamento amoroso com o próprio mestre... – agarra as mangas da blusa de Jim e a ergue da cadeira. Elas se olham perigosamente lançando faíscas uma para outra. – O que você fez de errado? Anda, fala logo! O que você está escondendo?

- Calma, Helena... – pede Lucy em um tom de voz quase desesperado. – Vocês não podem brigar aqui... Por favor meninas!

As súplicas de Lucy não surtem o menor resultado. Helena continua chacoalhando Jim, exigindo que ela fale. O silêncio só alimentava a suspeita da loira.

- Ok... – diz Jim com cara de quem tinha sido convencida a força. Seu olhar agressivo ordena que Helena a solte. É atendida. – Vou contar o que aconteceu. – Jim fecha os olhos e respira profundamente. – Eu vi o inimigo. – Lucy cai sentada no banco. Helena lança um olhar fervoroso para Jim. – Durante a missão na floresta da neblina eu estive com o inimigo. Falei com ele, lutei com ele... Os cavaleiros de ouro achavam que ele estava atrás de mim, então me usaram como isca. Minha missão era indicar o inimigo, caso ele aparecesse para mim e ele apareceu... Eu tinha que avisar ao Shaka que se comunicava comigo pelo meu cosmo, mas... Eu não fiz isso... - Lucy cobre a boca aberta com as mãos. Ela era incapaz de se mover, até mesmo de piscar. – Eu fui até ele disposta a lutar e a queimar a minha vida se fosse preciso...

Depois daquele relato cada uma podia ouvir o próprio coração batendo dentro do peito.

- Eu... – Helena comprimia os dedos dentro do punho cerrado com força. – Eu... Eu não acredito que você fez isso! – exclama. Avança e berra na cara da amiga – Você só pode ter enlouquecido!

As duas só não se chocaram naquele momento porque Lucy se jogou na frente de Jim e a agarrou pela cintura. Gritou chorando para Helena parar. Formou uma frágil barreira humana entre as enfurecidas amigas.

- Quer saber Helena! – berra Jim tomada pela fúria. – Eu não me arrependo de nada! Se tivesse outra oportunidade como aquela eu não me seguraria, eu faria a mesma coisa. Era meu dever matar aquele desgraçado...

Com um urro de fúria, Helena arranca Lucy da frente de Jim e dá um tapa sonoro no rosto da amiga que a faz cair de joelhos no chão. Novamente Helena avança contra Jim. Seu punho para a centímetros do rosto de Jim ao ser agarrado por Lucy.

A sueca ainda tentava a todo custo parar aquela guerra.

- Parem com isso, por favor! – ela suplica.

- Não cabia a você decidir! – grita Helena ensandecida de raiva. – Você era só uma aprendiza no meio de uma missão super importante. A floresta estava cercada de cavaleiros de ouro, mas você colocou tudo a perder! Você deixou o inimigo escapar e tem coragem de dizer na minha cara que não se arrepende? Esse desgraçado a quem chamam de Hanzo está há muito tempo rondando o Santuário ameaçando a segurança de todos e principalmente a segurança de Atena. Não tenha dúvidas de que se ele tiver uma chance, atacará nossa deusa. E graças a você, Jim, ele terá essa chance...

- O que você queria que eu fizesse? Ele matou minha família! – explode Jim de volta. Limpa o suor do rosto com as mãos. Procura estabilizar a respiração antes de começar. Sua voz sai com uma firmeza sombria. – Ele matou todo mundo, Helena. Eu mais do que ninguém estava ciente do perigo que esse inimigo representa. Eu senti na pele... Ele... Ele apareceu para mim sorrindo. Ele me viu no meio da floresta e sorriu. Como se minhas perdas não tivessem significado nada. No momento em que eu vi aquele sorriso maldito, do assassino dos meus pais, eu não pensei duas vezes. Eu sabia que ele me mataria, mas, sinceramente não me importei. Eu só queria arrancar aquele sorriso da cara dele.

Ela se senta em um dos bancos lentamente. O corpo pesava uma tonelada. Bem que ela queria chorar, mas não conseguia. Sentia-se vazia. Helena também se sentia vazia. Havia sido tocada pelo sofrimento de Jim, mas ainda pensava que a amiga tinha cometido um erro terrível. Não conseguia olhar para ela.

Lucy senta-se ao lado de Jim, pronta para oferecer apoio.

- Eu não vou contar nada, Ji. – disse. - Pode ficar tranqüila. E você Helena?

A loira fica de costas para as duas em silêncio. Jim balança negativamente a cabeça para Lucy. Sua expressão pedia para a sueca não insistir. A porta da sala se abre e Shina chama Helena para entrar. Ela se dirige até a porta sem olhar para as duas amigas sentadas.

- Meu destino está em suas mãos, Helena. – disse Jim.

A porta se fecha atrás de Helena. Jim encosta a cabeça no ombro de Lucy e finalmente chora. Não via mais chances.

Com a cabeça fervendo por tudo o que tinha ouvido no corredor, Helena senta-se cuidadosa na cadeira em frente à mesa onde estava Aioros e Kanon. Não consegue retribuir o belo sorriso que o cavaleiro de Sagitário lhe oferecia.

- Algum problema, Helena? – pergunta o sagitariano vendo a seriedade excessiva da aprendiza.

- Nenhum. – ela diz ensaiando um sorriso. – Estou um pouco tensa, só isso.

