Capítulo 7 – Enfermeirazinha
Depois de se instalar nos aposentos ao lado da ala hospitalar, Mia se dedicou de corpo e alma às fichas médicas. Ela constatou que tinha muito mais a consultar do que podia prever.
Madame Pomfrey tinha sido uma mulher rígida e cuidadosa, e esses traços se refletiam em suas fichas médicas. Todas estavam organizadas em arquivos magicamente expandidos para que parecessem apenas um armário com três gavetinhas. Mas ali estavam fichas médicas de todos os alunos que Madame Pomfrey atendera, bem como todos o professores e funcionários. Só os professores de Defesa Contra as Artes das Trevas enchiam uma gaveta inteira daquelas.
Por mais que fosse tentador ficar perdida dentro daquelas fichas, Mia separou as que iria usar e observou que os novos professores tinham fichas vindas de outras instituições, para que ela pudesse continuar com o histórico médico. Ela ia ter muito trabalho.
Mas seu coração trepidou além do normal quando pegou a ficha de Severus P. Snape. Verificou a quantidade de entradas: eram muitas. Quando criança, nos anos de Hogwarts, muitos machucados e azarações. Alguns deles, pensou ela, com uma dor no peito, tinham sido infligidos por ela mesma e seus amigos. Mas algo chamou sua atenção. No sétimo ano, uma entrada extensa, de uma ferida grande, aparentemente mágica. Durante dias, Madame Pomfrey acompanhou a tal ferida, tentando dar um jeito nela. Nada indicava que tivesse conseguido.
Então, Severus tinha se formado. Anos mais tarde, ele reapareceu na escola, agora como professor. Mia segurou um palavrão ao se dar conta da quantidade de vezes que ele tinha ido parar na enfermaria, ferido demais para se mexer, inconsciente, duas vezes semimorto. A palavra Cruciatus dominava aquelas páginas.
Os anos de espião. Anos de Voldemort.
Talvez tivesse sido isso que quebrara Severus. Por isso ele era amargurado. Talvez ainda sofresse de dor – e dor podia ter vários níveis, como Mia sabia muito bem.
As horas passaram sem que Mia sentisse e já estava na hora do jantar. Foi sua primeira refeição no Grande Salão desde que ela se formara. Engraçado, nessa hora ela sentiu falta de olhos azuis muito brilhantes e um sorriso doce nos lábios de um rosto de uma grande barba prateada. Dumbledore pertencia a Hogwarts, e sua falta naquele momento era imensamente sentida.
E Severus é que o tinha matado. O homem a quem ela amava.
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A sensação de estranheza no Grande Salão aumentou na manhã seguinte quando, antes do café ser servido, Mia recebeu uma coruja de Heitor. Seus lábios se abriram num sorriso imenso diante das notícias.
"Querida mamãe,
Espero que esteja bem na sua nova função e em seu antigo colégio. Agora sei, em primeira mão, que voltar a algum lugar do passado pode ser bastante emocional. Estive em Plaka e Monastirakiessa semana e já me senti estranho ao ver nossa casa ocupada por Muggles.
Recebi uma proposta profissional que estou pensando em aceitar. O melhor de tudo é que ficaríamos bem perto. Querem me contratar para retirar maldições de um antigo mosteiro Muggle construído num campo santo usado por bruxos confundidos com druidas na região de York.
Estou pensando em passar aí daqui a algumas semanas. Seria possível nos vermos?
Muitos beijos de seu filho,
Heitor"
Mia consultou a Profª McGonagall sobre oportunidades em que Heitor poderia vir a Hogwarts, e a diretora também se entusiasmou com a chance de conhecer o jovem. No lado oposto da mesa, Severus acompanhou a movimentação de Mia, que também foi mostrar a carta de Heitor a Remus e Tonks. Aparentemente, ele preferiu não se manifestar.
Mas o brilho nos olhos negros não passou despercebido a Mia.
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Nos dias que se seguiram, os professores começaram a comparecer nos horários determinados por Mia para o check-up. Ela tinha que ser rápida, pois os alunos em breve estariam voltando à escola, e ela tinha que ter a avaliação de todo o corpo docente em dia, conforme a diretora pedira.
Tudo correu às mil maravilhas. A chegada de uma nova enfermeira, na verdade uma médica, além de ser uma pessoa jovem e desconhecida, deixou alguns dos professores inseguros, mas Mia tratava de tranqüilizar seus pacientes. Ela sentiu o nervosismo de Remus, constrangido por ser tratado por uma amiga. O clima profissional imperou, até porque Mia precisava ter certeza de que a licantropia não implicaria outras complicações de saúde. Ao saber que Severus concordara em preparar-lhe a Poção Mata-Cão, Mia chegou a se surpreender, mas não comentou nada com o lobisomem.
Então chegou a vez de Severus se apresentar para o exame.
Ele entrou na enfermaria, mas deteve-se mal atravessou a porta. Mia sorriu e indicou a cadeira em frente a sua mesa:
– Olá, Severus. Pode entrar. Sente-se aqui, e podemos logo começar o exame.
Sentando-se, ela o viu aproximar-se de modo vacilante. De repente, do meio das vestes, ele tirou umas folhas de pergaminho e colocou-as na mesa de Mia, dizendo:
– Eis um atestado de St. Mungo's garantindo que minha saúde está no mais perfeito estado. Acredito que o exame não seja mais necessário.
E virou as costas, indo embora. Mia ergueu-se rapidamente:
– Espere, Severus, espere!
O Mestre de Poções virou-se, os dentes à mostra, rosnando:
– Madame, eu só estou aqui por ordem expressa da diretora. A senhora sabe tão bem quanto eu o quanto me custa estar aqui, inclusive para minha saúde. Portanto, pode parar com a cena e me liberar.
Aquilo fez o sangue de Mia subir, e ela indagou:
– Afinal de contas, qual é o seu problema comigo? O que foi que eu te fiz?
Obviamente, era a coisa errada a se dizer.
Severus ficou tão lívido que por um segundo Mia achou que ele fosse desfalecer. Ele ficou todo tenso, a veia inchando no pescoço. Mia sentiu que ele continha um grito, ainda que a voz reverberasse por cada poro de seu corpo:
– Não ouse fingir ignorância! A senhora sabe muito bem do que estou falando!
Mia se aproximou dele, tocando-lhe o ombro:
– Severus, eu juro...
– ARGH!
Ele deu um pulo para trás assim que a mão dela fez contato com ela, o rosto crispado como se estive em dor lancinante. Desta vez, ele não conteve o grito:
– QUER ME ASSASSINAR, É ISSO? FIQUE LONGE DE MIM!
Sem esperar resposta, Severus saiu, apressado, um tanto quanto cambaleante. Literalmente, ele fugia de Mia.
Ela não podia deixar de achar que tinha alguma coisa muito errada naquilo tudo. Só o que ela não conseguia era achar um motivo para a reação de Severus.
