O medo me envolvera como um laço indestrutível, incapaz de ser liberto.
Meu único temor sempre foi perdê-lo, e agora que já o perdi, não temo mais a nada.
Nada pode me afetar.
Nada é forte o suficiente para me destruir.
Nada...
Nem mesmo a morte será capaz de me amedrontar novamente...
Capítulo VII: O Diário
Sentiu os braços fortes de seu amado apertarem seu corpo contra o dele, como uma criança que segura seu brinquedo, impedindo qualquer um de pegá-lo. Ele sabia que Sakura sempre fora sua. Sempre o pertencera.
Cinco anos sem vê-la.
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Cinco anos sem tocar naquela pele alva.
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Cinco anos sem beijá-la.
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Cinco anos sem sentir o seu perfume, capaz de inebriar seus sentidos.
O tempo longe dela, trazia o temor em seu peito de morrer e não vê-la pela última vez. Apenas vê-la. Apenas se confortar com aquele sorriso, que aparentemente estava ausente em seu rosto. Não a viu sorrir nenhuma vez desde que aparecera naquele hospital. Sabia que a culpa disso era dele, mas não era hora para começar a se culpar novamente. Ela estava ali, envolvida por seus braços. Aconchegada em seu peito oscilante. Chorando?
Sakura estava chorando?
Levantou o cenho, separando-a de seu corpo para fitá-la nos olhos. Estes, fechados fortemente, mesmo com as lágrimas molhando o seu rosto, pareciam não querer abrir. Não queriam vê-lo.
-Abra os olhos, Sakura... - pediu ele, desejando que aquilo parasse. Assistir ao choro dela era ainda mais dolorido que levar um tiro.
-Por que faz isso, Sasuke? - perguntou aos soluços, abrindo os orbes brilhantes e molhados para ele. - Por que tem prazer em me fazer sofrer?
Foi a vez dele fechar os olhos, ainda com seus braços envolta dela, impedindo-a de se soltar dele.
Não era o momento certo para ela saber a verdade. Não era a coisa certa a se fazer no momento. Porém não queria perdê-la mais uma vez. Esse era o seu medo. Sempre fora seu medo.
Ele calou-se. Não tinha o que dizer. Ela não estava pronta para a verdade. Ele mesmo não estava pronto.
Sakura se livrou dos braços dele, que haviam diminuído a força, fazendo com que a enfermeira saísse rapidamente daquele quarto. Não olhou para trás, nem mesmo para a porta depois de fechá-la.
Aquilo era demais para o seu corpo, para sua mente, para sua alma. Um martírio para o seu interior, que morria cada vez que pensava nele. Tentou esquecê-lo durante esses cinco anos e quando parecia ter esquecido, ele voltou para sua vida.
Minha vida...
Não. Ele voltou para fazê-la sofrer mais um pouco. Tudo o que ele disse cinco anos atrás não foi o suficiente para matá-la por dentro.
Ainda podia ouvir suas palavras, profanadas friamente contra ela. Seu olhar frio, egoísta do qual jurava não existir nele, estavam ali, fitando-a com desgosto, com indiferença, com maldade a cada palavra que saía de seus lábios.
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"- Você é inferior à mim..."
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NÃO!
Não posso me lembrar disso! Não quero me lembrar!!
A cerejeira seguiu para o elevador do hospital em passos rápidos, a fim de sair daquele ambiente o mais rápido possível. Precisava de sua casa, precisava de um banho. Retirar o cheiro dele que impregnou em sua pele, antes que aquelas malditas lembranças voltassem.
Estava dentro do ônibus, absorta de pensamentos, com o olhar perdido para fora da janela.
~•○•~
~ ~Flashback On~ ~
-Essa faculdade está acabando comigo, Sasuke-kun...
Eu estava ajeitando meus livros dentro de uma caixa, dos quais doaria para o hospital do centro, enquanto ele estava sentado no sofá da minha casa me observando.
Eu havia conseguido uma bolsa na Universidade de Konoha, e isso exigia muito de mim. Não me sobrara mais tempo para nada. Nem mesmo para o serviço comunitário. Mas no fim eu estava feliz. Finalmente me tornaria uma médica, o meu sonho.
-O que você tem?
Naquela noite Sasuke estava muito diferente. Mais sério que o normal, para falar a verdade. Parecia querer me dizer alguma coisa, mas não conseguia.
-Eu não quero saber da sua maldita faculdade! - ele se levantou do sofá, ficando em frente à janela. Eu não entendi nada. Ele nunca havia falado daquela maneira comigo.
-O que aconteceu, Sasuke-kun? Você est...
-Quando é que você vai acordar? - ele se virou para mim com a expressão dura, as mãos nos bolsos.
-Do que você 'tá falando?
Sasuke caminhou na minha direção, depois me segurou pelos ombros, me empurrando contra a parede. Seu corpo apertou o meu, enquanto uma de suas mãos segurou o meu queixo.
-Achou mesmo que um Uchiha se apaixonaria por alguém como você? - meu coração disparou. Ele me fitava com um olhar cínico, um sorriso torto nos lábios.