- Ora, não há motivos para tanto. – disse Aioros abrindo um sorriso. – Só queremos ouvir você por conta da amizade que tem com a interna de Shaka. Mas se desejar um tempo para se acalmar, podemos esperar sem problemas...

- Não senhor. Eu quero continuar...

- Está bem. – Aioros recosta-se na cadeira encarando Helena. Procurava lembrar se já a tinha visto tensa daquele jeito. – Comece contando como conheceu a Jim. Parece-me que vocês não viraram amigas de imediato...

- Sim. Nós brigamos, na verdade. – Helena massageia os joelhos querendo se tranqüilizar para ser o mais clara possível. – Antes da Jim chegar eu era tida como a aprendiz mais forte. Acho que isso subiu um pouco a minha cabeça e eu virei uma pessoa intempestiva com os mais fracos... – ela baixa os olhos, incapaz de encarar o olhar analisador de Aioros. Ela sentia bastante vergonha por essa época. – Para falar a verdade, senhores, eu se quer me lembro o motivo que me levou a brigar com a Jim. Lembro que ela tinha acabado de chegar ao Santuário e era seu primeiro dia de treino na arena.

- Entendo... – disse Aioros reflexivo. – Vocês chegaram a lutar?

- Não, mestre Aldebaram chegou antes disso. Ele me fez ver o quanto eu estava errada. Pouco tempo depois eu fiz as pazes com a Jim, mas antes nós lutamos...

- Elas lutaram no dia em que a Jim veio treinar comigo e com o Saga. – disse Kanon respondendo ao olhar interrogativo de Aioros. – A Jim venceu...

- Venceu com louvor. – acrescenta Helena. – Ela lutou com muita bravura, demonstrando grande poder. Depois dessa luta eu me dei conta realmente do quanto meu comportamento era errado e fiz tudo para me redimir depois do incidente.

- Fale agora o que aconteceu no dia do ataque do inimigo as ruínas do templo de Abel. O Milo nos contou a sua versão da História. Eu quero ouvir a sua também. – disse Aioros.

Helena encara os joelhos antes de começar a falar.

- Foi o pior dia da minha vida... – ela diz ainda de cabeça baixa. – Milo fez com que a Jim teletransportasse todo mundo para longe do local do ataque. Minha função como monitora era levar todos os aprendizes para a vila das amazonas em segurança. Quando aparecemos na arena, a Jim disse que havia sentido um cosmo terrível nas ruínas e temia pela vida de Milo. Ela disse que ia voltar para ajudá-lo. Eu fui contra. Mas ela não me ouviu. De repente sumiu da minha frente. A Lucy foi com ela e... Em fim... – Helena suspira. – Eu tinha que avisar a algum cavaleiro o quanto antes do que estava acontecendo, só que eu não pude... Eu cai no chão paralisada. Minha mente ficou um caos, nenhum pensamento se ordenava... Era como estar no inferno. Mu me disse depois que o inimigo tinha dominado a minha mente para eu não avisar a ninguém...

- Você ficou preocupada com as suas amigas no campo de batalha, Helena? – perguntou Aioros amavelmente.

- Sim... – sente os olhos lacrimejarem. Depois de lembrar aquele dia horrível e ouvir a Jim e todo o seu sofrimento, que ela não imaginava que fosse tanto, ela se arrepende de ter gritado e estapeado a amiga. No fundo a admirava por passar por tanta coisa e ainda permanecer de pé. Perguntava-se se ela teria a mesma força. – Olha, eu preciso dizer uma coisa... – limpa uma lágrima que teimava em cair. – A Jim passou por muita coisa. Ela cometeu erros, muitos... Mas acima de tudo é uma pessoa corajosa. Ela voltou naquele dia para ajudar um amigo. Claro que devia ter fugido como eu, por que afinal de contas, ela era só uma aprendiza iniciante! Mas ela é assim. Ela não pensa antes de agir, mas se tem uma coisa que ela pensa, é na segurança de todos. Ela fica louca se alguém se machuca por causa dela. Eu não sei se tudo o que eu estou falando pode prejudicá-la ou ajudá-la. O que eu sei é que ela é como uma irmã para mim, e eu só quero o bem dela. Eu gostaria muito que a Jim fosse uma amazona um dia. Para ser sincera eu gostaria de disputar uma armadura com ela. Ia fazer de tudo para vencer.

O comentário final arranca sorrisos de alguns presentes. Shion se mostrava bastante emocionado vendo aquela demonstração de amizade.

- Eu tenho certeza que seria uma luta das boas. – brinca Aioros. – Está dispensada, Helena.

Helena sai da sala e a primeira coisa que faz do lado de fora é abraçar Jim e pedir desculpas por ter batido e brigado com ela. A próxima pessoa a falar é Lucy. Ela arruma os cabelos antes de entrar na sala. Senta-se graciosamente na cadeira sem esquecer-se de cruzar as pernas. Recebe um olhar criterioso de Kanon. Ele ainda se lembrava do sonho erótico que tinha tido com o trio.

Seus pensamentos explodem quando ouve a voz de Aioros.

- Lucy...

- Renard, Lucy Renard. – ela corrige carregando no sotaque francês.

Então ela responde como conheceu Jim. Fala do primeiro encontro, como foram seus primeiros dias de treinos na arena, do que tinham em comum, etc.

- Helena comentou que você retornou as ruínas do templo de Abel no dia do ataque do inimigo junto com sua amiga... – disse Kanon.

- Sim, eu retornei... – disse Lucy cautelosamente.

- Por que você desobedeceu a ordem expressa de um cavaleiro de ouro de ficar longe do local do ataque? – pergunta Kanon botando autoridade na voz.

- Eu... – ela procura por toda a mente as palavras certas. – Eu fiquei preocupada com a Jim. Não podia deixá-la sozinha lá...

- Então se ela não tivesse retornado usando o teletransporte você também não teria retornado? – pergunta Kanon.

- Er... Não. Eu teria ficado com a Helena.

Aioros baixa a cabeça parecendo decepcionado. Shaka capta no ato o sentido real daquela pergunta de Kanon. Ele queria dizer que a Jim era uma má influencia para outros aprendizes. Seu comportamento impulsivo a levava a tomar decisões erradas, decisões estas que poderiam influenciar negativamente as pessoas a volta dela.

Ele passa a mão nos cabelos loiros. Seu semblante se fecha. Sente que precisa fazer alguma coisa. O depoimento de Lucy continua. Ela cai em outras armadilhas de Kanon. Deixa transparecer seu nervosismo diversas vezes. Os dois cavaleiros de ouro que presidiam aquela reunião, de desconfiados, passam a certos de que Jim escondia coisas e que as amigas sabiam e tentavam a todo momento protegê-la. Mas eles esperariam a entrada da "ré" para mostrar todas as cartas que tinham na manga.

Kanon principalmente.

Lucy deixa a sala aflita com a certeza de que tinha dito besteiras que pioraram a situação da melhor amiga. Após a saída de Lucy, Aioros pede uma pausa. Haviam se passado 3 horas e ainda faltavam ouvir os 3 mestres da jovem, Shina, Mu e Shaka, respectivamente.

- Não agüento mais essa demora. – reclama Jim de pé no meio do corredor. – Por que não recomeçam logo... Quem é a próxima pessoa a falar mesmo? – ela pergunta estalando os dedos.

- Shina de Cobra peçonhenta. – responde Lucy fazendo uma cara de tédio.

- Essa vai me ferrar com certeza! Não tenho a menor dúvida.

- Eu não tenho tanta certeza. – argumenta Helena deitada no banco maior com as pernas esticadas. – Ela recebeu você de braços abertos na vila das amazonas, lembra-se?

- Lembro... Mas o fato é que a Shina nunca foi com a minha cara. Desde o primeiro dia. Eu tenho quase certeza que ela desconfia que me envolvi com o Shaka... Sabe aquela pessoa que por mais que você dê uma bela desculpa continua te olhando como se soubesse toda a verdade?

- Se é assim, por que ela não abre o jogo de uma vez e te dá um castigo dos grandes? – se mete Lucy.

- Talvez esteja esperando o momento certo para me ferrar. Esteja esperando a situação da qual eu não consiga fugir incólume, como agora por exemplo. Seria a chance perfeita...

A reunião recomeça. Shina ocupa a cadeira dos depoentes elegantemente. Cruza as pernas de forma decidida. Era o tipo de mulher que exalava força pelos poros. Aioros começa com a sabatina:

- Fale sobre a sua pupila, Shina.

- Eu reforço todos os elogios feitos aqui. A Jim é determinada, corajosa, dedicada, inteligente e está muito acima da média. É uma das minhas melhores aprendizas até aqui e a melhor da sua turma.

- Eu soube que vocês têm nítidas diferenças. – disse Aioros usando um tom de voz sério e frio. – É verdade que já a castigou várias vezes?

- Sim. Não faço questão de esconder isso de ninguém. Eu já tive muitos aprendizes, garotos e garotas. Alguns eu vi se tornar cavaleiros e amazonas, outros eu vi morrer no treinamento. Com o passar dos anos, aprendi a gostar daqueles que me dão mais trabalho. A Jim é parecida comigo em alguns aspectos, na personalidade, sobretudo. Ela não é do tipo que baixa a cabeça para os homens, por isso gosto dela. Sinto prazer em treiná-la, não apenas por me ver nela, mas por saber de seu potencial. A Jim é diferente, nitidamente. Assim como eu, a Marin e a Gisty éramos.

Nem Shaka esperava que Shina de Cobra sentisse todo aquele afeto por sua discípula. Ele sempre soube que Shina era conhecida por proteger seus discípulos com garras e presas, mas aquela defesa tão inflamada para com uma pupila que só gerava dor de cabeça foi demais para ele.

- A que você acha que se deve a falta de disciplina e maturidade da sua pupila, Shina? – pergunta Aioros encarando o rosto desafiador de Shina.

- A dois cavaleiros de ouro: Shaka e Mu. – responde Shina com naturalidade. – Esses dois que se dizem mestres, não souberam botar rédeas na menina. Eles sempre a protegeram demais. Tratam essa garota a pão de ló, e isso estragou a Jim. Aliás, esse é o problema dos mestres cavaleiros de ouro deste Santuário. Aldebaram e Afrodite também não ficam atrás. Por Atena! O Afrodite trata a Lucy como se fosse uma boneca de porcelana! Todos vocês dourados quando ganham discípulAs... – fez questão de acentuar o feminino da palavra. – Ficam bobinhos como adolescentes. O resultado é esse que todos vocês estão vendo...