-O que... - minha visão ficou embaçada. Eu não via mentira nos olhos dele. Ele estava mesmo falando a verdade.
-Como você é tola, Haruno Sakura... - sua outra mão desceu apalpando meu corpo. - Você foi meu brinquedinho por esses dois anos e nunca se deu conta... Que eu estava apenas usando seu corpo para saciar o meu ego faminto pela luxúria...
Aquilo não estaria acontecendo! Aquilo era um pesadelo!
Eu não acreditava naquelas palavras. Pisquei meus olhos para me dar conta se era mesmo Sasuke que estava ali, me dizendo tudo aquilo, depois da noite maravilhosa que passamos juntos. Depois de dois anos juntos!
Isso não poderia ser real!
Não era real!
Não era real!
Meu rosto se contraía pelo choro, a cada toque de sua mão em mim, constatando que ele estava mesmo ali me dizendo aquilo.
-Você é inferior à mim... - sussurrou com os lábios roçando no meu ouvido. Os mesmos lábios que disseram que me amavam... Os mesmos que me beijavam... - Agora que eu a usei, você não serve mais. Está descartada...
Eu não sentia mais o chão sobre meus pés. Meu peito doía tanto que não conseguia mais agüentar.
-Encontrei alguém melhor que você... - sussurrou no meu ouvido novamente, imprensando-me contra a parede com mais força.
Porém não sentia dor.
Dor física alguma. Por dentro eu estava gritando, me contorcendo, sendo vencida pelo desespero pouco a pouco.
Ele me soltou, e minhas costas deslizaram pela parede. Não tinha força para ficar de pé, nem para olhar na direção dele. Meu corpo tremia, me faltava o ar nos pulmões. Eu não me movia um músculo. Permaneci ali, jogada ao chão, encostada na parede, sem entender o sentido da minha vida...
Ouvi a porta se fechar. Ele fora embora, me deixando ali como se eu fosse lixo.
Eu o amava.
Amava tanto que chegava a doer dentro de mim. Jurei dar minha vida à ele. Jurei pertencer apenas à ele.
Como fui tola...
Burra...
Idiota!
Agora muita coisa fazia sentido... O motivo de ter se aproximado de mim naquela maldita festa á dois anos. De ter me encontrado no hospital. De ter me salvado daqueles bandidos!
Ele queria me usar...
Ele não me amava...
Ele nunca me amou...
Tentei acordar daquele pesadelo, me apoiando na parede a fim de me levantar, mas não tinha forças, pois minha vontade era morrer.
Meu corpo se chocou com o chão, como se já estivesse mesmo morto. Nada mais me importava naquele momento. Nada mais passava pela minha mente, ao não ser aquelas palavras...
Meus olhos se fecharam e uma escuridão me envolveu os sentidos.
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-Sakura? Sakura? Acorde!!
Abri os olhos lentamente e avistei a silhueta de Tsunade-sama ao meu lado.
-O que está fazendo jogada no chão frio, garota? - ela segurou nos meus braços, me ajudando a levantar. - Você está bem? Está com uma cara horrível.
Me sentei no sofá, olhando a minha volta, me lembrando do que tinha me acontecido. A vontade de chorar me atacou novamente, mas eu teria que ser forte.
-Estou com dor de cabeça...
-Por isso estava jogada no chão daquele jeito? Ah, Sakura... Vou pegar um analgésico. - ela deixou o casaco sobre o sofá. Tinha acabado de chegar do hospital e pela pouca luz que entrava pela janela, o dia estava amanhecendo - Tome. Peguei na caixa de correio... - ela me entregou um envelope, depois seguiu para a cozinha.
Eu não estava a fim de ler cartas no momento. Eu queria me afundar, eu queria que aquela dor me abandonasse...
-O que diz aí? - perguntou Tsunade-sama da cozinha.
Só por causa dela eu abri o envelope. Passei meus olhos rapidamente pelo papel dentro dele, que dizia a minha transferência de Universidade.
Mas por que estavam me transferindo?
Aparentemente o destino queria tirar tudo de mim. Eu estava feliz na Universidade de Konoha, pois era perto de casa, perto de Tsunade-sama, perto de Sasu...
Não! Talvez isso fosse o melhor para mim... Talvez ficar o mais longe possível dele, me ajudaria.
Eu só tentaria voltar a viver.
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Tentaria dar a volta por cima.
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Tentaria ser feliz novamente...
~ Flashback Off ~
~•○•~
Todo esforço foi inútil no final das contas. A perda de Sasuke em sua vida, resultou na pausa de seus estudos. Não realizou seu sonho de se tornar uma médica, por conta do que ele fez à ela.
Por que então ela ainda o ama? Por que não consegue esquecê-lo?
Mesmo depois de toda mágoa, toda dor, todo sofrimento que ele causou para ela, esse sentimento é mais forte que todo ódio que queimou seu coração depois de perdê-lo. O amor era mais forte. Sentia-se tão idiota por ser assim. Por ter se entregue de corpo e alma para ele e agora aquilo não queria abandoná-la. Era como uma maldição, como se ela fosse obrigada a amá-lo até que sua vida chegasse ao fim.
Como aquele amor doía... Seu desejo era que aquilo chegasse ao fim.
Ainda não conseguia entender o motivo do Uchiha tê-la procurado. Se é que ele fala a verdade de ter aparecido em Dagarashi apenas para vê-la. Se estivesse ali para fazê-la sofrer mais do que já havia sofrido, ele certamente é a pior pessoa que ela poderia ter conhecido.
Os olhos perolados se encheram de brilho depois daquele telefonema. Não acreditava que havia conseguido encontrar a pessoa que deixara seu chefe preocupado durante duas semanas.
Esperava ansiosa pelo término de uma reunião muito importante no escritório do Uzumaki. Mal conseguia ficar sentada. Porém, uma dúvida percorria-lhe a mente. Naruto não se irritaria por ela ter feito isso? Por ter xeretado em seu diário, altamente pessoal?
Era um diário em que ele relatava todos os seus feitos. Desde casos importantes sem solução daquela advocacia, à fatos de sua vida pessoal. Em uma página encontrou exatamente o que procurava. Nela continha informações sobre o Uchiha, porém não leu tudo o que dizia ali. Apenas a única informação que precisava.
U.S.
País do Chá. Dagarashi. H.S.
Não fazia idéia do que H.S. queria dizer, mas tinha certeza que U.S. era Uchiha Sasuke. Pelo que se lembra da conversa entre os dois naquela noite, Sasuke estaria correndo risco de vida, então não seria má idéia procurar pelos hospitais de Dagarashi. Conseguiu o número dos telefones de cada um deles, até que encontrou o certo. Sasuke acabara de receber alta. O importante era que estava bem. Naruto ficaria aliviado. Talvez...
Quando a reunião terminou, já passavam das dez da noite. Assim que os demais advogados saíram do escritório do loiro, Hinata dirigiu-se até lá.
-Naruto-sama? - ela parou à porta e o Uzumaki, sentando atrás de sua mesa, levantou o cenho cansado na direção dela.
-O que ainda está fazendo aqui, Hinata-chan? Eu disse que já podia ir embora.
-Eu sei, Naruto-sama. Eu precisava lhe contar uma coisa... - ela adentrou o escritório meio receosa. Ainda não tinha certeza se agira certo, mas queria apenas que seu chefe se sentisse bem. - Eu descobri o que aconteceu com o seu amigo Uchiha Sasuke.
Naruto levantou-se da cadeira. Ao ouvir aquele nome, seu coração bateu mais forte como se houvesse levado um susto. Desde a visita inesperada do Uchiha, ele parecia ter certeza que este não voltaria vivo de Dagarashi.
-O que você disse, Hinata-chan?
-Go - gomene por ter me intrometido, Naruto-sama. Eu só queria que o senhor se sentisse bem.
-Mas o que você descobriu?
-Ele foi internado em um hospital à uma semana e meia e...
-O que?! - antes mesmo que sua secretária terminasse de falar, ele saiu de trás da mesa para se aproximar dela. - O que aconteceu?
-Ele foi baleado, mas não foi grave. Recebeu alta esta tarde.
-Como você descobriu tudo isso, Hinata? - Naruto estava ao mesmo tempo surpreso, feliz, ansioso, preocupado. Um misto de sensações dentro de si.
-Gomene, Naruto-sama! - a morena fechou os olhos, encolhendo-se com os braços em frente ao seu corpo. Temia ter agido errado.
-Por que está se desculpando, Hinata-chan? - ela abriu os olhos lentamente, encontrando um leve sorriso nos lábios do loiro. - Você fez bem, de qualquer forma. Não seria bom envolvê-la nesta história, porém provou mais uma vez que é uma excelente secretária... - o semblante da Hyuuga resplandeceu em felicidade. A melhor coisa que poderia acontecer à ela, era ser reconhecida por Naruto, quem sempre apreciou grande admiração e carinho. - Eu agradeço pela preocupação, Hinata-chan.
Saíram juntos da advocacia. Naruto insistiu em dar uma carona à Hyuuga, já que estava muito tarde para ela ir de ônibus.
Quando saíram do elevador para dentro do estacionamento, havia um homem parado ao lado carro do advogado. Este colocou Hinata atrás de seu corpo, assim que avistou a silhueta escondida sob a penumbra ao lado de seu carro, que aparentemente esperava por ele.
-Quem é você? - perguntou o loiro, ficando a uma certa distância do homem.
-Não há razão para ter medo, Uzumaki Naruto. - disse ele oculto nas sombras. - Só preciso de umas informações.
Naruto e Hinata olharam ao redor do estacionamento. Aquele não era o único homem com eles. Estavam todos ocultos pelas sombras do estacionamento.
Aos poucos eles foram revelando-se e Naruto fitou cada rosto afim de reconhecê-los. Porém nunca tinha visto nenhum deles. Exceto o homem que saiu de perto seu carro, aproximando-se dele lentamente. Seu rosto foi iluminado por um facho de luz, revelando sua identidade.
-Uchiha... Itachi?
Continua....