Ela olha desafiadora para todos os presentes, prende seu olhar em Shaka e Mu, ambos de cara fechada. O pacífico Mu tinha suas bochechas tingidas de vermelho, não de timidez, mas de raiva. Não revidavam por que não eram de bater boca. De seu lado, Shina vibrava por dentro pela chance de falar aquelas verdades. Estava entalada há muito tempo. Ela continua agora portando uma expressão sádica:

- Quanto a maturidade, Aioros... Eu diria que a Jim tem maturidade sim, na medida do possível para alguém que passou por tudo o que ela passou. Você não pode exigir muita maturidade de uma pessoa que perdeu a família da forma cruel que ela perdeu, não pode exigir muita maturidade de alguém que começou o treinamento a menos de um ano, não pode exigir muita maturidade de uma jovem adulta que veio para esse Santuário adulta, portanto não tem raízes fincadas aqui como nós que aprendemos a conviver com regras rígidas desde o nosso nascimento, praticamente. Não pode exigir tanta maturidade de alguém que acaba de descobrir seus gigantescos poderes – que a torna quase uma aberração - e dá duro dia e noite para controlá-los satisfatoriamente. Ponham-se todos no lugar dela e se perguntem: será que eu seguiria cegamente uma ordem sabendo que um amigo querido está em perigo? Para nós que não temos família só os nossos amigos essa pergunta é quase um sacrilégio. Essa jovem a quem todos julgam, foi atacada pelo inimigo duas vezes e sobreviveu. Ela teve uma pequena amostra do horror da guerra. – agora Shina olha diretamente nos olhos de Aioros. – Muitos aqui não tiveram... Você se apresentou para a guerra santa no último minuto, não foi?

- Atenha-se aos fatos envolvendo a sua pupila, Shina. – disse Aioros.

A sua voz era tão séria e cortante quando uma navalha por conta da alfinetada. Shina deixa escapar uma risada sarcástica.

- Desculpe, senhor... Eu me empolguei. – ela cruza as pernas majestosamente. – Eu concordo com a besta quadrada do Milo de Escorpião... – ouviu-se o ruído do referido cavaleiro chacoalhando na cadeira por ter sido xingado pela amazona. – Ninguém pode exigir que a Jim seja tão controlada quanto o Camus. Ela é só uma aprendiza e seus erros se equiparam aos que muitos aqui nesta sala cometeram. Portanto, quem somos nós para julgá-la?

Shina não precisou olhar para Kanon para ele entender que o comentário foi para ele. O mais satisfeito da sala era Shion que exibia um sorriso vitorioso em sua face. Em outros tempos ele repreenderia aquela amazona pela petulância para com um cavaleiro de ouro, um superior na hierarquia do Santuário. Ouro ficava acima de Prata. No entanto, ele só sentia vontade de agradecer a Shina por ter dito tudo o que ele queria dizer.

Aioros dispensou Shina. Seu semblante fechou-se completamente. Kanon também estava abalado, leia-se com vontade de mandar Shina para outra dimensão, mas se controlava com maestria de modo que nada transpareceu em sua face. Ele disse bem humorado no ouvido de Aioros:

- Essa amazona é osso duro... Agora entendo por que o Milo passa tanto sufoco na mão dessa ai.

- Também não gostaria de estar na pele dele.

Internamente Aioros agradecia por gostar de alguém dócil como Helena. O próximo a falar é Mu de Áries. Ele só faz elogios a Jim, destacando a capacidade dela de aprender as técnicas rapidamente. Jim foi capaz de entender técnicas telecinéticas complexas em menos de 1 ano, enquanto o Kiki levou em torno d anos. Esquivou-se com perfeição das perguntas capciosas de Kanon. Apenas pensou um pouco mais numa delas:

- Você confiaria a vida de Atena a ela, Mu?

- ... Sim. Eu confiaria.

O interrogatório continuou. Assuntos como a luta de Jim com Gisty de Serpente foram analisados. Enquanto Mu falava, Shaka resolve sair um pouco. Caminhar, beber água, refletir. Ele já tinha sua estratégia organizada na mente. Sabia exatamente o que dizer e o que Aioros queria com tudo aquilo: saber o que tinha acontecido na missão da floresta. Esse assunto não foi visto com profundidade em nenhum depoimento. O que o levava a crer que Aioros e Kanon queriam abordá-lo quando fosse a vez dele.

Essa questão era a que mais o preocupava. Quando voltou ao corredor de acesso a sala de reuniões, viu Jim sendo consolada pelas amigas.

- A Shina me ferrou. Ela contou todos os meus podres, eu tenho certeza... – ela dizia chorando.

- Eu duvido. – disse Helena. – Eu conheço a mestra, ela é justa...

- Concordo com a Helena. – Lucy segura o rosto de Jim em frente ao seu. – Você precisa se acalmar, depois do Mu o Shaka vai falar, então será a sua vez. Não pode entrar lá desse jeito, tão nervosa...

- E eu não tenho motivos para estar nervosa? Vendo as minhas chances diminuírem cada vez mais...

Lucy prepara um discurso de consolo e encorajamento, mas antes percebe Shaka se aproximando. Entende que o mestre queria falar com sua discípula.

- Vem Helena, vamos dar privacidade aos dois... – disse puxando a loira pelo braço.

Cautelosamente Shaka se aproxima, observando atentamente sua pupila. Jim não levanta a cabeça por não se sentir confortável na presença dele. O viu entrar na sala sério e silencioso, carregando aquela expressão indecifrável na face. Tinha medo de se deparar com ela de novo. Seu coração lateja dentro do peito. Cada batida soa como um animal trancado, maluco para sair e dar uma volta no quintal ensolarado. Aquele homem lhe despertava uma necessidade tão grande que era difícil controlar as emoções na presença dele.

Eles tinham tanto o que dizer um para o outro, mas escolhem o silêncio por não conseguir achar as palavras certas. Jim sentia vergonha, Shaka tristeza. A última briga havia deixado marcas profundas na alma do budista.

Ele para em frente a Jim, olhando para a porta da sala de reuniões não para ela. A via com os olhos do cosmo, sabia que ela não estava bem. Ouve a voz da discípula e ela soa tão frágil, vulnerável e desamparada que ele é obrigado a olhá-la. Seu coração ordenou isso.

- Mestre... – ela diz baixinho.

Em seguida faz um som de quem segura o choro.

- Sim?

- Já sabem o que vai acontecer comigo?

- Não. Ainda não...

Novamente ele ouve o som de quem segura o choro, desta vez mais sôfrego.

- Por que está demorando tanto?

- Eu sei que é difícil para você esperar... – disse Shaka se agachando para ficar na mesma altura que a jovem sentada. – Mas precisa ficar calma. – toca a testa de Jim e sua mão desce pelo rosto feminino como se tivesse criado vida própria. – Vai dar tudo certo... – ele diz.

Havia tanto amor na voz de Shaka que Jim não se conteve mais. Ela explodiu. Emitiu um soluço e se agarrou ao mestre, segurando firme em seus cabelos loiros que caiam pelos ombros. Agarrou-se a ele sentindo que sua existência dependia disso, dependia dele. Só agora se dava conta.

Shaka é tomado pela mesma emoção. Bem que tentou reprimir por estar em um lugar público, mas não teve sucesso. Que a porta se abrisse e todos os presentes na reunião o flagrassem abraçado a sua pupila. Ao diabo, malditas regras do Santuário! Maldita obrigação de ser santo, maldita alcunha de ser a reencarnação de Buda. Ele era só um homem com muita saudade, sedento pela mulher que amava. Ponto.

Não havia culpa nem nenhuma espécie de receio em seu coração. Só a certeza que devia fazer o que tinha que fazer. Era a escolha certa. Como mágica um enorme peso saiu dos ombros de Shaka. Ele afundou o rosto no ombro de Jim e aspirou longamente o cheiro que vinha de seus cabelos. Ah, era o cheiro de fruta... Que saudade dele!

Ficam abraçados por longos minutos. Em fim se separam.

- Poderia dizer isso de novo? – disse Jim secando as lágrimas com as pontas dos dedos. – Dizer o que?

- Que vai dar tudo certo. Quando você disse a pouco eu quase acreditei... – ela ri timidamente.

Shaka segura as mãos da sua interna carinhosamente. Ele ia sim, fazer com que tudo desse certo. Prepara um tom de voz sereno apesar do coração em chamas.

- Tudo vai dar certo. Vai ficar tudo bem. – acaricia o rosto de Jim com as costas da mão. – Você vai passar nessa avaliação. Eu vou fazer você passar. Confie em mim, ta bem? Você confia em mim?

- Confio.

- Ótimo... – Shaka diz com segurança depositando um beijo na testa feminina.

- Mas o que você vai fazer para conseguir isso? – pergunta confusa. – Como vai convencer o Aioros e o Kanon?

- Eu não posso falar agora, mas você vai saber em pouco tempo. – disse ao receber uma mensagem telepática de Mu avisando que era sua vez de falar. – Jim, não faça nada. Fique aqui e espere. Não quero que se mova desta cadeira, você entendeu?

O tom de voz excessivamente de Shaka sério assusta Jim. A cena lhe lembrou os filmes de terror, onde o mocinho dizia para o amigo: "Fique aqui escondido, enquanto eu acabo com o maldito monstro." E o mocinho sempre se ferrava, ou morria ou acabava gravemente ferido. Ou o monstro comia a ambos, quem se jogou para combatê-lo e quem ficou em "lugar seguro" para ser salvo. Alguma coisa estava errada.

Sem conseguir identificar o que estava errado em Shaka. Jim apenas concorda. Vê Shaka entrar na sala, fechando a porta atrás de si, e nesse momento algo comprime seu coração. Passa algum tempo imóvel na cadeira como o mestre mandou, conjeturando o que tudo aquilo significava. Ela sabia que estava diante da resposta, mas ainda não conseguia ver.

Jim se levanta. Passa a mãos nos cabelos retirando a franja da frente dos olhos. Anda em círculos. Sentia que precisava achar a resposta da charada e rápido se não algo muito ruim aconteceria. Ela vai até a porta, encosta o ouvido na madeira, mas não consegue ouvir nada.

Ela podia imaginar perfeitamente Shaka sentado respondendo as perguntas de Aioros. Enquanto meditava sobre isso, do lado de dentro da sala, Aioros fazia sua primeira pergunta ao virginiano. Aquela oitiva era a mais esperada da tarde, Shaka era a peça principal daquele tabuleiro de xadrez.

- Shaka, eu não vou perguntar o que você acha da sua discípula, por que já sei a resposta que daria. Não seria diferente do que já ouvimos aqui. O que eu quero saber é... O que aconteceu durante a missão na floresta da neblina?

No meio da fala de Aioros, do lado de fora Jim levanta a cabeça emergindo de suas congeturações. Seus olhos castanhos se arregalam emitindo um brilho de certeza. Havia descoberto a resposta. Estava na fala de Shaka, no que ele disse antes de entrar usando aquele tom de voz estranho, que "tudo daria certo". Shaka estava indo para o sacrifício.

Ele ia dizer que a culpa pelo fracasso daquela missão foi dele e não dela. Ela ia assumir toda a culpa para ela se safar. Diria que sentiu sim a presença do inimigo, e que a golpeou para que ela não avisasse a ninguém e ficasse segura. Zeus sabe o que ele diria! Mas com certeza ele assumiria a culpa por aquele erro fatal. Diria que foi ele quem deixou o inimigo escapar e não ela.

Afinal era por conta daquela missão que tudo aquilo começou. Aioros a treinou por uma semana e não demonstrou nenhuma desconfiança mais exacerbada. Após a missão, não só ele, mas todos passaram a desconfiar mais dela. Foi a gota d'água. Talvez aquela reunião não passasse de uma arapuca. Um meio de obrigar alguém a contar o que realmente aconteceu. Alguém tinha que cair e revelar a culpa dela, suas amigas, Shaka, ou ela mesma. Eles só precisavam de uma confissão. Uma razão fundamentada para arrancá-la do programa de internato.

Shaka entrou naquela sala querendo enfrentar as conseqüências no lugar dela. Quando se deu conta de tudo isso, Jim sentiu as pernas fraquejarem. Balançou a cabeça negativamente. Ela não podia deixar isso acontecer. Era errado, terrível e injusto. Shaka não merecia pagar por um erro que ela cometeu! Era doloroso demais até pensar nisso. Ela nunca se perdoaria se deixasse isso acontecer.

Então abriu a porta com toda a sua força. Fez aquilo que seu instinto mandou. Mais uma vez, não pensou antes de agir, apenas queria livrar seu mestre amado de qualquer culpa.

Recebeu os olhares de todos. Da entrada da sala de reuniões ela exclamou:

- A culpa foi minha. Eu fiz a caça ao inimigo na floresta fracassar.

A maioria abriu bem os olhos. Shion se segurou na cadeira exibindo sua incredulidade em sua face jovem.

- Que está fazendo aqui?! – exclama Shaka. – Pensei ter dito para você não sair daquele banco...

- Não Shaka! – diz em voz alta e decidida. Avança parando em frente a mesa onde estavam Aioros e Kanon. – Não vou deixa você... – se detém e vira-se para o avaliador: - Aioros, eu vi o inimigo naquela noite, estive com ele, falei com ele. Seu nome é Hanzo, e... E... – manteve seus olhos fixos no rosto do sagitariano. – Eu sou irmã dele.

Um silêncio ensurdecedor encobre a sala.

- Isso é absurdo! – exclama Shaka saindo de sua serenidade. – Você não sabe o que está dizendo e não devia ter entrado aqui...

- Não é absurdo, mestre... – olha escavando seu olhar. – É a mais pura verdade. Eu sou irmã dele... – ela respira fundo para manter a calma. Olha para Shion que permanecia com os olhos injetados olhando para ela. O patriarca não acreditava que no que ouvia nem no que via. Aquilo tudo ele tentou custosamente evitar e agora... Jim sente que machucou o lemuriano. – Desculpe, grande mestre... – ela diz com pesar em sua voz.

- Está tudo bem, minha querida... – disse Shion lentamente mudando sua expressão.

Não havia mais nada que ele pudesse fazer. Agora pensava em outra estratégia. Aioros se levanta da cadeira e diz muito exaltado:

- O senhor sabia disso, grande mestre Shion?

- Sabia... – ele responde serenamente.

Jim agora se coloca na frente do mestre do Santuário.

- Ele também não tem culpa de nada. Aioros, se me der permissão para falar, contarei tudo o que aconteceu naquela noite.

- Está bem... – disse Aioros fitando Shion atrás de Jim. – Sente-se.

Shaka ainda tenta evitar a desgraça, mas é "convidado" a se sentar por Shion. O mestre do Santuário sussurra em seu ouvido que já tem a solução para aquele problema.

- Como eu disse antes, eu vi o inimigo... – começa Jim.

Ela conta tudo, absolutamente tudo o que ouviu de Hanzo em frente a casa misteriosa. Cada presente ouve com a máxima atenção e surpresa. Uns mais outros menos. Apenas Shion consegue se manter impassível. Todos sabiam que ele esperava Jim terminar para falar.

- Quando se lembrou destes fatos, Jim? – pergunta Aioros assim que ela termina seu relato.

- No dia seguinte a missão. Mas era só uma suspeita. Eu não tinha certeza se tinha estado com o inimigo. O cosmo dele ficou na minha memória. Não é o tipo de cosmo que se esquece facilmente. Ele deixa uma espécie de marca, sabe? Eu demorei a decifrar essa marca. Demorei mais ainda para lembrar tudo o que realmente aconteceu...

- Você contou a alguém? – questiona Aioros.

- Sim. Quando consegui lembrar tudo o que tinha acontecido, eu contei para o... Mestre Shion.

Aioros e Kanon se olham. Eles suspeitavam que o grande mestre escondesse alguma coisa sim, mas não imaginavam que fosse aquilo. Shion se levanta e diz imponentemente:

- Sim. Ela me contou tudo. Desde o começo eu sabia que ela tinha encontrado o inimigo. Eu senti resquícios de cosmo maligno no corpo dela quando voltou da missão...

Exatamente quando todos retornaram naquela noite e se trancaram naquela mesma sala para discutir tudo o que tinha acontecido na missão, Jim estava aos cuidados das servas de Shion, desacordada. Quando acordou, Shion fez o ritual com as pedras de ametista para entrar na mente dela, detectando assim o cosmo de Hanzo no corpo de Jim.

Quando voltou para a reunião, mandou Shaka levar Jim para casa sem maiores explicações. Apenas disse que a participação da interna tinha se encerrado já que ela não lembrava nada.

O patriarca vai até Jim e a segura pelos ombros:

- Peço que vá com a sua mestra... Shina leve-a para a vila, sim?

- Mas senhor, eu...

- Sem mais. É uma ordem. – diz Shion severamente, embora seu rosto transparecesse total serenidade.

Shina praticamente arrasta Jim para fora da sala. Assim que as duas saem, Shion pede que Milo, Camus e Shura se retirem também. Quando que os três saem e a porta se fecha, Aioros se manifesta:

- Eu acho que nos deve uma explicação, grande mestre... – Shion se aproxima da cadeira onde tantos falaram dirigindo um olhar de reprovação para o móvel. – Uma coisa ficou clara para mim, no decorrer desta reunião: a Jim sempre agia com o aval de alguém. Cheguei a pensar que a pessoa que sempre a protegia fosse o Shaka, mas vejo que na verdade tratava-se do senhor... Diga-nos, grande mestre Shion, porque protege tanto essa garota?

- Simples, meu caro Aioros, ela é minha filha. – disse Shion tranquilamente.

A perplexidade migra de rosto em rosto naquela sala de reuniões.

- Filha? – pergunta Kanon deixando cair o lápis que segurava. – Disse filha?

Todas aquelas fantasias sexuais com a filha do patriarca... Ele se sentia sujo.

- Isso mesmo. – disse Shion conservando a tranquilidade. – Jim é lemuriana. Fiz um teste de DNA que comprovou a minha suspeita, ela tem o meu sangue...

Havia boas doses de felicidade e orgulho na face do patriarca. Seu sorriso transparecia isso.

- Então foi por isso que me pediu que investigasse os arquivos há meses atrás... – reflete Aioros.

- Exatamente. – disse Shion de queixo erguido. - Eu suspeitava de que ela era alguém próximo a mim, por isso decidi investigar. Nós lemurianos nos reconhecemos facilmente, mesmo um caso miscigenado como ela.

- Jim lemuriana... – disse Mu em voz baixa quase para si mesmo. – Isso explica seus poderes, a telecinese, o bloqueio mental...

- Sem dúvidas a Jim herdou todos os meus poderes... – o sorriso orgulhoso de Shion ficou maior.

- Lemuriana e irmã do nosso atual inimigo... – disse Kanon com uma expressão que insinuava muitas suspeitas. – O que vamos fazer com ela agora?

- Nada. – responde Shion.

- Grande mestre, eu acho...

- Tudo vai continuar como está, Kanon. Antes de qualquer coisa, quero deixar avisado que ninguém está autorizado a contar a verdade para a Jim. Eu mesmo me encarregarei disso quando julgar conveniente. Aquele que desobedecer minhas ordens... – lança um olhar baixo para os presentes. – Eu sugiro que se prepare para uma guerra de mil dias. Não vou tolerar mais insubordinações de cavaleiros neste Santuário. Será que estou sendo claro?

Terminou olhando diretamente para Kanon. Todos se olharam entendendo o recado. Shaka estava enterrado em seus próprios pensamentos. Mu tentava lembrar se há 25 anos seu mestre esteve no Brasil ou com alguma brasileira para gerar uma filha. No entanto resolveu não entrar nesses detalhes por julgar ser uma invasão da vida privada de seu mentor.

- O que o meu irmão quer saber, grande mestre... – aproxima-se Saga. – Como o fato dela ser irmã do inimigo influenciará nessa guerra?

- Eu ainda não tenho certeza. – responde Shion abandonando momentaneamente a sua arrogância trocando por uma expressão pensativa. – Aparentemente a Jim é só um pião na cadeia de acontecimentos. Hanzo quer usá-la em algum propósito maior.

- Quem é ele? – indaga Shaka ao lado de Mu.

- É difícil dizer... Segundo os estudos do meu mestre Hakurei compilados no catálogo, trata-se de um remanescente de um clã de guerreiros muito antigo. Eles faziam alianças com os deuses, mas para seus próprios propósitos. Eu descobri que o deus que estão servindo agora é Kairos...

- O irmão de Chronos, aquele que controla o tempo... – completa Shaka. – Então Kairos está por trás de todos esses ataques?

- Sim. – responde Shion encostando o quadril na mesa. Olha para os 6 cavaleiros de ouro que o cercavam. – Acreditávamos que ele tivesse sido destruído na guerra santa de 243 anos atrás por um companheiro nosso...

- Quem? – pergunta Kanon ao lado de Aioros e de frente para Saga.

- Gêmeos, Aspros de Gêmeos... – responde Dohko de braços cruzados. – Ele se sacrificou para mandá-lo para uma dimensão impossível até mesmo para um deus escapar, mas parece que ele encontrou um meio.

- Hakurei deixou indicado onde estaria Kairos e seus aliados? – indaga Aioros.

- Não, mas tudo indica que eles estão escondidos aqui no Santuário...

- No Santuário?! – exclamam os cavaleiros presentes ao mesmo tempo, com exceção de Dohko e Shion que já sabiam de tudo.

Shion fecha os olhos exibindo um olhar sério confirmador. Era tudo que aqueles homens não queriam ouvir.

- Precisamos definir uma estratégia o quanto antes... – disse Aioros.

- Nenhuma estratégia funcionaria contra um inimigo que não conhecemos direito e tão pouco sabemos onde esta. – enfatiza Shion. – Não podemos descuidar de nenhum lado. Cada ponto do Santuário é um possível esconderijo, ou uma passagem para ele...

- Perdoe-me, mestre... – insiste Aioros. – Mas acho que não podemos ficar parados esperando...

- É exatamente o que faremos. – interrompe Shion. Seu tom de voz era pura rigidez. – Vamos proteger o Santuário e os habitantes que aqui vivem. Se esse inimigo tiver poder suficiente para nos atacar diretamente, que venha. Se não tiver, como eu acho mais provável, vai esperar o momento propício quando estivermos fracos... De qualquer forma, não há outra opção a não ser esperar Kairos dar as caras. – ele sai do círculo e fala de frente para seus cavaleiros. – Ninguém vai tentar nada, estão entendendo? A ordem é todos os cavaleiros do Santuário permanecer de olhos bem abertos, treinando e defendendo seu posto. Ao menor sinal de perigo revidamos. Eu não quero... – fortifica o tom de voz. – Eu não quero que ninguém se precipite, ou descumpra a minha ordem. Vocês têm uma tarefa: proteger o Santuário de Atena!

- É arriscado ficar apenas esperando... – se mete Kanon o único que teve coragem de abrir a boca.

- Kanon tem razão. – disse Aioros. Sua voz começava a ficar tensa. – A qualquer momento ficaremos vulneráveis. Pelo que entendi até agora, esse deus, ou esse guerreiro, só quer uma brecha para atacar de novo...

- Você não entendeu, cavaleiro, eu dei uma ordem clara... – disse Shion começando a ficar irritado. – Ou será que se atreve a questionar as minhas ordens?

- Shion, não acha que está sendo duro demais? – Dohko tenta amenizar, mas o comentário apenas desperta a ira do grande mestre.

- Eu estou sendo duro demais? – disse o patriarca olhando dentro dos olhos de Libra. – Muito pelo contrário eu estou sendo muito condescendente! Se fosse o antigo grande mestre deste Santuário, Sage, vocês dois já teriam sido punidos por questionar as minhas ordens! – Berra. – Olha só para essa sala? Todo esse circo? – diz abrindo os braços. – Há meses eu venho dizendo para pararem de investigar a interna, eu disse abertamente que cuidaria de tudo, mas não... Todo esse tempo vocês vem duvidando do meu julgamento. Acha que estou no décimo terceiro templo tricotando? Eu estava estudando o inimigo e comandando esse santuário sozinho, enquanto vocês, a elite dourada, apenas se preocupava em perseguir uma pobre aprendiza! – nem as respirações dos cavaleiros podiam ser ouvidas. Baixando o tom de voz, Shion continua com a bronca: - Ao contrário do que pensam, eu não vou ficar parado esperando Hanzo ou Kairos baterem a minha porta, eu vou continuar estudando seus poderes, vou descobrir tudo sobre eles para estar pronto para liderar os cavaleiros quando eles vierem ceifar a vida da nossa deusa. Não tenham dúvidas de que estaremos preparados. Kairos quer uma brecha para chegar até nós, que seja! Eu também estou atrás de uma para chegar até ele... – faz uma pausa dando alguns passos em volta dos homens. – Quem está garantindo isso é Shion de Áries, aquele que comanda esse Santuário a mais de dois séculos. Eu reconstruí esse lugar duas vezes, passei por duas guerras santas, numa delas eu vi meus mestres e toda minha geração de cavaleiros morrerem um a um, alguns bem diante dos meus olhos... Portanto, pesem duas vezes antes de questionar as minhas ordens de novo. – dá as costas chamando, Mu e Shaka para o templo de Atena. Próximo a saída ele diz: - Não se esqueçam de arrumar essa bagunça.

Dohko é o primeiro a se mexer depois do discurso autoritário de Shion. Ele se joga na cadeira respirando pesadamente, sendo seguido por Aioros que parecia tonto.

- Faz tempo que eu não vejo o Shion tão bravo... – disse Dohko.

- É meu irmão, não foi por falta de aviso... – disse Saga dando um tapinha nas costas de seu gêmeo.

- Quer saber, não me arrependo. – devolve Kanon. – Pelo menos ele abriu o jogo de uma vez...


Agora eu preciso ouvir as opiniões de vocês. O que estão achando da história? Precisando me procurem por aqui: Cdzficsession, página do facebook e Luna Del Rey, meu perfil também no facebook (foto de um personagem do jogo Castlevania, Shanoa. Uma moça de longos cabelos negros e olhar misterioso... rsrsrs)

Até o próximo!